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sexta-feira, 17 de junho de 2016

EM CARTAZ: «HOMEM DE AÇO»




   Fazendo um corte radical com o passado, Zack Snyder apresentou ao mundo a sua arrojada visão do Super-Homem, num filme, onde, pela primeira vez em muito tempo, a principal ameaça não era Lex Luthor nem os cristais de kryptonita. Polarizador de opiniões, o novo conceito continua a ser tão amado quanto odiado. Serviu, ainda assim, o duplo propósito de transpor para o cinema a versão moderna do herói, lançando de caminho as bases para o Universo Estendido DC.

Título original: Man of Steel
Ano: 2013
País: Estados Unidos da América/Reino Unido
Género: Ação/Aventura/Fantasia
Duração: 143 minutos
Realização: Zack Snyder
Argumento: David S. Goyer
Elenco: Henry Cavill (Kal-El/Clark Kent/Super-Homem); Amy Adams (Lois Lane); Michael Shannon (General Zod); Antje Traue (Faora); Russell Crowe (Jor-El); Ayelet Zurer (Lara Lor-Van);Kevin Costner (Jonathan Kent); Diane Lane (Martha Kent) e Laurence Fishburne (Perry White)
Companhias produtoras: Legendary Pictures, Syncopy Films e DC Entertainment
Orçamento: 225 milhões de dólares
Receitas: 668 milhões de dólares
Distribuição: Warner Bros.

Tal como o filme de 1978,
 Man of Steel fez-nos crer que um homem pode voar.

Produção e desenvolvimento: Tomada a decisão de reiniciar a franquia cinematográfica do Super-Homem, em junho de 2008 a Warner Bros. começou a receber propostas de realizadores, argumentistas e de escritores de banda desenhada. Dentre estes últimos, Grant Morrison, Mark Waid e Geoff Jonhs foram os nomes mais sonantes a manifestar vontade de colaborar  no projeto.
Na origem dessa decisão por parte da Warner estivera a fraca prestação de Superman Returns dois anos antes. No entanto, à parte alguns contactos exploratórios com realizadores, o projeto pouco ou nada evoluiu ao longo do ano seguinte.
Até que, em agosto de 2009, uma decisão judicial restituiu 50% dos direitos da origem do Super-Homem à família de Jerry Siegel (que, com Joe Shuster, criara o herói em 1938). Esta deliberação não se revestiu, porém, de efeitos retroativos. Por conseguinte, o tribunal decretou que a Warner Bros. não devia royalties aos familiares de Siegel referentes às películas anteriormente produzidas. Em contrapartida, caso não fosse iniciada até 2011 a rodagem de um filme baseado no Homem de Aço, o clã Siegel poderia processar a Warner pela perda de receitas financeiras decorrente dessa não produção. Cláusula que teve o condão de acelerar o cronograma de um projeto que até aí não atava nem desatava.
Assim, em outubro de 2010, Zack Snyder (Watchmen) foi anunciado como o realizador de uma película que pretendia demarcar-se da franquia iniciada em 1978 com Superman, The Movie e que chegara ao fim em 2006 com Superman Returns. Snyder não foi, contudo, o único cineasta a ser sondado pela Warner, tampouco foi a primeira escolha dos produtores. Antes dele, Darren Aronofsky (Cisne Negro), Matt Reeves (Projeto Cloverfield) e até Ben Affleck (que nesse mesmo ano dirigira The Town) foram outras das hipóteses em cima da mesa.

Zack Snyder, o controverso realizador de Man of Steel.

Já a escolha do argumentista foi mais consensual. Recomendado por Chris Nolan pelo seu estupendo trabalho na trilogia do Cavaleiro das Trevas (2005-12), David S. Goyer assumiu as despesas do enredo. Privilegiando uma narrativa não linear, a história idealizada por Goyer está igualmente impregnada de elementos religiosos que remetem para a mitologia cristã. Muitos críticos viram nela uma alegoria para a Paixão de Cristo. O Super-Homem assume-se, de facto, com um salvador vindo dos céus disposto ao sacrifício supremo em prol da Humanidade. Ademais, no seu diálogo com o Professor Hamilton, o herói revela estar na Terra há 33 anos. Idade que Jesus Cristo teria aquando da sua crucificação.
Escolhido o realizador e a restante equipa, as filmagens arrancaram em agosto de 2011 em Chicago, transferindo-se depois para a Califórnia e, por fim, para Vancouver, no Canadá. Com uma duração inicialmente prevista de dois meses, a rodagem do filme só terminaria, contudo, em fevereiro do ano seguinte. Facto para o qual terá contribuído a recusa de Zack Snyder em filmar em 3D ( por conta das limitações técnicas desse formato), obrigando a uma posterior reconversão do filme.
Numa entrevista concedida à Entertainment Weekly em abril de 2013 (dois meses antes da estreia de Man of Steel), o presidente executivo da Warner, Jeff Robinov, levantou um pouco do véu acerca do filme e da sua importância para o futuro do Universo Estendido DC: "Haverá referências a outros super-heróis que não o Super-Homem porque o filme servirá de precursor de uma franquia mais abrangente. O seu tom obscuro servirá de bitola a futuras produções". Com efeito, quando Zod destrói um satélite em órbita geossincrónica, é possível ler a inscrição Wayne Enterprises, indicando a presença do Batman naquele contexto (ver Sequela).

Duas das referências a Batman em Man of Steel.

Figurino: Man of Steel apresenta um traje do Super-Homem redesenhado por James Acheson e Michael Wilkinson. Notoriamente inspirada no visual contemporâneo do herói, saído de Os Novos 52 (mas também com óbvias influências de Kingdom Come), a vestimenta preserva o esquema cromático e a icónica insígnia peitoral com um S estilizado. Adotando, no entanto, tons menos garridos  do que os tradicionalmente usados na banda desenhada e em anteriores adaptações ao pequeno e ao grande ecrã. Estética moderna que dispensa igualmente o clássico calção encarnado sobre as calças que, até 2011, fora uma das imagens de marca do herói, dentro e fora dos quadradinhos.
Por outro lado, devido ao peso excessivo que um traje real acarretaria, a armadura de combate kryptoniana envergada pelo General Zod no filme foi totalmente gerada com recurso a tecnologia digital. Garantindo dessa forma que a prestação de Michael Shannon não seria prejudicada pela  sua reduzida liberdade de movimentos.


Figurino de Man of Steel versus uniforme de Os Novos 52:
descubram as diferenças.

Enredo: Com o seu núcleo planetário altamente instável em consequência de décadas de mineração intensiva motivada pelo exaurimento dos seus recursos naturais, Krypton enfrenta um cenário de destruição iminente. Indiferente aos dramáticos avisos de Jor-El, um dos maiores cientistas kryptonianos, o Conselho Regente menospreza a ameaça e prima pela inércia.
Quando a situação se torna insustentável, Jor-El sugere uma evacuação em larga escala, a fim de salvar o maior número possível de vidas. Antes, porém, que o plano possa ser posto em marcha, o General Zod, chefe supremo da guilda militar e velho amigo de Jor-El, lidera um golpe de Estado para depor o Conselho antes que seja tarde de mais.
Pressentindo o fatídico destino de Krypton, Jor-El rouba o Códice (dispositivo que armazena o genoma kryptoniano) e infunde-o nas células do seu filho recém-nascido. Kal-El é, de resto, o primeiro bebé em séculos a ser concebido através do método tradicional de procriação, uma vez que os kryptonianos há muito se vinham reproduzindo artificialmente com recurso a câmaras de gestação que também pré-programavam a função social de cada ser nelas gerado.
Após celebrarem brevemente o nascimento do seu único filho, Jor-El e a sua esposa, Lara Lor-Van, concordam em enviá-lo para a Terra a bordo do protótipo da nave espacial projetada em segredo pelo cientista.


Jor-El e Lara: os pais biológicos do Super-Homem.
Ao descobrir o plano de Jor-El, Zod mata o seu velho amigo mas não consegue reaver o Códice. Ordena então a destruição da pequena nave que se eleva nos céus de Krypton, mas as suas forças são entretanto subjugadas pelos militares fiéis ao Conselho.
Levados a tribunal marcial, Zod e o seus subordinados são condenados por sedição e sentenciados ao exílio perpétuo na Zona Fantasma. Para estarrecimento de Lara, Zod tem ainda tempo de jurar que encontrará o filho dela, aonde quer que Jor-El o tenha enviado.
Horas depois, o núcleo de Krypton entra em convulsão, provocando a implosão do planeta. Com as gigantescas ondas de choque a libertarem acidentalmente os prisioneiros da Zona Fantasma que, assim, se convertem nos últimos sobreviventes de uma civilização extinta.
Seguindo as coordenadas programadas por Jor-El, a nave transportando Kal-El aterra nas redondezas de Smallville, uma pequena e pachorrenta cidade do Kansas. Encontrado por Jonathan e Martha Kent, um casal de modestos agricultores sem filhos, o bebé é perfilhado por eles e batizado como Clark Kent.

Jonathan e Martha Kent adotam
 o pequeno órfão vindo das estrelas.
À medida que vai crescendo e as suas extraordinárias habilidades se vão desenvolvendo, Clark é visto como uma aberração pelos seus colegas de escola. Quando a situação ameaça ficar fora de controlo, Jonathan Kent revela ao filho as suas verdadeiras origens, mostrando-lhe em seguida o local onde escondera durante todos aqueles anos o foguete espacial que o trouxera ao nosso mundo.
A pedido de Jonathan, Clark promete manter em segredo a sua origem e poderes. Promessa que cumpre mesmo quando, anos depois, vê o pai ser estraçalhado por um tornado diante dos seus olhos. Consumido pela culpa, Clark embarca numa solitária jornada que o leva a vários pontos do globo. Sempre em busca de um propósito para a sua existência, ele usa identidades falsas para conservar o anonimato mas as suas ações não passam totalmente despercebidas.
Lois Lane, uma veterana jornalista do Daily Planet, é escalada pelo seu editor, Perry White, para investigar a descoberta de uma pretensa nave extraterrestre no Ártico. Fazendo-se passar por um dos operários destacados para o local das escavações, Clark infiltra-se na nave e aciona o computador de bordo, utilizando uma chave deixada por Jor-El no seu foguete. Isso permite-lhe interagir com o holograma que serve de avatar à consciência preservada do seu pai biológico. É, pois, pela voz dele que Clark fica a saber que o seu nome verdadeiro é Kal-El e que é o Último Filho de Krypton, enviado para a Terra para servir de farol à Humanidade e evitar que o nosso planeta sofra destino idêntico ao do seu mundo natal. Sendo, para isso, presenteado com um traje cerimonial kryptoniano ostentando no peito o brasão familiar da Casa de El. Um símbolo de esperança em Krypton.

