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quinta-feira, 27 de setembro de 2018

ETERNOS: LEE FALK (1911-1999)


  Homem de mil talentos, o seu fascínio por heróis lendários e mágicos ilusionistas levou-o a criar um à sua imagem e semelhança. Mandrake e Fantasma garantiram-lhe fama e fortuna, mas foi o teatro que mais fez florescer o espírito daquele que foi o decano da 9ª Arte.

Desde maio de 1994 que todos os anos Saint Louis se engalana para comemorar uma efeméride assaz especial: o Dia de Lee Falk. Foi esta a forma encontrada pela próspera cidade portuária do Missouri, fundada no século XVIII por mercadores franceses, para homenagear o seu filho dileto. E não é para menos, ou não estivéssemos a falar de um dos suprassumos da Nona Arte, expoente de cultura e ser humano a vários títulos admirável.
De seu nome verdadeiro Leon Harrison Gross, Lee Falk veio ao mundo a 28 de abril de 1911. Durante boa parte da sua vida, aquele que seria o criador de duas das mais icónicas e bem-sucedidas personagens da banda desenhada fez segredo do seu ano de nascimento, aureolando-se assim de mistério. Esse não seria, aliás, o único subterfúgio a que deitaria mão para embelezar a sua biografia.
Nos alvores da sua prolixa carreira na indústria dos quadradinhos, Lee Falk apresentou-se como um trota mundos. Quando, em boa verdade, a mais longa viagem que fizera até àquele momento fora entre Saint Louis e Nova Iorque. Fê-lo para impressionar os seus colegas de profissão adeptos de um estilo de vida sofisticado e cosmopolita.
Apesar de inócua, a patranha valeu-lhe alguns embaraços. Por isso, com o tempo Lee Falk tornar-se-ia um viajante experimentado, com predileção por destinos exóticos. Alguns dos quais serviriam mais tarde de inspiração aos cenários das histórias do Fantasma.

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Saint Louis serviu de berço a Lee Falk.
Como progenitores o pequeno Leon teve Benjamin Gross e Eleanor Alina, casal judaico que se se conhecera e perdera de amores durante a digressão de uma trupe de teatro. Como mais adiante se verá, as artes cénicas, em concomitância com as histórias aos quadradinhos, seriam a grande paixão de Lee Falk, que a elas se dedicou de alma e coração.
Leon era ainda bebé quando o seu pai morreu repentinamente. Pouco tempo depois, a sua mãe casaria em segundas núpcias com Albert Falk Epstein, abastado empresário do ramo imobiliário, em quem o petiz encontrou figura paterna, porquanto não conservava qualquer memória do homem que lhe dera vida.
Leitor compulsivo com precoce refinamento literário, desde cedo Leon revelou grande cumplicidade com as palavras. Na adolescência foi editor do jornal da sua escola e a sua escrita titilante não deixava (quase) ninguém indiferente.
Concluído o ensino secundário, Leon escolheu como sua alma mater a Universidade do Illinois (estado confinante com o seu Missouri natal), de onde sairia diplomado em Literatura Inglesa. Enquanto por lá permaneceu, intercalava os estudos com intensa colaboração no pasquim académico, onde viu serem publicados diversos contos, poemas e outros textos avulsos da sua lavra.
Foi também nessa fase da sua vida, no limiar da idade adulta, que Leon descobriu que Albert Falk Epstein não era, afinal, o seu pai biológico. Tratado sempre em pé de igualdade com o seu meio-irmão - Leslie, fruto do segundo matrimónio da sua mãe - Leon retribuiu o afeto de Albert Epstein conjugando o nome do meio do padrasto com a alcunha que o acompanhava desde a infância, para criar o pseudónimo que o imortalizaria na cultura popular do século transato: Lee Falk.
Com apenas 19 anos de idade, Lee Falk - fascinado por ilusionistas, tinha em Houdini um dos seus ídolos - idealizou Mandrake, o Mágico. Além da história, saíram também do seu lápis os primeiros esboços daquele que muitos investigadores da 9ª Arte consideram ter sido um dos primeiros super-heróis.

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O mágico Mandrake foi criado
 à imagem e semelhança de Lee Falk.

De olhos postos numa carreira ligada aos quadradinhos - que, por aqueles dias, iam seduzindo uma audiência cada mais vez mais vasta e indistinta - Lee Falk, agraciado com múltiplos talentos, havia frequentado aulas de desenho. Apesar de sempre ter rabiscado figuras e cenários, o seu traço podia apenas ser classificado como rudimentar. Falk era, contudo, um escriba exímio e dava cartas na literatura sequencial, a arte de contar histórias sob a forma de pequenos painéis. Fluidos e detalhados, os diálogos da sua autoria imprimiam forte dinâmica narrativa, que facilmente cativava os leitores.
Ainda acerca da conceção visual de Mandrake. muitos foram aqueles que, no rolar dos anos, questionaram Lee Falk sobre as notórias semelhanças fisionómicas entre criador e criatura. A estes, o mestre respondia sempre com a sua proverbial fleuma: "Pudera! Desenhei Mandrake enquanto me olhava ao espelho. Desenho à vista foi sempre a minha especialidade."
Se o próprio Lee Falk serviu de modelo a Mandrake - inspirado nos mágicos vaudeville que, desde finais do século XIX, realizavam espetáculos itinerantes no sul dos EUA - já o invulgar nome do herói foi retirado de um poema saído da pena de John Donne. Algures no século XVI, este poeta inglês partidário do jacobinismo alinhavara os seguintes versos: Go, and catch a falling star. / Get with a child a mandrake root. ("Vai, e apanha uma estrela cadente. / Colhe com uma criança uma raiz de mandrágora.")
Durante a época medieval, a raiz de mandrágora era uma panaceia usada em todo o tipo de mezinhas. Entre os putativos fins medicinais desta planta rodeada de crendices e superstições, consta que seria indicada tanto para o alívio de dores de estômago como para contrariar a infertilidade feminina.
Terão sido, todavia, as supostas propriedades alucinogénicas da mandrágora a motivar a escolha do seu nome para crismar a primeira personagem imaginada por Lee Falk. Importa notar, a este propósito, que Mandrake é um hipnotista de gabarito mundial capaz, por exemplo, de levar um bandido a acreditar que a arma que empunha se transformou numa víbora.

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Um mágico de vaudeville (cima) e uma raiz de mandrágora:
duas das inspirações de Lee Falk para a sua primeira criação.
Apesar de pouco confiante no êxito da sua criação, Lee Falk foi encorajado por Harry Tuthill - seu conterrâneo e autor de Bungle Family, uma das mais populares tiras diárias à época - a procurar um comprador para Mandrake.
Na verdade, a tira de Mandrake era apenas um dos vários projetos literários em que Lee Falk vinha trabalhando por aqueles dias. Não foi, portanto, o único que levou na bagagem quando, aproveitando umas férias escolares, viajou até Nova Iorque na companhia do seu padrasto. O seu portefólio incluía também contos e peças de teatro, que o jovem estaria disposto a vender pela melhor oferta.
Quando a sua estadia na Grande Maçã somava já vários dias e rejeições, Lee Falk conseguiu por fim marcar uma reunião com Joe Connolly, editor-chefe do King Features Syndicate. Nem tudo correu, porém, dentro do planeado. A Connolly ter-se-á varrido por completo da mente o compromisso e Lee Falk passou o dia inteiro nos escritórios da empresa à espera de ser recebido.
Ao dar fé do lapso, Connolly cuidou de compensar generosamente Lee Falk. Começou por levá-lo a jantar ao luxuoso Hotel Waldorf, de onde seguiram para a Broadway para assistir a uma peça teatral antes de terminarem a noite no badalado Stork Club onde cavaquearam com celebridades. No final deste glamoroso serão, Lee Falk tinha vendido a sua tira de Mandrake ao King Features Syndicate.
A 11 de junho de 1934, Mandrake debutava numa tira diária a preto e branco publicada em diversos jornais norte-americanos. A despeito do sucesso imediato da sua criação, Lee Falk considerou prudente não colocar todos os ovos no mesmo cesto e tratou de arranjar outras fontes de rendimento.
Durante cerca de quatro anos Lee Falk acumulou os estudos universitários e a produção da tira de Mandrake com o seu emprego como redator numa agência publicitária de Saint Louis - da qual viria, de resto, a tornar-se vice-presidente. Surpreendentemente, sobrava-lhe ainda tempo e energia para escrever folhetins para uma estação de rádio local.
Quando percebeu que a tira de Mandrake beneficiaria com uma arte mais profissional do que a sua, Lee Falk escolheu Phil Davis, ilustrador comercial seu conterrâneo, para o adjuvar na empreitada.

