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sexta-feira, 13 de outubro de 2017

HERÓIS EM AÇÃO: CAPITÃO MARVEL


  Nos anos de chumbo da guerra e da Grande Depressão, fulminou o desalento de uma geração com os seus relâmpagos de otimismo. Velha glória da Fawcett Comics, demoliu o mito da invencibilidade do Homem de Aço e foi o primeiro super-herói adaptado ao cinema. Mesmo sem o fulgor de outrora, continua a ser uma das personagens mais acarinhadas pelos fãs, e um garrido lembrete de uma época de maior simplicidade.


Nota prévia: Para uma melhor compreensão da génese do Capitão Marvel, do seu impacto cultural durante a Idade de Ouro da banda desenhada e das incidências do processo judicial em que se viu enredado, é altamente recomendável a leitura do meu artigo anterior.

Denominação original: Captain Marvel (renomeado oficialmente de Shazam em 2011)
Licenciadora: Fawcett Comics (1939-1953) e DC Comics (desde 1972)
Criadores: Bill Parker (história) e Charles Clarence "C.C." Beck (arte conceptual)
Estreia: Whiz Comics nº2 (Fevereiro de 1940)
Identidade civil: William Joseph "Billy" Batson
Local de nascimento: Fawcett City
Parentes conhecidos: C.C. e Marilyn Fawcett (pais, falecidos); Mary Batson/Mary Marvel (irmã gémea); Ebenezer Batson (tio) e Sinclair Batson (primo, falecido)
Ocupação: Repórter, locutor radiofónico e aventureiro
Base operacional: Fawcett City e Pedra da Eternidade (originalmente, o covil do Mago Shazam onde os 7 Pecados Mortais se encontravam aprisionados, é hoje descrita como um nexo interdimensional e um estação de poder para os portadores do relâmpago mágico)
Poderes, armas e habilidades: Acrónimo de Salomão, Hércules, Aquiles, Zeus, Atlas e Mercúrio, sempre que a palavra "Shazam" é proferida por Billy Batson, a entidade mística conhecida como Capitão Marvel é invocada.
Apesar desta conexão do herói com as figuras mitológicas enumeradas ter vindo a esbater-se em versões mais recentes, ele continua a extrair delas as suas assombrosas habilidades. Assim, o Capitão Marvel possui a sabedoria de Salomão, a força de Hércules, a coragem de Aquiles, o poder de Zeus, o vigor de Atlas e a velocidade de Mercúrio. Cujo somatório justifica plenamente o epíteto de Mortal Mais Poderoso da Terra.
A este impressionante catálogo clássico de poderes e habilidades foram acrescentados mais uns quantos recursos no âmbito da sua reformulação em Os Novos 52. Além de conseguir agora teletransportar-se, o Capitão Marvel adquiriu nesse contexto a capacidade de manipular o relâmpago mágico responsável pela sua transformação. Aporte que, entre outras proezas, lhe permite lançar rajadas elétricas pelas mãos.
Outra novidade consiste no facto de, uma vez proferida a palavra mágica, a metamorfose de Bill Batson só ocorrer se for esse o seu desejo.

Shazam: com 6 letrinhas apenas se escreve uma história de sucesso.

Vulnerabilidades: Apesar da sua elevada resistência à magia, o Capitão Marvel não lhe é completamente imune. Sendo, portanto, suscetível a ataques místicos de grande envergadura lançados por magos de primeira grandeza como o Senhor Destino ou Zatanna.
Originalmente, nas situações em que a Família Marvel atuava em conjunto, sobrevinha daí um fracionamento dos respetivos poderes. Se, por exemplo, três dos seus membros estivessem ativos em simultâneo, cada um deles dispunha apenas de um terço da magia de Shazam. Esse constrangimento foi, contudo, abolido após a reformulação do Capitão Marvel no âmbito dos Novos 52, passando dessa forma o herói a conservar a plenitude dos seus poderes mesmo quando secundado pela Família Marvel.
Por outro lado, o mesmo relâmpago mágico que transforma o pequeno Billy Batson no Mortal Mais Poderoso da Terra pode também ser usado para reverter o processo. Expediente ao alcance de poucos mas que, no passado, foi já utilizado por Adão Negro para sobrepujar o herói.
Criança em corpo de adulto, o Capitão Marvel (pelo menos na sua versão clássica) tende a ser excessivamente otimista, e até mesmo ingénuo. Se em determinados contextos isso o investe de uma certa superioridade moral, noutros representa uma fraqueza passível de ser explorada pelos seus adversários ou de o tornar alvo da condescendência dos seus pares.
De igual modo, também a inexperiência do herói condiciona muitas vezes a forma como emprega os seus poderes, cuja real extensão ele desconhece ainda.

A ingenuidade de Billy Batson
 é um dos pontos fracos do Capitão Marvel.
Conceção 

Ia já adiantado o ano de 1939 quando, em resposta ao enorme sucesso alcançado por Superman e Batman (ambos propriedade da National Comics, antepassada da atual DC), a Fawcett Publications  resolveu lançar a sua própria linha de super-heróis.
Escriba talentoso, Bill Parker foi cooptado para criar o naipe de personagens que deveriam abrilhantar o novo título periódico que sinalizaria o ingresso da Fawcett no cada vez mais apetecível mercado dos quadradinhos. Além de Spy Smasher, Dan Dare, Ibis the Invincible e Golden Arrow, Parker imaginou também um sexteto heroico em que cada um dos elementos que o compunham detinha um poder concedido por uma figura mitológica.
Quando Parker explanou esta última ideia a Ralph Daigh, o diretor-executivo da Fawcett Comics sugeriu-lhe que combinasse os seis poderes num só herói. Parker anuiu e, poucos dias depois, regressou ao gabinete de Daigh para lhe apresentar Captain Thunder. Personagem que, como mais adiante se perceberá, serviu de protótipo ao Capitão Marvel.
A tarefa de desenhar a história de Parker foi confiada a Charles Clarence Beck, artista veterano da Fawcett com um estilo fortemente influenciado pela estética dos cartunes. Esse traço quase caricatural tornar-se-ia, de resto, a imagem de marca das aventuras do Capitão Marvel ao longo da Idade do Ouro.

C.C. Beck (1910-1989),
um dos mais brilhantes iconoclastas da Idade do Ouro dos comics.
Anos mais tarde, Beck recordaria em entrevista como tudo se processou: "O chefe (Roscoe K. Fawcett, fundador da Fawcett Comics) queria um Superman que fosse também um menino.Quando eu e o Bill começámos a trabalhar nas histórias do Capitão Marvel, constatámos quão precárias eram a escrita e a arte da generalidade das publicações com super-heróis. Chegavam a ser medíocres! Decidimos, por isso, brindar os nossos leitores com material de qualidade. O que era sinónimo de histórias bem escritas, bem ilustradas e que não se limitassem a reproduzir as estafadas fórmulas narrativas da literatura pulp. Era isso que nos propúnhamos fazer. Porque, em boa verdade, ninguém o fizera ainda. E uma boa maneira de o conseguirmos seria revisitando conceitos retirados do folclore e da mitologia clássica."
Diferentes fontes de inspiração influenciaram a conceção do Capitão Marvel. Que teve, contudo, no ator Fred MacMurray (muito popular à época) o seu principal modelo anatómico. Pese embora sejam igualmente legítimas as comparações com outros galãs de Hollywood seus contemporâneos, como Cary Grant e Jake Oakie.

O Capitão Marvel foi tirado a papel químico
 do ator Fred MacMurray.
Na base da escolha do nome do alter ego do herói - um rapazote chamado Billy Batson - esteve a alcunha castrense através da qual o fundador da Fawcett Publications se notabilizara: Capitão Billy.
A estes elementos averbaram-se outros decalcados daquele que era então o super-heróis mais popular da Idade do Ouro. Tal como o Superman, também o Capitão Marvel possuía força descomunal, supervelocidade e um repórter como identidade secreta. Características comuns que lhe valeram a preferência dos leitores, mas, também, um danoso processo por plágio movido pela National Comics.

