clique aqui e encontre um template com a sua cara - template for blogger»

sexta-feira, 23 de junho de 2017

FÁBRICA DE MITOS: QUALITY COMICS


  Reflexo da hiperatividade do seu fundador, foi uma das mais prolíficas editoras da Idade de Ouro dos comics. Influenciou sobremaneira o género super-heroico, acompanhando-o, porém, no seu declínio. Votada a um imerecido esquecimento, o oportunismo da concorrência ajudou a manter vivo parte do seu fascinante legado.

Uma era de maravilhas e mistérios



Imagine o estimado leitor que é um arqueólogo e que o seu maior sonho consiste em reconstruir o esqueleto de um dinossauro raro. Para executar tão complexa operação necessitaria não só de identificar os vestígios da sua passagem como de proceder à cuidadosa escavação dos fósseis. Mesmo que a sorte lhe sorrisse e os encontrasse em perfeito estado de conservação, teria sempre de certificar-se de que aquelas ossadas pertenciam, de facto, ao animal que motivou a sua demanda, e não a um espécime aparentado.
Cumpridas todas essas etapas, seria bem possível que lhe faltasse pelo menos um osso. Sabendo de antemão que este, à semelhança da peça de um qualquer quebra-cabeças, por mais pequeno que fosse, poderia fazer toda a diferença.
Diante do esqueleto incompleto daquele resquício de um mundo há muito perdido nos rincões do tempo, seriam decerto inúmeras as dúvidas a assaltar-lhe o espírito e a mente. Desde logo as circunstâncias da morte daquela exótica criatura. Ter-se-ia ficado a dever a causas naturais? Ou teria, ao invés, sido resultado do ataque de um qualquer predador?


Vem esta analogia jurássica a propósito da significativa dificuldade em documentar o Big Bang criativo a que os historiadores da Nona Arte convencionaram designar de Idade de Ouro da Banda Desenhada. Sendo esta usualmente balizada pelo lapso de tempo compreendido entre 1938 (ano do debute de um certo Homem de Aço) e 1956, e atendendo à plêiade de editoras que pontificaram durante esse período (algumas deles verdadeiros fogos-fátuos cujo fulgor se extinguiu sem deixar rastro), percebe-se a razão dessa dificuldade. Robustecida, ademais, pelo facto de muitos dos intérpretes dessa época mirífica já não se encontrarem entre nós.


À falta dos seus testemunhos em discurso direto, restam, pois, as raras entrevistas por eles concedidas em vida. Ou, em derradeira instância, as suas obras. Pressupondo, claro, que estas terão sido conservadas ou, pelo menos, devidamente catalogadas. Algo que, para grande consternação dos arqueólogos da Nona Arte como este que vos escreve, nem sempre se verificou.
Se no caso de editoras como a Marvel e a DC, cuja atividade tem sido contínua desde esses tempos áureos, a sua história vem sendo documentada internamente - e até, pontualmente, dada à estampa sob a forma de imponentes compêndios - outras houve que, mercê de circunstâncias diversas, ficaram parcial ou totalmente sepultadas sob as areias da memória, adensando dessa forma o mistério em seu redor.


Não se tratando de um enigma imperscrutável, há, contudo, ainda muito por descobrir acerca da história da Quality Comics. Tanto mais que datam apenas do início da década de 70 do século transato os primeiros estudos (conduzidos por Jim Steranko, lenda viva dos comics) sobre aquela que foi uma das precursoras da Idade do Ouro. E que, sob a pátina do imerecido oblívio a que foi votada, deixou um riquíssimo património cultural e artístico que urge revisitar, porquanto foi apenas parcialmente resgatado por duas das suas antigas concorrentes. Sim, leram bem. Ao contrário do que é voz corrente, a DC Comics não foi a única a tirar proveito do infortúnio da Quality, acabando, ironicamente, por ajudar a preservar o seu legado. Mais adiante, será revelado o nome da segunda necrófaga.


Foi, portanto, com as minhas empoeiradas vestes de Indiana Jones amador que me lancei à aventura de exumar o escuso passado da Quality Comics. A muito custo, trouxe à luz do dia um punhado de achados arqueológicos e segredos surpreendentes que, sem mais delongas, faço questão de compartilhar com quem me lê. Na esperança de assim dar a conhecer alguns aspetos menos conhecidos da história de uma editora lendária com a qual os aficionados da Nona Arte têm, mesmo sem o saberem, um enorme débito de gratidão.
Venha daí comigo nesta emocionante viagem ao passado e permita que lhe apresente alguns dos alquimistas dos quadradinhos que, em tempos plúmbeos, douraram a imaginação de toda uma geração com as suas receitas de fantasia.

Segredos de uma editora lendária

Recheada de segredos e originalidades, a história da Quality Comics confunde-se com a do seu fundador, em quem teve aliás, o seu alfa e o seu ómega. Neto de um abastado empresário do ramo imobiliário, filho de um lente de Matemática e com uma árvore genealógica com raízes na Guerra da Independência dos EUA, Everett M. Arnold viera ao mundo na primavera de 1899 em Providence, a pitoresca capital do estado norte-americano do Rhode Island.
Do avô paterno, Arnold herdou o apurado faro para o negócio; da infância, a alcunha que faria as vezes do nome próprio que desde tenra idade aprendera a detestar: Busy (irrequieto, em tradução livre). Ganhara-a por conta da sua personalidade frenética que, a fazer fé nos relatos de amigos e familiares, o impedia de manter-se parado no mesmo sítio por mais do que alguns minutos.
Valeu-lhe, pois, o desporto para extravasar parte desse superávite energético. Aquando da sua passagem pela Universidade de Brown (onde o pai lecionara e de onde ele sairia diplomado em História), Busy distinguiu-se como guarda-redes na respetiva equipa de hóquei no gelo. Extremamente competitivo, consta que terá, em certa ocasião, desafiado um atleta olímpico para uma corrida, da qual, contrariando todas as probabilidades, terá saído vencedor. Lenda alimentada ao longo dos anos por Dick Arnold, seu filho e ele próprio um  ex-maratonista.