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Uma das primeiras tiras de Mandrake desenhadas por Phil Davis.

À boleia do sucesso de Mandrake, Lee Falk criou o Fantasma (The Phantom, no original), cujos direitos não teve dificuldade em vender ao King Features Syndicate. Aquele que é considerado o primeiro vigilante mascarado da história da banda desenhada (conquanto esse fosse um conceito preexistente noutros segmentos culturais, nomeadamente na literatura) fez a sua estreia a 17 de fevereiro de 1936. Tal como sucedera com Mandrake, Lee Falk começou por ilustrar a tira do Fantasma mas depressa delegaria esse trabalho em Ray Moore, a quem já antes confiara a arte do suplemento dominical do mestre do ilusionismo.
A criação do Fantasma, cognominado o Espírito-Que-Anda, foi fortemente influenciada por elementos retirados tanto da mitologia helénica como de lendas como El Cid ou o Rei Artur, bem como do universo ficcional de O Livro da Selva. Lee Falk crescera a ler essas histórias e dessa miscelânea de referências nasceu uma das mais emblemáticas personagens não só da 9ª Arte como da cultura popular do último século. E que, ainda hoje, continua a arrolar significativo número de fãs um pouco por todo o mundo.
No seu apogeu, atingido por volta de 1966, a gesta do Fantasma era acompanhada diariamente por cerca de 100 milhões de leitores dos cinco continentes. A personagem idealizada por Lee Falk é também o mais ilustre antepassado dos super-heróis modernos, na medida em que estabeleceu vários dos preceitos subjacentes ao conceito, mormente o uso de um uniforme distintivo. Não obstante, é comummente categorizado como uma personagem de transição entre a literatura pulp e a era heroica.

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Fantasma, o Espírito-Que-Anda.
Originalmente, o Fantasma era substancialmente diferente da sua versão consagrada. Lee Falk imaginara-o como um playboy milionário chamado Jimmy Wells que, a coberto da noite e de uma máscara, fazia justiça pelas próprias mãos. Ideia que, importa ressalvar, precedeu em vários anos o surgimento do Batman. E que seria substituída por outra antes mesmo da primeira tira do herói ser dada à estampa.
Por ter tido em Tarzan um dos seus ídolos de infância e porque África o fascinava, Lee Falk decidiu transplantar as histórias do Espírito-Que-Anda para as luxuriantes selvas de Bangalla, território mítico encravado algures entre o continente negro e a Ásia.
Antes mesmo da participação norte-americana na II Guerra Mundial, já Lee Falk - seguindo o exemplo de outros autores seus exatos contemporâneos - havia colocado as suas personagens, mormente o Fantasma, ao serviço da causa aliada. Espionagem e sabotagem eram temas recorrentes nas histórias do Espírito-Que-Anda durante esse período, refletindo o pensamento político de Lee Falk. O qual cabia nesta singela frase: "Viva a democracia, abaixo a tirania!"
Fiel a esse mantra, após entrada dos EUA no conflito, na esteira do ataque japonês a Pearl Harbor, Lee Falk aceitou chefiar o departamento de propaganda da KMOX, a estação de rádio com que vinha colaborando há vários anos. Ao cabo de alguns meses seria, no entanto, transferido para o Quartel-General, em Washington, D.C.
Nesse novo posto ajudou a traduzir para inglês uma edição não-censurada de Mein Kampf. Revelando assim ao mundo a verdadeira mensagem política de Adolf Hitler. Ao tomar conhecimento deste facto, o Fuhrer intentou em vão um processo judicial contra Lee Falk e o outro oficial responsável pela tradução do seu odioso evangelho.
Como se isso não bastasse para Hitler erigir Lee Falk como um dos seus ódios de estimação, as tiras de Mandrake e Fantasma puseram em xeque as falácias difundidas pela bem oleada máquina de propaganda nazi. Segundo esta, os EUA tinham sido varridos do mapa e o mesmo aconteceria aos países que ainda resistiam ao expansionismo germânico. Contudo, os leitores europeus continuavam a ter acesso às histórias do Mandrake e do Fantasma publicadas diariamente em jornais, o que comprovava que a América - tal como os heróis - estava viva e firme na sua luta pela liberdade.
De regresso à vida civil, a partir dos anos 1950 Lee Falk encetou uma notável carreira ligada ao teatro. Sem nunca descurar as tiras de Mandrake e Fantasma, produziu cerca de três centenas de peças, um terço das quais foram por ele próprio dirigidas. Confortável na pele de dramaturgo, escreveu também doze peças de teatro, incluindo os musicais Happy Dollar e Mandrake, the Magician - este último levado a cena após a sua morte, sob o título Mandrake the Magican and the Encantress.
Entre os atores dirigidos por Lee Falk avultavam algumas vedetas de Hollywood, como Charlton Heston, Paul Newman ou Marlon Brando. Alguns deles chegaram mesmo a prescindir de cachês milionários para poderem representar, quase de graça, nas várias companhias teatrais que Lee Falk administrou ao longo dos anos, dentro e fora dos EUA. Dentre estas, aquela que maior simbolismo político adquiriu estava sediada em Nassau, nas Bahamas.

Lee Falk em pleno labor literário em Nassau.
Nesse lendário teatro onde Lee Falk viveu alguns dos melhores anos da sua vida, o preconceito ficava à porta e na sua plateia brancos e negros sentavam-se lado a lado.
Numa época em que a universalidade dos direitos cívicos era ainda uma miragem em terras do Tio Sam, Lee Falk quebrou tabus sociais ao fazer gala da sua vetusta amizade com Paul Robeson, reputado cirurgião afro-americano e ativista social. Graças a este exemplo de respeito mútuo, Lee Falk conseguiu que a segregação racial fosse abolida da quase totalidade dos teatros por onde passou.
O exemplo pioneiro de Lee Falk no combate a práticas racistas remontava, contudo, a 1938. Ano em que introduziu Lothar, um espirituoso príncipe africano, nas histórias de Mandrake. Contrariamente a outras personagens similares surgidas durante a Idade do Ouro, Lothar nunca foi reduzido a uma caricatura dos negros, assumindo-se, em vez disso, como um parceiro igual de Mandrake. Isto apesar de, originalmente, ter sido apresentado como guarda-costas do mágico.

Mandrake e Lothar formaram a primeira parelha heroica inter-racial.
Sem tréguas no seu afã literário, no início da década de 1970 Lee Falk aceitou o repto da Avon Publications (não confundir com a famosa marca de cosméticos) para escrever uma série de novelas baseadas nas tiras do Fantasma. Apesar dos prazos apertados - a editora pretendia lançar um livro a cada dois meses - Lee Falk, para quem escrever era tão natural como respirar, desfrutou da experiência. Quando os créditos de uma das suas histórias foram atribuídos a outro escriba, Lee Falk cessou de imediato a sua colaboração no projeto e processou judicialmente a Avon Publications.

