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sábado, 27 de janeiro de 2018

RETROSPETIVA: « O FANTASMA»


  Entre as misteriosas florestas de Bengalla e os desfiladeiros de betão nova-iorquinos, defrontando novos e velhos inimigos, o Fantasma procura resgatar poderosos artefactos místicos e uma paixão do passado.
  No ano em que cumpriu o seu 60º aniversário, aquele que foi um dos primeiros heróis mascarados da BD regressou ao grande ecrã num filme para toda a família. Que, apesar do apocalipse nas bilheteiras, se tornaria objeto de culto e uma relíquia da cultura pulp.

Título original: The Phantom
Ano: 1996
País: EUA / Austrália
Duração: 100 minutos 
Género: Ação/Aventura/Fantasia
Produção: The Ladd Company e Village Roadshow Pictures
Realização: Simon Wincer
Argumento: Jeffrey Boam
Distribuição: Paramount Pictures
Elenco: Billy Zane (Kit Walker/Fantasma), Treat Williams (Xander Drax), Kristy Swanson (Diana Palmer), Catherine Zeta-Jones (Sala), James Remar (Quill), Patrick McGoohan (pai do Fantasma), Radmar Agana Jao (Guran), Robert Coleby (Capitão Philip Horton) e Cary-Hiroyuki Tagawa (o Grande Kabai Sengh)
Orçamento: 45 milhões de dólares
Receitas domésticas: 17,3 milhões de dólares

Quem é o Espírito-Que-Anda?



Assumindo que, entre os que me leem, existirá quem pouco ou nada conheça acerca do Fantasma, entendi por bem começar por resumir a fulgurante trajetória daquele que é um dos mais antigos super-heróis ainda no ativo.
Afinal,  nunca é demais lembrar, este blogue destina-se tanto a eruditos como a leigos em "Heroilogia". Se ao útil conseguir juntar o agradável, tanto melhor. Espero, por isso, que apreciem a pequena lição gratuita que se segue.
A reboque do assinalável êxito de Mandrake, o Mágico - publicado pela primeira vez em 1934, no formato de uma tira diária a preto e branco - os editores do King Features Syndicate instaram Lee Falk a criar uma segunda personagem.
Fascinado desde criança por mitos e lendas, bem como pelas figuras romanescas emanadas da literatura do início do século XX, Falk incluiu elementos de El Cid, Tarzan, Zorro e Robin Hood na conceção de um justiceiro mascarado a que deu o nome de Fantasma (The Phantom, em inglês).

O Fantasma
 foi a segunda criação bem-sucedida de Lee Falk.
Num primeiro momento, o Fantasma foi apresentado como um vigilante urbano de hábitos notívagos a que Jimmy Wells, um playboy milionário, servia de identidade civil (ver Curiosidades). Qualquer semelhança com um certo Homem-Morcego, surgido anos mais tarde, não será decerto mera coincidência...
Considerando existirem já demasiadas personagens com The Phantom no nome (The Phantom Detective, The Phantom of the Opera, etc.), Lee Falk ponderou crismar a sua mais recente criação de The Gray Ghost (O Fantasma Cinzento). Voltaria, no entanto, atrás nessa sua decisão, optando pela manutenção da nomenclatura original.
A 17 de fevereiro de 1936, o Fantasma faria a sua estreia oficial no mesmo formato em que, dois anos antes, Mandrake se dera a conhecer ao público estadunidense. Superando todas as expectativas, o sucesso da nova coqueluche do King Features Syndicate rapidamente extravasaria fronteiras, tornando-se um epifenómeno de popularidade à escala planetária.
No seu auge, em 1966, as tiras do Fantasma (que Lee Falk escreveu até 1999, ano da sua partida do mundo terreno) eram publicadas em quase 600 jornais de todo o mundo, atingindo dessa forma uma audiência diária estimada em 100 milhões de leitores.
Por razões de ordem diversa - que iam desde preferências cromáticas a (im)possibilidades gráficas - as cores do uniforme do Fantasma sofreram modificações nalguns países. Se, no Brasil e na Itália, o roxo original deu lugar ao encarnado, nas nações escandinavas foi o azul a prevalecer.

Durante muitos anos,
 o Fantasma vestiu de vermelho no Brasil.
Esse retumbante sucesso sobreveio, em larga medida, da reformulação da personagem realizada por Lee Falk escassos meses após o seu surgimento. Passando então o Fantasma a ser retratado, já não como um simples vigilante urbano, mas como o 21º representante de uma dinastia de combatentes do crime fundada 400 anos antes pelo único sobrevivente de um ataque de piratas ao largo da costa africana. Sobre a caveira do assassino do seu pai, o jovem náufrago jurou solenemente devotar a sua vida e a dos seus descendentes a combater a pirataria, a opressão e o Mal em todas as suas formas.
Assim nasceu o Fantasma, cuja lenda ecoaria ao longo do séculos pelas profundezas  das misteriosas florestas de Bangalla. Originalmente localizada algures no litoral africano, esta nação imaginária que serve de lar ao Espírito-Que-Anda seria posteriormente renomeada de Bengalla e transferida para o Extremo Oriente, reforçando dessa forma o exotismo dos cenários em que se desenrolavam as aventuras do herói.

First Phantom Sunday strip.jpg
Em 1939, a origem do Fantasma foi revisitada
 na sua primeira tira dominical com arte de Ray Moore.
A despeito de constituir um exemplo pioneiro dentro do género super-heroico, muitos são os estudiosos da Nona Arte que preferem classificar o Fantasma como uma personagem de transição. Isto porque, ao mesmo tempo que incorporava aspetos típicos dos heróis da literatura pulp (como o Sombra), antecipou também várias características definidoras de conceitos como o Superman ou o Batman. Sendo, aliás, por demais evidentes as influências do Fantasma na mitologia do Homem-Morcego.
Por muitos considerado o "avô" dos super-heróis modernos (a sua aparição precedeu num par de anos a do Superman), o Fantasma foi, com efeito, o primeiro a adotar o tipo de traje colorido de inspiração circense que se tornaria a principal imagem de marca dessa categoria de personagens. Por influência da estatuária helénica, foi, ademais, o primeiro a usar uma máscara sem pupilas visíveis, estabelecendo assim outro dos padrões estéticos do género super-heroico.
Contudo, ao contrário da generalidade dos super-heróis seus contemporâneos e do que o próprio nome sugere, o Fantasma não possui quaisquer talentos sobrenaturais. Apesar de trazer sempre um par de pistolas à ilharga, o seu draconiano código de conduta proíbe-o de empregar força letal. Dependendo, portanto, da sua capacidade atlética, da sua astúcia e da sua reputação de imortal (donde a cognominação Espírito-Que-Anda e O Homem-Que-Nunca-Morre) para levar a melhor sobre os seus adversários. Contando ainda com a preciosa ajuda dos seus escudeiros quadrúpedes: Hero (um alazão branco) e Devil (um lobo negro), conhecidos entre o público lusófono como Herói e Capeto.
Nas suas histórias clássicas (três das quais, como mais adiante se perceberá, serviram de inspiração ao enredo da sua primeira longa-metragem), Kit Walker, o 21º Fantasma, é casado com Diana Palmer. O casal conheceu-se quando ambos estudavam numa universidade dos EUA e vive com os seus dois filhos gémeos - Kit e Heloise - na Caverna da Caveira. De acordo com os preceitos da tradição familiar, caberá ao filho varão do Fantasma suceder ao pai quando este morrer ou ficar demasiado velho para continuar a encarnar o Espírito-Que-Anda.
Marcado pela itinerância editorial, o longo percurso do Fantasma na banda desenhada tem sido feito sob múltiplas chancelas. Originalmente publicado pelo King Features Syndicate, passou, entre outras, pela Charlton Comics e pela DC Comics, sendo os respetivos direitos detidos presentemente pela Dynamite Entertainment, que chamou a si missão de reapresentar este herói clássico a uma nova leva de leitores.
As novas aventuras do Espírito-Que-Anda
 têm agora o selo da Dynamite Entertainment.