Busy Arnold fotografado em 1941 ao lado da escritora Gwen Hanson num clube noturno.
Somente uma beldade para conseguir reter o irrequieto fundador da Quality Comics.
Chegado o momento de transpor esse seu constante desejo de superação para a pista de obstáculos que é a vida, Busy Arnold, uma vez concluídos os estudos superiores em 1921, partiu à descoberta do mundo na metrópole que o encapsula: Nova Iorque. Na Grande Maçã, tirando certamente proveito da sua proverbial loquacidade, encetou uma meritória carreira como vendedor antes de se tornar um bem-sucedido empresário da indústria gráfica, numa altura em que esta se encontrava em franca expansão.
Devendo, por conseguinte, ser encarada como uma extensão natural deste seu último mister a sua subsequentes aposta na publicação de histórias aos quadradinhos. Material que, importa observar, nada sugere que Busy, leitor voraz, apreciasse sobremaneira; tampouco lhe era conhecida especial afeição pelas artes.
O que terá, então, motivado alguém com este perfil a fundar uma editora de banda desenhada? De tão prosaica, a resposta a essa pergunta resume-se numa palavra: lucro!
Perante a crescente popularidade de que gozavam os comics a meio da década de 1930, Busy Arnold sinalizou um filão que urgia explorar antes que outros se lhe antecipassem. São, de facto, muitos os paralelismos que podem ser traçados entre o boom das histórias aos quadradinhos e a Corrida ao Ouro que, menos de um século antes, levara garimpeiros de todo o país a rumarem à Califórnia em busca da pepita dourada que lhes poderia para sempre mudar as vidas.
Viviam-se os anos de chumbo da Grande Depressão que precedeu a entrada dos EUA na II Guerra Mundial e o sempre astuto Busy Arnold, com a visão que o caracterizava, intuiu que não faltaria quem procurasse nesse tipo de publicações um escape barato e sem contraindicações conhecidas às agruras do quotidiano.
Muito provavelmente com o duplo obejtivo de medir o pulso ao mercado e de adquirir know-how, em 1935 a gráfica de Busy Arnold começou a assegurar a impressão de alguns dos títulos da Comics Magazine Company (posteriormente renomeada Centaur Publications). Confiante no êxito do empreendimento,  Busy decidiu, um par de anos volvidos, avançar com a criação da sua própria editora.
Da parceria estratégica estabelecida em 1937 entre Busy Arnold e uma tríade de estúdios independentes (McNaught Syndicate, Frank J. Markey Syndicate, e Register and Tribune Syndicate) nasceu o consórcio Comics Favorites, Inc., que teve em Features Funnies o seu título inaugural.

Feature Funnies nº1 (outubro de 1937).
Em linha com a práxis editorial da época, a neófita série republicava a cores antigas tiras de jornal, aqui e ali misturadas com histórias inéditas. Parte das quais eram fornecidas à la carte pelo Eisner & Iger, um dos mais requisitados estúdios por onde, nos primórdios da indústria dos quadradinhos, passaram alguns dos mais talentosos artistas freelancers.
Habituado a estar sempre um passo à frente da concorrência, Busy Arnold terá considerado pouco prudente prolongar por muito mais tempo essa dependência em relação a terceiros. Para dirimi-la, precisava de começar, o quanto antes, a produzir os seus próprios conteúdos. O que viria verificar-se logo em Features Funnies nº3 (edição datada de dezembro de 1937). Tornando-se, assim, a Comics Favorites a segunda editora a publicar material original, poucas semanas depois de a National Allied Publications (uma das empresas que originariam a DC Comics) o ter começado a fazer.
Ano capital na história da Quality Comics, 1939 começou por ficar marcado pela compra dos interesses da McNaught e da Markey (seu antigos sócios) por parte de Busy Arnold e dos proprietários do Register & Tribune Syndicate. Dando dessa forma a Comics Favorites lugar à Comics Magazine, Inc., doravante responsável pela publicação da linha de títulos com a nova chancela da Quality Comics. Residindo neste ponto uma das suas mais interessantes originalidades, visto que esse nunca foi, legalmente, o nome da editora. Não obstante, foi através dessa denominação informal que ela se notabilizou entre os leitores e que se imortalizou na história da Nona Arte.
Em tempos de recessão económica e de profunda crise social, Busy Arnold sabia bem que as pessoas pensariam duas ou mais vezes antes de gastarem cada centavo arduamente ganho, pelo que teria de aliciá-las com material superior àquele que a concorrência tinha para oferecer. Quality Comics seria, portanto, o selo de qualidade que acompanharia cada um dos títulos editados sob os auspícios da Comics Magazine, tendo sido Crack Comics nº5 (setembro de 1940) o primeiro volume a ostentá-lo no respetivo frontispício.



O  icónico selo da Quality Comics e
 a primeira edição a ostentá-lo sob o respetivo logótipo.
Ainda nesse louco ano de 1939 a sede da Quality Comics foi transferida para Stamford, no estado do Connecticut, para onde Busy Arnold se mudara entretanto com a família. Alguns estudiosos da Idade do Ouro sugerem, aliás, que terá sido ao epíteto dessa cidade - Quality City (Cidade de Qualidade) - que Busy terá ido beber inspiração no hora de crismar o seu novo projeto.
Foi também por essa altura que a Quality Comics redefiniu a sua política editorial, passando progressivamente a conceder maior primazia às séries estreladas por super-heróis (conceito cada vez mais em voga naqueles dias), em detrimento das histórias policiais e de terror que, até aí, eram hegemónicas no seu cardápio de publicações.




Três dos títulos mais emblemáticos da Quality Comics.
Plastic Man, Kid Eternity e Phantom Lady (conhecidos entre nós, respetivamente, como Homem-Borracha, Kid Eternidade e Lady Fantasma) foram, a par do intrépido aviador Blackhawk (Falcão Negro, que teria, inclusivamente, direito a uma série cinematográfica em 1952), algumas das novas coqueluches da Quality Comics. À qual, em 1942, coube igualmente a honra de publicar pela primeira vez em formato magazine as histórias de The Spirit. Até então, os fãs do detetive mascarado idealizado dois anos antes por Will Eisner apenas tinham podido acompanhar as suas aventuras através de tiras de jornal ou de ocasionais suplementos dominicais distribuídos com os tabloides.
Numa jogada que apenas pode ser classificada como brilhante, Busy Arnold socorreu-se de todo o seu poder persuasivo para convencer Eisner a trocar o seu prestigiado estúdio pela Quality Comics. No culminar de um meticuloso processo negocial com vista a salvaguardar os seus direitos autorais, o criador de Spirit tornar-se-ia o segundo pilar do retumbante sucesso da editora ao longo de toda a década de 1940. Se Busy Arnold era o homem de negócios, Eisner, nomeado editor-chefe, seria de ora em diante o cérebro da Quality. Tanto mais que, tal como todos os que o antecederam e lhe sucederam no cargo, foi fiel-depositário da total confiança de Busy Arnold, que sempre se manteve à margem das decisões editoriais.


Will Eisner (cima) e The Spirit:
dois reforços de peso para Quality Comics
Eisner não foi, no entanto, o único virtuoso da Nona Arte a reforçar a equipa criativa da Quality Comics. Jack Cole (criador de Plastic Man), Lou Fine ( antigo"fantasma" do próprio Eisner) e Nick Cardy (ver perfil neste blogue) fizeram também parte do escol de artistas que influenciaram o género super-heroico, contribuindo sobremaneira para a sua popularidade.
Alguns dos seus trabalhos acabariam todavia por perder-se devido à renitência de Busy Arnold em restituir a arte original aos respetivos autores, receando que eles a revendessem. Havendo mesmo quem jure ter visto Busy Arnold a rasgar alguns desenhos originais. Circunstância que em nada ajudou à preservação do magnífico património cultural da Quality Comics.
Mesmo desfalcada de algumas das suas vedetas em consequência do esforço de guerra (o próprio Eisner seria chamado a cumprir serviço militar), a Quality Comics continuou a prosperar até à viragem da década de 1950. Prosperidade materializada numa profusão de títulos e personagens que, como mais adiante se perceberá, despertavam a cobiça das editoras rivais.
Com o advento da televisão e a revitalização dos livros de bolso, os primeiros anos da década de 50 trouxeram consigo o irrefreável declínio dos super-heróis. Acentuado, em boa medida, pela vilipendiação  de que foram alvo, a partir de 1948, pelo polémico psiquiatra germânico Fredric Wertham, autor do igualmente controverso livro Sedução dos Inocentes (1954).