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Uma das novelas do Fantasma
 editadas pela Avon Publications
e com assinatura de Lee Falk.
Em 1971, de visita a Itália para participar numa conferência sobre comics, Lee Falk tornou-se o primeiro estrangeiro a ser contemplado com um The Yellow Kid Award, prémio que distingue anualmente o melhor autor de  banda desenhada. Ao longo dos anos outras importantes honrarias adornariam o seu invejável currículo. Destaque, por exemplo, para a missiva que lhe foi enviada em 1996 por Bill Clinton, à data Presidente dos EUA, felicitando-o pelos seus feitos, aquando da estreia do filme do Fantasma (já aqui esmiuçado).
Entre 1934 e 1999, Lee Falk escreveu ininterruptamente as tiras diárias do Mandrake e do Fantasma, tornando-se dessa forma o autor de banda desenhada há mais tempo no ativo. Assim elevado a decano da 9ª Arte, via-se a si mesmo como um cronista das suas personagens, como se estas, de tão duradouras, tivessem ganho vida própria.
Mesmo quando já encontrava confinado a uma cama de hospital, Lee Falk retirava a máscara de oxigénio para, num sibilante fio de voz, ditar as histórias do Fantasma. O século XX soltava os seus últimos suspiros e parecia empenhado em levar com ele um dos últimos detentores da memória descritiva da Idade do Ouro.
Cavalheiro modesto e erudito da velha escola, Lee Falk pautou sempre a sua conduta por elevados princípios morais como a honradez e a compaixão. Nos últimos anos da sua vida ocupou um sumptuoso apartamento no coração de Nova Iorque com vista panorâmica sobre o Central Park. Nos seus tempos livres gostava de visitar os museus da cidade na companhia da família (casado três vezes, sempre com profissionais do teatro, era pai de sete filhos), de assistir a peças na Broadway e de cozinhar. Com a idade refinou saberes e requintou sabores, chegando mesmo a lançar um livro de receitas culinárias intitulado Cartoonists Cookbook.
A 13 de março de 1999,  fulminado por um ataque cardíaco, Lee Falk despediu-se do mundo terreno após uma vida exemplar e repleta de sucessos. Pela sua monumentalidade e ecletismo, o seu legado irá perdurar pela eternidade. Porque Lee Falk é o verdadeiro Espírito-Que-Anda...

Fantasma e Mandrake choram a morte do seu criador.




Agradecimento muito especial ao meu infatigável amigo Emerson Andrade pelo esmerado trabalho de restauro digital executado na imagem que abre o presente artigo. Tão imorredoura como o legado de Lee Falk será a amizade que nos une.

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sábado, 27 de janeiro de 2018

RETROSPETIVA: « O FANTASMA»


  Entre as misteriosas florestas de Bengalla e os desfiladeiros de betão nova-iorquinos, defrontando novos e velhos inimigos, o Fantasma procura resgatar poderosos artefactos místicos e uma paixão do passado.
  No ano em que cumpriu o seu 60º aniversário, aquele que foi um dos primeiros heróis mascarados da BD regressou ao grande ecrã num filme para toda a família. Que, apesar do apocalipse nas bilheteiras, se tornaria objeto de culto e uma relíquia da cultura pulp.

Título original: The Phantom
Ano: 1996
País: EUA / Austrália
Duração: 100 minutos 
Género: Ação/Aventura/Fantasia
Produção: The Ladd Company e Village Roadshow Pictures
Realização: Simon Wincer
Argumento: Jeffrey Boam
Distribuição: Paramount Pictures
Elenco: Billy Zane (Kit Walker/Fantasma), Treat Williams (Xander Drax), Kristy Swanson (Diana Palmer), Catherine Zeta-Jones (Sala), James Remar (Quill), Patrick McGoohan (pai do Fantasma), Radmar Agana Jao (Guran), Robert Coleby (Capitão Philip Horton) e Cary-Hiroyuki Tagawa (o Grande Kabai Sengh)
Orçamento: 45 milhões de dólares
Receitas domésticas: 17,3 milhões de dólares

Quem é o Espírito-Que-Anda?



Assumindo que, entre os que me leem, existirá quem pouco ou nada conheça acerca do Fantasma, entendi por bem começar por resumir a fulgurante trajetória daquele que é um dos mais antigos super-heróis ainda no ativo.
Afinal,  nunca é demais lembrar, este blogue destina-se tanto a eruditos como a leigos em "Heroilogia". Se ao útil conseguir juntar o agradável, tanto melhor. Espero, por isso, que apreciem a pequena lição gratuita que se segue.
A reboque do assinalável êxito de Mandrake, o Mágico - publicado pela primeira vez em 1934, no formato de uma tira diária a preto e branco - os editores do King Features Syndicate instaram Lee Falk a criar uma segunda personagem.
Fascinado desde criança por mitos e lendas, bem como pelas figuras romanescas emanadas da literatura do início do século XX, Falk incluiu elementos de El Cid, Tarzan, Zorro e Robin Hood na conceção de um justiceiro mascarado a que deu o nome de Fantasma (The Phantom, em inglês).

O Fantasma
 foi a segunda criação bem-sucedida de Lee Falk.
Num primeiro momento, o Fantasma foi apresentado como um vigilante urbano de hábitos notívagos a que Jimmy Wells, um playboy milionário, servia de identidade civil (ver Curiosidades). Qualquer semelhança com um certo Homem-Morcego, surgido anos mais tarde, não será decerto mera coincidência...
Considerando existirem já demasiadas personagens com The Phantom no nome (The Phantom Detective, The Phantom of the Opera, etc.), Lee Falk ponderou crismar a sua mais recente criação de The Gray Ghost (O Fantasma Cinzento). Voltaria, no entanto, atrás nessa sua decisão, optando pela manutenção da nomenclatura original.
A 17 de fevereiro de 1936, o Fantasma faria a sua estreia oficial no mesmo formato em que, dois anos antes, Mandrake se dera a conhecer ao público estadunidense. Superando todas as expectativas, o sucesso da nova coqueluche do King Features Syndicate rapidamente extravasaria fronteiras, tornando-se um epifenómeno de popularidade à escala planetária.
No seu auge, em 1966, as tiras do Fantasma (que Lee Falk escreveu até 1999, ano da sua partida do mundo terreno) eram publicadas em quase 600 jornais de todo o mundo, atingindo dessa forma uma audiência diária estimada em 100 milhões de leitores.
Por razões de ordem diversa - que iam desde preferências cromáticas a (im)possibilidades gráficas - as cores do uniforme do Fantasma sofreram modificações nalguns países. Se, no Brasil e na Itália, o roxo original deu lugar ao encarnado, nas nações escandinavas foi o azul a prevalecer.

Durante muitos anos,
 o Fantasma vestiu de vermelho no Brasil.
Esse retumbante sucesso sobreveio, em larga medida, da reformulação da personagem realizada por Lee Falk escassos meses após o seu surgimento. Passando então o Fantasma a ser retratado, já não como um simples vigilante urbano, mas como o 21º representante de uma dinastia de combatentes do crime fundada 400 anos antes pelo único sobrevivente de um ataque de piratas ao largo da costa africana. Sobre a caveira do assassino do seu pai, o jovem náufrago jurou solenemente devotar a sua vida e a dos seus descendentes a combater a pirataria, a opressão e o Mal em todas as suas formas.
Assim nasceu o Fantasma, cuja lenda ecoaria ao longo do séculos pelas profundezas  das misteriosas florestas de Bangalla. Originalmente localizada algures no litoral africano, esta nação imaginária que serve de lar ao Espírito-Que-Anda seria posteriormente renomeada de Bengalla e transferida para o Extremo Oriente, reforçando dessa forma o exotismo dos cenários em que se desenrolavam as aventuras do herói.

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Em 1939, a origem do Fantasma foi revisitada
 na sua primeira tira dominical com arte de Ray Moore.
A despeito de constituir um exemplo pioneiro dentro do género super-heroico, muitos são os estudiosos da Nona Arte que preferem classificar o Fantasma como uma personagem de transição. Isto porque, ao mesmo tempo que incorporava aspetos típicos dos heróis da literatura pulp (como o Sombra), antecipou também várias características definidoras de conceitos como o Superman ou o Batman. Sendo, aliás, por demais evidentes as influências do Fantasma na mitologia do Homem-Morcego.
Por muitos considerado o "avô" dos super-heróis modernos (a sua aparição precedeu num par de anos a do Superman), o Fantasma foi, com efeito, o primeiro a adotar o tipo de traje colorido de inspiração circense que se tornaria a principal imagem de marca dessa categoria de personagens. Por influência da estatuária helénica, foi, ademais, o primeiro a usar uma máscara sem pupilas visíveis, estabelecendo assim outro dos padrões estéticos do género super-heroico.
Contudo, ao contrário da generalidade dos super-heróis seus contemporâneos e do que o próprio nome sugere, o Fantasma não possui quaisquer talentos sobrenaturais. Apesar de trazer sempre um par de pistolas à ilharga, o seu draconiano código de conduta proíbe-o de empregar força letal. Dependendo, portanto, da sua capacidade atlética, da sua astúcia e da sua reputação de imortal (donde a cognominação Espírito-Que-Anda e O Homem-Que-Nunca-Morre) para levar a melhor sobre os seus adversários. Contando ainda com a preciosa ajuda dos seus escudeiros quadrúpedes: Hero (um alazão branco) e Devil (um lobo negro), conhecidos entre o público lusófono como Herói e Capeto.
Nas suas histórias clássicas (três das quais, como mais adiante se perceberá, serviram de inspiração ao enredo da sua primeira longa-metragem), Kit Walker, o 21º Fantasma, é casado com Diana Palmer. O casal conheceu-se quando ambos estudavam numa universidade dos EUA e vive com os seus dois filhos gémeos - Kit e Heloise - na Caverna da Caveira. De acordo com os preceitos da tradição familiar, caberá ao filho varão do Fantasma suceder ao pai quando este morrer ou ficar demasiado velho para continuar a encarnar o Espírito-Que-Anda.
Marcado pela itinerância editorial, o longo percurso do Fantasma na banda desenhada tem sido feito sob múltiplas chancelas. Originalmente publicado pelo King Features Syndicate, passou, entre outras, pela Charlton Comics e pela DC Comics, sendo os respetivos direitos detidos presentemente pela Dynamite Entertainment, que chamou a si missão de reapresentar este herói clássico a uma nova leva de leitores.
As novas aventuras do Espírito-Que-Anda
 têm agora o selo da Dynamite Entertainment.

