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quinta-feira, 8 de junho de 2017

GALERIA DE VILÕES: MERCENÁRIO



  Devido aos seus talentos únicos, é um dos mais cotados assassinos do submundo nova-iorquino. Quase sempre uma sentença de morte para os seus alvos, as suas sangrentas credenciais incluem duas ex-namoradas do Demolidor, por quem desenvolveu uma perturbadora obsessão. 

Denominação original: Bullseye (vocábulo inglês que designa o centro de um alvo e, por extensão, qualquer lançamento ou disparo que o atinja)
Licenciadora: Marvel Comics
Criadores: Marv Wolfman (história) e John Romita Sr. (arte conceitual)
Estreia: Daredevil #131 (março de 1976)
Alter egos: Lester,  Benjamin Poindexter e Leonard
Local de nascimento: Queens, Nova Iorque
Parentes conhecidos: Kingmaker (pai, falecido), mãe não-identificada; Nathan (irmão, falecido), os Wilkerson (família de acolhimento)
Ocupação: Assassino a soldo
Base operacional: Nova Iorque
Afiliações: Ex- soldado do Exército dos EUA; ex-operacional da NSA (sigla inglesa para Agência de Segurança Nacional); ex-membro do Tentáculo, dos Vingadores Sombrios e dos Thunderbolts; ex-sicário do Rei do Crime*, do Homem Púrpura e de Mysterio. 
Armas, poderes e habilidades: Atendendo ao caráter único dos seus talentos, especulou-se durante algum tempo que o Mercenário poderia ser um mutante. Sucessivas análises ao seu ADN refutariam contudo essa hipótese.
Apesar da sua natureza humana, o Mercenário nasceu com uma pontaria quase infalível e com a assombrosa habilidade de lançar virtualmente qualquer objeto com a força e precisão suficientes para o converter num projétil letal. Nas suas mãos, uma simples carta de baralho pode servir para lacerar a garganta de uma pessoa. Outra das suas mais notórias proezas consistiu em matar alguém com um palito arremessado a uma distância de várias centenas de metros.
A sua letalidade decorre igualmente da sua proficiência no manuseamento de todo o tipo de armas. A despeito de ser um exímio franco-atirador, a sua preferência recai habitualmente sobre as de arremesso, como os shurikens ou as adagas sai. Antes da ressurreição de Elektra, o Mercenário gostava de exibir aquela que usara para empalar a ex-amante do Demolidor, apenas para provocar o herói.

Shurikens são as armas prediletas do Mercenário.

Com uma condição física equivalente à de um atleta olímpico, após ter ficado paralisado na sequência de uma queda ocorrida durante um confronto com o Demolidor, o Mercenário teve a sua fisiologia incrementada por implantes de adamantium. Além de lhe proteger os ossos de fraturas, o revestimento metálico permite-lhe a execução de manobras e acrobacias interditas ao comum dos mortais. Tendo o processo em causa sido conduzido pelo próprio Lorde Vento Negro (Lord Dark Wind, no original), o qual incluiu um tratamento herbáceo para prevenir os efeitos de uma eventual rejeição do organismo do Mercenário ao metal injetado.
Recorde-se, a este propósito, que Lorde Vento Negro foi o inventor do procedimento de implantação de adamantium. Foi aliás nas suas anotações incompletas que os cientistas do Programa Arma X se basearam para o aplicar a Wolverine, que só sobreviveu graças ao seu fator de cura mutante.
Em complemento a tudo isto, o Mercenário é também um mestre das artes marciais. Mesmo desarmado, é um adversário de respeito mesmo quando tem pela frente outros lutadores de alto gabarito.
Meticuloso, o Mercenário tem por hábito estudar até o mais ínfimo detalhe dos seus alvos: histórico familiar, boletim clínico, relacionamentos, habilidades, etc. Informação que utiliza depois para tentar antecipar os movimentos dos seus oponentes em combate. Não raro, essa compulsão extravasa o campo profissional e adentra a esfera pessoal, como sucedeu com Elektra, por quem, a exemplo do Demolidor, desenvolveu em tempos uma perturbadora obsessão.
Após sofrer um ferimento na cabeça, durante um brevíssimo período de tempo, o Mercenário conseguia pressentir telepaticamente a presença do Demolidor. Tão depressa como se manifestou, o referido poder desvaneceu-se sem deixar vestígios.

Cartada mortal.
Fraquezas: Recorrentemente diagnosticado como um perigoso psicopata com um pronunciado viés sádico, o Mercenário possui de facto uma mente volátil, o que o torna suscetível a surtos psicóticos quando perde as estribeiras. 
Mesmo quando balança entre a razão e a insanidade, o Mercenário aproveita o seu trabalho de assassino contratado para satisfazer a sua compulsão homicida e para levar a cabo a sua vingança pessoal contra o Demolidor.
É igualmente propenso a paranoias e a delírios esquizofrénicos. Como, de resto, ficou demonstrado na ocasião em que, de tão obcecado com o Demolidor, se convenceu ser ele próprio o Homem Sem Medo. Ou quando passou a vislumbrar o rosto do herói em qualquer pessoa com quem se cruzava. Em ambos os casos, os seus distúrbios psíquicos foram preponderantes para a sua derrota.
Exames médicos posteriores revelariam, contudo, que os seus devaneios eram parcialmente causados por um tumor cerebral, que lhe foi entretanto cirurgicamente removido.
Ignora-se, por outro lado, se esse facto terá alguma correlação com o seu daltonismo, ou se essa sua condição será de origem genética. Certo é que, em determinados contextos, ela lhe pode causar constrangimentos, designadamente no que à identificação de um alvo diz respeito.
Por outro lado, apesar da sua mira quase perfeita, já denotou algumas dificuldades em atingir alvos em movimento.

Por vezes, a mente do Mercenário prega-lhe partidas.
Como quando passou a ver o Demolidor em cada rosto na multidão.
Histórico de publicação: Apesar de na sua primeira aparição, em Daredevil nº131 (março de 1976), o Mercenário ter sido desenhado por Bob Brown, os créditos da sua arte conceitual pertencem a John Romita Sr, que com o escritor Marv Wolfman** divide a "paternidade" da personagem.
Conhecido pelo seu sentido de humor torpe, o Mercenário parece divertir-se a ludibriar quem o investiga. Em 2004, a minissérie Bullseye: Greatest Hits propôs-se derramar alguma luz sobre o passado do vilão. Nela, ele afirmava chamar-se Leonard e relatou mesmo alguns pormenores biográficos. Mas logo se percebeu que boa parte deles (ou, quiçá, a totalidade) eram forjados.
No rescaldo de Civil War***, o escritor britânico Warren Ellis assumiu as histórias de Thunderbolts, incorporando o Mercenário no renovado elenco da equipa. Da qual, durante a saga Dark Reign (sequência direta de Secret Invasion), se transferiria para os Vingadores Sombrios. Assumindo nessa fase o codinome Gavião Arqueiro.