O reencontro (virtual) de pai e filho na Fortaleza da Solidão.

De repente, porém, o sistema de segurança automatizado da nave é acidentalmente acionado por Lois Lane que seguira furtivamente Clark até ao seu interior. Atingida pelos lasers de uma das sentinelas robóticas, a repórter é salva pelo filho adotivo dos Kents que usa a sua visão de calor para lhe cauterizar o ferimento. Após a partida da jovem, Clark veste pela primeira vez o uniforme de Super-Homem, ensaiando de seguida os primeiros voos no exterior da Fortaleza da Solidão.
Regressada a Metrópolis, Lois procura convencer Perry White a autorizar a publicação do seu artigo expondo a presença na Terra de um alienígena com poderes semidivinos. Em virtude da inconsistência das provas apresentadas, Perry recusa, porém, fazê-lo. Obstinada, Lois decide então rastrear os movimentos do seu misterioso salvador, acabando por localizá-lo em Smallville.
Após um breve encontro junto ao túmulo de Jonathan Kent, durante o qual Clark lhe relata a sua história, Lois compromete-se a guardar segredo sobre a sua existência.

Lois Lane, a intrépida repórter foi
 a primeira a descobrir o segredo de Clark Kent.

À deriva no espaço sideral, Zod e a sua tripulação buscam antigas colónias kryptonianas. Mas depressa concluem que nenhuma delas terá sobrevivido. Depois de terem intercetado uma transmissão de emergência feita a partir da nave encontrada por Clark no Ártico, eles deduzem que o filho de Jor-El deverá estar perto dela e traçam rota para o nosso planeta.
Chegados à órbita terrestre, os renegados kryptonianos emitem uma comunicação à escala global exigindo que Kal-El se renda, sob a ameaça de uma guerra sem quartel contra o mundo que o acolheu.
Determinado em evitar a morte de milhares de vidas inocentes, o Super-Homem resolve entregar-se ao Exército estadunidense que, por sua vez, o entrega a Faora, a lugar-tenente de Zod. Inesperadamente, Lois é também levada para bordo da espaçonave kryptoniana.
Cara a cara com o filho de Jor-El, Zod revela enfim o seu tenebroso plano: transformar a Terra num novo Krypton. Perante a recusa de Kal-El em juntar-se a ele, Zod ordena a Jax-Ur, seu consultor científico, que lhe extraia o Códice. Com o qual o vilão pretende produzir uma nova gesta de colonizadores geneticamente modificados para repovoar a Terra após o extermínio dos humanos.
No último momento, porém, o Super-Homem e Lois Lane conseguem escapar da nave graças à ajuda do holograma de Jor-El. Sem perder tempo, os dois regressam à Terra para avisar o Exército americano das reais  intenções de Zod. Este envia Faora e outro dos seus soldados para recapturar Kal-El. Seguindo-se uma violenta refrega entre o trio de kryptonianos que transformam Smallville num campo de batalha. Com a ajuda dos militares, o Super-Homem consegue levar a melhor, embora saiba estar iminente uma ameaça muito pior.
Furioso, Zod ordena o processo de terraformação. Acionados os gigantesco engenhos estrategicamente posicionados sobre Metrópolis e ao sul do Oceano Índico, a destruição assume proporções bíblicas.
Zod e seus comparsas.

Disposto a imolar-se para salvar o seu mundo adotivo, o Super-Homem consegue, a muito custo, destruir um dos engenhos, sendo o outro devolvido à Zona Fantasma por Lois Lane, graças à chave e às instruções de Jor-El.
Agora o único sobrevivente da armada kryptoniana, Zod jura vingar a morte da sua tripulação, matando o maior número possível de terráqueos. Tentando desesperadamente aplacar a fúria destruidora do seu compatriota, o Super-Homem trava com ele um combate épico nos céus de Metrópolis.
Encurralado numa estação de comboios, Zod recusa render-se e usa a sua visão de calor para tentar incinerar um pequeno grupo de passageiros. Indiferente às súplicas do Super-Homem para que poupe a vida daquelas pessoas, o vilão continua a tentar atingi-las com os seus lasers oculares, obrigando o herói a matá-lo, partindo-lhe o pescoço. Enquanto o cadáver de Zod jaz no chão, o Homem de Aço solta um lancinante grito de angústia que gela a alma de Lois Lane.
Assumindo-se publicamente como o defensor da Humanidade, o Super-Homem inutiliza um satélite usado pelos militares para monitorizá-lo e convence-os a deixarem-no operar de forma independente. Para ter acesso a informação privilegiada, Clark Kent começa, paralelamente, a trabalhar como repórter no Daily Planet. Contando com a cumplicidade de Lois Lane para manter a sua identidade secreta.


Trailer:




Curiosidades:
* Henry Cavill - o primeiro ator não americano a encarnar o Homem de Aço -  recusou recorrer ao consumo de esteroides anabolizantes ou a qualquer tipo de manipulação digital por forma a aumentar artificialmente a sua massa muscular para o papel. Optou, ao invés, por um exigente programa de preparação física nos meses que antecederam o arranque das filmagens. Programa esse que, além de um intenso trabalho de ginásio, incluiu também um rigoroso regime alimentar. Em poucas semanas, Cavill  obteve um teor de gordura corporal de apenas 7%, equivalente ao dos fisiculturistas profissionais durante as competições. O ator britânico recusou igualmente depilar o peito para as cenas em que exibia o seu tronco nu. Justificando essa recusa com a aparência viril dada por John Byrne ao Super-Homem em Man of Steel, arco de histórias que revisitou a origem do herói após Crise nas Infinitas Terras, e que serviu de inspiração ao título e a importantes segmentos da película;

O invejável porte físico
 de Henry Cavill em Man of Steel.

*No decorrer das audições para o protagonista, a equipa de produção pediu a Henry Cavill que vestisse o uniforme usado em tempos por Christopher Reeve. Apesar das cores mais vistosas e do calção vermelho por fora das calças, ninguém se riu ao vê-lo assim vestido. Segundo Zack Snyder, esse foi o momento em que teve a certeza de que Cavill era perfeito para o papel. Importa recordar que, anos antes, ele fora preterido em relação a Brandon Routh em Superman Returns (2006);
*Para enfatizar o virar de página que Man of Steel pretendeu representar na filmografia do Último Filho de Krypton, o icónico tema de abertura de John Williams foi substituído por uma partitura musical composta por Hans Zimmer. Foi a primeira vez, desde 1978, que isso aconteceu;
*Quando Jor-El escapa da sede do Conselho, é visível uma lua semidestruída no céu.Trata-se de Wegthor, um satélite natural de Krypton que, na BD original, foi destruído por uma detonação nuclear operada por Jax-Ur. Cientista renegado condenado à Zona Fantasma que, no filme, é interpretado por Mackenzie Gray (ator que, anos antes, encarnara um clone adulto de Lex Luthor num episódio de Smallville). Conforme também é explicado por Jor-El,a destruição parcial de Wegthor motivou o início da exploração espacial kryptoniana;
* Em Man of Steel, a Fortaleza da Solidão é uma astronave kryptoniana enterrada sob o  gelo do Ártico. Conceito que mistura elementos retirados de várias versões do refúgio do herói nos comics: se, por um lado, a sua localização remete para a Idade da Prata, a ideia de que se trataria de um artefacto abandonado séculos antes por exploradores kryptonianos baseia-se tanto em Adventures of Superman (1989) como em The New 52! (2011);
* O monólogo de Jonathan Kent que serve de pano de fundo ao teaser trailer do filme, é uma reprodução textual das palavras do pai adotivo de Kal-El em Superman: Secret Origin, história escrita em 2010 por Geoff Johns, sendo considerada a origem definitiva do Homem de Aço;
*Na banda desenhada World of Krypton, Zero Negro era o nome da organização terrorista responsável pela destruição de Kandor (antiga capital de Krypton) durante uma revolução pelos direitos dos clones escravizados. No filme, era esse o nome da nave do General Zod;
* Faora Ul, a lugar-tenente de Zod, fora rebatizada de Ursa em Superman (1978) e Superman II (1980), recuperando em Man of Steel o seu nome original. Ironicamente, devido ao sucesso de Ursa, a personagem seria posteriormente incorporada no Universo DC, desprovida de qualquer ligação com Faora. Papel  para o qual foi cogitada Gal Gadot, a atriz que emprestou o corpo à Mulher-Maravilha em Batman versus Superman: Dawn of  Justice (vide texto seguinte). Gadot seria, no entanto, descartada por causa da sua gravidez, recaindo a escolha sobre a germânica Antje Traue;

Ursa e Faora: separadas à nascença.
* Na versão primitiva do argumento, Zod era devolvido pelo Super-Homem à Zona Fantasma. Por insistência de Zack Snyder, a cena final entre ambos foi alterada, culminando com a morte do vilão, que teve o pescoço partido por Kal-El. Ao fazer tábua rasa do solene (e raras vezes violado) juramento do herói de nunca tirar vidas, o cineasta pretendia dessa forma que o episódio fosse um lembrete perpétuo para as ações vindouras do Homem de Aço. O resultado prático desta decisão foi, contudo, uma monumental controvérsia que reverbera até hoje nos recantos do ciberespaço, e que ameaça prologar-se até ao fim dos tempos. Com um sem número de fãs a acusarem Snyder de ter subvertido por completo a essência da personagem que é também um símbolo do que de melhor a Humanidade tem para oferecer;
* A data escolhida para a estreia de Man of Steel (junho de 2013) não foi fruto do acaso: foi nesse mês que, 75 anos antes, o Super-Homem debutara nas páginas de Action Comics nº1.
Super-Homem prestes a matar Zod
 na cena mais polémica de todo o filme.