A revista masculina Classic Photography
foi uma das últimas iniciativas editoriais da Quality.
Ironicamente, a Quality Comics sobreviveu à ferocidade da concorrência, aos horrores de uma conflagração mundial e a uma torpe cruzada conservadora, mas não às dificuldades logísticas.
Numa altura em que as vendas da editora já caíam a pique, a American News Company, sua distribuidora de longa data, declarou falência. Sem ela, a Quality Comics não tinha como fazer chegar as suas publicações aos pontos de venda. Ainda recorreu aos serviços de outra empresa nos meses que precederam a sua extinção, mas a rede de distribuição manteve-se deficiente, causando o esmorecimento dos leitores que se lhe tinham mantido fiéis.
Desvanecido o fulgor dourado de outros tempos, e quando soavam já os tétricos acordes do seu réquiem, a editora fundada por Busy Arnold, numa última e desesperada tentativa para escapar ao seu fatídico destino, apostou as fichas que lhe restavam no ecletismo das suas publicações, chegando mesmo a lançar um pastiche da Playboy intitulado Classic Photography. Estratégia que, contudo, logrou apenas adiar o inevitável. Em 1956, ao fim de quase duas décadas de intensa atividade, a Quality Comics cerrou portas, para não mais as reabrir.
Resignado, também Busy Arnold rumou à Califórnia para gozar a sua merecida reforma, mantendo-se afastado do mundo dos negócios até ao fim dos seus dias. Escrevia-se assim o epitáfio simbólico da Idade do Ouro.

Legado em mãos alheias

Após a extinção da Quality Comics, a maior parte das suas personagens e das suas séries periódicas foram adquiridas pela DC Comics, que optou, no entanto, por dar continuidade apenas a quatro delas: Blackhawk, G.I. Combat, Robin Hood Tales e Heart Throbs (esta última com mais de 100 edições publicadas sob a égide da Editora das Lendas).
Dentre os antigos ícones da Quality Comics revividos ao longo das décadas seguintes pela DC, Plastic Man foi, indubitavelmente, o mais acarinhado pelos fãs. Muitos dos quais tiveram, como eu, a sua infância marcada pela série animada que o teve como protagonista entre 1979 e 1981.
Até à unificação do Multiverso DC ditada pelos eventos de Crise nas Infinitas Terras, as personagens oriundas da Quality Comics ficaram acomodadas em duas realidades separadas: Terra-Quality e Terra-X.
Enquanto na primeira a História seguiu um curso idêntico ao das restantes Terras, já a segunda divergia radicalmente delas. Nesse dimensão paralela, a II Guerra Mundial prolongou-se até 1973. Foi este o subterfúgio encontrado para justificar a atividade dos Freedom Fighters (Combatentes da Liberdade) vários anos transcorridos sobre o término do conflito. Situação que seria, contudo, objeto de revisão na continuidade pós-Crise.

Os Combatentes da Liberdade em ação durante Crise nas Infinitas Terras.
Além da DC, também a AC (sigla de Americomics) adquiriu e republicou muito do material original da Quality protagonizado por personagens menos conhecidas e deixando de fora os super-heróis.
Conforme ratifica a ausência de registo na Biblioteca do Congresso dos EUA, nenhuma delas renovou, no entanto, os direitos sobre essa propriedade intelectual, relegando-a dessa forma para o domínio público. Significando isto que, na prática, qualquer pessoa poderá utilizar esse valioso espólio.
Algures por aí existe, portanto, uma espécie de Arca Perdida a transbordar de tesouros de papel à espera de serem (re)apresentados ao mundo por um qualquer Indiana Jones. Enquanto isso não acontece, resta-nos venerar o magnífico legado da Quality Comics, sem o qual a história do género super-heroico seria certamente menos rica.

ÍCONES QUALITY

No sentido dos ponteiros do relógio temos:
Captain Triumph (Capitão Triunfo);  Phantom Lady  (Lady Fantasma);
Blackhawk  (Falcão Negro);
Ray, Miss América e  Plastic Man (Homem-Borracha).

ÍCONES QUALITY II

Pela mesma ordem da imagem anterior temos:
Max Mercury  (Max Mercúrio); Tio Sam (dos Combatentes da Liberdade);
Jester;
Wildfire (Chama); Torchy e  Firebrand (Labareda) 

Agradecimento muito especial ao meu bom amigo Emerson Andrade que, com a sua costumeira bonomia, acedeu a conceber estas duas fabulosas montagens para servirem de suporte gráfico ao meu artigo. Para ele, um abraço do tamanho do oceano que nos aparta.
































































o.
Concluído os estudos, Arnold mudou-se em 1921 para Nova Iorque. 

quinta-feira, 8 de junho de 2017

GALERIA DE VILÕES: MERCENÁRIO



  Devido aos seus talentos únicos, é um dos mais cotados assassinos do submundo nova-iorquino. Quase sempre uma sentença de morte para os seus alvos, as suas sangrentas credenciais incluem duas ex-namoradas do Demolidor, por quem desenvolveu uma perturbadora obsessão. 

Denominação original: Bullseye (vocábulo inglês que designa o centro de um alvo e, por extensão, qualquer lançamento ou disparo que o atinja)
Licenciadora: Marvel Comics
Criadores: Marv Wolfman (história) e John Romita Sr. (arte conceitual)
Estreia: Daredevil #131 (março de 1976)
Alter egos: Lester,  Benjamin Poindexter e Leonard
Local de nascimento: Queens, Nova Iorque
Parentes conhecidos: Kingmaker (pai, falecido), mãe não-identificada; Nathan (irmão, falecido), os Wilkerson (família de acolhimento)
Ocupação: Assassino a soldo
Base operacional: Nova Iorque
Afiliações: Ex- soldado do Exército dos EUA; ex-operacional da NSA (sigla inglesa para Agência de Segurança Nacional); ex-membro do Tentáculo, dos Vingadores Sombrios e dos Thunderbolts; ex-sicário do Rei do Crime*, do Homem Púrpura e de Mysterio. 
Armas, poderes e habilidades: Atendendo ao caráter único dos seus talentos, especulou-se durante algum tempo que o Mercenário poderia ser um mutante. Sucessivas análises ao seu ADN refutariam contudo essa hipótese.
Apesar da sua natureza humana, o Mercenário nasceu com uma pontaria quase infalível e com a assombrosa habilidade de lançar virtualmente qualquer objeto com a força e precisão suficientes para o converter num projétil letal. Nas suas mãos, uma simples carta de baralho pode servir para lacerar a garganta de uma pessoa. Outra das suas mais notórias proezas consistiu em matar alguém com um palito arremessado a uma distância de várias centenas de metros.
A sua letalidade decorre igualmente da sua proficiência no manuseamento de todo o tipo de armas. A despeito de ser um exímio franco-atirador, a sua preferência recai habitualmente sobre as de arremesso, como os shurikens ou as adagas sai. Antes da ressurreição de Elektra, o Mercenário gostava de exibir aquela que usara para empalar a ex-amante do Demolidor, apenas para provocar o herói.

Shurikens são as armas prediletas do Mercenário.