O Mercenário anuncia ao que vem em Daredevil nº131 (1976).
Ao mesmo tempo que se evidenciava em Dark Avengers, o Mercenário/Gavião Arqueiro protagonizou Dark Reign: Hawkeye, minissérie em 5 volumes com assinatura de Mark Diggle e Tom Raney. Ainda na sua qualidade de Vingador Sombrio, desempenhou papel crucial no crossover Dark Avengers/ Uncanny X-Men, publicado no verão de 2009.
Aparentemente morto pelo Demolidor em Shadowland nº1 (setembro de 2010), o Mercenário ressurgiria meses depois, nas páginas de Daredevil Vol.3 nº26. Apesar de ter milagrosamente sobrevivido aos graves ferimentos infligidos pelo seu velho inimigo, era agora um prisioneiro do próprio corpo. Quando finalmente recuperou a sua mobilidade, procurou vingar-se do Homem Sem Medo, acabando, no entanto, cego e desfigurado ao cair num tanque com resíduos radioativos.

Capa de Bullseye: Greatest Hits nº2 (2004), 
Origem: Quem se aventura a desvendar o mistério em que está envolto o passado do Mercenário corre o sério risco de se perder num labirinto de mentiras e enganos. Que o digam os agentes federais que, certa vez, o sujeitaram a um exaustivo interrogatório quando ele se encontrava confinado numa prisão de alta segurança.
Entre os vários elementos biográficos que o vilão lhes revelou, incluía-se a descrição da sua conturbada infância em Queens, na casa que compartilhava com o seu irmão mais velho e com o pai alcoólico que os molestava. E de como foi entregue aos cuidados de uma família de acolhimento depois de o seu irmão ter ateado fogo à casa numa tentativa fracassada de matar o progenitor.
No liceu, as suas habilidades inatas fizeram dele o astro da equipa de basebol, chegando mesmo a ser-lhe oferecida uma bolsa de estudo. Terá preferido, contudo, jogar nas ligas secundárias onde continuou a sobressair como exímio lançador.
Até ao dia em que aceitou um suborno para falhar todos os arremessos numa partida decisiva. Em resposta às provocações de um jogador adversário, alvejou-o na cabeça com a última bola do jogo, causando-lhe morte instantânea em plena quadra. Indiferente à comoção que varria as bancadas, terá exclamado alegremente "Bullseye!" ("Em cheio!", numa tradução adaptada).
Toda esta informação carece, porém, de confirmação. Tanto mais que o Mercenário já demonstrou ser uma fonte pouco confiável. Chegando mesmo a admitir ter inventado esta história apenas para zombar dos seus captores.

Terá o Mercenário passado ao lado
 de uma fulgurante carreira desportiva?
Certo é que, ao longo dos anos, ele apresentou outras versões dessa narrativa: numa delas, reconhecia ter sido ele o autor do incêndio que quase matara o pai; noutra, garantia tê-lo matado com um tiro na cabeça depois de lhe ter desenhado um alvo na testa enquanto ele dormia.
Alguns indícios sugerem, todavia, que, antes de empreender a sua carreira como assassino a soldo, o Mercenário terá sido um franco-atirador do Exército dos EUA, onde terá sido recrutado para a Agência de Segurança Nacional. Ao serviço da qual terá, alegadamente, viajado pelo mundo antes de ser dispensado com baixa desonrosa. Tudo porque terá, presumivelmente, usado os recursos da agência para montar um esquema de extorsão a narcotraficantes na Nicarágua. Quando este foi desmantelado pelo Justiceiro, o Mercenário desapareceu do radar.
Reapareceria algum tempo depois em Nova Iorque envergando já o seu icónico uniforme. A fim de publicitar os seus serviços de matador profissional, concedeu uma entrevista ao Clarim Diário, atraindo assim a atenção do Demolidor.
Depois de, num primeiro embate, ter levado a melhor sobre o Homem Sem Medo, sofreria uma humilhante derrota na segunda ocasião em que os dois mediram forças. Esse foi, aliás, o primeiro de muitos desaires às mãos do padroeiro da Cozinha do Inferno, tornando-o alvo de chacota nos meandros do submundo da Grande Maçã.
Apesar da mossa que isso causou na sua reputação, o Mercenário foi elevado a assassino-mor do Rei do Crime. Contudo, após nova temporada atrás das grades, ficou furioso ao descobrir que perdera o emprego para Elektra, a enigmática ninja que mantinha um tórrido romance com o Demolidor.



Um dos muitos duelos entre o Mercenário e o Demolidor.
Despeitado, o Mercenário confrontou Elektra, acabando por empalá-la com a sua própria adaga sai. Restaurada a sua reputação, o Mercenário recuperou o seu emprego na organização de Wilson Fisk. Mas foi sol de pouca dura.
Ávido de vingança pela morte da amada, o Demolidor derrotou uma vez o mais o Mercenário. No auge do combate, o vilão despencou do telhado de um prédio.
Paralisado numa cama de hospital e dependendo de um ventilador mecânico para respirar, seria de esperar que os seus dias de assassino contratado tivessem chegado ao fim. E, de facto, assim teria sido se Lorde Vento Negro, um cientista e senhor do crime japonês, não lhe tivesse infundido o esqueleto com adamantium.
Depois de uma curta estada no país do Sol Nascente ao serviço do seu benfeitor, o Mercenário regressaria a Nova Iorque para voltar a integrar a folha de pagamentos do Rei do Crime. O que, uma vez mais, o colocou na mira de um certo herói cego...

A morte de Elektra foi um dos pontos altos
da sangrenta carreira do Mercenário.

Miscelânea:

*Enquanto ao serviço do MARTELO (agência de contraterrorismo herdeira da SHIELD, que, entre outras coisas, tutelava os Vingadores Sombrios após os eventos de Invasão Secreta), ao Mercenário foi concedida uma autorização de segurança nível 5, a mais elevada no protocolo da instituição;
*Entre os mais insólitos objetos utilizados pelo Mercenário para matar alguém destacam-se um aviãozinho de papel, um caniche e até um dente que lhe fora arrancado durante uma zaragata, e que ele cuspiu como se de uma bala se tratasse;
*Amigos de longa data, Mercenário e Deadpool têm um passado em comum como soldados da fortuna e partilham praticamente o mesmo grau de insanidade mental;

Deadpool e Mercenário; almas gémeas.
*Prestes a ser executada a sangue-frio pelo Mercenário, Lindy Reynolds, a malograda esposa do herói conhecido como Sentinela, pediu-lhe, à laia de último desejo, que ele lhe revelasse o seu nome verdadeiro. Em resposta, o vilão apresentou-se simplesmente como Ben, numa possível referência a Benjamin Poindexter, o seu alter ego no Universo Ultimate, dimensão paralela povoada pelas versões revistas e atualizadas das principais personagens Marvel. À semelhança de quase todas elas, também o Mercenário teve a sua origem recontada;
*Além de Elektra e Karen Page, o Mercenário tentou matar também Milla Donovan, a ex-esposa (cega de nascença) de Matt Murdock. Na segunda ocasião em que o fez, foi detido pela Viúva Negra, também ela um antigo interesse amoroso do Demolidor;
*Aos olhos de muitos um émulo do Pistoleiro, são dois os aspetos essenciais que distinguem o Mercenário do seu homólogo da DC: a sua preferência por armas brancas e de arremesso em detrimento de armas de fogo, e a ausência de um espartano código de ética. Diferente do Pistoleiro, o Mercenário não tem pundonor em executar mulheres e crianças, tampouco separa negócios de assuntos pessoais.´

