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segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

FÁBRICAS DE MITOS: FOX COMICS


  Apesar dos delírios de grandeza do seu excêntrico fundador - o autoproclamado Rei dos Quadradinhos - teria sido nota de rodapé na história da 9ª Arte se não tivesse sido a primeira editora a plagiar o Homem de Aço. Antes do naufrágio anunciado navegou em águas turvas e teve no Besouro Azul a sua figura de proa.

Façanhas de um flibusteiro

Também conhecida como Fox Feature Syndicate ou Fox Publications (e sem qualquer relação com a 20th Century Fox ou o canal FOX), a Fox Comics, fundada no início de 1939, foi uma das primeiras editoras de banda desenhada surgidas nesse período transcendente que foi a Idade de Ouro. Como em tantos outros casos, a sua história confunde-se com a do seu fundador. Sucede que este, mercê das suas inúmeras tropelias, foi uma personagem mais interessante do que qualquer uma das que foram publicadas pela sua empresa. Ou não tivesse ele sido uma espécie de flibusteiro dos tempos modernos com sonhos de grandeza e os predicados morais do animal a que pediu emprestado o nome.
Na raiz de todas as lendas estão antecedentes obscuros e notáveis façanhas, ambos abundantes na esconsa biografia do autoproclamado Rei dos Quadradinhos, cujo reinado, estribado em toda a sorte de trafulhices, merece ser revisitado.
De seu nome completo Samuel Victor Joseph Fox, o controverso fundador da Fox Comics viu a primeira luz do dia a 3 de julho de 1893 no condado de Nottinghamshire, no coração da Velha Albion. Quarto dos seis filhos nascidos a casal de russos emigrados em terras de Sua Majestade, contava apenas cinco anos de idade quando acompanhou a família numa viagem para o Novo Mundo à conquista do sonho americano.
Após duas décadas hospedado em Fall River, no Massachusetts, em 1917 o clã Fox mudou-se de armas e bagagens para Nova Iorque, onde Joseph, o patriarca, abriu uma boutique de roupa feminina.
Quase nada se sabe acerca desses primeiros anos de Victor S. Fox (como se perceberá, o S poderia muito bem ser de "salafrário"), na cidade que nunca dorme. No entanto, levando em conta o que dele se conhece, é pouco crível que, durante essa fase da sua vida, se tenha conseguido manter longe de sarilhos.
De todo o modo, em 1929, ano do crash bolsista que, de uma penada, arruinou a economia estadunidense e milhares de vidas, alguém com o mesmo nome foi indiciado por fraude postal e comercialização ilegal de ações.  Fox, que à data ganhava efetivamente a vida como corretor bolsista, sempre negou ser ele o visado no processo. Do qual acabaria, aliás, por não decorrer qualquer acusação formal.

Victor Fox, o autointitulado Rei dos Quadradinhos.
A despeito disso, essa não seria a única vez que Victor Fox (ou um seu sósia) se veria a contas com a Justiça. Em 1944, surgiu novamente identificado nos autos de um processo por corrupção como associado de uma empresa de construção naval chamada Cornwall Shipbuilding Company. Sabendo-se apenas que foi arrolado como testemunha no julgamento de um oficial do Exército acusado de ter recebido subornos para favorecer a referida companhia nos contratos celebrados com esse ramo das forças armadas norte-americanas. Tratando-se, ou não, da mesma pessoa, certo é que Victor Fox voltou a escapar incólume.
Não excluindo, obviamente, a possibilidade de, mais uma vez, estarmos perante uma infeliz coincidência nominal, um par de anos volvidos, em 1946, o mesmo Victor S. Fox surgiria referenciado num artigo do New York Times sobre especulação imobiliária como um editor de revistas sediado - pasme-se! - no mesmo edifício nova-iorquino que servia de quartel-general à Fox Comics.

