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quarta-feira, 24 de maio de 2017

RETROSPETIVA: «SPAWN, O JUSTICEIRO DAS TREVAS»




  Al Simmons, oficial das Forças Especiais enviado em missão suicida, aceita servir o Inferno na sua batalha final contra o Céu. Só assim poderá reencontrar a sua amada e vingar-se de quem o traiu. Mas muda de ideias ao perceber o que está verdadeiramente em jogo.
 Apesar de fiel ao conceito original, aquele que foi o primeiro filme de super-heróis com um protagonista negro, ficou preso no Purgatório por conta de alguns pecadilhos.

Título original: Spawn (subtitulado no Brasil como O Soldado do Inferno)
Ano: 1997
País: Estados Unidos da América
Género: Ação/Terror/Fantasia
Duração: 96 minutos
Realização: Mark A.Z. Dippé
Produção: Todd McFarlane Entertainment 
Argumento: Alan B. McElroy 
Distribuição:  New Line Cinema
Elenco: Michael Jai White (Al Simmons/Spawn); John Leguizamo (Palhaço/Violador); Martin Sheen (Jason Wynn); Theresa Randle (Wanda Blake Simmons-Fitzgerald); Nicol Williamson (Cagliostro); D.B. Sweeney (Terry Fitzgerald); Melinda Clarke (Jessica Priest); Frank Welker (voz de Malebolgia)
Orçamento: 40 milhões de dólares
Receitas: 87,8 milhões de dólares

"Nascido nas trevas. Comprometido com a justiça."
Assim era apresentado Spawn num dos cartazes promocionais
do seu filme.
Desenvolvimento: Em larga medida, a ascensão meteórica da Image Comics* em meados da década de 1990 ficou a dever-se a Spawn. Foi ele, sem sombra de dúvida, o expoente máximo de uma editora que, apesar de neófita, disputava, à época, o pódio das vendas à Marvel e à DC.
Criado em 1992 por Todd McFarlane, Spawn, atraiu logo nesse ano a atenção da Columbia Pictures, que expressou o seu interesse em adaptá-lo ao cinema. As negociações nesse sentido acabariam contudo por não chegar a bom porto. Motivo: McFarlane sentia que o estúdio não lhe estaria a conceder suficiente controlo criativo sobre o projeto.
Em virtude dessa circunstância, McFarlane preferiu vender os direitos do filme à New Line Cinema - pelo simbólico preço de 1 dólar - em troca de supervisão criativa e das respetivas receitas de merchandising.



Todd McFarlane e Spawn:
criador e criatura  unidos pelo sucesso.
Ele próprio um fã de super-heróis, o, à data, presidente da New Line Cinema, Michael DeLuca, congratulou-se com a possibilidade de transpor ao grande ecrã uma personagem tão popular como Spawn. Importa notar que, nos anos que antecederam o lançamento do filme, o Soldado do Inferno era o campeão de vendas no ultracompetitivo mercado dos comics.
DeLuca acreditava, no entanto, ser possível manter a atmosfera lúgubre e violenta das histórias do Spawn sem alienar o filão adolescente, pelo que a película receberia classificação etária "para maiores de 13".
Como em qualquer produção deste género, os efeitos visuais seriam um dos vetores mais importantes. Mais ainda quando o projeto em causa exige uma miríade deles.
Assim, num primeiro momento, os efeitos especiais ficaram a cargo da Pull Down Your Pants, uma recém-fundada empresa do ramo que tinha como sócios três ex-artistas da Industrial Light & Magic (também ela ligada à produção): Mark A.Z. Dippé, Clint Goldman e Steve "Spaz" Williams.
Apesar de nunca antes se ter sentado na cadeira de realizador, Dippé foi o escolhido para dirigir a película. Goldman, por seu turno, tornar-se-ia coprodutor, ao passo que "Spaz" chamaria a si a supervisão dos efeitos especiais. O enredo, esse, foi confiado a Alan B. McElroy, que além de diversos números do título regular de Spawn, escrevera igualmente alguns episódios da sua série animada.
Praticamente um ilustre desconhecido, Michael Jai White (que, um par de anos antes, protagonizara um telefilme biográfico de Mike Tyson), foi o eleito para encabeçar um elenco no qual avultavam os consagrados Martin Sheen e John Leguizamo.
White considerou Al Simmons uma personagem aliciante e Spawn uma das figuras mais trágicas que alguma vez conheceu no cinema. Segundo ele, o grande desafio do papel consistiu em obter a simpatia dos espectadores para com um assassino ao serviço do Governo e recém-regressado do Inferno. Mais penoso seria, porém, o processo de caracterização a que o ator foi sujeito.
Além do uso de lentes de contacto amarelas que lhe irritavam os olhos e de uma máscara que lhe dificultava a respiração, White tinha de submeter-se a quatro longas horas de maquilhagem antes de entrar em cena. Valeu-lhe a sua longa experiência como lutador de artes marciais, que lhe garantiu a concentração e a força de vontade necessárias para suportar o enorme desconforto causado pelas próteses que faziam parte do seu elaborado figurino.

Michael Jai White (dir.) atento às indicações de Dippé
durante a rodagem de Spawn.
Dispondo inicialmente de um orçamento de 20 milhões de dólares, devido à escala e complexidade dos respetivos efeitos visuais, o custo final de Spawn cifrar-se-ia no dobro desse montante, ou seja, 40 milhões de dólares. Um terço dos quais seriam alocados precisamente à vertente técnica que incluía os efeitos especiais.
Uma vez que o cronograma da produção previa apenas 63 dias para as filmagens, estas decorreram a um ritmo frenético. Clint Goldman entendeu, ainda assim, ser esse um prazo excessivamente longo. Motivo pelo qual desembolsou 1 milhão de dólares para contratar também a Santa Barbara Studios, empresa de efeitos especiais responsável pela conceção das sequências digitais ambientadas no Inferno. Investimento avultado que permitiu encurtar em uma semana a rodagem da película.
Desenvolvidos por 22 empresas de 3 países (EUA, Canadá e Japão) e engajando um total de 70 profissionais, os efeitos especiais de Spawn demoraram perto de 11 meses a serem finalizados. E mesmo assim, mais de metade deles só foi entregue duas semanas antes da estreia do filme. Que aconteceu no primeiro dia de agosto de 1997, arrecadando logo no primeiro fim de semana em cartaz 19,7 milhões de dólares. Seria essa, de resto, a melhor receita de bilheteira obtida por Spawn em terras do Tio Sam.

A caracterização de Spawn revelou-se
um autêntico suplício para Michael Jai White.

As cenas mostrando a capa viva do herói
foram algumas das mais difíceis de conceber.