Com uma condição física equivalente à de um atleta olímpico, após ter ficado paralisado na sequência de uma queda ocorrida durante um confronto com o Demolidor, o Mercenário teve a sua fisiologia incrementada por implantes de adamantium. Além de lhe proteger os ossos de fraturas, o revestimento metálico permite-lhe a execução de manobras e acrobacias interditas ao comum dos mortais. Tendo o processo em causa sido conduzido pelo próprio Lorde Vento Negro (Lord Dark Wind, no original), o qual incluiu um tratamento herbáceo para prevenir os efeitos de uma eventual rejeição do organismo do Mercenário ao metal injetado.
Recorde-se, a este propósito, que Lorde Vento Negro foi o inventor do procedimento de implantação de adamantium. Foi aliás nas suas anotações incompletas que os cientistas do Programa Arma X se basearam para o aplicar a Wolverine, que só sobreviveu graças ao seu fator de cura mutante.
Em complemento a tudo isto, o Mercenário é também um mestre das artes marciais. Mesmo desarmado, é um adversário de respeito mesmo quando tem pela frente outros lutadores de alto gabarito.
Meticuloso, o Mercenário tem por hábito estudar até o mais ínfimo detalhe dos seus alvos: histórico familiar, boletim clínico, relacionamentos, habilidades, etc. Informação que utiliza depois para tentar antecipar os movimentos dos seus oponentes em combate. Não raro, essa compulsão extravasa o campo profissional e adentra a esfera pessoal, como sucedeu com Elektra, por quem, a exemplo do Demolidor, desenvolveu em tempos uma perturbadora obsessão.
Após sofrer um ferimento na cabeça, durante um brevíssimo período de tempo, o Mercenário conseguia pressentir telepaticamente a presença do Demolidor. Tão depressa como se manifestou, o referido poder desvaneceu-se sem deixar vestígios.

Cartada mortal.
Fraquezas: Recorrentemente diagnosticado como um perigoso psicopata com um pronunciado viés sádico, o Mercenário possui de facto uma mente volátil, o que o torna suscetível a surtos psicóticos quando perde as estribeiras. 
Mesmo quando balança entre a razão e a insanidade, o Mercenário aproveita o seu trabalho de assassino contratado para satisfazer a sua compulsão homicida e para levar a cabo a sua vingança pessoal contra o Demolidor.
É igualmente propenso a paranoias e a delírios esquizofrénicos. Como, de resto, ficou demonstrado na ocasião em que, de tão obcecado com o Demolidor, se convenceu ser ele próprio o Homem Sem Medo. Ou quando passou a vislumbrar o rosto do herói em qualquer pessoa com quem se cruzava. Em ambos os casos, os seus distúrbios psíquicos foram preponderantes para a sua derrota.
Exames médicos posteriores revelariam, contudo, que os seus devaneios eram parcialmente causados por um tumor cerebral, que lhe foi entretanto cirurgicamente removido.
Ignora-se, por outro lado, se esse facto terá alguma correlação com o seu daltonismo, ou se essa sua condição será de origem genética. Certo é que, em determinados contextos, ela lhe pode causar constrangimentos, designadamente no que à identificação de um alvo diz respeito.
Por outro lado, apesar da sua mira quase perfeita, já denotou algumas dificuldades em atingir alvos em movimento.

Por vezes, a mente do Mercenário prega-lhe partidas.
Como quando passou a ver o Demolidor em cada rosto na multidão.
Histórico de publicação: Apesar de na sua primeira aparição, em Daredevil nº131 (março de 1976), o Mercenário ter sido desenhado por Bob Brown, os créditos da sua arte conceitual pertencem a John Romita Sr, que com o escritor Marv Wolfman** divide a "paternidade" da personagem.
Conhecido pelo seu sentido de humor torpe, o Mercenário parece divertir-se a ludibriar quem o investiga. Em 2004, a minissérie Bullseye: Greatest Hits propôs-se derramar alguma luz sobre o passado do vilão. Nela, ele afirmava chamar-se Leonard e relatou mesmo alguns pormenores biográficos. Mas logo se percebeu que boa parte deles (ou, quiçá, a totalidade) eram forjados.
No rescaldo de Civil War***, o escritor britânico Warren Ellis assumiu as histórias de Thunderbolts, incorporando o Mercenário no renovado elenco da equipa. Da qual, durante a saga Dark Reign (sequência direta de Secret Invasion), se transferiria para os Vingadores Sombrios. Assumindo nessa fase o codinome Gavião Arqueiro.

O Mercenário anuncia ao que vem em Daredevil nº131 (1976).
Ao mesmo tempo que se evidenciava em Dark Avengers, o Mercenário/Gavião Arqueiro protagonizou Dark Reign: Hawkeye, minissérie em 5 volumes com assinatura de Mark Diggle e Tom Raney. Ainda na sua qualidade de Vingador Sombrio, desempenhou papel crucial no crossover Dark Avengers/ Uncanny X-Men, publicado no verão de 2009.
Aparentemente morto pelo Demolidor em Shadowland nº1 (setembro de 2010), o Mercenário ressurgiria meses depois, nas páginas de Daredevil Vol.3 nº26. Apesar de ter milagrosamente sobrevivido aos graves ferimentos infligidos pelo seu velho inimigo, era agora um prisioneiro do próprio corpo. Quando finalmente recuperou a sua mobilidade, procurou vingar-se do Homem Sem Medo, acabando, no entanto, cego e desfigurado ao cair num tanque com resíduos radioativos.

Capa de Bullseye: Greatest Hits nº2 (2004), 
Origem: Quem se aventura a desvendar o mistério em que está envolto o passado do Mercenário corre o sério risco de se perder num labirinto de mentiras e enganos. Que o digam os agentes federais que, certa vez, o sujeitaram a um exaustivo interrogatório quando ele se encontrava confinado numa prisão de alta segurança.
Entre os vários elementos biográficos que o vilão lhes revelou, incluía-se a descrição da sua conturbada infância em Queens, na casa que compartilhava com o seu irmão mais velho e com o pai alcoólico que os molestava. E de como foi entregue aos cuidados de uma família de acolhimento depois de o seu irmão ter ateado fogo à casa numa tentativa fracassada de matar o progenitor.
No liceu, as suas habilidades inatas fizeram dele o astro da equipa de basebol, chegando mesmo a ser-lhe oferecida uma bolsa de estudo. Terá preferido, contudo, jogar nas ligas secundárias onde continuou a sobressair como exímio lançador.
Até ao dia em que aceitou um suborno para falhar todos os arremessos numa partida decisiva. Em resposta às provocações de um jogador adversário, alvejou-o na cabeça com a última bola do jogo, causando-lhe morte instantânea em plena quadra. Indiferente à comoção que varria as bancadas, terá exclamado alegremente "Bullseye!" ("Em cheio!", numa tradução adaptada).
Toda esta informação carece, porém, de confirmação. Tanto mais que o Mercenário já demonstrou ser uma fonte pouco confiável. Chegando mesmo a admitir ter inventado esta história apenas para zombar dos seus captores.