Histórico de publicação 

Apenas para fins de depósito legal e de divulgação, a primeira - e única - historieta de Captain Thunder foi dada à estampa no outono de 1939 e inclusa tanto em Flash Comics nº1 como em Thrill Comics nº1. Nenhum deles pôde, no entanto, ser registado dada a existência de conceitos homónimos já detidos por outras editoras.
Em virtude desses constrangimentos, e por sugestão do ilustrador Pete Costanza, Captain Thunder seria rebatizado de Captain Marvelous antes de ver o seu nome abreviado para Captain Marvel pelos editores da Fawcett. Quanto à série mensal destinada a acolhê-lo, teve o seu título alterado para Whiz Comics, em singela homenagem ao almanaque humorístico que, duas décadas antes, estivera na base da fundação da Fawcett Publications.
Datado de fevereiro de 1940, o segundo número de Whiz Comics não serviu, contudo, apenas de palco à estreia do Capitão Marvel. Também aquele que seria o seu arqui-inimigo - o diabólico cientista conhecido como Doutor Sivana - se deu a conhecer nessa edição histórica. Com meio milhão de exemplares vendidos, dificilmente a estreia da nova coqueluche da Fawcett poderia ter sido mais auspiciosa.

A trepidante estreia do Capitão Marvel
em Whiz Comics nº2 (1940).
De facto, inebriados pelo otimismo que infundia as histórias do Capitão Marvel, os leitores - que nelas encontravam uma escapatória a um opressivo quotidiano marcado pela guerra e pela incerteza - depressa fizeram dele o novo campeão de vendas, em detrimento do Superman.
Além do tom divertido das aventuras do Mortal Mais Poderoso da Terra - amiúde salpicadas por notas de surrealismo - , parte do seu sucesso poderá também ser explicado pela circunstância das histórias serem quase sempre narradas sob o ponto de vista de uma criança.
Era Billy Batson quem, ao microfone da estação de rádio WHIZ, ia relatando as façanhas da sua persona heroica. Conseguindo dessa forma estabelecer uma forte empatia com a sua audiência maioritariamente composta por pessoas de palmo e meio como ele.

Era o próprio Billy Batson quem muitas vezes
 servia de narrador às aventuras do Capitão Marvel.
Ano de glória para o Capitão Marvel, 1941 ficou marcado pela sua adaptação ao cinema (ver Noutros media) e pela sua ubiquidade nas publicações da Fawcett Comics. A Whiz Comics, o herói acrescentou um título em nome próprio - Captain Marvel Adventures - e participações regulares em Master Comics e Wow Comics. Ainda nesse ano seria lançado o primeiro spin-off. Capitão Marvel Jr. - que, ao contrário do original, não se transformava em adulto ao pronunciar "Shazam" - inaugurou uma igualmente bem-sucedida franquia.
Com efeito, entre 1945 e 1954, a Família Marvel (cujo núcleo duro incluía ainda Mary Marvel) teve as suas aventuras publicadas em The Marvel Family, outro dos títulos de charneira da Fawcett Comics, e um dos mais populares durante a Idade do Ouro. Mas que, à semelhança do restante catálogo super-heroico da editora, teria morte prematura em resultado do acordo extrajudicial negociado com a National Comics após longa e inconclusiva batalha travada na barra dos tribunais.

As aventuras da Família Marvel
encantaram toda uma geração de leitores.
Do purgatório onde se viu preso durante quase uma vintena de anos, o Capitão Marvel assistiu impotente ao desvanecimento da Idade do Ouro e à progressiva decadência dos super-heróis. Mas também a algumas tentativas frustradas de reabilitação.
Como aquela levada a cabo, logo em 1953, pela L. Miller and Son, pequena editora britânica que republicava histórias antigas de super-heróis em terras de Sua Majestade.
Ao ver-se subitamente privada do material original que lhe era fornecido pela Fawcett Comics, a L. Miller and Son requisitou uma versão genérica do Capitão Marvel ao escritor Mike Anglo.
Nascia assim Marvelman, galante herói com poderes idênticos aos do Capitão Marvel, obtidos sempre que ele vociferava "Kimota" ("Atomik" lido de trás para a frente). Até 1963, ano em que teve as suas histórias suspensas, Marvelman (atualmente conhecido como Miracleman) substituiu o Mortal Mais Poderoso da Terra no imaginário popular da Velha Albion. Tendo também aportado em Terras Tupiniquins, onde atendia pelo nome de Jack Marvel.
Em 1966, seria a vez da M.F. Enterprises (obscura editora nova-iorquina que cerraria portas no ano seguinte) lançar o seu pastiche do Capitão Marvel. Alegadamente baseado numa personagem criada por Carl Burgos ("pai" do Tocha Humana original), este herói com prazo de validade curto era um androide de origem extraterrestre cuja principal habilidade consistia em dividir o seu corpo em várias partes autónomas. Processo desencadeado sempre que ele gritava "Split" (palavra inglesa para "dividir") e revertido quando proferia "Xam"(sem tradução aplicável). Outra das suas originalidades residia no facto de ter um mentor humano chamado Billy Baxton.

Nasceu em terras de Sua Majestade
o primeiro genérico do Capitão Marvel.
No que muitos percecionarão como um ato de justiça poética (ou de inenarrável cinismo), em 1972, no rescaldo da chamada Idade de Prata da banda desenhada, a DC Comics, por iniciativa do seu editor-chefe, Carmine Infantino, adquiriu os direitos de licenciamento da quase totalidade das personagens da Fawcett Comics. Lote que incluía, obviamente, toda a Família Marvel, ou não tivesse sido esta a franquia que a Editora das Lendas mais cobiçara à antiga rival.
Assim resgatado do ostracismo por quem a ele o havia condenado, esperava-se um regresso triunfal do Capitão Marvel. Sucede que a sua incorporação na continuidade da DC foi seriamente dificultada por consecutivos percalços.
Começando pela impossibilidade de o Capitão Marvel dispor de um título em nome próprio. Isto porque, durante o seu longo exílio, a Marvel Comics havia patenteado uma personagem homónima, obrigando desse modo a titular de Shazam a nova série mensal do Mortal Mais Poderoso da Terra, que deveria ter servido para devolvê-lo à ribalta.

Cover
Em 1973, a estreia do Capitão Marvel
 no Universo DC foi apadrinhada pelo Superman.
No entanto, fruto de circunstâncias várias, em momento algum a antiga joia da coroa da Fawcett Comics conseguiu recuperar o seu fulgor de outrora. Tardando mesmo em afirmar-se no Universo DC, conforme demonstra o fracasso de todas as séries epónimas lançadas até à data.
Reduzido a uma espécie de coadjuvante de luxo e supletivo da Liga da Justiça, o Capitão Marvel foi oficialmente renomeado de Shazam em 2011. Ano a que remonta também, no contexto mais amplo dos Novos 52, a última tentativa de revitalização de que foi alvo. Além da mudança de nome, teve também a sua origem e visual retocados (mais pormenores no texto seguinte). Mas nem por isso os resultados foram mais satisfatórios.

Origem 

Na sua primeira aparição em Whiz Comics nº2 (fevereiro de 1940), Billy Batson era um pequeno órfão que sobrevivia graças ao seu trabalho como ardina e que tinha numa estação de metro abandonada o seu lar improvisado.
Conduzido, certo dia, por uma misteriosa figura ao covil subterrâneo do Mago Shazam, Billy ficou a saber como o ancião vinha usando os poderes das divindades cujas iniciais compunham o seu nome para combater o Mal nos últimos 3 mil anos.
Demasiado velho para prosseguir tão exigente missão, Shazam escolhera Billy para seu sucessor por causa do infortúnio do rapaz. Sendo nesse momento revelado que ele fora vítima da ganância de um tio que, após o falecimento dos seus pais, o expulsara de casa, para assim se poder assenhorar da sua herança. Apesar desta explicação, em revisitações posteriores da história acrescentar-se-ia que a escolha de Billy se ficara a dever também à sua pureza de coração.
Conforme profetizado, ao transmitir os seu poderes a Billy, o mago Shazam morreu esmagado por uma gigantesca pedra que, qual espada de Dâmocles, impendia sobre o seu o trono. Voltaria, no entanto, na forma de espírito, para servir de mentor ao seu novo campeão.

