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quinta-feira, 6 de outubro de 2016

GALERIA DE VILÕES: JOKER



   De vilão descartável decalcado de uma grotesca personagem do cinema mudo a arqui-inimigo do Batman ligado a vários dos momentos mais trágicos da vida do herói. Assim se poderia resumir a escabrosa história do Príncipe Palhaço do Crime, sempre pronto a matar com um sorriso nos lábios. Não fosse o mistério em redor da sua origem e a sua personalidade anárquica fazerem dele um enigma indecifrável até para o melhor detetive do mundo. 

Denominação original: The Joker (inicialmente batizado de Galhofeiro pela Ebal, seria como Coringa que a personagem se notabilizaria em Terras Tupiniquins)
Licenciador: Detective Comics (DC)
Primeira aparição. Batman nº1 (junho de 1940)
Criadores: Bill Finger (história)  e Bob Kane / Jerry Robinson (arte conceptual) 
Identidade civil: Desconhecida
Local de nascimento: Desconhecido
Parente conhecidos: Jeannie (possível esposa falecida), Loonie Machin/Anarquia (possível filho ) e Melvin Reipan (primo falecido)
Afiliação: Líder e fundador da Liga da Anarquia do Joker, membro fundador da Liga da Injustiça e ex-membro do Gangue da Injustiça
Base de operações: Gotham City
Armas, poderes e habilidades: Embora desprovido de superpoderes, o Joker possui uma fisiologia única em consequência do banho químico que originou a sua transformação. Além da coloração da sua pele, cabelo e lábios lhe conferir a aparência de um palhaço diabólico, nas veias do vilão corre sangue venenoso. Sendo ele, contudo, imune não só ao próprio veneno como a uma gama de outras substâncias tóxicas.
Presumivelmente por causa dessas singularidades fisiológicas, o eterno némesis do Batman denota uma elevada resistência à dor física. Facto que, em certa medida, ajuda a compreender a sua natureza masoquista. Não raro, o Joker parece desfrutar das tareias que lhe são aplicadas pelo Cavaleiro das Trevas ou por algum dos seus acólitos. Resultando, por isso, inútil o recurso à violência como meio de travar as suas velhacarias.
Descrito desde sempre como um génio fora-da-lei, o Joker rivaliza em inteligência com o Batman. Particularmente dotado nas áreas da química e da engenharia, possui também créditos firmados como perito em explosivos. Disfarce e escapismo são outras das suas especialidades, o que explica a imensa facilidade com que o vilão constantemente se evade do Asilo Arkham (instituição psiquiátrica destinada a acolher criminosos  insanos).
A despeito da sua compleição franzina, o Palhaço do Crime em diversas ocasiões demonstrou ser um lutador hábil. Chegando mesmo a derrotar o Homem-Morcego no mano a mano sem recurso a trapaças. À sua agilidade felina o vilão alia um estilo de combate caótico que confunde os adversários, fazendo-os baixar a guarda. Quando isso não basta, o Joker não hesita em lançar mão à sua vasta parafernália de acessórios. Dentre os quais se destacam - citando apenas os mais icónicos - os charutos explosivos, as flores que esguicham ácido ou os botões de choques elétricos na palma da mão. Todos eles inspirados em partidas inofensivas, todos eles altamente letais.

Vai um passou-bem? 
Na execução dos seus planos tresloucados e genocidas, o Flagelo de Gotham é frequentemente adjuvado no terreno por chusmas de lacaios por ele encarados como carne para canhão. Outra coisa que não dispensa nas suas campanhas de caos e destruição é o seu arsenal de destruição em massa onde pontificam todo o tipo de bombas (incluindo nucleares).
No entanto, a coqueluche do seu arsenal é, sem sombra de dúvida, o terrífico Gás do Riso (também designado como Veneno do Joker). Trata-se de uma substância altamente tóxica e letal que, quando inalada, ingerida ou inoculada, provoca o riso compulsivo nas suas vítimas que assim morrem literalmente de tanto rir. O Gás do Riso serviu, de resto, como cartão de visita do Palhaço do Crime na sua primeira aparição.
Em resposta ao poder de fogo e à sofisticação tecnológica do Batmobile, ao longo dos anos o Joker concebeu três modelos do seu espampanante Jokermobile (Coringa-móvel, no Brasil). Equipado com metralhadoras à frente e à retaguarda, o primeiro desses veículos era à prova de bala e servia de meio de transporte ao vilão nos seus fulminantes raides em Gotham City.
Considerado demasiado lamechas, o Jokermobile seria retirado de circulação pelo Palhaço do Crime logo no início do seu tumultuoso relacionamento com a Arlequina*.

*Prontuário da personagem disponível em: http://bdmarveldc.blogspot.pt/2012/05/nemesis-arlequina.html

Abram alas para o Jokermobile!

Conceção: Persistem até hoje muitas dúvidas quanto à "paternidade" tripartida do vilão que viria a tornar-se o maior inimigo do Batman e um importante ícone da cultura popular. Creditados como autores do Joker, Bill Finger, Bob Kane e Jerry Robinson apresentaram em vida narrativas díspares relativamente ao processo de conceção de tão fascinante personagem.
Com efeito, o único ponto em que todos eles convergiam é que Finger usou uma estampa do ator Conrad Veidt como modelo para o visual do Príncipe Palhaço do Crime. Coprotagonista de The Man Who Laughs (O Homem Que Ri), Veidt interpretava nessa produção do cinema mudo datada de 1928 Gwynplaine, um aleijão com um tétrico sorriso entalhado na face. Observando as primeiras representações gráficas do Joker, saltam à vista desarmada as semelhanças entre ambos. Sendo portanto este um facto inconteste.
Jerry Robinson sempre alegou, no entanto, que essa não teria sido a única fonte de inspiração do trio na hora de definir o figurino do Joker. Até exalar o seu último suspiro em 2011, Robinson jurou a pés juntos ter partido dele a ideia para a aparência da personagem destinada a apadrinhar o número inaugural da primeira série regular do Homem-Morcego em 1940. Segundo ele, o conceito final resultou da combinação da grotesca figura de Gwynplaine com o seu esboço de uma carta de jogar com a efígie de um Coringa (não necessariamente por esta ordem, como mais abaixo se perceberá).

Sketch of a playing card with a grinning Joker

A young man looks away from the camera with a stretched-wide smile
A carta desenhada por Jerry Robinson
e Conrad Veidt como Gwynplaine.
 .
Versão categórica e repetidamente desmentida por Bob Kane. Em entrevista concedida no ano de 1994 ao jornalista Frank Lovece, o também cocriador de Batman foi perentório: «O Joker foi uma criação minha e de Bill Finger. Certo dia, Bill mostrou-me um livro com a fotografia de Conrad Veidt caracterizado como Gwynplaine, apontou para ela e disse-me: "Aqui temos o Joker!" Em seguida, ele escreveu a história e eu fiz os esboços. Só depois o Jerry me mostrou uma carta com um Coringa que ele havia desenhado. A qual concordámos usar nas primeiras aparições da personagem. Nada mais do que isso. Por mais que afirme o contrário, Jerry Robinson não teve rigorosamente nada a ver com a criação do Joker. E ele sabe-o.»
Declarações que chocam de frente com a versão dos acontecimentos fornecida em 2009 numa das últimas entrevistas dadas em vida por Jerry Robinson. Fica aqui o seu depoimento na primeira pessoa, para que tirem as vossas próprias conclusões: "O Joker surgiu devido à necessidade de mais histórias para alimentar o novo título mensal do Batman. A ideia para o nome surgiu-me por causa do baralho de cartas que na altura costumava trazer comigo. Em vez de um gângster clássico, tinha em mente uma figura exótica. Uma cujo visual fosse simultaneamente bizarro e intimidante ao ponto de não deixar ninguém indiferente. E que fosse capaz de pôr à prova as capacidades do herói. Alguém que estivesse para o Batman como o Professor Moriarty está para Sherlock Holmes. Logo na primeira reunião que tive com Bill Finger e Bob Kane, mostrei-lhes o meu esboço da carta do Coringa. Bill comentou que ela lhe fazia lembrar Conrad Veidt em The Man Who Laughs. Foi essa a sequência dos acontecimentos. Só depois de eu ter mostrado o meu projeto para o visual da personagem é que Bill fez referência a Gwynplaine. Bill usou a minha ideia para escrever a história de estreia do Joker. Eu e Bob desenvolvemos o visual da personagem. Todos estivemos, portanto, envolvidos no processo criativo.»


Desde a sua estreia em Batman nº1 (1940)
que o Joker revelou a sua natureza psicótica e homicida.

