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terça-feira, 19 de agosto de 2014

DO FUNDO DO BAÚ: «A ÚLTIMA CAÇADA DE KRAVEN»




    Numa perturbadora aventura em tons condizentes com o uniforme negro que então usava, o Homem-Aranha vê-se na pele da presa de um caçador obstinado em fazer dele o seu troféu supremo. Levado ao limite pelo seu algoz, o herói aracnídeo terá de superar-se como nunca para sobreviver a tamanha provação.

Título original da saga: Kraven's Last Hunt (também conhecida como Fearful Simmetry)
Publicada originalmente em: Web of Spider-Man nº31, The Amazing Spider-Man nº293, Peter Parker, The Spectacular Spider-Man nº131, Web of Spider-Man nº32, The Amazing Spider-Man nº294 e Peter Parker, The Spectacular Spider-Man nº132 (títulos lançados nos EUA entre outubro e novembro de 1987)
Argumento: J.M. DeMatteis
Arte: Mike Zeck
Licenciadora: Marvel Comics

Capa de The Amazing Spider-Man nº294, onde foi publicado o quinto capítulo da saga.

Edição brasileira

Título: Homem-Aranha - A Última Caçada de Kraven (subintitulada Terrível Simetria)
Data: Maio de 1991
Editora: Abril Jovem  (em dezembro de 1991 a mesma editora lançou o volume encadernado da minissérie, a qual voltaria às bancas nesse formato em 2002 e em 2013, com a chancela da Panini e da Salvat, respetivamente)
Categoria: Minissérie em três edições
Número de páginas: 36 por edição
Formato: Americano (17 x 26 cm), colorido, com lombada agrafada
Na minha coleção desde: 1991 (edição encadernada da Abril)

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A sombra do caçador.

Histórico de publicação: Em meados da década de 1980, o argumentista J.M. DeMatteis propôs um arco de histórias em que Wonder Man (conhecido entre o público lusófono como Magnum), após um duelo com o seu meio-irmão Grim Reaper (o Ceifador), seria enterrado vivo, emergindo mais tarde do seu túmulo. Tom DeFalco, à data editor-chefe da Marvel, rejeitou a ideia.
   Anos depois, numa história de Batman que explorava a hipótese de o Cruzado Encapuzado ser assassinado pelo Joker, DeMatteis recuperou o conceito de um herói a erguer-se da própria sepultura.  Na sinopse fornecida aos responsáveis da DC, DeMatteis sustentava que seria essa a cura para a insanidade mental do Palhaço do Crime. O projeto não foi, contudo, aprovado, dadas as suas semelhanças com uma outra história de Batman que estava então a ser desenvolvida: nada mais nada menos do que a aclamada novela gráfica, da autoria de Alan Moore e Brian Bolland, Batman: The Killing Joke (A Piada Mortal).
 
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J.M. DeMatteis.
  
    Não se dando por vencido, DeMatteis introduziu algumas alterações na trama original. Tendo a principal consistido na substituição do Joker pelo Professor Hugo Strange (outro ilustre integrante da vasta e pitoresca galeria de vilões do Cavaleiro das Trevas).  Nada que impressionasse, porém, os editores da DC que voltaram a não dar luz verde à ideia.
    Inabalável nas suas convicções apesar das consecutivas recusas, DeMatteis voltou a trabalhar a história e apresentou a nova versão à Marvel. Agora com o Homem-Aranha como protagonista e com um novo vilão criado propositadamente para o efeito, o projeto recebeu finalmente o aval por parte dos editores da Casa das Ideias.
    Vários elementos importantes foram sendo acrescentados ao enredo, à medida que DeMatteis trabalhava nele. Com Peter Parker e Mary Jane recém-casados, o escritor optou por colocar o enfoque emocional da sua narrativa no casal. Já a ideia de usar Kraven, o Caçador como antagonista surgiu após DeMatteis ter lido o seu prontuário em The Official Handbook of the Marvel Universe (espécie de "quem é quem" da editora).
   Tendo Mike Zeck sido o eleito para assumir a arte da história, DeMatteis considerou que seria interessante incluir uma personagem criada por ambos. E, assim, o repulsivo Rattus (Vermin, no original) ganhou um lugar de destaque na saga, cuja publicação integral estava inicialmente prevista para Peter Parker: The Spectacular Spider-Man. Todavia, o editor Jim Salicrup deliberou que a publicação deveria ser transversal a todos os títulos do Escalador de Paredes, argumentando que o impacto da morte do herói seria atenuado se, em simultâneo, houvesse outras histórias suas a serem lançadas.