O Mago Shazam saúda o seu novo campeão.
Na sua primeira aventura como Capitão Marvel, Billy teve pela frente o Doutor Sivana. Com tanto de genial como de perverso, este cientista careca e de aspeto raquítico tornar-se-ia o arqui-inimigo do herói.
Foi também nessa história inaugural que Billy conseguiu o seu emprego como repórter e locutor da rádio WHIZ. Atividade que lhe permitia viajar e investigar o submundo do crime. Sempre que isso o metia em apuros, bastava-lhe gritar "Shazam" para assim convocar o seu poderoso alter ego.
Salvo por pequenas cambiantes introduzidas após a sua passagem para a DC (como a imputação da morte dos pais de Billy ao Adão Negro), a origem do Capitão Marvel permaneceu praticamente inalterada até aos Novos 52. Na nova versão que daí resultou, Billy Batson passou a ser retratado como um adolescente problemático e arrogante, num flagrante contraste com a docilidade do seu antecessor.
Quando o Doutor Sivana libertou o Adão Negro da sua tumba, o Mago Shazam convocou Billy para fazer dele o seu novo campeão. Apesar do jovem estar longe de ser o candidato ideal, Shazam, em desespero de causa, acabou mesmo por imbuí-lo do seu poder.
Depois de, num primeiro momento, usar as suas recém-adquiridas habilidades para ganhar dinheiro, o Capitão Marvel aprendeu lentamente o significado de ser um herói.

Agora rebatizado de Shazam, o Mortal Mais Poderoso da Terra
foi reimaginado nos Novos 52.

 Coadjuvantes

Nas suas histórias clássicas da Fawcett Comics, era comum o Capitão Marvel liderar a Família Marvel na sua interminável luta contra o Mal. Do grupo faziam parte também o Mago Shazam, Mary Marvel e Capitão Marvel Jr. (respetivamente, o mentor, a irmã gémea e o protegido do Mortal Mais Poderoso da Terra).
A este núcleo duro superpoderoso acrescia um conjunto de membros ocasionais destituídos de habilidades sobrenaturais. Eram eles o Tio Marvel, o Coelho Marvel e os Tenentes Marvel, reunindo estes últimos três homónimos de Billy Batson.
Ainda na categoria dos aliados tradicionais do Capitão Marvel, destacavam-se o tigre falante chamado Senhor Malhado e Beautia e Magnificus Sivana, os amáveis filhos do Doutor Sivana. Que, por sua vez, presidia ao índice de arqui-inimigos do Mortal Mais Poderoso da Terra onde pontificavam também Adão Negro ( Black Adam, o corrompido primeiro campeão do Mago Shazam), Capitão Nazi (Captain Nazi,supersoldado ao serviço do 3º Reich) e o Senhor Mente (Mister Mind, uma minhoca com talentos telepáticos).


Doutor Sivana (cima) e Adão Negro:
dois dos arqui-inimigos do Capitão Marvel.
Inicialmente incorporadas no Multiverso DC, algumas destas personagens tiveram contudo a sua existência apagada no período pós-Crise nas Infinitas Terras. Casos, por exemplo, do Tio Marvel e dos Tenentes Marvel.
Na realidade emanada dos Novos 52, Billy Batson possuía cinco irmãos adotivos, com os quais podia compartilhar os seus poderes. Mary Batson, Freddy Freeman, Pedro Peña, Eugene Choi e Darla Dudley formavam a nova (e multicultural) Família Marvel, cuja mascote era um tigre do zoológico de Fawcett City chamado Malhado.
Nos Novos 52 a Família Marvel ganhou novos membros.

Versões alternativas

Desde a sua migração para o Universo DC, o Capitão Marvel teve direito a um número significativo de sósias e versões alternativa. Tão significativo que me limitarei a elencar aqui os mais notórios.

Captain Thunder: Em Superman nº276 (junho de 1974), o Homem de Aço deparou-se com o formidável Captain Thunder. Crismado de Capitão Corisco no Brasil, era um super-herói procedente de uma dimensão paralela que obtinha os seus poderes ao esfregar um cinturão mágico enquanto gritava "Thunder" - acrónimo para Tornado, Hare, Uncas, Nature, Diamond, Eagle e Ram. O seu nome derivava daquele que fora originalmente atribuído ao Capitão Marvel.


Capitão Trovão foi o primeiro sósia
do Mortal Mais Poderoso da Terra no Universo DC.
Captain Thunder (2011): Na linha temporal divergente acidentalmente criada pelo Flash e apresentada na minissérie Flashpoint (Ponto de Ignição), a Terra tinha em Captain Thunder um dos seus maiores campeões. Esta contraparte do Capitão Marvel possuía não um mas seis alter egos. Seis crianças conhecidas coletivamente como S.H.A.Z.A.M., cada uma delas dispondo de um atributo mágico específico. A invocação do seu avatar só era possível quando os seis gritavam "Shazam" em uníssono.
Note-se que esta declinação remete para o conceito originalmente imaginado por Bill Parker quando foi incumbido da criação do Capitão Marvel.

Kingdom Come
: Em 1997, a minissérie Kingdom Come (Reino do Amanhã) apresentava um possível futuro distópico no qual os super-heróis tradicionais haviam sido substituídos por uma nova geração de justiceiros adeptos de métodos radicais e ultraviolentos.
Agora um adulto, Billy Batson mantivera-se durante vários anos na sombra devido à crescente hostilidade da opinião pública para com os meta-humanos. Seria, no entanto, descoberto por Lex Luthor que, com a ajuda dos filhos do Senhor Mente, o submeteu a uma lavagem cerebral.
Assim transformado num lacaio de Luthor, o Capitão Marvel acabaria por redimir-se ao sacrificar a própria vida para salvar milhões de inocentes. A sua capa serviria de símbolo para a nova era de harmonia entre humanos e meta-humanos imposta pelo Superman e seus aliados;

Corrompido por Luthor, o Capitão Marvel
 esteve do lado errado da história em Kingdom Come.
Mazahs: Introduzido em 2013 na minissérie Forever Evil (Vilania Eterna), este sósia maligno do Capitão Marvel foi trazido como prisioneiro para o nosso mundo pelo Sindicato do Crime - versão simétrica da Liga da Justiça originária da Terra-3. Tratava-se do alter ego superpoderoso de Alexander Luthor que, em conluio com a Superwoman (mescla da Mulher-Maravilha e Lois Lane), pretendia dominar o nosso mundo.
Assassinado pelo Luthor da Terra-1, deixou órfão o filho que a Superwoman lhe carregava no ventre.

Noutros media

Com forte penetração em praticamente todos os segmentos culturais, o Capitão Marvel foi o primeiro super-herói a ganhar vida no grande ecrã. Logo em 1941, a Republic Pictures produziu Adventures of Captain Marvel. Protagonizado por Tom Tyler (e com Frank Coghlan Jr. no papel de Billy Batson), este folhetim em 12 episódios a preto branco, epifenómeno de sucesso,  usou efeitos especiais que haviam sido desenvolvidos para uma produção idêntica do Superman que nunca saiu do papel.
A fazer fé nos inúmeros rumores postos a circular no ciberespaço, o Mortal Mais Poderoso da Terra deverá regressar ao cinema em 2019. Por ora são, contudo, mais as dúvidas do que as certezas em torno do projeto. Desde logo acerca do nome do ator escolhido para emprestar corpo ao herói. Isto apesar de Alan Ritchson ter recentemente confirmado, via Twitter, ser ele o eleito para o papel.
Fora dos quadradinhos, foi, porém, através de Shazam!, icónica série televisiva produzida pela Filmation e exibida pela CBS de 1974 a 1977, que o Capitão Marvel recuperou alguma da sua popularidade de outrora junto do grande público. Interpretado por Jackson Bostwick na primeira temporada e por John Davey nas duas seguintes, o herói praticava nela uma espécie de justiça itinerante ao viajar através dos EUA para defender os fracos e oprimidos.