Apesar dos veementes desmentidos de Bob Kane (conhecido pela sua irredutibilidade em dividir os créditos de algumas das suas criações), Jerry Robinson viu vários estudiosos da 9ª Arte confirmarem o seu contributo na conceção e desenvolvimento do Joker. Tese que continua, porém, a ser posta em causa por outros especialistas. Tão insanáveis como estas contradições foram as divergências que ditaram o corte de relações entre mestre e pupilo.
Na altura um mancebo de 17 anos, Jerry Robinson conhecera Bob Kane em 1939 quando este, impressionado com o seu talento, o contratara para seu assistente. Ao cabo de alguns meses a trabalhar como letrista e arte-finalista, Robinson foi o escolhido para assumir a arte da novíssima série regular do Homem-Morcego. Tendo sido nessa qualidade que foi chamado a participar na conceção do principal antagonista do herói.
Escapando ao fogo cruzado entre Kane e Robinson, Bill Finger optou por manter-se sempre à margem da polémica em redor do contributo de cada um deles na criação do Joker. Ainda que muitos vissem nele a chave para o mistério, limitou-se a admitir certa vez que, além da foto de Conrad Veidt, se baseara também numa imagem que vira em tempos num parque de diversões de Coney Island (Nova Iorque), a qual fazia lembrar a cabeça de um palhaço sinistro. Tratar-se-ia de uma pista, de uma tomada de posição ou de uma mera trivialidade?
A resposta, essa, Bill Finger levou-a consigo para o túmulo em 2011. Numa daquelas amargas ironias em que é pródigo, quis o Destino que esse fosse o ano em que a 9ª Arte se enlutaria devido ao desaparecimento de enfiada dos três criadores do Palhaço do Crime. Para trás ficou uma charada aparentemente insolúvel. Tão insolúvel quanto o próprio Joker que, qual Esfinge do mundo moderno, mata quem o não consegue decifrar.

Da esq. para a dir.: Bill Finger, Bob Kane
e Jerry Robinson, três imortais da 9ª Arte.
Evolução: Eis um dado surpreendente para muito boa gente: apesar do forte impacto que viria a ter no microcosmos do Homem-Morcego - e, a bem dizer, em todo o Universo DC - o Joker foi criado com um prazo de validade muito curto. Era suposto não ter sobrevivido para além do primeiro número de Batman. A explicação é simples: Bill Finger receava que a presença recorrente de um vilão nas histórias do herói o fizesse parecer inepto aos olhos dos leitores.
Destinado a sucumbir com o coração trespassado por um punhal, a morte do Joker chegou mesmo a ser desenhada. Valeu pois a intervenção providencial do então editor do Cruzado Encapuzado, Withney Ellsworth, que ordenou a inclusão de um painel adicional mostrando que o vilão continuava vivo. Assim se evitou o que teria sido seguramente um erro histórico.

O desfecho trágico do primeiro embate entre o Batman
 e o Joker seria emendado à última hora.
Retratado como um serial killer impiedoso e amoral que matava sempre com um sorriso nos lábios, o Palhaço do Crime marcaria presença em nove das primeiras doze edições de Batman. Desta sua assiduidade na série adviria o seu estatuto de arqui-inimigo do herói e, mais tarde, da Dupla Dinâmica (após o surgimento de Robin).
Já com largas dezenas de mortes no currículo, o Joker viu no entanto ser aplacada a sua compulsão homicida quando a DC entendeu que poderia aumentar as vendas da sua linha de super-heróis se a direcionasse para o público infantil. Fruto dessa nova estratégia comercial da editora, ainda na chamada Idade de Ouro dos comics o vilão passou gradualmente de assassino de sangue-frio a histrião inofensivo. Ou, se preferirem, de ameaça a anedota...
Outro fator que concorreu para essa transfiguração foi o estabelecimento, em 1954, do Comics Code Authority. Surgido em resposta às acusações feitas pelo psiquiatra alemão Fredric Wertham no seu livro Sedução dos Inocentes (publicado nesse mesmo ano em terras do Tio Sam) de que os quadradinhos eram responsáveis, entre outros flagelos sociais, pelo aumento da violência e delinquência juvenil, o código pretendia regular os conteúdos neles publicados. Em linha com esse objetivo, foram terminantemente proibidas as cenas escabrosas - herdadas da literatura pulp - que envolvessem sexo ou violência excessiva. Escusado será dizer que uma personagem com as idiossincrasias do Joker jamais passaria no crivo dos censores.

O Joker domesticado da Idade de Prata dos comics.
A partir de 1964, ano em que Julius Schwartz assumiu o cargo de editor dos títulos do Batman, o Joker começou a aparecer com cada vez menor frequência nas histórias da Dupla Dinâmica. Schwartz não fazia segredo da sua antipatia pela personagem e quase a sentenciou ao ostracismo. Do qual o Palhaço do Crime foi salvo graças ao carisma da sua versão televisiva interpretada por Cesar Romero na série Batman, exibida originalmente no biénio 1966-68 (ver Noutros media).
O enorme êxito da série não evitou, contudo, o declínio das vendas das revistas da Dupla Dinâmica. Apostado em inverter essa tendência, Carmine Infantino(1) sucedeu a Julius Schwartz e logo tratou de amenizar o registo infantil (e apatetado) que vinha pautando as histórias de Batman e Robin. Embora longe ainda das suas raízes de maníaco homicida, o Joker readquiriu nessa fase um certo grau de perigosidade, passando a cometer crimes mais elaborados e a dar mostras do seu sórdido sentido de humor. Receita insuficiente, ainda assim, para evitar a sua queda na obscuridade.
Após quatro anos fora do radar, a Ameaça Risonha voltaria a dar um ar da sua (des)graça em 1973. Revivido - e redefinido-  pela dupla composta pelo escritor Dennis O'Neil e pelo ilustrador Neal Adams (2), o vilão não só foi parcialmente devolvido às suas origens, como viu a sua insanidade mental confirmada (como se dúvidas houvesse quanto a ela). Assim se explicando a opção por enfiá-lo numa cela acolchoada do Asilo Arkham em vez de mandá-lo para trás das grades de uma qualquer prisão. A própria fisionomia da personagem foi retocada nesta fase. Neal Adams dotou o Joker de uma silhueta mais esguia e de um rosto mais afilado, duas características que se tornariam sua imagem de marca daí em diante.
Recuperado o fulgor de outros tempos, em 1975 o Joker foi o primeiro vilão a dispor de uma série mensal em nome próprio. Apesar do insucesso da iniciativa editorial (foram lançados somente nove fascículos), ao longo do resto da década, o Palhaço do Crime tornar-se-ia uma das figuras de proa da Editora das Lendas.
Na esteira do aclamado trabalho de O'Neill e Adams, a equipa criativa que lhes sucedeu (constituída por Steve Englehart e Marshall Rogers) enfatizou ainda mais a natureza psicótica do Joker, conferindo frequentemente um toque surreal às suas maquinações. De caminho a personagem teve o seu figurino enriquecido, sendo-lhe acrescentando  um sobretudo púrpura e um elegante chapéu a condizer.

O estilo dândi do Palhaço do Crime
 da Idade de Bronze dos quadradinhos.
Mais janota do que nunca e em consonância com o processo de adultização do Universo DC encetado no início da década de 1980, o Joker tornar-se-ia mais sombrio e violento. Depois de, em The Dark Knight Returns (1986), ter sido retratado como uma celebridade deprimida devido ao desaparecimento do seu ódio de estimação, o Joker ficaria para sempre ligado a dois dos momentos mais trágicos na vida do Batman: a morte do Robin Jason Todd em Death in the Family (3)  e o estropiamento de Barbara Gordon em The Killing Joke (4).
No entanto, dificilmente alguma versão pregressa do Joker terá sido tão sádica e assustadora como aquela que em 2011 foi apresentada em The New 52. Enquanto o escritor Scott Snyder explorava a sua relação simbiótica com o Batman, Greg Capullo dotou-o de um visual que apenas poderá ser descrito como aterrador. Em vez do seu tradicional aprumo, o vilão apresentava-se agora sujo e desgrenhado por conta da missão de que se autoinvestira (levar a desarmonia e a desconfiança ao seio da Bat-Família). Removido cirurgicamente, o seu rosto converteu-se  numa máscara de pele morta presa à cabeça com recursos a ganchos e arames. Um verdadeiro pesadelo de arrepiar!
Dado como morto no final da saga Endgame (2014), o Joker seria ressuscitado, já este ano, no âmbito de Rebirth, o mais recente reboot do Universo DC. Para assombro de muitos leitores, foi anunciado que, ao longo de todo este tempo, terão sido, afinal, três os homens a assumir o legado do Palhaço do Crime. E, à laia de bónus, está prometida para breve a revelação do verdadeiro nome do vilão. Arriscam um palpite? Ou preferem esperar para ver?

O lifting malsucedido do Joker em Os Novos 52.

1 e 2) Perfis disponíveis em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2013/06/eternos-carmine-infantino-1925-2013.html e  http://bdmarveldc.blogspot.pt/2014/06/eternos-neal-adams-1941.html
3 e 4) Resenhas alargadas das sagas em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2013/12/do-fundo-do-bau-morte-de-robin.html e http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/09/classicos-revisitados-piada-mortal.html


Quem é, afinal, o Príncipe Palhaço do Crime?
O mistério subsiste, como verão no texto seguinte.
Possíveis origens: Ao deixarem em aberto o passado do Joker, os seus criadores rodearam a personagem de uma densa aura de mistério. Alan Moore, Grant Morrison e Paul Dini foram alguns dos argutos escribas que se esforçaram por desvendá-lo. Todos eles tentaram, em vão, resolver uma complexa equação composta por múltiplas variáveis e incógnitas. E apenas uma constante: a obsessão do Palhaço do Crime com o Batman, de quem se assume como antítese perfeita. Esse é, de facto, o único denominador comum no caleidoscópio de versões, mais ou menos críveis, que foram sendo apresentadas ao longo do tempo.
De vítima de um pai alcoólico e abusivo a bobo da corte de um faraó egípcio, foram várias as possibilidades exploradas para estabelecer a origem do Joker. Nenhuma delas trouxe, porém, à superfície a sua verdadeira história.
Quem mais dela se terá acercado foi Alan Moore em A Piada Mortal (1988). Baseando-se num primeiro ensaio realizado em 1951 por Bill Finger, o escritor britânico apresentou o homem predestinado a ser o inimigo figadal do Cavaleiro das Trevas como um comediante fracassado que pagou um preço elevado pelas suas más escolhas.
Reinterpretando essa premissa, em Case Study (2003) Paul Dini descreveu o sinuoso percurso de um delinquente sádico chamado Capuz Vermelho até à sua transformação no Joker. Numa abordagem inovadora à psique do vilão, era sugerido que a sua aparente insanidade mental era na verdade um subterfúgio para escapar à pena capital.
Importa, contudo, ter presente que essas histórias têm geralmente o próprio Joker como narrador, o que equivale a percorrer um labirinto armadilhado vendado e levado pela mão por um amnésico. Ou, parafraseando o Batman: "Como qualquer comediante, ele serve-se do material que mais lhe convém para prender a atenção da plateia."