Pré-produção e desenvolvimento

Os primeiros rumores acerca de uma possível adaptação do Fantasma ao cinema surgiram no seguimento de uma entrevista de Sergio Leone, na qual o realizador italiano expressou o seu interesse em dirigir um projeto dessa natureza.
Ao mesmo tempo que escrevia o argumento do filme, Leone começou também a fazer um levantamento de locais que poderiam servir de cenários à história que vinha alinhavando. Segundo consta, Leone pretenderia homenagear as duas criações de Lee Falk e, por isso, à longa-metragem  do Fantasma seguir-se-ia uma do Mandrake.
Ainda no início dos anos 1990, seria contudo Joe Dante (Gremlins) o realizador escolhido pela Paramount Pictures para dirigir aquela que seria a segunda aventura cinematográfica do Fantasma, depois da série por ele protagonizada em 1943. Em articulação com o argumentista Jeffrey Boam (Indiana Jones e a Grande Cruzada), Dante desenvolveu um enredo que parodiava as histórias do Espírito-Que-Anda.
Quando a Paramount adiou em vários meses o arranque da produção, Dante abandonou o projeto para assumir outros compromissos profissionais. Apesar disso, seria creditado como um dos produtores executivos de The Phantom.
Dante revelaria mais tarde que recebera a notícia do adiamento quando ele e a sua equipa estavam já de malas aviadas para a Austrália, um dos locais escolhidos para as filmagens. Se essa decisão o apanhou de surpresa, mais perplexo ficou ao perceber que, apesar do registo humorístico do enredo que escrevera a meias com Jeffrey Boam, The Phantom pretendia ser um filme sério.
Após o afastamento de Joe Dante, Joe Schumacher (Batman Para Sempre) chegou a ser considerado para assumir a direção do projeto. A escolha definitiva da Paramount Pictures recairia, porém, sobre o realizador australiano Simon Wincer (Libertem Willy), um confesso admirador do Fantasma desde os seus tempos de menino.

Foi sob a batuta de Simon Wincer
 que o filme do Fantasma ganhou forma.
Com a cadeira de realizador finalmente ocupada, seguiu-se a escolha do protagonista. Bruce Campbell (A Noite dos Mortos-Vivos) e Kevin Tod Smith (ator neozelandês com vários telefilmes no currículo) partiram como favoritos na corrida ao papel principal. Por indicação de Wincer, seria, contudo, Billy Zane a arrebatá-lo.
Zane tinha ganho notoriedade por via da sua interpretação de um psicopata em Dead Calm (1989). Tendo sido precisamente durante a  rodagem desse filme que o ator tivera o seu primeiro contacto com as histórias do Fantasma, pelas quais logo se deixou fascinar.
Além da intensa preparação física a que se submeteu durante mais de um ano, Billy Zane estudou minuciosamente a linguagem corporal do Fantasma na banda desenhada como parte do processo de construção da sua personagem.
De acordo com o calendário predefinido, as filmagens decorreram entre outubro e dezembro de 1995 com passagens por Los Angeles, Austrália e Tailândia. Entre os cenários utilizados, o destaque vai para a lendária mansão de Hugh Hefner, o finado fundador da revista Playboy que era também um fã de longa data do Fantasma.

Lee Falk posou ao lado de Billy Zane no set de filmagens.
Chegado às salas de cinema norte-americanas a 7 de junho de 1996, The Phantom combinava elementos sobrenaturais com outros retirados de três histórias clássicas do Espírito-Que-Anda (todas saídas da pena do seu criador): The Singh Brotherhood, Sky Band e The Belt.
Apesar da atuação de Zane ter sido louvada, os críticos dividiram-se na hora de avaliar um filme que, no fim de semana de estreia - e mesmo sem ter de lidar com concorrentes de peso - se quedou por um modesto sexto lugar no ranking das receitas de bilheteira. Sofrendo assim o mesmo destino de The Shadow que, dois anos antes, transpusera para o grande ecrã as aventuras do Sombra, outro herói clássico saído das páginas da literatura pulp.
Inviabilizada a franquia (estavam previstas duas sequências),  The Phantom registaria, no entanto, um bom desempenho no mercado VHS e DVD. Como tantos outros filmes mal-amados, com o tempo tornar-se-ia objeto de culto por parte de certas franjas da comunidade cinéfila. As mesmas que, enquanto não se materializa o anunciado reboot, terão de contentar-se com esta relíquia da Sétima Arte.

Sinopse

À laia de preâmbulo, a voz cava do 20º Fantasma (progenitor do atual) narra a dramática história de um menino que, 400 anos atrás, testemunhou, impotente, a morte do seu pai durante um ataque perpetrado pela infame Irmandade Sengh ao navio onde viajavam.
Enquanto os piratas chacinavam a restante tripulação, o menino lançou-se ao mar e conseguiu nadar até uma praia na misteriosa ilha de Bengalla. Lá foi encontrado por uma tribo indígena que o acolheu no seu seio e o tratou como igual.
Depois de receber das mãos do xamã da tribo o Anel do Caveira, o menino jurou devotar a sua vida a lutar contra todas as formas de injustiça. Chegado à idade adulta, adotou a identidade de O Fantasma, um vingador mascarado. Título que, ao longo dos séculos,  foi sendo transmitido de pai para filho, levando aqueles que com ele se cruzaram a acreditar piamente na imortalidade do chamado Espírito-Que-Anda.
A lenda do Fantasma
 é velha de quatro séculos.
Em 1938, no coração da luxuriante selva de Bengalla, um grupo de mercenários chefiado por um homem chamado Quill procuram uma das Caveiras de Touganda. Quando reunidos, esses artefactos místicos conferem grande poder destrutivo aos seus detentores.
A expedição liderada por Quill é, contudo, interrompida devido à interferência do Fantasma. O Espírito-Que-Anda (que é na realidade Kit Walker, o 21º portador do Anel da Caveira), salva o menino nativo que havia sido sequestrado pelos mercenários para lhes servir de guia. À exceção de Quill, todos os bandidos são capturados pelo Fantasma que, em seguida, os deixa sob a custódia da Patrulha da Selva.
Antes de escapulir-se levando consigo uma das Caveiras de Touganda, um estranho símbolo tatuado no antebraço de Quill denuncia a sua pertença à Irmandade Sengh, o que deixa o Fantasma intrigado.
Longe dali, em Nova Iorque, Diana Palmer, sobrinha do proprietário do World Tribune e ex-namorada de Kit Walker nos tempos de faculdade, voluntaria-se para viajar até Bengalla a fim de investigar os indícios encontrados pelo jornal do tio de que Xander Drax, um empresário sedento de poder, estaria envolvido em atividades ilícitas.