À falta de balas, o Mercenário
 pode usar um dente para tirar a vida a alguém.
Noutros segmentos culturais: Desde 2009 que o Mercenário ocupa um mui lisonjeiro 20º lugar na lista dos 100 melhores vilões da banda desenhada elaborada pela plataforma digital de entretenimento IGN. À frente, por exemplo, de outros expoentes de malignidade, como Ultron ou Venom.
Nos últimos anos tem sido também um habitué numa miríade de videojogos baseados no Universo Marvel. No mais recente, Marvel: Future Fight (2015), surge mesmo como personagem jogável.
Foi, no entanto, a sua passagem pelo grande ecrã que notabilizou o Mercenário junto do grande público. Em 2003, interpretado por Colin Farrell, o vilão teve papel de relevo em Daredevil, a primeira (e, até à data, única) longa-metragem do Homem Sem Medo.
Aproveitando a nacionalidade e o sotaque do ator escolhido para lhe dar vida, no filme o Mercenário tem raízes irlandesas. Surgindo também com roupagens muito diferentes daquelas que costuma usar nos quadradinhos. Em vez do tradicional uniforme azul e branco, o vilão enverga uma fatiota de cabedal de que nenhum gótico ou fã de heavy metal desdenharia. Não faltando, claro, o icónico alvo tatuado na fronte.
Tal como a sua contraparte dos comics, a versão cinematográfica do Mercenário tem nos shurikens a sua arma favorita, pese embora o seu arsenal inclua também pequenos objetos à primeira vista inócuos: clipes, cartas de baralho e até amendoins. Uma cena pós-créditos mostra-o, de resto, paralisado numa cama de hospital, sem que isso o impeça de usar uma agulha hipodérmica para empalar uma mosca sem contudo a matar. Murmurando depois, a custo, "Bullseye!". O que, neste contexto, poderá ser literalmente traduzido como "Na mosca!".

Colin Farrell emprestou o seu charme irlandês
ao Mercenário em Daredevil.

*Prontuário do Rei do Crime em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2015/09/galeria-de-viloes-rei-do-crime.html
**Perfil de Marv Wolfman em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2014/09/eternos-marv-wolfman-1946.html
***Resenha alargada de Guerra Civil em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/12/classicos-revisitados-guerra-civil.html



sábado, 4 de junho de 2016

CLÁSSICOS REVISITADOS: «A QUEDA DE MURDOCK"



   O que move um homem que perdeu tudo? O que o faz levantar-se do fundo do poço? Caído em desgraça devido à traição de um antigo amor, o Demolidor embarca numa épica jornada de redenção. Uma admirável fábula de ruína e renascimento impregnada da genialidade de Frank Miller e que sinaliza um momento definidor na trajetória do herói cego.

Título original: Born Again
Licenciadora: Marvel Comics
Autores: Frank Miller* (trama) e David Mazzucchelli (arte)
Data de lançamento: Fevereiro a junho de 1986
Títulos abrangidos: Daredevil nº227 a 231
Personagens principais: Matt Murdock/Daredevil (Demolidor) e Wilson Fisk/Kingpin (Rei do Crime)
Coadjuvantes: Karen Page, Foggy Nelson, Ben Urich, Captain America (Capitão América) e Nuke (Bazuca)
Cenário: Cozinha do Inferno e outros pontos da cidade de Nova Iorque

* Perfil disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2012/11/eternos-frank-miller-1957.html


Capa da edição encadernada da saga original.

Edições em Português

Pouco mais de um ano transcorrido sobre o lançamento da saga nos EUA, Born Again (traduzido no Brasil como A Queda de Murdock) chegou às páginas de Superaventuras Marvel (SAM), almanaque mensal editado pela Abril. Dividida em sete capítulos, a história foi apresentada pela primeira vez aos leitores lusófonos entre agosto de 1987 e fevereiro de 1988, nos números 62 a 68 de SAM.
Ainda sob os auspícios da Abril, em 1999 chegaria às bancas a minissérie A Queda de Murdock, composta por quatro fascículos publicados quinzenalmente entre agosto e setembro desse ano.
Já este século, a saga teve direito a duas republicações por outras tantas editoras, em ambos os casos sob o formato de volumes únicos. A primeira, com a chancela da Panini Comics, remonta a julho de 2010. Inserida na  Coleção Oficial das Graphic Novels Marvel da Salvat, três anos depois A Queda de Murdock  foi uma vez mais revisitada na língua de Camões (ainda que na sua variante tropical).





O início da saga em SAM nº 62 (acima)
 e a sua última revisitação pela Salvat.

Antecedentes: Há precisamente 30 anos, a série mensal do Demolidor tentava ainda recuperar da perda de Frank Miller, que a abandonara em 1982. Denny O'Neil, o senhor que se seguiu, mesmo contando com a arrojada arte de um talentoso novato chamado David Mazzucchelli, revelava-se incapaz de manter a dinâmica narrativa incutida pelo seu antecessor.
Daredevil foi, de facto, o primeiro título regular da Marvel Comics assumido por Mazzucchelli após desenhar histórias avulsas em Indiana Jones, Star Wars e Master of Kung Fu. Impressionado com o trabalho do jovem ilustrador de ascendência italiana, Bud Budinsky, o então editor da série, convidou-o a desenhar o Homem Sem Medo. Coincidindo, no entanto, a estreia de Mazzucchelli na série com o período de férias de Denny O'Neil. Assim, a primeira história do Diabo da Guarda a que emprestou o seu traço era da autoria de Harlan Ellison, consagrado escritor de ficção científica e confesso apaixonado por super-heróis. Algo que desde logo foi considerado como um bom prenúncio.
Com efeito, a cada edição de Daredevil, evidenciava-se o crescimento artístico de Mazzucchelli que aos poucos foi seduzindo os leitores com o seu design  impressionista e arrojadamente simplista.

À data do lançamento de Born Again,
David Mazzucchelli era um talentoso novato.

Frank Miller, por seu turno, vinha traçando uma trajetória meteórica na indústria dos quadradinhos que, por esses dias, se pautava por profundas transformações. Tendo recebido carta branca da DC Comics, lançou Ronin (uma minissérie experimental que lhe valeu rasgados elogios) antes de ser colocado num pedestal devido à ovacionada saga Batman: The Dark Knight (Batman, o Cavaleiro das Trevas, Abril, 1987). No entanto, embora ausente do título do Homem Sem Medo, Miller não se afastara por completo do herói. Nesse período, produziu, numa bem-sucedida parceria criativa com Bill Sienkiewicz, a igualmente aclamada graphic novel Daredevil:Love and War (Demolidor: Amor e Guerra, Abril, 1988)).
O Demolidor, propriamente dito, chapinhava em águas pantanosas. Malgrado a competência narrativa  do veterano Denny O'Neil, os seus enredos não empolgavam os leitores, porventura mal habituados pela genialidade com que Miller infundira a série. O venerável escriba dera, entretanto, mais um sinal da sua intenção de reassumir uma personagem que tão bem conhecia.Presentando os seus saudosos fãs com uma pequena história ilustrada pelo lendário John Buscema e publicada em Daredevil nº219.
Quando O'Neil abandonou a série no final de 1985, Miller assumiu interinamente as histórias do Homem Sem Medo, exigindo que David Mazzucchelli, por cuja arte se dizia fascinado, continuasse a desenhá-las. O seu retorno efetivo só se verificaria, porém, alguns meses depois, começando de imediato a preparar o terreno para Born Again.

Frank Miller marcou uma era
nas histórias do Homem Sem Medo.