Raposa matreira 

Mas recuemos um pouco no tempo para melhor perceber a ascensão e queda do Rei dos Quadradinhos. Mais precisamente até 1933, pois foi nesse ano que os chamados comic books emergiram no panorama cultural norte-americano tolhido pelos efeitos da Grande Depressão. Apesar da sua modesta prestação comercial nos anos imediatos, tudo mudaria naquele mágico dia de junho de 1938 em que Action Comics nº1 chegou às bancas e escaparates. Ao mesmo tempo que apresentava o Super-Homem ao mundo, essa edição histórica plantava as sementes para o que viria a ser uma indústria florescente.

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Nada seria igual após a estreia do Super-Homem.
Da noite para o dia, o formato que servira, essencialmente, para reaproveitar tiras anteriormente publicadas em jornais transformou-se num fenómeno de vendas, abrindo caminho para um negócio deveras lucrativo. Que, não raro, atraiu indivíduos de reputação duvidosa. De antigos editores de literatura de cordel a contrabandistas à procura de investimentos legítimos, passando por simples arrivistas (laia a que pertencia Victor Fox), todos desejavam explorar o recém-descoberto filão.
Afinal de contas, qualquer um com um módico de capital disponível poderia contratar, a troco de quase nada, artistas - ou aspirantes a artistas - para desenharem histórias aos quadradinhos. Recrutada essa mão-de-obra barata, os donos das editoras que iam despontando como cogumelos apenas teriam, em seguida, de negociar com uma gráfica e com um distribuidor para porem o seu negócio em marcha acelerada.
Enquanto escritores e ilustradores, pagos à peça, laboravam em condições que pouco diferiam da linha de montagem de uma fábrica, os editores, esses, enriqueciam sem grande esforço. Era, no fundo, a quintessência do capitalismo, irresistível para alguém com a natureza rapace de Victor Fox.
Ainda que essa informação seja posta em causa por alguns historiadores - porém testificada por várias pessoas da privança do fundador da Fox Comics - reza a lenda que Victor Fox foi, durante brevíssimos minutos, contabilista da National Publications, uma das empresas antepassadas da atual DC Comics.
Na versão mais comum dos acontecimentos, Fox terá chegado aos escritórios da National por volta das dez horas da manhã e, após examinar os gráficos de vendas estratosféricas de Action Comics, apresentou demissão menos de uma hora depois, passando o resto do dia a negociar o aluguer de um escritório no mesmo edifício onde o Super-Homem pendurava a capa - embora num piso superior.
Ao final da tarde desse mesmo dia, Fox havia já requisitado uma revista de 64 páginas ao Eisner & Iger, o mais afamado dos estúdios que, nos primórdios da indústria dos quadradinhos, providenciavam matéria-prima às editoras que, na sua larga maioria, não dispunham de staff próprio.
Existe, no entanto, uma versão alternativa desta história. À falta de documentação que comprove que, em algum momento da sua vida, Victor Fox terá sido, de facto, contabilista da National Publications, o historiador Christopher Irving sustenta que ele terá, em vez disso, obtido informação privilegiada através de um distribuidor comum quando se aventurou na publicação de uma revista de astrologia. Apresentados os cenários, fica ao critério de cada um acreditar naquele que mais lhe aprouver.