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Vermin/Rattus foi criado por J.M.DeMatteis e Mike Zeck em 1982.

     Enquanto limava as derradeiras arestas da trama, DeMatteis comentou: "Não estou a olhar para além destas seis edições. Esta história não se encaixa na continuidade dos restantes títulos do Homem-Aranha. Na verdade, creio que uma minissérie ou uma edição especial seriam formatos mais apropriados para a sua publicação".
     Ainda segundo o autor, a sua intenção era explorar a personalidade do herói aracnídeo e a forma como os outros - em especial os seus inimigos - o veem. DeMatteis explica: "O que Kraven planeia fazer é matar o Homem-Aranha e tomar o seu lugar, para assim provar que consegue ser melhor do que ele. Claro que aquilo em que ele se transforma não é o Homem-Aranha, mas sim a sua perceção dele. Kraven está, pois, longe de imaginar que Peter Parker não se limita a colocar uma máscara para caçar criminosos. O Homem-Aranha não é a sombria e violenta criatura notívaga interpretada pelo seu algoz. Não importa a cor do traje que veste, não importa o que ele faz, Peter Parker será sempre um sujeito com boa índole e um caráter íntegro. Características fundamentais da sua personalidade que o diferenciam muito de Kraven".
    Com a versão final do argumento em mãos, Mike Zeck optou por desenhar as seis capas antes de ilustrar a história. De acordo com o próprio, a icónica capa de Web of Spider-Man nº32 (título onde foi publicado originalmente o quarto capítulo da saga intitulado Resurrection) foi a primeira a ser produzida. Todas as outras derivaram dela.

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Mike Zeck.
    A título de curiosidade, refira-se que, na esteira do enorme sucesso comercial de Kraven's Last Hunt, em 1994 a DC autorizou finalmente a publicação da história apresentada cerca de uma década antes por DeMatteis, na qual o Joker aparentemente executava Batman. Sob o título Going Sane, a narrativa em quatro partes  foi apresentada aos leitores da Editora das Lendas nas páginas de Batman: Legends of the Dark Knight nº65- 68.

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Há um novo Homem-Aranha na cidade.

Enredo: Houve um tempo em que o mundo admirava a sua pujança física. Uma época debruada a ouro em que a sua coragem inspirava reverência  e as suas façanhas eram lendárias. Uma época em que ele era considerado o melhor caçador do mundo. Mas isso foi antes de os ambientalistas e os ativistas dos direitos dos animais arruinarem a sua reputação. Antes de conhecer o Homem-Aranha.
    Sergei Kravinov - celebrizado nesse passado glorioso como Kraven, o Caçador -  está ciente que a morte se aproxima. Pressente a sua presença nas sombras e quase consegue perscrutar o seu semblante tétrico. Mas ele não está preparado para morrer. Não sem antes recuperar a honra e dignidade perdidas. Não sem antes saciar o seu orgulho e provar a sua superioridade.E isso só será possível derrotando o Homem-Aranha.
     Reunido as forças que ainda lhe restam, Kraven empreende, assim, a sua derradeira caçada.
    Conquanto seja ainda ágil como uma pantera e forte como um tigre, Kraven sabe que está longe do seu ápice físico de outrora. No entanto, ele acredita que nunca descansará em paz se não vergar o Homem-Aranha. Tomando poções e infusões de ervas trazidas das selvas mais profundas para amplificar os seus sentidos e a sua força, Kraven concebe um macabro plano: enterrar o seu rival com centenas de aranhas.
    Recém-regressado da sua lua de mel com Mary Jane e meditando sobre a morte à sua volta durante o funeral de um meliante, o Homem-Aranha sente necessidade de dar um passeio noturno. Absorto em divagações enquanto se balança nas suas teias, o herói é subitamente atacado, drogado e capturado por Kraven.
    Quando Kraven se acerca dele, o Homem-Aranha está prestes a perder os sentidos. Contudo, tem ainda tempo de ver a espingarda e o olhar sinistro do seu verdugo enquanto este se prepara para o executar a sangue frio. Balbuciando sobre a restauração da sua honra, Kraven aponta a arma à cabeça do Escalador de Paredes e dispara à queima-roupa, bem no meio dos olhos.