Em Daredevil nº227, edição onde foi dado a conhecer o primeiro dos sete capítulos que compunham a saga, a dupla Miller/Mazzucchelli, trabalhando numa harmoniosa simbiose criativa, tratou logo de estabelecer quem seriam os protagonistas. Além de Matt Murdock, estariam em evidência as seguintes personagens:

- Ben Urich, astuto e temerário repórter do Clarim Diário e um dos poucos conhecedores da verdadeira identidade do Demolidor;
Foggy Nelson, sócio e melhor amigo de Matt que, na esteira de importantes reveses, procurava relançar a sua carreira jurídica;
- Glorianna O'Breen, fotógrafa e atual namorada de Matt;
- Wilson Fisk, o Rei do Crime e arqui-inimigo do Homem Sem Medo;
- Karen Page, ex-secretária da firma de advogados Nelson & Murdock e antiga amante de Matt, desaparecida há vários anos após largar o emprego para rumar a Hollywood em busca de fama e fortuna como atriz. É ela, de resto, a personagem-chave da trama ao expor o maior segredo do Demolidor. Colocando dessa forma em movimento uma sinistra engrenagem que mudará para sempre a vida do herói.

Escrava do vício, Karen Page está disposta
 a tudo pela próxima dose de heroína.

Desde o início, Miller e Mazzucchelli tinham uma ideia muito clara do que pretendiam com Born Again. Era para ser uma fábula de ruína e redenção. Nesse sentido, eles testariam os limites do herói, levando-o à miséria, à loucura e, por fim, à beira da morte. Para, então, trazê-lo de volta purificado, praticamente renascido. Daí o título original da saga (Born Again = Renascido). Já o título adotado no Brasil - A Queda de Murdock - enfatiza somente a primeira etapa dessa longa e árdua provação.
Além da oportunidade de explorar novas possibilidades para os coadjuvantes já conhecidos, Born Again permitiu a Miller e Mazzucchelli elaborar uma gama de conceitos que os interessavam naquela época.
Assim se explica, por exemplo, o acréscimo tardio à obra de Basuca (Nuke, no original), personagem que não figurava do esboço original. Desde a sua primeira passagem por Daredevil - e, sobretudo, após Batman, The Dark Knight - Miller vinha demonstrando um nítido interesse pela dimensão mítica do herói e pelo seu lugar no mundo moderno.
Basuca, o perturbado supersoldado dos anos 1980, serve portanto o duplo propósito de levar o leitor a questionar-se sobre esses temas, servindo ao mesmo tempo de mote para a entrada em cena do Capitão América. A polarização que se estabelece entre ambos chega a ser tão intensa e impactante como o confronto entre Batman e o Super-Homem em The Dark Knight.
Born Again tem ainda o condão de desvendar parcialmente um dos principais mistérios propostos por Miller aquando da sua primeira passagem pelas histórias do Homem Sem Medo: o verdadeiro destino da mãe de Matt Murdock. Rezam as crónicas que, meses antes, Denny O'Neil chegara a discutir com David Mazzucchelli o desenvolvimento de uma saga para abordar o assunto. Projeto que, devido à saída extemporânea do escritor, seria posto na gaveta antes mesmo de poder ser definida a respetiva tónica. Deixando assim via aberta para a inusitada revelação feita por Miller sobre uma das mais enigmáticas personagens do passado do Demolidor.
Resta apenas acrescentar que o fim de Born Again não encerrou a parceria entre Miller e Mazzucchelli. Dupla de sucesso que se reuniria logo em 1987 para, agora ao serviço da DC, produzir o magistral arco de histórias Batman: Year One (Batman: Ano Um, Abril, 1987).

Basuca, o reflexo distorcido do Capitão América.

Enredo: Karen Page, antiga secretária da Nelson & Murdock e ex-namorada de Matt, partira anos atrás para Hollywood no encalço do sonho de construir uma carreira ligada ao cinema. Após algumas experiências positivas como atriz, tornou-se uma heroinómana, vendo-se obrigada a participar em filmes pornográficos rodados no México para sustentar o vício. Tolhida pela ressaca, ela aceita vender um segredo que guardava há largos anos a troco de uma dose de droga: o de que Matt Murdock é o Demolidor. Informação que não tardaria a ser repassada ao Rei do Crime.
Nos meses seguintes, o poderoso chefe do submundo do crime nova-iorquino usa a sua influência junto de diversas entidades para arruinar a vida ao seu ódio de estimação. Para começar, Matt tem as suas contas bancárias congeladas pelo Fisco. Segue-se uma ordem de despejo do seu apartamento interposta pelo banco com o qual ficara em incumprimento. A estocada final é desferida sob a forma de um falso depoimento prestado em tribunal por um agente policial corrupto que, a mando de Fisk, acusa Matt Murdock de ter subornado uma testemunha para cometer perjúrio.
Como se tudo isso não fosse suficiente para desmoralizar qualquer um, Glorianna O'Breen, a atual namorada de Matt, anuncia a sua intenção de pôr um ponto final à relação de ambos. Reatando de seguida o seu romance com Foggy Nelson, sócio e melhor amigo de Murdock.
Acossado, o Homem Sem Medo pressente que está a ser alvo de uma cabala para o destruir e resolve descobrir quem está por detrás dela. As suas investigações iniciais levam-no até um sujeito chamado Nick Manolis. A troco de tratamento médico para o seu filho gravemente doente, Manolis tem ajudado a tramar Matt Murdock. No entanto, malgrado os seus esforços, o Homem Sem Medo não consegue descobrir quem está por detrás do complô, tampouco consegue provar a sua inocência.
Graças ao brilhante trabalho jurídico de Foggy Nelson, Matt escapa a uma pena de prisão efetiva, mas tem cassada a sua licença de advogado. Frustrado o seu plano original, o Rei do Crime ordena um ataque à bomba ao apartamento de Matt. Ordena também que o traje do Demolidor seja deixado entre os destroços fumegantes, para que o herói tome consciência de que a sua identidade deixou de ser secreta para o seu maior inimigo. E que é ele o responsável pelo seu tormento.

Uma mensagem do Rei do Crime deixada
entre as ruínas fumegantes do lar de Matt Murdock.
Tentando tirar o maior proveito possível dessa vantagem tática, o Rei do Crime ordena a morte de toda e qualquer pessoa que conheça a verdadeira identidade do Demolidor. Karen Page consegue, porém, iludir os seus carrascos e planeia retornar a Nova Iorque na esperança de conseguir chegar até Matt.
Agora um sem-abrigo, Matt desenvolve uma personalidade paranoide e assume comportamentos extremamente agressivos. A sua paranoia é, todavia, real visto que ele é constantemente vigiado por esbirros do Rei do Crime, que lhe fornecem relatórios detalhados do estado de saúde de Matt.
Impelido por um fortíssimo desejo de vingança, Matt Murdock confronta Wilson Fisk no seu próprio escritório. Física e mentalmente diminuído, o herói acaba, porém, brutalmente espancado às mãos do seu arqui-inimigo. De seguida, visando prevenir uma eventual investigação policial à morte de Murdock, o seu corpo manietado é regado com uísque antes de ser enfiado no interior de um táxi roubado, que é, depois, empurrado para o East River. A água gelada faz no entanto com que Matt recupere os sentidos e consiga libertar-se da armadilha fatal, nadando depois até à superfície.
Ferido com gravidade, Matt cambaleia pelas ruas da Cozinha do Inferno até conseguir chegar ao bafiento ginásio onde o seu pai outrora treinara como pugilista. Local onde é encontrado pela sua mãe, cujo paradeiro era incerto desde o seu nascimento. Mas que tinha, afinal, abraçado uma carreira religiosa como freira numa igreja das redondezas. É ela quem cuida dos ferimentos do filho, velando e orando por ele enquanto o seu corpo se cura.