Rei sem coroa 

Julgando, porventura, ter tido uma epifania ou um vislumbre do futuro, Victor Fox acreditava que, uma vez lançada a sua própria editora, poderia vergar a concorrência e ditar as regras no incipiente negócio dos comic books.
Como sempre acontece com os megalómanos, a cabeça de Fox começou a girar de forma preocupante e ele começou a ver-se como o Rei dos Quadradinhos. Porém, o seu "reinado" começou atribulado e só por sorte não foi prontamente deposto.
Na primavera de 1939, a recém-fundada Fox Comics lançou aquele que deveria ter sido o seu primeiro título de super-heróis. Contudo, tão-logo Wonder Comics chegou às bancas, o seu protagonista, Wonder Man, foi chamado ao banco dos réus acusado de ser um pastiche mal disfarçado do Super-Homem. Inaugurando, assim, o apreciável rol de processos por plágio interpostos pela National Publications, sempre muito ciosa da sua galinha dos ovos de ouro.
Na véspera de ir prestar depoimento ajuramentado em tribunal, Will Eisner, que concebera Wonder Man segundo as especificações de Victor Fox, foi convocado para uma reunião no escritório deste. Sem meias palavras, Fox tratou logo de dizer o que pretendia: Eisner - que, no ano seguinte, criaria The Spirit, tornando-se um dos grandes vultos da 9ª Arte - deveria admitir perante o juiz ter partido dele a ideia de criar um Super-Homem genérico.
Recusando cometer perjúrio, no dia seguinte, em plena sala de audiências, Eisner disse, em alto e bom som, a verdade, toda a verdade e nada mais do que a verdade: que fora a pedido expresso do dono da Fox Comics que havia criado Wonder Man para concorrer diretamente com o campeão de vendas da National Publications.
Gorada qualquer hipótese de defesa, Wonder Man foi retirado de cena e a Fox Comics sentenciada ao pagamento de avultada indemnização à rival. Em represália por este desfecho desfavorável, Victor Fox recusaria pagar os 3 mil dólares (uma pequena fortuna para os padrões da época) em dívida ao Eisner & Iger.

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O único número editado de Wonder Comics.
Consta, ademais, que, na sequência deste desaire, Victor Fox terá adquirido o repugnante hábito de, a caminho do seu escritório, parar o elevador no piso onde estava instalada a sede da National Publications apenas para poder escarrar no chão.
Vencido mas não convencido, Victor Fox não perdeu tempo a lançar novos títulos estrelados por personagens heroicas que alegava serem da sua autoria. Do reforçado repertório da Fox Comics faziam parte, entre outros, Fantastic Comics, Weird Comics e WonderWorld Comics. Acrescendo ainda material inacabado adquirido ao Eisner & Iger antes da rutura motivada por Wonder Man. Para finalizá-lo, Victor Fox contratava ao desbarato jovens ilustradores (muitos deles ainda a frequentar a escola de Artes) ou recorria a freelancers.
As capas das revistas eram, todavia, desenhadas por profissionais mais experientes, pelo que a sua arte era quase sempre superior à das páginas interiores. A Fox Comics era, de resto, conhecida no meio como a editora com as melhores capas e as piores histórias. Alterações de títulos e supressões sem aviso prévio eram, a par da sensualidade e da sordidez, outras das suas imagens de marca. Um bom exemplo dessa arbitrariedade editorial foi Science Comics, cujo nº9, por razões ignoradas, nunca chegou a ser lançado.

Durante a Idade do Ouro,
Fox Comics era sinónimo de plágio e mediocridade.
Apesar da deficiente qualidade das suas publicações, em 1940 a Fox Comics vangloriava-se de ter uma circulação superior a um milhão de exemplares. Números possivelmente inflacionados pela bazófia do seu proprietário mas, ainda assim, impressionantes. Deles decorreu, também, a diversificação da oferta, que não mais se circunscreveria àquelas que haviam sido as duas maiores apostas da editora: super-heróis e humor. Assim, a meio do ano seguinte, a Fox Comics lançou Swank, um magazine direcionado para o público masculino e notoriamente inspirado na consagrada Esquire.
Em virtude deste crescente sucesso comercial, Victor Fox viu-se alcandorado pela imprensa a guru do mercado editorial. Desdobrando-se em entrevistas a rádios e a jornais, o dono da Fox Comics aproveitava para se autopromover como o Rei dos Quadradinhos, que não só ditava as tendências como as antecipava.
Segundo sustentava, os leitores procuravam histórias divertidas e emocionantes que só os comic books - e, em particular, os da Fox - podiam proporcionar. O tempo encarregar-se-ia, porém, de demonstrar que, como todas as modas e tendências, também esta seria passageira.