Terá o Mercenário passado ao lado
 de uma fulgurante carreira desportiva?
Certo é que, ao longo dos anos, ele apresentou outras versões dessa narrativa: numa delas, reconhecia ter sido ele o autor do incêndio que quase matara o pai; noutra, garantia tê-lo matado com um tiro na cabeça depois de lhe ter desenhado um alvo na testa enquanto ele dormia.
Alguns indícios sugerem, todavia, que, antes de empreender a sua carreira como assassino a soldo, o Mercenário terá sido um franco-atirador do Exército dos EUA, onde terá sido recrutado para a Agência de Segurança Nacional. Ao serviço da qual terá, alegadamente, viajado pelo mundo antes de ser dispensado com baixa desonrosa. Tudo porque terá, presumivelmente, usado os recursos da agência para montar um esquema de extorsão a narcotraficantes na Nicarágua. Quando este foi desmantelado pelo Justiceiro, o Mercenário desapareceu do radar.
Reapareceria algum tempo depois em Nova Iorque envergando já o seu icónico uniforme. A fim de publicitar os seus serviços de matador profissional, concedeu uma entrevista ao Clarim Diário, atraindo assim a atenção do Demolidor.
Depois de, num primeiro embate, ter levado a melhor sobre o Homem Sem Medo, sofreria uma humilhante derrota na segunda ocasião em que os dois mediram forças. Esse foi, aliás, o primeiro de muitos desaires às mãos do padroeiro da Cozinha do Inferno, tornando-o alvo de chacota nos meandros do submundo da Grande Maçã.
Apesar da mossa que isso causou na sua reputação, o Mercenário foi elevado a assassino-mor do Rei do Crime. Contudo, após nova temporada atrás das grades, ficou furioso ao descobrir que perdera o emprego para Elektra, a enigmática ninja que mantinha um tórrido romance com o Demolidor.



Um dos muitos duelos entre o Mercenário e o Demolidor.
Despeitado, o Mercenário confrontou Elektra, acabando por empalá-la com a sua própria adaga sai. Restaurada a sua reputação, o Mercenário recuperou o seu emprego na organização de Wilson Fisk. Mas foi sol de pouca dura.
Ávido de vingança pela morte da amada, o Demolidor derrotou uma vez o mais o Mercenário. No auge do combate, o vilão despencou do telhado de um prédio.
Paralisado numa cama de hospital e dependendo de um ventilador mecânico para respirar, seria de esperar que os seus dias de assassino contratado tivessem chegado ao fim. E, de facto, assim teria sido se Lorde Vento Negro, um cientista e senhor do crime japonês, não lhe tivesse infundido o esqueleto com adamantium.
Depois de uma curta estada no país do Sol Nascente ao serviço do seu benfeitor, o Mercenário regressaria a Nova Iorque para voltar a integrar a folha de pagamentos do Rei do Crime. O que, uma vez mais, o colocou na mira de um certo herói cego...

A morte de Elektra foi um dos pontos altos
da sangrenta carreira do Mercenário.

Miscelânea:

*Enquanto ao serviço do MARTELO (agência de contraterrorismo herdeira da SHIELD, que, entre outras coisas, tutelava os Vingadores Sombrios após os eventos de Invasão Secreta), ao Mercenário foi concedida uma autorização de segurança nível 5, a mais elevada no protocolo da instituição;
*Entre os mais insólitos objetos utilizados pelo Mercenário para matar alguém destacam-se um aviãozinho de papel, um caniche e até um dente que lhe fora arrancado durante uma zaragata, e que ele cuspiu como se de uma bala se tratasse;
*Amigos de longa data, Mercenário e Deadpool têm um passado em comum como soldados da fortuna e partilham praticamente o mesmo grau de insanidade mental;

Deadpool e Mercenário; almas gémeas.
*Prestes a ser executada a sangue-frio pelo Mercenário, Lindy Reynolds, a malograda esposa do herói conhecido como Sentinela, pediu-lhe, à laia de último desejo, que ele lhe revelasse o seu nome verdadeiro. Em resposta, o vilão apresentou-se simplesmente como Ben, numa possível referência a Benjamin Poindexter, o seu alter ego no Universo Ultimate, dimensão paralela povoada pelas versões revistas e atualizadas das principais personagens Marvel. À semelhança de quase todas elas, também o Mercenário teve a sua origem recontada;
*Além de Elektra e Karen Page, o Mercenário tentou matar também Milla Donovan, a ex-esposa (cega de nascença) de Matt Murdock. Na segunda ocasião em que o fez, foi detido pela Viúva Negra, também ela um antigo interesse amoroso do Demolidor;
*Aos olhos de muitos um émulo do Pistoleiro, são dois os aspetos essenciais que distinguem o Mercenário do seu homólogo da DC: a sua preferência por armas brancas e de arremesso em detrimento de armas de fogo, e a ausência de um espartano código de ética. Diferente do Pistoleiro, o Mercenário não tem pundonor em executar mulheres e crianças, tampouco separa negócios de assuntos pessoais.´

À falta de balas, o Mercenário
 pode usar um dente para tirar a vida a alguém.
Noutros segmentos culturais: Desde 2009 que o Mercenário ocupa um mui lisonjeiro 20º lugar na lista dos 100 melhores vilões da banda desenhada elaborada pela plataforma digital de entretenimento IGN. À frente, por exemplo, de outros expoentes de malignidade, como Ultron ou Venom.
Nos últimos anos tem sido também um habitué numa miríade de videojogos baseados no Universo Marvel. No mais recente, Marvel: Future Fight (2015), surge mesmo como personagem jogável.
Foi, no entanto, a sua passagem pelo grande ecrã que notabilizou o Mercenário junto do grande público. Em 2003, interpretado por Colin Farrell, o vilão teve papel de relevo em Daredevil, a primeira (e, até à data, única) longa-metragem do Homem Sem Medo.
Aproveitando a nacionalidade e o sotaque do ator escolhido para lhe dar vida, no filme o Mercenário tem raízes irlandesas. Surgindo também com roupagens muito diferentes daquelas que costuma usar nos quadradinhos. Em vez do tradicional uniforme azul e branco, o vilão enverga uma fatiota de cabedal de que nenhum gótico ou fã de heavy metal desdenharia. Não faltando, claro, o icónico alvo tatuado na fronte.
Tal como a sua contraparte dos comics, a versão cinematográfica do Mercenário tem nos shurikens a sua arma favorita, pese embora o seu arsenal inclua também pequenos objetos à primeira vista inócuos: clipes, cartas de baralho e até amendoins. Uma cena pós-créditos mostra-o, de resto, paralisado numa cama de hospital, sem que isso o impeça de usar uma agulha hipodérmica para empalar uma mosca sem contudo a matar. Murmurando depois, a custo, "Bullseye!". O que, neste contexto, poderá ser literalmente traduzido como "Na mosca!".

Colin Farrell emprestou o seu charme irlandês
ao Mercenário em Daredevil.

*Prontuário do Rei do Crime em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2015/09/galeria-de-viloes-rei-do-crime.html
**Perfil de Marv Wolfman em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2014/09/eternos-marv-wolfman-1946.html
***Resenha alargada de Guerra Civil em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/12/classicos-revisitados-guerra-civil.html



quarta-feira, 24 de maio de 2017

RETROSPETIVA: «SPAWN, O JUSTICEIRO DAS TREVAS»




  Al Simmons, oficial das Forças Especiais enviado em missão suicida, aceita servir o Inferno na sua batalha final contra o Céu. Só assim poderá reencontrar a sua amada e vingar-se de quem o traiu. Mas muda de ideias ao perceber o que está verdadeiramente em jogo.
 Apesar de fiel ao conceito original, aquele que foi o primeiro filme de super-heróis com um protagonista negro, ficou preso no Purgatório por conta de alguns pecadilhos.