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Matt Murdock derrotado às mãos do seu arqui-inimigo.
Entrementes, Ben Urich, repórter do Clarim Diário e confidente de Matt, inicia uma investigação por contra própria aos recentes acontecimentos na vida do amigo. Investigação essa  que o conduz ao hospital onde o filho de Nick Manolis luta pela vida. Quando o menino exala o seu último suspiro, o pai confidencia a Ben o seu envolvimento numa cabala para arruinar Matt Murdock. Dando-lhe igualmente conta  das suas suspeitas de que por detrás dela estará ninguém menos do que o Rei do Crime. A conversa é, contudo, abruptamente interrompida por Lois,  uma espadaúda enfermeira a soldo de Fisk.  Depois de partir os dedos de uma mão a Urich, ela espanca Manolis quase até à morte.
Dias depois, Manolis telefona a Urich a partir da sua cama de hospital com o objetivo de retomar a sua confissão. Antes que o possa fazer é novamente atacado pela enfermeira Lois que, desta vez, não tenciona deixar o serviço a meio. Manolis é assim lentamente esganado por ela enquanto do outro lado da linha Urich escuta, impotente, a sua agonia. Contudo, em vez de ficar intimidado, o repórter ganha novo alento para prosseguir com a sua investigação, alertando o seu jornal e as autoridades para o sucedido.
Karen Page chega entretanto a Nova Iorque após uma viagem de pesadelo.Que só foi possível graças à  boleia de um pervertido chamado Paul Scorcese que, a troco de favores sexuais, lhe fornece heroína. Sem demora, ela entra em contacto com Foggy Nelson a fim de se inteirar da condição de Matt Murdock. Ao detetar os sinais de agressão no corpo da jovem, Foggy insiste em levá-la para sua casa.
Cada vez mais obstinado em liquidar o Demolidor, o Rei do Crime recorre aos seus contactos nas altas esferas do Exército americano para assegurar os serviços de Bazuca, um supersoldado gerado pelo mesmo programa militar que criara o Capitão América. Para atrair o Homem Sem Medo para fora do seu esconderijo, Fisk envia um maníaco homicida - cuja fuga do hospício engendrara entretanto - para assassinar Foggy Nelson usando um uniforme idêntico ao do herói.
Depois de ter salvo Ben Urich de nova tentativa de homicídio perpetrada pela enfermeira Lois, Matt toma conhecimento da conspiração em curso para tirar a vida ao seu amigo e decide tomar providências para impedir que isso aconteça. Lois, por seu turno, fica sob custódia policial.
Longe dali, Karen Page surpreende Paul Scorcese a rondar o prédio onde Foggy Nelson reside. Receando que ele tencione matar o seu amigo, a jovem vai ao encontro de Scorcese na rua. Sendo ambos prontamente alvejados por atiradores furtivos a quem o Rei do Crime ordenara que abatessem qualquer pessoa que saísse do edifício. Instantes depois, é a vez do falso Demolidor chegar ao local, ansioso por executar a sua macabra missão. Deparando-se, porém, com Matt Murdock que facilmente neutraliza o impostor e salva Karen que fora apenas atingida de raspão pelo disparo do sniper.
Consumida pela culpa, a rapariga confessa-lhe ter sido ela a revelar o seu segredo. Mas Matt tranquiliza-a dizendo-lhe que já superara a perda dos seus bens materiais. Os dois refugiam-se em seguida num apartamento devoluto onde Matt ajuda Karen a suportar os efeitos da ressaca.

Karen Page expia os seus pecados
 nos braços de Matt Murdock.

Enquanto isso, a enfermeira Lois dispõe-se a testemunhar contra Wilson Fisk a troco de uma pena mais leve. Antes que possa fazê-lo, é assassinada a sangue-frio por um falso jornalista do Clarim Diário a quem concordara conceder uma entrevista. Falhado o seu plano para descobrir o paradeiro do Demolidor, o Rei do Crime ordena a Basuca um ataque generalizado à Cozinha do Inferno.
Basuca mata dezenas de civis inocentes e destrói o restaurante onde Matt Murdock vem trabalhando anonimamente. Ressurgindo em público pela primeira vez desde a destruição do seu lar, o Demolidor não tem outra alternativa se não provocar a queda do helicóptero em que o vilão se faz transportar. Embora ferido com gravidade, Basuca sobrevive e fica sob a custódia dos Vingadores que haviam entretanto acorrido ao local.
Perturbado pelo facto de Basuca ter uma bandeira dos EUA tatuada na face, o Capitão América resolve investigar o seu passado. Perante as respostas evasivas que obtém por parte das chefias militares, o Sentinela da Liberdade infiltra-se na base do Exército para onde Basuca fora entretanto transferido e vasculha arquivos confidenciais. A descoberta de que Basuca é um produto do mesmo programa militar que, durante a II Guerra Mundial, o transformou num formidável supersoldado, deixa o herói mortificado.

Diabo da Guarda renascido.
Basuca consegue entretanto evadir-se, sendo prontamente detido pelo Capitão América. Contudo, o Rei do Crime ordenara que Basuca fosse morto, acabando assim alvejado pelos militares. Chegado entretanto ao local, o Demolidor arranca o moribundo vilão das mãos do Sentinela da Liberdade e apressa-se a levá-lo à redação do Clarim Diário, na esperança de que ele possa testemunhar contra Fisk. Não é, porém, lesto o suficiente e Basuca morre antes de poder incriminar o seu ex-empregador.
Numa tentativa para resgatar Basuca, o Capitão América tropeça acidentalmente nos franco-atiradores  enviados para matá-lo. Um deles denuncia Wilson Fisk como tendo sido o mandante do ataque à Cozinha do Inferno que se saldou na perda de dezenas de vidas humanas. Rebenta o escândalo na comunicação social e chovem processos judiciais sobre Fisk. Este, apesar de conseguir ser ilibado de todas as acusações tem a sua imagem pública de respeitável homem de negócios destruída. Facto que motiva a deserção dos seus lugares-tenentes.
Mais obcecado do que nunca, o Rei do Crime logo começa a congeminar os seus planos de vingança contra Matt Murdock. Este, por sua vez, reencontra a felicidade na Cozinha do Inferno e ao lado de Karen Page, agora livre do vício. Mesmo sabendo no seu íntimo que, apesar de ter saído vencedor de mais esta batalha contra o seu némesis, a guerra entre ambos está longe de terminar...
     
Matt Murdock e Karen Page
 reencontram a esperança um no outro.