Pré-produção e desenvolvimento

Os primeiros rumores acerca de uma possível adaptação do Fantasma ao cinema surgiram no seguimento de uma entrevista de Sergio Leone, na qual o realizador italiano expressou o seu interesse em dirigir um projeto dessa natureza.
Ao mesmo tempo que escrevia o argumento do filme, Leone começou também a fazer um levantamento de locais que poderiam servir de cenários à história que vinha alinhavando. Segundo consta, Leone pretenderia homenagear as duas criações de Lee Falk e, por isso, à longa-metragem  do Fantasma seguir-se-ia uma do Mandrake.
Ainda no início dos anos 1990, seria contudo Joe Dante (Gremlins) o realizador escolhido pela Paramount Pictures para dirigir aquela que seria a segunda aventura cinematográfica do Fantasma, depois da série por ele protagonizada em 1943. Em articulação com o argumentista Jeffrey Boam (Indiana Jones e a Grande Cruzada), Dante desenvolveu um enredo que parodiava as histórias do Espírito-Que-Anda.
Quando a Paramount adiou em vários meses o arranque da produção, Dante abandonou o projeto para assumir outros compromissos profissionais. Apesar disso, seria creditado como um dos produtores executivos de The Phantom.
Dante revelaria mais tarde que recebera a notícia do adiamento quando ele e a sua equipa estavam já de malas aviadas para a Austrália, um dos locais escolhidos para as filmagens. Se essa decisão o apanhou de surpresa, mais perplexo ficou ao perceber que, apesar do registo humorístico do enredo que escrevera a meias com Jeffrey Boam, The Phantom pretendia ser um filme sério.
Após o afastamento de Joe Dante, Joe Schumacher (Batman Para Sempre) chegou a ser considerado para assumir a direção do projeto. A escolha definitiva da Paramount Pictures recairia, porém, sobre o realizador australiano Simon Wincer (Libertem Willy), um confesso admirador do Fantasma desde os seus tempos de menino.

Foi sob a batuta de Simon Wincer
 que o filme do Fantasma ganhou forma.
Com a cadeira de realizador finalmente ocupada, seguiu-se a escolha do protagonista. Bruce Campbell (A Noite dos Mortos-Vivos) e Kevin Tod Smith (ator neozelandês com vários telefilmes no currículo) partiram como favoritos na corrida ao papel principal. Por indicação de Wincer, seria, contudo, Billy Zane a arrebatá-lo.
Zane tinha ganho notoriedade por via da sua interpretação de um psicopata em Dead Calm (1989). Tendo sido precisamente durante a  rodagem desse filme que o ator tivera o seu primeiro contacto com as histórias do Fantasma, pelas quais logo se deixou fascinar.
Além da intensa preparação física a que se submeteu durante mais de um ano, Billy Zane estudou minuciosamente a linguagem corporal do Fantasma na banda desenhada como parte do processo de construção da sua personagem.
De acordo com o calendário predefinido, as filmagens decorreram entre outubro e dezembro de 1995 com passagens por Los Angeles, Austrália e Tailândia. Entre os cenários utilizados, o destaque vai para a lendária mansão de Hugh Hefner, o finado fundador da revista Playboy que era também um fã de longa data do Fantasma.

Lee Falk posou ao lado de Billy Zane no set de filmagens.
Chegado às salas de cinema norte-americanas a 7 de junho de 1996, The Phantom combinava elementos sobrenaturais com outros retirados de três histórias clássicas do Espírito-Que-Anda (todas saídas da pena do seu criador): The Singh Brotherhood, Sky Band e The Belt.
Apesar da atuação de Zane ter sido louvada, os críticos dividiram-se na hora de avaliar um filme que, no fim de semana de estreia - e mesmo sem ter de lidar com concorrentes de peso - se quedou por um modesto sexto lugar no ranking das receitas de bilheteira. Sofrendo assim o mesmo destino de The Shadow que, dois anos antes, transpusera para o grande ecrã as aventuras do Sombra, outro herói clássico saído das páginas da literatura pulp.
Inviabilizada a franquia (estavam previstas duas sequências),  The Phantom registaria, no entanto, um bom desempenho no mercado VHS e DVD. Como tantos outros filmes mal-amados, com o tempo tornar-se-ia objeto de culto por parte de certas franjas da comunidade cinéfila. As mesmas que, enquanto não se materializa o anunciado reboot, terão de contentar-se com esta relíquia da Sétima Arte.

Sinopse

À laia de preâmbulo, a voz cava do 20º Fantasma (progenitor do atual) narra a dramática história de um menino que, 400 anos atrás, testemunhou, impotente, a morte do seu pai durante um ataque perpetrado pela infame Irmandade Sengh ao navio onde viajavam.
Enquanto os piratas chacinavam a restante tripulação, o menino lançou-se ao mar e conseguiu nadar até uma praia na misteriosa ilha de Bengalla. Lá foi encontrado por uma tribo indígena que o acolheu no seu seio e o tratou como igual.
Depois de receber das mãos do xamã da tribo o Anel do Caveira, o menino jurou devotar a sua vida a lutar contra todas as formas de injustiça. Chegado à idade adulta, adotou a identidade de O Fantasma, um vingador mascarado. Título que, ao longo dos séculos,  foi sendo transmitido de pai para filho, levando aqueles que com ele se cruzaram a acreditar piamente na imortalidade do chamado Espírito-Que-Anda.
A lenda do Fantasma
 é velha de quatro séculos.
Em 1938, no coração da luxuriante selva de Bengalla, um grupo de mercenários chefiado por um homem chamado Quill procuram uma das Caveiras de Touganda. Quando reunidos, esses artefactos místicos conferem grande poder destrutivo aos seus detentores.
A expedição liderada por Quill é, contudo, interrompida devido à interferência do Fantasma. O Espírito-Que-Anda (que é na realidade Kit Walker, o 21º portador do Anel da Caveira), salva o menino nativo que havia sido sequestrado pelos mercenários para lhes servir de guia. À exceção de Quill, todos os bandidos são capturados pelo Fantasma que, em seguida, os deixa sob a custódia da Patrulha da Selva.
Antes de escapulir-se levando consigo uma das Caveiras de Touganda, um estranho símbolo tatuado no antebraço de Quill denuncia a sua pertença à Irmandade Sengh, o que deixa o Fantasma intrigado.
Longe dali, em Nova Iorque, Diana Palmer, sobrinha do proprietário do World Tribune e ex-namorada de Kit Walker nos tempos de faculdade, voluntaria-se para viajar até Bengalla a fim de investigar os indícios encontrados pelo jornal do tio de que Xander Drax, um empresário sedento de poder, estaria envolvido em atividades ilícitas.

Diana Palmer,
uma donzela de espírito aventureiro.
Próximo à costa de Bengalla, o avião que transporta Diana Palmer é tomado de assalto em pleno voo pela Sky Band, uma quadrilha de piratas do ar composta exclusivamente por mulheres e liderada por uma femme fatale chamada Sala. Diana é sequestrada e levada para o esconderijo secreto da Sky Band em Bengalla.
Ao ser informado do sucedido pelo Capitão Horton, da Patrulha da Selva, o Fantasma parte imediatamente em missão de resgate. Com a colaboração de Herói, Capeto e da Tribo da Corda, o Espírito-Que-Anda consegue libertar Diana do seu cativeiro. Depois de deixá-la em segurança na base da Patrulha da Selva, o herói parte para Nova Iorque com a intenção de recuperar a caveira e de descobrir o paradeiro das restantes.
Agindo sob a sua identidade civil de Kit Walker, o Fantasma reencontra Diana Palmer durante uma reunião com o tio desta no edifício-sede do World Tribune. Surpreendida pela inesperada presença de Kit, Diana manifesta sentimentos ambíguos relativamente ao ex-amante que desaparecera  da sua vida há vários anos.

Kit e Diana reencontram-se após vários anos.
Graças a uma dica fortuita fornecida por Jimmy Wells, o pretendente de Diana, Kit descobre que a segunda Caveira de Touganda se encontra exposta no Museu de História Natural. Quando ele e Diana procuram recuperar o artefacto, são surpreendidos por Drax e pelos seus asseclas.
Ao reparar que Quill usa um cinturão com o símbolo da caveira, Kit deduz estar na presença do assassino do seu pai. Entretanto, o poder combinado das duas caveiras revela a Drax a localização da terceira: uma ilha não cartografada no Vórtice do Diabo, algures no Mar Amarelo.
Drax toma Diana como refém a fim de se precaver contra o Fantasma e ordena a Quill que se desenvencilhe de Kit. No entanto, é Kit quem consegue desenvencilhar-se dos capangas de Drax.
Já como Fantasma, o herói empreende uma audaciosa fuga à polícia (tanto o Comissário como o mayor estão mancomunados com Drax) pelas ruas e avenidas nova-iorquinas.

Xander Drax com uma das Caveiras de Touganda.
Pilotado por Sala, um hidroavião prepara-se para levantar voo com destino a Bengalla. A bordo seguem também Drax, Quill e Diana. Segundos antes de a aeronave descolar, o Fantasma consegue apanhar boleia escondido num dos seus flutuadores.
Na ilha desconhecida, Drax fica frente a frente com o Grande Kabai Sengh, descendente direto do fundador da Irmandade Sengh, que tem em sua posse a terceira Caveira de Touganda. Drax propõe-lhe uma aliança, mas Sengh alerta-o para a existência de uma quarta caveira capaz de controlar as outras três.
O Fantasma entra em cena e, após um acirrado duelo com Kabai Sengh, vê o vilão ser devorado vivo pelos tubarões que mantinha numa piscina de água salgada no interior da gruta que servia de quartel-general à Irmandade.