Diana Palmer,
uma donzela de espírito aventureiro.
Próximo à costa de Bengalla, o avião que transporta Diana Palmer é tomado de assalto em pleno voo pela Sky Band, uma quadrilha de piratas do ar composta exclusivamente por mulheres e liderada por uma femme fatale chamada Sala. Diana é sequestrada e levada para o esconderijo secreto da Sky Band em Bengalla.
Ao ser informado do sucedido pelo Capitão Horton, da Patrulha da Selva, o Fantasma parte imediatamente em missão de resgate. Com a colaboração de Herói, Capeto e da Tribo da Corda, o Espírito-Que-Anda consegue libertar Diana do seu cativeiro. Depois de deixá-la em segurança na base da Patrulha da Selva, o herói parte para Nova Iorque com a intenção de recuperar a caveira e de descobrir o paradeiro das restantes.
Agindo sob a sua identidade civil de Kit Walker, o Fantasma reencontra Diana Palmer durante uma reunião com o tio desta no edifício-sede do World Tribune. Surpreendida pela inesperada presença de Kit, Diana manifesta sentimentos ambíguos relativamente ao ex-amante que desaparecera  da sua vida há vários anos.

Kit e Diana reencontram-se após vários anos.
Graças a uma dica fortuita fornecida por Jimmy Wells, o pretendente de Diana, Kit descobre que a segunda Caveira de Touganda se encontra exposta no Museu de História Natural. Quando ele e Diana procuram recuperar o artefacto, são surpreendidos por Drax e pelos seus asseclas.
Ao reparar que Quill usa um cinturão com o símbolo da caveira, Kit deduz estar na presença do assassino do seu pai. Entretanto, o poder combinado das duas caveiras revela a Drax a localização da terceira: uma ilha não cartografada no Vórtice do Diabo, algures no Mar Amarelo.
Drax toma Diana como refém a fim de se precaver contra o Fantasma e ordena a Quill que se desenvencilhe de Kit. No entanto, é Kit quem consegue desenvencilhar-se dos capangas de Drax.
Já como Fantasma, o herói empreende uma audaciosa fuga à polícia (tanto o Comissário como o mayor estão mancomunados com Drax) pelas ruas e avenidas nova-iorquinas.

Xander Drax com uma das Caveiras de Touganda.
Pilotado por Sala, um hidroavião prepara-se para levantar voo com destino a Bengalla. A bordo seguem também Drax, Quill e Diana. Segundos antes de a aeronave descolar, o Fantasma consegue apanhar boleia escondido num dos seus flutuadores.
Na ilha desconhecida, Drax fica frente a frente com o Grande Kabai Sengh, descendente direto do fundador da Irmandade Sengh, que tem em sua posse a terceira Caveira de Touganda. Drax propõe-lhe uma aliança, mas Sengh alerta-o para a existência de uma quarta caveira capaz de controlar as outras três.
O Fantasma entra em cena e, após um acirrado duelo com Kabai Sengh, vê o vilão ser devorado vivo pelos tubarões que mantinha numa piscina de água salgada no interior da gruta que servia de quartel-general à Irmandade.

Sala e a sua Sky Band.
Ao juntar finalmente as três Caveiras de Touganda, Drax ativa o imenso poder destrutivo dos artefactos. Quando procura alvejar o Fantasma com o raio desintegrador emitido pelas caveiras, Drax acaba acidentalmente por pulverizar Quill.
O Fantasma usa então o seu anel - que tem incrustada a quarta Caveira de Touganda - para neutralizar o poder das caveiras. Colhido pela explosão consequente, Drax é  instantaneamente vaporizado.
Com a ilha prestes a implodir, o Fantasma consegue evacuar Diana e Sala. De volta a Bengalla, Diana confidencia ao herói ter reconhecido Kit Walker sob a máscara.
De rosto exposto, Kit informa Diana de como está autorizado a confiar os seus segredos apenas à mulher com quem pretende casar. Apesar de se sentir lisonjeada, Diana decide regressar a Nova Iorque com Sala.
No epílogo, o pai do Fantasma lamenta o fracasso amoroso do filho mas diz-se confiante de que, um dia, Diana regressará a Bengalla para cumprir o seu destino: ser a consorte do Espírito-Que-Anda.

Trailer: 


A primeira aventura cinematográfica do Fantasma

Mais de meio século separa o filme do Fantasma da sua primeira incursão pelo grande ecrã. Em dezembro de 1943, chegava aos cinemas norte-americanos The Phantom, um folhetim de 15 capítulos a preto e branco.
Produzida pela Columbia Pictures, a série tinha em Tom Tyler (ator que, apenas dois anos antes, havia interpretado o Capitão Marvel num formato idêntico) o seu astro principal. Como quase todas as produções do género naquela época, The Phantom dispôs de orçamento exíguo e, por isso, as cenas ambientadas na selva de Bengalla foram integralmente rodadas num estúdio em Hollywood.
Uma vez que, na altura, não era ainda conhecido o verdadeiro nome do Fantasma, na série foi-lhe atribuído o alter ego Geoffrey Prescott. Num dos episódios, porém, o herói pede para ser chamado de Walker, numa óbvia referência a Kit Walker, a sua persona civil na BD.

Tom Tyler foi o primeiro ator
 a encarnar o Espírito-Que-Anda.
Cartaz promocional de um dos capítulos
 do folhetim cinemático do Fantasma.
Muito por conta da fidelidade às histórias originais e das extraordinárias semelhanças físicas de Tom Tyler com o herói criado por Lee Falk, The Phantom conseguiu uma notável prestação nas bilheteiras. Justificando desse modo uma sequência que, apesar de ter sido produzida em 1955 (já sem Tom Tyler, falecido no ano anterior), acabaria, contudo, por nunca ser exibida.
Na origem dessa contingência esteve a súbita descoberta por parte dos responsáveis da Columbia Pictures de que os seus direitos sobre a personagem haviam caducado, aliada à recusa do King Features Syndicate em renová-los. Foi assim que The Return of the Phantom se transformou em The Adventures of Captain Africa. Apesar das alterações introduzidas, o novo herói era um flagrante pastiche do Fantasma.

Curiosidades

*Um traje com músculos falsos semelhante àqueles que Michael Keaton vestiu nos dois filmes do Batman dirigidos por Tim Burton chegou a ser confecionado. Acabaria, no entanto, por não ser utilizado devido à excelente forma física alcançada por Billy Zane após um ano de treino intensivo;
*Para que o capuz do traje do Fantasma lhe assentasse o melhor possível, Zane rapou a cabeça, obrigando desse modo a que todas as cenas em que a sua personagem surgia à paisana fossem gravadas logo no arranque da produção;
*Imagem de marca na BD, os calções listrados que o Fantasma usa por cima das calças foram testados num dos protótipos do traje mas seriam igualmente descartados por serem considerados demasiado ridículos;
*Nos intervalos das filmagens, Billy Zane tinha por hábito ir comer sushi a um restaurante nas redondezas do set levando vestido figurino da sua personagem; 
*Falkmoore, o nome do mordomo dos Palmer, é na verdade uma amálgama dos apelidos do criador e do primeiro artista do Fantasma (Lee Falk e Ray Moore, respetivamente);
*Para não melindrar os indivíduos com esse apelido (muito comum entre os sikhs indianos), o Grande Kabai Singh e a sua Irmandade tiveram o nome alterado para Sengh;

Nem o Grande Kabai Sengh
 escapou aos ditames do politicamente correto.
*Jimmy Wells, o frívolo pretendente de Diana Palmer, marcou presença nas primeiras histórias do Fantasma, quando a identidade e motivações do herói eram ainda incógnitas por resolver. Lee Falk pretendia estabelecer Wells como o alter ego do Espírito-Que-Anda, chegando mesmo a plantar diversas pistas para esse efeito antes de definir a sua criação como o último representante de uma longa linhagem de combatentes do crime;
*Além das que serviriam para desenvolver o romance entre o Fantasma e Diana Palmer, foram igualmente cortadas duas cenas em que o herói enfrentava, respetivamente, um leão e uma jiboia; 
*Minnie Driver foi a primeira atriz escolhida para interpretar Sala, a deslumbrante líder da Sky Band. Conflitos de agenda ditariam, contudo, o seu afastamento do projeto. Também Jenny McCarthy e Jennifer Lopez participaram em audições para o papel que, por indicação de Simon Wincer, seria entregue a Catherine Zeta-Jones. Determinante para essa escolha foi o facto de o cineasta ter apreciado sobremaneira trabalhar com a atriz galesa em Indiana Jones: Crónicas da Juventude, série televisiva estreada em 1993;
*A caveira é o símbolo dominante no folclore associado ao Fantasma. A Caverna da Caveira serve-lhe de lar e de base de operações, o herói usa um Anel da Caveira e, na película, procura resgatar um tríptico de caveiras imbuídas de poderes místicos. Uma observação atenta dos seus paramentos cinematográficos permitirá ainda detetar várias caveiras estampadas no tecido;
*Em meados dos anos 70 do último século, um filme de baixo orçamento do Fantasma entrou em pré-produção no México. O papel principal seria assumido por ninguém menos do que Adam West, o Batman televisivo da década anterior. Problemas relacionados com os direitos da personagem inviabilizaram, contudo, o projeto;
*Escrita por Rob MacGregor - autor das adaptações literárias de Indiana Jones - a novela epónima baseada em The Phantom apresentava os antecedentes de várias personagens e explorava mais pormenorizadamente a origem do Fantasma. Várias sequências eliminadas do filme foram também incluídas no livro.