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O momento que antecede a presumível execução do Homem-Aranha.

   Transportando o corpo inerte da sua presa para o seu covil, Kraven coloca-o num ataúde repleto de aranhas  e enterra-o em local desconhecido. Não era, todavia, suficiente para o vilão chacinar o seu rival. Era imperativo demonstrar a sua superioridade sobre ele. Razão pela qual Kraven usurpa a identidade do Escalador de Paredes. Envergando uma cópia do traje do herói, Kraven começa a patrulhar a  cidade de Nova Iorque, aplicando o seu distorcido conceito de justiça.
    Ao invés do original, este falso Homem-Aranha não se inibe de liquidar alguns dos criminosos que tiveram a infelicidade de lhe cruzarem o caminho.
   Kraven, em dado momento, chega a salvar Mary Jane de um grupo de assaltantes, mas ela de imediato percebe estar na presença de um impostor.

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Epitáfio de um herói.

   Entretanto, Rattus - um híbrido de homem e rato - começa a semear o medo nas ruas de Nova Iorque por via dos seus sanguinolentos ataques a transeuntes. Dotada de força e sentidos sobre-humanos, a criatura atrai a atenção do falso Homem-Aranha que lhe move uma feroz perseguição através da rede subterrânea de esgotos. Quando finalmente encontra Rattus, Kraven espanca-o brutalmente, captura-o e leva-o para o seu esconderijo.
   Enquanto Kraven se regozija  com mais este seu triunfo, o verdadeiro Homem-Aranha desperta do coma e soergue-se da sua sepultura. Tinha, afinal, sido drogado e enterrado vivo pelo seu algoz.
   Duas semanas se haviam passado. Desesperado por rever a sua esposa, o herói aracnídeo vai ao encontro de Mary Jane. Após certificar-se de que ela está sã e salva, o Homem-Aranha parte na peugada de Kraven. E não demora a localizar o seu covil.
    Recorrendo a toda sorte de sevícias, Kraven subjugara Rattus. O vilão mantivera a criatura em cativeiro porque queria perceber se o Homem-Aranha seria capaz de fazer o mesmo. Mas o Escalador de Paredes nada tinha a provar nem qualquer desejo de infligir dor a Rattus. O monstro, porém, não hesitou em atacar o compassivo herói. Sendo, contudo, prontamente detido por Kraven, que não estava disposto a conceder a quem quer que fosse o privilégio de matar o seu rival. Confuso, Rattus aproveita o ensejo para escapar.
    Cego de raiva, o herói aracnídeo ataca Kraven sem dó nem piedade. Este, porém, nem se dá ao trabalho de revidar. Limita-se a encaixar os golpes desferidos pelo seu adversário enquanto sorri. Apesar de tudo, ele vencera. Permitira que a sua presa vivesse quando podia facilmente tê-la matado. Dessa forma provara a si mesmo a sua superioridade relativamente ao rival que o ensombrava.
  Cumprido o seu desígnio, Kraven permite que o Homem-Aranha parta no encalço de Rattus. Suicidando-se de seguida.

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Do ponto de vista de Kraven, a vitória final pertenceu-lhe.

Vale a pena ler?
   