*Trajetória da Image em: http://bdmarveldc.blogspot.pt/2012/02/fabricas-de-mitos-image-comics.html

Noutro dos posters promocionais do filme,
Spawn dividia protagonismo com o Palhaço e o seu meu horripilante
alter ego.
Enredo: Coronel das Forças Especiais dos EUA ao serviço de uma agência secreta dirigida por Jason Wynn, Al Simmons é designado para uma missão de sabotagem numa fábrica norte-coreana de armamento bioquímico. Tudo não passa, porém, de uma cilada montada pelo seu superior.
Jessica Priest, outra das assassinas de elite às ordens de Wynn, é incumbida por ele de executar Simmons. Cujo cadáver é, em seguida, queimado por Wynn, com as labaredas daí resultantes a provocarem uma enorme explosão na fábrica.
Chegado ao Inferno, Simmons depara-se com um dos seus regentes chamado Malebolgia. O demónio propõe-lhe um pacto faustiano: se Simmons aceitar servi-lo por toda a eternidade e comandar as suas legiões demoníacas durante o Armagedão, poderá regressar à Terra para rever a sua noiva, Wanda Blake.

A última missão de Al Simmons
valeu-lhe um passaporte para o Inferno.
Simmons aceita os termos do acordo com Malebolgia e regressa ao mundo dos vivos. Mas logo percebe ter sido trapaceado pelo demónio. Passaram cinco anos e Wanda está agora casada com Terry Fitzgerald, o melhor amigo do ex-noivo. Com o casal mora também a pequena Cyan, filha de Simmons nascida após a morte do pai.
Enquanto procura ajustar-se à nova e dolorosa realidade, Simmons é interpelado pelo Palhaço, um demónio enviado por Malebolgia para lhe servir de guia nos ínvios caminhos do Mal.

O sinistro Palhaço esconde
 um segredo ainda mais sinistro.
Quase ao mesmo tempo, Simmons trava conhecimento com um misterioso ancião de seu nome Cagliostro, também ele um antigo Soldado do Inferno. Mas que conseguira libertar a sua alma, combatendo agora sob o estandarte celestial.
É ele quem informa Simmons de que Jason Wynn é agora um poderoso senhor da guerra que desenvolveu o Heat 16, uma arma biológica capaz de erradicar a Humanidade da face da Terra.
Durante uma festa organizada por Wynn, Simmons ataca o seu antigo comandante, mata Jessica Priest e consegue escapar graças à armadura de necroplasma que faz dele um Spawn, um general do Inferno.
Na esteira do incidente, o Palhaço convence Wynn a implantar cirurgicamente um dispositivo no coração que libertará o Heat 16 na atmosfera caso os seus sinais vitais cessem. Wynn concorda, pois sabe que isso servirá para dissuadir novos atentados contra a sua vida.

Spawn tem velhas contas a ajustar com Jason Wynn.
Malebolgia tem no entanto outros planos. O mestre infernal de Spawn deseja provocar o Apocalipse. Ordenando, por isso, ao seu servo que tire a vida a Wynn.
Perante a recusa de Spawn em levar a cabo a missão que lhe foi atribuída por Malebolgia, o Palhaço transforma-se no Violador - um demónio hediondo - e espanca-o quase até à morte.
Resgatado por Cagliostro, Spawn aprende com ele a controlar a sua armadura. Cagliostro põe-no também ao corrente do plano de Wynn e do Violador para assassinar Wanda, Cyan e Terry.
Instantes após ter enviado um email a um amigo jornalista a incriminar Jason Wynn, Terry é surpreendido pela presença deste em sua casa com Cyan como refém.
Wynn destrói o computador de Terry e sequestra toda a família. Spawn entra em cena e quase mata o seu antigo superior. Para evitar a hecatombe que daí resultaria, Spawn extrai o dispositivo ligado ao coração de Wynn, em vez de destruí-lo.

Violador à solta.
Furioso, o Violador envia Spawn e Cagliostro para o Inferno, onde são ambos rapidamente subjugados pelas legiões de Malebolgia. No último momento Spawn consegue, porém, escapar levando consigo Cagliostro. Já recomposto da refrega, o Violador segue-lhes no encalço.
De volta à Terra, Spawn usa as suas correntes sencientes para decapitar o Violador. Mas nem isso é suficiente para o silenciar.
Ao mesmo tempo que a sua face começa a derreter como a de um boneco de cera, o demónio profere impropérios e juras de vingança.
Jason Wynn é preso e Al, percebendo que deixou de ter lugar no mundo de Wanda e Cyan, empreende uma solitária cruzada como justiceiro das trevas.

Trailer:


Curiosidades:

*Antes da escolha incidir sobre o estreante Mark A.Z. Dippé, Tim Burton (Batman) e Alex Proyas (O Corvo) foram os dois realizadores sondados para assumir a direção do filme. Ambos declinaram, contudo, o convite. Já para o papel principal Wesley Snipes (que, no ano seguinte, interpretaria Blade no cinema), Denzel Washington, Will Smith e Cuba Gooding Jr. foram alguns dos atores cogitados.
*Al Simmons era o nome do colega de quarto de Todd McFarlane nos seus tempos de estudante universitário. Wanda, Cyan e Terry Fitzgerald também homenageiam entes queridos do criador de Spawn (respetivamente, a esposa, a filha e o seu melhor amigo).
*Numa entrevista posterior à estreia da película, John Leguizamo contou que, certa vez, durante as filmagens, sentiu uma necessidade urgente de ir à casa de banho. Sucede que o fato de Palhaço demorava uma hora a vestir e outra a despir. Não lhe restando, pois, outro remédio senão aliviar-se dentro dele. Numa outra entrevista, o ator disse que usar o figurino em questão o fazia sentir-se como um pénis com um preservativo enfiado. Confessou ainda ter comido larvas vivas na cena em que a sua personagem devora uma piza em decomposição que encontrara num contentor de lixo.
*Na história original, Al Simmons é assassinado por Capela (Chapel), personagem que, por ser propriedade intelectual de Rob Liefeld, foi substituída no filme por Jessica Priest, criada especificamente para o efeito.

Melinda Clarke como Jessica Priest:
 femme fatale com uma costela sádica.
*Outra diferença relativamente aos quadradinhos prende-se com a cor da pele de Terry Fitzgerald. Que passou de negro a branco por exigência do estúdio de modo a prevenir que a predominância de personagens afro-americanas restringisse a audiência do filme a esse segmento social.
*Spaz, o nome do cão de Spawn, era a alcunha de Steve Williams, supervisor dos efeitos visuais do filme;
*Malebolgia foi o nome usado por Dante na Divina Comédia para se referir não ao Diabo propriamente dito mas aos poços transbordantes de insetos situados no sétimo círculo do Inferno, e onde os condenados à danação eterna eram enterrados de cabeça para baixo.
*Numa das cenas do filme, que precede a sua aterradora metamorfose, o Palhaço diz: "Eu não sou o Vingador, o Vitimizador, o Vaporizador ou sequer o Vibrador! Eu sou... o Violador!". Trata-se de uma alusão aos Irmãos Flebíacos, cães de fila do Inferno que, na banda desenha, além do próprio Violador, são compostos por Vaporizador, Vingador, Vandalizador e Vacilador.
Os Irmãos Flebíacos (Phlebiac Brothers)  em reunião familiar.
*Pese embora no filme Cagliostro seja apresentado como o mentor de Spawn,  a sua contraparte histórica foi um ocultista do século XVIII que viajou pela Europa e pelo Egito antes de fundar a Maçonaria Oculta. Era também um notório charlatão que, antes de ser expulso de França, passou pelos calabouços da Bastilha. Acabando mais tarde condenado em Roma por heresia, bruxaria e conjura. Apesar de, nos quadradinhos, a personagem ter como imagem de marca uma longa e espessa barba branca, Nicol Williamson - que teve em Cagliostro o seu derradeiro papel - recusou-se terminantemente a usar uma, mesmo que postiça.

