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terça-feira, 10 de abril de 2018

ETERNOS: ROY THOMAS (1940 - ...)


Stan Lee confiou-lhe a chave da Casa das Ideias e ele, não mais despindo a pele de guardião do templo, salvou-a da ruína iminente. Da sua incansável pena saíram histórias e personagens emblemáticas, pelas quais nem sempre foi reconhecido. Fascinado pela mitologia da Idade do Ouro, na DC - onde deu os primeiros passos e que quis rebatizar - cumpriu o sonho de trabalhar com os seus ídolos de infância.

De seu nome completo Roy William Thomas, Jr., aquele que, aos ombros de um gigante da 9ª Arte, entraria para os anais da Marvel Comics como seu segundo editor-chefe veio ao mundo a 22 de novembro de 1940 em Jackson, pitoresca cidade impregnada do charme sulista do Missouri.
Leitor voraz de banda desenhada desde que aprendera a juntar as primeiras letras, era ainda pessoa de palmo e meio quando começou a produzir as suas próprias historietas aos quadradinhos. Entre esses projetos editoriais dos seus verdes anos, recorda com especial carinho All-Giant Comics, título totalmente da sua autoria que tinha Elephant Giant (Elefante Gigante) como cabeça de cartaz.
Coincidindo com a (re)fundação da Marvel Comics, em 1961 Roy Thomas diplomou-se em Ciências Educativas (com dupla especialização em História e Literatura Americana) através da Southeast Missouri University, instituição pública com extensos pergaminhos na área da formação pedagógica.
Nesses idos de 60 era ainda intenso o fulgor da Idade da Prata, período em que se assistiu ao recrudescimento do género super-heroico após o declínio registado no pós-guerra. Fiel à sua paixão de sempre, Roy Thomas, recém-chegado à idade adulta, era, por aqueles dias, um dos mais dinâmicos membros da comunidade de fãs. Que tinha em Jerry Bails o seu fundador e mais venerado guru.
Doutorado em Física, Bails foi pioneiro no estudo do impacto cultural dos super-heróis, tendo sido também o primeiro a reconhecer-lhes valor académico. Instado pelo à época editor-chefe da DC, Julius Schwartz, em 1961 o bom doutor lançaria  Alter Ego, um fanzine que, malgrado o seu grafismo tosco, depressa se converteria no evangelho dos seus cada vez mais numerosos apóstolos.

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O primeiro número de Alter Ego foi lançado em 1961.
Entre aqueles que, com fervor religioso, alimentavam essa borbulhante subcultura ia sobressaindo um jovem professor de Inglês do Missouri chamado Roy Thomas. Em comum, ele e Bails possuíam ainda um profundo fascínio pela Idade do Ouro, mormente pelo respetivo panteão heroico.
Por meio de doutas análises e dissertações, Roy Thomas colaborou em Alter Ego desde o primeiro número, tornando-se dessa forma o braço-direito de Jerry Bails. Isto ao mesmo tempo que via serem publicadas várias cartas da sua lavra nas secções de correspondência da Marvel e da DC, onde granjeara o estatuto de habitué. Afirmando-se, sem embargo, como uma das vozes mais respeitadas no fandom norte-americano.
Quando, em 1964, Jerry Bails abandonou o fanzine para se dedicar a outros projetos, foi com naturalidade que passou o testemunho a Roy Thomas. Facto que poderá por alguns ser percecionado como um curioso prenúncio do seu percurso ascendente na Casa das Ideias ao longo da segunda metade desse decénio.
A despeito da sua determinação em não deixar Alter Ego definhar, privando desse modo os fãs de uma inestimável fonte de informação numa época em que a Internet pertencia ao domínio da mais delirante ficção científica, em 1965 Roy Thomas recebeu uma proposta irrecusável. A convite de Mort Weisinger, o temperamental editor das séries periódicas do Superman, Thomas abalou para Nova Iorque, para trabalhar como seu assistente.
Segundo contaria o próprio Roy Thomas, em entrevista datada de 2005, o surpreendente convite de Weisinger (com quem trocara apenas uma ou duas cartas) surgiu poucos dias depois de lhe ter sido concedida uma bolsa académica para financiar os seus estudos em Relações Internacionais na George Washington University, na capital federal dos EUA.
A esta escolha não deverá, contudo, ter sido alheia a circunstância de, poucos meses antes, Roy Thomas ter assinado uma história de Jimmy Olsen. Tal como Lois Lane, o fotógrafo do Daily Planet amigo do Homem de Aço dispunha na altura de série mensal em nome próprio.

Cover
A história de Roy Thomas
 publicada neste número da Superman's Pal Jimmy Olsen
rendeu-lhe um convite para trabalhar na DC.
Radiante com o se lhe prefigurava um emprego de sonho, Roy Thomas não pensou duas vezes antes de aceitar o convite de Weisinger. Este não era, no entanto, conhecido pelo seu trato fácil e logo despontaram as primeiras fricções entre ambos.
Ao fim de um dia de trabalho particularmente tenso, Roy Thomas, prestes a desmoronar emocionalmente, sentiu uma premente necessidade de extravasar as suas frustrações. Ocorreu-lhe fazê-lo através da escrita. A partir do seu minúsculo quarto de hotel em Manhattan, redigiu uma carta endereçada a ninguém menos do que Stan Lee. Essas singelas linhas mudariam para sempre a sua vida.
Thomas era um profundo admirador do trabalho que Lee vinha desenvolvendo no posto de editor-chefe da Marvel, e disso mesmo lhe deu conta na missiva que lhe enviou. Na esperança de que o mestre-de-cerimónias da Casa das Ideias se lembrasse dele do tempo em que colaborara no fanzine Alter Ego, Thomas convidou o seu ilustre interlocutor para uma bebida e dois dedos de prosa.
Tratou-se, todavia, de um gesto de simples cortesia. Conforme Roy Thomas reiterou em diversas ocasiões, apesar da sua insatisfação laboral, não tinha em mente candidatar-se a um emprego na concorrente que mordia os calcanhares à companhia para a qual trabalhava na altura.
A resposta de Stan Lee surgiu logo no dia seguinte sob a forma de um telefonema. O Papa da Marvel lembrava-se bem de Roy Thomas e desafiou-o a realizar o teste de escrita a que a editora submetia os aspirantes a roteiristas.
Embora constrangido, Roy Thomas resolveu de todo o modo juntar o útil ao agradável. Com o referido teste a consistir, tão-somente, na inserção de diálogos em quatro páginas a preto e branco de Fantastic Four Annual nº2 desenhadas por Jack Kirby. Seria, de resto, uma das últimas vezes em que esse método de seleção de candidatos foi aplicado na Casa das Ideias.
No dia seguinte, quando trabalhava no seu cubículo no quartel-general da DC, Roy Thomas recebeu o telefonema de um funcionário da Marvel que lhe transmitiu o convite de Stan Lee para que almoçassem juntos naquele mesmo dia.
Durante o repasto partilhado num modesto restaurante na baixa de Manhattan, Stan Lee propôs a Thomas que trocasse a DC pela Marvel. Proposta que o segundo, embora aturdido, aceitou de bom grado.
Regressado à Editora das Lendas, Roy Thomas logo cuidou de informar Mort Weisinger da sua decisão de ir trabalhar em breve para a arquirrival. Com a rispidez que o caracterizava, Weisinger ordenou-lhe, porém, que limpasse de pronto a sua secretária.
Apenas oito dias após ter sido contratado pela DC - e menos de uma hora depois de ter aceitado o convite de Stan Lee -, Roy Thomas mudou-se de armas e bagagens para a Casa das Ideias. Onde tinha já à sua espera a sua primeira empreitada literária: uma história para Modeling With Millie (decana das séries humorísticas da Marvel) que, em virtude do prazo apertado, escreveu contrarrelógio. E pela qual, devido a um alegado lapso editorial, não chegaria a ser creditado.