Alguém se atreve a ler-lhe os pensamentos?
Quem o fez nunca mais foi o mesmo.
Personalidade e relacionamentos: Na minissérie Underworld Unleashed (1995-96), o Trapaceiro refere que quando os supervilões querem pregar sustos uns aos outros, contam histórias do Joker. Com efeito, a natureza imprevisível e sanguinária do Palhaço do Crime faz dele uma das personagens mais temidas do Universo DC. Reputação robustecida pelo facto de ele ter sido um dos dois inimigos do Cavaleiro das Trevas (o outro foi o Máscara Negra) a tirar a vida a um dos seus jovens escudeiros. Mesmo aos olhos dos seus pares, o Joker é, por conta dessa e de outras macabras façanhas, a personificação do Mal. Não sendo por isso de admirar que os outros criminosos optem normalmente por manter uma distância prudente em relação a ele.
Não obstante, quando as circunstâncias assim o justificam, o Palhaço do Crime não tem pejo em unir forças com outros supervilões, especialmente se o Batman for um inimigo comum. Quase sempre, no entanto, essas alianças pontuais dão para o torto devido à propensão do Joker para o caos e a anarquia. A única exceção foi mesmo a Arlequina que, durante uma temporada, foi sua amante e parceira no crime.

Joker & Arlequina: amor entre desalinhados.
Ainda que ao longo dos anos tenham sido levadas a cabo inúmeras tentativas para escalpelizar e classificar a demência do Joker, continua por fazer um diagnóstico consistente. Existem contudo fortes indícios de que a mesma resultará da amálgama de um extenso catálogo de psicopatologias presidido pela psicopatia violenta, sadismo, niilismo e narcisismo.
No entanto, embora a insanidade mental do Joker seja consensual, em Arkham Asylum: A Serious House on Serious Earth (história saída da pena de Grant Morrison em 1989), é sugerido que o vilão possuirá na verdade algum de tipo de perceção extrassensorial extremamente apurada que lhe permite ver o que mais nenhum ser humano consegue.
A validar esta proposição, o facto de, em diversas ocasiões, ele ter revelado perfeita consciência de que é uma personagem de banda desenhada, chegando mesmo a interpelar diretamente os leitores. Na história em causa é igualmente sugerido que ele será destituído de personalidade própria, limitando-se, ao invés, a escolher aquela que mais lhe convém num determinado momento. Dessa suposta resiliência emocional resulta uma personalidade poliédrica onde coabitam facetas tão distintas como a do galhofeiro inofensivo e a do maníaco homicida.
Por fim, importa salientar que, apesar de ter no Batman a sua obsessão primária, o Joker já defrontou outras figuras cimeiras do Universo DC, designadamente o Super-Homem e a Mulher-Maravilha.


Louco ou não? Eis a questão.

Curiosidades:

* Em 2008, no arco de histórias Batman: Dead to the Rights, depois de capturado uma vez mais pelo Homem-Morcego, o Joker teve as suas impressões digitais analisadas pela Polícia, que assim esperava conseguir finalmente apurar a sua verdadeira identidade. Tarefa que se revelou infrutífera pois o padrão nas pontas dos dedos do vilão fora eliminado pelo ácido que o desfigurou;
* Dentro da categoria de vilões sem habilidades meta-humanas, o Joker é o detentor do recorde absoluto de mortes. Entre as que ele causou direta e indiretamente, estima-se que o número ascenderá aos milhares;
* Além de Príncipe Palhaço do Crime (The Clown Prince of Crime), Duque Pálido da Morte (The Thin White Duke of Death), Arlequim do Ódio (The Harlequin of Hate), A Ameaça Risonha (The Mirthful Menace), Flagelo de Gotham (Gotham's Scourge) e Ás dos Valetes (Ace of Knaves) são algumas das outras sinistras alcunhas do Joker  (que a todas faz jus).

Duelo (i)mortal entre o Morcego e o Palhaço.

Noutros media: Não obstante o seu fortíssimo impacto cultural (em 2006, por exemplo, a revista Wizard elegeu-o o melhor vilão de sempre), só em 1966 (mais de um quarto de século após a sua criação) a influência do Joker extravasou a banda desenhada. Magistralmente interpretado por Cesar Romero (apesar da recusa do ator em rapar o seu farto bigode), o Palhaço do Crime estreou-se com alarido em Batman, série televisiva que nesse ano começara a ser exibida nos EUA. Foi, como vimos, graças a esta sua participação que o vilão escapou ao ostracismo a que, à época, parecia condenado nos comics.
Com o final da referida série ao cabo de três temporadas (e já depois de ter sido um dos maus da fita nela baseada), nas duas décadas seguintes o Joker marcaria presença numa mão cheia de produções animadas protagonizadas pela Dupla Dinâmica e outras personagens DC. The Adventures of Batman (1968) e The New Adventures of Batman (1977) ajudaram a reforçar a sua notoriedade junto do público infantil.
A consagração definitiva do Joker no panorama audiovisual só aconteceria, porém, em 1989. Ano em que o Batman de Tim Burton aterrou nos cinemas de todo o mundo. Num papel que lhe assentava que nem uma luva, Jack Nicholson encarnou uma versão mais violenta do vilão, que reclamava para si o título de primeiro artista homicida do mundo e que tinha como mantra "Alguma vez dançaste com o Diabo sob o pálido luar?". Outro elemento importante era a sua ligação kármica com o Homem-Morcego. Quando ainda não passava de um jovem meliante chamado Jack Napier, fora ele a assassinar os pais de Bruce Wayne, criando assim o Batman. Que, por sua vez, também seria indiretamente responsável pela criação do seu némesis.
Contudo, devido à morte do Palhaço do Crime em Batman, seria preciso esperar quase uma vintena de anos pelo seu regresso ao grande ecrã. Um regresso feito em grande estilo em The Dark Knight (2008), o segundo capítulo da trilogia do Cavaleiro das Trevas dirigida por Christopher Nolan.
Numa representação de tirar o fôlego, e que lhe valeria a atribuição de um Óscar a título póstumo, Heath Ledger transformou o Joker num arauto do caos e da anarquia. No fundo, tudo o que ele desejava era atear fogo a Gotham City para fazer um glorioso churrasco de morcego.
Apesar do seu papel secundário em Suicide Squad (2016), o Joker de Jared Leto dividiu opiniões. Nesta sua nova versão cinematográfica, o Palhaço do Crime surge retratado como um gângster exótico que mantém uma relação turbulenta com a não menos exótica Arlequina (a quem Margot Robbie empresta o seu corpo escultural).
Acresce a estas trepidantes passagens pelo grande ecrã um extenso rol de participações do Joker em jogos de vídeo e animações com a chancela da DC. Dentre estas, aquela que mais marcou toda uma geração de fãs foi, sem dúvida, Batman: The Animated Series (1992-95). Nela, Mark Hamill (o Luke Skywalker da saga Star Wars)  emprestou a voz àquela que muitos classificam como a mais bem conseguida versão animada do Príncipe Palhaço do Crime. Cujas risadas sinistras continuarão, dentro e fora dos quadradinhos, a ecoar até ao fim dos tempos...

Da esq. para a dir.: Jared Leto, Cesar Romero, Heath Ledger e Jack Nicholson,
4 Ases de Valetes.
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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

HEROÍNAS EM AÇÃO: BATGIRL



  Em resposta às especulações sobre a sexualidade da Dupla Dinâmica, a primeira Batgirl foi introduzida nas suas histórias para servir de interesse romântico ao Menino Prodígio. Seria, no entanto, a sua sucessora a tornar-se um ícone da cultura pop e um símbolo involuntário da emancipação feminina. Vendo-se assim no epicentro de algumas polémicas suscitadas pelo tratamento violento aplicado às mulheres nos comics.