Cagliostro antes e depois de uma visita ao barbeiro.
*Perto do final do filme, Jason Wynn é escoltado para fora da casa de Wanda e Terry por uma parelha de detetives. São eles Sam Burke e Twitch Williams, dois dos mais carismáticos coadjuvantes das histórias de Spawn, que até já tiveram direito a revista própria.
*Na festa que tem Jason Wynn como anfitrião, uma escultural ruiva, usando um vestido verde e uns brincos com o símbolo do Spawn, passeia-se discretamente entre os convivas. Trata-se de Angela, personagem que, antes da sua recente migração para o Universo Marvel, era uma caçadora de Spawns às ordens de Deus.
*Muito antes de Stan Lee se tornar um habitué no Universo Cinemático da Marvel, Todd McFarlane fez um cameo no filme baseado na sua criação suprema. É um dos muitos sem-abrigo que perambulam pela chamada Cidade dos Ratos.

Em Spawn, Laura Stepp emprestou por alguns segundos
 o seu corpo a Angela, ex-caçadora de Spawns agora convertida
em primogénita de Odin e, portanto, irmã mais velha de Thor.
Prémios e nomeações: Apesar da reação adversa por parte da generalidade da crítica, Spawn arrebatou o prémio para Melhores Efeitos Especiais no Festival Internacional de Cinema Fantástico da Catalunha. Certame espanhol em que foi igualmente nomeado na categoria de Melhor Filme.
Essa não foi, porém, a única nomeação recebida. Nos Saturn Awards, Spawn levou ao rubro a disputa pelo galardão para Melhor Caracterização.
Por sua vez, Michael Jai White, John Leguizamo e Theresa Randle foram indicados, respetivamente, para Melhor Ator Estreante, Melhor Ator Secundário e Melhor Atriz Secundária nos Blockbuster Entertainment Awards.
Michael Jai White, Theresa Randle e Jonh Leguizamo
na passadeira vermelha da gala de estreia de Spawn.
Sequela, reboot ou uma mão cheia de nada?

Provisoriamente intitulado Spawn 2, desde 1998 que aquele que seria o segundo capítulo da saga cinematográfica do Soldado do Inferno permanece em banho-maria. Tudo por causa das críticas pouco simpáticas recebidas pelo primeiro filme, e do seu modesto desempenho de bilheteira.
Do projeto pouco se sabe além de que Michael Jai White repetiria o papel principal e que a sequela seria, em boa verdade, um reboot. Isto porque, a exemplo de Batman Begins, serviria para relançar uma franquia que começou coxa. Quem o garantiu foi o próprio Todd McFarlane numa entrevista concedida pouco tempo após a estreia do capítulo inaugural da trilogia do Cavaleiro das Trevas dirigida por Christopher Nolan. Estávamos então em 2005.
Dois anos depois, em 2007, o mesmo McFarlane confirmou, noutra entrevista, a sua intenção de produzir uma segunda longa-metragem de Spawn. Nem que, para isso, tivesse de pagá-la do próprio bolso. Mais dois anos se passaram e nada aconteceu.
Até que, em 2009, McFarlane devolveu alguma esperança aos fãs ao anunciar publicamente que já havia começado a escrever o enredo do novo filme. Baseado, ao que parece, numa história que trazia na cabeça há vários anos. E que seria muito mais aterradora do que aquela que foi apresentada em Spawn. McFarlane pretenderia, aliás, fugir aos clichés do género super-heroico, apesar de este nunca ter sido tão popular junto do grande público.
Seguiram-se vários anos marcados por avanços, recuos e muitos rumores à mistura. Até que, em fevereiro de 2016, McFarlane anunciou ter finalmente pronto o argumento do novo filme. Cuja rodagem, prometeu então, arrancaria dentro de meses. Mais uma vez, ficou-se pelas intenções.
Volvido um ano sobre o bombástico anúncio de McFarlane, são mais as dúvidas do que as certezas em relação a um projeto que parece enguiçado. Apesar disso,o criador de Spawn já começou a levantar a pontinha do véu, revelando alguns pormenores sobre o filme.
Foi assim que os fãs ficaram a saber que se tratará de um thriller sobrenatural com um registo mais macabro do que o primeiro filme e, por conseguinte, mais próximo do material original. Tal como os recentes Deadpool e Logan, a nova aventura cinematográfica de Spawn será pois destinada a uma audiência adulta.
Entretanto, nas últimas semanas começaram a circular rumores na internet acerca da possível contratação do oscarizado Jamie Foxx (Django Libertado) para interpretar o amargurado herói forjado nas entranhas do Inferno.
O tempo dirá, porém, se haverá fogo por detrás de tanta fumaça. Ou se, pelo contrário, será apenas mais uma salva de tiros de pólvora seca...

Jamie Foxx como Al Simmons e Scarlett Johansson como Ângela
num novo filme do Spawn?
Ver para crer!

Veredito: 58%

Vinte anos passados, já quase tudo foi dito acerca de Spawn, havendo portanto pouco a acrescentar. Para grande desgosto dos fãs, boa parte daquilo que foi sendo dito e escrito ao longo desse tempo serviu quase exclusivamente para depreciar um filme que, à partida, teria tudo para ser uma referência dentro do género super-heroico.
Do meu ponto de vista, o grande problema de Spawn foi ter tentado agradar a  gregos e a troianos. E, como quase sempre sucede em casos desses, acabou por desagradar a toda a gente. Senão vejamos: para compensar a derrapagem orçamental da produção, McFarlane e companhia tiveram de ir ao encontro de um público mais abrangente. Tendo, para isso, transformado Spawn em algo que ele nunca foi: um super-herói.

Quem dera a muitos filmes atuais
 este grau de fidelidade aos quadradinhos.
Ao fazê-lo, defraudaram as expectativas dos verdadeiros fãs de uma personagem que, pela sua índole e modus operandi, está muito mais próxima do protótipo de anti-herói. Quem, por outro lado, esperava um escuteiro sorridente sempre pronto a resgatar gatinhos do cimo das árvores ou a ajudar velhinhas a atravessar a rua, deverá ter ficado chocado com a violência dos métodos do Soldado do Inferno. Mesmo tendo a sua ética sido amenizada de molde a corresponder a uma classificação etária que, bem vistas as coisas, praticamente só deixava de fora os bebés prematuros.
A par da trama demasiado simplista, é esse o principal pecadilho de Spawn. Que, ainda assim, não merecia a descida ao Inferno que muitos críticos lhe impuseram. Sobretudo quando o comparamos com o inenarrável Batman & Robin, estreado apenas algumas semanas e que, apesar do orçamento três vezes superior ao de Spawn, continua a ser uma nódoa na história do Universo Cinematográfico DC.
Mesmo a esta distância, Spawn - não sendo, de facto, uma obra-prima - continua a ser um filme que cumpre exemplarmente a sua missão de entreter o espectador. Tanto pelo seus inovadores efeitos visuais como pelas espetaculares sequências de ação; quer, ainda, pelo alívio cómico trazido pelo Palhaço a uma trama carregada de elementos trágicos.
Com efeito, esta é uma daquelas películas em que o herói - tal como se verificou, por exemplo, em O Cavaleiro das Trevas (2008) - é ofuscado pelo carisma do vilão. Não porque Michael Jai White não consiga dar boa conta do recado enquanto Spawn, mas porque o Palhaço - magistralmente interpretado por John Leguizamo-  lhe rouba cada cena.
Em suma, o Purgatório onde Spawn ficou preso é, pois, o castigo pela falta de coragem dos seus autores em darem aos fãs o que eles esperavam e mereciam. Erro que espero ver corrigido no prometido reboot da franquia.
Enquanto este sai e não sai, aproveitem para ver - ou rever - o filme original. Verão que vale a pena.