Capa da edição DVD de Adventures of Captain Marvel (cima)
e os dois atores que encarnaram o herói na série televisiva
dos anos 70.
Ainda no pequeno ecrã, pouco tempo depois do cancelamento da sua série, o Capitão Marvel (agora encarnado por Garret Craig) seria um dos super-heróis da DC a participar em Legends of the Super-Heroes, paródia de baixo orçamento em dois episódios produzida em 1979 pelos estúdios Hanna-Barbera.
No campo da animação, além das suas numerosas participações em filmes e séries com a chancela da Warner, o Capitão Marvel teve em Shazam! um dos pontos mais altos da sua carreira audiovisual. Sob o selo da Filmation e emitida pela NBC entre 1981 e 1982, esta série animada representou uma fidelíssima adaptação do imaginário do herói, onde não faltaram personagens emblemáticas como a Família Marvel e o Doutor Sivana.

A Família Marvel reunida em Shazam! (1981-82).
Ao atribuir-lhe um módico 50º lugar na sua lista dos melhores super-heróis de todos os tempos, a equipa do site IGN classificou o Capitão Marvel como "um lembrete duradouro de uma época de maior simplicidade". Definição igualmente lisonjeira consta na plataforma de entretenimento UGO Networks: "No seu melhor, o Capitão Marvel foi sempre um Superman com um sentido de humor irresistível."
Irresistível continua a ser, de facto, o fascínio que este magnífico expoente da Idade do Ouro dos comics continua a exercer nos fãs. Sobretudo entre aqueles que, como eu, tiveram uma infância mais divertida por conta das  mirabolantes aventuras do "Capitão Fraldinha" - nas imortais palavras de Guy Gardner durante a fase cómica da Liga da Justiça.

Um herói à prova de bala e de melancolia.





quinta-feira, 28 de setembro de 2017

FÁBRICA DE MITOS: FAWCETT COMICS



  Antes de ter a sua luz roubada pelas manigâncias de uma rival ofuscada, foi astro-rei na constelação de editoras cuja cintilação dourou os primórdios da indústria dos quadradinhos. Vítima do próprio sucesso e da cobiça alheia, a monumentalidade do seu espólio continua a fascinar os aficionados da 9ª Arte.

Preâmbulo

Por contraste com o panorama atual do mercado norte-americano de quadradinhos, sufocado pela hegemonia da Marvel e da DC, no excitante período que os historiadores da 9ª Arte convencionaram designar Idade de Ouro da banda desenhada (1938-1950), uma pletora de editoras disputavam entre si as preferências dos leitores. De igual modo, conquanto fosse o mais popular à época, o género super-heroico era tão-somente um dos muitos que, mês após mês, faziam as delícias de miúdos e graúdos.
Fiction House, Quality Comics*, Timely Comics e National Comics (estas últimas, antepassadas da Marvel e da DC, respetivamente) foram alguns dos expoentes criativos que, em contraciclo com a Grande Depressão, mais contribuíram para o desenvolvimento da incipiente indústria dos comics.
Nesse firmamento reluzente havia, no entanto, uma estrela a brilhar com maior intensidade do que as restantes, ao ponto de ofuscá-las. Se muitas das suas congéneres acabariam, eventualmente, por soçobrar nas borrascas de um mercado volátil, a Fawcett Comics foi, ironicamente, vítima do próprio sucesso.


Super-heróis, contos policiais e romances adolescentes
 eram três dos  géneros mais apreciados
 na Idade de Ouro da banda desenhada.
Como mais adiante se perceberá, essa não seria, porém, a única ironia a marcar a fulgurante trajetória dessa lendária companhia que conquistou uma legião de fãs e deu ao mundo um dos seus mais formidáveis e carismáticos heróis: o Capitão Marvel (vulgo Shazam).
Acusado de ser um plágio do Superman, o Mortal Mais Poderoso da Terra estaria no epicentro de uma longa e rocambolesca batalha jurídica cujo desfecho macularia indelevelmente essa página debruada a ouro da história da 9ª Arte. Uma página que encerra ainda inúmeros segredos e mistérios por desvelar. Sobre os quais, na minha qualidade de arqueólogo amador, aqui vou procurando derramar alguma luz.
Aperte o cinto, caro leitor, pois este artigo será o seu passaporte para mais uma emocionante jornada ao passado. Prepare-se para revisitar uma época de maior inocência e glamour em que as fábricas de mitos, alimentadas apenas pela imaginação dos seus obreiros, laboravam a todo o vapor, trucidando por vezes sonhos e sonhadores.

Reveses da fortuna

A fascinante história da Fawcett Comics começou a ser escrita quase um século atrás. Mais precisamente, em 1919. Nesse ano, um oficial veterano da I Guerra Mundial chamado Wilford Hamilton Fawcett (carinhosamente apodado de "Capitão Billy" pelos seus antigos camaradas de armas) regressou ao seu Minnesota natal para trabalhar como repórter policial num tabloide de Minneapolis. Biscate temporário que exerceu apenas até reunir as condições necessárias à abertura do próprio negócio.
Ambicioso, Wilford pretendia tirar proveito da sua experiência prévia com o boletim militar Stars and Stripes, no qual colaborara como redator durante os anos em que fora um G.I. Joe. Usando essa publicação como modelo, em outubro de 1919 o futuro patriarca do poderoso clã Fawcett lançou o icónico Captain Billy's Whiz Bang. Um almanaque humorístico recheado de anedotas e cartunes satíricos, cujo título combinava a alcunha castrense do seu autor com a designação informal de um projétil de artilharia de pequeno calibre muito utilizado pelo Exército estadunidense durante a Grande Guerra.
Destinado sobretudo a ex-combatentes e viajantes, Captain Billy's Whiz Bang depressa se converteria num fenómeno de sucesso a nível mundial. Chegando a ter, no seu auge, uma circulação mensal de 425 mil exemplares.


Wilford Fawcett (cima)
e o seu Captain Billy's Whiz Bang.
Estava assim colocada a primeira pedra de um vasto império editorial que abrangia revistas, magazines e livros de bolso. Ao longo das duas décadas subsequentes, a Fawcett Publications prosperaria,  fazendo do seu líder uma das personalidades mais abastadas e influentes da sociedade norte-americana.
O bom e velho Capitão Billy não viveria, contudo, tempo suficiente para testemunhar os reveses da fortuna da sua companhia.
Subsidiária da Fawcett Publications, a Fawcett Comics foi fundada em finais de 1940, escassos meses após o falecimento de Wilford, em fevereiro desse mesmo ano. Empenhados em honrar o legado paterno, os quatro filhos do fundador prosseguiram a estratégia de expansão por ele iniciada na década anterior, que, logo em 1934, motivara a transferência da sede do conglomerada do Minnesota para Nova Iorque.
Atento à onda de euforia em redor dos super-heróis que, por aqueles dias, varria os EUA de costa a costa, ainda em 1939, Roscoe Kent Fawcett confiara a dois dos seus colaboradores a missão de conceberem uma personagem com esse perfil. "Deem-me um Superman! Mas façam dele um garoto de 10 ou 12 anos!", exigiu o benjamim do clã, dando assim o mote para o ingresso da Fawcett Comics no fervilhante mercados dos quadradinhos.
Seguindo à risca as orientações fornecidas pelo patrão, o escritor Bill Parker e o ilustrador Charles Clarence Beck criaram um pastiche do Superman (lançado cerca de um ano antes pela National Comics), com essa notável originalidade que se revelaria crucial para o seu êxito: em vez de um adulto, o herói tinha como alter-ego um pré-adolescente chamado Billy Batson.
Surtindo o efeito desejado, esse elemento inovador fomentaria um sentimento de identificação entre os leitores desse segmento etário - que os estudos de mercado apontavam como predominante na audiência das histórias com super-heróis - e a novel personagem.

Em articulação com o escritor Bill Parker,
C.C. Beck foi um dos "pais" do Mortal Mais Poderoso da Terra.
Não obstante a sua estreia oficial remontar a fevereiro de 1940, nas páginas de Whiz Comics nº2, o Capitão Marvel (Captain Marvel, no original) protagonizara, poucos meses antes, o único volume produzido de Thrill Comics. Ainda um protótipo, nessa sua primeira aparição oficiosa, o herói atendia pelo nome de Captain Thunder - nomenclatura que seria fugazmente recuperada em 1974, aquando da sua incorporação no Universo DC.
Humor e fantasia foram os dois principais ingredientes inclusos na receita para o sucesso quase instantâneo do Capitão Marvel. Divertidas, as suas historietas - mormente quando passaram a sair da genial pena de Otto Binder**- tinham o condão de cativar leitores de todas as idades. À medida que crescia a sua popularidade, um só título deixou de ser suficiente para acomodá-las. Assim, ao longo de toda a Idade do Ouro, o Mortal Mais Poderoso da Terra desdobrou-se por Captain Marvel Adventures, Master Comics, America's Greatest Comics e, claro, pela clássica Whiz Comics.