Sala e a sua Sky Band.
Ao juntar finalmente as três Caveiras de Touganda, Drax ativa o imenso poder destrutivo dos artefactos. Quando procura alvejar o Fantasma com o raio desintegrador emitido pelas caveiras, Drax acaba acidentalmente por pulverizar Quill.
O Fantasma usa então o seu anel - que tem incrustada a quarta Caveira de Touganda - para neutralizar o poder das caveiras. Colhido pela explosão consequente, Drax é  instantaneamente vaporizado.
Com a ilha prestes a implodir, o Fantasma consegue evacuar Diana e Sala. De volta a Bengalla, Diana confidencia ao herói ter reconhecido Kit Walker sob a máscara.
De rosto exposto, Kit informa Diana de como está autorizado a confiar os seus segredos apenas à mulher com quem pretende casar. Apesar de se sentir lisonjeada, Diana decide regressar a Nova Iorque com Sala.
No epílogo, o pai do Fantasma lamenta o fracasso amoroso do filho mas diz-se confiante de que, um dia, Diana regressará a Bengalla para cumprir o seu destino: ser a consorte do Espírito-Que-Anda.

Trailer: 


A primeira aventura cinematográfica do Fantasma

Mais de meio século separa o filme do Fantasma da sua primeira incursão pelo grande ecrã. Em dezembro de 1943, chegava aos cinemas norte-americanos The Phantom, um folhetim de 15 capítulos a preto e branco.
Produzida pela Columbia Pictures, a série tinha em Tom Tyler (ator que, apenas dois anos antes, havia interpretado o Capitão Marvel num formato idêntico) o seu astro principal. Como quase todas as produções do género naquela época, The Phantom dispôs de orçamento exíguo e, por isso, as cenas ambientadas na selva de Bengalla foram integralmente rodadas num estúdio em Hollywood.
Uma vez que, na altura, não era ainda conhecido o verdadeiro nome do Fantasma, na série foi-lhe atribuído o alter ego Geoffrey Prescott. Num dos episódios, porém, o herói pede para ser chamado de Walker, numa óbvia referência a Kit Walker, a sua persona civil na BD.

Tom Tyler foi o primeiro ator
 a encarnar o Espírito-Que-Anda.
Cartaz promocional de um dos capítulos
 do folhetim cinemático do Fantasma.
Muito por conta da fidelidade às histórias originais e das extraordinárias semelhanças físicas de Tom Tyler com o herói criado por Lee Falk, The Phantom conseguiu uma notável prestação nas bilheteiras. Justificando desse modo uma sequência que, apesar de ter sido produzida em 1955 (já sem Tom Tyler, falecido no ano anterior), acabaria, contudo, por nunca ser exibida.
Na origem dessa contingência esteve a súbita descoberta por parte dos responsáveis da Columbia Pictures de que os seus direitos sobre a personagem haviam caducado, aliada à recusa do King Features Syndicate em renová-los. Foi assim que The Return of the Phantom se transformou em The Adventures of Captain Africa. Apesar das alterações introduzidas, o novo herói era um flagrante pastiche do Fantasma.

Curiosidades

*Um traje com músculos falsos semelhante àqueles que Michael Keaton vestiu nos dois filmes do Batman dirigidos por Tim Burton chegou a ser confecionado. Acabaria, no entanto, por não ser utilizado devido à excelente forma física alcançada por Billy Zane após um ano de treino intensivo;
*Para que o capuz do traje do Fantasma lhe assentasse o melhor possível, Zane rapou a cabeça, obrigando desse modo a que todas as cenas em que a sua personagem surgia à paisana fossem gravadas logo no arranque da produção;
*Imagem de marca na BD, os calções listrados que o Fantasma usa por cima das calças foram testados num dos protótipos do traje mas seriam igualmente descartados por serem considerados demasiado ridículos;
*Nos intervalos das filmagens, Billy Zane tinha por hábito ir comer sushi a um restaurante nas redondezas do set levando vestido figurino da sua personagem; 
*Falkmoore, o nome do mordomo dos Palmer, é na verdade uma amálgama dos apelidos do criador e do primeiro artista do Fantasma (Lee Falk e Ray Moore, respetivamente);
*Para não melindrar os indivíduos com esse apelido (muito comum entre os sikhs indianos), o Grande Kabai Singh e a sua Irmandade tiveram o nome alterado para Sengh;

Nem o Grande Kabai Sengh
 escapou aos ditames do politicamente correto.
*Jimmy Wells, o frívolo pretendente de Diana Palmer, marcou presença nas primeiras histórias do Fantasma, quando a identidade e motivações do herói eram ainda incógnitas por resolver. Lee Falk pretendia estabelecer Wells como o alter ego do Espírito-Que-Anda, chegando mesmo a plantar diversas pistas para esse efeito antes de definir a sua criação como o último representante de uma longa linhagem de combatentes do crime;
*Além das que serviriam para desenvolver o romance entre o Fantasma e Diana Palmer, foram igualmente cortadas duas cenas em que o herói enfrentava, respetivamente, um leão e uma jiboia; 
*Minnie Driver foi a primeira atriz escolhida para interpretar Sala, a deslumbrante líder da Sky Band. Conflitos de agenda ditariam, contudo, o seu afastamento do projeto. Também Jenny McCarthy e Jennifer Lopez participaram em audições para o papel que, por indicação de Simon Wincer, seria entregue a Catherine Zeta-Jones. Determinante para essa escolha foi o facto de o cineasta ter apreciado sobremaneira trabalhar com a atriz galesa em Indiana Jones: Crónicas da Juventude, série televisiva estreada em 1993;
*A caveira é o símbolo dominante no folclore associado ao Fantasma. A Caverna da Caveira serve-lhe de lar e de base de operações, o herói usa um Anel da Caveira e, na película, procura resgatar um tríptico de caveiras imbuídas de poderes místicos. Uma observação atenta dos seus paramentos cinematográficos permitirá ainda detetar várias caveiras estampadas no tecido;
*Em meados dos anos 70 do último século, um filme de baixo orçamento do Fantasma entrou em pré-produção no México. O papel principal seria assumido por ninguém menos do que Adam West, o Batman televisivo da década anterior. Problemas relacionados com os direitos da personagem inviabilizaram, contudo, o projeto;
*Escrita por Rob MacGregor - autor das adaptações literárias de Indiana Jones - a novela epónima baseada em The Phantom apresentava os antecedentes de várias personagens e explorava mais pormenorizadamente a origem do Fantasma. Várias sequências eliminadas do filme foram também incluídas no livro.

The Phantom
teve direito a adaptação literária.

Veredito: 62%

Divertido e despretensioso, O Fantasma é outro filme de super-heróis menosprezado a que urge fazer alguma justiça. Tão despropositada como uma indicação aos Óscares seria a atribuição de uma Framboesa de Ouro a esta deliciosa extravagância com laivos de um romantismo antiquado.
Visualmente fantástico, O Fantasma, como quase todas as adaptações do género feitas naquela época, prima pela fidelidade ao conceito original (ou não tivesse Lee Falk feito questão de supervisionar a produção), e apresenta boas sequências de ação ao melhor estilo de Indiana Jones. Também a ideia de ambientar a trama na Idade de Ouro dos comics foi uma opção acertada.
Num flagrante contraste com o sorumbático realismo que tem caracterizado algumas das mais recentes transposições de super-heróis ao grande ecrã, O Fantasma é alegre e colorido, contagiando o espectador com o seu otimismo. Personagens caricaturais e estereotipadas, como Xander Drax e Sala, mais não são do que reminiscências da cultura pulp, a que a película - seguindo as pisadas de O Sombra e Rocketeer, também eles mal-amados - presta tributo.
No que ao herói diz respeito, não se torna menos misterioso do que a sua contraparte da BD, apesar das revelações feitas sobre o seu passado. Billy Zane deu muito boa conta do recado, recusando-me, por isso, a alinhar na teoria conspiratória segundo a qual a película teria sido prejudicada devido à orientação sexual do ator, que é declaradamente gay.
Se é verdade que, à época, era menor a tolerância em relação à homossexualidade, também o era a apetência do público pelas aventuras cinematográficas de super-heróis. Prova disso mesmo é o confrangedor rol de fracassos que marcaram os anos 90: Barb Wire, Judge Dredd, Spawn, Steel e Tank Girl são apenas alguns exemplos de adaptações de personagens saídas dos quadradinhos que se saldaram por flopes de bilheteira. A perceção do género era, pois, muito diferente da atual.
Além de ter precedido em vários anos a avalanche de filmes com super-heróis em  curso desde o início deste século, O Fantasma, em virtude da sua reduzida expressão fora dos quadradinhos, era - e, lamentavelmente, continua a ser - um ilustre desconhecido para as gerações mais novas. Precisamente aquelas que alimentam a profusão de franquias lançadas entretanto pela Marvel e pela DC.
À luz da atual tendência - mais pronunciada nas megaproduções dos Estúdios Marvel - de reduzir os filmes com super-heróis a intermináveis sucessões de piadas forçadas, é bem provável que, se tivesse sido lançado nos dias que correm, O Fantasma, por conta do seu registo ligeiro, teria sido um blockbuster.
Não falta por aí quem rotule O Fantasma de kitsch ou exemplo acabado de trash movie. Eu prefiro chamar-lhe entretenimento em estado puro e um oásis de inocência, ideal para preencher matinés domingueiras ou serões em família.