    Esta é, obviamente, uma pergunta meramente retórica, já que A Última Caçada de Kraven é leitura obrigatória para qualquer fã de BD que se preze - e não apenas para os entusiastas do Escalador de Paredes. A par de Watchmen e de Batman, O Cavaleiro das Trevas, trata-se de uma das melhores histórias aos quadradinhos alguma vez produzidas. Ilustrando todas elas a importância e o imenso potencial criativo da nona arte.
     Aquando da sua publicação nos EUA, A Última Caçada de Kraven mereceu os mais rasgados elogios por parte da crítica e dos fãs. Mais recentemente, em 2012, foi eleita  pelos leitores de Comic Book Resources como a melhor história de sempre do Homem-Aranha. Mesmo sendo este título discutível, não há dúvidas de que estamos em presença de uma das mais magistrais e memoráveis sagas do aranhiço.
    Dirigindo-se, pela sua maturidade narrativa, a um público mais sofisticado, A Última Caçada de Kraven alia a dinâmica dos comics a elementos extraídos de clássicos da literatura. Ao longos das suas páginas, Kraven recita vários excertos do poema The Tyger, da autoria de William Blake. Isto enquanto a arte de Mike Zeck imprime um realismo fotográfico a uma trama que tem na elaborada caracterização psicológica dos seus protagonistas e na superior qualidade dos diálogos os seus principais pontos fortes.
    Embora a história seja, toda ela, uma alegoria para o perpétuo conflito entre presas e predadores, adquire susbstrato emocional ao colocar um enfoque especial no neófito casamento de Peter Parker e Mary Jane. Algumas das suas passagens mais intensas exploram, de facto, a forma como MJ lida com o desaparecimento do marido e como reagiria ela à sua hipotética morte em ação. Uma abordagem que não só acrescenta camadas emotivas à trama, como desvela o lado mais humano do herói aracnídeo cujos primeiros pensamentos, quando desperta do coma, são dirigidos à mulher que ama.

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Uma imagem que enriqueceu a iconografia da 9ª arte.
  
   Ao brilhantismo da escrita de J.M. DeMatteis, soma-se, pois, o traço soturno de Mike Zeck. Dessa sinergia nasce uma estética lúgubre onde pontifica o simbolismo imagético. Desde o primeiro relance de Kraven na primeira página da saga (envolto em fumo e numa luz escarlate a fazer lembrar o sangue), até ao momento climático em que o Homem-Aranha emerge do seu túmulo, passando pelas sequências tendo como cenário os esgotos subterrâneos (que, de tão densas, o leitor quase lhes consegue sentir o fedor), a arte de Zeck é inebriante do princípio ao fim.
   Mais do uma simples banda desenhada, A Última Caçada de Kraven é uma espécie de recriação contemporânea de mitos ancestrais. A trama, as personagens e o simbolismo são épicos - na aceção homérica do termo. Tornando o produto final capaz de satisfazer o palato do leitor mais exigente.
    DeMatteis e Zeck criaram uma fórmula de sucesso que tem sido replicada por diversos autores ao longo dos anos, dando assim origem a alguns sucedâneos que, todavia, não se comparam ao original.
     Dito isto, o meu veredito não podia ser outro: Imperdível!

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Os heróis não se abatem.

3 comentários:

  1. Fantástico. Quero ler.
    Mais um excelente post.

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  2. Não tenho nada a apontar, é uma história excelente que revisitei mais de 20 anos depois de ter comprado as edições brasileiras via a edição recente da Levior mas prefiro ler no original, não apenas pela linguagem mas também pelos balões, não têm o tratamento do original, são apenas textos.

    Apenas um reparozito, o autor/poeta em causa referenciado chama-se William Blake e não "Black", muito invocado em trabalhos modernos devido aos tons dramáticos e algo tenebrosos das suas obras, por exemplo por Thomas Harris no seu Red Dragon, "prequela" de Silence of The Lambs, inspirado nas pintura do mestre "The Great Red Dragon and The Woman Clothed With The Sun".

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    Respostas
    1. Saudações, Pedro.
      Agradeço o teu comentário e o teu reparo. Já emendei a minha gafe, pela qual peço desculpa.
      Em tempos, a editora Abril atribuía o cobiçado troféu "cata-piolho". Quando eu criar um equivalente, serás o primeiro a ser agraciado com tão ilustre galardão. :)

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