Denominação original: Batgirl (no Brasil, a personagem começou por ser chamada de Batmoça pela EBAL, nomenclatura mantida pela Abril até ao princípio deste século)
Licenciador: Detective Comics (DC)
Primeira aparição: Detective Comics nº357 (janeiro de 1967)
Criadores: Gardner Fox* (história) e Carmine Infantino** (arte conceitual)
Identidade civil: Barbara Gordon
Parentes conhecidos: Roger e Thelma Gordon (pais falecidos), James e Barbara Eileen Gordon (tios e pais adotivos), James Gordon, Jr. (primo e irmão adotivo)
Afiliação: Corporação Batman (Batman Incorporated), Bat-Família (Batman Family) e Aves de Rapina (Birds of  Prey). Ex-membro do Esquadrão Suicida (Suicide Squad) e da Liga da Justiça da América (Justice League of America)
Base de operações: Gotham City
Armas, poderes e habilidades: Intelectualmente sobredotada, Barbara Gordon teve Batman como seu professor de ciências forenses e técnicas de investigação. Conjugadas com a sua extraordinária proficiência no campo da computação (desenvolvida sobretudo desde que assumiu a identidade de Oráculo), estas valências fazem dela uma detetive de gabarito mundial.
Nas ruas, Batgirl, atleta de topo, vale-se de várias artes marciais e de uma parafernália de utensílios para se defender tantos de reles malfeitores como de criminosos meta-humanos. Além do cinto de utilidades - que incluem os icónicos batarangues, arpéus e cápsulas de gás e fumo - , na sua encarnação moderna a heroína usa um capuz especial apetrechado com lentes de amplo espectro. Que, entre outras funcionalidades, lhe providenciam visão noturna e microscópica. Perita em camuflagem, a heroína tem nas operações furtivas outra das suas especialidades.
Desde os primórdios da sua carreira de vigilante mascarada que a Batgirl se faz habitualmente transportar numa mota de alta cilindrada. Embora mais modesto do que o Batmóvel, o veículo de duas rodas customizado acomoda um laboratório forense portátil que ela usa para examinar as cenas de crime.

* Perfil disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2012/04/eternos-gardner-fox-1911-1986.html
** Idem em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2013/06/eternos-carmine-infantino-1925-2013.html

Heroísmo de alta rotação.

Histórico de publicação: Em 1954, as suspeições lançadas pelo psiquiatra germânico Fredric Wertham no seu livro Sedução dos Inocentes sobre a existência de um subtexto homoerótico nas histórias da Dupla Dinâmica caíram como uma bomba na conservadora sociedade norte-americana da época. Perante o crescendo de especulações e comentários maliciosos, a DC responderia dois anos depois com a introdução de uma nova personagem feminina destinada a servir de interesse romântico ao Batman.
Foi pois nessa conjuntura homofóbica que surgiu a Batwoman*, persona heroica de Kathy Kane. A mesma que, naquilo que alguns certamente considerarão um ato de justiça poética, meio século depois se tornaria a primeira super-heroína assumidamente lésbica. Mas isso são contas de outro rosário. Se quiserem saber mais sobre o assunto, sigam o asterisco lá em baixo e leiam o prontuário da personagem disponível neste blogue. 
Em qualquer dos casos, se o affair entre Batman e a Batwoman certificava de algum modo a virilidade do herói, já a orientação sexual do Menino Prodígio continuava a ser questionada. Motivando dessa forma a inclusão de uma segunda personagem feminina nas aventuras do Cavaleiro das Trevas, destinada a ser a parceira amorosa do seu jovem escudeiro e a calar de uma vez por todas as más-línguas.
Apresentada como a sobrinha adolescente de Kathy Kane, Betty Kane debutaria em 1961 nas páginas de Batman nº139. Assumindo desde logo a identidade de Bat-Girl (era esta a grafia original), Betty passaria a combater o crime em Gotham City ao lado da tia. Juntamente com Batman e Robin, esta Dupla Dinâmica no feminino formaria a infame Bat-Família. Clã que só  ficava completo com as mascotes Bat-Mite (um pequeno diabrete de outra dimensão) e Ace, o Batcão. 

Betty Kane, a primeira Bat-Girl.

Nem tudo correu, porém, exatamente como planeado. À medida que o tempo passava sem que o namorico do Robin e da Bat-Girl atasse nem desatasse, muitos leitores começaram a torcer o nariz às historietas pueris da Bat-Família, o que fez soar os alarmes no quartel-general da DC.
Recém-nomeado editor do Batman, Julius Schwartz teve uma intervenção providencial. Sem pensar duas vezes, tratou de descartar o lote de personagens que constituía a Bat-Família por as considerar ridículas. Corria o ano de 1964 e, na sua abalizada opinião, eram elas as principais responsáveis pelo acentuado declínio de vendas na linha de títulos encabeçados pelo Cruzado Encapuzado. 
Colocada numa prateleira juntamente com os restantes apêndices burlescos das histórias da Dupla Dinâmica, a Bat-Girl por lá ficaria a apanhar pó e teias de aranha ao longo das duas décadas seguintes. Altura em que, durante Crise nas Infinitas Terras, a sua existência, à semelhança de tantas outras personagens que integram o acervo museológico da Editora das Lendas, seria sumariamente apagada da nova continuidade.Pequena contrariedade que não a impediria de ressurgir alguns anos depois como membro-fundador dos Titãs da Costa Oeste. 
Perante a incredulidade dos fãs mais avisados, a Bat-Girl foi novamente retirada de circulação antes que o Diabo conseguisse esfregar um olho. Tempo igual ao que ela demorou a fazer novo regresso triunfal. Com novas roupagens mas com a mesma galhardia de sempre, Mary Elizabeth "Bette" Kane reapresentou-se ao mundo como Flamebird (traduzida como Labareda e Pássaro Flamejante, no Brasil). Assim permanecendo até aos dias de hoje, embora com cada vez menor relevância nos cânones da DC.

A fogosa Labareda.

Agora que sabemos que fim levou a primeira Batgirl, retrocedamos no tempo para conhecer a origem da sua sucessora. Mais concretamente a 1967, quando a segunda temporada da popular série televisiva da Dupla Dinâmica estrelada por Adam West e Burt Ward divertia miúdos e graúdos. 
Empenhados em captar o público feminino -  em especial as adolescentes - os produtores de Batman desafiaram a DC a criar uma nova super-heroína que servisse esse intuito, ajudando de caminho a promover a terceira temporada da série. Por sugestão de William Dozler, um dos seus produtores-executivos, a nova personagem seria filha do Comissário James Gordon e coadjuvaria a Dupla Dinâmica como Batgirl. 
Com estas diretrizes em mente, Gardner Fox e Carmine Infantino arregaçaram as mangas e deitaram mãos à obra, Por contraponto à sua antecessora, cujo visual se assemelhava a uma variante desenxabida da indumentária do Menino Prodígio, a nova Batgirl tinha tudo a ver com morcegos. Ruiva, esbelta, perspicaz e de sorriso aberto, Barbara Gordon fazia lembrar a rapariga da porta ao lado. De tão adorável, era quase impossível não simpatizar com ela.

Barbara Gordon, a segunda (e mais icónica) Batgirl.

Barbara e o seu alter ego heroico estrear-se-iam poucas semanas depois em Detective Comics nº359, numa história intitulada The Million Dollar Debut of Batgirl. Simplória, a origem da heroína conta-se em poucas palavras: a caminho de um baile de máscaras vestindo uma fantasia inspirada na do Batman, a filha do Comissário Gordon presencia uma tentativa de rapto do milionário Bruce Wayne executada pelo Mariposa Assassina (Killer Moth, em inglês). 
Agindo sem pensar, a jovem conseguiu distrair o vilão permitindo a Bruce escapar. Essa pequena aventura deixou-a tão empolgada que, apesar do desencorajamento do Homem-Morcego, Barbara adotou o pseudónimo de Batgirl fazendo-se anunciar como a mais recente vigilante de Gotham City. 
Note-se que o simples facto de ela fazer ouvidos de mercador ao paternalismo do Batman, sinaliza uma importante diferença relativamente à sua antecessora e à generalidade das coadjuvantes femininas, tradicionalmente retratadas como submissas. Senhora do seu nariz, a Batgirl tornar-se-ia assim um símbolo da emancipação feminina numa época em que as mulheres travavam ainda uma árdua luta de afirmação social.

A sensacional estreia da nova Batgirl em destaque
na capa de Detective Comics nº359 (1967).
Porém, não era só quando vestia o traje de Batgirl que Barbara Gordon servia de modelo às suas congéneres que, não se resignando ao papel de esposas e mães, almejavam construir uma carreira profissional. 
Doutorada em Ciências Bibliotecárias,  Barbara Gordon dirigia a biblioteca pública de Gotham City, descrita como uma das maiores dos EUA. Representando dessa forma todas as mulheres independentes que, na vida real, provavam (e continuam a provar) o seu valor num mundo que, à época, mais parecia um clube de cavalheiros, onde as damas e  donzelas ficavam à porta. 
Cada vez mais popular entre os leitores (muito por conta, também, da prestação de Yvonne Craig em Batman), a Batgirl continuou a figurar nos títulos do Homem-Morcego até meados dos anos 1970. Altura em que passou a estrelar o redivivo Bat-Family em parceria com Robin. Estendendo ainda a sua participação a outras séries emblemáticas da DC, como Justice League of America, The Brave and the Bold ou Adventure Comics. Notoriedade que lhe permitiu continuar a arregimentar fãs e a reforçar o seu estatuto de coqueluche da Editora das Lendas. 
Os anos 1980 trouxeram consigo Crise nas Infinitas Terras e, com ela, a revolução que mudaria para sempre o Universo DC. No final da saga - em que teve um papel insignificante -, a Batgirl não ficou imune às profundas transformações em curso. Na sua qualidade de figura de proa da editora, teve a sua origem retocada. De filha do Comissário Gordon, passou a sobrinha por ele perfilhada após a morte dos seus pais biológicos. Outra diferença assinalável foi o facto de, nesta nova versão da sua história, o primeiro encontro de Barbara Gordon com o Batman ter acontecido quando ela era ainda uma menina.
Seria, no entanto, efémera a sua carreira heroica como Batgirl no período pós-Crise. Conforme vimos no artigo anterior, Barbara Gordon foi atirada para uma cadeira de rodas devido ao ataque de que foi alvo por parte do Joker em A Piada Mortal. Na sequência desses dramáticos eventos, ela adotaria o codinome de Oráculo passando a agir nos bastidores como uma hacker de classe mundial. 