Prémios e nomeações: Nomeado para diversos prémios nas mais variadas categorias, Man of Steel acabaria, no entanto, por arrebatar apenas três deles: um Golden Trailer Award (Melhor Póster Promocional), um MTV Award (Melhor Herói) e um New Now Next Award (Melhor Filme de Verão 2013).
Sequela: Mercê do estrepitoso sucesso de bilheteira de Homem de Aço, logo nas semanas seguintes à sua estreia mundial, Zack Snyder e David S. Goyer anunciaram os seus planos para a produção de uma sequência direta do filme, bem como de uma longa-metragem baseada na Liga da Justiça. Na edição de 2014 da Comic-Con de San Diego, Snyder confirmou que a sequela traria a inédita reunião de Batman e Super-Homem no grande ecrã.
Já depois de, em agosto de 2013, Ben Affleck  ter sido o escolhido para assumir o duplo papel de Bruce Wayne/Batman, em várias entrevistas Snyder avançou que parte substancial do enredo seria inspirada em The Dark Knight Returns (Batman, O Cavaleiro das Trevas), a aclamada saga saída da pena de Frank Miller em 1986. 
Devido ao compromisso de Goyer com outros projetos, em dezembro de 2013 Chris Terrio foi contratado para reescrever o guião do filme. Quase em simultâneo, foi oficializada a escolha da atriz e ex-Miss Israel Gal Gadot para interpretar a Mulher-Maravilha.
O título oficial da película, por outro lado, só seria revelado em maio de 2014: Batman versus Superman: Dawn of Justice (Batman versus Superman: A Origem da Justiça). Depois de várias alterações na data de estreia, esta foi confirmada para 25 de março de 2016 (EUA), em 2D, 3D e IMAX 3D.


Batman versus Superman: Dawn of Justice chegou este ano aos cinemas de todo o mundo.

Prequela: Após muitos rumores e especulações, em dezembro de 2014 foi confirmada a produção de uma série televisiva cuja trama terá lugar aproximadamente 200 anos antes dos eventos mostrados em Man of Steel. Escrita e coproduzida por David S. Goyer, Krypton deverá ir para o ar ainda este ano no canal SyFy.

Cartaz promocional de Krypton,
a série televisiva que servirá de prequela a Man of Steel.


Veredito: 73%


Precedo este meu parecer a Man of Steel com uma breve declaração de interesses (cuja obrigatoriedade deveria ser imposta aos críticos encartados): conforme certifica o título deste blogue, praticamente desde que deixei de gatinhar que elegi o Super-Homem como minha personagem favorita, cresci com os filmes do herói estrelados pelo insuperável Christopher Reeve, emocionei-me com Superman Returns e não perco uma produção dos Estúdios Marvel. Feita esta importante ressalva prévia, permitam-me então dizer de minha justiça.
Sei bem o que a crítica dita especializada (e de língua afiada) escreveu acerca deste magnífico filme: que é demasiado obscuro e violento, que lhe falta romance, que lhe falta humor e por aí fora. Curiosamente, ao seu predecessor - Superman Returns-  parecia faltar o contrário: cenas de ação e dinâmica narrativa.Sem mencionar o fastio que o romance meloso entre o herói e Lois Lane suscitou na generalidade do público. Circunstancialismos de uma película que, como é sabido, tentou fazer reviver no nosso século a versão clássica do Super-Homem saída diretamente da Idade da Prata dos comics. E que, à conta disso, se tornou num dos mais mal-amados filmes de super-heróis da história da 7ª Arte. Ou seja, muitos dos espíritos refinados que desdenham até hoje do registo realista de Man of Steel também não tinham morrido de amores pela versão romantizada do herói apresentada por Bryan Singer há precisamente uma década. Donde se conclui que, muito provavelmente, a sua implicância passará menos pelos filmes do que pelo herói em si. Fator que explica muito do que se tem dito e escrito sobre as mais recentes aventuras cinematográficas do Homem de Aço.
Quem conhece os meandros do chamado fandom super-heroístico, sabe bem quão menosprezado é o Super-Homem hoje em dia. Personagem à qual costumam ser colados adjetivos como "anacrónico", "chato" e "inútil" (citando apenas os mais lisonjeiros).
Obviamente que não foi a pensar na claque anti-Super-Homem (tampouco nos críticos que, não raro, ignoram os cânones dos super-heróis adaptados a outros meios de comunicação) que Zack Snyder pensou enquanto dirigia Man of Steel. Era nos verdadeiros fãs que ele pensava. Reforçando dessa forma o seu estatuto de filmador de histórias aos quadradinhos, granjeado com os igualmente fabulosos 300 e Watchmen.
Enquanto fã de super-heróis - e do Homem de Aço em particular - estou-lhe deveras grato por isso, visto que o resultado final me encheu as medidas. Desde logo porque se demarcou da estafada receita humorística usada pela concorrência em produções do género. Mas já lá irei.

Man of Steel representa uma nova alvorada
na história cinemática do Super-Homem.
Um dos pontos mais fortes de Man of Steel são, sem sombra de dúvida, as sequências de ação. Primorosamente coreografada e com efeitos visuais simplesmente espetaculares, a batalha final entre o Super-Homem e o General Zod fez vibrar qualquer um. Exceto, claro, os críticos e espectadores de sensibilidade delicada que viram nela um monumento à violência sem sentido. E, possivelmente, uma apologia subliminar da xenofobia, já que temos uma cidade norte-americana semidestruída pela ação de dois alienígenas.
Eu, por outro lado, além de me estar a marimbar para as patetices dos críticos, considero que, nesse quesito específico, Man of Steel bate aos pontos muitas das recentes produções da concorrência. Mas não apenas nesse. Também no que a referências ao material original concerne, este filme é muito mais rico do que algumas das mediocridades saídas dos Estúdios Marvel. Que, como fica mais evidente a cada filme lançado, se limitam a reciclar a mesma fórmula humorística, para gáudio de quem perspetiva os filmes de super-heróis como um subgénero cómico a ser consumido entre mãos-cheias de pipocas em salas de cinema a abarrotar de adolescentes.
Dito de outro modo, se não dispensam graçolas num filme de super-heróis, escusam de ver Man of Steel. Em vez de servir mais do mesmo, a DC tem-se esforçado em criar um estilo próprio, demarcando-se assim do da concorrência. O que não significa que para gostar de um terá de odiar-se o outro. Deixem isso para os pobres de espírito e para os haters (que, no fundo, são a mesmíssima coisa).
Claro que o filme não é perfeito. Nem seria de esperar que o fosse. Afinal, trata-se do primeiro capítulo de uma franquia totalmente nova. Assim, entre as principais falhas a assinalar, destaco o por vezes vertiginoso carrossel de flashbacks que, a espaços, deixam o espectador com a cabeça a andar à roda. Ligeiramente confusa e pouco inovadora, a trama de Man of Steel corresponde, bem vistas as coisas, à mescla dos enredos de Superman e Superman II, devidamente filtrada de dois clichés: Lex Luthor e kryptonita. É pois preciso recuar até 1951 (ano em que estreou Superman and the Mole Men) para encontrarmos um longa-metragem do Homem de Aço que não contasse com a presença de, pelo menos, um desses habitués nas aventuras cinematográficas do herói.
Outro aspeto negativo a salientar é a partitura musical composta por Hans Zimmer. Que, nem por sombras, possui o carisma do icónico tema de abertura que John Williams produziu para os filmes com Christopher Reeve (de quem considero Henry Cavill um digno sucessor). Aqueles que levaram toda uma geração a acreditar que um homem podia voar.Algo em que eu próprio também voltei a acreditar com Man of Steel. Prevendo, por isso, altos voos para o Universo Estendido DC.


    



    
    

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

ETERNOS: DAN JURGENS (1959 - ... )



   Apadrinhado por um grande vulto da 9ª arte, entrou, ainda jovem, pela porta grande da indústria dos comics. Na DC encontrou uma segunda casa, retribuindo a hospitalidade com a conceção de algumas das mais emblemáticas sagas e personagens da companhia. Suspira, porém, até hoje por uma segunda oportunidade com um certo Escalador de Paredes.

Biografia e carreira: Casado e pai de duas filhas, Dan Jurgens nasceu há 56 anos na pequena cidade de Ortonville, no estado norte-americano do Minnesota. Isto é praticamente tudo o que se sabe acerca da sua vida familiar.
  Já o seu extenso e multifacetado percurso profissional é do domínio público e remonta a 1982. Então com apenas 23 anos - e depois de, no ano anterior, ter concluído os seus estudos no Minneapolis College of Art and Design - Dan foi o escolhido para ilustrar as estórias de Warlord (conceito desenvolvido por Mike Grell e publicado sob os auspícios da DC).
  Impressionado com o portefólio que um jovem e promissor desenhista lhe mostrara numa convenção dedicada à 9ª arte, foi o próprio Grell quem recomendou Dan aos seus editores da DC. Percebendo estarem em presença de um fora de série, eles nem pensaram duas vezes antes de contratá-lo.

Edição de Warlord que marcou a estreia profissional de Dan Jurgens em 1982.

   A Dan Jurgens foi assim dada oportunidade de colaborar de perto com diversos nomes sonantes dos quadradinhos. Jerry Conway e Roy Thomas foram dois deles. Escritores consagrados que, anos mais tarde, aquando da sua estreia como argumentista, lhe serviriam de referências.
   Um dos momentos capitais desta primeira passagem de Dan Jurgens pela DC ocorreu em 1985. Ano em que criou aquele que seria o primeiro herói de relevo no período pós-Crise e membro proeminente da renovada Liga da Justiça: o Gladiador Dourado (vide biografia ficcionada já publicada neste blogue).
   Prosseguindo a sua ascensão meteórica na Editora das Lendas, em 1987 Dan Jurgens foi escalado para assumir a arte de The Adventures of Superman Annual nº1. Começava, assim, a sua longa e umbilical ligação ao Homem de Aço. Personagem com a qual, dois anos mais tarde, passaria a trabalhar a tempo inteiro. E cuja "morte" ajudaria a orquestrar em 1992. Foi aliás da sua imaginação que saiu Apocalypse (Doomsday, no original), o hediondo verdugo do campeão de Metrópolis.
   The Death of Superman (saga já aqui esmiuçada) constituiu, de facto, a coroa de glória de Dan Jurgens, valendo-lhe inclusivamente o prémio para melhor arco de histórias atribuído pela National Cartoonist Society. Escusado será dizer que tamanho esplendor não passou despercebido à concorrência, que há muito cobiçava a coqueluche da eterna rival.