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Nem só de super-heróis vivia a Fox Comics.

Entre a multidão intermutável de serventuários anónimos às ordens de Victor Fox sobressaíam dois nomes que se tornariam lendários nos anais da 9ª Arte: Joe Simon e Jack Kirby. Os saudosos autores de Capitão América recordavam, contudo, de forma bem diferente a sua passagem pela Fox Comics.
Para Kirby, cuja estreia no género heroico foi apadrinhada por Victor Fox, este era uma figura castiça que jurava a pés juntos ter sido dançarino profissional e que tinha por hábito andar para trás e para frente nos escritórios da Fox enquanto fumava charuto atrás de charuto e ia balbuciando "Sou o Rei dos Quadradinhos! Sou o Rei dos Quadradinhos!".
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Joe Simon (em primeiro plano) e Jack Kirby.
Os criadores do Capitão América também passaram pela Fox Comics.
Joe Simon, por seu turno, fazia uma avaliação menos benevolente do caráter do homem que o promoveu a editor da Fox Comics. Nas palavras deste gigante esquecido dos quadradinhos, Victor Fox era o exemplo acabado do velhaco e, ainda por cima, com delírios de grandeza. Um verdadeiro rei sem coroa nem escrúpulos.
Simon recordava ainda as muitas dificuldades sentidas no desempenho das sua funções de editor numa empresa desorganizada e em que faltava quase tudo. Desde logo imaginação e criatividade, na medida em que, ao longo da sua existência, a Fox Comics se especializou em copiar produtos de sucesso lançados pela concorrência.

Sob o signo do besouro

Essencialmente composto por imitações e personagens descartáveis, o panteão da Fox Comics era um catálogo de clichés que tinha no Besouro Azul* (ele próprio inspirado no Besouro Verde) o seu principal ativo. Criação de Charles Nicholas Wojtkowski, o justiceiro mascarado com nome de inseto fez a sua primeira aparição em agosto de 1939, nas páginas de Mystery Men nº1. Entre essa data e 1950, o Besouro Azul marcaria presença em oito títulos diferentes da Fox, na dupla condição de astro principal (chegou a dispor de uma série epónima) ou de convidado especial.
Para a sua mediana popularidade contribuíram, também, duas iniciativas de curta duração: uma tira de jornal desenhada por ninguém menos que Jack Kirby (a primeira incursão do Rei no género super-heroico) e um folhetim radiofónico patrocinado pela Kooba, uma marca de refrigerantes propriedade do próprio Victor Fox. Com a sua proverbial astúcia, o Rei dos Quadradinhos promovia, de uma assentada, dois dos seus negócios.


O Besouro Azul foi o maior símbolo da Fox Comics.

Dada a mediocridade da sua arte e as histórias sofríveis, impressas em papel barato, a longevidade do Besouro Azul continua a intrigar muitos investigadores da 9ª Arte. Certo é que aquela que, para todos os efeitos, era a coqueluche da Fox Comics lhe sobreviveu - embora não isenta de modificações - até aos dias de hoje.
Depois de, em 1954, ter tido os seus direitos adquiridos pela Charlton Comics** - que o reformulou - o Besouro Azul é, desde o início da década de 1980, parte integrante do Universo DC.
Idêntico destino teve Lady Fantasma (Phantom Lady), a segunda personagem mais bem-sucedida da Fox Comics. Originalmente propriedade da Quality Comics***, migrou para o universo Fox no princípio de 1947 por lá permanecendo até aos anos terminais da editora.
Esculpida pelo virtuoso lápis de Matt Baker, um dos primeiros artistas afro-americanos de banda desenhada, Lady Fantasma tornou-se a rainha das chamadas good girls, estilo gráfico muito em voga nos anos 40 do último século e que consistia,  basicamente, em apresentar heroínas voluptuosas em trajes diminutos e em situações de perigo ou poses sensuais.
Numa daquelas deliciosas ironias em que é fértil a história da 9ª Arte, parte do espólio da Fox Comics permanece insepulto memória coletiva graças à ação da DC, erigida a ódio de estimação do seu fundador.