A nova vida de Barbara Gordon como Oráculo.
Com o reboot  do Universo DC trazido por Os Novos 52 em 2011, Barbara recuperou a sua mobilidade e o manto da Batgirl. Ao lado da Canário Negro, da Caçadora e da Lady Falcão Negro, é uma das Aves de Rapina em voo picado sobre o crime e a injustiça.
A história, porém, não acaba aqui. Durante a prolongada ausência de Barbara Gordon (uns módicos 23 anos), o legado da Batgirl foi mantido vivo por três outras mulheres. Em 1999, num dos capítulos de No Man's Land publicado em Batman: Shadow of the Bat nº83, surgiu uma nova versão da heroína. Cuja verdadeira identidade esteve, inicialmente, envolta em mistério.
Seria pois preciso esperar algumas semanas pela revelação de que, sob o capuz, se escondia Helena Bertinelli, mais conhecida como Caçadora (Huntress). Forçada a abandonar o manto da Batgirl antes ainda do desfecho da saga, Bertinelli passou o testemunho a Cassandra Cain. 
Retratada como uma jovem de origem birracial (filha de pai branco e mãe asiática), Cassandra era também um prodígio das artes marciais. A maior peculiaridade da  personagem era, no entanto, o seu mutismo. Deficiência resultante do facto da parte do seu cérebro normalmente usada para a vocalização ter sido, ao invés, treinada para interpretar a linguagem corporal dos seus interlocutores. Habilidade sui generis que, em situações de combate corpo a corpo, lhe permitia antecipar, com elevado grau de precisão, os movimentos dos seus oponentes.
Ao contrário da sua predecessora, as ações da terceira Batgirl (Helena Bartinelli foi somente uma pretendente ao título) tiveram o aval tanto do Homem-Morcego como da Oráculo. Assim, entre 2000 e 2006, a justiceira silenciosa viveu incontáveis aventuras e desventuras em Batgirl, série a solo que a fez cair nas boas graças de um considerável número de fãs. Os mesmos que, na sua maioria, reagiram mal à corrupção moral da personagem. No seguimento dos eventos narrados em Infinite Crisis (2007), Cassandra Cain foi reapresentada como líder da Liga de Assassinos, a secular organização terrorista fundada por Ra's al Ghul**.

Cassandra Cain, uma Batgirl para o século XXI.
Para aplacar os fãs em pé de guerra, a DC voltou atrás na sua decisão de transformar Cassandra Cain numa vilã. Contudo, após o desaparecimento do Batman no final do referido arco de histórias, Cassandra passaria o manto a Stephanie Brown. 
Anteriormente conhecida como Salteadora (Spoiler, na versão original) e filha do Mestre das Pistas (Cluemaster, inimigo clássico do Batman), Stephanie fora a primeira Menina Prodígio a acolitar durante algum tempo o Cavaleiro das Trevas. 
A sua escolha para quarta Bargirl  mereceu desde logo a aprovação de Barbara Gordon. Que não só foi sua mentora como lhe ofertou o uniforme que ela própria envergara em tempos. Importa ainda acrescentar que, depois de Cassandra Cain, Stephanie Brown foi a segunda Batgirl a ter direito a série em nome próprio.

Salteadora, Robin e Batgirl: a trajetória heroica de Stephanie Brown.

*/** Prontuários disponíveis  em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2013/07/heroinas-em-acao-batwoman.html  e http://bdmarveldc.blogspot.pt/2012/08/nemesis-ras-al-ghul.html


Impacto cultural: Nos alvores da década de 1960, antes da revolução sexual que se desenrolaria ao longo dela, contavam-se pelos dedos de uma mão as mulheres que, dentro do Universo DC, dispunham de uma carreira profissional que lhes conferia independência financeira e estatuto social. Lois Lane (jornalista que dispensa apresentações) e Jean Loring (advogada e interesse romântico do Átomo) eram, em conjunto com Carol Ferris (presidente da Ferris Aeronáutica, que tinha em Hal Jordan o seu mais ilustre assalariado) algumas dessas honrosas exceções. 
Ao ser retratada como uma pacata bibliotecária, Barbara Gordon foi inicialmente ao encontro de certos estereótipos sociais instituídos. Contudo, a sua transformação em Batgirl pode, em retrospeto, ser encarada como um símbolo da emancipação feminina que começava naquela altura a fazer o seu árduo caminho. 
Conforme faz notar Mike Madrid no seu livro  The Supergirls: Fashion, Feminism, Fantasy and the History of Comic Book Heroines (em tradução livre, As Super-Raparigas: Moda, Feminismo, Fantasia e a História das Heroínas da Banda Desenhada), aquilo que verdadeiramente distingue a Batgirl das suas congéneres surgidas em idêntico contexto é a sua real motivação para combater o crime. Diferente da Batwoman e da primeira Bat-Girl, Barbara porta o símbolo do morcego mas não é amante, tampouco subalterna do Batman. Ao extrapolar o estatuto de parceira amorosa e/ou de adjunta juvenil do herói principal, a Batgirl afirma-se,ao invés, como uma espécie de sua versão simétrica. Tornando-se, por inerência, uma valiosa aliada cuja ação não depende contudo de qualquer figura tutelar masculina. 
Reivindicando tratamento igualitário ao dos seus homólogos masculinos, a Batgirl foi pioneira na defesa da paridade de géneros, pondo dessa forma em xeque os ditames sociais da época. Se isso resultou de uma estratégia premeditada ou do mais puro acaso, é discutível.

Batgirl em pé de igualdade com o Duo Dinâmico. 
Certo é que, embora acolhida pela generalidade dos especialistas, esta tese não é consensual. Alguns dos seus contestatários apontam que, em bom rigor, a Batgirl era uma declinação desinspirada do Batman. Opondo-se desse modo à Mulher-Maravilha, cuja conceção não derivou de um conceito masculino preexistente, e que desde o primeiro momento se afirmou como uma líder. 
À boleia desta análise dos estereótipos de género, Jackie Marsh, renomada historiadora da 9ª Arte, sustenta que enquanto as personagens masculinas tendem a ser descritas como antissociais e agressivas, as femininas, por outro lado, surgem quase sempre infantilizadas por conta dos seus codinomes. Configurando Batman e Batgirl dois casos paradigmáticos dessa circunstância que marcou toda uma época no género super-heroico.
Ainda a propósito de estereótipos (neste caso, raciais), a Batgirl de Cassandra Cain ajudou a deitar por terra alguns dos que surgem ainda hoje associados a personagens femininas de traços orientais. Ora representadas como lutadoras de artes marciais ora como exóticos sex symbols (ora, ainda, como uma mescla de ambos), às mulheres asiáticas sempre foi negada proeminência nos comics. Exceto quando desempenhavam o papel de vilãs. Algo que, convenhamos, acontecia com considerável frequência. Assim se explicando, aliás, o sururu causado pela transformação de Cassandra Cain numa terrorista internacional. Não faltou quem visse nisso uma forma de perpetuar os estereótipos sedimentados ao longo de décadas.
Apesar disso, graças a Cassandra Cain (em cujas veias corre sangue chinês), as mulheres asiáticas passaram finalmente a ser vistas de outra forma na banda desenhada. Ainda que a etnicidade de Cassandra tenha sido abordada de forma implícita, ela  escapou à objetificação sexual que costumava estar reservada a personagens similares. E conseguiu-o tanto por conta do recato da sua indumentária como pela sua orientação sexual indeterminada. 
Mas isso, no fundo, só foi possível devido à mudança de mentalidades. Processo para o qual a indústria cultural tem dado um importante contributo nos últimos anos. Muito embora lançando frequentemente mão a estratégias questionáveis. Que, não raro, resultam na profanação de iconografia consagrada que serviu de referência a sucessivas gerações. Tudo, é claro, em prol desse falso deus chamado "diversidade".

O feminismo  tem na Batgirl um dos seus símbolos.
Apontamentos:

* Paralisada da cintura para baixo em consequência dos eventos narrados em A Piada Mortal, ao longo dos anos foram levadas a cabo diversas tentativas de devolver a capacidade de andar a Barbara Gordon. Todas fracassaram devido ao facto de parte da sua coluna vertebral ter sido destruída e de os danos neurológicos serem demasiado extensos. Precisamente os motivos que a impedem de ter filhos;
* Em Batgirl nº45 (dezembro de 2003), Barbara Gordon declarou que tinha apenas 18 anos de idade quando começou a agir como Batgirl;

De volta às origens em Os Novos 52.