Uma cria do Inferno
à espera de ser resgatada do Purgatório.


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quinta-feira, 11 de maio de 2017

ETERNOS NICK CARDY (1920-2013)


   As raízes plebeias não o impediram de ser um príncipe da 9ª Arte, cuja magnífica obra continua a ser reverenciada pelos seus pares. Versátil e perfecionista, gostava de chamar a si todo o processo de criação artística, fazendo dele um caso ímpar na sua época. Tão glamorosas como as capas que produziu em série para a DC eram as musas e ninfetas esculpidas pelo seu lápis.

Biografia: Nova-iorquino de gema, Nick Cardy nasceu Nicholas Viscanti a 20 de outubro de 1920, no Lower East Side, pitoresco bairro de Manhattan que, antes da especulação imobiliária dos últimos anos, acolhia tradicionalmente as classes menos endinheiradas. Filho de um casal de modestos imigrantes italianos - o pai operário, a mãe costureira, nenhum deles falando mais do que algumas palavras de inglês - cedo começou a dar sinais de ser um talento precoce e um predestinado das artes.
Para embevecimento dos seus progenitores, com apenas 6 anos de idade o pequeno Nick já desenhava, esculpia e fazia entalhes em madeira. Aos 14, alguns dos murais que pintara para embelezar a comunidade onde cresceu foram fotografados pelo New York Herald Tribune e pela Literacy Digest, o que lhe valeu os seus primeiros minutos de fama.
Nada que, no entanto, lhe subisse à cabeça. Apesar de todo o prestígio que granjearia ao longo da sua exemplar carreira como ilustrador e arte-finalista, a humildade seria um traço indelével da sua personalidade.
Chegado ao secundário, foi pois sem surpresa que, em vez de um liceu convencional, Nick optou por matricular-se na recém-fundada School of Industrial Art. Instituição que, como o próprio nome sugere, se propunha a desenvolver as aptidões artísticas dos seus alunos com vista ao seu ingresso no mercado de trabalho.
Ao longo dos anos que por lá andou, o talento de Nick não passou despercebido nem a colegas nem a professores. Tendo mesmo o seu trabalho artístico sido distinguido com vários prémios e honrarias. Não obstante todo esse reconhecimento, sabia que tinha ainda uma longa aprendizagem pela frente. Passando por isso a frequentar em simultâneo aulas de arte nas filiais nova-iorquinas do Boys Club of America e da Art Students League, duas organizações filantrópicas que, a troco de propinas quase simbólicas, proporcionavam essas e outras atividades extracurriculares a jovens carenciados.
Depois de dizer adeus aos bancos da escola - e sem se poder dar ao luxo de os trocar por os de uma qualquer universidade -, Nick trabalhou durante um curto período de tempo como aprendiz numa agência publicitária antes de ser contratado para o Eisner & Iger.
Corria o ano de 1939, o espectro negro da guerra pairava sobre a Europa, e foi nesse lendário estúdio fundado por Will Eisner e Jerry Iger, dois iconoclastas, que ele deu os primeiros passos na turbulenta indústria dos comics. Que, por esses dias, em contraste com os tempos de chumbo que se aproximavam, vivia a sua época áurea.
Ao mesmo tempo que, na sua qualidade de avençado, desenhava títulos como Fight Comics ou Jungle Comics para a Fiction House (editora extinta nos anos 50 que teve em Sheena, a Rainha das Selvas o seu maior êxito), Nick assinava com o pseudónimo Ford Davis as tiras de Lady Luck publicadas no suplemento dominical do mesmo jornal em que eram também apresentadas as aventuras de The Spirit.

Fight Comics foi um dos títulos da Fiction House
desenhados por Nick Cardy.
Ambas as personagens haviam saído da imaginação de Will Eisner em 1940, motivando meses antes a dissolução da sua sociedade com Jerry Iger. Para o qual Nick continuou no entanto a trabalhar durante mais algum tempo.
Reconhecendo as enormes potencialidades de Nick, Eisner tornou-se seu mentor e confiou-lhe a arte de Lady Luck, para assim se poder dedicar por inteiro àquela que seria a sua criação suprema: The Spirit. Ao que consta, apesar do pseudónimo Ford Davis, o jovem pupilo de Eisner encontrava sempre maneira de inscrever subtilmente as suas verdadeiras iniciais (NV) em pontos estratégicos dos painéis por si ilustrados.
Em qualquer caso, a experiência foi-lhe de grande valia na medida em que, além do próprio Eisner, ela permitiu-lhe trabalhar de perto com outros grandes vultos da 9ª Arte, como Lou Fine, Bob Powell ou George Tuska. Unânimes em reputar Nick como um virtuoso da ilustração cuja humildade só encontrava paralelo na pertinácia que patenteava na constante sublimação do seu traço, caracterizado pela abordagem clássica à anatomia humana aliada a uma inesgotável criatividade.

Will Eisner confiou a sua Lady Luck a Nick Cardy.
Foi também apadrinhado por Eisner que, a partir de finais de 1940, Nick teve oportunidade de trabalhar na Quality Comics (outra das mais proeminentes editoras da Idade do Ouro de onde saiu, entre outros, Plastic Man). Ao serviço da qual foi autorizado pela primeira vez a usar o seu nome de batismo. Optou, todavia, por abreviá-lo - ou americanizá-lo, diriam alguns - como Cardy, apelido com que ficaria imortalizado na história da banda desenhada.
Ao cabo de um par de anos a perfumar com o seu talento alguns dos títulos mais emblemáticos da Quality, Nick Cardy foi contratado pela Fiction House, cujo contingente de artistas residentes reforçaria até ser chamado a vestir a farda do Exército norte-americano em 1943.

Ao serviço da Quality Comics, Nick Cardy pôde usar pela primeira vez
  o seu nome verdadeiro.
Crack Comics foi um dos títulos por onde passou.
Poucos saberão, de resto, que Nick Cardy foi um herói de guerra, condecorado não com um mas com dois Corações Púrpura* correspondentes a outros tantos ferimentos sofridos em combate. É difícil imaginar algo assim com alguém mais habituado a ter lápis e pincéis como armas. E, com efeito, Cardy documentou minuciosamente a sua epopeia de G.I. Joe através de dezenas de esboços e aguarelas.
Nada fazia prever, de facto, grandes atos de bravura por parte do soldado raso Nick Cardy. Inicialmente incorporado na 66ª Divisão de Infantaria dos EUA, passaria a trabalhar como mecânico nas oficinas do quartel-general da unidade após ter vencido um concurso para a conceção da respetiva insígnia. Era essa a única vaga disponível quando um general admirador do seu trabalho resolveu puxar uns cordelinhos para manter Cardy o mais afastado possível da linha da frente. Aonde acabaria mesmo por ir parar quando, nos primeiros meses de 1944, recebeu ordem para se juntar à 3ª Divisão Blindada, então estacionada na Velha Albion.