A morte do Super-Homem trouxe fama e glória a Dan Jurgens.

   Com efeito, ao fim de quase 15 anos de casamento com a DC, em 1996 Dan Jurgens resolveu trocá-la pela Marvel. Desenganem-se, porém, se pensam que se tratou de um affair inconsequente. Na verdade, essas segundas núpcias durariam sete anos, vividos em quase permanente lua de mel.
   Antes, porém, de assentar arraiais na Casa das Ideias, Dan Jurgens teve ainda tempo para vincar a sua impressão digital na memorabilia da DC, associando-se à produção de três sagas de referência: Armageddon 2001 (1991), Panic in the Sky (1993) e Zero Hour (1994). Reportório assinalável a que se somou ainda o lendário crossover Superman versus Aliens (publicado em 1995 numa iniciativa conjunta da DC e da Dark Horse Comics).

Dan Jurgens com dois dos heróis que mais estima.

   Na Marvel, começou por ser incumbido de lançar The Sensational Spider-Man, série mensal inicialmente projetada para acolher as aventuras e desventuras do novo Escalador de Paredes (Ben Reilly) saído da Saga do Clone. A despeito desse pressuposto, as coisas não correram sobre rodas. Com Dan Jurgens a exercer forte pressão no sentido de trazer de volta Peter Parker. E, invariavelmente, a esbarrar na intransigência de Bob Harras, o recém-nomeado Editor-chefe da Casa das Ideias. Braço de ferro que tinha, obviamente, vencedor anunciado.
  Harras deliberara que o regresso do Homem-Aranha original só aconteceria após o término de Onslaught (saga protagonizada pelos X-Men, traduzida como Devastação em Portugal e Massacre no Brasil). E nem ventos nem marés o fariam mudar de ideias.
  Vencido mas não convencido, Dan Jurgens bateu com a porta, em protesto com o que entendia serem desmandos editoriais. A propósito deste percalço na sua carreira, ele afirmaria anos mais tarde numa entrevista que gostaria muito de poder ter nova oportunidade para trabalhar com o Homem-Aranha. Admitindo que se sentia de certo modo defraudado por ter apenas podido fazê-lo com a versão genérica daquele que é um dos símbolos da Marvel.
   Apesar deste passo em falso, nos anos seguintes Dan Jurgens continuou a sua corrida de fundo pelo Universo Marvel. The Mighty Thor e Captain America foram os dois títulos em que intercalou o seu trabalho (escrevendo o primeiro e acumulando as funções de argumentista e desenhador no segundo).

A fase do Deus do Trovão escrita por Dan Jurgens.

   Fazendo ouvidos de mercador ao velho aforismo de que nunca devemos voltar aos sítios onde fomos felizes, no dealbar deste século Dan Jurgens regressou à DC. Um regresso em grande estilo e a tempo de se associar às comemorações do décimo aniversário da morte do Super-Homem. Narrada sob o ponto de vista de algumas das vítimas colaterais daquele fatídico dia, a minissérie Superman: Day of Doom (2003) mostrou um Dan Jurgens em grande forma.
  Em 2005, Dan Jurgens produziu You Can Draw Marvel Characters, guia ilustrado editado pela Dorling Kindersley Publishing que ensinava passo a passo a desenhar os mais ilustres inquilinos da Casa das Ideias. Obra que tem desde então servido de referência a muitos aspirantes a uma carreira ligada à 9ª arte.
  Quando, em 2011, a DC revitalizou a sua mitologia através de The New 52, Dan Jurgens teve participação importante em dois projetos. Depois de escrever as histórias da rediviva Liga da Justiça Internacional (agora capitaneada pelo Gladiador Dourado e destituída do seu tom humorístico de outrora), assumiu a arte de Green Arrow, a aclamada nova série mensal do Arqueiro Verde. Seguindo-se o inevitável regresso às páginas de Superman, por cujos enredos e ilustrações ficaria responsável por um largo período.
   Dado  o seu traquejo com sagas de grande envergadura, foi sem surpresa que, em 2014, Dan Jurgens foi um dos argumentistas escolhidos para The New 52: Futures End, prelúdio de novo ajustamento cronológico do Universo DC. E na esteira do qual ajudou também a lançar Aquaman & The Others, título mensal tendo o Soberano dos Sete Mares e um enigmático grupo de aliados chamados Os Outros como cabeças de cartaz.
  A conclusão de The New 52: Futures End e de Convergence (seu desdobramento) permitiu a Dan Jurgens abraçar novos projetos. Assim, no verão de 2015, os leitores norte-americanos foram presenteados com duas novas séries baseadas na mitologia do Homem-Morcego. São elas Batman Beyond e Bat-Mite, ambas escritas por Dan. Mais recentemente, em outubro passado, foi lançada a minissérie Superman: Lois & Clark através da qual Dan Jurgens retomou a sua ligação ao Homem de Aço.
  Independentemente do que o futuro lhe reserve, Dan Jurgens há muito inscreveu o seu nome nos anais da História da 9ªarte, sendo portanto um dos seus maiores expoentes da atualidade.

O mais recente projeto de Dan Jurgens ao serviço da DC.


Principais criações:

* Agent Liberty/Agente Liberdade (DC)
* Booster Gold/Gladiador Dourado (DC)
*Cyborg Superman/Supercyborg (DC)
*Doomsday/Apocalypse (DC)
*Monarch/Monarca (DC)
*Thor Girl (Marvel)
*Waverider/Tempus (DC)

Gladiador Dourado, uma das mais célebres criações de Dan Jurgens para a DC.




Bibliografia de referência: 

*Armageddon 2001 (DC, 1991);
*The Death of Superman/ A Morte do Super-Homem (DC,1992);
* Panic in the Sky/Pânico no Céu (DC, 1993);
* Zero Hour/Zero Hora (DC, 1994);
*Superman versus Aliens (DC/Dark Horse, 1995);
* Superman/Fantastic Four (DC/Marvel, 1999);
*Superman: Day of Doom/ Super-Homem: Dia do Juízo Final (DC,2003);
* You Can Draw Marvel Characters (Dorling Kindersley Publishing, 2005);
* The New 52: Futures End/Os Novos 52: Fim dos Tempos (DC, 2014)



Dois dos trabalhos que notabilizaram Dan Jurgens.
 
 


 
 
 





    



Principais criações:

sábado, 16 de janeiro de 2016

CLÁSSICOS REVISITADOS: «ZERO HORA: CRISE NO TEMPO»




  Desdobramento de Crise nas Infinitas Terras, esta saga retroativa teve como principal objetivo corrigir algumas inconsistências herdadas do Multiverso. Corrompido pelo formidável poder de Parallax e obstinado em remodelar a Existência à sua imagem, Hal Jordan serviu de catalisador para mais este ajustamento cronológico da DC.

Título original: Zero Hour: Crisis in Time
Licenciadora: DC Comics
Data de publicação: Setembro de 1994
Número de volumes: 5
Autores: Dan Jurgens (argumento e arte) e Jerry Ordway (arte-final)
Personagens principais: Hal Jordan/Parallax, Waverider (Tempus), Extant (Extemporâneo), Superman (Super-Homem), Wonder Woman (Mulher-Maravilha), Batman, The Spectre (Espectro), Green Lantern (Lanterna Verde Kyle Rayner), Rip Hunter e Time Trapper (Senhor do Tempo)
Coadjuvantes: Captain Atom (Capitão Átomo), Arsenal, Ray, Hawkman (Gavião Negro), Darkstar, Impulse (Impulso), Green Lantern (Lanterna Verde Alan Scott), Liri Lee, Supergirl, Superboy, Martian Manhunter (Caçador de Marte), The Flash (Jay Garrick), Shazam (Capitão Marvel), Power Girl (Poderosa), Batgirl, Alpha Centurion (Centurião Alfa), Darkseid, New Gods (Novos Deuses), Linear Men (Homens Lineares) e Damage (Detonador)

Edição brasileira



Data de publicação: Agosto a outubro de 1996
Editora: Abril
Categoria: Minissérie em 5 fascículos (48 páginas cada)
Formato: Americano (17x 26 cm), colorido e com lombada agrafada
Na minha coleção desde: 1996


Antecedentes: 



  Sugestivamente sub-titulada de Crise no Tempo, Zero Hora assumiu-se como um evento tardio desdobrado de Crise nas Infinitas Terras. Saga já aqui esmiuçada e que, menos de uma década antes, unificara o anárquico Universo DC. Contudo, mercê de algumas inconsistências herdadas do Multiverso. fez-se necessário novo ajustamento cronológico.
   Um dos problemas supervenientes dessa primeira reestruturação editorial consistiu na preservação das versões clássicas de algumas personagens de charneira. Cuja reformulação, nalguns casos, demorou anos a ser feita. Acentuando dessa forma as incongruências e paradoxos que pontuavam (e continuam a pontuar) a continuidade pós-Crise.
  Gavião Negro foi um dos exemplos mais problemáticos, na medida em que a sua versão atualizada surgiria somente em 1989 (três anos após Crise nas Infinitas Terras). Ínterim durante o qual o herói manteve o seu alter ego Carter Hall, reminiscência da Idade da Prata. Sendo, no entanto, subsequentemente retratado como um espião thanagariano chamado Fel Handar.
 Também a Legião dos Super-Heróis enfrentou problemas similares, decorrentes essencialmente da eliminação do Superboy (Kal-El) e da Supergirl (Kara Zor-El) da sua história. Mon-El, legionário daxamita dotado de poderes idênticos aos do Superboy, foi uma das soluções de recurso encontradas. Renomeado de Valor, teve a sua origem retocada por forma a poder ocupar o lugar do jovem herói krptoniano sentenciado ao oblívio.
  Sucede que essas e outras alterações nem sempre tiveram acolhimento favorável por parte dos leitores. Acabando mesmo em alguns casos por acrescentar problemas aos preexistentes. Ou, como diria Bocage: "Foi pior a emenda do que o soneto".
  Tornou-se, portanto, imperativa a tomada de medidas drásticas a fim de contrariar o caos que começava de novo a contaminar o Universo DC.
  Numa representação simbólica da contagem decrescente até à grande e anunciada deflagração espaço-temporal, Zero Hour foi publicada retroativamente e interligada com os principais títulos DC. Tendo sido, também, obra de um só homem. Arquitetada na totalidade por Dan Jurgens, coube a Jerry Ordway arte-finalizar os seus esboços.