Modeling with Millie #52
A primeira história de Roy Thomas para a Marvel
 foi publicada nesta série humorística.
Roy Thomas recorda assim esses seus frenéticos primeiros dias na Casa das Ideias: «A minha primeira categoria profissional na Marvel Comics foi "escritor de apoio". O meu trabalho consistia em datilografar manuscritos 40 horas por semana com o gerente de produção Sol Brodsky e a sua secretária. Toda a gente que aparecia no escritório passava por mim e os telefones não paravam de tocar. Como se isso não perturbasse suficientemente a minha concentração, Stan Lee, seguindo uma prática consagrada, verificava pessoalmente cada uma das histórias finalizadas, trocando impressões com Brodsky a pouco passos da minha secretária. Era também comum Stan pedir-me para fazer outras coisas, ou perguntar-me em que edição tivera lugar determinada história, dado o meu sólido conhecimento da continuidade da Marvel naquela altura. Depressa, porém, ficou claro para todos que aquilo não estava a funcionar e Stan promoveu-me a redator assistente.»
Naqueles dias de glória em que das suas paredes a imaginação escorria em cascata, a Casa das Ideias tinha em Stan Lee e no seu irmão, Larry Lieber, os seus principais escribas. Recolhendo, numa primeira fase, as sobras das tramas planeadas por Lee, Roy Thomas, para despeito de alguns escritores veteranos ao serviço da editora,  logrou tornar-se presença assídua.

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Da esq. para a dir.: Stan Lee, Jack Kirby e Larry Lieber,
os Três Mosqueteiros da Casa das Ideias.  

Roy Thomas seria o seu D'Artagnan. 

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Em janeiro de 1966, uma história do Homem de Ferro saída da pena de Roy Thomas foi publicada em Tales of Suspense nº73, marcando assim a sua estreia com aqueles que eram os maiores astros da companhia: os super-heróis.
Nesse mesmo mês, duas outras histórias da sua lavra foram também dadas à estampa pela Charlton Comics*, editora com a qual colaborara brevemente como autor freelancer. Apesar de não ter ficado particularmente impressionado com esses trabalhos de Thomas para a rival, em abril de 1966 Stan Lee confiou-lhe o seu primeiro título.
Durante exatamente um ano, Sgt. Fury and his Howling Commandos teve as suas histórias ambientadas na II Guerra Mundial escritas por Roy Thomas. Que, logo depois, assumiria Uncanny X-Men e The Avengers, duas das séries mais emblemáticas da Marvel.
A uma forte noção de continuidade, Roy Thomas aliava uma notável versatilidade narrativa que lhe permitia abordar com idêntico à-vontade histórias de caráter intimista ou epopeias cósmicas, como a guerra Kree-Skrull.
A este propósito declarou Thomas numa entrevista dada em 1981: «Uma das razões pelas quais Stan Lee apreciava o meu trabalho era porque sentia que podia confiar em mim ao ponto de não ter que ler nada do que eu escrevia. Quanto muito, leria uma ou duas páginas apenas para garantir que eu permanecia no caminho certo.»

Sgt Fury Vol 1 30


Avengers Vol 1 58

X-Men Vol 1 39
Três dos títulos Marvel em que Roy Thomas imprimiu o seu cunho.
Cada vez mais requisitado, em julho de 1968 Roy Thomas escapuliu-se durante alguns dias para casar com Jean Maxey, a sua primeira mulher. Mas nem durante a lua-de-mel do casal Thomas deu descanso à pena. Durante as suas férias caribenhas escreveu o casamento de Hank Pym e Janet Van Dyne ( o Homem-Formiga e a Vespa), aquele que se tornaria um dos capítulos mais memoráveis da história dos Vingadores.
O ano de 1969 teve um travo agridoce para Roy Thomas. Investido da espinhosa missão de contrariar a morte anunciada de Uncanny X-Men - título que se havia transformado num cemitério de roteiristas - Roy Thomas mais não conseguiu do que adiar o inevitável. Meses depois seria, porém, agraciado com o primeiro prémio de relevo da sua carreira pejada deles: o Alley Award para melhor escritor.
No que alguns consideram ter sido uma jogada de alto risco, em 1970 Roy Thomas introduziu o género Espada e Feitiçaria no Universo Marvel. Fê-lo através de Conan the Barbarian, título baseado na personagem homónima idealizada por Robert E. Howard em 1932, e que fora um dos maiores expoentes da literatura pulp.
Combinando o texto ágil de Thomas com as belíssimas ilustrações de Barry Windsor-Smith, a série do errático gigante cimério redundou num estrepitoso sucesso, abrindo caminho para a sua transposição ao cinema. A meias com Gerry Conway**, em 1984 Roy Thomas assinou o enredo de Conan the Destroyer, sequela de Conan the Barbarian. Filme que, recorde-se, um par de anos antes, apresentara ao mundo o ex-Mister Olímpia Arnold Schwarzenegger.

Conan the Barbarian 1


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Primeiro na BD e depois no cinema,
Conan foi um sucesso com o dedo de Roy Thomas.
Mesmo depois de, em 1972, Stan Lee lhe ter confiado as chaves do reino dourado, Roy Thomas, assim alcandorado a editor-chefe da Marvel, continuou a produzir histórias a uma cadência estonteante. Dedicando-se de alma e coração à sua nova missão, lançaria também séries inéditas que se revelariam apostas ganhas. Casos, por exemplo, de The Defenders e What If?, esta última introduzindo o conceito de realidades alternativas.
Ao mesmo tempo que, animado pelo seu imorredouro fascínio pela Idade do Ouro, criava os Invasores (coletivo que agrupava alguns dos ícones dessa era, como Capitão América e o Príncipe Submarino), a sua prodigiosa imaginação gerou uma nova safra de personagens icónicas. Punho de Ferro, Motoqueiro Fantasma e Miss Marvel seriam adições de peso ao panteão da Casa das Ideias.
Ainda hoje um acérrimo defensor dos direitos autorais, Roy Thomas teve um amargo de boca ao não ser creditado como cocriador de Wolverine. Nome que, na sua qualidade de editor-chefe, havia sugerido a Len Wein e John Romita, em alternativa a The Badger. Curiosamente, anos depois, seria essa a alcunha dada por Mike Baron ao seu anti-herói celebrizado pela First Comics***.
Levando em conta esses e outros precedentes, Roy Thomas preferiu amiúde a reciclagem de conceitos preexistentes à criação de personagens inéditas. Entre os que por ele foram resgatados das brumas da memória destacam-se Adam Warlock, Visão e Cavaleiro Negro, cujas versões modernas se tornaram casos sérios de popularidade.

Foto de Ricardo Cardoso.


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Miss Marvel, Punho de Ferro e Motoqueiro Fantasma:
três criações icónicas de Roy Thomas para a Casa das Ideias.
Apesar de ter abandonado as funções de editor-chefe da Marvel em 1974, Roy Thomas não mais despiu a pele de guardião do templo. Tendo a sua intervenção sido providencial para, volvidos três anos, salvar a editora da bancarrota iminente.
Graças à sua perseverança e capacidade negocial, a adaptação oficial do primeiro filme da saga Star Wars foi lançada sob a chancela da Marvel. Projeto que antecedeu uma lucrativa série mensal baseada no universo imaginado por George Lucas, e cujas histórias ficaram inicialmente a cargo do próprio Roy Thomas.