The Phantom
teve direito a adaptação literária.

Veredito: 62%

Divertido e despretensioso, O Fantasma é outro filme de super-heróis menosprezado a que urge fazer alguma justiça. Tão despropositada como uma indicação aos Óscares seria a atribuição de uma Framboesa de Ouro a esta deliciosa extravagância com laivos de um romantismo antiquado.
Visualmente fantástico, O Fantasma, como quase todas as adaptações do género feitas naquela época, prima pela fidelidade ao conceito original (ou não tivesse Lee Falk feito questão de supervisionar a produção), e apresenta boas sequências de ação ao melhor estilo de Indiana Jones. Também a ideia de ambientar a trama na Idade de Ouro dos comics foi uma opção acertada.
Num flagrante contraste com o sorumbático realismo que tem caracterizado algumas das mais recentes transposições de super-heróis ao grande ecrã, O Fantasma é alegre e colorido, contagiando o espectador com o seu otimismo. Personagens caricaturais e estereotipadas, como Xander Drax e Sala, mais não são do que reminiscências da cultura pulp, a que a película - seguindo as pisadas de O Sombra e Rocketeer, também eles mal-amados - presta tributo.
No que ao herói diz respeito, não se torna menos misterioso do que a sua contraparte da BD, apesar das revelações feitas sobre o seu passado. Billy Zane deu muito boa conta do recado, recusando-me, por isso, a alinhar na teoria conspiratória segundo a qual a película teria sido prejudicada devido à orientação sexual do ator, que é declaradamente gay.
Se é verdade que, à época, era menor a tolerância em relação à homossexualidade, também o era a apetência do público pelas aventuras cinematográficas de super-heróis. Prova disso mesmo é o confrangedor rol de fracassos que marcaram os anos 90: Barb Wire, Judge Dredd, Spawn, Steel e Tank Girl são apenas alguns exemplos de adaptações de personagens saídas dos quadradinhos que se saldaram por flopes de bilheteira. A perceção do género era, pois, muito diferente da atual.
Além de ter precedido em vários anos a avalanche de filmes com super-heróis em  curso desde o início deste século, O Fantasma, em virtude da sua reduzida expressão fora dos quadradinhos, era - e, lamentavelmente, continua a ser - um ilustre desconhecido para as gerações mais novas. Precisamente aquelas que alimentam a profusão de franquias lançadas entretanto pela Marvel e pela DC.
À luz da atual tendência - mais pronunciada nas megaproduções dos Estúdios Marvel - de reduzir os filmes com super-heróis a intermináveis sucessões de piadas forçadas, é bem provável que, se tivesse sido lançado nos dias que correm, O Fantasma, por conta do seu registo ligeiro, teria sido um blockbuster.
Não falta por aí quem rotule O Fantasma de kitsch ou exemplo acabado de trash movie. Eu prefiro chamar-lhe entretenimento em estado puro e um oásis de inocência, ideal para preencher matinés domingueiras ou serões em família.

A mãe de todas as ironias é
 quando um justiceiro é vítima de injustiça. 











segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

ETERNOS: ALEX RAYMOND (1909-1956)


  Precursor da Idade de Ouro da BD,  o virtuosismo e a exuberância da sua obra - que teve Flash Gordon como expoente máximo - valeu-lhe o epíteto de "o artista dos artistas". Fazendo-lhe jus, antes e depois da sua morte prematura, influenciou alguns dos seus pares mais ilustres e até cineastas visionários.

Fundada em 1688 por expatriados huguenotes fugidos às perseguições religiosas de que eram vítimas na sua França natal, Nova Rochelle, pequena e próspera cidade no sudeste do estado de Nova Iorque, orgulha-se sobremaneira da sua história e do seu riquíssimo património cultural. Do qual faz parte, entre outras celebridades que lá tiveram o seu berço, Alex Raymond. Um dos mais insignes e incensados mestres da 9ª Arte, cuja magnífica obra conserva um apelo intemporal tanto para os aficionados dos quadradinhos como para os oficiais do mesmo ofício.
Primogénito de um casal aburguesado composto por um engenheiro civil e uma mãe em tempo integral que além dele trouxeram ao mundo mais quatro filhos, Alexander Gillespie "Alex" Raymond, mercê da ascendência irlandesa do ramo materno da sua árvore genealógica entrelaçado nas raízes escocesas do seu pai, foi educado em harmonia com os preceitos do catolicismo numa cidade erigida por protestantes do Velho Mundo.
Desde tenra idade evidenciando excecional aptidão para o desenho, o pequeno Alex foi incentivado pelo pai - de quem herdara o nome e a pertinácia - a sublimar o seu traço. À guisa de recompensa pelo afinco do gaiato, várias das suas primeiras produções artísticas forraram as paredes do escritório do seu ufano progenitor, incansável em exibi-las a todos quantos lá adentravam. E que, não raro, ficavam abismados com o admirável talento do artista de palmo e meio.
Este e outros episódios de uma infância idílica pareciam prenunciar um futuro radioso para Alex Raymond. Futuro esse que ficaria, porém, repentinamente mais sombrio, na esteira do inesperado falecimento do seu pai.

O charme histórico de Nova Rochelle,
a cidade que viu nascer Alex Raymond.
Então um rapazinho de apenas 12 anos de idade e de coração entrevado pela dolorosa perda do seu ídolo, Alex Raymond viu-se obrigado a estugar o passo na sinuosa charneca da puberdade e a repensar todo o seu projeto de vida.
Em virtude da sua precoce orfandade, Alex Raymond tornou-se descrente na possibilidade de vir a construir uma carreira ligada às artes plásticas. Feito adulto antes de tempo, considerou, por isso, prudente expandir os seus horizontes profissionais. Com esse desígnio em mente - e beneficiando de uma bolsa de estudo atlética -, ingressou pouco depois na Iona Preparatory School, prestigiadíssima escola católica frequentada pela prole da fina-flor de Nova Rochelle e com admissão reservada a alunos do sexo masculino.
Concluído, sem sobressaltos de maior, o ensino secundário, Alex Raymond, na antessala da maioridade, conseguiu o seu primeiro emprego como estafeta em Wall Street. No coração financeiro da América, durante os loucos anos 20, prometia-se fortuna fácil a todos quantos se dispusessem a apostar no grande casino bolsista.
Em 1930, quando, devido ao crash bolsista do ano anterior, do Sonho Americano já pouco mais restava além de uma mala de cartão e de um par de sapatos muito gastos, Alex Raymond garantia agora o seu sustento como solicitador numa corretora de hipotecas.
Sem nunca desistir de cumprir o sonho de, um dia, vir a ganhar a vida a desenhar, Alex Raymond encetara, em paralelo, os seus estudos de Arte e Ilustração na afamada Grand Central School of Art de Nova Iorque, onde a ninguém passou despercebida a invulgar destreza do seu lápis.
Seria, contudo, a preciosa ajuda de Russell Westover, cartunista veterano celebrizado pelo seu trabalho em Tillie the Toiler - uma das mais populares tiras diárias que, naqueles dias de desesperança, distraíam os leitores estadunidenses das deprimentes manchetes dos tabloides - a fazer a diferença na vida de Alex Raymond. Foi, pois, pela mão deste seu antigo vizinho que o jovem Alex deu os primeiros passos na cada vez mais dinâmica indústria dos quadradinhos.
Ao serviço do King Features Syndicate - o lendário consórcio que provia de ilustrações boa parte da imprensa da altura -, Alex Raymond começou por ser o artista "fantasma" de Tillie the Toiler, emulando o traço do próprio Russell Westover. De cujo irmão, Lyman, seria também assistente na série Tim Tyler's Luck cabendo-lhe, além das tiras diárias, a produção das respetivas páginas dominicais.