A mãe de todas as ironias é
 quando um justiceiro é vítima de injustiça. 











segunda-feira, 30 de outubro de 2017

RETROSPETIVA: «X-MEN - DIAS DE UM FUTURO ESQUECIDO»


 Mutantes de duas épocas entrelaçadas procuram desesperadamente reescrever a História a fim de prevenir um distópico porvir. Missão, ainda assim, menos complicada do que o reajustamento da cronologia de uma franquia que faz gala dos seus paradoxos. Mesmo tendo falhado esse objetivo, o filme - vagamente inspirado no clássico epónimo e o primeiro dos X-Men indicado para um Óscar - arrebatou a crítica e os fãs.

Título original: X-Men: Days of Future Past
Ano: 2014
País: EUA
Duração: 131 minutos
Género: Ação/Fantasia/Super-heróis
Produção: 20th Century Fox, Marvel Entertainment e The Donners' Company
Realização: Bryan Singer
Argumento: Simon Kinberg (baseado na obra homónima de Chris Claremont e John Byrne)
Distribuição: 20th Century Fox
Elenco: Hugh Jackman (Logan/Wolverine); James McAvoy e Patrick Stewart (Professor Charles Xavier), Michael Fassbender e Ian McKellen (Erik Lehnsherr/Magneto); Jennifer Lawrence (Raven Darkholme/Mística);  Nicholas Hoult e Kelsey Gremmer (Dr. Hank McCoy/Fera); Halle Berry (Ororo Munroe/Tempestade); Ellen Page (Kitty Pryde/Lince Negro); Shawn Ashmore (Bobby Drake/Homem de Gelo); Peter Dinklage (Bolivar Trask); Evan Peters (Peter Maximoff/Mercúrio); Josh Helman (Major William Stryker); Omar Sy (Bishop); Daniel Cudmore (Piotr Rasputin/Colossus); Fan Bingbing (Blink); Adan Canto (Mancha Solar); Booboo Stewart (Apache); Anna Paquin (Marie/Vampira); Famke Janssen (Jean Grey) e James Marsden (Scott Summers/Ciclope)
Orçamento: 200 milhões de dólares
Receitas globais: 747,9 milhões de dólares


Pré- produção e desenvolvimento

Face aos resultados dececionantes de X-Men 3: The Final Stand (2006), a 20th Century Fox , mesmo sem o assumir publicamente, perspetivou X-Men: First Class (2011) como o capítulo inaugural de uma nova trilogia baseada nos heróis mutantes criados em 1963 por Stan Lee e Jack Kirby.
As primeiras informações veiculadas apontavam para os regressos de Matthew Vaughn e Bryan Singer. Ao primeiro, que dirigira X-Men: First Class, ficaria novamente reservada a cadeira de realizador. Ao passo que Singer, realizador de X-Men e X-Men 2, vestiria agora a pele de produtor.
Simon Kinberg, coargumentista de X-Men 3 e coprodutor de X-Men: First Class, foi contratado, em novembro de 2011, para escrever o enredo do novo filme. Tendo, para esse efeito, estudado vários clássicos da 7ª Arte que abordavam as viagens no tempo. Casos, por exemplo, de The Terminator ou Back to the Future.
Quando, em outubro de 2012, Vaughn trocou a direção do projeto pela de Kingsman, Singer perfilou-se como a escolha natural para o substituir.


Dança de cadeiras:
Bryan Singer substituiu Matthew Vaughn (cima) na direção do projeto.
Já depois de ter anunciado a data de estreia da película, em agosto de 2012 a Fox confirmou oficialmente o respetivo título: X-Men: Days of Future Past.
Com um orçamento de 200 milhões de dólares, Days of Future Past começou a ser rodado em abril de 2013. Cumprindo o cronograma estipulado, as filmagens ficaram concluídas cinco meses depois, em setembro do mesmo ano. A Cité du Cinema e outras localizações da cidade canadiana de Montreal - como o seu icónico Estado Olímpico - serviram de cenário às gravações. Chris Claremont, coautor da saga original, foi contratado como consultor.
Além de ter sido a segunda produção mais dispendiosa da Fox depois de Avatar (2009), Days of Future Past foi também a primeira longa-metragem dos X-Men filmada em 3D.
A 10 de maio de 2014, o Centro de Convenções Jacob Javits, em Nova Iorque, foi o palco escolhido para acolher a antestreia mundial de X-Men: Days of Future Past. Onze dias depois o filme chegaria às salas de cinema de todo o mundo.

Caça aos mutantes.

Enredo: Em 2023, robôs Sentinelas são programados para identificar e exterminar mutantes e seus aliados humanos. Durante um raide na Rússia que praticamente erradica a população local de Homo superiores, Kitty Pryde faz a consciência de Bishop retroceder alguns meses de modo a prevenir a chacina. Apesar de bem-sucedido, o expediente tem eficácia e alcance limitados devido ao seu impacto na fisiologia do viajante temporal.
Após ser contactada telepaticamente pelo Professor Xavier, Kitty reúne-se aos mutantes sobreviventes acantonados num remoto templo chinês. É lá que fica a conhecer a origem dos Sentinelas. Projetados por Bolivar Trask - assassinado por Mística em 1973 - os robôs tornaram-se virtualmente invencíveis graças a uma amostra do ADN da mutante.

Num futuro não muito distante,
 os Homo superiores encaram a ameaça de extinção.
Kitty sugere usar a sua habilidade para enviar alguém ao passado por forma a impedir o assassinato de Trask e, desse modo, alterar o curso da História. Xavier pondera ser ele a viajar no tempo, mas Wolverine voluntaria-se, alegando que o seu fator de cura lhe garantiria maiores hipóteses de sobreviver ao processo.
Logo depois de ter acordado em 1973, Wolverine visita a Mansão X, onde quase já não existem vestígios da Escola para Jovens Sobredotados fundada por Charles Xavier. É lá também que o herói canadiano encontra o seu antigo mentor, com notórios sintomas de alcoolismo e depressão.
Graças a um soro especial desenvolvido pelo Dr. Henry McCoy (o Fera), Xavier recuperou a capacidade de andar. Em contrapartida, os seus poderes psíquicos foram desabilitados pela substância.
Na esperança de que isso lhe permita reencontrar Mística, Xavier concorda em auxiliar Wolverine a resgatar Magneto da prisão especial localizada no subsolo do Pentágono. O que, contudo, só é possível graças à supervelocidade de Mercúrio, o jovem mutante entretanto recrutado para a operação.

Magneto prestes a ser resgatado da prisão especial
onde passara os últimos meses.
Mística descobre que Trask tem vindo a usar mutantes como cobaias para as suas sinistras experiências científicas e resolve matá-lo durante a cerimónia dos Acordos de Paz de Paris que serviriam para  pôr fim à Guerra do Vietname. Sendo, no entanto, impedida de consumar os seus desígnios por Xavier e Magneto. Este resolve matar a ex-amante por forma a certificar-se que o futuro apocalíptico descrito por Wolverine jamais terá lugar.
Ao intervir para salvar a vida de Mística, o Fera acaba por expor-se a si e aos seus companheiros como mutantes.
Tirando proveito da histeria anti-mutante potenciada pelo incidente, Trask consegue persuadir o Presidente Nixon a autorizar o Programa Sentinela. Entretanto, Magneto assume em segredo o controlo dos Sentinelas já construídos.

"Mutantes são o inimigo", clama um cartaz das Indústrias Trask.
Novamente confinado a uma cadeira de rodas depois de abandonar o soro que suprimia os seus talentos psíquicos, Xavier socorre-se deles para comunicar com o seu eu mais velho. Que o inspira a manter vivo o seu sonho de uma coexistência harmoniosa entre humanos e mutantes.
Depois de usar Cérebro (o supercomputador que permite a deteção remota de portadores do gene X) para localizar Mística, Xavier e seus aliados rumam a Washington D.C. com o propósito de fazerem abortar os planos da mutante transmorfa para assassinar Trask.
Enquanto Nixon apresenta, com pompa e circunstância, os Sentinelas, Xavier, Fera e Wolverine procuram Mística. Que, disfarçada de agente dos Serviços Secretos, se encontra perigosamente perto do Presidente e de Bolivar Trask.
Antes que Mística consiga agir, Magneto entra em cena controlando os Sentinelas e fazendo levitar um estádio de basebol acima da Casa Branca. Wolverine ataca o mestre do magnetismo mas é prontamente rechaçado, acabando atirado para as águas do rio Potomac.
No meio da confusão instalada, Nixon, Trask e Mística (ainda disfarçada de agente dos Serviços Secretos) procuram abrigo num bunker subterrâneo instalado sob a Sala Oval. O qual é arrancado por Magneto para fora da Casa Branca com a intenção de matar todos os seus ocupantes.