Simbolismo: Pejada de elementos religiosos relacionados com a mitologia cristã, a saga assume-se na sua essência como uma parábola bíblica. O próprio título original invoca uma frase que, segundo o Evangelho de João, terá sido proferida por Jesus Cristo para expressar a necessidade de preceder o início de uma nova vida com o fim da antiga.
Note-se, à guisa de curiosidade, que apesar de a história se desenrolar em plena quadra natalícia, a temática nela aflorada remete quase exclusivamente para a Páscoa (celebração da morte e ressurreição de Cristo). Senão vejamos: as páginas de abertura dos quatro primeiros capítulos mostram sempre Matt Murdock prostrado. Com a particularidade de, no segundo e terceiro capítulos, ele surgir enroscado em posição fetal. Ainda no terceiro capítulo, o herói - agora convertido num pária - arrasta-se ensanguentado pelas ruas da Cozinha do Inferno, numa óbvia alegoria da Via Sacra calcorreada pelo Messias até ao local da sua crucificação. Não faltando sequer as três quedas que terão marcado esse tortuoso percurso levado a cabo pelo Filho de Deus enquanto carregava uma pesada cruz de madeira.
Já a imagem que encerra esse capítulo (e que serve de ilustração principal deste artigo) invoca claramente a icónica Pietá de Michelangelo. Nela, um agonizante Matt Murdock jaz inerte no regaço da Irmã Maggie, que assim faz as vezes da Virgem Maria. Há ainda a ressaltar o pormenor de na referida imagem ser visível uma pomba branca pousada acima de ambos. Ave que, como é sabido, é tradicionalmente usada na iconografia cristã para simbolizar o Espírito Santo. Finalmente, a página de abertura do quinto capítulo da saga mostra Matt de pé, numa representação metafórica da ascensão de Cristo.
No que concerne ao simbolismo religioso subjacente à obra, importa ainda observar que todos os títulos dados aos capítulos que a compõem advêm de conceitos do Cristianismo (Apocalipse, Purgatório, etc.). Tudo elementos que refletem as raízes profundamente católicas de Frank Miller.

Apocalipse, Purgatório e Pária:
conceitos bíblicos titulam 3 primeiros capítulos da saga.

Sequela: Embora produzido por um conjunto de autores totalmente diverso do da saga original, o arco de histórias Last Rites, publicado nos números 297 a 300 de Daredevil, corresponde a um desdobramento de Born Again. Com a respetiva trama centrada na forma como o Homem Sem Medo destrói metodicamente a reputação pública de Wilson Fisk, ao mesmo tempo que o desapossa do seu vasto património espalhado pelo globo. Retribuindo assim as agruras que o Rei do Crime lhe infligira. Paralelismo que fica bem explícito quando, no desfecho da saga, o vilão, num momento de devaneio, balbucia "born again".
A história mostra também como Matt Murdock consegue recuperar a sua licença para exercer advocacia, a qual fora cassada em consequência da campanha difamatória orquestrada por Fisk na saga original.

Capa do capítulo final de Last Rites
(em Português traduzida como A Queda do Rei do Crime).

Notas finais:

Anos atrás, o realizador Mark Steven Johnson deu conta do seu interesse em dirigir uma sequela de Daredevil (longa-metragem de 2003 protagonizada por Ben Affleck), baseada em Born Again. Projeto que seria oficialmente descartado pela Fox em agosto de 2012, escassos meses antes de os direitos do filme reverterem para os Estúdios Marvel;
* Sob a égide da IDW Publishing, em 2012 foi dada à estampa David Mazzucchelli's Daredevil: Born Again - Artist's Editon. Trata-se de uma coletânea de 200 páginas impressas nas dimensões da  arte original de Mazzucchelli. Entre outros extras que fizeram as delícias dos fãs, o volume incluía notas editoriais e correções feitas ao trabalho da dupla de autores.

David Mazzucchelli autografa um exemplar
 da Artist´s Edition na Midtown Comics de NY em 2012.

Vale a pena ler?

Em 2001, o explosivo capítulo inaugural de Born Again foi votado pelos leitores como a 11ª melhor história da Marvel de todos os tempos.
É, no entanto, difícil explicar porque é tão fantástica a saga. É algo que o leitor terá de descobrir por si próprio. Pode até nem ser o tipo de  história que, pela sua intensidade psicológica e nível de violência, agradará a todos. Mas será certamente um bom entretenimento.
Na minha modesta opinião, Born Again poderá mesmo ser a melhor história alguma vez produzida pela Marvel. Mostrando-nos como um homem íntegro que perdeu tudo consegue reerguer-se mais forte do que nunca. Porque, mais do que o Demolidor, é Matt Murdock quem sobrevive a tão grande provação. É, pois, ele o verdadeiro herói da saga. Dispensando poderes espalhafatosos e pondo em evidência os seus maiores predicados: coragem e perseverança.
Uma palavra ainda para o magnífico trabalho desenvolvido por Frank Miller que  a par de Batman, The Dark Knight, tem em Born Again as suas obras-primas. Muitos foram os escritores que, ao longo das décadas, assumiram - com maior ou menor brilhantismo - as histórias do Homem Sem Medo. Mas nenhum deles sequer chegou perto da genialidade de Miller. Cuja visão marcou uma era no género super-heroístico, pavimentando caminho para a adultização que o caracteriza nos dias de hoje.




sexta-feira, 4 de setembro de 2015

GALERIA DE VILÕES: REI DO CRIME




   Escalou a pulso a íngreme hierarquia do submundo do crime organizado nova-iorquino, removendo todos os escolhos que apanhou pelo caminho. Chegado ao topo, vergou heróis e erigiu um poderoso império governado pela sua mão férrea.


Nome original da personagem: Kingpin
Criadores: Stan Lee (história) e John Romita (arte)
Primeira aparição: The Amazing Spider-Man nº50 (julho de 1967)
Licenciadora: Marvel Comics
Identidade civil: Wilson Grant Fisk
Local de nascimento: Nova Iorque
Parentes conhecidos: Vanessa Fisk (esposa falecida), Richard Fisk (filho falecido), Rebecca Fisk (nora falecida) e Maya Lopez (filha adotiva falecida)
Afiliação: Ex-diretor-executivo das Indústrias Fisk, dos Emissários do Mal, da Controlo de Danos e da fação de Las Vegas da HIDRA; atual líder da liga de ninjas assassinos conhecida como Tentáculo e de uma coalização de organizações criminosas da Costa Leste.
Base de operações: Outrora, o Rei do Crime teve como quartéis-generais a Torre Fisk e uma mansão em Las Vegas; presentemente prefere a mobilidade no terreno.
Armas, poderes e habilidades: Mesmo desprovido de capacidades sobre-humanas, o Rei do Crime é dotado de uma descomunal força física que lhe permite, por exemplo, levantar centenas de quilos sem grande esforço ou esmigalhar ossos e crânios de pessoas ou animais com as próprias mãos. Devido à sua maciça corpulência, é comum os seus adversários tomarem-no por obeso. Ignorando que Wilson Fisk é na verdade uma montanha de puro músculo graças às suas singulares características fisiológicas.
  Proficiente em esgrima, sumo e diversas outras artes marciais, o Rei do Crime é um combatente temível, cuja velocidade e resistência são frequentemente subestimadas. Com consequências dolorosas, ou até mesmo fatais, para os seus oponentes...
  Como principal arma, o Rei do Crime usa uma bengala especial apetrechada com raios laser. Em função da distância e da intensidade das rajadas disparadas, os resultados podem variar entre o simples atordoamento ou a total vaporização dos seus alvos. Na gravata usa também um broche de diamante contendo uma dose concentrada de gás soporífero destinado a neutralizar ameaças mais próximas. No capítulo defensivo, é habitual o vilão envergar um colete à prova de bala feito de kevlar dissimulado sob a sua sumptuosa indumentária.
  Extremamente inteligente e perspicaz, o Rei do Crime é apreciador da cultura clássica e mestre autodidata em ciência política e economia. Circunstâncias que lhe permitem controlar de forma hábil e implacável uma vasta gama de negócios lícitos e ilícitos, mas sempre altamente lucrativos. Preferindo, no entanto, quase sempre exercer a sua influência a partir dos bastidores, manipulando tudo e todos a seu belo prazer ao mesmo tempo que evita ilaquear-se nas teias da Justiça.