Marvel Special Edition Featuring Star Wars Vol 1 1
A adaptação aos quadradinhos de Star Wars
 foi o deus ex machina da crise financeira que afetava a Marvel.
Após um longo braço-de-ferro com Jim Shooter (o novo editor-chefe da Marvel), motivado por disputas criativas, em 1981 Roy Thomas assinou um contrato de exclusividade com a DC válido por três anos. Nesse mesmo ano casou, em segundas núpcias, com Danette Couto, que se tornaria sua parceira criativa nessa nova fase seminal da sua carreira. Pela mão do marido, Danette (celebrizada como Dan Thomas) seria, aliás, a primeira mulher a escrever as histórias da Princesa Amazona.
Numa altura em que a Editora das Lendas fora já destronada pela Marvel na preferência dos leitores, Roy Thomas conseguiu dar novo impulso a vários dos seus títulos de charneira. Graças ao seu toque de Midas, Wonder Woman, DC Comics Presents e Legion of the Super-Heroes recuperaram a vitalidade de outrora.
Embalado por estes sucessos - e tendo em mente projetar uma imagem de maior dinamismo -, Roy Thomas propôs rebatizar a DC. Iniciais que, no seu entendimento, deveriam doravante corresponder a Dynamic Comics.
Apesar desta sua ideia ter sido liminarmente rejeitada pela direção da empresa, Roy Thomas cumpriria entretanto um sonho de infância: escrever as histórias da Sociedade da Justiça da América.  Grupo que reunia alguns dos maiores heróis da Idade do Ouro e que, graças à sua mestria e dedicação, foi devolvido à ribalta nas páginas de All-Star Squadron.
Já com mais de uma dúzia de comendas a adornar-lhe o currículo, em 1985 Roy Thomas foi uma das 50 personalidades homenageadas pela DC, no âmbito das comemorações do 50º aniversário da editora. Outras honrarias se seguiriam, invariavelmente recebidas com a humildade que sempre caracterizou aquele que é, sombra de dúvidas, um dos maiores vultos da 9ª Arte.

Sociedade da Justiça da América em All-Star Squadron:
o regresso de um clássico com a assinatura de Roy Thomas.
 A partir da década seguinte, começaram no entanto a rarear as colaborações de Roy Thomas com as grandes editoras, preteridas em relação às companhias independentes. 
Numa espécie de regresso às origens, em 1999 relançou Alter Ego, agora como uma revista formal editada pela TwoMorrows Publishing.A residir desde 2006 na Carolina do Sul, em anos mais recentes Roy Thomas tem-se desdobrado entre a atividade literária e as suas funções de dirigente da Hero Initiative. Organização solidária sem fins lucrativos que presta assistência aos deserdados da indústria dos quadradinhos. Pelo meio, em 2014, escreveu 75 Years of Marvel: From  the Golden Agen to the Silver Screen, um imponente volume de 700 páginas que compila a história da Casa das Ideias desde a sua fundação até à atualidade.
Ontem como hoje, Roy Thomas possui o condão de ser o homem certo no lugar certo e no tempo certo. Ter crescido à sombra de titãs da  9ª Arte, serviu apenas para o transformar num deles.

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A rediviva Alter Ego.

Roy Thomas com Stan Lee na apresentação de
 75 Years of Marvel: from the Golden Age to the Silver Screen.
Uma obra para a eternidade.


*http://bdmarveldc.blogspot.pt/2018/03/fabricas-de-mitos-charlton-comics.html
**http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/03/eternos-gerry-conway-1952.html
***http://bdmarveldc.blogspot.pt/2017/03/fabrica-de-mitos-first-comics.html



















































sábado, 3 de março de 2018

FÁBRICAS DE MITOS: CHARLTON COMICS


 Fundada atrás das grades, foi uma incubadora de talentos ímpar na sua autossuficiência. Alcançou glória efémera na Idade da Prata graças ao seus "heróis de ação"que inspirariam os Watchmen, de Alan Moore.

Reis da Sucata

Menos glamorosa e com contornos mais invulgares do que as de outras editoras surgidas em plena Idade do Ouro, a história da Charlton Comics começou a escrever-se em 1923. Nesse ano, seguindo as pisadas de tantos outros dos seus conterrâneos, um jovem italiano chamado John Santangelo cruzou o Atlântico à conquista do Sonho Americano.
Desembarcado em Nova Iorque com a sua mala de cartão, Santangelo começou por garantir o sustento a trabalhar como pedreiro antes de se estabelecer como empresário da construção. Estávamos em 1931 e, por esses dias, o rádio era ainda uma vibrante novidade. Mercê desse facto, em muitos lares continuava a ouvir-se música através de gira-discos, grafonolas e outros aparelhos similares. Cuja deficiente acústica nem sempre permitia aos ouvintes acompanharem as letras das suas melodias favoritas.

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Apesar do apregoado
 em anúncios publicitários como este,
 o som das grafonolas e afins 

deixava muito a desejar.
Ocorreu então ao ladino Santangelo, dono de um apurado faro para o negócio, que não faltariam porventura interessados em comprar as letras impressas das canções mais populares. E, se bem o pensou, melhor o fez: pouco tempo depois do seu momento eureca, Santangelo arrecadava já bom dinheiro com a venda de brochuras contendo esse tipo de material.
Havia apenas um pequeno senão: Santangelo não pagava direitos de autor pelas letras que disponibilizava ao público. Processado pela Sociedade Americana de Compositores, Autores e Produtores, de nada lhe valeram em tribunal as suas alegações de que ignorava em absoluto ter cometido uma infração.
Apesar dessas proclamações de inocência, em 1934 Santangelo seria mesmo sentenciado a um ano de prisão efetiva. Pena que cumpriria integralmente na Penitenciária Estadual de New Haven, no estado vizinho do Connecticut; não muito longe de Derby, a pequena cidade para onde ele e a sua cara-metade se haviam mudado tempos atrás, e que viria a acolher a sede da Charlton Publications.
Durante essa sua curta estadia atrás das grades, Santangelo travou amizade com Edward Levy, um ex-advogado a cumprir pena ligeira por crimes de colarinho branco, e que sabia reconhecer uma boa ideia quando lha apresentavam.
Visto que ambos seriam em breve restituídos à liberdade, Santangelo e Levy tornaram-se sócios no que viria a ser um negócio legal de divulgação de letras de canções e das novas tendências musicais. Ambos tinham filhos chamados Charles e, por isso, concordaram em batizar a futura editora de T.W.O. Charles Company.
Numa opção estratégica que se revelaria decisiva para o êxito do empreendimento, Santangelo e Levy adquiriram uma gráfica industrial e uma robusta frota de camiões. A primeira asseguraria a impressão das publicações, a segunda a sua distribuição um pouco por todo o país. Fazendo assim da T.W.O. Charles Company um caso único de autossuficiência no panorama editorial norte-americano.
Da edição à distribuição passando pela impressão, a empresa controlava toda a cadeia de produção a partir do seu quartel-general em Derby. Se por um lado isso lhe conferia uma importante vantagem sobre a concorrência, por outro encorajava uma menor exigência no que à qualidade do material produzido dizia respeito, já que a T.W.O. Charles Company não tinha de prestar contas a quem quer que fosse.

Panorâmica aérea da antiga sede da Charlton Publications, em Derby.
Demolida em 1999, no seu lugar existe hoje um centro comercial.
Quando tudo ficou finalmente a postos, no início de 1942 a T.W.O. Charles Company lançou Hit Pareder, um dos primeiros e mais duradouros magazines musicais publicado ininterruptamente ao longo de meio século. Embora especializada nesse tipo de material, o catálogo da nova editora incluía originalmente livros e revistas de palavras cruzadas.