A cerimónia de apresentação dos Sentinelas presidida por Nixon.
No futuro, os Sentinelas invadem o templo que dá guarida aos mutantes, matando vários deles, incluindo Tempestade. Também Magneto é gravemente ferido durante o ataque e a capitulação parece iminente.
Entretanto, no passado, Mística impede Magneto de assassinar Nixon mas não desiste da sua intenção de liquidar Trask. No último instante Xavier consegue demovê-la de o fazer, explicando-lhe que isso apagará os Sentinelas da existência, poupando assim muitas vidas inocentes.
Mística parte com Magneto e Trask é posto atrás das grades por ter tentado vender segredos militares norte-americanos a dignitários vietnamitas.
No presente, Wolverine desperta na Mansão X e encontra todos os outros X-Men vivos e de boa saúde. Sendo, contudo, o único a estar ciente das alterações ocorridas na História.
Numa cena pós-créditos, uma multidão em transe venera com os seus cânticos En Sabah Nur (nome de batismo de Apocalipse) enquanto este faz flutuar pelo ar enormes blocos de pedra que servem para construir uma antiga pirâmide egípcia. Proeza testemunhada à distância pelos seus quatro Cavaleiros.

Trailer:



Versão alternativa

A 14 de julho de 2015, data em que a franquia dos X-Men cumpria o seu 15º aniversário, a 20th Century Fox Home lançou uma versão alternativa de Days of Future Past. Sob o título genérico The Rogue Cut, incluía 17 minutos de cenas cortadas e uma subtrama envolvendo Vampira (Rogue, no original), cuja participação no filme, recorde-se, se resumira a um brevíssimo cameo de poucos segundos.
Em Rogue Cut a narrativa é mais complexa e o papel desempenhado nela por Vampira menos inconsequente. Quando, devido à ação de William Stryker, a consciência de Wolverine balança entre o passado e o futuro - levando-o a ferir acidentalmente Kitty Pryde com as suas garras - o Professor X chama a atenção para a necessidade de Logan dispor de mais tempo no passado. O Homem de Gelo propõe então invadir a antiga Escola Xavier para Jovens Sobredotados, onde Vampira se encontra confinada sob a apertada vigilância dos Sentinelas.
Levada a cabo pelo Professor X, Magneto e Homem de Gelo, a operação de resgate é coroada de êxito, mas apenas os dois primeiros escapam com vida.
A partir do baluarte da resistência mutante, Vampira, embora devastada pela perda do namorado, assume o lugar de Kitty Pryde durante o tempo necessário para que, em 1973, Wolverine consiga alterar o curso da História.

Em Rogue Cut, é Vampira a assegurar
 o sucesso da missão de Wolverine.
Os Sentinelas conseguem, porém, encontrar o esconderijo dos mutantes graças a um dispositivo de localização que um dos robôs havia conseguido colocar no Pássaro Negro (o sofisticado jato dos X-Men) no momento da fuga do comando mutante da Mansão X.
A versão alternativa inclui ainda duas outras cenas: a primeira mostra Mística a visitar a Mansão X enquanto Xavier e Logan dormiam o sono dos justos. Após uma tórrida noite de amor com o Fera, Mística sai furtivamente antes do alvorecer, não sem antes sabotar Cérebro, de modo a evitar que Xavier lhe siga o rasto. Já a segunda mostra como a prisão especial do Pentágono está a ser reparada enquanto recebe um novo recluso. Ninguém menos do que Bolivar Trask.

Fera e Mística: paixão em tons de azul.

Prémios e nomeações

Além da inédita indicação para um Óscar na categoria de Melhores Efeitos Visuais, Days of Future Past recebeu nomeações para dezenas de outros prémios. Arrecadaria, no entanto, apenas quatro. A saber: um Empire Award para Melhor Filme de Ficção Científica, um Saturn Award para Melhor Edição Especial em DVD e dois Visual Effects Society Awards para Melhor Fotografia e Melhores Efeitos Especiais.

Curiosidades

*Quando Wolverine acorda em 1973, a mulher deitada ao seu lado na cama chama-lhe Jimmy. Algumas revisitações recentes da origem do mutante canadiano estabeleceram James Howlett como seu nome de batismo. Logan, por seu turno, corresponde ao apelido herdado do seu pai biológico, Thomas Logan. Originalmente, nessa mesma cena, Logan deveria usar boxers ao sair da cama. Alegando que, na sua Austrália natal, nenhum homem a sério acorda vestido ao lado de uma mulher bonita, Hugh Jackman vetou essa diretriz e brindou a plateia com uma visão do seu traseiro desnudo;
*Halle Berry teve o seu papel como Tempestade substancialmente reduzido em consequência da sua gravidez. Não obstante, o seu nome surge em destaque nos créditos do filme;
*Com o intuito de assegurar a verosimilhança e a exequibilidade do conceito de viagens no tempo na película cuja direção assumiu após a saída de Matthew Vaughn, Bryan Singer discutiu durante duas horas com James Cameron (Exterminador Implacável, Avatar) alguns teoremas da física quântica, mormente a complexa Teoria das Cordas. Singer resumiu desta forma aquela que é a pedra angular do enredo de Days of Future Past: "Até um objeto ser observado, ele é inexistente. Ao viajante do tempo, cuja consciência retrocede até a uma determinada época, eu chamo, portanto, Observador. Enquanto o Observador não regressar ao seu ponto de partida, esse futuro será apenas um cenário em aberto. É por isso que, em teoria, seria possível alterá-lo. No filme, Wolverine é o Observador a quem compete reescrever cirurgicamente o passado para precaver um Amanhã de pesadelo.";
*Na sua audiência no Senado norte-americano, Bolivar Trask lê em voz alta alguns excertos de uma dissertação académica que explica como a emergência do Homo sapiens induziu a extinção do Homem de Neandertal, seu antepassado na escala evolutiva. A referida dissertação fora elaborada por Charles Xavier que, em X-Men: First Class, também lera as mesmas passagens a Mística. Len Wein (cocriador de Wolverine, recentemente falecido) e Chris Claremont (o autor da saga original) são dois dos congressistas que assistem à preleção de Trask;
*Desde The Dark Knight Rises (2012) que nenhum filme de super-heróis reunia um elenco tão sumptuoso. Além de três atrizes oscarizadas (Anna Paquin, Halle Berry e Jennifer Lawrence), Days of Future Past contabilizou ainda cinco nomeados pela Academia de Hollywood: Hugh Jackman, Michael Fassbender, Ellen Page, Michael Lerner e Ian McKellen;

Um elenco que era uma verdadeira constelação.
*Quando aos comandos do projeto estava ainda Matthew Vaughn, caberia ao Fanático a missão de resgatar Magneto da prisão. Escalado para o papel que, em X-Men 3: The Final Stand (2006), pertencera ao britânico Vinnie Jones, Josh Helman acabaria por encarnar o jovem William Stryker depois de Bryan Singer ter decidido colocar Mercúrio no lugar do Fanático. Troca que, curiosamente, só se verificou após a confirmação de que o filho de Magneto também marcaria presença em Vingadores: Era de Ultron (2015). Especula-se que esse poderá ter sido o estratagema encontrado pela Fox para salvaguardar os seus os direitos sobre a personagem;
*Enquanto Magneto faz levitar um estádio inteiro sobre Washington D.C., é possível ver uma pequena Jean Grey de olhos postos no céu, indiferente à multidão espavorida que a rodeia.

Uma Jean Grey de palmo e meio
assiste às proezas de Magneto.

Diferenças em relação à BD

Obra capital no repertório dos Filhos do Átomo, Days of Future Past granjeou há muito o estatuto de clássico da 9ª Arte de leitura obrigatória para qualquer "bedéfilo".
Publicada originalmente em janeiro e fevereiro de 1981, nos números 141 e 142 de The Uncanny X-Men, a história teve o cunho de Chris Claremont* e John Byrne**, o binómio criativo responsável  por aquela que é quase unanimemente considerada a fase áurea dos heróis mutantes.
Antes da sua transposição ao grande ecrã, Days of Future Past tivera já direito a duas adaptações televisivas em outras tantas séries animadas dos X-Men: X-Men (1992-97) e Wolverine and the X-Men (2009).
No entanto, se essas adaptações prévias tiveram na fidelidade ao conceito original o seu eixo comum, o mesmo não se poderá dizer da sua versão cinematográfica.
Tantas são, de facto, as discrepâncias relativamente à saga original que, quanto muito, poderá considerar-se que o filme é vagamente inspirado nela.
De tão extensa que é a lista, limito-me, por isso, a identificar apenas algumas das diferenças fundamentais relacionadas com o protagonista, a trama e o desfecho desta.