Foi como artista "fantasma" de Tillie the Toliler
 que Alex Raymond fez a sua estreia nos meandros da 9ª Arte.
Nesses convulsos alvores da década de 1930, quando corria pelo mundo uma aragem de mau agoiro, as tiras de banda desenhada dedicadas às trepidantes aventuras de arquétipos varonis como Buck Rogers, Dick Tracy e Tarzan estavam em franca ascensão.
Enquanto os leitores se embeveciam com a gesta dessas e de outras personagens romanescas aparentadas com os super-heróis modernos, estava em curso uma guerra surda entre os vários syndicates. Cada um deles estava apostado em apresentar a tira mais cativante e o herói mais carismático.
A única exceção parecia ser o King Features Syndicate, à primeira vista alheado dessa acesa disputa pela preferência do público. Na verdade, os seus editores esperavam apenas o momento certo para entrar na liça. Até aí fechada em copas, a companhia fundada em 1914 e por onde passariam também Fantasma, Mandrake e Popeye, preparava-se para lançar, de rajada, uma mão-cheia de trunfos que prometiam virar por completo o jogo a seu favor.
Com efeito, em finais de 1933, Alex Raymond foi incumbido de desenvolver uma nova página dominical protagonizada por um aventureiro interplanetário que deveria competir diretamente com Buck Rogers. Criado 5 anos antes pelo escritor Philip Francis Nowlan, o intrépido herói futurista fora coroado rei da ficção científica, arregimentando, intra e extramuros, uma legião de fãs de todas as idades. Um reinado absoluto que tinha, no entanto, os dias contados.
Em articulação com Don Moore, escritor consagrado da literatura pulp  - e, ao que consta, acolhendo a sugestão feita pelo então presidente do King Features Syndicate, Joe Connolly - , Alex Raymond produziu um épico da ficção científica marcado pela sumptuosidade visual e inspirado no visionarismo da obra literária de Júlio Verne. A protagonizá-lo Flash Gordon, um jogador de polo de fisionomia apolínea e com a coragem de um Aquiles dos tempos modernos. Coadjuvado por Dale Arden - a sua delicodoce namorada - e pelo Doutor Hans Zarkov - génio científico e o mais leal dos seus amigos - o herói desdobrava-se entre a Terra e Mongo, o exótico planeta governado com punho férreo pelo crudelíssimo Imperador Ming, desde logo alcandorado a seu arqui-inimigo.
Um universo onde existia, de facto, mais fantasia do que ficção científica. E que, em derradeira análise, servia para Alex Raymond exercitar a sua pródiga imaginação.


Um dos muitos duelos de Flash Gordon com o Imperador Ming
 e o seu romance com Dale Arden imortalizados pelo primoroso traço de Alex Raymond.
Finalmente resgatado ao anonimato, Alex Raymond ansiava por demonstrar o seu real valor enquanto artista. Imprimiu, por conseguinte, o seu estilo elegante e límpido nas historietas de Flash Gordon, virtuosamente buriladas pelo seu lápis e prenhes de referências mitológicas. Compensando com a sua magistral conceção plástica as debilidades das tramas nas quais se perpetuava um maniqueísmo denunciador dos princípios morais do autor.
A Alex Raymond fora concomitantemente confiada a missão de criar uma personagem capaz de ombrear com Tarzan, cujas tiras diárias o haviam elevado ao estatuto de ícone popular. Foi nesse contexto que despontou Jim das Selvas (Jungle Jim, no original), servindo as florestas luxuriantes do Extremo Oriente de cenário principal às suas aventuras.
Apesar de, por oposição a Flash Gordon, nunca ter logrado superar o seu rival, Jim das Selvas obteve apreciável sucesso. Graças, uma vez mais, ao requinte do traço de Alex Raymond, esta sua segunda criação teve o mérito de se afirmar como uma alternativa consistente ao Homem-Macaco saído da imaginação de Edgar Rice Burroughs.

Jungle Jim, um rival à altura de Tarzan.
Cada vez mais aclamado pelos leitores, Alex Raymond depressa se tornou o artista mais requisitado pelos editores do King Features Syndicate. Que, no início, de 1934 (apenas duas semanas após a estreia de Flash Gordon e Jungle Jim), o cooptaram para ilustrar Secret Agent X-9, uma tira de espionagem escrita pelo famoso romancista Dashiell Hammett, e destinada a concorrer com as aventuras de Dick Tracy.
Obrigado a trabalhar a um ritmo infernal para conseguir produzir todas as tiras diárias e respetivas páginas dominicais, Alex Raymond, à beira do esgotamento, aproveitou a saída de Hammett, nos primeiros meses de 1935, para também ele abandonar as histórias do Agente X-9. Deixando para trás um trabalho que não é consensual entre os críticos da 9ª Arte. Entre os que o reverenciam como a melhor arte interior da época e os que lhe apontam algumas falhas narrativas, as opiniões dividem-se.

O menos consensual dos trabalhos de Alex Raymond
 primou, ainda assim, pelo brilhantismo.
A passagem de testemunho nas histórias do Agente X-9 permitiu a Alex Raymond concentrar-se nas suas duas criações - Flash Gordon e Jim das Selvas. Enquanto o fazia, os anos seguintes trouxeram o dealbar da Idade de Ouro dos comics estadunidenses e o cortejo de horrores da II Guerra Mundial. Duas realidades perpendiculares, na medida em que, ao arrepio da neutralidade inicialmente declarada pelos EUA, muitos foram os ilustradores nascidos em terras do Tio Sam a assumirem desde cedo uma posição beligerante, passando a refletir o momento histórico nos seus trabalhos. Basta observar o material publicado à época para constatar essa evidência.
Ao mesmo tempo que Tarzan, Fantasma e outros heróis clássicos enfrentavam nas respetivas tiras a ameaça totalitária que nos anos vindouros colocaria o mundo à beira do precipício, Alex Raymond, por seu turno, fez das histórias de Flash Gordon parábolas do expansionismo nipónico.
Numa época em que o País do Sol Nascente já havia invadido a Manchúria chinesa, não foi fortuita a atribuição de feições vincadamente orientais ao Imperador Ming. Tampouco foi obra do acaso o seu Exército Imperial evocar a claque nazi-fascista que, por esses dias, marchava imparável sobre  o Velho Continente, esmagando a esperança e a liberdade dos povos sob as suas pesadas botifarras.
Quando o ignóbil ataque japonês a Pearl Harbor precipitou a entrada dos EUA num conflito no qual tinha até aí relutado em envolver-se, muitos desenhadores americanos já estavam preparados para  dar o seu contributo à causa aliada. E se a maior parte desse apoio se quedou pelas páginas de banda desenhada, alguns deles transferiram-no mesmo para o campo de batalha.
Entre o contingente de artistas que trocou temporariamente os lápis e os pincéis pelas espingardas e baionetas, incluía-se Alex Raymond. No entanto, como mais adiante se verá, esse seu fervor patriótico render-lhe-ia alguns amargos de boca.
O último dos irmãos Raymond a tornar-se um G.I. Joe, em fevereiro de 1944 Alex Raymond alistou-se nos Fuzileiros Navais norte-americanos, sendo acolhido como uma celebridade pelos seus companheiros de armas - muitos dos quais tinham crescido a ler as histórias de Flash Gordon. À deferência daqueles com quem se relacionava, correspondeu sempre Alex Raymond com a fleuma de um cavalheiro que recusou todos os pedestais em que quiseram colocá-lo.
Integrado no departamento de Relações Públicas da Marinha dos EUA, Alex Raymond produziu cartazes e outra imagética de cunho patriótico que serviam fins propagandísticos. Duas dessas obras - datadas ambas de 1944 - tornar-se-iam icónicas: Marines at Prayer (ilustração para o boletim oficial da tropa, que retratava um grupo de fuzileiros em oração em pleno campo de batalha) e o postal de Natal dos Marines, cuja receita de vendas servia para ajudar ao esforço de guerra.