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Fenómeno de longevidade, o magazine musical Hit Parader
 seria publicado pela Charlton até 1991.
Renomeada Charlton Publications em 1945, no ano seguinte a editora decidiu lançar a sua própria linha de histórias aos quadradinhos. Contrariamente a outras fábricas de mitos que continuavam a laborar a toda a brida, fê-lo no entanto com o exclusivo propósito de manter as suas gigantescas rotativas a funcionarem em contínuo, dado que qualquer pausa acarretaria custos proibitivos.
Assim nasceu a Charlton Comics, com a mediocridade inscrita no seu código genético. Salvo por uma outra pequena pepita, ao longo da sua história notabilizar-se-ia por vender pechisbeque e outras bugigangas de reduzido valor. Dito de outro modo, a Charlton Comics nunca foi uma editora de topo porque nunca aspirou a tal.
Preferindo seguir tendências a criá-las, a Charlton Comics navegou sempre ao sabor das caprichosas correntes do mercado: quando, na viragem da década de 50, os contos de terror estiveram na berlinda, a editora prosperou por conta deles; quando, a meio da década seguinte, as histórias de guerra perderam o seu apelo devido à impopularidade do conflito no Vietname, as suas vendas ressentiram-se.
Há, ainda assim, que lhe reconhecer o mérito de, por contraponto a muitas das suas concorrentes, ter conseguido manter-se à tona entre as cíclicas borrascas que fustigaram a indústria dos comics. Chegando mesmo a crescer em contraciclo. Quando, no final da II Guerra Mundial, as histórias aos quadradinhos entraram em declínio levando à falência de muitas editoras, a Charlton, escorada na sua autossuficiência e no ecletismo das suas publicações, não só resistiu à crise como aumentou a sua lucratividade.
Importa por outro lado ressalvar que, apesar do ecletismo do catálogo da Charlton Comics (no qual cabia uma impressionante variedade de géneros abrangendo desde romance adolescente a façanhas do Velho Oeste passando pela ficção científica), os super-heróis estiveram durante muito tempo subrepresentados nele. Sobrevindo este facto de a editora os ter encarado sempre como um subproduto, logo ainda mais descartável do que os restantes.


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Quatro dos títulos mais emblemáticos
 da Charlton Publications.
Apesar desse seu diminuto apreço pelo género super-heroico, a Charlton já antes se aventurara na publicação de material dessa natureza. Em setembro de 1944, tinha chegado às bancas Yellowjacket, uma antologia de historietas de terror e de super-heróis com o selo da Frank Comunale Publishing Company.
Era comum nos primórdios da indústria dos quadradinhos as editoras mudarem frequentemente de nome, por forma a contornarem o racionamento de papel imposto pelo esforço de guerra e/ou para ludibriarem o Fisco. Escusado será dizer que a Charlton Comics não fugiu à regra tendo criado, além da já mencionada Frank Comunale Publishing Company, várias outras subsidiárias. Casos da Children Comics Publishing (vocacionada para o público infantil, publicou Zoo Funnies, um dos títulos de charneira da editora), da Charles Company Publishing ou ainda da Frank Publications.

Yellowjacket nº1 (1944) incluía as primeiras histórias
 de super-heróis publicadas pela Charlton.
Mantendo-se fiel ao seu perfil low cost - e sempre sob a liderança bicéfala de Levy (diretor executivo) e Santangelo (diretor financeiro) - ao longo dos anos seguintes a Charlton Comics compraria ao desbarato personagens detidas por editoras moribundas ou a braços com graves problemas de tesouraria. Entre as vítimas da sua necrofagia contam-se a Superior Comics e a Mainline Publications (fundada em tempos por Joe Simon e Jack Kirby, criadores do Capitão América), tendo ainda reclamado para si parte dos despojos mortais da Fawcett Comics*. A sua aquisição de maior monta seria, contudo, o Besouro Azul, antigo porta-estandarte do Fox Features Syndicate.
Outra das práticas pelas quais a Charlton Comics se tornou tristemente notória foi a dos baixos salários pagos aos seus colaboradores. O que não a impediu de conseguir arregimentar, na primeira metade da década de 50,  talentosos artistas e escritores aliciados pelo maior controlo criativo que a editora lhes proporcionava. Entre eles pontificavam algumas futuras lendas da Nona Arte, como Steve Ditko (cocriador do Homem-Aranha). Joe Gill (escriba prolífico) e Dick Giordano (ilustrador virtuoso e futuro editor-chefe da DC Comics). Vindo este último, como mais adiante se perceberá, a ficar inextricavelmente ligado ao curto apogeu da Charlton Comics.
Sinalizando o despontar do que se convencionou designar como a Idade de Prata da banda desenhada, em 1956 a DC Comics reformulou alguns dos seus ícones clássicos, como o Flash e o Lanterna Verde. Influenciada pelo renovado vigor assim infundido ao género super-heroico, logo em 1960 (antecipando-se à revolução trazida pela Marvel Comics a partir do ano imediato) a Charlton criou de raiz o seu primeiro super-herói: o Capitão Átomo.

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O visual original do Capitão Átomo.
Já com Dick Giordano a ocupar o posto de seu editor-chefe, entre 1965 e 1968 a Charlton Comics viveu aquele que a generalidade dos fãs e dos historiadores da Nona Arte consideram ter sido o ponto mais alto da sua carreira. Muito por conta, note-se, dos seus "heróis de ação" (action heroes, no original), designação atribuída por Giordano à nova safra de justiceiros fantasiados da editora. Além do Capitão Átomo e de uma versão recauchetada do Besouro Azul, dele faziam parte também Pacificador, Questão, Thunderbolt e Mestre Judoca, citando apenas os mais populares.
Reflexo dessa inédita aposta num género que até então sempre menosprezara, a Charlton Comics adquiriu, em paralelo, os direitos de licenciamento de Flash Gordon e do Fantasma ao King Features Syndicate. Duas personagens consagradas que, naquela época, eram sinónimo de boas vendas.
Pela mão de Dick Giordano, chegaram ainda à Charlton Comics Jim Aparo**, Dennis O'Neill (que escrevia sob o pseudónimo Sergius O’Shaughnessy) e todo um contingente de novos talentos dos quadradinhos que tiveram na editora a rampa de lançamento para as suas meteóricas carreiras. Transformada num alfobre de estrelas em ascensão, por lá passariam anos mais tarde os "galácticos" John Byrne e Jim Starlin.

Dick Giordano (1932-2010) capitaneou
 uma revolução de veludo na Charlton Comics.
Qual fogo-fátuo, o sucesso dos "heróis de ação" da Charlton Comics esfumou-se num abrir e fechar de olhos. Antes ainda da saída de Giordano para a DC no ano seguinte, em 1967 viram os seus títulos mensais serem cancelados sem apelo nem agravo. Chegava assim ao fim o curto estado de graça de uma editora que nunca foi provida dela.
Naquele que seria o seu derradeiro esforço para reviver o seu panteão super-heroico, em 1973 a Charlton Comics lançou E-Man, cujo tom humorístico das histórias captou inicialmente a atenção dos fãs. No entanto, o seu débil desempenho comercial ditaria o cancelamento da sua série ao fim de uma dezena de números publicados.
Em consequência desse revés, ao longo do resto da década de 1970 a Charlton Comics limitou-se a publicar histórias de terror (das quais os leitores pareciam não se cansar) e a reeditar material antigo do seu inventário. Especializou-se igualmente nas adaptações de séries televisivas que por aqueles dias faziam furor. Casos, por exemplo, de Bionic Woman e The Six Million Dollar Man. Prodigalizando sempre a costumeira mediocridade que, à parte o pequeno parêntesis acima descrito, foi sempre a imagem de marca da editora.

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Da TV para a BD. 
Quando se adivinhava já o seu canto do cisne, em 1983 a Charlton Comics aceitou vender à DC, por uns módicos 30 mil dólares acrescidos de royalties, os seus "heróis de ação" que vinham acumulando poeira numa qualquer gaveta. Segundo consta, ter-se-á tratado de um presente oferecido pelo então Vice-Presidente Executivo da DC, Paul Levitz, a Dick Giordano em reconhecimento pelo excelente trabalho que ele vinha desenvolvendo na Editora das Lendas.
Certamente mais do que uma infeliz coincidência, o cerrar definitivo de portas da Charlton ocorreria pouco tempo depois, em 1985. No ano seguinte,  Alan Moore expressou o seu desejo de usar os antigos "heróis de ação" da Charlton em Watchmen, aquela que seria a magnum opus do controverso escritor britânico, e uma das sagas mais memoráveis da história da Nona Arte. Intenção que esbarrou contudo na renitência dos mandachuvas da DC em alienarem a título definitivo ativos recém-adquiridos, e aos quais reconheciam potencialidades. 
Assim, não restou a Moore outro remédio senão criar pastiches descartáveis para a sua história. O Capitão Átomo transformou-se no Doutor Manhattan, o Besouro Azul no Coruja e por aí afora.