66th Infantry Division shoulder sleeve insignia.jpg
Em cima: Nick Cardy em pose de galã de cinema;
Em baixo: o logótipo por ele concebido para a 66ª Divisão de Infantaria dos EUA.
Aos comandos de um tanque, Cardy acabaria dessa forma por participar ativamente na invasão da Normandia, operação militar que ditaria em larga medida a vitória aliada na 2ª Guerra Mundial.
Ferido duas vezes em combate, terminaria a sua comissão de serviço em França, num confortável gabinete do Departamento de Informação e Educação do Exército dos EUA.
De regresso à vida civil e à Grande Maçã, o primeiro emprego que Nick Cardy conseguiu foi como freelancer da Fiction House e ilustrador de revistas de palavras cruzadas. Era esse o seu ganha-pão quando, em 1946, conheceu e desposou Ruth Houghty, mãe do seu único filho (falecido em 2001), e com quem se manteria casado até 1969.
Após uma fugaz passagem pelas tiras a preto e branco de Tarzan, em 1950 Nick Cardy iniciou a sua longa colaboração de mais de um quarto de século com a DC. Na Editora das Lendas começou por desenhar duas séries de curta duração - The Legends of Daniel Boone e Congo Bill -, bem como historietas avulsas para House of Mystery e Gang Busters.
Numa época em que era comum os artistas desdobrarem-se entre diferentes géneros, Cardy emprestou também o seu traço a uma panóplia de séries de terror e romance da Standard Comics. Menos comum era um desenhador arte-finalizar o próprio trabalho. Algo que fazia de Nick Cardy se não caso único, pelo menos, uma das poucas exceções à regra.
Em resposta ao novo impulso dado pela Marvel Comics aos super-heróis no princípio dos anos 1960, a DC investiu fortemente nas suas publicações estreladas por essas figuras coloridas que haviam entrado em decadência no pós-guerra. A títulos consagrados como Action Comics, Showcase ou Detective Comics somaram-se assim alguns inéditos, incluindo Aquaman. Que, muito por conta da soberba arte de Nick Cardy, se revelaria uma aposta ganha. Exímio a desenhar criaturas marinhas e correntes marítimas, a fluidez do seu traço criava uma atmosfera subaquática visualmente cativante para dentro da qual os leitores se sentiam transportados.
Vale a pena lembrar que desde a sua estreia, em 1941, nunca o Soberano dos Mares dispusera de uma série própria. Sendo, portanto, justo reconhecer a Nick Cardy o mérito de tê-lo convertido numa das personagens de charneira do Universo DC, após década a viver na sombra de Superman e companhia.

Uma das mais glamorosas capas de Aquaman desenhadas por Nick Cardy.
Beneficiando de uma dinâmica particularmente favorável - especialmente quando Carmine Infantino** foi nomeado editor-chefe da DC - Nick Cardy iniciou uma fase seminal que se prolongaria até ao início da década seguinte. Entre 1962 e 1968 desenhou mais de 40 edições de Aquaman, continuando no entanto como seu capista até ao cancelamento da série em 1971.
Com cada trabalho seu a superar o anterior, algumas das capas que produziu durante esse período tornar-se-iam icónicas. Adjetivo que também se poderia aplicar a Mera, a curvilínea namorada de Aquaman que Cardy ajudara a criar logo em 1963. E que, à imagem e semelhança de tantas outras figuras femininas esculpidas pelo seu lápis, se tornaria uma musa cujas formas voluptuosas pareciam quase tridimensionais. Cardy notabilizou-se de facto por desenhar algumas das mais belas mulheres dos quadradinhos, dotando-as de curvas e não de ângulos.
Além de Mera, Nick Cardy foi também cocriador do Mestre dos Oceanos (Ocean Master, no original), ainda hoje um dos principais antagonistas do Soberano dos Mares.

Mera, a cara-metade de Aquaman, pelo traço de Nick Cardy.
A segunda série da Editora da Lendas para cujo sucesso Nick Cardy deu um importante contributo foi Teen Titans. Ficando a sua passagem por ela marcada por uma estreia e por uma polémica. Esta última suscitada pelo veto de Carmine Infantino a uma história dos Novos Titãs ilustrada por Cardy e que, se não fosse por essa interferência, teria introduzido o primeiro herói negro da história da DC. Já a estreia referia-se ao novo visual da Moça-Maravilha (Wonder Girl).
Objetivando sinalizar a maturidade da antiga adjunta juvenil da Mulher-Maravilha, Cardy substituiu-lhe o velho uniforme - essencialmente um pastiche do da sua precetora - por um modelo mais moderno e arrojado, que se tornaria a imagem de marca da personagem ao longo de mais de duas décadas.

Graças a Nick Cardy, Moça-Maravilha surgiu
de look renovado em Teen Titans #23 (1969).
Fazendo jus à sua reputação de trabalhador incansável, em paralelo a Teen Titans (de que desenhou os 42 primeiros números e outras tantas capas), entre os últimos meses de 1968 e os primeiros de 1969, Nick Cardy assumiu também a arte de Bat Lash. Ambientada no Velho Oeste e protagonizada por um carismático anti-herói muito diferente dos truculentos cowboys, esta série de curtíssimo prazo de validade (expirou ao fim de apenas 7 volumes) procurava reinventar o western, obliterando muitos dos seus clichés ao mesmo tempo que piscava o olho à contracultura que parecia ganhar mais adeptos a cada dia que passava. A combinação de tramas inteligentes, mulheres bonitas e vilões caricaturais tornou-a objeto de culto até aos dias de hoje.
Mesmo tendo fracassado na sua missão primordial de reviver um género moribundo, Bat Lash é por muitos considerada a piéce de résistance de Nick Cardy. Então com 48 anos, o artista viu cimentada a sua posição de importante intérprete da arte sequencial ao escrever também o seu segundo número.
Bat Lash #7 p. 3 (2)
A arte de Nick Cardy atingiu o seu ápice em Bat Lash.
Quando deixou finalmente as histórias dos Novos Titãs, em meados de 1973, Nick Cardy encontrou guarida na Casa das Ideias, onde fez parte da equipa criativa de Marvel Comics' Crazy Magazine, publicação humorística que satirizava elementos da cultura pop, incluindo os super-heróis. Manteve no entanto o seu estatuto de capista de referência da DC, assinando dezenas de capas de Superman, Batman, The Brave and the Bold, entre outros.
No final de 1974, Nick Cardy deixou os fãs em choque ao anunciar a sua retirada dos quadradinhos. Na origem desta inesperada decisão terão estado, dependendo das fontes consultadas, disputas relacionadas com direitos autorais ou a simples necessidade de mudar de ares ao fim de mais de três décadas ao serviço da indústria dos comics.
Certo é que quando trocou os quadradinhos pela arte comercial, passou a assinar como Nick Cardi as suas novas empreitadas. Que, além de ilustrações publicitárias, incluíam também cartazes promocionais de filmes. Sendo o mais icónico do seu portefólio aquele que concebeu para Apocalipse Now, a odisseia bélica dirigida em 1979 por Francis Ford Coppola.
1996 marcaria o regresso, ainda que interino, de Nick Cardy aos quadradinhos e à DC, casa que tão bem conhecia. Nesse ano foi um dos desenhadores convidados a participarem em Superman: Wedding Album, volume especial lançado para assinalar o casamento do Homem de Aço com o seu amor de sempre, Lois Lane. A sua despedida definitiva aconteceria em março de 2001, quando desenhou duas páginas de Titans #25, herdeiro do título que, quatro décadas antes, Cardy ajudara a catapultar para a ribalta.