A estreia do Capitão Marvel deu-se em Whiz Comics nº2 (1940).
A reboque do retumbante êxito da sua personagem de charneira, a Fawcett Comics não demorou a lançar uma igualmente bem-sucedida franquia. Reunindo todos os heróis detentores dos poderes concedidos pelo Mago Shazam, a Família Marvel era composta por Capitão Marvel Jr. (que teve em Elvis Presley o seu fã nº1), Mary Marvel, Tio Marvel, Tenentes Marvel e até um patusco Coelho Marvel de sua graça Hoppy (batizado de Juca, no Brasil).

Família Marvel, um clã sob o signo do sucesso.
Pese embora tivesse no Capitão Marvel o seu indisputado campeão de vendas - em meados da década de 1940, Adventures of Captain Marvel tinha uma circulação média mensal de 1,4 milhões de exemplares - o contingente super-heroico da Fawcett Comics não se restringia à Família Marvel. Personagens como Captain Midnight, Bulletman, Nyoka, the Jungle Girl e Ibis, the Invincible granjearam também apreciável sucesso e notoriedade durante o mesmo período.
Era de, facto, no ecletismo do seu cardápio editorial que a Fawcett Comics tinha a sua pedra angular. Contrariamente ao que se verificou em algumas das suas concorrentes, a forte aposta nos super-heróis em momento algum foi feita em prejuízo de outros géneros igualmente populares à época.
Histórias de guerra, Westerns e contos de terror ajudaram também a alavancar as vendas da editora para patamares invejáveis. Proeza a que não foi decerto alheia a superior qualidade do seu capital humano.





Três outros títulos emblemáticos
da Fawcett Comics.
Até à extinção da Fawcett Comics em 1953 - ditada, em idêntica medida, pela sua derrota na batalha judicial que a vinha opondo à National Comics e pelo acentuado declínio do género super-heroico no pós-guerra - por lá desfilaram nomes que se tornariam lendas vivas da 9ª Arte. Além dos já citados Otto Binder e C.C. Beck, também Jack Kirby, Joe Simon e George Tuska fizeram parte do escol de escritores e artistas cujo virtuosismo ajudou a fazer da Fawcett Comics uma referência incontornável na história da banda desenhada.
Apesar da glória efémera da Fawcett Comics, o tempo e os fãs, esses juízes supremos, encarregaram-se de lhe fazer a justiça que os tribunais lhe sonegaram. O que não impediu, ainda assim, que algumas das suas criações mais admiráveis caíssem num imerecido esquecimento, ou que fossem parar às mãos de quem sempre as cobiçara.
Através da leitura do texto seguinte, ficarão a conhecer os meandros de um intrincado processo jurídico que ainda hoje suscita controvérsia. E que, pelas suas repercussões, se reveste de suma importância no estudo da Idade de Ouro dos quadradinhos.

«J'accuse!»

Menos de dois anos decorridos sobre o seu debute, o Capitão Marvel era, como já vimos, a coqueluche da Fawcett Comics. Estatuto tanto mais robustecido pelo facto de, logo em 1941, se ter tornado o primeiro super-herói a ser adaptado ao grande ecrã.
Protagonizado por Tom Tyler (que, anos mais tarde, interpretaria também o Fantasma) e produzido pela Republic Pictures, o folhetim de 12 episódios a preto branco Adventures of Captain Marvel atraiu milhões de espectadores às salas de cinema. Objeto de culto até aos dias de hoje, constitui também uma peça essencial na memorabilia da Idade do Ouro.
Mercê das suas cifras astronómicas, a meio da década de 1940, o Capitão Marvel era não apenas o Mortal Mais Poderoso da Terra mas também o super-herói mais popular em terras do Tio Sam. Façanha que fazia dele o epítome da pujança de uma indústria que parecia adejar sobre a conjuntura económica adversa decorrente da Grande Depressão.
De facto, à medida que a sombra do Capitão Marvel se agigantava, eram muitos os seus rivais que se eclipsavam. Entre eles, a pièce de résistance da National Comics. Mais forte do que uma locomotiva e mais rápido do que uma bala, nem o Superman conseguia travar a meteórica ascensão do Mortal Mais Poderoso da Terra. Acabando mesmo destronado por ele no pódio da popularidade.
O futuro adivinhava-se risonho
 para o Capitão Marvel e o pequeno Billy Batson.
Pondo em prática o velho aforismo de que o ataque é a melhor defesa, a National Comics intentou judicialmente contra a Fawcett Comics, acusando-a de ter plagiado o seu campeão de vendas.
Importa clarificar, a este propósito, que o Capitão Marvel não foi o primeiro super-herói (tão-pouco a primeira personagem da Fawcett Comics) a ser visado por uma acusação desse cariz por parte da National Comics.
Com efeito, em 1939 a Detective Comics e a sua associada Superman Inc. (de cuja fusão resultaria mais tarde a National Comics) haviam processado a Fox Publications por plágio. Em causa esteve Wonder Man, criação de Will Eisner nesse mesmo ano que, alegadamente, emulava o conceito desenvolvido por Jerry Siegel e Joe Shuster. Essa seria, aliás, a primeira infração de copyright documentada na história da 9ª Arte. À luz desse precedente, a National Comics levaria a cabo, daí em diante, uma vigorosa defesa das suas propriedades intelectuais.

Wonder Man foi o primeiro plágio reconhecido do Superman.
No ano seguinte seria a vez de Master Man - recém-licenciado pela Fawcett Comics - ter as suas aventuras prematuramente interrompidas por ordem judicial.  Num caso como no outro, os tribunais deram provimento às acusações de plágio apresentadas pela National Comics, obrigando desse modo as referidas editoras a suspenderem de imediato a publicação das personagens transgressoras.
Para isso muito contribuiu a circunstância de, em bom rigor, ninguém saber definir com precisão o conceito de super-herói. No limite, qualquer justiceiro fantasiado poderia ser considerado uma cópia deliberada do Superman, considerado, para todos os efeitos, o arquétipo super-heroico. Isto apesar de algumas das suas idiossincrasias definidoras serem preexistentes em diversas personagens emanadas da cultura pulp. À guisa de exemplo, tal como o Homem de Aço, também o Fantasma ou o Besouro Verde possuíam identidades secretas e usavam trajes coloridos para combater o crime e salvar inocentes.
Face à ausência de melhor critério, a aferição do original e da presumível contrafação consistiu simplesmente na comparação básica. Entre as similaridades detetadas entre o Superman e o Capitão Marvel destacava-se, por exemplo, o poder de voo comum a ambos.
Sucede que, na verdade, o Homem de Aço adquirira essa capacidade já após o início do processo - até aí, limitava-se a pular bem alto. Verificando-se o mesmo no que tangia à existência de um cientista careca como seu arqui-inimigo (o Doutor Sivana precedeu Lex Luthor), assim como à introdução do Superboy - contraparte juvenil do Superman surgida em resposta ao Capitão Marvel Jr.
A origem mágica dos poderes do Capitão Marvel e a ausência de um interesse amoroso nas suas histórias serviu, em contrapartida, para diferenciá-lo do Último Filho de Krypton. Que já por essa altura namoriscava com Lois Lane, a mais afoita das repórteres. Profissão comum, de resto, a Clark Kent e Billy Batson - identidades civis, respetivamente, do Superman e do Capitão Marvel.