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Lady Fantasma em apuros.

Fim de reinado 

Vários foram os impérios que, após a Segunda Guerra Mundial, conheceram o seu ocaso. O de Victor  Fox, que já se vinha esboroando, foi um deles. Pelas contas de Will Eisner, a Fox Comics terá ido pelo menos quatro vezes à falência.
A primeira vez que isso aconteceu foi em 1942, daí resultando a alienação de apreciável número das suas personagens a outras editoras. E nem o Besouro Azul escapou, com a joia da coroa da Fox a ser vendida ao desbarato à rival Holyoke Publishing.
Quando, em 1944, Victor Fox regressou à ribalta, muitas dessas personagens tinham, pura e simplesmente, deixado de existir. Mas o Rei dos Quadradinhos não desarmou. Após resgatar o Besouro Azul, introduziu uma nova leva de heróis tão esquecíveis como a anterior. Casos, por exemplo, de Rocket Kelly (um piloto americano aos comandos de um super-avião) e de Cosmo Cat, um gato com superpoderes.
Intuindo o desvanecimento dos super-heróis trazido pelo pós-guerra e pelo advento da televisão, Victor Fox tentou, a custo, acompanhar as novas preferências dos leitores. Que agora balançavam entre as histórias de amor e os contos de terror. Perante esse novo quadro de tendências, a Fox Comics lançou títulos como My Love Memoirs ou Hunted - em bom rigor, dois títulos diferentes para uma mesma série periódica.

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Uma das últimas apostas da Fox Comics.
Igual a si próprio, mesmo quando se insinuavam os primeiros sinais de declínio, Victor Fox nunca perdeu o instinto de raposa matreira. Quando, em 1949, os estúdios MGM lançaram o épico Sansão e Dalila, o Rei dos Quadradinhos fez uma jogada de antecipação ao lançar uma espécie de adaptação oficiosa do filme antes deste chegar aos cinemas. E outra vez saiu impune porque, tal como a MGM, fora buscar inspiração à Bíblia - a obra mais plagiada de todos os tempos.
Embora imaginária, a coroa tornara-se pesada para o Rei dos Quadradinho e esse foi mesmo o seu derradeiro golpe de mestre. Depois de anos a ser bafejado pela sorte que protege os audazes, em 1952 Victor Fox declarou-se insolvente.
Chegava ao fim o seu tumultuoso reinado  e a Fox Comics depressa foi soterrada pelas areias do tempo. Com a maior parte das suas personagens relegadas para o domínio público, foi no próprio fundador que a malograda editora teve a sua estrela mais brilhante. Um vigarista sem emenda que, um dia, sonhou ser o Rei dos Quadradinhos...

*https://bdmarveldc.blogspot.com/2015/09/herois-em-acao-besouro-azul.html
**https://bdmarveldc.blogspot.com/2018/03/fabricas-de-mitos-charlton-comics.html
***https://bdmarveldc.blogspot.com/2017/06/fabrica-de-mitos-quality-comics.html

Um grande bem-haja ao meu bom e talentoso amigo Emerson Andrade. É da sua autoria a magnífica montagem que abre este artigo. 












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sexta-feira, 23 de junho de 2017

FÁBRICA DE MITOS: QUALITY COMICS


  Reflexo da hiperatividade do seu fundador, foi uma das mais prolíficas editoras da Idade de Ouro dos comics. Influenciou sobremaneira o género super-heroico, acompanhando-o, porém, no seu inexorável declínio. Votada a um imerecido esquecimento, o oportunismo da concorrência ajudou a manter vivo parte do seu fascinante legado.

