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sábado, 1 de junho de 2013

FÁBRICA DE MITOS: CHARLTON COMICS


 
 
 
      Durante quatro décadas, sob o lema "bom e barato" e tendo conhecido o seu apogeu na chamada Idade da Prata dos Quadradinhos, a Charlton Comics apresentou ao mundo uma plêiade de personagens. Algumas das quais sobreviveram à morte de uma editora fundada na cadeia.
 
 
As histórias românticas com e para adolescentes eram uma das fortes apostas editoriais da Charlton.
 
 
     Tem contornos de lenda urbana a fundação da Charlton Comics, num episódio bastante ilustrativo do cariz controverso da indústria dos quadradinhos desde os seus primórdios.
     Os factos, insólitos porém comprovadamente reais, resumem-se assim: em 1931, John Santangelo Sr., um empreiteiro de ascendência italiana radicado há anos em Nova Iorque, lançou um bem-sucedido negócio de publicação de revistas contendo as letras de músicas populares na época .  Num tempo em que o rádio era uma novidade, a maior parte das pessoas ouvia música nas suas casas através de grafonolas, gira-discos e outros aparelhos do género. Por conseguinte, muitas colecionavam as respetivas letras para assim melhor acompanharem as suas canções favoritas. O problema é que Santangelo não pagava pelos direitos de autor das letras que vendia.
     Processado, o empresário alegou em tribunal desconhecer que havia cometido uma infração, acabando, no entanto, por ir parar à prisão. E foi lá que travou conhecimento com Ed Levy, um ex-advogado a cumprir pena por vários crimes de colarinho branco. Como a estadia de ambos no sistema penitenciário era curta, combinaram fundar em conjunto uma nova editora, mal saíssem em liberdade.
     Ambos tinham filhos chamados Charles, pelo que a neófita editora foi crismada de T.W.O. Charles Company e passou a publicar - agora dentro da lei - as letras de canções. Para esse efeito, os dois sócios fundaram uma gráfica, mudaram a sede da empresa para Derby (no estado norte-americano do Connecticut) e, em 1940, entraram no efeverscente mercado dos comics, sendo Yellowjacket (1944) a primeira série a ser lançada sob a chancela da T.W.O. Charles Company.
 
 
Capa original de Yellowjacket nº1 (1944).
     Em 1946, a editora foi renomeada de Charlton Comics. Nos cinco anos seguintes, adquiriu material diversificado a vários editores freelancers, sempre a baixos preços. Com efeito, ao longo dos anos a companhia manter-se-ia fiel ao seu perfil low cost, comprando ao desbarato os direitos de publicação a  editoras concorrentes a braços com dificuldades de tesouraria. 
      Em 1951, após a contratação de um lote de escritores e artistas que incluía futuras celebridades como Joe Gill ou Dick Giordano, a Charlton empreendeu a expansão dos títulos por si publicados, com uma forte aposta no terror gore (onde pontificava The Thing! , da autoria de Steve Ditko, cocriador do Homem-Aranha).
     Entre 1954 e 1955, a Charlton adquiriu a preço de saldo os direitos de publicação de várias personagens até então pertencentes a editoras moribundas como a Superior Comics, a Mainline Publications e, principalmente, à Fawcett Comics (a cujo universo pertencia a Família Marvel antes de migrar para a DC). Material esse que abarcava um sortido de géneros: romance, western, ficção científica, guerra e terror. Já as histórias com super-heróis representavam um pequeno nicho no universo editorial da Charlton.
      Até meados da década de 1950, Blue Beetle (entre o público lusófono conhecido como Besouro Azul) e Mr. Muscles (escrito pelo cocriador de Superman, Jerry Siegel) foram das poucas exceções a contrariar essa subrepresentação do género super-heroico.
      Através do relançamento de algumas das suas personagens mais icónicas a partir de 1956, a DC abriu caminho para a chamada Idade da Prata dos Quadradinhos, período em que a Charlton conheceria o seu apogeu. Logo em 1960, a antologia de contos de ficção científica Space Adventures apresentou ao mundo o Capitão Átomo (vide post anterior), personagem que obteve grande sucesso entre os leitores.
Besouro Azul e Questão, duas personagens de sucesso da Charlton que, anos depois, integrariam o universo DC.
 