Título original: Spawn (subtitulado no Brasil como O Soldado do Inferno)
Ano: 1997
País: Estados Unidos da América
Género: Ação/Terror/Fantasia
Duração: 96 minutos
Realização: Mark A.Z. Dippé
Produção: Todd McFarlane Entertainment 
Argumento: Alan B. McElroy 
Distribuição:  New Line Cinema
Elenco: Michael Jai White (Al Simmons/Spawn); John Leguizamo (Palhaço/Violador); Martin Sheen (Jason Wynn); Theresa Randle (Wanda Blake Simmons-Fitzgerald); Nicol Williamson (Cagliostro); D.B. Sweeney (Terry Fitzgerald); Melinda Clarke (Jessica Priest); Frank Welker (voz de Malebolgia)
Orçamento: 40 milhões de dólares
Receitas: 87,8 milhões de dólares

"Nascido nas trevas. Comprometido com a justiça."
Assim era apresentado Spawn num dos cartazes promocionais
do seu filme.
Desenvolvimento: Em larga medida, a ascensão meteórica da Image Comics* em meados da década de 1990 ficou a dever-se a Spawn. Foi ele, sem sombra de dúvida, o expoente máximo de uma editora que, apesar de neófita, disputava, à época, o pódio das vendas à Marvel e à DC.
Criado em 1992 por Todd McFarlane, Spawn, atraiu logo nesse ano a atenção da Columbia Pictures, que expressou o seu interesse em adaptá-lo ao cinema. As negociações nesse sentido acabariam contudo por não chegar a bom porto. Motivo: McFarlane sentia que o estúdio não lhe estaria a conceder suficiente controlo criativo sobre o projeto.
Em virtude dessa circunstância, McFarlane preferiu vender os direitos do filme à New Line Cinema - pelo simbólico preço de 1 dólar - em troca de supervisão criativa e das respetivas receitas de merchandising.



Todd McFarlane e Spawn:
criador e criatura  unidos pelo sucesso.
Ele próprio um fã de super-heróis, o, à data, presidente da New Line Cinema, Michael DeLuca, congratulou-se com a possibilidade de transpor ao grande ecrã uma personagem tão popular como Spawn. Importa notar que, nos anos que antecederam o lançamento do filme, o Soldado do Inferno era o campeão de vendas no ultracompetitivo mercado dos comics.
DeLuca acreditava, no entanto, ser possível manter a atmosfera lúgubre e violenta das histórias do Spawn sem alienar o filão adolescente, pelo que a película receberia classificação etária "para maiores de 13".
Como em qualquer produção deste género, os efeitos visuais seriam um dos vetores mais importantes. Mais ainda quando o projeto em causa exige uma miríade deles.
Assim, num primeiro momento, os efeitos especiais ficaram a cargo da Pull Down Your Pants, uma recém-fundada empresa do ramo que tinha como sócios três ex-artistas da Industrial Light & Magic (também ela ligada à produção): Mark A.Z. Dippé, Clint Goldman e Steve "Spaz" Williams.
Apesar de nunca antes se ter sentado na cadeira de realizador, Dippé foi o escolhido para dirigir a película. Goldman, por seu turno, tornar-se-ia coprodutor, ao passo que "Spaz" chamaria a si a supervisão dos efeitos especiais. O enredo, esse, foi confiado a Alan B. McElroy, que além de diversos números do título regular de Spawn, escrevera igualmente alguns episódios da sua série animada.
Praticamente um ilustre desconhecido, Michael Jai White (que, um par de anos antes, protagonizara um telefilme biográfico de Mike Tyson), foi o eleito para encabeçar um elenco no qual avultavam os consagrados Martin Sheen e John Leguizamo.
White considerou Al Simmons uma personagem aliciante e Spawn uma das figuras mais trágicas que alguma vez conheceu no cinema. Segundo ele, o grande desafio do papel consistiu em obter a simpatia dos espectadores para com um assassino ao serviço do Governo e recém-regressado do Inferno. Mais penoso seria, porém, o processo de caracterização a que o ator foi sujeito.
Além do uso de lentes de contacto amarelas que lhe irritavam os olhos e de uma máscara que lhe dificultava a respiração, White tinha de submeter-se a quatro longas horas de maquilhagem antes de entrar em cena. Valeu-lhe a sua longa experiência como lutador de artes marciais, que lhe garantiu a concentração e a força de vontade necessárias para suportar o enorme desconforto causado pelas próteses que faziam parte do seu elaborado figurino.

Michael Jai White (dir.) atento às indicações de Dippé
durante a rodagem de Spawn.
Dispondo inicialmente de um orçamento de 20 milhões de dólares, devido à escala e complexidade dos respetivos efeitos visuais, o custo final de Spawn cifrar-se-ia no dobro desse montante, ou seja, 40 milhões de dólares. Um terço dos quais seriam alocados precisamente à vertente técnica que incluía os efeitos especiais.
Uma vez que o cronograma da produção previa apenas 63 dias para as filmagens, estas decorreram a um ritmo frenético. Clint Goldman entendeu, ainda assim, ser esse um prazo excessivamente longo. Motivo pelo qual desembolsou 1 milhão de dólares para contratar também a Santa Barbara Studios, empresa de efeitos especiais responsável pela conceção das sequências digitais ambientadas no Inferno. Investimento avultado que permitiu encurtar em uma semana a rodagem da película.
Desenvolvidos por 22 empresas de 3 países (EUA, Canadá e Japão) e engajando um total de 70 profissionais, os efeitos especiais de Spawn demoraram perto de 11 meses a serem finalizados. E mesmo assim, mais de metade deles só foi entregue duas semanas antes da estreia do filme. Que aconteceu no primeiro dia de agosto de 1997, arrecadando logo no primeiro fim de semana em cartaz 19,7 milhões de dólares. Seria essa, de resto, a melhor receita de bilheteira obtida por Spawn em terras do Tio Sam.

A caracterização de Spawn revelou-se
um autêntico suplício para Michael Jai White.

As cenas mostrando a capa viva do herói
foram algumas das mais difíceis de conceber.

*Trajetória da Image em: http://bdmarveldc.blogspot.pt/2012/02/fabricas-de-mitos-image-comics.html


Noutro dos posters promocionais do filme,
Spawn dividia protagonismo com o Palhaço e o seu meu horripilante
alter ego.
Enredo: Coronel das Forças Especiais dos EUA ao serviço de uma agência secreta dirigida por Jason Wynn, Al Simmons é designado para uma missão de sabotagem numa fábrica norte-coreana de armamento bioquímico. Tudo não passa, porém, de uma cilada montada pelo seu superior.
Jessica Priest, outra das assassinas de elite às ordens de Wynn, é incumbida por ele de executar Simmons. Cujo cadáver é, em seguida, queimado por Wynn, com as labaredas daí resultantes a provocarem uma enorme explosão na fábrica.
Chegado ao Inferno, Simmons depara-se com um dos seus regentes chamado Malebolgia. O demónio propõe-lhe um pacto faustiano: se Simmons aceitar servi-lo por toda a eternidade e comandar as suas legiões demoníacas durante o Armagedão, poderá regressar à Terra para rever a sua noiva, Wanda Blake.