Uma era de maravilhas e mistérios



Imagine o estimado leitor que é um arqueólogo e que o seu maior sonho consiste em reconstruir o esqueleto de um dinossauro raro. Para executar tão complexa operação necessitaria não só de identificar os vestígios da sua passagem como de proceder à cuidadosa escavação dos fósseis. Mesmo que a sorte lhe sorrisse e os encontrasse em perfeito estado de conservação, teria sempre de certificar-se de que aquelas ossadas pertenciam, de facto, ao animal que motivou a sua demanda, e não a um espécime aparentado.
Cumpridas todas essas etapas, seria bem possível que lhe faltasse pelo menos um osso. Sabendo de antemão que este, à semelhança da peça de um qualquer quebra-cabeças, por mais pequeno que fosse, poderia fazer toda a diferença.
Diante do esqueleto incompleto daquele resquício de um mundo há muito perdido nos rincões do tempo, seriam decerto inúmeras as dúvidas a assaltar-lhe o espírito e a mente. Desde logo as circunstâncias da morte daquela exótica criatura. Ter-se-ia ficado a dever a causas naturais? Ou teria, ao invés, sido resultado do ataque de um qualquer predador?


Vem esta analogia jurássica a propósito da significativa dificuldade em documentar o Big Bang criativo a que os historiadores da Nona Arte convencionaram designar de Idade de Ouro da Banda Desenhada. Sendo esta usualmente balizada pelo lapso de tempo compreendido entre 1938 (ano do debute de um certo Homem de Aço) e 1956, e atendendo à plêiade de editoras que pontificaram durante esse período (algumas deles verdadeiros fogos-fátuos cujo fulgor se extinguiu sem deixar rastro), percebe-se a razão dessa dificuldade. Robustecida, ademais, pelo facto de muitos dos intérpretes dessa época mirífica já não se encontrarem entre nós.


À falta dos seus testemunhos em discurso direto, restam, pois, as raras entrevistas por eles concedidas em vida. Ou, em derradeira instância, as suas obras. Pressupondo, claro, que estas terão sido conservadas ou, pelo menos, devidamente catalogadas. Algo que, para grande consternação dos arqueólogos da Nona Arte como este que vos escreve, nem sempre se verificou.
Se no caso de editoras como a Marvel e a DC, cuja atividade tem sido contínua desde esses tempos áureos, a sua história vem sendo documentada internamente - e até, pontualmente, dada à estampa sob a forma de imponentes compêndios - outras houve que, mercê de circunstâncias diversas, ficaram parcial ou totalmente sepultadas sob as areias da memória, adensando dessa forma o mistério em seu redor.


Não se tratando de um enigma imperscrutável, há, contudo, ainda muito por descobrir acerca da história da Quality Comics. Tanto mais que datam apenas do início da década de 70 do século transato os primeiros estudos (conduzidos por Jim Steranko, lenda viva dos comics) sobre aquela que foi uma das precursoras da Idade do Ouro. E que, sob a pátina do imerecido oblívio a que foi votada, deixou um riquíssimo património cultural e artístico que urge revisitar, porquanto foi apenas parcialmente resgatado por duas das suas antigas concorrentes. Sim, leram bem. Ao contrário do que é voz corrente, a DC Comics não foi a única a tirar proveito do infortúnio da Quality, acabando, ironicamente, por ajudar a preservar o seu legado. Mais adiante, será revelado o nome da segunda necrófaga.


Foi, portanto, com as minhas empoeiradas vestes de Indiana Jones amador que me lancei à aventura de exumar o escuso passado da Quality Comics. A muito custo, trouxe à luz do dia um punhado de achados arqueológicos e segredos surpreendentes que, sem mais delongas, faço questão de compartilhar com quem me lê. Na esperança de assim dar a conhecer alguns aspetos menos conhecidos da história de uma editora lendária com a qual os aficionados da Nona Arte têm, mesmo sem o saberem, um enorme débito de gratidão.
Venha daí comigo nesta emocionante viagem ao passado e permita que lhe apresente alguns dos alquimistas dos quadradinhos que, em tempos plúmbeos, douraram a imaginação de toda uma geração com as suas receitas de fantasia.