Plágio ou mera semelhança?
Conforme se percebe, eram, pois, quase tantas as semelhanças quanto as diferenças entre as duas personagens. O que, num primeiro momento, motivaria uma sentença surpreendente.
Malgrado o zelo demonstrado relativamente à sua propriedade intelectual, a National Comics seria, ironicamente, vítima do seu descaso. Ficou comprovado em tribunal que várias publicações do Superman tinham sido lançadas sem acautelar os respetivos direitos de licenciamento.
Numa sentença da qual nem o próprio Rei Salomão desdenharia, o juiz considerou que o Capitão Marvel era, efetivamente, um plágio do Superman, mas que a National Comics também havia sido negligente na salvaguarda da sua personagem.
Ao não ser obrigada a cessar de imediato a publicação da sua personagem, a Fawcett Comics saiu, para todos os efeitos, vencedora da primeira batalha de uma guerra jurídica que se prolongaria por doze anos.
Inconformada com o veredito desfavorável, a National Comics recorreu para um tribunal de segunda instância. Após consecutivas reviravoltas, estipulou-se por fim que cada uma das editoras deveria proceder a uma meticulosa comparação.
No entendimento do juiz, só assim se poderia averiguar objetivamente o escopo do suposto plágio. Significando isto que, na prática, haveria necessidade de comparar e justapor cada quadradinho passível de corroborá-lo ou refutá-lo.

Capitão Marvel versus Superman:
um confronto titânico iniciado na barra dos tribunais
e que continua sem vencedor definido.
Antevendo uma longa e dispendiosa litigância - que, no melhor dos cenários, resultaria numa vitória pírrica para qualquer uma das partes envolvidas - a Fawcett Comics preferiu negociar um acordo extrajudicial com a National Comics. Na base dessa decisão esteve o significativo decréscimo de vendas dos títulos estrelados pelo Capitão Marvel. Consequência, essencialmente, da fracassada tentativa de conciliar as suas histórias com elementos retirados dos contos de terror, subtraindo dessa forma a diversão que as haviam tornado tão populares.
Fechados os termos do acordo entre as duas licenciadoras, a Fawcett Comics comprometeu-se a pagar uma choruda indemnização à rival - 400 mil dólares - e a extinguir a sua linha de super-heróis com efeitos imediatos. Ficando, contudo, desobrigada de assumir publicamente o plágio que de que era acusada.
Salvo pelo Coelho Marvel, cujos direitos de publicação haviam sido entretanto adquiridos pela Charlton Comics, as restantes personagens da Fawcett Comics ficaram presas num limbo. Situação da qual a Marvel Comics tiraria proveito em 1967 ao registar o seu próprio Capitão Marvel.
Quando, em 1972, a DC Comics adquiriu os direitos sobre as personagens outrora propriedade da Fawcett Comics, viu-se desse modo obrigada a renomear o Mortal Mais Poderoso da Terra. Após várias propostas que não colheram, em 1987 o herói passaria a ser oficialmente denominado Shazam. Sem, contudo, jamais conseguir recuperar o seu fulgor de outrora que fizera dele um ídolo de multidões e um ícone da cultura popular.
Mas isso são contas de outro rosário a serem desfiadas num próximo artigo da minha lavra...

In Memoriam: Fawcett Comics (1940-1953).


*http://bdmarveldc.blogspot.pt/2017/06/fabrica-de-mitos-quality-comics.html
**http://bdmarveldc.blogspot.pt/2017/07/eternos-otto-binder-1911-1974.html


Agradecimento muito especial ao meu bom amigo Emerson Andrade que, com a sua costumeira bonomia, executou a belíssima composição gráfica que serve de ilustração principal ao presente artigo. Para ele, um abraço do tamanho do oceano que nos aparta.


































quarta-feira, 6 de setembro de 2017

GALERIA DE VILÕES: BARÃO ZEMO


  Último representante de uma infame linhagem de aristocratas germânicos, do pai herdou o título nobiliárquico e o ódio visceral pelo Capitão América. O seu altruísmo distorcido levou-o, porém, a fundar os Thuderbolts, coletivo heroico com um segredo tão sórdido como o passado do seu líder. 

Denominação original: Baron Zemo
Licenciadora: Marvel Comics
Criadores: Tony Isabella/Roy Thomas (história) e Sal Buscema (arte conceptual)
Estreia (como Fénix): Captain America Vol.1 nº168 (Dezembro de 1973)
Estreia (como Barão Zemo): Captain America Vol.1 nº275 (Novembro de 1982)
Identidade civil: Helmut J. Zemo
Local de nascimento: Leipzig, Alemanha
Nacionalidade: Alemã
Parentes conhecidos: Heirinch e Hilda Zemo (pais, falecidos); Heike Zemo/Baronesa (esposa presumivelmente falecida) e demais antepassados da linhagem Zemo (ver Dinastia Maldita)
Ocupação: Engenheiro, aventureiro e terrorista internacional
Base operacional: Seguindo uma tradição fundada pelo avô paterno, Helmut Zemo operava, inicialmente, a partir do seu centenário castelo familiar, no leste da Alemanha. Seguiram-se, contudo, anos de itinerância que o levaram a diferentes latitudes do hemisfério setentrional, designadamente México e Nova Iorque. Até se fixar por fim na capital da Bagália (nação insular fictícia cuja população é, quase exclusivamente, composta por malfeitores), usando desde então a imponente Torre Zemo como centro nevrálgico das suas atividades subversivas.
Afiliações: Atual membro do Conselho Superior da HIDRA e financiador do Império Secreto, Zemo liderou outrora os Mestres do Terror e os Thunderbolts (vide respetivos prontuários infra)
Armas, poderes e habilidades: Zemo compensa a ausência de capacidades sobre-humanas com uma apreciável gama de recursos que, embora mais comezinhos, são quanto basta para fazer dele um dos supervilões mais cotados do Universo Marvel.
Menos genial e inventivo do que o seu defunto progenitor - que, ao longo da vida, colecionou patentes científicas - o atual Barão Zemo é ainda assim dono de um intelecto superior. Especialista em engenharia reversa, é também um exímio estratega e um manipulador nato. Se o primeiro atributo lhe permite tirar proveito de tecnologia alheia, este último é uma das suas imagens de marca.
Sob a influência de Zemo numerosos indivíduos bem intencionados foram já induzidos por ele a cometer toda a espécie de atrocidades. Carismático, é sempre fortíssimo o ascendente que o vilão exerce sobre aqueles que o rodeiam. Algo que ficou, aliás, bem patente no filme Capitão América: Guerra Civil (ver Noutros Media).
No ápice da forma física, Helmut Zemo possui uma compleição equivalente à de um atleta olímpico. É, no entanto, muito mais velho do que aparenta. Sobrevindo da toma regular do chamado Composto X - soro milagroso desenvolvido pelo seu pai - a extraordinária vitalidade por si exibida.
Esgrimista de classe mundial, Zemo tem na sua espada de adamantium uma extensão natural do seu corpo em cenários de combate mano a mano, conquanto seja igualmente destro no manuseamento de armas de fogo. Além do famigerado Adesivo X - outra das criações paternas - , de vários raios desintegradores e dispositivos de controlo mental, na sofisticada parafernália tecnológica de Zemo avulta ainda uma tiara psíquica que o vilão costuma acoplar no seu capuz a fim de se proteger de ataques telepáticos.
Nas gemas alienígenas de que espoliou Rocha Lunar- sua ex-subordinada e concubina - o Barão Zemo tem, incontestavelmente, as armas mais poderosas do seu arsenal. Graças a elas, o vilão consegue levitar, ampliar a sua força, desmaterializar-se e até viajar através do hiperespaço. Justificando-se assim plenamente o honroso 40º lugar que o Barão Zemo ocupa na lista dos 100 Maiores Vilões dos Quadradinhos organizada pela plataforma digital de entretenimento IGN.

Zemo preparado para a guerra com a sua espada de adamantium
 e as gemas surripiadas a Rocha Lunar.

Histórico de publicação

A despeito dos seus pergaminhos familiares, o debute de Helmut Zemo foi pouco promissor. Ou não tivesse ele encetado a sua carreira criminal como um vilão genérico e potencialmente descartável chamado Fénix (Phoenix, no original).
Facto pouco conhecido, foi, com efeito, sob esta persona que, em dezembro de 1973, Helmut Zemo se deu a conhecer aos leitores de Captain America nº168. Saído meses antes da imaginação de Tony Isabella, Roy Thomas e Sal Buscema, o seu processo de afirmação dentro do Universo Marvel foi particularmente moroso. Tendo o momento de viragem ocorrido quase uma década depois quando, em Capitain America nº275 (novembro de 1982), Helmut assumiu por fim o título de Barão Zemo, dando dessa forma continuidade ao sinistro legado paterno.