      Com o conflito do Vietname e os movimentos que o contestavam no auge, todas as principais editoras apostaram forte nas histórias de guerra. E a Charlton não foi exceção, tendo em Fightin' a sua linha de maior sucesso. Paralelamente, a editora procurou relançar o género terror através de títulos como Ghostly Tales ou Ghost Manor. Sem nunca desinvestir nas séries românticas, muito populares sobretudo entre as adolescentes.
 
File:FightinArmy76.jpg
Muito populares à época, as histórias de guerra eram publicadas em títulos como Fightin' Army.
      Desencantado com a sua passagem pela Marvel Comics, em 1966 Steve Ditko regressou à Charlton para, em conjunto com o editor Dick Giordano, lançar no ano seguinte uma arrojada linha de super-heróis que incluía, além do Capitão Átomo e uma nova versão do Besouro Azul, o Questão, o Pacificador, Thunderbolt e Judomaster. À parte este último, os restantes seriam duas décadas depois reciclados por Alan Moore na novela gráfica Watchmen.
 
O lote de personagens da Charlton que serviram de inspiração aos Watchmen, de Alan Moore.
 
       Por esta altura, a Charlton já granjeara a reputação de ser um viveiro de novos talentos. Nomes como Jim Aparo e Dennis O'Neill tiveram na editora a sua rampa de lançamento para carreiras bem-sucedidas.
      Contudo, em finais de 1967, os títulos de super-heróis começaram a ser progressivamente cancelados, sendo substituídos por franquias de editoras como a  Hanna-Barbera (The Flintstones, The Jetsons, Top Cat) e a King Features Syndicate (Flash Gordon).
      Ao longo dos anos 1970, em plena Idade do Bronze dos Quadradinhos, foi cancelada a quase totalidade dos títulos românticos da Charlton, contrastando com uma forte aposta nas séries de terror. No entanto, o seu produto de maior sucesso  eram adaptações a preto e branco de algumas das séries televisivas mais populares na época, como Space 1999, Bionic Man ou The Six Million Dollar Man, entre outras. Nem o preço de capa de um dólar evitou ainda assim que, em 1976, quase todas essas séries fossem canceladas. Entretanto, novos talentos como John Byrne ou Roger Stern trocaram a Charlton pela Marvel e pela DC.
 
Baseado numa série de TV homónima, The Six Million Dolar Man fez furor em 1976/77.
         Com a década de 1980 acentuou-se o declínio da Charlton. Num mercado em recessão e com as vendas em queda livre, a companhia não dispunha sequer de verba para substituir as suas obsoletas impressoras. Em desespero, procurou reeditar, sob a égide da Modern Comics, alguns dos títulos de sucesso da década transata, ao mesmo tempo que lançava material inédito produzido por novos talentos. Nenhuma destas medidas evitou, todavia, que a Charlton suspendesse a sua atividade em 1984. Um ano antes, a maior parte da linha de super-heróis da editora já fora vendida à DC, que tinha agora Dick Giordano como editor-chefe. Incorporadas no universo da rival ainda antes da saga Crise nas Infinitas Terras, algumas dessas personagens -  com o Capitão Átomo e o Besouro Azul à cabeça -  ganharam novo fôlego e acabariam por servir de inspiração aos Watchmen de Alan Moore.
         A insolvência da Charlton foi oficialmente declarada em 1991 e a sua sede demolida em 1999, pondo assim um ponto final a uma odisseia de quatro décadas, mas deixando um legado duradouro.
 
     
      

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