Segredos de uma editora lendária

Recheada de segredos e originalidades, a história da Quality Comics confunde-se com a do seu fundador, em quem teve aliás, o seu alfa e o seu ómega. Neto de um abastado empresário do ramo imobiliário, filho de um lente de Matemática e com uma árvore genealógica com raízes na Guerra da Independência dos EUA, Everett M. Arnold viera ao mundo na primavera de 1899 em Providence, a pitoresca capital do estado norte-americano do Rhode Island.
Do avô paterno, Arnold herdou o apurado faro para o negócio; da infância, a alcunha que faria as vezes do nome próprio que desde tenra idade aprendera a detestar: Busy (irrequieto, em tradução livre). Ganhara-a por conta da sua personalidade frenética que, a fazer fé nos relatos de amigos e familiares, o impedia de manter-se parado no mesmo sítio por mais do que alguns minutos.
Valeu-lhe, pois, o desporto para extravasar parte desse superávite energético. Aquando da sua passagem pela Universidade de Brown (onde o pai lecionara e de onde ele sairia diplomado em História), Busy distinguiu-se como guarda-redes na respetiva equipa de hóquei no gelo. Extremamente competitivo, consta que terá, em certa ocasião, desafiado um atleta olímpico para uma corrida, da qual, contrariando todas as probabilidades, terá saído vencedor. Lenda alimentada ao longo dos anos por Dick Arnold, seu filho e ele próprio um  ex-maratonista.

Busy Arnold fotografado em 1941 ao lado da escritora Gwen Hanson num clube noturno.
Somente uma beldade para conseguir reter o irrequieto fundador da Quality Comics.
Chegado o momento de transpor esse seu constante desejo de superação para a pista de obstáculos que é a vida, Busy Arnold, uma vez concluídos os estudos superiores em 1921, partiu à descoberta do mundo na metrópole que o encapsula: Nova Iorque. Na Grande Maçã, tirando certamente proveito da sua proverbial loquacidade, encetou uma meritória carreira como vendedor antes de se tornar um bem-sucedido empresário da indústria gráfica, numa altura em que esta se encontrava em franca expansão.
Devendo, por conseguinte, ser encarada como uma extensão natural deste seu último mister a sua subsequentes aposta na publicação de histórias aos quadradinhos. Material que, importa observar, nada sugere que Busy, leitor voraz, apreciasse sobremaneira; tampouco lhe era conhecida especial afeição pelas artes.
O que terá, então, motivado alguém com este perfil a fundar uma editora de banda desenhada? De tão prosaica, a resposta a essa pergunta resume-se numa palavra: lucro!
Perante a crescente popularidade de que gozavam os comics a meio da década de 1930, Busy Arnold sinalizou um filão que urgia explorar antes que outros se lhe antecipassem. São, de facto, muitos os paralelismos que podem ser traçados entre o boom das histórias aos quadradinhos e a Corrida ao Ouro que, menos de um século antes, levara garimpeiros de todo o país a rumarem à Califórnia em busca da pepita dourada que lhes poderia para sempre mudar as vidas.
Viviam-se os anos de chumbo da Grande Depressão que precedeu a entrada dos EUA na II Guerra Mundial e o sempre azougado Busy Arnold, com a visão que o caracterizava, intuiu que não faltaria quem procurasse nesse tipo de publicações um escape barato e sem contraindicações conhecidas às agruras do quotidiano.
Muito provavelmente com o duplo obejtivo de medir o pulso ao mercado e de adquirir know-how, em 1935 a gráfica de Busy Arnold começou a assegurar a impressão de alguns dos títulos da Comics Magazine Company (posteriormente renomeada Centaur Publications). Confiante no êxito do empreendimento, um par de anos bastaram para Busy decidir avançar com a criação da sua própria editora.
Da parceria estratégica estabelecida em 1937 entre Busy Arnold e uma tríade de estúdios independentes (McNaught Syndicate, Frank J. Markey Syndicate, e Register and Tribune Syndicate) nasceu o consórcio Comics Favorites, Inc., que teve em Features Funnies o seu título inaugural.