Fénix foi a primeira persona criminosa
 de Helmut Zemo.
Foi nesta edição de Captain America
que o Barão Zemo moderno (em baixo)
 fez a sua estreia oficial.


Consolidado o seu estatuto de vilão de referência ao longo da década de 1980, no início da seguinte o Barão Zemo demonstrou a sua multidimensionalidade ao fundar o coletivo heroico Thunderbolts. À semelhança do que sucedera com Magneto poucos anos antes, Zemo, mercê da sua ambivalência moral e de um certo altruísmo distorcido, passou de vilão a herói apenas para voltar a fazer o percurso inverso.
Vale a pena lembrar que, durante a sua fase heroica (que se prolongou mesmo após o desmantelamento dos Thunderbolts), Zemo procurou genuinamente retratar-se de alguns dos atos ignóbeis que havia cometido no passado. Contudo, a descoberta de que Bucky Barnes - o antigo sidekick do Capitão América presumivelmente morto pelo seu pai nos últimos dias da 2ª Guerra Mundial - se encontrava, afinal, vivo e de boa saúde, fez com que a faceta maligna de Zemo prevalecesse uma vez mais. Realidade aparentemente irreversível, conforme atestam as suas participações em algumas das sagas mais recentes da Casa das Ideias, designadamente no polémico Secret Empire (lançado este ano nos EUA e ainda inédito no universo lusófono).

Dinastia maldita

Com raízes na época medieval, a árvore genealógica de Helmut Zemo conta uma história de poder e ganância, mas também de coragem e patriotismo.
Tudo começou no longínquo ano de 1480 em Zeulniz, uma pequena vila alemã. Assediado por uma horda de saqueadores eslavos, o povoado foi salvo pela valentia de Harbin Zemo. Munido apenas de uma espada, este modesto funcionário público responsável pela proteção do celeiro comunitário desbaratou sozinho os invasores
Os ecos da façanha chegaram à sala do trono e o Imperador nomeou Harbin Zemo Barão de Zeulniz. Título nobiliárquico que seria daí em diante transmitido de pai para filho, fazendo perdurar até aos nossos dias a infame dinastia Zemo. Cuja linha sucessória, assente na primogenitura masculina, é a seguinte:

*Harbin Zemo: o 1º Barão Zemo e fundador da dinastia. Apesar do ato de bravura que lhe valeu a condição aristocrática, depressa se tornaria um déspota sanguinário. Morreu de velhice em 1503;
*Hademar Zemo: o 2º Barão Zemo, filho de Harbin, e o mais pusilânime  de toda a linhagem. A sua fraqueza ditaria que fosse morto às mãos da sua guarda pessoal, numa conjura encabeçada por Heller Zemo, o seu filho de apenas 12 anos de idade;
*Heller Zemo: o 3º Barão Zemo, filho de Hademar, e o mais progressista dos Zemos;
*Herbert Zemo: o 4º Barão Zemo, filho de Heller, e um orgulhoso guerreiro colecionador de glórias e inimigos. Assassinado pelos próprios generais;
*Helmuth Zemo: o 5º Barão Zemo, filho de Heller. Assassinado pelo Barão Zemo moderno durante uma das suas viagens no tempo;
*Hackett Zemo: o 6º Barão Zemo, filho de Helmuth. Quase matou o atual Barão Zemo quando este monitorizava a sua atividade por volta de 1710;
*Hartwig Zemo: o 7º Barão Zemo, filho de Hackett. Morto em combate quando participava na Guerra dos Sete Anos (1756-1763);
*Hilliard Zemo: o 8º Barão Zemo, filho de Hartwig;
*Hoffman Zemo: o 9º Barão Zemo, filho de Hilliard;
*Hobart Zemo: o 10º Barão Zemo, filho de Hoffman. Morto às mãos de camponeses amotinados durante as revoltas que se seguiram à proibição do socialismo em terras germânicas decretada pelo Imperador Guilherme I;
*Herman Zemo: o 11º Barão Zemo, filho de Hobart e avô do atual Barão Zemo. Combateu os Aliados durante a I Guerra Mundial, causando-lhes numerosas baixas com a sua própria fórmula do terrível gás mostarda;
*Heinrich Zemo: o 12º Barão Zemo, filho de Herman e pai do atual detentor do título. Um dos maiores cientistas ao serviço de Hitler durante a II Guerra Mundial, tornou-se arqui-inimigo do Capitão América, tendo sido responsável, na ponta final do conflito, pela presumível morte do herói e de Bucky Barnes, seu adjunto juvenil;
*Helmut J. Zemo: o 13º e atual Barão Zemo, filho de Heinrich. A sua dramática história é resumida no texto seguinte.

Helmut Zemo descende de uma longa linhagem varonil.

Origem

Único descendente conhecido de um aristocrata germânico que era também uma das mais prodigiosas mentes científicas ao serviço do 3º Reich, Helmut Zemo soube-se desde muito cedo predestinado à grandeza e à perversidade.
Nascido em meados da década de 1930 em Leipzig, no leste da Alemanha. Helmut passou parte da sua juventude em Berlim. Enquanto o pai, Heinrich Zemo, inventava armas de destruição em massa para os nazis, Helmut desenvolveu, durante esse período, uma paixão secreta por comics, filmes e outros produtos culturais norte-americanos.
Embora venerado pela família e pelos seus correligionários, Heinrich Zemo era profundamente odiado pelas potências aliadas. Sentimento que se estenderia ao seus próprios compatriotas após a vexatória derrota que lhe foi imposta pelo Capitão América e pelo Comando Selvagem*.
Temendo pela sua segurança e dos seus entes queridos, Heinrich, entretanto celebrizado como Barão Zemo, começou a usar um capuz que lhe cobria integralmente o rosto.
Pouco tempo depois de ter criado o famigerado Adesivo X (uma supercola impossível de remover por qualquer processo conhecido na época), o Barão Zemo enfrentou pela primeira vez o Capitão América, empenhado em impedir que a substância fosse usada contra as tropas aliadas.
Atingido pelo escudo do herói no calor da refrega, Zemo caiu dentro de uma vasilha contendo Adesivo X. Apesar de ter sobrevivido ao incidente, o vilão não mais conseguiria remover o capuz e a roupa que usava naquele dia. Consequentemente, passaria a ser alimentado por via intravenosa até ao fim da vida.

O Barão Zemo clássico
 foi uma criação de Stan Lee e Jack Kirby,
 cuja estreia ocorreu em The Avengers nº6 (1964).
Cada vez mais demencial, Heinrich fez da mulher e do filho os seus bodes expiatórios, molestando-os constantemente. Por contraste com a mãe - que ajudaria o Capitão América a travar um dos sórdidos planos do marido - Helmut manteve-se sempre leal ao pai. Lealdade que não seria de todo recompensada.
Procurado por crimes de guerra, em 1945 (pouco depois de ter, aparentemente, causado a morte do Capitão América e Bucky), o Barão Zemo fugiu da Alemanha e buscou refúgio nas profundezas da floresta amazónica. Deixando para trás o filho e a pátria reduzida a escombros fumegantes.
Na prolongada ausência paterna, Helmut, determinado em levar uma vida normal, viajou pelo mundo e formou-se em engenharia. Incapaz de escapar à sua herança familiar, o jovem Zemo seria, no entanto, convocado pelo pai ao seu reino amazónico. Onde testemunharia a forma brutal como o seu progenitor chacinou os indígenas sublevados e o ouviu gabar-se pela morte do Cidadão V, um agente especial britânico durante a 2ª Guerra Mundial.
Entretanto, o ressurgimento do Capitão América motivaria uma série de confrontos entre o Barão Zemo (agora coadjuvado pelos seus Mestres do Terror) e os Vingadores (liderados pelo Sentinela da Liberdade).
Após a morte acidental do pai durante um desses recontros, Helmut culpou o Capitão América pela destruição da sua família. Replicando alguns dos aparatos mais mortíferos do arsenal paterno, Helmut adotou a identidade de Fénix para se vingar do herói.
Horrivelmente desfigurado após mergulhar, tal como o pai, numa tina de Adesivo X, Helmut reapareceria pouco tempo depois como o novo Barão Zemo.
Sem que o seu ódio figadal pelo Capitão América desse sinais de apaziguamento, o vilão reuniu aquela que foi, até à data, a maior e mais poderosa formação dos Mestres do Terror.