A última capa desenhada por Nick Cardy para a DC, em 2000,
homenageava os Titãs originais,
Apesar das alterações de estilo ao longo dos anos, a arte de Nick Cardy primou sempre pela elevada qualidade. Dotando-o de um incomparável dom narrativo que lhe permitia contar histórias quase sem necessidade de suporte textual E se ele é menos conhecido entre os fãs atuais do que alguns dos seus contemporâneos isso deve-se ao facto de ele não ter tido oportunidade de desenhar com maior regularidade os principais ícones da DC, começando pela Trindade (Batman, Superman e Mulher-Maravilha). O que não obstou a que sua obra continue a ser admirada pelos seus pares, aos quais ainda hoje serve de referência.
Falecido em novembro de 2013, aos 93 anos, em resultado de problemas cardíacos, Nick Cardy viveu tempo suficiente para ver o seu trabalho reconhecido. Depois de, em 1998, ter sido galardoado com um Inkpot Award (prémio anual que, desde 1974, distingue os melhores profissionais do entretenimento), em 2005 foi um dos quatro nomes indicados pela indústria dos quadradinhos para o Will Eisner Comic Book Hall of Fame. Sendo também, a partir de hoje, um dos Eternos da 9ª Arte a abrilhantar este blogue com a sua solene presença. Dado o desconhecimento geral das novas safras de leitores relativamente à obra de Nick Cardy, penso que divulgá-la será a melhor das homenagens a prestar-lhe.

Uma das últimas fotografias de Nick Cardy, tirada em sua casa
pouco tempo antes de o artista se despedir do mundo dos vivos.

*Purple Heart (ou Coração Púrpura) é uma comenda militar atribuída pelo Presidente dos EUA aos veteranos de guerra feridos no campo de batalha;
** Perfil disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2013/06/eternos-carmine-infantino-1925-2013.html

Galeria de capas: 


The Brave and the Bold #94 (DC Comics, março de 1971)


Bat Lash #1 (DC Comics, novembro de 1968)

Aquaman #1 (DC Comics, fevereiro de 1962)

Congo Bill #1 (DC Comics, setembro de 1954)

DC Special #3 (DC Comics, Abril de 1969)
Falling in Love #119 (DC Comics, novembro de 1970)

Crazy Magazine #15 (Marvel Comics, janeiro de 1976)

The Deadly Hands of Kung Fu #18 (Marvel Comics, novembro de 1975)


















quinta-feira, 27 de abril de 2017

HERÓIS EM AÇÃO: X-0 MANOWAR


  Com o ímpeto e a bravura de um guerreiro Visigodo nascido no campo de batalha, chegou aos nossos dias aos comandos de uma das mais poderosas armas da galáxia, que usa para defender um mundo que mal compreende. 
  Produto da imaginação de duas lendas vivas da 9ª Arte, X-0 Manowar é figura de proa do Universo Valiant e um fenómeno de sucesso por terras do Tio Sam. Continua a ser, porém, um ilustre desconhecido para boa parte do público lusófono.

Licenciadoras: Valiant Comics (1992-1996), Acclaim Comics (1997-1999) e Valiant Entertainment (desde 2012)
Criadores: Jim Shooter (história) e Bob Layton (arte conceitual)
Primeira aparição: X-0 Manowar nº1 (fevereiro de 1992)
Identidade civil: Aric de Dácia e Donovan Wylie (na versão da Acclaim Comics)
Local de nascimento: Dácia*, século IV d. C.
Parentes conhecidos: Rolf e Inga (pais, falecidos); Rei Alaric (tio, falecido); Deidre (ex-esposa, falecida); Saana (esposa) e Jhukka (filha ainda por nascer)
Base de operações: Móvel
Afiliações: Visigodos e Unidade **
Armas, poderes e habilidades: Como qualquer guerreiro da Antiguidade forjado por incontáveis pelejas, Aric maneja a espada com notável destreza e, muito por conta da sua robustez física, é um exímio lutador corpo a corpo. Habituado a comandar as hordas dácias no campo de batalha devido ao seu estatuto de herdeiro do trono, é um líder experimentado e um hábil estrategista. Sobrevém, no entanto, do seu exoesqueleto alienígena o seu formidável poderio bélico.
Segundo a lenda, milénios atrás a Shanhara (assim se chama a armadura de X-0 Manowar) terá crescido de uma planta mística estranha à flora de Loam, o planeta-metrópole do império galáctico da Vinha. Quando essa raça de aranhas humanoides (anteriormente designada Spider Aliens) foi escravizada por uma outra conhecida apenas como Tormenta, um dos seus representantes encontrou o traje e serviu-se do seu imenso poder de fogo para repelir sozinho a agressão contra o seu povo, tornando-se assim o seu campeão.
De origem e propósito ainda desconhecidos, a Shanhara é na verdade uma entidade senciente composta por uma amálgama de elementos orgânicos e de metais exóticos que estabelece uma relação simbiótica com o seu usuário. Cuja escolha não obedece, contudo, a critérios aleatórios. 
Antes de perecer, o hospedeiro original da Shanhara profetizou o advento de um escolhido digno de usá-la, e que guiaria Loam a uma era de prosperidade sem precedentes.
Na expectativa do cumprimento da profecia, ao longo dos séculos que seguiram os altos sacerdotes da Vinha - que haviam alçado a Shanhara ao estatuto de divindade - procuraram incessantemente por um substituto capaz de suportar o poder da armadura. Nenhum dos candidatos sobreviveu, porém, ao processo.
Foi, por isso, com um misto de estupefacção e ultraje que os clérigos da Vinha testemunharam a bem-sucedida comunhão da Shanhara com Aric, o humano que haviam abduzido anos antes e que vinham escravizando desde então.
Perante a incapacidade em compreender as razões que levaram o simbionte tecno-orgânico a escolher Aric como seu hospedeiro, o Conselho da Vinha teorizou que isso se deverá eventualmente ao facto de, salvo pelo seu primeiro usuário, os membros da sua espécie serem geneticamente incompatíveis com a entidade.
Aric e Shanhara partilham, de facto, uma relação singular; tão singular que é preservada mesmo quando os dois se encontram separados. No entanto, apesar de forte, o vínculo telepático entre ambos não é indestrutível. 
Num passado recente, Livewire, uma tecnopata ao serviço da Fundação Harbinger (organização secreta responsável pelo recrutamento de jovens dotados de poderes psiónicos, para salvaguarda da Humanidade), conseguiu sobrecarregar a conexão do traje a Aric, tornando-se depois sua usuária durante um curto período de tempo.