Noutros media: Ocupando um meritório 17º lugar no Top 100 dos super-heróis da banda desenhada elaborado pelo site IGN, a enorme popularidade e influência mediática da Batgirl há muito fazem dela um ícone da cultura pop. Estatuto obtido, em grande medida, por via da sua participação na terceira e última temporada de Batman. Série televisiva de grande audiência entre 1966 e 1968 onde a jovem heroína foi interpretada pela saudosa Yvonne Craig (falecida em agosto de 2015 quando contava 78 primaveras).
Bonita e carismática como a personagem que ajudou a imortalizar junto do grande público, Yvonne Craig foi o chamariz perfeito para adolescentes idealistas que encontraram na Batgirl um modelo a seguir. Muitas dessas jovens tomaram, pela primeira vez, consciência de que as mulheres podiam, afinal, fazer o mesmo que os homens. Ou até melhor.
À semelhança, no entanto, de outras super-heroínas que lhe sucederam no pequeno ecrã (casos da Mulher-Maravilha e da Bionic Woman), a prestação da Batgirl na série seria prejudicada pelo facto de não poder envolver-se em lutas corpo a corpo. Em vez disso, por razões tanto estéticas como de decoro, as cenas que incluíam contacto físico eram cuidadosamente coreografadas por forma a imitar os elegantes movimentos de uma dançarina da Broadway. 
Alegadamente escolhida para o papel por causa da sua voz de desenho animado, mesmo após o cancelamento de Batman, Yvonne Craig voltaria a emprestar corpo à Batgirl numa publicidade institucional a favor da igualdade salarial para trabalhadores de ambos os sexos.

A glamorosa Batgirl de Yvonne Craig.
Apesar da sua prolífica participação em séries de animação estreladas pelo Cavaleiro das Trevas ao longo das décadas seguintes, só em 1997 a Batgirl teria direito a uma versão cinematográfica. Cabendo as honras de estreia a Alicia Silverstone em Batman & Robin. A personagem surgiu, no entanto, retratada no filme com algumas licenças poéticas. Em vez de Gordon, Barbara tinha Wilson como apelido e Alfred Pennyworth como tio. 
Ainda no campo da ação real, Dina Meyer deu vida a Barbara Gordon em Birds of Prey, série televisiva baseada nas Aves de Rapina cuja única temporada foi para o ar em 2002. Embora a trama se centrasse sobretudo no seu papel como Oráculo, foram feitas referências, sob a forma de flashbacks, à sua carreira pregressa como Batgirl. 
Tempos atrás, o realizador dinamarquês Nicolas Winding Refn (Drive) manifestou numa entrevista o seu interesse em dirigir um filme da Batgirl. Atendendo ao atual sucesso comercial desse tipo de produções cinematográficas, o sonho poderá muito bem vir a tornar-se realidade num futuro próximo. 

Alicia Silverstone como Batgirl
em Batman & Robin (1997).




quarta-feira, 7 de setembro de 2016

CLÁSSICOS REVISITADOS: «A PIADA MORTAL»



   Um dia mau será tudo o que separa uma pessoa normal do abismo da loucura? Serão Batman e Joker as duas faces da mesma moeda, reflexos distorcidos um do outro? Questões perturbadoras a que Alan Moore procurou dar resposta naquela que muitos consideram ser a origem definitiva do Palhaço do Crime. Obra tão genial e controversa quanto o seu autor, e cujos ecos reverberam até hoje.

Título original: Batman: The Killing Joke
Data: Maio de 1988
Licenciador: Detective Comics (DC)
Autores: Alan Moore (trama) e Brian Bolland (ilustrações)
Protagonistas: Batman, Joker, Comissário Gordon e Barbara Gordon
Coadjuvantes: Alfred Pennyworth e Harvey Bullock
Cenários: Vários pontos de Gotham City, incluindo o Asilo Arkham, a Batcaverna e a Mansão Wayne

Edições em português: No período compreendido entre 1988 e 2015, foram 7 as publicações e republicações de A Piada Mortal lançadas no Brasil sob a égide de 3 editoras distintas. A saber: Abril, Opera Graphica e Panini (por esta ordem cronológica). Sobressaindo dentre esses volumes aquele que foi dado à estampa pela Opera Graphica em fevereiro de 2005. Além do formato livro de bolso, o cariz ímpar desse álbum de luxo com capa dura advém igualmente da circunstância de ser o único a preto e branco.
Importa ainda observar, no que às republicações a cargo da Panini diz respeito, que uma delas, datada de outubro de 2006, foi inclusa numa antologia de histórias clássicas da DC saídas da pena de Alan Moore.
A 1ª edição em português de A Piada Mortal
 em Graphic Novel nº5 (1988), cuja capa reproduzia a original.
A singular reedição da história lançada em 2005 pela Opera Grapica.
A coletânea da Panini onde foi inclusa
 uma das reedições de A Piada Mortal.
Desenvolvimento e alcance: Vagamente inspirada em The Man Behind the Red Hood (historieta clássica do Batman originalmente publicada em 1951), A Piada Mortal verte uma nova luz sobre o obscuro passado do Joker. Personagem cuja natureza trágica é, pela primeira vez, colocada em evidência, ao ser retratado como um simples homem de família que, devido a um rosário de dramas e más decisões, embarca numa viagem sem retorno pelas veredas da insanidade.
À semelhança da supracitada história da Idade do Ouro, A Piada Mortal sugere que antes de se tornar no inimigo figadal do Batman, o Joker (cujo verdadeiro nome em momento algum é revelado), teria sido um reles gatuno fantasiado que se apresentou ao mundo como Capuz Vermelho.
Uma vez metamorfoseado no aterrador Palhaço do Crime, são habilmente exploradas as suas semelhanças e contrastes com o estoico Cavaleiro das Trevas. Perspetivados como a antítese perfeita um do outro, lê-se nas entrelinhas que os dois estarão predestinados à coexistência, porquanto a razão de ser de cada um deles se justifica apenas em função da do outro.
Psicodrama por excelência, A Piada Mortal tem na lógica pervertida do Joker o seu fio condutor. Para ratificar o seu postulado de que basta uma conjuntura particularmente adversa para fazer qualquer pessoa normal despencar no abismo da loucura, o vilão não olha a meios. Agindo por isso com os requintes de extrema malvadez que o definem desde a ponta final da Idade do Bronze dos Quadradinhos (1970-1985).

 Detective Comics nº168 (1951) trouxe
 a história matricial de A Piada Mortal.
Mas como é que tudo começou? De quem partiu a ideia de produzir uma história desta natureza? Previam os seus autores o impacto que ela teria? O que a tornou tão polémica? Questões pertinentes a que procurarei dar resposta ao longo da presente resenha. Vamos, então, por partes.
Quando, em meados de 1984, endereçou um convite aos britânicos Alan Moore* (Watchmen) e Brian Bolland (Camelot 3000) para recontarem a origem do Joker, Dick Giordano, à data editor-chefe da DC, estava longe de imaginar quão moroso e impactante esse projeto seria.
Ambos conhecidos pela meticulosidade do respetivo trabalho, a aquiescência de Moore e Bolland só foi conseguida em troca da total ausência de prazos. Sendo pois essa a justificativa para os quase quatro anos que a obra demorou a ser produzida, sob a supervisão de três editores diferentes: a Dick Giordano sucederia Len Wein e a este Dennis O'Neil. Com o qual Bolland se recorda de ter tido apenas uma curta conversa sobre o trabalho em curso. Motivada, segundo ele, pelo seu desagrado em relação à colorização das sequências em flashback. Que, em vez das tonalidades sóbrias requeridas pelo artista, contavam com uma palete de cores garridas. Situação que só seria retificada pelo próprio Bolland em 2008, na reedição que assinalou o 20ª aniversário d' A Piada Mortal.
Bolland reivindica ainda como sua a ideia da trama ser focada no Joker, relegando o Batman para plano secundário. Desse modo arvorado num narrador inconfiável, o vilão diverte-se com a sinuosa evocação do seu passado. De tão labiríntico que é o seu relato, é impossível comprovar a sua autenticidade. Restando, portanto, ao leitor escolher, dentre as múltiplas opções servidas pelo Palhaço do Crime, aquela que se lhe prefigura menos implausível ou, pura simplesmente, aquela que mais o fascina.
Um dos principais méritos que fizeram d'A Piada Mortal uma obra de charneira na memorabilia da DC consistiu na drástica alteração da perceção do público em relação às histórias do Batman. Cuja essência taciturna, suprimida ao longo de quase toda a Idade da Prata, tinha vindo progressivamente a ser restaurada a expensas de projetos como The Dark Knight Returns (1986) e Batman: Year One (1987). A exemplo destas, também na fábula de Moore o Homem-Morcego surge retratado como um indivíduo tão ou mais perturbado do que o próprio Joker. Facto que robusteceu a noção de simetria das duas personagens e as devolveu às suas raízes.
Não obstante, os seus autores sublinharam sempre que A Piada Mortal constituiu tão-somente uma proposta para a origem do Palhaço do Crime. O que não impediu que a narrativa fosse quase unanimemente considerada como a sua versão decantada e definitiva. A prová-lo, o facto de a generalidade dos elementos nela presentes terem sido incorporados na continuidade oficial da Editora das Lendas, passando a coexistir com os cânones da personagem estabelecidos desde a Idade da Prata.