O novo Barão Zemo
 exibe o símbolo do seu némesis.
Naquele que foi um dos pontos mais altos da sua carreira criminosa, o Barão Zemo e os seus apaniguados invadiram a Mansão dos Vingadores, de onde só a muito custo seriam desalojados pelos heróis.
A uma tentativa gorada de ressuscitar o seu pai com recurso às Pedras de Sangue, seguiu-se o enlace do Barão Zemo com a terrorista internacional conhecida como Baronesa. O casal acabaria, contudo, capturado pelo Capitão América depois de ter raptado várias crianças negligenciadas para formar uma família instantânea.
Quando, no final da épica batalha que os opôs à entidade conhecida como Devastador (Massacre, no Brasil), os Vingadores e o Quarteto Fantástico foram dados como mortos, Zemo, assim privado dos seus arqui-inimigos, interiorizou finalmente que o pai se tinha autodestruído.
Mudando o foco da vingança para a busca do poder, Zemo converteu o núcleo duro dos Mestres do Terror num coletivo heroico apresentado ao mundo como Thunderbolts. Num ato de mórbida ironia, Zemo escolheu para si o título de Cidadão V, o herói britânico assassinado pelo seu pai durante a 2ª Guerra Mundial.
Desmascarado o embuste dos Thunderbolts, o Barão Zemo retomou a sua carreira a solo. Atualmente, governa com mão de ferro Bagália, um pequeno Estado-pária de localização desconhecida que serve de santuário a delinquentes de todo o mundo.

*Howling Commandos, brigada especial de soldados aliados que, durante a 2ª Guerra Mundial, atuava atrás das linhas inimigas.

Zemo (disfarçado de Cidadão V) à frente dos Thunderbolts originais.

Quem são os Mestres do Terror?

Inimigos clássicos dos Vingadores, os Mestres do Terror (Masters of Evil, no original) são uma das mais antigas organizações criminosas do Universo Marvel. Criada por Stan Lee e Jack Kirby, a equipa fez a sua primeira aparição em The Avengers Vol.1 nº6, edição histórica datada de julho de 1964.
Sob o comando do penúltimo Barão Zemo, os Mestres do Terror agrupavam inicialmente Cavaleiro Negro, Derretedor e Homem-Radioativo. Cada um destes elementos fora criteriosamente selecionado por Zemo para antagonizar um Vingador específico. Assim, ao Cavaleiro Negro competiria neutralizar o casal Vespa e Gigante, o Derretedor teria como alvo o Homem de Ferro, e o Homem-Radioativo deveria medir forças com Thor. Zemo, por seu turno, tentaria ajustar velhas contas com o Capitão América. A este elenco primordial juntar-se-iam posteriormente alguns pesos-pesados. A saber: Encantor, Executor, Magnum e Destruidor.
Das diversas encarnações da equipa ao longo dos anos, a mais eficiente foi, sem sombra de dúvida, aquela que contava nas suas fileiras com Mr. Hyde, Blackout, Rocha Lunar, Armador, Jaqueta Amarela II, Tubarão-Tigre, Titânia, Homem Absorvente, Gangue da Demolição (Aríete, Destruidor, Massa e Bate-Estacas) e Golias. Agora liderados pelo filho do Barão Zemo, os Mestres do Terror fizeram jus ao título ao tomarem de assalto a Mansão dos Vingadores, fazendo reféns alguns dos seus membros. Cuja libertação só foi possível na sequência de uma feroz batalha que culminaria com a morte de Hércules.
Seria precisamente esta formação dos Mestres do Terror que, anos mais tarde, serviria de base aos Thunderbolts (vide texto seguinte).

O primeiro confronto entre os Vingadores e os Mestres do Terror
 em The Avengers nº6 (1964).


A formação dos Mestres do Terror que quase vergaram os Vingadores.

Thunderbolts: heróis ou vilões?

Aproveitando o vazio deixado pelo desaparecimento dos Vingadores e do Quarteto Fantástico no final da saga Onslaught (Devastação em Portugal; Massacre no Brasil), o Barão Zemo reciclou os seus Mestres do Terror num novo coletivo super-heróico a que deu o nome de Thunderbolts. Além do próprio Zemo (que atendia agora por Cidadão V), o elenco primitivo da equipa por ele convocada reunia Atlas, Meteorita, Soprano, MACH-1 e Tecno. Sob estas identidades falsas escondiam-se, respetivamente, os ex-criminosos Golias (em tempos conhecido também como Contrabandista), Besouro, Rocha Lunar, Colombina e Armador. A estes membros fundadores logo se juntou Choque, uma jovem heroína que ignorava os verdadeiros desígnios dos seus companheiros, e cujo idealismo os contagiou.
Depois de ter conquistado a confiança do público, Zemo empreendeu a sua campanha de dominação mundial. Seria, no entanto, detido pela ação conjunta dos Vingadores e do Quarteto Fantástico (entretanto regressados do degredo extradimensional), bem como pelos próprios Thunderbolts. Em busca de redenção para os seus pecados, os antigos subordinados de Zemo haviam encarnado de forma inesperada o papel de defensores dos fracos e oprimidos.
Zemo logrou escapar graças à ajuda de Tecno - o único membro do grupo que se lhe manteve leal - enquanto os demais Thunderbolts, cujas verdadeiras identidades haviam sido entretanto expostas, passaram a operar na clandestinidade, praticando o heroísmo a que tinham tomado o gosto.
Conceito desenvolvido por Mark Waid e Mark Bagley, os Thunderbolts fizeram a sua estreia em janeiro de 1997, nas páginas de The Incredible Hulk nº449, e mantêm-se no ativo até aos dias de hoje. Após sucessivas reconfigurações e lideranças, a sua formação mais recente, capitaneada pelo Soldado Invernal, é composta por Atlas, Armador, Rocha Lunar, MACH-X e Kobik.

Thunderbolts: Lobos em peles de cordeiros.

Trivialidades:

*Situada na ex-RDA, Leipzig, a cidade natal de Helmut Zemo, possui uma prestigiada Universidade onde, entre outros expoentes da elite dirigente teutónica, se diplomou Angela Merkel, atual chanceler federal da Alemanha;
*No jogo de vídeo Iron Man and X-0 Manowar in Heavy Metal (1996), o Barão Zemo surgia como uma das personagens jogáveis;
*Dois anos depois, em maio de 1998, Zemo e os seus Thunderbolts participaram em Star Trek: The Next Generation / X-Men: Second Contact, um crossover entre a tripulação da nave USS Enterprise e os pupilos do Professor Xavier.


Terão Merkel e Zemo estudado a mesma cartilha?

Noutros media: Antes do seu advento ao grande ecrã por via da sua participação em Captain America: Civil War (2016), o Barão Zemo (pai e filho) era já um habitué nas séries animadas da Marvel. Remontando a 1966 a sua estreia televisiva, no segmento reservado ao Sentinela da Liberdade em The Marvel Super Heroes. Essa foi, de resto, a única ocasião em que o Barão Zemo sénior não interagiu com o júnior. Em produções mais recentes, como Avengers: Ultron Revolution (em exibição desde 2013), os dois têm coabitado e, não raro, unido forças contra os Heróis Mais Poderosos da Terra.

O Barão Zemo tem sido presença assídua
em Avengers: Ultron Revolution.
Embora irreconhecível, o atual Barão Zemo, interpretado pelo ator hispano-germânico Daniel Bruhl, foi o vilão de serviço no terceiro capítulo da saga cinematográfica do Capitão América. À parte o nome e a sanha que nutre pelos Vingadores, pouco tem, de facto, em comum com a sua contraparte da banda desenhada. No filme,  Helmut Zemo é apresentado como um obstinado oficial do Exército de Sokóvia desejoso de vingança depois de ter perdido a sua família na batalha que arrasou a capital do seu país em Avengers: Age of Ultron (2015)

A versão cinematográfica de Zemo (rebaixado a plebeu)
deixou um travo amargo na boca dos Vingadores, mas também de muitos fãs.