Aric e Shanhara: separação dolorosa.
Assim como a sua origem e propósito, suspeita-se que também a real amplitude do poder da Shanhara poderá ainda não ter sido totalmente revelada. A despeito disso, a vasta gama de recursos com que capacita o seu usuário é suficiente para fazer dela uma das armas mais temidas e poderosas da galáxia.
Desde logo porque, à superforça e ao teletransporte, somam-se a invulnerabilidade e o poder de voo. Como se isso não fosse suficientemente impressionante, o traje possibilita também a manipulação de vários tipos de energia. Seja sob a forma de rajadas concussivas seja através da projeção de construtos ou de campos de força. Dispondo ainda de lançadores de mísseis acoplados nos pulsos. Tudo somado, a Shanhara faz do seu usuário um exército de um homem só.
Qualquer idioma - terrestre ou extraterrestre - é instantaneamente traduzido pela armadura. Que pode ainda interagir com complexas formas de tecnologia ou fornecer telepaticamente vastas quantidades de informação ao seu usuário. 
Outra das mais extraordinárias valências da Shanhara consiste na sua capacidade de curar moléstias ou ferimentos potencialmente fatais para o seu hospedeiro ou para terceiros (certa vez, Aric usou-a para salvar a vida do seu melhor amigo).
Apesar das suas características singulares, a Shanhara não é um espécime único. Espalhadas pelo Universo, existe um número indeterminado de armaduras sencientes, ao serviço de múltiplas raças alienígenas. Devendo, por isso, a Humanidade estar grata por ter X-0 Manowar como seu padroeiro.

*Território geográfico situado na região dos Cárpatos que, na Antiguidade, serviu de lar aos dácios (tribo setentrional aparentada com os trácios) e que corresponde, grosso modo, à Roménia e à Moldávia atuais. Até à sua conquista pelos romanos, em 102 d. C., a Dácia era um reino independente que tinha em Sarmisegetuza a sua capital.
**Unity no original, é um coletivo heroico composto por alguns dos mais poderosos superseres da Valiant Comics, originalmente reunidos para defrontar X-0 Manowar que, mais tarde, seria admitido na equipa.

Máquina de guerra em ação.

Histórico de publicação: Duas lendas vivas da Nona Arte, Joe Shooter e Bob Layton* dividem entre si a "paternidade" de X-0 Manowar. Escritor veterano e multipremiado, o primeiro fez praticamente todo o seu percurso profissional ao serviço da Marvel Comics, onde, ao longo de quase uma década, desempenhou as funções de editor-chefe. Precisamente aquelas de que seria investido na Valiant Comics, projeto de que fora aliás um dos fundadores. Já o segundo tivera na sua passagem pelas histórias do Homem de Ferro, na viragem da década de 1980, um dos pontos mais altos da sua fulgurante carreira de escritor e ilustrador.
Foi, pois, da junção desses dois vibrantes talentos que nasceu uma personagem fadada ao sucesso, conforme o ratificam os milhares de edições vendidas e o sortido de comendas e nomeações que foi averbando, sobretudo desde o seu relançamento em 2012. Ano em que, outras distinções, a sua nova série periódica foi contemplada com o Diamond GEM Award para a melhor edição do ano acima dos 3 dólares. Feito tanto mais assinalável em se tratando de um título publicado por uma editora recém- refundada.


Jim Shooter (em cima) e Bob Layton,
os criadores de X-0 Manowar.
Mas puxemos atrás o filme dos acontecimentos. Recuemos exatamente duas décadas até chegarmos a 1992. Em fevereiro desse ano, X-0 Manowar fazia a sua estreia em X-0 Manowar nº1. Alguns dos conceitos apresentados nessa edição histórica haviam no entanto já sido inseridos por Jim Shooter em Magnus, the Robot Fighter. Além da Shanhara, também as Spider Aliens tinham marcado presença nas aventuras desse herói clássico outrora propriedade da Gold Key Comics, mas cujos direitos de licenciamento eram agora detidos pela Valiant.

O nascimento do guerreiro em X-0 Manowar nº1 ( Valiant Comics, 1992).
Com 69 números publicados, a primeira série de X-0 Manowar, a exemplo de vários outros títulos da neófita editora, fez furor entre os leitores que dela fizeram uma campeã de vendas no período que precedeu o seu cancelamento, em setembro de 1996. Circunstância ditada, note-se, não por um súbito declínio, mas sim pela intenção da Acclaim Entertainment (a nova dona da Valiant) de produzir jogos de vídeo baseados em super-heróis. Necessitando, para esse efeito, de torná-los mais adaptáveis a essas plataformas. Requisito que, por sua vez, motivou no ano seguinte o relançamento (reboot, para os mais versados na terminologia nerd) de diversas personagens. Começando, claro, por aquela que era uma das figuras de proa do Universo Valiant: X-0 Manowar. 
Sem surpresas, foi ele o escolhido para, em conjunto com o Homem de Ferro, coprotagonizar Iron Man and X-0 Manowar in Heavy Metal, jogo de vídeo lançado logo em 1996 pela Acclaim Entertainment. Mas que esteve longe de encher as medidas aos fãs e à crítica especializada, que o descreveu mesmo como "aborrecido" e "dececionante".
Nessa sua nova encarnação sob a chancela da Acclaim Comics, X-0 Manowar teve a sua origem recontada e ganhou novo alter ego. Aric de Dácia cedeu, assim, o lugar a Donovan Wylie (vide texto seguinte) na segunda série de X-0 Manowar. Que, apesar de ter nos consagrados Mark Waid e Brian Augustyn a sua equipa criativa, foi incapaz de reeditar o êxito da sua antecessora, acabando cancelada em 1998, ao fim de 21 números publicados.

O renascer de um mito em X-0 Manowar nº1 (Acclaim Comics, 1996).
Quatro anos depois, em 2002, seria a vez de a própria Acclaim cerrar portas em consequência das dificuldades de tesouraria da sua divisão de jogos eletrónicos. Game over para X-0 Manowar? Como em tantos outros casos, as notícias acerca da sua morte foram manifestamente exageradas.
Empurrado para o limbo editorial, X-0 Manowar teria de esperar até 2008 para dele ser finalmente resgatado. Agora sob os auspícios da Valiant Entertainment (a nova denominação da rediviva editora fundada por Jim Shooter e companhia), nesse ano foi dada à estampa X-0 Manowar: Birth, uma antologia de luxo que compilava os sete primeiros números da série original. Recolorida digitalmente, a coleção incluía ainda, como bónus, uma história inédita da autoria de Bob Layton.
O regresso à ribalta só se cumpriria quatro anos depois, em 2012, quando X-0 Manowar voltou a dispor de um título em nome próprio. Escrita por Robert Venditti e com arte de Cary Nord, a terceira série de X-0 Manowar, apesar do bom desempenho comercial, não escapou ao cancelamento ocorrido em meados do ano transato após um hiato de alguns meses na respetiva publicação.
Podem no entanto os fãs aquietar os espíritos porque a Valiant já confirmou entretanto a sua intenção de lançar uma quarta série de X-0 Manowar. Por ora sabe-se apenas que ela terá tramas a cargo de Matt Kindt. Preveem-se, por isso, novidades dentro dos próximos meses, inclusive no que à escolha do artista diz respeito.