Figurino clássico de um vilão de peso.

Histórico de publicação: Segundo a ideia original de Stan Lee, o Rei do Crime corresponderia ao protótipo do padrinho da Máfia. No entanto, o seu parceiro criativo, John Romita, baseou-se na aparência física de Sydney Greenstreet (ator britânico notabilizado nos  anos 40 pelos seus papéis vilanescos no teatro e no cinema), conferindo-lhe dessa forma traços que pouco fariam lembrar os de um italo-descendente. Consequentemente, Lee reciclou a neófita personagem num inescrupuloso empresário americano
  Debutando num arco de histórias publicado nos números 50,51 e 52 de The Amazing Spider-Man (julho a setembro de 1967), Wilson Fisk foi inicialmente retratado como um tradicional chefe do crime organizado, embora com uma particular apetência por executar o  trabalho sujo. O próprio termo Kingpin (designação original da personagem) remete para  a nomenclatura do submundo do crime organizado, referindo-se a uma espécie de suserano medieval a quem outros chefes criminosos prestam tributo e vassalagem.

Foi nesta edição de The Amazing Spider-Man que, em 1967, o Rei do Crime teve a sua estreia oficial.
Sydney Greenstreet, o opulento ator britânico que serviu de modelo para Wilson Fisk.

  Ainda com Stan Lee a escrever as suas histórias, nas suas aparições posteriores o Rei do Crime foi progressivamente adquirindo características mais próximas das de um supervilão. Uma delas consistia na utilização de uma parafernália de dispositivos exóticos para enfrentar os heróis mascarados que ocasionalmente obstavam aos seus desígnios.

Stan Lee (esq.) e Joh Romita numa fotografia autografada de 1976.

  Através da sua participação em Daredevil no início dos anos 80 -  título à época escrito e ilustrado por Frank Miller - operou-se uma profunda transformação no Rei do Crime. De vulgar mafioso passou a grande senhor do crime organizado movendo-se sorrateiramente nos interstícios da Lei. Ganhando a personagem dessa forma maior dimensão e substância dentro do Universo Marvel.
  Depois de anos a ter como principal entrave aos seus estratagemas o Homem-Aranha, o vilão tornou-se assim inimigo jurado do Demolidor. Ao Escalador de Paredes e ao Homem Sem Medo, com o tempo Fisk acrescentaria o Justiceiro à sua (extensa) lista de ódios de estimação.


Suserano do submundo.

Biografia: De raízes humildes, Wilson Fisk teve uma infância triste em Nova Iorque, muito por conta da chacota e das intimidações de que era alvo na escola devido ao seu excesso de peso. Cansado de tanta humilhação, ele começou a treinar-se em combate corpo a corpo, explorando a sua já então impressionante força física. Recursos que usou para subjugar os seus antigos agressores, obrigando-os depois a juntarem-se à sua recém-formada quadrilha.
  Embora pequeno e formado por delinquentes juvenis, as ações do grupo logo chamaram a atenção de Don Rigoletto. Um influente mafioso de quem Fisk se tornaria guarda-costas e, posteriormente, braço direito. Anos mais tarde, porém, Fisk assassinaria o seu empregador, assumindo o controlo da sua quadrilha e dos seus negócios. Começando dessa forma a trilhar o sinuoso caminho que o conduziria ao trono do submundo da Cidade Que Nunca Dorme.
  À medida que expandia a sua influência e trepava a hierarquia do crime organizado, Wilson Fisk foi fazendo alguns inimigos de peso. Entre eles, o grupo terrorista HIDRA e o sindicato do crime conhecido como Maggia. As duas organizações conjugaram esforços para atacar o império do Rei do Crime, forçando-o a uma retirada estratégica para o Japão. País onde Fisk investiu no tráfico de especiarias para recuperar a sua fortuna.
  Tão logo dispôs de recursos financeiros suficientes, Fisk regressou a Nova Iorque determinado a derrubar a Maggia. Tendo, para esse efeito, instigado uma sangrenta guerra entre as várias quadrilhas que operavam na cidade. Em meio ao caos instalado, a sua intervenção serviu o duplo propósito de pacificar a situação e de reassumir o controlo da maior parte do crime organizado.
  Enquanto circulavam rumores sobre uma eventual saída de cena do Homem-Aranha, Wilson Fisk procurou formar uma coalização entre os diferentes ramos mafiosos da Costa Leste com o intuito de contrariar a hegemonia da Maggia. Chegou mesmo a ordenar o sequestro de J. Jonah Jameson, o irascível diretor do Clarim Diário que o expusera publicamente como Rei do Crime. Vendo, no entanto, os seus planos frustados pela ação do recém-regressado herói aracnídeo.

Aula prática de como esmagar uma aranha.

  Nos anos seguintes, Wilson Fisk esmerou-se em projetar uma fachada de legítimo homem de negócios e de filantropo, fazendo generosas doações a instituições de caridade. Granjeando desse modo a simpatia de parte da opinião pública ao mesmo tempo que desviava as atenções das suas atividades clandestinas.
  No auge do seu poder, Fisk conheceu Vanessa (cujo apelido de solteira se desconhece), aquela que viria tornar-se sua esposa e o grande amor da sua vida. No ano seguinte, o casal teve um filho a quem deram o nome de Richard. No entanto, a harmonia familiar seria seriamente abalada com a descoberta de Vanessa acerca da verdadeira natureza dos negócios do marido. (Pese embora não seja claro se ela já não estaria ciente dessa realidade.)
  Escandalizada com o facto de ter casado com um criminoso, Vanessa exigiu a Fisk que abdicasse do seu império. Caso contrário, ameaçava partir para longe levando com ela o filho de ambos.
 Temendo perder as duas únicas pessoas que amava no mundo, o Rei do Crime aposentou-se temporariamente e a família Fisk rumou outra vez a terras do Sol Nascente para uma espécie de exílio dourado. Que chegou ao fim quando alguns mafiosos usaram arquivos contendo provas irrefutáveis de delitos cometidos por alguns dos antigos rivais de Fisk como engodo para atraí-lo de volta a Nova Iorque.
  Alheio a tudo isto, Richard Fisk só descobriria que o seu pai era um senhor do crime quando já andava na faculdade. Após obter o diploma, o jovem informou os pais da sua intenção de passar uma temporada na Europa. Meses depois da sua partida para o Velho Continente, Fisk e Vanessa receberam a notícia de que o filho teria morrido num acidente de esqui.
  Tudo não passara, todavia, de uma macabra encenação levada a cabo por Richard, ressentido pelo facto de o seu pai ser um fora da lei. Disfarçado de um mafioso rival, o filho pródigo do Rei do Crime retornou a Nova Iorque com o fito de pôr um ponto final ao reinado de terror do seu progenitor.
  Ignorando ter como adversário alguém do seu sangue, o Rei do Crime empreendeu uma guerra sem quartel contra aquele que considerava ser uma ameaça não negligenciável contra os seus interesses. Com o conflito ao rubro, o Homem-Aranha interveio, tornando-se um alvo a abater para ambos os contendores.
  Revelada enfim a verdadeira identidade do seu rival, o Rei do Crime ficou em choque ao descobrir que se tratava do próprio filho, dado como morto anos atrás. Atendendo às súplicas de Vanessa, Fisk poupou a vida de Richard e concordou em desfazer-se do seu império criminoso. Não sem antes tentar, uma vez mais, liquidar um certo Escalador de Paredes.