Duas faces da mesma moeda:
 os "heróis de ação" da Charlton e os Watchmen, de Alan Moore.
Quanto aos verdadeiros "heróis de ação" da Charlton, tiveram sortes diferentes. Ao passo que Capitão Átomo, Besouro Azul e Questão obtiveram lugar de destaque na mitologia da DC, de Mestre Judoca ou Pacificador restam apenas ténues reminiscências (vide texto seguinte).
Numa deliciosa ironia, seriam pois os mesmos super-heróis de que a Charlton Comics tanto desdenhou a salvá-la do ostracismo a que parecia irremediavelmente condenada.
Epitáfio inglório para uma editora cuja história é um compêndio de oportunidades desperdiçadas, mas cuja "mística" sobrevive ainda na memória afetiva de muitos fãs. E também de antigos colaboradores. Como Dick Giordano que, certa vez, resumiu de forma lapidar o legado da Charlton Comics: "Se assim o tivesse desejado, a Charlton poderia ter ombreado com a DC. Poderia ter produzido material de melhor qualidade por metade do preço. Poderia ter virado o jogo a seu favor e revolucionado a indústria dos quadradinhos. Mas os seus donos preferiram ser os reis da sucata."

*http://bdmarveldc.blogspot.pt/2017/09/fabrica-de-mitos-fawcett-comics.html
**http://bdmarveldc.blogspot.pt/2015/10/eternos-jim-aparo-1932-2005.html

Heróis de Ação

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Falar em panteão super-heroico da Charlton Comics poderá soar um tudo-nada exagerado. Quanto muito,  a editora dispôs brevemente de um lote de justiceiros fantasiados que, se não tivessem sido adquiridos pela DC, estariam muito provavelmente fadados ao oblívio. Sorte a que nem todos lograram, ainda assim, escapar.
Foi, no entanto, por intermédio dos seus "heróis de ação" que a Charlton conseguiu ser mais do que uma mera nota de rodapé na história da Nona Arte. Sendo por isso da mais elementar justiça corrigir alguns equívocos no que à propriedade original dessas personagens concerne. Isto porque, sendo verdade que nem todos correspondem a conceitos originais da editora, também não é menos verdade que alguns continuam a ser erroneamente creditados à DC, como se sempre tivessem sido sua pertença.
Importa por isso dar a conhecer um pouco melhor alguns dos lendários "heróis de ação" da Charlton Comics, mormente aqueles que serviram de modelo aos Watchmen, de Alan Moore.

Besouro Azul (Blue Beetle): Sem dúvida o mais acarinhado dos "heróis de ação" da Charlton, pertenceu originalmente à Fox Comics. Apesar da assinalável popularidade de que gozou durante a Idade do Ouro, não conseguiu reeditá-la sob o selo da nova editora. Joe Jill e Steve Ditko foram por isso incumbidos de desenvolver uma sua nova versão que debutou em Captain Atom nº83 (novembro de 1966). A nova velha personagem depressa conquistaria a simpatia dos fãs. Em Watchmen (saga e filmes já aqui esmiuçados) teve como contraparte o Coruja. Prontuário detalhado em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2015/09/herois-em-acao-besouro-azul.html ;

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Ted Kord,
o segundo Besouro Azul.

Capitão Átomo: O primeiro super-herói original da Charlton Comics e um dos poucos com superpoderes. Também ele saído da imaginação da dupla Joe Gill/Steve Ditko, na sua estreia em Space Adventures nº33 (março de 1960) surgia com um uniforme azul na capa e um dourado no interior da revista. Um erro de impressão que atesta bem o descaso com que este ramo da Charlton Publications tratava os seus produtos. Na DC, o Capitão Átomo teve a sua identidade civil e visual alterados.  Foi nele que Moore se inspirou para criar o Doutor Manhattan. Podem saber mais sobre este herói em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2013/05/herois-em-acao-capitao-atomo.html ;

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Os três uniformes do Capitão Átomo na Charlton.

Mestre Judoca (Judo Master): Mestre das artes marciais e ex-veterano da II Guerra Mundial, foi uma criação de Joe Jill e Frank McLaughlin. Estreou-se em Special War Series nº4 (novembro de 1965), ganhando pouco tempo depois um parceiro juvenil chamado Tigre. Após diversas modificações impostas pela DC, na sua versão mais recente é uma mulher chamada Sonia Sato;

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Lutador invencível.

Pacificador (Peacemaker): Dividia o seu tempo entre o trabalho diplomático como emissário dos EUA na Conferência de Genebra e o combate ao crime como um implacável vigilante urbano. Conceito desenvolvido por Joe Jill e Pat Boyette, fez a sua primeira aparição em Fightin'5 nº40 (novembro de 1966) antes de ganhar um título próprio que duraria apenas 5 números. Serviu de modelo ao cínico Comediante dos Watchmen;

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Paz armada.

Questão (Question): Mesmo sem nunca ter tido direito a uma série em nome próprio, esta criação de Steve Ditko (vista pela primeira vez em junho de 1967, nas páginas de Blue Beetle nº1) foi um dos mais bem-sucedidos "heróis de ação" da Charlton. Popularidade reforçada aquando da sua passagem para a DC, onde ganhou finalmente um título só para si. Teve o seu figurino e modus operandi replicados por Rorschach;

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Justiça sem rosto.

Sombra da Noite (Nightshade): Único elemento feminino do contingente original de "heróis de ação", conseguiu na DC (onde começou por ser integrada no Esquadrão Suicida) a notoriedade que lhe faltou na Charlton. Criação de David Kaler e Steve Ditko, esta teleportadora capaz de gerar sombras vivas estreou-se em Captain Atom nº82 (setembro de 1966). Foi uma das três heroínas clássicas que estiveram na origem da Espectral dos Watchmen (as outras duas foram Lady Fantasma e Canário Negro);

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Sombra viva.

Thunderbolt: Após atingir o ápice físico e mental, este órfão americano criado por monges tibetanos enveredou por uma carreira como combatente do crime. Tendo feito a sua primeira aparição em Peter Cannon, Thunderbolt nº1 (agosto de 1966), os créditos da sua criação pertencem a Peter Morisi. Ozymandias foi diretamente baseado nele, porém nunca conseguiu vingar na DC. É atualmente propriedade da Dynamite Entertainment;

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Ás de ação.

E-Man: Uma entidade alienígena composta por pura energia que podia assumir forma humana. Criado por Nicola Cuti e Joe Staton foi introduzido em E-Man nº1 (outubro de 1973). O registo humorístico das suas aventuras contribuiu em larga medida para o seu efémero sucesso. Apesar de não ser sido incluído no lote de personagens vendidas à DC, a First Comics tentaria revivê-lo nos anos 80;

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A ciência do humor.

Filho de Vulcano (Son of Vulcan): A resposta da Charlton Comics ao Poderoso Thor, da Marvel. Sempre que gritava "Vulcano, ajuda-me!", o repórter de guerra Johnny Mann transformava-se no formidável campeão dos Deuses Romanos. Estreou-se em Mysteries of Unexplored Worlds nº46 (maio de 1965) e teve em Pat Masulli e Bill Fraccio os seus autores. Adquirido pela DC, esteve em grande plano na saga Guerra dos Deuses (War of the Gods, 1991) antes de passar o manto a um Vulcano adolescente.