De volta às origens em X-0 Manowar  nº1 (Valiant Entertainment, 2012).
*Perfil disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/07/eternos-bob-layton-1953.html

Guerra de armaduras.
Origens: Na versão canónica da sua história, introduzida pela Valiant Comics, Aric de Dácia era um bravo guerreiro Visigodo nascido em pleno campo de batalha, e para quem a paz nunca fora mais do que uma quimera. Sobrinho do Rei Alaric, era também o legítimo herdeiro do trono quando, no dealbar do século V d.C., o seu povo lutava para se libertar do domínio do Império Romano.
Após uma clamorosa derrota imposta pelo exército ocupante, os Visigodos bateram em retirada para o seu campo, apenas para descobrirem que, na sua ausência, muitas das suas mulheres e crianças haviam sido capturadas pelos Romanos. Entre os cativos encontravam-se Deidre e Inga, a esposa e a mãe de Aric. Que já havia perdido também o pai no decurso da escaramuça com os soldados imperiais.

O destino de Aric de Dácia estava escrito nas estrelas.
Na esperança de conseguirem resgatar os seus entes queridos, um grupo de guerreiros Visigodos chefiados por Aric planearam atacar nessa mesma noite o forte Romano onde eles se encontravam aprisionados. Foram, no entanto, surpreendidos por batedores da Vinha, uma brutal raça de esclavagistas alienígenas.
Levados para os confins do espaço sideral a bordo da nave-mãe da Vinha, Aric e os seus companheiros passaram os anos seguintes a trabalhar como escravos nos campos agrícolas existentes no seu interior.

Comandante Trill, um dos mais desapiedados membros da Vinha
 e inimigo figadal de X-0 Manowar.
Dono de uma vontade inquebrantável, Aric nunca desistiu de voltar para junto daqueles que amava e, quando a oportunidade se materializou, liderou uma rebelião contra os seus captores. Durante a qual invadiu um templo sagrado da Vinha, roubando a sua maior relíquia: Shanhara, uma armadura senciente que era também uma das mais poderosas armas da galáxia.  Aos comandos da qual conseguiu finalmente escapar da nave. A duras penas, no entanto, já que foi obrigado a deixar para trás os seus companheiros moribundos.
De volta à Terra, Aric ficou mortificado ao descobrir que, devido a um fenómeno de dilatação temporal induzido pela velocidade da luz a que se movia a nave da Vinha, haviam passado de facto 1600 anos desde a sua abdução.
Preso no século XXI, não foi fácil para Aric, mesmo com a ajuda da Shanhara, ajustar-se à realidade dos nossos dias. Ao cabo de muitas peripécias e alguns encontros - nem sempre amistosos -  com outros super-heróis do Universo Valiant, acabaria por assumir o controlo das Indústrias Orbe, uma poderosa multinacional secretamente fundada pela Vinha com o propósito de influenciar os destinos da Humanidade.

Um bárbaro à deriva na civilização.
Um homem fora do seu tempo, X-0 Manowar é desde então o campeão de um mundo que ainda mal compreende.
Problema que nunca afligiu Donovan Wylye, a sua contraparte introduzida pela Acclaim Comics. Um brilhante cientista militar, Wylie operava uma sofisticada armadura de combate apreendida pelo Governo americano aos nazis durante a II Guerra Mundial.
De origem desconhecida, o traje deste segundo X-0 Manowar pouco tinha a ver com o modelo original. Sendo descrito como um artefacto usado ao longo de diferentes épocas por uma miríade de guerreiros.Havendo, no entanto, um reverso da medalha.
Ao mesmo tempo que concedia enorme poder de fogo ao seu usuário, o traje drenava-lhe a energia vital, deteriorando-lhe o corpo e a mente. Outra diferença residia na natureza do vínculo estabelecido entre ambos. Em vez de uma conexão telepática, a nova armadura fundia-se ao sistema nervoso central do seu hospedeiro, não podendo ser removida sem que daí resultasse a sua morte. Contingência para a qual, malgrado os esforços envidados nesse sentido, Donovan Wylie nunca conseguiu solucionar.


Donovan Wylie estava refém da sua armadura.

Apontamentos:

*O Homem dos Mapas (Map Giver, um sósia quase perfeito de Elvis Presley) foi quem, na versão original da história de X-0 Manowar, usou uma lasca de osso para entalhar na palma da mão de Aric o mapa que o conduziu à Shanhara;
*Antiga escrava, Deidre reverenciava Lug, uma das principais divindades do panteão celta à qual Aric se converteu depois de desposá-la; 
*Em X-0 Manowar Yearbook (1995) foi explicitada a génese da inimizade jurada entre Gilad Anni-Padda - o herói imortal conhecido como Guerreiro Eterno (Eternal Warrior) - e Aric. Após ter sido salvo por este de uma cilada montada por saqueadores, Gilad retribuiu denunciando aos Romanos a localização do campo dos Visigodos. Em consequência do ataque que se seguiu, Deidre,, perdeu o bebé de Aric que carregava no ventre. O vil ato de traição de Gilad fez no entanto parte de uma conjura que provocou a queda do Império Romano e abriu caminho à entronização de Alaric, rei dos Dácios e tio de Aric.

Um guerreiro tão eterno como o ódio que lhe devota X-0 Manowar.

Noutros segmentos culturais: Resume-se por enquanto ao já mencionado Iron Man and X-0 Manowar in Heavy Metal - jogo eletrónico lançado pela Acclaim em 1996 - a presença do herói criado por Jim Shooter e Bob Layton em outras plataformas que não a banda desenhada.  Cenário que poderá, contudo, alterar-se significativamente num futuro próximo.
Numa entrevista recentemente concedida ao canal do YouTube Variant Comics, o atual presidente-executivo da Valiant Entertainment,  Dinesh Shamdasani, anunciou os planos da companhia para a criação do seu próprio Universo Estendido. O que, a concretizar-se, abrirá uma nova frente de combate na guerra mediática que vem sendo travada nos últimos anos pelas arquirrivais Marvel e DC.
Na esteira dessas declarações de Shamdasani, o New York Times adiantou entretanto que se encontram atualmente em curso negociações entre a Valiant e a DMG Entertainment, uma produtora cinematográfica de Los Angeles com forte implantação no mercado chinês e cuja filmografia inclui Iron Man 3.
Além de uma série de ação real baseada em Ninjak e de um filme de Bloodshot (duas das coqueluches da Valiant), estará também na calha uma longa-metragem estrelada por X-0 Manowar. 
Notícias que soarão certamente como música aos ouvidos dos fãs da Valiant, ansiosos por verem as suas personagens favoritas a ganharem vida no pequeno e grande ecrãs.

Metal pesado em defesa do Universo.