Brian Bolland (esq,) e Alan Moore foram os artífices
 de uma das melhores histórias do Batman de todos os tempos.
Devolvendo a palavra aos autores, Brian Bolland assumiu que a sua visão do Joker foi parcialmente influenciada pelo seu recente visionamento de The Man Who Laughs (filme mudo de 1928 cujo tétrico coprotagonista terá servido de matriz à criação do Palhaço do Crime). Vilão clássico das histórias de Judge Dredd, Judge Death foi outra das referências usadas pelo artista para definir a estética do eterno némesis do Homem-Morcego numa história psicologicamente intrincada que só poderia ter saído da imaginação retorcida de Alan Moore.
Este, no entanto, em diversas ocasiões desvalorizou a importância da obra. Parecendo mesmo não desperdiçar um ensejo para depreciá-la. Numa entrevista concedida em 2000, o polémico escritor inglês surpreendeu meio mundo ao dizer: "Não acho que seja uma grande história, já que não diz nada de particularmente interessante. Não me orgulho dela, tampouco a considero um dos meus melhores trabalhos."
Decorridos três anos, em nova entrevista, Moore foi ainda mais longe: "A Piada Mortal é um exercício de ficção envolvendo o Batman e o Joker, duas propriedades intelectuais da DC. Não trata de nada com que algum de nós se possa confrontar na vida real, porque nenhum deles pode sequer ser comparado com qualquer pessoa de carne e osso. Além de canhestra, a narrativa é completamente despojada de valor humanista. E foi claramente mal interpretada pelos leitores e pela crítica." 
Mal interpretada ou não, certo é que a história, salvo raríssimas exceções, deixou os críticos enlevados. Enlevo esse que fez correr rios de tinta nos meses imediatos à sua publicação.Com a consagração definitiva a chegar em 1989 sob a forma de dois Eisner Awards (equivalente bedéfilo aos Óscares cinematográficos) nas categorias de melhor álbum e de melhor escritor.
Nada mau para uma obra literária que ainda hoje suscita acesos debates e quase abjurada pelo próprio autor. Mas cuja influência, volvidos quase trinta anos, se continua a fazer sentir de forma inequívoca no Universo DC e na história da 9ª Arte.

* Perfil disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2013/04/eternos-alan-moore-1953.html

Desenhada pelo brasileiro Rafael Albuquerque,
esta capa de Batgirl fez implodir a internet pouco tempo atrás.
Saibam porquê no texto abaixo.
Controvérsia feminista: Devido às sevícias físicas de que Barbara Gordon é vítima nela, A Piada Mortal tem estado na mira do movimento feminista, que acusa Alan Moore de misoginia e de fazer a apologia descarada da violência contra as mulheres. Opinião, de resto, partilhada por um significativo número de leitores escandalizados pelos requintes de sadismo presentes na sequência em que a filha do Comissário Gordon é estropiada (e presumivelmente violada) pelo Palhaço do Crime.
Algumas das críticas mais abrasivas partiram mesmo de colegas de profissão de Alan Moore. Foi o caso, por exemplo, de Gail Simone (escritora notabilizada sobretudo pelo seu trabalho com a Mulher-Maravilha e a Batgirl), que denunciou a crueldade extrema de que recorrentemente são alvo as personagens femininas na banda desenhada. Aquilo que ela designa como a Síndrome das Mulheres no Frigorífico, numa alusão a uma história homónima do Lanterna Verde Kyle Rainer datada de 1994, na qual o herói descobre o corpo mutilado da namorada no interior de um frigorífico.

Gail Simone, uma das vozes mais críticas da crueldade
 a que são sujeitas muitas personagens femininas nos comics.
Análise secundada pelo historiador da 9ª Arte Jeffrey A. Brown, segundo o qual o nível de violência a que são expostas as personagens femininas nos comics é incomparavelmente superior àquele que é reservado às suas contrapartes masculinas. Mesmo quando severamente mutiladas ou mortas, estas têm maiores probabilidades de lhes ser restituído o seu estado original do que as primeiras. Sendo paradigmático - ainda seguindo a linha de raciocínio de Brown - o caso de Barbara Gordon. Cuja paralisia causada pelo disparo à queima-roupa do Joker se manteve irreversível ao longo de quase um quarto de século (na realidade de Os Novos 52, Barbara Gordon recuperou enfim a sua mobilidade).
Exasperado com a celeuma em redor da sua obra, Alan Moore apenas numa ocasião se pronunciou sobre ela. Igual a si próprio, em 2006 o escritor britânico foi incisivo na sua resposta dada durante uma entrevista à revista Wizard: "Lembro-me de ter perguntado ao nosso editor da altura, Len Wein, se podia aleijar a Barbara Gordon. Apesar de ela ser a Batigrl, ele não teve problemas com isso. Talvez alguém devesse ter-me impedido de fazê-lo, mas ninguém o  fez. E eu não tenho por hábito chorar sobre o leite derramado." 
Reavivada por estas pouco diplomáticas declarações de Moore, a controvérsia conheceria novo capítulo no início de 2015. Tudo por causa de uma polémica capa alternativa da revista Batgirl desenhada pelo brasileiro Rafael Albuquerque. Na qual não faltou quem divisasse uma tentativa de conferir glamour à violência sexual exercida sobre as mulheres. De nada adiantando à DC vir a terreiro esclarecer que a imagem pretendia apenas render um singelo tributo à Piada Mortal.
Com o debate ao rubro no ciberespaço, Rafael Albuquerque recebeu várias ameaças de morte através das redes sociais. A fim de serenar os ânimos, o artista recorreu à sua conta no Twitter para apresentar um pedido de desculpas, já depois de ter solicitado à editora a retirada de circulação da capa que tanto brado provocou.
Ficando desse modo patente a fortíssima carga emocional acomodada numa história imune à passagem do tempo, mas não das mentalidades. A verdade é que, nos dias que correm, A Piada Mortal dificilmente passaria no crivo do politicamente correto, essa espécie de versão moderna dos tribunais do Santo Ofício a cujos arbitrários julgamentos nada nem ninguém parece escapar.
Foi assim que Barbara Gordon acabou numa cadeira de rodas.

Enredo: Pela calada da noite, Batman visita o Joker na sua cela no Asilo Arkham. Enquanto observa o seu arqui-inimigo a jogar tranquilamente às cartas sozinho, o Cavaleiro das Trevas diz-lhe que a incessante loucura na vida de ambos tem de parar, sob pena de um deles acabar por morrer às mãos do outro.
Imperturbável, o Palhaço do Crime continua a deitar as cartas na mesa até ser violentamente puxado por um enfurecido Homem-Morcego. Que nesse instante se apercebe estar em presença de um impostor. Não é o Joker que o herói tem diante de si, mas apenas um homem vestido e maquilhado como ele.
Longe dali, o verdadeiro Palhaço do Crime estás prestes a fechar negócio com o proprietário de um parque de diversões abandonado.  Depois de uma visita guiada ao espaço, o Joker mata o pobre diabo e dá por concluído o processo de aquisição. Em seguida, embrenhado em pensamentos, o vilão começa a recordar algumas passagens da sua vida anterior.
Nessa revisitação, o homem que viria a ser o Joker era um engenheiro anónimo que, para tentar a sua sorte como comediante, largou o  emprego numa fábrica de químicos. Os planos, no entanto. saíram-lhe furados. Desesperado por sustentar a esposa grávida, concordou em participar num assalto às instalações da fábrica onde trabalhara.
Durante a reunião em que ele participava numa esconsa taberna com os dois criminosos que o haviam recrutado para o assalto, a Polícia notificou-o da morte da sua esposa. Ao que tudo indica, em consequência de um acidente doméstico envolvendo um aquecedor elétrico de biberões. Transtornado, o homem procurou desistir do plano mas foi coagido pelos seus cúmplices a cumprir o acordado.
Na fábrica, os dois malfeitores obrigaram o antigo engenheiro a usar um capacete opaco de cor encarnada, transformando-o assim no Capuz Vermelho. Na verdade, tratava-se de um subterfúgio para o incriminar como sendo o chefe da quadrilha caso fossem apanhados pela Polícia.
Mal adentrou nas instalações, o trio de assaltantes esbarrou com os seguranças que as vigiavam. Seguindo-se uma violenta troca de tiros e uma desenfreada perseguição pelos corredores e plataformas da fábrica.
Já depois de os seus cúmplices terem sido abatidos pelos guardas, o Capuz Vermelho viu-se encurralado pelo Batman que acorrera ao local para averiguar o que se passava.
Em pânico, o Capuz Vermelho saltou para dentro de uma enorme tina contendo resíduos tóxicos, nadando de seguida através de uma conduta até ao exterior da fábrica. Ao remover o capacete, descobriu, horrorizado, que os ingredientes químicos em que ficara submerso lhe tinham alterado permanentemente a pigmentação da pele, lábios e cabelo. Agora transformado num sinistro palhaço, o homem sucumbiu à insanidade e nessa noite malsinada nasceu o Joker.

A noite em que o Joker nasceu para atormentar o mundo.
Quanto de verdade terá o seu relato?
De volta ao presente, alguém bate à porta do apartamento de Barbara Gordon quando ela está acompanhada do pai. Ao abri-la, a jovem dá de caras com o Joker vestido como um turista e com um revólver apontado na sua direção. Sem lhe dar tempo de reagir, o Palhaço do Crime prime o gatilho, atingindo Barbara à queima-roupa no baixo ventre.
Enquanto a filha jaz ensanguentada no chão, o Comissário James Gordon é agredido e subjugado pelos capangas do Joker. Que, indiferente ao que se passa à sua volta, começa a despir Barbara ao mesmo tempo que a vai fotografando.
Horas depois, Barbara é transportada para o hospital, e um médico informa o detetive Harvey Bullock de que a lesão causada pelo projétil na coluna vertebral da jovem a deixará paraplégica para o resto da vida.
Nessa mesma noite, a rapariga recebe a visita do Batman, a quem implora que salve o pai do que quer que o Joker tenha planeado fazer-lhe.
No parque de diversões agora ocupado pela trupe do Palhaço do Crime, o Comissário Gordon é desnudado e aprisionado numa jaula por um grupo de anões deformados. Acorrentado e enfiado à força num carrossel, o chefe do Departamento de Polícia de Gotham City (DPGC) é obrigado a assistir repetidas vezes a um aterrador caleidoscópio de imagens da sua filha ferida e em trajes menores.
Quando a alucinante viagem termina finalmente, o Joker ridiculariza Gordon, apontando-o como exemplo do homem comum que se julga imune à loucura, mas a quem bastará um dia mau para perder irreparavelmente a razão.