A capa de Uncanny X-Men nº141 (1981)
 ocupa lugar de relevo na iconografia da 9ª Arte.
Comecemos então pelo protagonista. Na história original, esse posto cabe a Kitty Pryde. É a sua consciência que é enviada para o passado com a missão de alertar os X-Men para o lúgubre futuro que os espera. O facto de ela ser, à época, a novata da equipa foi preponderante para a escolha de Kitty. Ademais, a ausência de bloqueios mentais facilitaria a leitura dos seus pensamentos por parte do Professor X, fornecendo ao líder dos X-Men uma visão mais nítida do porvir.
No filme, como sabemos, é Wolverine a viajar ao passado. E há uma boa razão para isso: o seu fator de cura torna-o o único capaz de suportar os danos cerebrais decorrentes de passar longos períodos de tempo com a consciência numa época diferente.
No que à trama diz respeito, na história original Kitty Pryde regressa aos anos 1980 (e não a 1973) para prevenir os X-Men para as consequências catastróficas do assassinato do Senador Robert Kelly, o promotor político de uma virulenta campanha anti-mutante.  Crime cometido por Sina, da Irmandade de Mutantes, e que motivaria o Governo dos EUA a autorizar a produção em massa dos Sentinelas, já velhos conhecidos dos X-Men.
Apesar da premissa comum, no filme é a morte do Major William Stryker às mãos de Mística  a pôr em marcha essa trágica cadeia de eventos.
Também o tratamento aplicado pelos Sentinelas aos mutantes é um aspeto pouco explorado na película. Na BD os robôs de Trask promovem uma segregação entre humanos que podem procriar, humanos portadores do gene X latente (proibidos de se reproduzirem) e Homo superiores. A estes últimos restam duas opções: o extermínio ou o confinamento em campos de concentração onde são obrigados a usar colares inibidores de poder. Sendo este o único elemento presente no filme, no qual pouco mais é revelado acerca do destino dado aos mutantes capturados.

Lápides com os nomes de X-Men
 testemunham o genocídio mutante na saga original.
Previsivelmente, todas estas divergências conduzem a desfechos distintos para as duas versões da mesma história. Enquanto na BD os X-Men chegam a tempo de evitar o assassinato do Senador Kelly - daí resultando um acirrado conflito com a Irmandade de Mutantes - no filme é Mística quem, ironicamente, impede Magneto de cometer uma chacina.
Todas estas licenças poéticas não deturpam, ainda assim, a essência e o escopo da saga que serviu de base ao enredo da película. Algo que por si só é digno de louvor, atendendo ao ror de adaptações que, de tão heterodoxas, deixam irreconhecíveis as respetivas matrizes.

*http://bdmarveldc.blogspot.pt/search?q=chris+claremont
**http://bdmarveldc.blogspot.pt/2015/01/eternos-john-byrne-1950.html

Veredito: 70%

Ironia das ironias: Days of Future Past foi escolhido pelos mandachuvas da Fox porque a história permitiria atar as muitas pontas soltas na cronologia de uma franquia que, recorde-se, além dos X-Men integra também Wolverine e Deadpool.
Ora, o filme não só falhou redondamente em resolver este ponto problemático como ainda acrescentou mais uns quantos fios emaranhados a um novelo que poucos se atreverão a tentar desembaraçar. Alguns exemplos: além de ficar intangível, Kitty Pryde parece ter descoberto da noite para o dia possuir a habilidade de enviar consciências alheias de volta no tempo; o Professor X regressou do além-túmulo depois de ter sido assassinado por Jean Grey em X-Men 3; e também Wolverine recuperou as suas garras de adamantium perdidas no seu segundo filme a solo.
Para nenhuma destas inconsistências é aventada qualquer justificação. O que não deixa de causar estranheza se consideramos que o enredo de Days of Future Past ambicionava conectar a trilogia original dos X-Men, os dois filmes de Wolverine e ainda X-Men: First Class.
Se fizermos vista grossa a estes pecadilhos cronológicos e nos focarmos na trama, o núcleo futurista é uma das suas mais-valias. O peso dramático de um mundo pós-apocalíptico é sentido perfeitamente pelo espectador e as cenas de combate com os Sentinelas são soberbas.
Perante essa atmosfera sufocante, é mais do que bem-vindo o alívio cómico proporcionado pelas sequências protagonizadas por Mercúrio. Sendo, de resto, muito interessante a forma como as duas perceções - do próprio e dos outros - da sua supervelocidade foram mostradas. Curioso notar, a este propósito, como Evan Peters emprestou o seu carisma a uma personagem que nunca o possuiu na BD.

O impagável Mercúrio em ação.
Apesar do natural destaque concedido a Wolverine na trama, ele é um falso protagonista. Pela primeira vez na franquia, Charles Xavier é o coração e a alma da história. E o resultado é sensacional, muito por conta da magistral representação de James McAvoy.
Quase sempre retratado como um rochedo inabalável nas suas convicções, desta feita o mentor dos X-Men debate-se com uma crise de fé. Ficando bem patente o quanto esse seu estado de alma se reflete na comunidade Homo superior e, por irradiação, no mundo inteiro.
Outro ponto positivo do filme é, aliás, a ausência de maniqueísmo: as retaliações de humanos e mutantes afiguram-se justificáveis e inevitáveis porque, no fundo, todos estão errados. Cabendo dessa forma a Charles Xavier a ingrata missão de se assumir como o fiel de uma balança que pende cada vez mais para o ódio inter-espécies.
Boa parte desses e de outros méritos da produção devem ser atribuídos a Bryan Singer, cineasta que já deu sobejas provas do seu amor ao género super-heroico e do seu profundo conhecimento do universo dos X-Men.
De facto, mais importante do que a estética ou a cronologia, é o conteúdo social, moral e filosófico que sempre esteve no cerne das melhores histórias dos Filhos do Átomo. E é por isso que as imperfeições de Days of Future Past merecem ser perdoadas.






quarta-feira, 6 de setembro de 2017

GALERIA DE VILÕES: BARÃO ZEMO


  Último representante de uma infame linhagem de aristocratas germânicos, do pai herdou o título nobiliárquico e o ódio visceral pelo Capitão América. O seu altruísmo distorcido levou-o, porém, a fundar os Thuderbolts, coletivo heroico com um segredo tão sórdido como o passado do seu líder. 

Denominação original: Baron Zemo
Licenciadora: Marvel Comics
Criadores: Tony Isabella/Roy Thomas (história) e Sal Buscema (arte conceptual)
Estreia (como Fénix): Captain America Vol.1 nº168 (Dezembro de 1973)
Estreia (como Barão Zemo): Captain America Vol.1 nº275 (Novembro de 1982)
Identidade civil: Helmut J. Zemo
Local de nascimento: Leipzig, Alemanha
Nacionalidade: Alemã
Parentes conhecidos: Heirinch e Hilda Zemo (pais, falecidos); Heike Zemo/Baronesa (esposa presumivelmente falecida) e demais antepassados da linhagem Zemo (ver Dinastia Maldita)
Ocupação: Engenheiro, aventureiro e terrorista internacional
Base operacional: Seguindo uma tradição fundada pelo avô paterno, Helmut Zemo operava, inicialmente, a partir do seu centenário castelo familiar, no leste da Alemanha. Seguiram-se, contudo, anos de itinerância que o levaram a diferentes latitudes do hemisfério setentrional, designadamente México e Nova Iorque. Até se fixar por fim na capital da Bagália (nação insular fictícia cuja população é, quase exclusivamente, composta por malfeitores), usando desde então a imponente Torre Zemo como centro nevrálgico das suas atividades subversivas.
Afiliações: Atual membro do Conselho Superior da HIDRA e financiador do Império Secreto, Zemo liderou outrora os Mestres do Terror e os Thunderbolts (vide respetivos prontuários infra)
Armas, poderes e habilidades: Zemo compensa a ausência de capacidades sobre-humanas com uma apreciável gama de recursos que, embora mais comezinhos, são quanto basta para fazer dele um dos supervilões mais cotados do Universo Marvel.
Menos genial e inventivo do que o seu defunto progenitor - que, ao longo da vida, colecionou patentes científicas - o atual Barão Zemo é ainda assim dono de um intelecto superior. Especialista em engenharia reversa, é também um exímio estratega e um manipulador nato. Se o primeiro atributo lhe permite tirar proveito de tecnologia alheia, este último é uma das suas imagens de marca.
Sob a influência de Zemo numerosos indivíduos bem intencionados foram já induzidos por ele a cometer toda a espécie de atrocidades. Carismático, é sempre fortíssimo o ascendente que o vilão exerce sobre aqueles que o rodeiam. Algo que ficou, aliás, bem patente no filme Capitão América: Guerra Civil (ver Noutros Media).
No ápice da forma física, Helmut Zemo possui uma compleição equivalente à de um atleta olímpico. É, no entanto, muito mais velho do que aparenta. Sobrevindo da toma regular do chamado Composto X - soro milagroso desenvolvido pelo seu pai - a extraordinária vitalidade por si exibida.
Esgrimista de classe mundial, Zemo tem na sua espada de adamantium uma extensão natural do seu corpo em cenários de combate mano a mano, conquanto seja igualmente destro no manuseamento de armas de fogo. Além do famigerado Adesivo X - outra das criações paternas - , de vários raios desintegradores e dispositivos de controlo mental, na sofisticada parafernália tecnológica de Zemo avulta ainda uma tiara psíquica que o vilão costuma acoplar no seu capuz a fim de se proteger de ataques telepáticos.
Nas gemas alienígenas de que espoliou Rocha Lunar- sua ex-subordinada e concubina - o Barão Zemo tem, incontestavelmente, as armas mais poderosas do seu arsenal. Graças a elas, o vilão consegue levitar, ampliar a sua força, desmaterializar-se e até viajar através do hiperespaço. Justificando-se assim plenamente o honroso 40º lugar que o Barão Zemo ocupa na lista dos 100 Maiores Vilões dos Quadradinhos organizada pela plataforma digital de entretenimento IGN.