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Gladiador dos tempos modernos.

Um grande bem-haja ao meu bom e talentoso amigo Emerson Andrade. É da sua autoria a magnífica montagem que abre este artigo. 




















































quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

HERÓIS EM AÇÃO: O SOMBRA



  Por mais opaco que seja o coração humano, o Sombra sabe sempre o mal que nele se acoita e que o crime não compensa.
  O que começou por ser apenas uma misteriosa voz radiofónica evoluiu para um dos maiores expoentes da literatura pulp que influenciaria sobremaneira o arquétipo super-heroico, em especial um certo Cavaleiro das Trevas.

Denominação original: The Shadow 
Licenciadoras: Street & Smith (1930-1949), Archie Comics (1964-65), DC Comics (1973-1992), Dark Horse Comics (1993-95) e Dynamite Entertainment (desde 2011)
Criador: Walter B. Gibson 
Estreia radiofónica: Detective Story Hour  (julho de 1930)
Estreia literária: The Living Shadow (abril de 1931)
Estreia na BD: Shadow Comics nº1 (março de 1940)
Identidade civil: Kent Allard (literatura e BD) e Lamont Cranston (rádio e cinema)
Local de nascimento: Nova Iorque
Parentes conhecidos: Nenhum
Ocupação: Ex-espião, ex-piloto-aviador, playboy e vigilante urbano
Base operacional: Nova Iorque
Afiliações: Agentes do Sombra
Armas, poderes e habilidades: Graças ao perfeito controlo que possui sobre as suas cordas vocais, o Sombra consegue projetar a sua voz sob a forma de uma tenebrosa risada suscetível de paralisar de medo os seus oponentes. Esse talento permite-lhe, de igual modo, mimetizar vozes alheias com elevado grau de precisão.
Mestre do disfarce e da espionagem, o Sombra é dotado de uma inteligência superior à média, bem como de uma memória fotográfica. Consistindo, no entanto, a sua habilidade mais impressionante em agir de modo furtivo sem ser detetado à vista desarmada, como se de um fantasma ou de uma sombra viva se tratasse.
Por conta dessa sua extraordinária proficiência em técnicas de camuflagem - e da proverbial superstição dos malfeitores - ao longo dos anos têm sido alimentados rumores de que o Sombra deteria o poder de "nublar" as mentes humanas.
Ainda que não se trate verdadeiramente de um talento sobrenatural, existe, porém, um fundo de verdade nesses rumores.
Durante o período em que, nos alvores do século XX, Kent Allard foi um agente secreto ao serviço de Nicolau II, recebeu das mãos do último Czar da Rússia o misterioso Girassol, um rutilante rubi com poderes hipnóticos que, incrustado num anel, o Sombra usa para alterar a perceção dos seus adversários. Assim se explicando, por exemplo, que mesmo aqueles que tiveram um vislumbre da verdadeira face do herói tenham sido incapazes de memorizá-la. Ou que, não raro, os delinquentes se sintam estranhamente compelidos a revelar-lhe os seus segredos mais inconfessos.

O Sombra usa o Girassol para hipnotizar os seus oponentes.
Em meados dos anos 1920, a prolongada estadia de Kent Allard na cidade secreta de Shambalah (localizada algures no Extremo Oriente) permitiu-lhe, por outro lado, aprender diversas disciplinas orientais e artes marciais. Além dos riquíssimos ensinamentos filosóficos e espirituais que lhe foram transmitidos pelos gurus ancestrais de Shambalah, Allard adquiriu também um domínio absoluto sobre as funções vitais do seu organismo. Técnicas graças às quais consegue, aparentemente, retardar o processo natural de envelhecimento e incrementar a sua longevidade.
Note-se que, por contraponto a outras personagens suas contemporâneas, como o Fantasma ou o Batman, o Sombra não teve o cenário das suas aventuras atualizado. Apesar de as suas histórias continuarem a ser ambientadas nos anos 30 e 40 do último século, o herói foi, no entanto, pontualmente transportado para os tempos modernos.
Aconteceu, por exemplo, no seu encontro com Ghost, durante o período em que ambos eram publicados sob a égide da Dark Horse Comics (ver Justiça aos quadradinhos). Apesar da história se desenrolar na década de 1990, o Sombra conservava a mesma aparência de sempre, como se não tivesse envelhecido um só dia.
Nas suas primeiras histórias, além de pequenos tubos de ácido e de pólvora, a parafernália do Sombra incluía ventosas que ele usava nas mãos e nos joelhos para escalar paredes e fachadas de prédios. Numa referência ao seu passado como piloto-aviador durante a I Guerra Mundial(ver Origem), também era frequente ele cruzar os céus noturnos de Nova Iorque aos comandos do seu "autogyro", espécie de protótipo arcaico do helicóptero.
Atirador exímio, o Sombra é inseparável da sua parelha de pistolas semiautomáticas, tendo na Colt M1911 e na LAR Grizzly (ambas de calibre .45 e fabrico norte-americano) os seus modelos favoritos. Liberto das restrições morais que caracterizam a generalidade dos super-heróis modernos, o Sombra não tem pejo em executar sumariamente os seus oponentes sempre que as circunstâncias assim o justificam.
O mais valioso recurso do Sombra é, no entanto, a sua vasta rede de agentes infiltrados no submundo nova-iorquino (ver Agentes do Sombra) que lhe providenciam informação privilegiada sobre as operações do crime organizado. Estes seus escudeiros que, com maior ou menor grau de devoção, o coadjuvam na sua implacável cruzada contra o crime são a verdadeira razão que leva o Sombra a conhecer como ninguém o mal que se esconde nos corações dos homens - e que, como mais adiante se perceberá, ele também possui.

Justiça a ferro e fogo.

Conceção e caracterização

Lançado em outubro de 1915, o Detective Story Magazine foi uma das primeira publicações periódicas da chamada literatura pulp (palavra inglesa para papel de celulose) dedicada exclusivamente à ficção policial. Ao longo dos anos seguintes, o seu enorme sucesso junto do público fez deste o título de charneira da Street & Smith, a autoproclamada maior e mais antiga editora desse tipo de material em terras do Tio Sam.
Visando contrariar o progressivo declínio das vendas do seu magazine de referência, em 1930 a Street & Smith decidiu transformar as suas histórias detetivescas num folhetim radiofónico. Tendo, para esse efeito, contratado, em meados desse mesmo ano, uma parelha de criativos - William Sweets e David Chrisman - da agência publicitária Ruthrauff & Ryan.
Após estudarem o projeto, Sweets e Chrisman propuseram que, por forma a aumentar o suspense entre os ouvintes, o futuro programa de rádio fosse narrado por uma misteriosa figura com voz sinistra.
Aprovada a ideia, houve que encontrar um nome adequado para a personagem. Entre as várias sugestões aventadas, O Detetive e O Inspetor (The Sleuth e The Inspector, no original) foram aquelas que mais força ganharam antes de alguém propor um nome que soaria perfeito para crismar o narrador-fantasma: O Sombra.
A 31 de julho de 1931, quando o The Detective Story Hour foi para o ar pela primeira vez, coube a James LaCurto emprestar a sua voz ao enigmático Sombra. Seria, no entanto, Frank Readick Jr., um radialista veterano, a fazê-lo por mais tempo, tendo sido também quem mais concorreu para o êxito da série.
No imaginário coletivo ficaram gravadas as frases de efeito que abriam e encerravam cada episódio: "Quem sabe o mal que se esconde no coração dos homens? O Sombra sabe!" ou "As sementes do mal geram frutos amargos. O crime não compensa!". A acompanhá-las, trechos de Le Rouet d'Omphale, partitura clássica da autoria de Camille Saint-Saens.