A última missão de Al Simmons
valeu-lhe um passaporte para o Inferno.
Simmons aceita os termos do acordo com Malebolgia e regressa ao mundo dos vivos. Mas logo percebe ter sido trapaceado pelo demónio. Passaram cinco anos e Wanda está agora casada com Terry Fitzgerald, o melhor amigo do ex-noivo. Com o casal mora também a pequena Cyan, filha de Simmons nascida após a morte do pai.
Enquanto procura ajustar-se à nova e dolorosa realidade, Simmons é interpelado pelo Palhaço, um demónio enviado por Malebolgia para lhe servir de guia nos ínvios caminhos do Mal.

O sinistro Palhaço esconde
 um segredo ainda mais sinistro.
Quase ao mesmo tempo, Simmons trava conhecimento com um misterioso ancião de seu nome Cagliostro, também ele um antigo Soldado do Inferno. Mas que conseguira libertar a sua alma, combatendo agora sob o estandarte celestial.
É ele quem informa Simmons de que Jason Wynn é agora um poderoso senhor da guerra que desenvolveu o Heat 16, uma arma biológica capaz de erradicar a Humanidade da face da Terra.
Durante uma festa organizada por Wynn, Simmons ataca o seu antigo comandante, mata Jessica Priest e consegue escapar graças à armadura de necroplasma que faz dele um Spawn, um general do Inferno.
Na esteira do incidente, o Palhaço convence Wynn a implantar cirurgicamente um dispositivo no coração que libertará o Heat 16 na atmosfera caso os seus sinais vitais cessem. Wynn concorda, pois sabe que isso servirá para dissuadir novos atentados contra a sua vida.

Spawn tem velhas contas a ajustar com Jason Wynn.
Malebolgia tem no entanto outros planos. O mestre infernal de Spawn deseja provocar o Apocalipse. Ordenando, por isso, ao seu servo que tire a vida a Wynn.
Perante a recusa de Spawn em levar a cabo a missão que lhe foi atribuída por Malebolgia, o Palhaço transforma-se no Violador - um demónio hediondo - e espanca-o quase até à morte.
Resgatado por Cagliostro, Spawn aprende com ele a controlar a sua armadura. Cagliostro põe-no também ao corrente do plano de Wynn e do Violador para assassinar Wanda, Cyan e Terry.
Instantes após ter enviado um email a um amigo jornalista a incriminar Jason Wynn, Terry é surpreendido pela presença deste em sua casa com Cyan como refém.
Wynn destrói o computador de Terry e sequestra toda a família. Spawn entra em cena e quase mata o seu antigo superior. Para evitar a hecatombe que daí resultaria, Spawn extrai o dispositivo ligado ao coração de Wynn, em vez de destruí-lo.

Violador à solta.
Furioso, o Violador envia Spawn e Cagliostro para o Inferno, onde são ambos rapidamente subjugados pelas legiões de Malebolgia. No último momento Spawn consegue, porém, escapar levando consigo Cagliostro. Já recomposto da refrega, o Violador segue-lhes no encalço.
De volta à Terra, Spawn usa as suas correntes sencientes para decapitar o Violador. Mas nem isso é suficiente para o silenciar.
Ao mesmo tempo que a sua face começa a derreter como a de um boneco de cera, o demónio profere impropérios e juras de vingança.
Jason Wynn é preso e Al, percebendo que deixou de ter lugar no mundo de Wanda e Cyan, empreende uma solitária cruzada como justiceiro das trevas.

Trailer:


Curiosidades:

*Antes da escolha incidir sobre o e novato Mark A.Z. Dippé, Tim Burton (Batman) e Alex Proyas (O Corvo) foram os dois realizadores sondados para assumir a direção do filme. Ambos declinaram, contudo, o convite. Já para o papel principal Wesley Snipes (que, no ano seguinte, interpretaria Blade no cinema), Denzel Washington, Will Smith e Cuba Gooding Jr. foram alguns dos atores cogitados.
*Al Simmons era o nome do colega de quarto de Todd McFarlane nos seus tempos de estudante universitário. Wanda, Cyan e Terry Fitzgerald também homenageiam entes queridos do criador de Spawn (respetivamente, a esposa, a filha e o seu melhor amigo).
*Numa entrevista posterior à estreia da película, John Leguizamo contou que, certa vez, durante as filmagens, sentiu uma necessidade urgente de ir à casa de banho. Sucede que o fato de Palhaço demorava uma hora a vestir e outra a despir. Não lhe restando, pois, outro remédio senão aliviar-se dentro dele. Numa outra entrevista, o ator disse que usar o figurino em questão o fazia sentir-se como um pénis com um preservativo enfiado. Confessou ainda ter comido larvas vivas na cena em que a sua personagem devora uma piza em decomposição que encontrara num contentor de lixo.
*Na história original, Al Simmons é assassinado por Capela (Chapel), personagem que, por ser propriedade intelectual de Rob Liefeld, foi substituída no filme por Jessica Priest, criada especificamente para o efeito.

Melinda Clarke como Jessica Priest:
 femme fatale com uma costela sádica.
*Outra diferença relativamente aos quadradinhos prende-se com a cor da pele de Terry Fitzgerald. Que passou de negro a branco por exigência do estúdio de modo a prevenir que a predominância de personagens afro-americanas restringisse a audiência do filme a esse segmento social.
*Spaz, o nome do cão de Spawn, era a alcunha de Steve Williams, supervisor dos efeitos visuais do filme;
*Malebolgia foi o nome usado por Dante na Divina Comédia para se referir não ao Diabo propriamente dito mas aos poços transbordantes de insetos situados no sétimo círculo do Inferno, e onde os condenados à danação eterna eram enterrados de cabeça para baixo.
*Numa das cenas do filme, que precede a sua aterradora metamorfose, o Palhaço diz: "Eu não sou o Vingador, o Vitimizador, o Vaporizador ou sequer o Vibrador! Eu sou... o Violador!". Trata-se de uma alusão aos Irmãos Flebíacos, cães de fila do Inferno que, na banda desenha, além do próprio Violador, são compostos por Vaporizador, Vingador, Vandalizador e Vacilador.
Os Irmãos Flebíacos (Phlebiac Brothers)  em reunião familiar.
*Pese embora no filme Cagliostro seja apresentado como o mentor de Spawn,  a sua contraparte histórica foi um ocultista do século XVIII que viajou pela Europa e pelo Egito antes de fundar a Maçonaria Oculta. Era também um notório charlatão que, antes de ser expulso de França, passou pelos calabouços da Bastilha. Acabando mais tarde condenado em Roma por heresia, bruxaria e conjura. Apesar de, nos quadradinhos, a personagem ter como imagem de marca uma longa e espessa barba branca, Nicol Williamson - que teve em Cagliostro o seu derradeiro papel - recusou-se terminantemente a usar uma, mesmo que postiça.

Cagliostro antes e depois de uma visita ao barbeiro.
*Perto do final do filme, Jason Wynn é escoltado para fora da casa de Wanda e Terry por uma parelha de detetives. São eles Sam Burke e Twitch Williams, dois dos mais carismáticos coadjuvantes das histórias de Spawn, que até já tiveram direito a revista própria.
*Na festa que tem Jason Wynn como anfitrião, uma escultural ruiva, usando um vestido verde e uns brincos com o símbolo do Spawn, passeia-se discretamente entre os convivas. Trata-se de Angela, personagem que, antes da sua recente migração para o Universo Marvel, era uma caçadora de Spawns às ordens de Deus.
*Muito antes de Stan Lee se tornar um habitué no Universo Cinemático da Marvel, Todd McFarlane fez um cameo no filme baseado na sua criação suprema. É um dos muitos sem-abrigo que perambulam pela chamada Cidade dos Ratos.