Zemo preparado para a guerra com a sua espada de adamantium
 e as gemas surripiadas a Rocha Lunar.

Histórico de publicação

A despeito dos seus pergaminhos familiares, o debute de Helmut Zemo foi pouco promissor. Ou não tivesse ele encetado a sua carreira criminal como um vilão genérico e potencialmente descartável chamado Fénix (Phoenix, no original).
Facto pouco conhecido, foi, com efeito, sob esta persona que, em dezembro de 1973, Helmut Zemo se deu a conhecer aos leitores de Captain America nº168. Saído meses antes da imaginação de Tony Isabella, Roy Thomas e Sal Buscema, o seu processo de afirmação dentro do Universo Marvel foi particularmente moroso. Tendo o momento de viragem ocorrido quase uma década depois quando, em Capitain America nº275 (novembro de 1982), Helmut assumiu por fim o título de Barão Zemo, dando dessa forma continuidade ao sinistro legado paterno.

Fénix foi a primeira persona criminosa
 de Helmut Zemo.
Foi nesta edição de Captain America
que o Barão Zemo moderno (em baixo)
 fez a sua estreia oficial.


Consolidado o seu estatuto de vilão de referência ao longo da década de 1980, no início da seguinte o Barão Zemo demonstrou a sua multidimensionalidade ao fundar o coletivo heroico Thunderbolts. À semelhança do que sucedera com Magneto poucos anos antes, Zemo, mercê da sua ambivalência moral e de um certo altruísmo distorcido, passou de vilão a herói apenas para voltar a fazer o percurso inverso.
Vale a pena lembrar que, durante a sua fase heroica (que se prolongou mesmo após o desmantelamento dos Thunderbolts), Zemo procurou genuinamente retratar-se de alguns dos atos ignóbeis que havia cometido no passado. Contudo, a descoberta de que Bucky Barnes - o antigo sidekick do Capitão América presumivelmente morto pelo seu pai nos últimos dias da 2ª Guerra Mundial - se encontrava, afinal, vivo e de boa saúde, fez com que a faceta maligna de Zemo prevalecesse uma vez mais. Realidade aparentemente irreversível, conforme atestam as suas participações em algumas das sagas mais recentes da Casa das Ideias, designadamente no polémico Secret Empire (lançado este ano nos EUA e ainda inédito no universo lusófono).

Dinastia maldita

Com raízes na época medieval, a árvore genealógica de Helmut Zemo conta uma história de poder e ganância, mas também de coragem e patriotismo.
Tudo começou no longínquo ano de 1480 em Zeulniz, uma pequena vila alemã. Assediado por uma horda de saqueadores eslavos, o povoado foi salvo pela valentia de Harbin Zemo. Munido apenas de uma espada, este modesto funcionário público responsável pela proteção do celeiro comunitário desbaratou sozinho os invasores
Os ecos da façanha chegaram à sala do trono e o Imperador nomeou Harbin Zemo Barão de Zeulniz. Título nobiliárquico que seria daí em diante transmitido de pai para filho, fazendo perdurar até aos nossos dias a infame dinastia Zemo. Cuja linha sucessória, assente na primogenitura masculina, é a seguinte:

*Harbin Zemo: o 1º Barão Zemo e fundador da dinastia. Apesar do ato de bravura que lhe valeu a condição aristocrática, depressa se tornaria um déspota sanguinário. Morreu de velhice em 1503;
*Hademar Zemo: o 2º Barão Zemo, filho de Harbin, e o mais pusilânime  de toda a linhagem. A sua fraqueza ditaria que fosse morto às mãos da sua guarda pessoal, numa conjura encabeçada por Heller Zemo, o seu filho de apenas 12 anos de idade;
*Heller Zemo: o 3º Barão Zemo, filho de Hademar, e o mais progressista dos Zemos;
*Herbert Zemo: o 4º Barão Zemo, filho de Heller, e um orgulhoso guerreiro colecionador de glórias e inimigos. Assassinado pelos próprios generais;
*Helmuth Zemo: o 5º Barão Zemo, filho de Heller. Assassinado pelo Barão Zemo moderno durante uma das suas viagens no tempo;
*Hackett Zemo: o 6º Barão Zemo, filho de Helmuth. Quase matou o atual Barão Zemo quando este monitorizava a sua atividade por volta de 1710;
*Hartwig Zemo: o 7º Barão Zemo, filho de Hackett. Morto em combate quando participava na Guerra dos Sete Anos (1756-1763);
*Hilliard Zemo: o 8º Barão Zemo, filho de Hartwig;
*Hoffman Zemo: o 9º Barão Zemo, filho de Hilliard;
*Hobart Zemo: o 10º Barão Zemo, filho de Hoffman. Morto às mãos de camponeses amotinados durante as revoltas que se seguiram à proibição do socialismo em terras germânicas decretada pelo Imperador Guilherme I;
*Herman Zemo: o 11º Barão Zemo, filho de Hobart e avô do atual Barão Zemo. Combateu os Aliados durante a I Guerra Mundial, causando-lhes numerosas baixas com a sua própria fórmula do terrível gás mostarda;
*Heinrich Zemo: o 12º Barão Zemo, filho de Herman e pai do atual detentor do título. Um dos maiores cientistas ao serviço de Hitler durante a II Guerra Mundial, tornou-se arqui-inimigo do Capitão América, tendo sido responsável, na ponta final do conflito, pela presumível morte do herói e de Bucky Barnes, seu adjunto juvenil;
*Helmut J. Zemo: o 13º e atual Barão Zemo, filho de Heinrich. A sua dramática história é resumida no texto seguinte.

Helmut Zemo descende de uma longa linhagem varonil.

Origem

Único descendente conhecido de um aristocrata germânico que era também uma das mais prodigiosas mentes científicas ao serviço do 3º Reich, Helmut Zemo soube-se desde muito cedo predestinado à grandeza e à perversidade.
Nascido em meados da década de 1930 em Leipzig, no leste da Alemanha. Helmut passou parte da sua juventude em Berlim. Enquanto o pai, Heinrich Zemo, inventava armas de destruição em massa para os nazis, Helmut desenvolveu, durante esse período, uma paixão secreta por comics, filmes e outros produtos culturais norte-americanos.
Embora venerado pela família e pelos seus correligionários, Heinrich Zemo era profundamente odiado pelas potências aliadas. Sentimento que se estenderia ao seus próprios compatriotas após a vexatória derrota que lhe foi imposta pelo Capitão América e pelo Comando Selvagem*.
Temendo pela sua segurança e dos seus entes queridos, Heinrich, entretanto celebrizado como Barão Zemo, começou a usar um capuz que lhe cobria integralmente o rosto.
Pouco tempo depois de ter criado o famigerado Adesivo X (uma supercola impossível de remover por qualquer processo conhecido na época), o Barão Zemo enfrentou pela primeira vez o Capitão América, empenhado em impedir que a substância fosse usada contra as tropas aliadas.
Atingido pelo escudo do herói no calor da refrega, Zemo caiu dentro de uma vasilha contendo Adesivo X. Apesar de ter sobrevivido ao incidente, o vilão não mais conseguiria remover o capuz e a roupa que usava naquele dia. Consequentemente, passaria a ser alimentado por via intravenosa até ao fim da vida.

O Barão Zemo clássico
 foi uma criação de Stan Lee e Jack Kirby,
 cuja estreia ocorreu em The Avengers nº6 (1964).
Cada vez mais demencial, Heinrich fez da mulher e do filho os seus bodes expiatórios, molestando-os constantemente. Por contraste com a mãe - que ajudaria o Capitão América a travar um dos sórdidos planos do marido - Helmut manteve-se sempre leal ao pai. Lealdade que não seria de todo recompensada.
Procurado por crimes de guerra, em 1945 (pouco depois de ter, aparentemente, causado a morte do Capitão América e Bucky), o Barão Zemo fugiu da Alemanha e buscou refúgio nas profundezas da floresta amazónica. Deixando para trás o filho e a pátria reduzida a escombros fumegantes.
Na prolongada ausência paterna, Helmut, determinado em levar uma vida normal, viajou pelo mundo e formou-se em engenharia. Incapaz de escapar à sua herança familiar, o jovem Zemo seria, no entanto, convocado pelo pai ao seu reino amazónico. Onde testemunharia a forma brutal como o seu progenitor chacinou os indígenas sublevados e o ouviu gabar-se pela morte do Cidadão V, um agente especial britânico durante a 2ª Guerra Mundial.
Entretanto, o ressurgimento do Capitão América motivaria uma série de confrontos entre o Barão Zemo (agora coadjuvado pelos seus Mestres do Terror) e os Vingadores (liderados pelo Sentinela da Liberdade).
Após a morte acidental do pai durante um desses recontros, Helmut culpou o Capitão América pela destruição da sua família. Replicando alguns dos aparatos mais mortíferos do arsenal paterno, Helmut adotou a identidade de Fénix para se vingar do herói.
Horrivelmente desfigurado após mergulhar, tal como o pai, numa tina de Adesivo X, Helmut reapareceria pouco tempo depois como o novo Barão Zemo.
Sem que o seu ódio figadal pelo Capitão América desse sinais de apaziguamento, o vilão reuniu aquela que foi, até à data, a maior e mais poderosa formação dos Mestres do Terror.