Frank Readick Jr. vestido a preceito
numa ação promocional de The Detective Story Hour.
Mas nem tudo correu como previsto. Em vez de contribuir para o incremento das vendas do magazine em que era baseado, o folhetim radiofónico teve o condão de espicaçar a curiosidade dos ouvintes relativamente ao seu misterioso narrador, cuja tenebrosa gargalhada ecoava através das ondas hertzianas, fazendo-os arquejar de ansiedade pelo próximo capítulo.
De todos os lados chegavam, entretanto, relatos de revendedores dando conta do considerável número de pessoas que lhes tentavam adquirir as (inexistentes) histórias impressas do Sombra.
Face a esta inesperada procura, a Street & Smith foi lesta a reagir. Por intermédio do seu diretor comercial, incumbiu Walter B. Gibson, autor veterano de policiais e mágico profissional, de começar a escrever as histórias do Sombra em The Shadow Magazine. Intitulada, The Living Shadow, a primeira foi dada à estampa em  abril de 1931 e assinalou a estreia literária do Sombra.
Sob o pseudónimo Maxwell Grant, e alegando que as narrativas do Sombra reproduziam fielmente os relatos do próprio, Gibson assinou 292 das 325 novelas do herói lançadas ao longo das duas décadas seguintes.

Walter B Gibson

Walter B. Gibson (cima)
 e a estreia literária do Sombra
escrita sob o pseudónimo Maxwell Grant.

A caracterização do Sombra levada a cabo por Gibson lançaria, de resto, as bases do paradigma super-heróico (ver Influência sombria). O seu figurino estilizado incluía um grande chapéu negro, um manto com forro escarlate e um cachecol da mesma cor que lhe cobria a parte inferior do rosto, salvaguardando o seu anonimato ao mesmo tempo que fazia sobressair o seu nariz aquilino, outras das imagens de marca do herói. Salvo pelo curto hiato em que foi publicado pela Archie Comics (vide texto seguinte), o visual do Sombra manteve-se praticamente inalterado nos diversos segmentos culturais onde marcou presença.
Agindo quase sempre a coberto da noite, o Sombra, conforme reconheceria o seu autor, teve no Drácula de Bram Stoker a sua principal referência literária. Outra possível inspiração para a sua conceção visual terá sido Judex, um justiceiro francês cujo folhetim cinematográfico estreara alguns anos antes nos EUA sob o título The Mysterious Shadow (A Sombra Misteriosa). Comparando os respetivos figurinos e modus operandi, saltam à vista as muitas semelhanças.
Mesmo após o cancelamento do The Shadow Magazine, no verão de 1949, continuaram a ser lançadas de forma avulsa novas aventuras literárias do Sombra. Em algumas delas foram atribuídos poderes psíquicos ao herói, que também começou a assemelhar-se mais a um espião do que a  um combatente do crime. Alterações que não impediram a gradual perda de interesse por parte de um público que aprendera entretanto a idolatrar heróis de têmpera diferente.

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Judex e Sombra:
vingadores separados à nascença?

Justiça aos quadradinhos 

Depois do rádio, da literatura e do cinema, em 1940 o Sombra logrou o pleno mediático ao ter as suas histórias adaptadas à banda desenhada. Em março desse ano, já em plena Idade do Ouro, a Street & Smith lançou Shadow Comics, revista mensal que, além de aventuras inéditas do Sombra, compilava as tiras diárias protagonizadas por outros heróis da editora. A série seria cancelada em setembro de 1949 contabilizando à data 101 volumes publicados.
Seguiu-se um interregno editorial que se prolongou até meados da década de 1960. Aproveitando o novo elã do género super-heroico trazido pela Idade da Prata, a Archie Comics adquiriu os direitos de publicação do Sombra. Em virtude disso, entre 1964 e 1965, o herói voltou a dispor de um título em nome próprio.
Embora o número inaugural de The Shadow apresentasse um Sombra decalcado da sua versão radiofónica, nos restantes números da série seria contemplado com um novo uniforme e superpoderes, vendo-se dessa forma transformado num típico super-herói.
Esta breve passagem do Sombra pela Archie Comics teve ainda a particularidade de o herói ter tido parte das suas histórias escritas por Jerry Siegel, cocriador do Superman.

Shadow Comics Vol 1 1

A estreia bedéfila do Sombra
 em Shadow Comics nº1 (cima)
e a sua versão super-heroica da Archie Comics.
Após novo hiato na publicação das suas aventuras, o Sombra foi resgatado do ostracismo pela DC Comics, em meados da década de 1970. Até 1992, a Editora das Lendas lançou vários títulos periódicos estrelados pela antiga coqueluche da Street & Smith. Um dos pontos altos desta nova vida do Sombra foi a minissérie The Shadow: Blood and Judgment, da autoria de Howard Chaykin. Nela, o herói foi transportado pela primeira vez para o presente.
Quando a Condé Naste, detentora dos direitos do Sombra, aumentou a taxa de licenciamento, a DC interrompeu a publicação da personagem quando estava prestes a igualar o recorde de longevidade editorial da Street & Smith.
Agora sob os auspícios da Dark Horse Comics, no biénio 1993-95 o Sombra protagonizou um conjunto de minisséries e volumes especiais. Destaque, nesta última categoria, para a adaptação oficial do filme entretanto lançado (ver Noutros media) e para o crossover com Ghost, uma das figuras de proa da Dark Horse. Além de transplantar novamente o herói para os dias atuais, a história marcou também o fim da sua passagem pela editora.
Já neste século, seria a vez da Dynamite Entertainment adicionar o Sombra ao seu panteão de heróis clássicos e/ou caídos no domínio público. Desde agosto de 2011 que a editora vem publicando diverso material inédito do Sombra, no qual se incluem títulos mensais, minisséries e crossovers com outras reminiscências da cultura pulp, como o Besouro Verde ou Doc Savage.

Cover



De cima para baixo:
a estreia do Sombra sob o selo da DC,
o seu encontro com Ghost na Dark Horse
e a sua atual série mensal da Dynamite Entertainment.

Origem

Para efeitos de simplificação, na novela radiofónica do Sombra foi-lhe atribuído Lamont Cranston como seu único alter ego. Já na sua versão impressa - que inclui obras literárias, tiras diárias publicadas em tabloides e bandas desenhadas - Kent Allard é a verdadeira identidade do implacável vingador mascarado, e Lamont Cranston apenas um dos seus múltiplos disfarces.
Ex-agente secreto ao serviço do Czar Nicolau II da Rússia, durante a I Guerra Mundial Allard notabilizou-se como espião e piloto-aviador a soldo da França.
Findo o conflito, Allard viajou para a América do Sul à procura de um novo propósito para a sua vida. Numa das suas excursões aéreas pelo continente, despenhou-se numa selva onde descobriu uma antiga cidadela construída em ouro maciço. Apesar de ter saído praticamente ileso do acidente, Allard resolveu forjar a própria morte antes de regressar à sua Nova Iorque natal sob nova identidade e dono de uma apreciável fortuna.
Tirando proveito das suas assombrosas parecenças fisionómicas com Lamont Cranston - um abastado homem de negócios que passava longas temporadas no estrangeiro - Allard passou a usá-lo como fachada enquanto empreendia secretamente uma feroz campanha contra o crime e a corrupção que minavam a decadente sociedade nova-iorquina dos anos 1930. Efeito imediato, os meliantes aprenderam a temer o Sombra, que muitos acreditavam não ser humano.

Kent Allard, o verdadeiro rosto do Sombra.
Inicialmente perseguido pelas autoridades, com o tempo o Sombra granjearia valiosos aliados no seio da Polícia, tendo no Comissário Ralph Weston a sua principal fonte de informação acerca das atividades do crime organizado.
Quando Allard e Cranston finalmente se encontraram, o primeiro ameaçou arruinar a vida do segundo se este denunciasse o embuste orquestrado durante a sua ausência. Confrontado com vários documentos comprometedores onde constava a sua assinatura - primorosamente falsificada por Allard - Cranston concordou em guardar sigilo e em continuar a permitir que a sua identidade fosse usurpada pelo seu sósia enquanto estava ausente do país, o que passou a acontecer ainda com maior regularidade.
O verdadeiro Lamont Cranston tornar-se-ia posteriormente um reputado criminologista a quem foi confiada a missão de coordenar a rede de agentes do Sombra (vide texto seguinte) quando Allard estava ausente de Nova Iorque ou a recuperar de ferimentos infligidos. Ignorando em absoluto a troca de identidades, os demais agentes do Sombra tomam Cranston por outro dos subalternos do mestre.