Dan Jurgens, o solitário arquiteto de mais um reboot do Universo DC.

 Antes e durante Zero Hour, diversas personagens experienciaram inexplicáveis anomalias cronológicas nas suas histórias. Destruídas as barreiras temporais, desencadeou-se a inelutável voragem da entropia. Linhas temporais divergentes amalgamaram-se com o universo principal, à medida que a própria realidade se esboroava.
  Uma das situações mais dramáticas ocorreu quando a Sociedade da Justiça da América foi dizimada por Extemporâneo. Sobrevindo desse facto o perecimento de heróis da Idade do Ouro, como Senhor Destino e Homem-Hora. Ainda na esteira desses fenómenos cronológicos, a Legião dos Super-Heróis - e com ela todo o século 30 - teve a sua existência apagada.
 No rescaldo dos eventos narrados na saga, outubro de 1994 foi referenciado como Zero Month (Mês Zero). Sem exceção, todos os títulos ativos da DC (a que se somaram algumas novidades editoriais) foram renumerados, voltando literalmente à estaca zero. Expediente que possibilitou aos respetivos argumentistas procederem às necessárias retificações na continuidade das personagens.
  Em última análise, Zero Hour permitiu à DC arrumar a casa. Ou, pelo menos, varrer para debaixo do tapete alguns dos problemas herdados do período pré-Crise. Longe de ter sido uma solução definitiva para as inconsistências cronológicas que continuam a caracterizar a mitologia da Editora das Lendas, a saga teve o mérito de restaurar alguma da ordem perdida. Servindo, de caminho, para revitalizar alguns dos títulos mais emblemáticos da companhia, na expectativa de assim captar uma nova safra leitores.

Imagem promocional de Zero Month.


Quem é o Extemporâneo?




  Em 1991, um novo supervilão oriundo de um futuro opressivo foi introduzido na mitologia da DC. Monarca era o seu nome. Depois de ter chacinado a totalidade dos super-heróis, ele era o soberano absoluto e único protetor da Terra no ano de 2030.
   Tempus, indivíduo cujo vínculo com o fluxo cronológico lhe permitia viajar no tempo, era a única pedra no sapato do todo-poderoso Monarca.
  Quando Tempus voltou ao passado com o intuito de evitar a ascensão do tirano, este seguiu-o em segredo através de uma brecha temporal criada pelo herói. Falhado o seu plano de antecipar os eventos que conduziriam ao seu reinado de terror, a identidade do Monarca foi enfim revelada. Outrora conhecido como Hank Hall, notabilizara-se como Rapina, herói que passara pelas fileiras dos Novos Titãs.
   Estes eventos ocorreram em Armageddon 2001, arco de histórias que já aqui foi objeto de análise. Sugiro, por isso, que despendam alguns minutos do vosso precioso tempo a ler a minha resenha, caso estejam interessados em recordar ou aprofundar os vossos conhecimentos sobre essa saga.

Tempus, figura-chave de Armageddon 2001 e Zero Hour.

 Voltando à história do Monarca, o vilão dedicaria depois uma parte considerável da sua vida a combater o Capitão Átomo através do fluxo temporal. Numa dessas ocasiões ele drenou uma porção das habilidades de Tempus, obtendo assim um vislumbre do seu próprio passado. Foi, pois, dessa forma que descobriu que se tinha transformado em alguém muito superior a Hank Hall.
 Com efeito, o Monarca não se limitara a matar Columba. Absorvera também a essência da antiga parceira heroica de Hank Hall. Gerando por essa via uma fusão entre os Filhos da Ordem e os Filhos do Caos. Nesse dia nasceu um novo e poderoso vilão: Extemporâneo.
  Depois de extorquir as manoplas a Tempus, Extemporâneo conectou-se ele próprio com o fluxo temporal, passando assim a poder realizar excursões cronológicas a seu bel-prazer.
 

Qual a relação entre Hal Jordan e Parallax?


  
  Durante a saga O Regresso do Super-Homem (também já aqui esmiuçada), Coast City foi obliterada por Mogul e pelo Supercyborg. Profundamente transtornado pela perda do seu lar e dos seus entes queridos, o Lanterna Verde Hal Jordan usou o seu anel energético para recriar a cidade devastada. Decisão que lhe valeu uma vigorosa reprimenda por parte dos Guardiões do Universo. Ao usar o poder do seu anel em benefício próprio, Hal violara um dos preceitos fundamentais da Tropa dos Lanternas Verdes.
 Intimado a comparecer em Oa, Hal insurgiu-se contra os Guardiões e apropriou-se da energia da Bateria Central que permite aos Lanternas Verdes recarregarem os seus anéis. De volta à Terra, usou essa energia para gerar um construto permanente de Coast City.
 Forçado a enfrentar os seus camaradas de armas, Hal assassinou muitos deles, deixando outros à beira da morte depois de expropriá-los dos seus anéis. De seguida, viajou novamente até Oa, onde prosseguiu a carnificina. Sinestro, Kilowog e todos os Guardiões do Universo (exceto Ganthet) morreram às suas mãos.
 Imbuído do poder dos Guardiões, Hal mergulhou no núcleo da Bateria Central, dela emergindo transfigurado. Parallax era a mais recente ameaça cósmica e prometia não deixar pedra sobre pedra no Universo (promessa que cumpriria com denodo).

   

Enredo: Para assombro geral, duas personagens de realidades alternativas materializam-se repentinamente no Universo primordial. O primeiro desses visitantes autodenominava-se Centurião Alfa e alegava ser um antigo soldado romano abduzido por extraterrestres, sendo posteriormente transplantado para o século XX, onde se tornou o campeão de Metrópolis. Já a segunda náufraga temporal era uma variante da Batgirl do nosso mundo.
  Estas e outras anomalias detetadas no espaço-tempo eram causadas por um bizarro fenómeno chamado "compressão temporal". Com efeito similar ao do vagalhão de antimatéria responsável pela aniquilação do Multiverso em Crise nas Infinitas Terras, uma onda de entropia varre toda a existência, apagando sucessivas eras históricas.
  Por detrás do cataclismo aparenta estar um novo e poderoso vilão chamado Extemporâneo. Dotado de poderes temporais, ele descobrira o Universo primordial e parecia empenhado em alterar a sua cronologia.
  Depois de confrontar e derrotar a Sociedade da Justiça da América, Extemporâneo provoca a morte  de vários dos seus integrantes ao anular os efeitos que retardavam o seu envelhecimento desde a década de 1940.
   Apesar do seu formidável poder, Extemporâneo é, afinal, um mero peão do verdadeiro mentor do caos e destruição que, como fogo em palha seca, alastravam pelo Universo.
 Outrora um dos mais valorosos heróis da Terra, Hal Jordan - agora transformado em Parallax - assume-se como o maestro da diabólica sinfonia que ameaça a própria Existência. Completamente insano, Hal deseja refazer o Universo, impedindo assim os eventos que conduziram à destruição de Coast City.
  Graças ao esforço coletivo dos heróis, Parallax é detido antes de concluir a sua empreitada de remodelação do Universo de acordo com os seus caprichos. Mesmo enfraquecido devido ao enorme dispêndio de energia, Hal Jordan sobrevive quando tem o coração trespassado por um flecha disparada pelo Arqueiro Verde (seu amigo de longa data).
  Restaurada a linha temporal primordial, a sua cronologia sofre algumas alterações. Efeitos do novo Big Bang desencadeado pelo Detonador, um jovem herói com inacreditáveis poderes explosivos.
 Consequentemente, nas últimas páginas da saga os desenhos são parcialmente rasurados, simulando dessa forma os saltos no tempo e o desaparecimento dos diferentes mundos paralelos. Refletindo o culminar da entropia, a última página foi deixada em branco.

Devorados pela entropia.

Consequências: Para ajudar os leitores - aturdidos por mais este reboot do Universo DC - a perceberem o que estava em causa, a contracapa do derradeiro capítulo de Zero Hour incluía um esquema da nova linha do tempo. Esquema esse que identificava vários eventos-chave que haviam conduzido ao grande ajustamento cronológico em curso. E no âmbito do qual foram estabelecidas datas para as estreias das figuras de proa da editora. Convencionou-se, assim, que doravante o período pós-Crise corresponderia a dez anos atrás. Justificando dessa forma o facto de as personagens não terem as suas idades alteradas.
   Dois problemas bicudos em matéria de continuidade, a Legião dos Super-Heróis e o Gavião Negro tiveram as suas mitologias profundamente reformuladas. No caso do herói alado, as suas múltiplas versões amalgamaram-se numa única personagem. Solução que não tardaria, porém, a relevar-se problemática, originando novas contradições e equívocos.

Gavião Negro, um monumento à esquizofrenia do Universo DC.