Para provar o seu ponto de vista,
o Joker testa os limites do Comissário Gordon.
Enquanto isso, Batman esquadrinha a cidade à procura de pistas que o ajudem a descobrir o paradeiro do Joker e do Comissário Gordon. Ao avistar o Bat-sinal projetado no céu noturno, o herói dirige-se ao telhado da sede do DPGC onde é esperado pelo detetive Bullock. Este entrega-lhe dois bilhetes para o parque de diversões abandonado, que lhe haviam sido enviados anonimamente.
Quando o Cavaleiro das Trevas chega ao recinto que serve de covil ao Joker, este consegue escapulir-se para a casa dos espelhos. Salvo pelo herói, o Comissário Gordon mantém intacta a sua sanidade mental, apesar do suplício a que foi sujeito. Tanto assim que pede ao Batman que capture o Joker com vida, para lhe provar que lei e justiça são mais do que meras abstrações.
Dentro da casa dos espelhos, o Homem-Morcego vai-se esquivando das armadilhas montadas pelo Joker, enquanto este tenta persuadi-lo de que a Humanidade é intrinsecamente insana, sendo portanto inútil lutar por ela.
Quando, por fim, Batman alcança e subjuga o seu velho inimigo, procura chamá-lo à razão, incitando-o a pôr um ponto final à sua carreira criminosa que tanto sofrimento já causou. Embora recuse o apelo do herói, o Joker fica momentaneamente melancólico, deixando escapar, num murmúrio amargurado, que é tarde demais para isso.
Rapidamente recomposto, o Palhaço do Crime conta uma piada sobre dois lunáticos em fuga de um hospício. Enquanto as risadas maníacas do vilão se sobrepõem ao som da chuva que cai copiosamente, Batman não consegue conter-se e faz-lhe coro com  as suas gargalhadas.
Durante breves instantes, os dois inimigos jurados riem-se a bandeiras despregadas como se fossem velhos compinchas. Até que se ouvem ao longe as sirenes da polícia, e ambos ficam subitamente silenciosos enquanto a chuva continua a cair aos seus pés.

Rir é o melhor remédio. Mesmo quando a piada é mortal.

Ramificações:

*Aquando da primeira publicação d'A Piada Mortal, em maio de 1988, Barbara Gordon já abandonara a sua identidade heroica de Batgirl. Aconteceu em Batgirl Special nº1, volume lançado escassos dias antes da chegada às bancas da história de Alan Moore. A despeito dessa circunstância, ela costuma ser citada como a derradeira aparição da heroína. Durante algum tempo circulou mesmo a tese de que, originalmente, A Piada Mortal não teria sido concebida para ser canónica, remetendo para uma realidade alternativa. Barbara Kesel confirmou, no entanto, que foi contratada especificamente para encaixar a trama do volume especial de Batgirl  nos eventos narrados em A Piada Mortal;
*Em consequência da sua paralisia, Barbara Gordon adotaria pouco tempo depois o codinome Oráculo (Oracle, no original) passando a usar tecnologia vanguardista e os seus vastos conhecimentos informáticos para assessorar outros vigilantes. Com especial destaque para as Aves de Rapina, equipa constituída exclusivamente por super-heroínas e sediada em Gotham City de que ela viria a fazer parte;
*No decurso de Zero Hour*, surgiu uma Batgirl proveniente de uma linha temporal divergente. Nessa realidade alternativa, fora o Comissário Gordon e não a sua filha a ser  vitimado pelo Joker;
* Em Booster Gold (volume 2) nº5,  o Gladiador Dourado é enviado ao passado por Rip Hunter investido da missão de tentar impedir o ataque do Joker a Barbara Gordon. Tudo não passou, porém, de um estratagema de Hunter para consciencializar o herói de que, salvo raras exceções, os eventos históricos são imutáveis. Resultando, portanto, infrutíferas quaisquer tentativas de manipulá-los;

Soando como um mau agoiro, no canto inferior esquerdo da edição
 que marcou a despedida da Batgirl podia ler-se:
«As estórias da DC não são apenas para crianças.»
* Christopher Nolan -  o realizador britânico da trilogia cinematográfica The Dark Knight - revelou que A Piada Mortal foi uma das principais influências no desenvolvimento do Joker interpretado pelo malogrado Heath Ledger no segundo capítulo da saga;
* Também Tim Burton (Batman e Batman Returns) assumiu que essa foi a primeira banda desenhada que leu em toda a sua vida e que é ainda hoje a sua preferida. A prová-lo, o facto de a origem do Joker mostrada no primeiro filme por ele dirigido possuir vários pontos de contacto com aquela que é narrada em A Piada Mortal;
* Ainda no campo cinematográfico, no mês passado foi lançada em DVD e Blu Ray, Batman: The Killing Joke. Película de animação que adapta a história homónima, recebeu críticas mistas. Se, por um lado, foi louvada pela fidelidade ao material original, a abordagem feita à Batgirl suscitou reações adversas por parte de muitos fãs. E mais não digo para não ser acusado de spoiler.


Batman visita Barbara no hospital após o ataque do Joker
 no filme de animação baseado em A Piada Mortal.

* Saga já aqui esmiuçada em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/01/classicos-revisitados-zero-hora-crise.html

Vale a pena ler?

Por conta da sua heterodoxia subversiva, Alan Moore nunca será um escritor consensual. Entre os que endeusam a sua obra e aqueles que a vilipendiam, quedo-me algures a meio do caminho.
Se a fábula desencantada de Watchmen é uma obra-prima da Nona Arte, V for Vendetta não passa de um manifesto anarquista que parece saído diretamente das páginas do clássico 1984, de George Orwell.
Apesar de todas as controvérsias que têm marcado a sua já extensa carreira literária, há que reconhecer a enorme coragem que Alan Moore - provocador nato -  tem evidenciado ao longo dela. A mesma que, seguramente ciente de que apenas escritores corajosos conquistam a imortalidade, voltou a demonstrar através de A Piada Mortal.
Claro que alguns dos que me leem poderão argumentar que esse impacto terá sido, em larga medida, negativo. Ao que eu contraponho com o velho chavão: "Se aquilo que escreves não incomoda ninguém, talvez devas considerar mudar de ofício."
De facto, o que não faltou foi gente incomodada pelo teor violento de uma história que, a despeito de apresentar a origem definitiva do Joker, continua a ser mais conhecida como aquela em que o vilão aleijou a Batgirl. Personagem que, convenhamos, muito antes desse seu infortúnio se tornara  já irrelevante no Universo DC. E que, bem vistas as coisas, saiu beneficiada ao ganhar uma proeminência muito maior como Oráculo. É, pois, caso para dizer que certos males vêm por bem.
Mas não me interpretem mal. Não sou totalmente insensível aos argumentos dos detratores d' A Piada Mortal.
Entendo perfeitamente o agastamento e repulsa perante os laivos de sadismo presentes na traumática sequência em que Barbara Gordon é violentada pelo Joker. Estranhando, porém, a ausência das mesmas reações exacerbadas no que à tortura e humilhação infligidas ao Comissário Gordon diz respeito. Indiferença a que talvez não seja alheia a circunstância de se tratar de uma personagem que corresponde ao protótipo do homem branco e heterossexual, logo conotado com a opressão supostamente exercida sobre determinados segmentos da sociedade (onde se incluem minorias de todo o tipo)  afeitos a crónicos vitimismos. E que cada vez mais dominam o espaço público com o seu aparentemente inesgotável reportório de ofensas e reivindicações. Como ficou, aliás, bem patente na tempestade num copo de água feita a propósito da capa de Rafael Albuquerque. Mero exemplo da histeria e das pulsões censórias que por estes dias coartam a liberdade de expressão e a liberdade artística mesmo em sociedades ditas democráticas. Sintomas de uma funesta pandemia a que, eufemisticamente, se convencionou chamar de "politicamente correto".


O tormento de James Gordon.
Ao ousar desafiar com A Piada Mortal os ditames do politicamente correto, Alan Moore tornou-se um escritor maldito aos olhos de muitos dos acólitos dessa espécie de nova igreja do século XXI. Motivo mais do que suficiente para merecer o meu respeito e admiração, e para me juntar com prazer àqueles que elegem esta como uma das melhores histórias do Batman de todos os tempos.
Se ainda não a leram, tratem de fazê-lo e tirem as vossas próprias conclusões. Em circunstância alguma se deixem sugestionar por avaliações de terceiros (inclusive pela minha). Sobretudo quando esses opinadores falam de cátedra. Ou se limitam a servir de caixa ressonância às lamúrias de espíritos ingénuos que acreditam ser possível esconjurar a violência do mundo real censurando-a na ficção.
Lembrem-se que mais importante do que ter opinião é ter opinião livre e própria. E não pedir desculpa por ela.

Batman e Joker: duas cartas fora do baralho.