A icónica ilustração Marines at Prayer serviu de capa ao boletim oficial dos Marines.

Desejoso de desempenhar um papel mais ativo no conflito, Alex Raymond requereu transferência, no início de 1945, para o teatro de operações do Pacífico. A bordo do porta-aviões U.S.S. Gilbert Islands, pôde dessa forma testemunhar in loco a lendária batalha de Okinawa, ainda hoje considerada a maior operação militar marítimo-aeroterrestre da História - vencida, a duras penas, pelas forças aliadas sob comando norte-americano.
Desmobilizado no início de 1946 com a patente de major, o regresso de Alex Raymond à vida civil começou por ficar marcado por um dissabor. Isto porque a sua vontade em retomar o seu trabalho com Flash Gordon esbarrou na intransigência do King Features Syndicate em afastar Austin Briggs, o artista que, com assinável mérito, o substituíra quando ele partira voluntariamente para a guerra.
Apesar de nunca se ter pronunciado publicamente sobre este assunto, familiares e amigos de Alex Raymond asseverariam mais tarde que ele ficara deveras ressentido com aquilo que considerava ter sido um tratamento desrespeitoso por parte dos seus empregadores. Porventura à laia de ressarcimento por tal descortesia, o King Features Syndicate ofereceu-lhe, no entanto, a oportunidade de criar uma nova tira.
Estreada em março de 1946, Rip Kirby - série que, 3 anos depois, valeria a Raymond um Reuben Award, o mais importante galardão com que foi laureado em vida - apresentava as aventuras de um ex-oficial da Marinha que, depois da guerra, se lançara numa carreira como detetive particular. Além das evidentes notas autobiográficas incutidas por Alex Raymond, as estórias tinham como pano de fundo os bastidores da alta burguesia nova-iorquina, nostálgica de um mundo aristocrático em vias de extinção.

Apesar de Flash Gordon ter sido a sua criação suprema,
 Rip Kirby é por muitos considerado a obra-prima de Alex Raymond.
Na tradição das novelas noir, as tramas de Rip Kirby mostravam como a podridão moral enquista amiúde as classes mais abastadas. Suprimindo o maniqueísmo quase pueril que caracterizara as narrativas de Flash Gordon, Alex Raymond explorava agora pontos de vista mais complexos. Deixando claro, por exemplo, que o crime é frequentemente produto de um sistema económico iníquo que gera hordas de excluídos.
Complementarmente à incrível evolução na construção psicológica das suas personagens, Alex Raymond, eterno perfecionista, desenvolveu um método de trabalho que envolvia fotografia, pesquisa exaustiva de ambientes, vestuários e costumes, bem como a utilização de modelos de carne e osso. Este último um expediente a que, de resto, já havia deitado mão quando fora ilustrador de revistas como a Blue Book, Esquire e Cosmopolitan.
A este propósito, diria Alex Raymond o seguinte: «Estou sinceramente convencido de que a banda desenhada é uma forma de arte autónoma. Reflete a sua época e a vida em geral com maior realismo e, graças à sua natureza criativa, é artisticamente mais válida do que uma simples ilustração. O ilustrador trabalha com uma máquina fotográfica e modelos; o artista de BD começa sempre por uma folha de papel em branco e inventa sozinho uma história inteira. É ao mesmo tempo escritor, diretor de cinema, editor e desenhador.»
Alex Raymond foi, de facto, muito mais do que um simples ilustrador ou desenhador. Consagrado ainda em vida como "o artista dos artistas", assumia-se mais como um esteta cuja sofisticação de estilo serviu de bitola a muitos dos seus pares. Bob Kane, Joe Shuster e Jack Kirby, seus contemporâneos, foram apenas alguns dos grandes vultos da 9ª Arte a reconhecerem a influência do criador de Flash Gordon no seu desenvolvimento artístico. Influência que não diminuiu após a morte prematura de Raymond, estendendo-se também ao cinema.
Admirador confesso do trabalho de Alex Raymond, George Lucas nunca fez segredo da inspiração que foi beber a Flash Gordon para idealizar o panteão de Star Wars - saga que, ironicamente, influenciaria a estética e a dinâmica narrativa do filme de Flash Gordon de 1980.


Star Wars e Flash Gordon: um círculo de influências
 que teve em Alex Raymond o seu eixo comum.
Há quem defenda que os artistas atingem o seu zénite criativo aos 50 anos, por ser nessa idade que o talento e a experiência se equilibram de forma harmoniosa. A existir algum vestígio de verdade nesse aforismo, Alex Raymond foi roubado ao mundo quando tinha ainda muito para oferecer-lhe.
Naquele fatídico dia 6 de setembro de 1956, a menos de um mês de cumprir o seu 47º aniversário, o criador de Flash Gordon, que tinha nos automóveis outra das suas paixões, seguia ao volante do elegante Corvette descapotável do seu amigo e colega de ofício Stan Drake. Segundo consta, para tentar fugir à chuva que começara entretanto a cair, circulava duas vezes acima do limite de velocidade estabelecido numa estrada de Westport, no estado norte-americano do Connecticut, quando se despistou e colidiu violentamente com uma árvore. Ao contrário de Drake, salvo pelo cinto de segurança que levava colocado, Raymond teve morte imediata.
Durante algum tempo as circunstâncias em que se deu o despiste fatal suscitaram especulações. Com o próprio Drake a dizer-se firmemente convencido que Raymond teria querido suicidar-se, alegadamente devido a um caso extraconjugal. A sustentar esta macabra tese - categoricamente desmentida por familiares e pelo biógrafo oficial do artista - o facto de, no mês que antecedeu a sua morte, Raymond ter estado envolvido em quatro(!) acidentes rodoviários.

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A paixão de Alex Raymond por bólides desportivos revelar-se-ia fatal.
Acidental ou não, a morte prematura de Alex Raymond teve o condão de aureolar ainda mais a vida e obra de um artista que, pelo esplendor imorredouro do seu legado, viverá para sempre no imaginário coletivo e continuará certamente a inspirar novos talentos dos quadradinhos. Que assim poderão calcorrear o seu próprio caminho alumiados pelo exemplo de um dos mais excelsos mestres da BD.
A ele este humilde escriba - iniciado, muitos anos atrás, no fascinante mundo dos quadradinhos precisamente através das estórias de Flash Gordon - se curva em respeitosa vénia, na esperança de que este singelo tributo sirva para ajudar à celebração da magnífica obra de Alex Raymond, para sempre o suprassumo dos artistas.

Apontamentos finais

*Depois de ter sido contemplado, em 1949, com um Reuben Award - prémio atribuído anualmente pela National Cartoonists Society -, Alex Raymond seria eleito no ano seguinte para presidir à instituição. Cargo que exerceu até 1951;
*Alex Raymond foi nomeado, a título póstumo, para o Will Eisner Comic Book Hall of Fame (1996) e para o Society of Illustrators Hall of Fame (2014), duas das maiores distinções concedidas aos profissionais da 9ª Arte;
*Casado durante mais de um quarto de século com Helen Frances Williams - mãe dos seus cinco filhos; dois rapazes e três raparigas -, Alex Raymond deu o nome de duas das suas filhas à namorada de Rip Kirby, Judith Lynne Dorian;
*Irmão mais novo de Alex Raymond, Jim Raymond (falecido em 1981), também abraçou uma bem-sucedida carreira como cartunista. No seu currículo destaca-se o seu trabalho como assistente do lendário Chic Young em Blondie, tira humorística publicada pelo King Features Syndicate a partir de 1930;
*Alex Raymond era tio-avô dos atores Kevin e Matt Dillon, filhos da sua irmã Beatrice.

Alex Raymond e Flash Gordon: um legado que ecoa nas estrelas.

Agradecimento muito especial ao meu bom e mui talentoso amigo Emerson Andrade que, com a bonomia com que sempre acede aos meus pedidos, restaurou digitalmente a imagem que serve de ilustração principal a este artigo e providenciou a belíssima montagem que o encerra. 







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