  Após a conclusão da saga, várias personagens tiveram as suas origens recontadas e o portefólio editorial da DC foi amplamente reestruturado. Tendo a Liga da Justiça como matriz, surgiram novas formações heroicas, o filho do Arqueiro Verde (Connor Hawke) foi introduzido nas aventuras do progenitor e Guy Gardner assumiu a identidade de Guerreiro na sequência da descoberta de uma ancestral herança alienígena que lhe concedia novos poderes.
  Nem as personagens mais emblemáticas da Editora das Lendas escaparam indemnes à revolução emanada de Zero Hour. Que o digam Batman e Mulher-Gato, cujas origens foram cirurgicamente retocadas. Entre as principais alterações à história do Homem-Morcego avultava agora o facto de ele nunca ter prendido ou confrontado os assassinos dos seus pais (fazendo dessa forma tábua rasa dos acontecimentos mostrados em Batman: Year Two).
  Retratada como uma prostituta em Batman: Year One (arco de histórias já aqui esmiuçado), a sedutora ladra com uma notória afinidade com felinos teve essa parte do seu passado eliminada. Sem qualquer referência à prática da mais velha profissão do mundo, Seline Kyle era agora apresentada como a mais ilustre moradora de uma bairro pobre de Gotham City. Já Dick Grayson (o primeiro Menino Prodígio), após décadas como pupilo de Bruce Wayne, viu ser-lhe conferido o estatuto de filho adotivo do milionário alter ego do Cavaleiro das Trevas.
  Zero Hour também abriu caminho para o lançamento de novas séries, bem como para o cancelamento de outras. Estratégia de marketing que não produziu contudo os resultados esperados. Muitos desses novos títulos teriam existência efémera, sendo extintos ao fim de poucos meses em consequência das fracas vendas. Honrosa exceção foi Starman, cujo sucesso junto dos leitores  e da crítica balizaria a forma como os editores deveriam reabilitar as personagens da Idade do Ouro.
  A receita narrativa de Starman, que consistia em servir aventuras ambientadas no presente mas refletindo acontecimentos passados, seria depois reproduzida nas histórias da Sociedade da Justiça da América, outra das séries a fazer furor nesse período.

Capa de Starman nº0, uma das mais bem-sucedidas séries no panorama editorial pós-Zero Hour.

  Contudo, nem todos os problemas de continuidade do Universo DC foram resolvidos por Zero Hour. Sobejavam ainda várias pontas soltas, que não tinham sido atadas nem cortadas, ameaçando tornar-se num enorme emaranhado. Entre elas incluía-se o futuro distópico mostrado em Armageddon 2001, história que requeria elementos de linhas divergentes entretanto eliminadas. Entre elas encontrava-se o chamado Universo Compacto. Levantando assim a questão do que fazer com a Supergirl/Matriz (criatura de protoplasma originária dessa realidade). Objetivando solucionar esse e outros quebra-cabeças, a DC introduziu o conceito de Hipertempo. Que mais não era do que uma declinação do velhinho Multiverso pré-Crise.
   Em vez de o resolver, o Hipertempo tornar-se-ia rapidamente em parte do problema. Com os editores da DC a resolverem em 2005 cortar o mal pela raiz através de Crise Infinita, saga que resgataria diversos conceitos remontando ao período que precedeu Crise Nas Infinitas Terras.

Um novo começo para o Homem de Aço e para todo o Universo DC.

Notas: 

* Conquanto Worlds Collide (crossover da DC e da Milestone Media produzido meses antes de Zero Hour) haja sido apagado da continuidade da Editora das Lendas em consequência dos eventos narrados na saga, o naipe de personagens proveniente do chamado Dakotaverso seria incorporado na mitologia DC em 2009;
* Dado o alcance temporal de Zero Hour, algumas das suas ramificações estenderam-se até anos vindouros. Em 2008, por exemplo, durante um encontro fortuito ocorrido no continuum espaço-temporal, o Besouro Azul e o Gladiador Dourado viram-se forçados a defrontar Parallax e Extemporâneo;
* Inebriado pelo poder de Parallax, Hal Jordan propôs-se recriar o Multiverso. Desígnio insólito, considerando que ele não deveria conservar qualquer memória dessa realidade pregressa. Importa observar, a este propósito, que Hal estivera ausente durante os cataclísmicos eventos de Crise nas Infinitas Terras. Pouco antes da batalha final contra o Anti-Monitor na aurora dos tempos, Hal renunciara às suas funções na Tropa dos Lanternas Verdes, sendo readmitido apenas após a conclusão da saga.

Como podia Hal Jordan rememorar eventos que não vivenciara?


Vale a pena ler?


 Primeira de muitas sequelas de  Crise nas Infinitas Terras, Zero Hora cumpriu com razoável mérito o seu propósito de eliminar algumas das pontas soltas herdadas da sua antecessora. Perdendo, todavia, na comparação com ela. Não só pelo menor impacto que dela decorreu na cronologia do Universo DC, mas sobretudo por ser uma história datada.
  Se o leitor não estiver familiarizado com a realidade do Universo DC em 1994, muito do que está em causa na saga soar-lhe-á irrelevante. Zero Hora não é, pois, uma saga intemporal. Ironia que lhe retira algum valor narrativo ao mesmo tempo que lhe reforça o valor histórico.
  Em contrapartida, apesar dos muitos elementos comuns com Crise nas Infinitas Terras, Zero Hora é de mais fácil digestão. Contribuindo para isso o menor número de personagens, a trama mais compacta e um compasso narrativo mais ligeiro.
  Divertida quanto baste, Zero Hora foi mais uma eloquente expressão da relação amor-ódio que a DC mantém há demasiado tempo com o seu labiríntico Multiverso. A exemplo de vários outros exercícios de revisionismo dos cânones da Editora das Lendas, esta saga foi apresentada como panaceia para os crónicos problemas de continuidade que são a sua pedra de toque. Porém, quanto muito, poderá ser perspetivada como um paliativo.
  Conforme atestam, aliás, os cíclicos ajustamentos cronológicos (4 só neste século) levados cabo no período subsequente à publicação de Zero Hora. E que, invariavelmente, assumem a forma de sagas de grande magnitude que prometem não deixar nada como está. Mas que, no final das contas, mais não fazem do que baralhar e voltar a dar.
  Baralhados ficam sem dúvida os leitores - mesmo os mais veteranos - com estes sucessivos reboots, com a palavra "crise" quase sempre inclusa nos respetivos títulos ou sub-títulos. Este vocábulo de origem grega parece, de resto, corresponder a outro dos fetiches dos mandachuvas da DC. Curioso verificar que ele preside há mais de 30 anos ao seu léxico. Servindo, porventura, para esconder uma certa crise de criatividade instalada na Editora das Lendas (e, por extensão, a toda a indústria dos comics).
  Face ao exposto, talvez fosse já tempo de a DC decidir o que quer fazer com o seu caleidoscópio de mundos paralelos. Assumi-lo ou renegá-lo de uma vez por todas. Porque começa a não haver paciência para este círculo vicioso de fins e recomeços.
 
O que fazer com um Multiverso em constante convulsão?

   

sábado, 26 de dezembro de 2015

EM CARTAZ: «SUPER-HOMEM IV - EM BUSCA DA PAZ"





   Qual destes trabalhos parece ser mais difícil para o Super-Homem? Impor a paz mundial ou salvar uma franquia cinematográfica decadente? Apesar de todos os seus poderes e boa vontade, foi neste último que o herói falhou. Marcando assim a saída pouco airosa do ator que o imortalizou e o início de uma longa travessia do deserto que manteve o Homem de Aço arredado do grande ecrã por quase duas décadas.

Título original: Superman IV - The Quest for Peace
Ano: 1987
País: EUA
Género: Ação/Aventura/Fantasia
Duração: 90 minutos
Produção: Menahem Golan e Yoram Globus
Realização: Sidney J. Furie
Argumento: Lawrence Konner, Mark Rosenthal e Christopher Reeve
Distribuição: Warner Bros. e Cannon Films
Elenco: Christopher Reeve (Super-Homem/Clark Kent), Gene Hackman (Lex Luthor), Margot Kidder (Lois Lane), Jackie Cooper (Perry White), Marc McClure (Jimmy Olsen), Jon Cryer (Lenny Luthor),Sam Wanamaker (David Warfield), Mariel Hemingway (Lacy Warfield) e Mark Pillow (Homem-Nuclear)
Orçamento: 17 milhões de dólares
Receitas: 36,7 milhões de dólares

Herói global, sem deixar de ser um ícone americano.

Desenvolvimento: Em 1983, na esteira dos dececionantes resultados de crítica e de bilheteira obtidos por Superman III, Christopher Reeve e os produtores Alexander e Ilya Salkind concordaram não haver futuro para a franquia. Três anos depois - em consequência do fracasso de Supergirl (1984) - os Salkind venderam os direitos da saga à Cannon Films. 
    A braços na altura com graves problemas de tesouraria, os mandachuvas da Cannon viram nesse negócio a  tábua de salvação do estúdio. Convictos de que poderiam dar um novo impulso à franquia do Homem de Aço, avançaram para a produção de um quarto filme. Não concebiam, no entanto, o projeto sem a participação das principais estrelas do elenco dos seus predecessores. Que, com maior ou menor relutância, lá acederam a assinar contrato. Christopher Reeve foi mesmo o mais difícil de convencer. E só aceitou repetir o papel que o imortalizou junto do grande público a troco de financiamento da Cannon para Street Smart, película de que seria cabeça de cartaz um par de anos depois. Como bónus adicional, o ator foi convidado a acumular as funções de coargumentista da nova aventura cinematográfica do herói que tão bem conhecia.
  Dispondo de um orçamento que ascendia inicialmente a 36 milhões de dólares, a produção pareceu enguiçada desde o começo. Os primeiros problemas surgiram logo na hora de escolher o respetivo realizador. Richard Donner, que dirigira Superman  e parte  substancial de Superman II antes de ser descartado, foi o primeiro a ser sondado. Declinou, no entanto, o convite que lhe foi endereçado por Golan e Globus.
   Seguiu-se então uma abordagem a Richard Lester, o substituto de Donner que assumira a direção de Superman II e Superman III. Porém, a sua resposta foi tirada a papel químico daquela que fora dada pelo seu antecessor. Ou seja, uma rotunda nega.
  Após estas duas tentativas falhadas, a Cannon conseguiu assegurar os serviços de Wes Craven. No entanto, o mestre do cinema de terror, celebrizado por filmes como Pesadelo em Elm Street, mal teve tempo para aquecer a cadeira de realizador. Devido a divergências criativas com Christopher Reeve, Craven acabaria afastado do projeto sem apelo nem agravo.
  A escolha final recairia, assim, sobre o canadiano Sidney J. Furie. Veterano da 7ª arte com uma filmografia extensa e diversificada, tivera o ponto mais alto da sua carreira como realizador em 1966. Ano em que arrebatou um Bafta (homólogos britânicos dos Óscares) na categoria de melhor filme a cores.