Em Spawn, Laura Stepp emprestou por alguns segundos
 o seu corpo a Angela (acima), ex-caçadora de Spawns agora convertida
em primogénita de Odin e, portanto, irmã mais velha de Thor.
Prémios e nomeações: Apesar da reação adversa por parte da generalidade da crítica, Spawn arrebatou o prémio para Melhores Efeitos Especiais no Festival Internacional de Cinema Fantástico da Catalunha. Certame espanhol em que foi igualmente nomeado na categoria de Melhor Filme.
Essa não foi, porém, a única nomeação recebida. Nos Saturn Awards, Spawn levou ao rubro a disputa pelo galardão para Melhor Caracterização.
Por sua vez, Michael Jai White, John Leguizamo e Theresa Randle foram indicados, respetivamente, para Melhor Ator Estreante, Melhor Ator Secundário e Melhor Atriz Secundária nos Blockbuster Entertainment Awards.
Michael Jai White, Theresa Randle e Jonh Leguizamo
na passadeira vermelha da gala de estreia de Spawn.
Sequela, reboot ou uma mão cheia de nada?

Provisoriamente intitulado Spawn 2, desde 1998 que aquele que seria o segundo capítulo da saga cinematográfica do Soldado do Inferno permanece em banho-maria. Tudo por causa das críticas pouco simpáticas recebidas pelo primeiro filme, e do seu modesto desempenho de bilheteira.
Do projeto pouco se sabe além de que Michael Jai White repetiria o papel principal e que a sequela seria, em boa verdade, um reboot. Isto porque, a exemplo de Batman Begins, serviria para relançar uma franquia que começou coxa. Quem o garantiu foi o próprio Todd McFarlane numa entrevista concedida pouco tempo após a estreia do capítulo inaugural da trilogia do Cavaleiro das Trevas dirigida por Christopher Nolan. Estávamos então em 2005.
Dois anos depois, em 2007, o mesmo McFarlane confirmou, noutra entrevista, a sua intenção de produzir uma segunda longa-metragem de Spawn. Nem que, para isso, tivesse de pagá-la do próprio bolso. Mais dois anos se passaram e nada aconteceu.
Até que, em 2009, McFarlane devolveu alguma esperança aos fãs ao anunciar publicamente que já havia começado a escrever o enredo do novo filme. Baseado, ao que parece, numa história que trazia na cabeça há vários anos. E que seria muito mais aterradora do que aquela que foi apresentada em Spawn. McFarlane pretenderia, aliás, fugir aos clichés do género super-heroico, apesar de este nunca ter sido tão popular junto do grande público.
Seguiram-se vários anos marcados por avanços, recuos e muitos rumores à mistura. Até que, em fevereiro de 2016, McFarlane anunciou ter finalmente pronto o argumento do novo filme. Cuja rodagem, prometeu então, arrancaria dentro de meses. Mais uma vez, ficou-se pelas intenções.
Volvido um ano sobre o bombástico anúncio de McFarlane, são mais as dúvidas do que as certezas em relação a um projeto que parece enguiçado. Apesar disso,o criador de Spawn já começou a levantar a pontinha do véu, revelando alguns pormenores sobre o filme.
Foi assim que os fãs ficaram a saber que se tratará de um thriller sobrenatural com um registo mais macabro do que o primeiro filme e, por conseguinte, mais próximo do material original. Tal como os recentes Deadpool e Logan, a nova aventura cinematográfica de Spawn será pois destinada a uma audiência adulta.
Entretanto, nas últimas semanas começaram a circular rumores na internet acerca da possível contratação do oscarizado Jamie Foxx (Django Libertado) para interpretar o amargurado herói forjado nas entranhas do Inferno.
O tempo dirá, porém, se haverá fogo por detrás de tanta fumaça. Ou se, pelo contrário, será apenas mais uma salva de tiros de pólvora seca...

Jamie Foxx como Al Simmons e Scarlett Johansson como Ângela
num novo filme do Spawn?
Ver para crer!

Veredito: 58%

Vinte anos passados, já quase tudo foi dito acerca de Spawn, havendo portanto pouco a acrescentar. Para grande desgosto dos fãs, boa parte daquilo que foi sendo dito e escrito ao longo desse tempo serviu quase exclusivamente para depreciar um filme que, à partida, teria tudo para ser uma referência dentro do género super-heroico.
Do meu ponto de vista, o grande problema de Spawn foi ter tentado agradar a  gregos e a troianos. E, como quase sempre sucede em casos desses, acabou por desagradar a toda a gente. Senão vejamos: para compensar a derrapagem orçamental da produção, McFarlane e companhia tiveram de ir ao encontro de um público mais abrangente. Tendo, para isso, transformado Spawn em algo que ele nunca foi: um super-herói.

Quem dera a muitos filmes atuais
 este grau de fidelidade aos quadradinhos.
Ao fazê-lo, defraudaram as expectativas dos verdadeiros fãs de uma personagem que, pela sua índole e modus operandi, está muito mais próxima do protótipo de anti-herói. Quem, por outro lado, esperava um escuteiro sorridente sempre pronto a resgatar gatinhos do cimo das árvores ou a ajudar velhinhas a atravessar a rua, deverá ter ficado chocado com a violência dos métodos do Soldado do Inferno. Mesmo tendo a sua ética sido amenizada de molde a corresponder a uma classificação etária que, bem vistas as coisas, praticamente só deixava de fora os bebés prematuros.
A par da trama demasiado simplista, é esse o principal pecadilho de Spawn. Que, ainda assim, não merecia a descida ao Inferno que muitos críticos lhe impuseram. Sobretudo quando o comparamos com o inenarrável Batman & Robin, estreado apenas algumas semanas e que, apesar do orçamento três vezes superior ao de Spawn, continua a ser uma nódoa na história do Universo Cinematográfico DC.
Mesmo a esta distância, Spawn - não sendo, de facto, uma obra-prima - continua a ser um filme que cumpre exemplarmente a sua missão de entreter o espectador. Tanto pelo seus inovadores efeitos visuais como pelas espetaculares sequências de ação; quer, ainda, pelo alívio cómico propiciado pelo Palhaço a uma trama carregada de elementos trágicos.
Com efeito, esta é uma daquelas películas em que o herói - tal como se verificou, por exemplo, em O Cavaleiro das Trevas (2008) - é ofuscado pelo carisma do vilão. Não porque Michael Jai White não consiga dar boa conta do recado enquanto Spawn, mas porque o Palhaço - magistralmente interpretado por John Leguizamo-  lhe rouba cada cena.
Em suma, o Purgatório onde Spawn ficou preso é, pois, o castigo pela falta de coragem dos seus autores em darem aos fãs o que eles esperavam e mereciam. Erro que espero ver corrigido no prometido reboot da franquia.
Enquanto este sai e não sai, aproveitem para ver - ou rever - o filme original. Verão que vale a pena.

Uma cria do Inferno
à espera de ser resgatada do Purgatório.


.