Agentes do Sombra

Recrutados nos mais variados contextos, os agentes do Sombra desempenham um papel fundamental na sua guerra contra o crime. Alguns fazem-no por convicção, outros por obrigação. Casos, por exemplo, daqueles cujas vidas foram de algum modo salvas pelo herói, tendo para com ele um eterno débito de gratidão.
Dada a considerável extensão da rede de discípulos do Sombra, darei apenas a conhecer os principais elementos que a compõem.

*Margo Lane: uma sedutora socialite criada para o folhetim radiofónico do Sombra e posteriormente introduzida nas suas aventuras literárias, que é também o interesse romântico do herói;
*Clyde Burke: um jornalista que, a troco de contrapartidas pecuniárias, colige informação diversificada para o Sombra;
*Moses "Moe" Shrevnitz: também conhecido por Shrevvy, é um taxista que, sempre que requisitado pelo Sombra, lhe serve de motorista;
*Myra Reldon: operacional feminina que trabalha infiltrada em Chinatown sob o disfarce de Ming Dwan;
*Burbank: um operador de rádio responsável por assegurar as comunicações entre o Sombra e os seus agentes espalhados por Nova Iorque;
*Clifford "Cliff" Marsland: um ex-presidiário que cumpriu uma pesada pena por um crime que não cometeu e que aproveita a sua reputação de fora-da-lei para se infiltrar nas quadrilhas que operam a partir do submundo nova-iorquino.

Amante e agente do Sombra,
 Margo Lane tem sido uma constante
na complexa equação que é a vida do herói
.
Do outro lado da barricada encontra-se uma chusma de vilões e supervilões onde pontificam barões do crime, cientistas insanos, femmes fatales e espiões internacionais. Como qualquer herói que se preze, o Sombra possui ainda vários arqui-inimigos, com destaque para um ignóbil quarteto composto por Shiwan Khan (o antagonista escolhido para o filme de 1994), Doutor Rodil Moquino, o Mestre do Vudu, A Vespa (não confundir com a personagem homónima da Marvel) e Bernard Stark, o Príncipe do Mal.

Shiwan Khan (Archie Comics)
Suposto descendente direto de Ghengis Khan,
Shiwan Khan tem no Sombra o seu némesis.

Influência sombria

Identidades secretas, supervilões e sidekicks. Eis alguns dos conceitos inovadores introduzidos nas histórias do Sombra que se tornariam posteriormente elementos definidores do género super-heroico.
Embora tenha servido de matriz a diversos expoentes da primeira leva de vigilantes fantasiados surgidos durante a Idade de Ouro dos comics, é no Batman que a influência do Sombra mais se faz notar.
Quando, no início de 1939, Bob Kane e Bill Finger começaram a desenvolver o seu Homem-Morcego, o segundo sugeriu que a personagem emulasse o visual e modus operandi dos justiceiros mascarados da literatura pulp, em especial o Sombra.
Em linha com essa opção criativa, Finger inspirou-se em Partners of Peril, uma novela do Sombra editada em 1936, para, ao melhor estilo pulp, escrever a primeira história do Batman, intitulada The Case of the Chemical Syndicate.
A influência do Sombra na mitologia do Batman tornar-se-ia ainda mais evidente nas aventuras subsequentes do Cavaleiro das Trevas.Tal como a personagem que lhe servira de modelo, nos seus primórdios o guardião de Gotham City recorria frequentemente ao uso de armas de fogo e não demonstrava remorsos por tirar ocasionalmente a vida aos bandidos que enfrentava. Sem mencionar que um playboy milionário lhe servia de alter ego.
Aquando da sua passagem pela DC Comics, o Sombra encontrou-se com o Homem-Morcego em duas ocasiões. Na primeira,  em Batman nº253 (novembro de 1973), o Cavaleiro das Trevas reconhece ter sido o Sombra a sua principal inspiração.
Também Alan Moore creditou o Sombra como principal referencial para a conceção visual de V, o protagonista da aclamada minissérie V for Vendetta (V de Vingança) adaptada ao cinema em 2005.

O Sombra influenciou decisivamente
a criação do Batman,
 bem como a de V (em baixo).
Vforvendetta

Apontamentos

*Águia Negra era o nome de código usado por Kent Allard quando era um espião ao serviço de Nicolau II;
*Kent Allard e Lamont Cranston já trabalharam em conjunto. Numa dessas raras ocasiões, o segundo alvejou um membro da Hidra (organização criminal em tempos desmantelada pelo Sombra) com uma espingarda para caçar elefantes;
*Médico pessoal do Sombra, o Dr. Rupert Sayre está ciente da existência de dois Lamont Cranstons. Apesar de não integrar a rede de agentes ao serviço do herói, mantém com ele uma relação de amizade;
*Então um jovem ator de 22 anos, Orson Welles - o homem que, aos microfones da rádio, levou milhares de americanos a acreditarem que a Terra tinha sido invadida por marcianos - também emprestou a sua voz ao Sombra, de setembro de 1937 a outubro de 1938;
*Em 1996, já depois de a DC Comics ter prescindido dos direitos da personagem, o Sombra fez uma pequena aparição no segundo volume da minissérie Kingdom Come (Reino do Amanhã). O herói surge em fundo na cena ambientada num clube noturno ladeado por Rorschach e Questão, outras duas personagens a que serviu de modelo;

Orson Welles também deu voz ao Sombra
 no seu lendário programa radiofónico.

Noutros media

O impressionante lastro mediático do Sombra inclui diversas passagens pelo grande ecrã, a última das quais remonta a 1994. Com Alec Baldwin como protagonista, The Shadow combinava elementos das aventuras literárias do herói com outros retirados do seu programa de rádio. Apesar da sua fidelidade ao conceito original, o filme redundou num monumental fracasso de bilheteira, inviabilizando dessa forma qualquer sequela.
Além desta produção do estúdio Bregman/Baer, a filmografia oficial da personagem é composta por curtas e longas-metragens, bem como por uma série.
Entre 1931 e 1932, a Universal Pictures produziu seis curtas-metragens baseadas no Sombra. Seguiram-se várias películas de mediano sucesso: The Shadow Strikes (1937), International Crime (1938), The Shadow Returns (1946) e Bourbon Street Shadows (1962).

The Shadow on the bridge - fog behind him.
Em 1994, Alec Baldwin foi
 o último ator a encarnar o Sombra.
Pelo meio, em 1940, chegou ainda aos cinemas norte-americanos The Shadow, um folhetim em 15 capítulos com a chancela da Columbia Pictures. A mesma companhia que, em 2006, terá sondado Sam Raimi, o realizador da trilogia cinematográfica do Homem-Aranha, para dirigir e coproduzir um novo filme do Sombra. Para grande desapontamento dos fãs, transcorrida uma dúzia de anos o projeto permanece em banho-maria.
Na década de 1950 foram ainda feitas duas tentativas falhadas de adaptar o Sombra à televisão. A primeira, datada de 1954, foi titulada The Shadow e deveria ter servido de episódio-piloto a uma série que acabaria por nunca ser produzida. A mesma sorte teve The Invisible Avenger, de 1958. Os dois episódios gravados seriam, contudo, recuperados em 1962 sob a forma da longa-metragem que encerra a lista acima.

Uma risada que gela a alma dos culpados.
O Sombra nunca falha!