O novo Barão Zemo
 exibe o símbolo do seu némesis.
Naquele que foi um dos pontos mais altos da sua carreira criminosa, o Barão Zemo e os seus apaniguados invadiram a Mansão dos Vingadores, de onde só a muito custo seriam desalojados pelos heróis.
A uma tentativa gorada de ressuscitar o seu pai com recurso às Pedras de Sangue, seguiu-se o enlace do Barão Zemo com a terrorista internacional conhecida como Baronesa. O casal acabaria, contudo, capturado pelo Capitão América depois de ter raptado várias crianças negligenciadas para formar uma família instantânea.
Quando, no final da épica batalha que os opôs à entidade conhecida como Devastador (Massacre, no Brasil), os Vingadores e o Quarteto Fantástico foram dados como mortos, Zemo, assim privado dos seus arqui-inimigos, interiorizou finalmente que o pai se tinha autodestruído.
Mudando o foco da vingança para a busca do poder, Zemo converteu o núcleo duro dos Mestres do Terror num coletivo heroico apresentado ao mundo como Thunderbolts. Num ato de mórbida ironia, Zemo escolheu para si o título de Cidadão V, o herói britânico assassinado pelo seu pai durante a 2ª Guerra Mundial.
Desmascarado o embuste dos Thunderbolts, o Barão Zemo retomou a sua carreira a solo. Atualmente, governa com mão de ferro Bagália, um pequeno Estado-pária de localização desconhecida que serve de santuário a delinquentes de todo o mundo.

*Howling Commandos, brigada especial de soldados aliados que, durante a 2ª Guerra Mundial, atuava atrás das linhas inimigas.

Zemo (disfarçado de Cidadão V) à frente dos Thunderbolts originais.

Quem são os Mestres do Terror?

Inimigos clássicos dos Vingadores, os Mestres do Terror (Masters of Evil, no original) são uma das mais antigas organizações criminosas do Universo Marvel. Criada por Stan Lee e Jack Kirby, a equipa fez a sua primeira aparição em The Avengers Vol.1 nº6, edição histórica datada de julho de 1964.
Sob o comando do penúltimo Barão Zemo, os Mestres do Terror agrupavam inicialmente Cavaleiro Negro, Derretedor e Homem-Radioativo. Cada um destes elementos fora criteriosamente selecionado por Zemo para antagonizar um Vingador específico. Assim, ao Cavaleiro Negro competiria neutralizar o casal Vespa e Gigante, o Derretedor teria como alvo o Homem de Ferro, e o Homem-Radioativo deveria medir forças com Thor. Zemo, por seu turno, tentaria ajustar velhas contas com o Capitão América. A este elenco primordial juntar-se-iam posteriormente alguns pesos-pesados. A saber: Encantor, Executor, Magnum e Destruidor.
Das diversas encarnações da equipa ao longo dos anos, a mais eficiente foi, sem sombra de dúvida, aquela que contava nas suas fileiras com Mr. Hyde, Blackout, Rocha Lunar, Armador, Jaqueta Amarela II, Tubarão-Tigre, Titânia, Homem Absorvente, Gangue da Demolição (Aríete, Destruidor, Massa e Bate-Estacas) e Golias. Agora liderados pelo filho do Barão Zemo, os Mestres do Terror fizeram jus ao título ao tomarem de assalto a Mansão dos Vingadores, fazendo reféns alguns dos seus membros. Cuja libertação só foi possível na sequência de uma feroz batalha que culminaria com a morte de Hércules.
Seria precisamente esta formação dos Mestres do Terror que, anos mais tarde, serviria de base aos Thunderbolts (vide texto seguinte).

O primeiro confronto entre os Vingadores e os Mestres do Terror
 em The Avengers nº6 (1964).


A formação dos Mestres do Terror que quase vergaram os Vingadores.

Thunderbolts: heróis ou vilões?

Aproveitando o vazio deixado pelo desaparecimento dos Vingadores e do Quarteto Fantástico no final da saga Onslaught (Devastação em Portugal; Massacre no Brasil), o Barão Zemo reciclou os seus Mestres do Terror num novo coletivo super-heróico a que deu o nome de Thunderbolts. Além do próprio Zemo (que atendia agora por Cidadão V), o elenco primitivo da equipa por ele convocada reunia Atlas, Meteorita, Soprano, MACH-1 e Tecno. Sob estas identidades falsas escondiam-se, respetivamente, os ex-criminosos Golias (em tempos conhecido também como Contrabandista), Besouro, Rocha Lunar, Colombina e Armador. A estes membros fundadores logo se juntou Choque, uma jovem heroína que ignorava os verdadeiros desígnios dos seus companheiros, e cujo idealismo os contagiou.
Depois de ter conquistado a confiança do público, Zemo empreendeu a sua campanha de dominação mundial. Seria, no entanto, detido pela ação conjunta dos Vingadores e do Quarteto Fantástico (entretanto regressados do degredo extradimensional), bem como pelos próprios Thunderbolts. Em busca de redenção para os seus pecados, os antigos subordinados de Zemo haviam encarnado de forma inesperada o papel de defensores dos fracos e oprimidos.
Zemo logrou escapar graças à ajuda de Tecno - o único membro do grupo que se lhe manteve leal - enquanto os demais Thunderbolts, cujas verdadeiras identidades haviam sido entretanto expostas, passaram a operar na clandestinidade, praticando o heroísmo a que tinham tomado o gosto.
Conceito desenvolvido por Mark Waid e Mark Bagley, os Thunderbolts fizeram a sua estreia em janeiro de 1997, nas páginas de The Incredible Hulk nº449, e mantêm-se no ativo até aos dias de hoje. Após sucessivas reconfigurações e lideranças, a sua formação mais recente, capitaneada pelo Soldado Invernal, é composta por Atlas, Armador, Rocha Lunar, MACH-X e Kobik.

Thunderbolts: Lobos em peles de cordeiros.

Trivialidades:

*Situada na ex-RDA, Leipzig, a cidade natal de Helmut Zemo, possui uma prestigiada Universidade onde, entre outros expoentes da elite dirigente teutónica, se diplomou Angela Merkel, atual chanceler federal da Alemanha;
*No jogo de vídeo Iron Man and X-0 Manowar in Heavy Metal (1996), o Barão Zemo surgia como uma das personagens jogáveis;
*Dois anos depois, em maio de 1998, Zemo e os seus Thunderbolts participaram em Star Trek: The Next Generation / X-Men: Second Contact, um crossover entre a tripulação da nave USS Enterprise e os pupilos do Professor Xavier.


Terão Merkel e Zemo estudado a mesma cartilha?

Noutros media: Antes do seu advento ao grande ecrã por via da sua participação em Captain America: Civil War (2016), o Barão Zemo (pai e filho) era já um habitué nas séries animadas da Marvel. Remontando a 1966 a sua estreia televisiva, no segmento reservado ao Sentinela da Liberdade em The Marvel Super Heroes. Essa foi, de resto, a única ocasião em que o Barão Zemo sénior não interagiu com o júnior. Em produções mais recentes, como Avengers: Ultron Revolution (em exibição desde 2013), os dois têm coabitado e, não raro, unido forças contra os Heróis Mais Poderosos da Terra.

O Barão Zemo tem sido presença assídua
em Avengers: Ultron Revolution.
Embora irreconhecível, o atual Barão Zemo, interpretado pelo ator hispano-germânico Daniel Bruhl, foi o vilão de serviço no terceiro capítulo da saga cinematográfica do Capitão América. À parte o nome e a sanha que nutre pelos Vingadores, pouco tem, de facto, em comum com a sua contraparte da banda desenhada. No filme,  Helmut Zemo é apresentado como um obstinado oficial do Exército de Sokóvia desejoso de vingança depois de ter perdido a sua família na batalha que arrasou a capital do seu país em Avengers: Age of Ultron (2015)

A versão cinematográfica de Zemo (rebaixado a plebeu)
deixou um travo amargo na boca dos Vingadores, mas também de muitos fãs.