Sidney J. Furie (esq.) e Christopher Reeve durante uma pausa nas filmagens.

  Consensualizado o nome do realizador, foi definido o cronograma da produção. No entanto, em vésperas do arranque das filmagens, novo balde de água fria lançado sobre a equipa. Enfrentando cada vez mais sérios problemas de liquidez, a Cannon anunciou a redução do orçamento do projeto para menos de metade (17 milhões de dólares). 
   Em virtude destas severas restrições orçamentais, à produção não restou outro remédio senão cortar nas despesas. Mesmo naquelas que, à partida, deveriam ser intocáveis num projeto do género. Com efeito, uma das medidas mais drásticas - e desastrosas para o resultado final - consistiu na reutilização de efeitos especiais. Sobrevindo ainda a falta de verba para custear filmagens em Nova Iorque, cidade escolhida nos anteriores capítulos da saga para fazer as vezes de Metrópolis.
 Na sua autobiografia publicada em 1999, Christopher Reeve descrevia assim os incontáveis constrangimentos colocados à produção de Superman IV - The Quest for Peace: "Fomos afetados por cortes orçamentais em todos os departamentos. A Cannon tinha na altura aproximadamente trinta projetos em carteira e não reservou qualquer tratamento especial ao nosso.Uma das situações mais caricatas de que me recordo foi quando tivemos de filmar a cena em que o Super-Homem aterra na rua adjacente à sede da ONU, em Nova Iorque. Se houvesse uma cena similar num dos primeiros filmes da saga, ela teria sido gravada no próprio local. Richard Donner teria coreografado centenas de transeuntes e de veículos a circularem, assim como curiosos que assomariam às janelas dos edifícios circundantes para observar o desfile triunfal do herói. Em vez disso, tivemos de rodar a cena em causa num parque industrial na Inglaterra, sob chuva intensa e dispondo apenas de um punhado de figurantes. Para recriar vagamente a atmosfera nova-iorquina, alguém se lembrou de postar um vendedor ambulante de cachorros-quentes com o seu pitoresco carrinho,emoldurados ambos por uns quantos pombos a cirandar pela calçada. Mesmo que a história tivesse sido brilhante, duvido que, dadas as circunstâncias que envolveram a produção, o filme tivesse correspondido às expectativas dos fãs.


Uma das sequências reutilizadas em diversos momentos da película.

   Corroborando esta análise, Jon Cryer contou em entrevista um episódio ocorrido ainda durante a rodagem do filme. De acordo com o ator que representou o desmiolado sobrinho de Lex Luthor, certa vez Christopher Reeve puxou-o para um canto e disse-lhe: "Isto vai ser um desastre total!". Apesar de ter gostado de contracenar com Reeve e Gene Hackman, Cryer sustentava na referida entrevista que, em consequência da falta de verba do estúdio, foi uma película remendada e inacabada aquela que chegou às salas de cinema.
 Outras revelações surpreendentes foram feitas em 2006 por Mark Rosenthal, um dos autores da trama de Superman IV- The Quest for Peace. No seu comentário incluído no DVD do filme, chamou a atenção para a galeria de cenas cortadas. Segundo Rosenthal, esta continha sequências inéditas que, no total, perfariam aproximadamente 85 minutos. Material não utilizado que os responsáveis do projeto esperavam poder servir de base a um quinto capítulo da saga. 
  Numas dessas cenas cortadas, Clark Kent visitava os túmulos dos pais adotivos antes do seu encontro com o empreiteiro a quem tinha a esperança de vender ou arrendar a quinta da família. Noutra, o Super-Homem levava o pequeno Jeremy num passeio orbital, a fim de lhe mostrar que o mundo é realmente o lar de toda a Humanidade. À semelhança, porém, de uma sequência idêntica tendo como intervenientes Lacy Warfield e o Homem-Nuclear, Jeremy não usava qualquer fato protetor nesta sua excursão espacial. Apenas um dos muitos erros grosseiros detetados na montagem do filme. E que ilustram bem o amadorismo que ressumbrava de toda a produção.




Quem precisa de oxígénio para sobreviver no vácuo sideral quando se tem o Super-Homem por perto?

Enredo: Na órbita terrestre, uma equipa de cosmonautas soviéticos é salva pelo Super-Homem depois da sua nave ter sido atingida por detritos espaciais. Feito o resgate, Clark Kent visita Smallville, a pequena cidade do Kansas onde cresceu. Agora que os seus pais adotivos morreram, ele herdou a quinta da família outrora vibrante de vida.
  Num celeiro vazio, Clark esconde a cápsula que o trouxe para o nosso planeta, retirando do seu interior um módulo energético com a forma de um cristal luminescente de cor verde. Este contém uma gravação áudio com a voz de Lara. A mãe biológica do herói adverte-o de que o poder do artefacto apenas poderá ser utilizado uma vez. Renitente em vender a propriedade dos Kents a um empreiteiro com planos para convertê-la num centro comercial, Clark regressa a Metrópolis sem concluir o negócio.
 Chegado ao Planeta Diário, Clark e os restantes repórteres são convocados para uma reunião, na qual são informados da situação de insolvência em que se encontra o jornal. Que é agora propriedade do magnata David Warfield. Este, depois de demitir Perry White, nomeia a própria filha, Lacy, para o cargo de diretora interina. Mas as surpresas não se ficam por aí.
 Apesar da sua timidez superlativa, Clark cai nas boas graças da estonteante Lacy, que não se furta a esforços para seduzi-lo. Após muita insistência da parte da sua nova chefe - e com muito encorajamento de Lois Lane à mistura - o pacato jornalista lá concorda em participar num encontro a quatro com as duas mulheres e o seu alter ego heroico. Encontro esse marcado por todo o tipo de peripécias, com Clark e o Super-Homem a revezarem-se, sem que nenhuma das participantes femininas suspeite do que quer que seja.
   É anunciado entretanto o falhanço de uma cimeira ao mais alto nível entre os EUA e  a URSS. Resultando daí uma nova corrida armamentista e uma escalada de tensão entre as duas superpotências. Com o espectro de uma guerra nuclear a pairar sobre o mundo, Clark questiona-se sobre o papel que o Super-Homem deverá ter na crise.
  Dias depois, chega à redação do Planeta Diário uma angustiada missiva endereçada ao Homem de Aço. O remetente é  um menino chamado Jeremy que escolheu essa via para manifestar a sua preocupação relativamente ao destino da Humanidade. A mensagem termina com um pungente apelo à ajuda do Super-Homem para evitar que o pior aconteça. Sensibilizado pelas palavras da criança, Clark voa até à sua Fortaleza da Solidão, no Ártico, em busca de aconselhamento.
  Questionando Lara e os anciões kryptonianos sobre qual a melhor medida a tomar, Kal-El obtém como resposta um lembrete da sua interdição de interferir no curso da História humana. Sendo-lhe igualmente sugerido que, em derradeira instância, troque a Terra por um planeta onde a guerra faça parte de um passado longínquo.

A braços com um dilema, o Homem de Aço procura aconselhamento junto dos seus ancestrais.

  De volta a Metrópolis, o Homem de Aço procura Lois Lane, a quem também pede conselhos sobre qual a melhor decisão a tomar. Depois de ela lhe dizer que confiará no seu julgamento, o herói apresenta-se perante a Assembleia-Geral das Nações Unidas. Num discurso emotivo, anuncia a sua intenção de destruir todos os arsenais nucleares existentes, para assim evitar que a Terra sofra destino igual ao do seu mundo natal. Decisão entusiasticamente aplaudida pelos delegados e pelo público nas galerias, onde também se encontram  Lois e o pequeno Jeremy.
   Cumprindo a vontade do herói, nos dias seguintes vários países disparam ogivas nucleares para a órbita terrestre, sendo as mesmas prontamente recolhidas pelo Super-Homem. Depois de acondicioná-las numa gigantesca rede, O Último Filho de Krypton arremessa-as em direção ao Sol, garantindo dessa forma a sua destruição.
 Enquanto isso, Lenny Luthor, o desmiolado sobrinho de Lex Luthor, consegue libertar o tio do campo de trabalhos forçados onde este cumpria a sua longa pena. Reinstalado em Metrópolis, o arqui-inimigo do Super-Homem reúne-se na sua luxuosa cobertura com um triunvirato internacional de traficantes de armas. Exasperados com os prejuízos que a nova empreitada do Homem de Aço lhes está a causar, os homens contratam Luthor para liquidar o herói.
  Sem delongas, o diabólico plano de Luthor é posto em marcha. Disfarçados de turistas, ele e Lenny visitam o Museu do Super-Homem. Aproveitando o ensejo para surripiar um fio de cabelo do herói que estava em exposição. A ideia é usá-lo como matriz genética para a criação de uma duplicata superpoderosa do Homem de Aço. Precisando, para isso, de  lançar a amostra de ADN no Sol, já que é do astro-rei que ele extrai a sua força.
 Agora disfarçado de militar de alta patente, Luthor consegue infiltrar-se numa operação de lançamento de uma ogiva nuclear norte-americana. Quando o míssil disparado atinge a órbita da Terra, é prontamente intercetado pelo Super-Homem. Enquanto o arremessa em direção ao Sol, o herói nem imagina que no seu interior segue a matriz genética concebida por Luthor.
  Quando a detonação ocorre, dá-se um prodigioso fenómeno. Envolto numa pulsante bola de energia, um vulto ganha forma até se transformar no Homem-Nuclear. Voando ao encontro do "pai" em Metrópolis, o poderoso ser é instruído por Luthor a matar o Super-Homem.