Justiça cega para um Rei do Crime.

  Mesmo reformado, o Rei do Crime assumiria, pouco tempo depois, a direção-executiva da fação de Las Vegas da HIDRA. Altura em que cometeu um erro crasso que quase custaria a vida à sua esposa. Pressionado pelas autoridades, Fisk acedeu a fornecer-lhes os ficheiros que incriminavam os seus antigos lugares-tenentes. Em retaliação, estes sequestraram Vanessa e encenaram a sua execução.
  Transtornado pela aparente morte da mulher que amava, Fisk retomou a sua vida à margem da Lei. Tirando proveito do seu profundo conhecimento das fraquezas das diversas quadrilhas e comprometendo-se a estabilizar toda a Costa Leste, o Rei do Crime conseguiu rapidamente retomar as rédeas do submundo. Obteve também a fidelidade do volátil assassino de aluguer conhecido como Mercenário, a quem prometeu incluir na sua folha de pagamentos.
  Numa jogada de mestre, o Rei do Crime ofereceu ao Demolidor os ficheiros que incriminavam os mafiosos que continuavam sublevados, exortando o herói a entregá-los às autoridades. Circunstância que levaria à prisão de todos aqueles que lhe eram incómodos, abrindo assim caminho à sua substituição por elementos da sua confiança.
  Percebendo que isso atrapalharia os planos do seu némesis, o Homem Sem Medo recusou-se, porém, a entregar o referido material às autoridades. Depois de também fracassar na sua tentativa de manipular o herói contra o Tentáculo, o Rei do Crime ordenou ao Mercenário que o eliminasse de uma vez por todas. Entretanto, continuou a financiar secretamente a campanha eleitoral de Randolph Cherryh, candidato a mayor de Nova Iorque e sua marioneta no palco político.
  Sempre empenhado em reforçar o seu poder de fogo, o Rei do Crime conseguiu contratar também os serviços da ninja assassina chamada Elektra. Tratava-se da escultural filha de um empresário grego assassinado anos atrás por mafiosos e que, nos tempos de faculdade, vivera um tórrido romance com Matt Murdock, o alter ego do Demolidor. Este, por sua vez, encontrou Vanessa Fisk viva, mas amnésica. Aproveitando essa valiosa moeda de troca, o Diabo da Guarda propôs ao Rei do Crime devolver-lhe a sua adorada esposa se ele se comprometesse a deixar de financiar Cherryh.
   O vilão aceitou os termos do acordo mas, agastado por mais este revés às mãos do Demolidor, ordenou a Elektra que assassinasse Foggy Nelson. Advogado da Cozinha do Inferno, este era simultaneamente aliado do Homem Sem Medo e sócio e melhor amigo de Matt Murdock.
  Ao reconhecer Foggy, com quem privara ocasionalmente nos tempos de faculdade, Elektra hesitou e deixou-o escapar com vida. Acabando, contudo, morta às mãos do Mercenário. Mesmo sem o saber, o Rei do Crime sangrara o coração do seu arqui-inimigo.
  Algum tempo depois, Karen Page, outra ex-namorada de Matt Murdock e atual viciada em heroína, revelou a um traficante que o advogado cego e o Demolidor eram a mesma pessoa. Informação que logo chegou ao Rei do Crime.
  Sem hesitar, o vilão colocou em marcha um terrível plano de vingança que levaria à queda do seu maior inimigo. Consistindo a primeira etapa em arrasá-lo financeiramente, para de seguida o incriminar pelo pretenso suborno de uma testemunha que teria cometido perjúrio em tribunal contra Wilson Fisk. Em consequência disso, Matt teve a sua licença para exercer advocacia cassada.
 Profundamente perturbado a nível psicológico, Matt desenvolveu severos sintomas de paranoia e confrontou o Rei do Crime. Apenas para acabar selvaticamente espancado por ele antes de ser enfiado inconsciente dentro da bagageira de um carro que foi posteriormente lançado às águas de um rio na periferia de Nova Iorque. A ideia era fazer com que a morte do advogado caído em desgraça parecesse acidental. Porém, ele conseguiu milagrosamente escapar com vida..
  Convicto da morte do Demolidor, o Rei do Crime baixou a guarda e permitiu um xeque-mate do seu adversário. Não só teve as suas atividades ilegais expostas publicamente pelo Demolidor como perdeu Vanessa, levada por Matt Murdock para um esconderijo europeu. Falido e derrotado, o vilão parecia ter batido no fundo do poço.
  No entanto, sob circunstâncias difusas, Wilson Fisk tornou-se acionista do conglomerado Stark-Fujikawa, resgatando parte do poderio e influência que detivera outrora. Suficientes, ainda assim, para abrir caminho à reconstrução do seu império criminoso em Nova Iorque. Que, sob a sua mão de ferro, continuou a prosperar.

Com a Cidade Que Nunca Dorme a seus pés.

 
Noutros media: Ocupando um muito respeitável décimo lugar na lista dos cem melhores vilões dos quadradinhos elaborada pelo IGN, desde muito cedo que a influência do Rei do Crime se estendeu ao restante panorama audiovisual. Logo em 1967, ano da sua estreia nas histórias do Homem-Aranha, o vilão marcou presença em dois episódios da série de animação Spider-Man. Circunstância reeditada nos anos subsequentes em diversas produções similares com a chancela da Marvel, quase sempre estreladas pelo Escalador de Paredes. A única exceção foi a sua participação num episódio de Spider-Woman (1979-1980).
  No grande ecrã, a primeira aparição da personagem remonta a 1989, ano em que foi produzido o telefilme O Julgamento do Incrível Hulk ( que contava igualmente com a participação do Demolidor). Interpretado por John Rhys-Davies, o Rei do Crime é retratado como um génio criminoso, frio e calculista. Em 2003, foi a vez de Michael Clarke Duncan emprestar o seu imponente corpanzil à personagem na longa-metragem Demolidor (vide resenha já apresentada neste blogue). Escolha controversa, sendo o ator um afrodescendente.
Michael Clark Duncan foi o  Rei do Crime em Demolidor (2003).
 Além do cinema e da TV, o Rei do Crime também fez uma incursão no teatro. Em 2011, na peça musical Spider-Man: Turn Off the Dark, da autoria de Bono e The Edge dos U2 e que revisita a história do Homem-Aranha desde os seus primórdios, o vilão fez uma pequena aparição em cena.
  Já este ano, o Rei do Crime voltou ao pequeno ecrã - e à ribalta -  através da série televisiva baseada na mitologia do Homem Sem Medo. Numa versão muito próxima da original, o vilão é representado por Vicent D'Onofrio. Com a mais-valia de o enredo da série dar a conhecer pormenores fundamentais sobre o meio familiar de Wilson Fisk, fator determinante para uma melhor compreensão das suas motivações.

Vicent D'Onofrio encarna na perfeição Wilson Fisk na série televisiva Demolidor.