Luthor radiante com o seu menino de ouro.
   A violenta refrega entre o Homem de Aço e a criatura levam-nos até aos céus de Nova Iorque. Enquanto tenta impedir que a Estátua da Liberdade esmague a multidão abaixo, o Super-Homem é arranhado pelas garras do seu adversário. Ficando dessa forma infetado pela radiação que emana do Homem-Nuclear. Este, tirando proveito da fraqueza e desnorte do herói, golpeia-o com tanta força que o projeta a grande distância. No final, tudo o que parece restar do Super-Homem é a sua capa drapejante que flutua vagarosamente até ao solo.
   Agora reciclado num tabloide sensacionalista, o Planeta Diário chega às bancas com a manchete Super-Homem Morto?. Revoltada com a abordagem mórbida do jornal ao desaparecimento do seu amado, Lois Lane apresenta o seu pedido de demissão após reclamar para si a posse da capa do herói. Determinada, ela visita de seguida um enfermo Clark Kent, refugiado há dias no seu apartamento. No decurso da conversa entre ambos, Lois proclama o seu amor incondicional ao Super-Homem. Ganhando renovado alento, após a saída de Lois Clark usa o cristal kryptoniano que removera da sua nave para se curar e restaurar os seus superpoderes.
   Enquanto isso, um enfurecido Homem-Nuclear provoca um pandemónio no coração da cidade enquanto exige que tragam à sua presença Lacy Warfield, por quem desenvolveu uma estranha obsessão, Completamente restabelecido, o Super-Homem entra em cena e convence o vilão a segui-lo até ao local onde supostamente a jovem se encontra à sua espera. Em vez disso, o Homem de Aço consegue empurrar o seu antagonista para dentro de um elevador, que se apressa a transportar até à face oculta da Lua.
 Privado da radiação solar, o Homem-Nuclear tem os seus poderes desativados. No entanto, à medida que a luz do astro-rei começa a varrer a superfície do satélite, penetra também no interior do elevador através de pequenas brechas na porta do mesmo. Recuperando a sua pujança, o Homem-Nuclear liberta-se da sua cela improvisada e ataca furiosamente o Super-Homem.

O Homem de Aço prestes a sentir o peso da derrota.
   Novamente sobrepujado, o herói krptoniano é enterrado vivo na superfície lunar pelo seu adversário. Que, sem perda de tempo, voa a supervelocidade até à redação do Planeta Diário para raptar uma apavorada Lacy Warfield.
    Na Lua, o Super-Homem consegue emergir da sua sepultura e usa toda a sua força para deslocar o corpo celeste para fora da sua órbita, objetivando causar um eclipse solar. Fenómeno que anula de imediato os poderes do Homem-Nuclear.
    Após resgatar Lacy, o herói deposita o corpo inerte do vilão no interior da chaminé de uma usina nuclear, pondo assim um ponto final à sua breve existência. Em consequência disso, a rede elétrica nacional regista um súbito pico energético.
   No Planeta Diário, Perry White anuncia a obtenção de um empréstimo que lhe permitiu reaver a sua posição de acionista maioritário, libertando assim o jornal do controlo dos Warfields.
  Numa conferência de imprensa, o Super-Homem declara que os seus desígnios foram apenas parcialmente bem-sucedidos. Encerrando a sua preleção com uma citação atribuída a Winston Churchill: "Haverá paz quando os povos do mundo a desejarem com tal ardor que os seus governantes não poderão negar-lha."
  Devolvendo Luthor à prisão, o Homem de Aço tem ainda tempo para deixar Lenny num reformatório antes de partir para o seu tradicional voo orbital.

Trailer:




Prémios e nomeações: Previsivelmente, este derradeiro capítulo da quadrilogia do Homem de Aço estrelada por Christopher Reeve foi arrasado sem dó nem piedade pela crítica. As duas únicas nomeações que recebeu foram para os Golden Raspberry Awards (prémios que distinguem o que de pior se faz em matéria de cinema), nas categorias de Pior Atriz Secundária (Mariel Hemingway, no papel de Lacy Warfield) e Piores Efeitos Especiais. Sem que, contudo, nenhuma dessas nomeações se traduzisse na atribuição do indesejado galardão. Daryl Hannah, pela sua prestação em Wall Street, e Tubarão IV- A Vingança foram os piores entre os piores nas categorias indicadas.

Mariel Hemingway como Lacy Warfield, papel de que a atriz decerto não se orgulhará.
Curiosidades:

* Segundo Margot Kidder, ela e Christopher Reeve não se falavam fora do set de filmagens. Ainda de acordo com a atriz, a relação pessoal e profissional entre ambos (recorde-se que o casal contracenou nos quatro filmes da saga), deteriorou-se devido ao ego insuflado de Reeve que, desta vez, acumulava as funções de coargumentista. Não obstante, Reeve arrepender-se-ia publicamente da sua participação no projeto, que considerava ter sido uma nódoa na sua filmografia;
*Mark Pillow teve em Homem-Nuclear o seu primeiro e único papel cinematográfico. O vilão - que originalmente estava previsto ter um gémeo - dispôs apenas de onze linhas em todo o filme. O Homem-Nuclear (Nuclear Man, em inglês) trata-se, com efeito, de uma versão moderna de Atom Man, personagem que apareceu pela primeira vez em 1950 no folhetim cinematográfico Atom Man versus Superman, estrelado por Kirk Alyn;

O visual primitivo do Homem-Nuclear.
*Em finais de 1987, a DC Comics lançou a quadrinização oficial de Superman IV-The Quest for Peace. A história, escrita por Bob Rozakis e com arte de Curt Swan, incorporava algumas das cenas cortadas do filme.Numa delas, era retratado o confronto do Super-Homem com um protótipo do Homem-Nuclear, cuja fisionomia fazia lembrar Bizarro (ver prontuário do vilão já publicado neste blogue). Também alguns dos diálogos originais foram alterados, assim como algumas das sequências. Exemplo disso foi a substituição da voz de Lara por uma projeção holográfica de Jor-El na cena em que Clark regressa à Fortaleza da Solidão em busca de um misterioso cristal;

Superman IV:  do cinema para os quadradinhos.
* No filme, o Super-Homem exibe poderes nunca vistos na BD. Manifestando supostas habilidades telecinéticas - já presentes em Superman II - o herói reconstrói parte da Grande Muralha da China com umas misteriosas rajadas óticas. Apesar das dúvidas e especulações suscitadas por esta circunstância, a explicação é do mais prosaico que há. Originalmente, o Homem de Aço reconstruiria manualmente a muralha usando a sua supervelocidade. Cena que obrigaria ao emprego de uma panóplia de efeitos especiais dispendiosos. Dada a falta de verba, a solução passou então pelo famoso "golpe de vista" do herói;
* Em momento algum do filme é feita qualquer referência a Supergirl (1984), spin-off produzido entre Superman III e Superman IV;
* Os 90 minutos de duração de Superman IV- The Quest for Peace fazem dele a segunda fita mais curta da filmografia do Homem de Aço. O primeiro lugar do pódio é ocupado por Superman and the Mole Man (1951), com apenas 58 minutos;
* Julgando ter um blockbuster entre mãos, a Cannon Films ordenou a redução da duração da película por forma a aumentar o número de exibições diárias nos cinemas. As receitas de bilheteira acabariam, contudo, por ficar muito abaixo do esperado;
* Superman IV - The Quest for Peace marcou a pouco airosa despedida de Christopher Reeve na interpretação do herói kryptoniano e o início de um longo exílio cinematográfico do Homem de Aço. Foi preciso esperar 19 anos para testemunhar o regresso do Super-Homem ao grande ecrã. Quinto e último capítulo da franquia, Superman Returns (2006) assumiu-se, porém, como uma sequela direta dos dois primeiros filmes. Fazendo, portanto, tábua rasa dos eventos narrados em Superman III e Superman IV.

Choque de titãs tendo o espectador como vencido antecipado.
Veredito: 30%


   Mesmo tendo sido este um dos filmes com super-heróis que mais marcou a minha infância e pré-adolescência (muito antes da industrialização do género empreendida pelos estúdios Marvel neste século), não há como fugir à inescapável verdade de que Super-Homem IV - Em Busca da Paz foi um fiasco a vários níveis.  
  Fracassou desde logo na intenção de reabilitar uma franquia deixada pelas ruas da amargura após a inusitada abordagem humorística levada a cabo por Richard Lester em Super-Homem III. Apesar da tentativa de restauração da idoneidade do herói, conferindo-lhe o estatuto de protetor global, o enredo, com mais buracos do que um queijo suíço,  acaba por ser inadvertidamente cómico. Surtindo, portanto, um efeito contrário ao desejado. 
  Bem vistas as coisas, a maior ameaça apresentada ao herói na história não é o Homem-Nuclear (que apesar de fazer lembrar um surfista viciado em esteroides, é, ainda assim, menos ridículo do que a sua versão primitiva), mas sim uma gripe(!). Risível, por isso, a cena em que um Clark Kent febril e fungoso recebe a visita de Lois Lane em sua casa, pejada de lenços de papel usados. Sem mencionar as muitas gafes que é possível sinalizar ao longo do filme, como o absurdo passeio orbital de Lacy Warfield, vestida como se de uma ida ao teatro se tratasse.
  Levando em conta os constrangimentos financeiros e de ordem técnica que marcaram a produção, dificilmente o resultado final poderia ter sido diferente. Pressentindo o desastre, o elenco evidencia pouco brio profissional e até Christopher Reeve (acometido de tiques de vedetismo) mal consegue disfarçar o seu cansaço em relação ao papel que, nove anos antes, o catapultara para o estrelato. Um verdadeiro frete para atores mal dirigidos por um realizador incompetente, cuja inépcia não é totalmente camuflada por uma trama inconsistente e por efeitos especiais de quinta categoria. Fatores que colocam Super-Homem IV- Em Busca da Paz no limiar da série B.
  Pouco de positivo haverá, de facto, a destacar neste filme tóxico, espécie de Batman & Robin da franquia do Homem de Aço. Exceção feita ao imortal tema musical de John Williams que o acompanha na despedida. Fim desonroso para uma saga cujos dois primeiros capítulos figuram ainda hoje entre o que de melhor já foi feito dentro do género super-heroico.