Feature Funnies nº1 (outubro de 1937).
Em linha com a práxis editorial da época, a neófita série republicava a cores antigas tiras de jornal, aqui e ali misturadas com histórias inéditas. Parte das quais eram fornecidas à la carte pelo Eisner & Iger, um dos mais requisitados estúdios por onde, nos primórdios da indústria dos quadradinhos, passaram alguns dos mais talentosos artistas freelancers.
Habituado a estar sempre um passo à frente da concorrência, Busy Arnold terá considerado pouco prudente prolongar por muito mais tempo essa dependência em relação a terceiros. Para dirimi-la, precisava de começar, o quanto antes, a produzir os seus próprios conteúdos. O que viria verificar-se logo em Features Funnies nº3 (edição datada de dezembro de 1937). Tornando-se, assim, a Comics Favorites a segunda editora a publicar material original, poucas semanas depois de a National Allied Publications (uma das empresas que originariam a DC Comics) o ter começado a fazer.
Ano capital na história da Quality Comics, 1939 começou por ficar marcado pela compra dos interesses da McNaught e da Markey (seu antigos sócios) por parte de Busy Arnold e dos proprietários do Register & Tribune Syndicate. Dando dessa forma a Comics Favorites lugar à Comics Magazine, Inc., doravante responsável pela publicação da linha de títulos com a nova chancela da Quality Comics. Residindo neste ponto uma das suas mais interessantes originalidades, visto que esse nunca foi, legalmente, o nome da editora. Não obstante, foi através dessa denominação informal que ela se notabilizou entre os leitores e que se imortalizou na história da Nona Arte.
Em tempos de recessão económica e de profunda crise social, Busy Arnold sabia bem que as pessoas pensariam duas ou mais vezes antes de gastarem cada centavo arduamente ganho, pelo que teria de aliciá-las com material superior àquele que a concorrência tinha para oferecer. Quality Comics seria, portanto, o selo de qualidade que acompanharia cada um dos títulos editados sob os auspícios da Comics Magazine, tendo sido Crack Comics nº5 (setembro de 1940) o primeiro volume a ostentá-lo no respetivo frontispício.



O  icónico selo da Quality Comics e
 a primeira edição a ostentá-lo sob o respetivo logótipo.
Ainda nesse louco ano de 1939 a sede da Quality Comics foi transferida para Stamford, no estado do Connecticut, para onde Busy Arnold se mudara entretanto com a família. Alguns estudiosos da Idade do Ouro sugerem, aliás, que terá sido ao epíteto dessa cidade - Quality City (Cidade de Qualidade) - que Busy terá ido beber inspiração na hora de crismar o seu novo projeto.
Foi também por essa altura que a Quality Comics redefiniu a sua política editorial, passando progressivamente a conceder maior primazia às séries estreladas por super-heróis (conceito cada vez mais em voga naqueles dias), em detrimento das histórias policiais e de terror que, até aí, eram hegemónicas no seu cardápio de publicações.




Três dos títulos mais emblemáticos da Quality Comics.
Plastic Man, Kid Eternity e Phantom Lady (conhecidos entre nós, respetivamente, como Homem-Borracha, Kid Eternidade e Lady Fantasma) foram, a par do intrépido aviador Blackhawk (Falcão Negro, que teria, inclusivamente, direito a uma série cinematográfica de baixo orçamento em 1952), algumas das novas coqueluches da Quality Comics. À qual, em 1942, coube igualmente a honra de publicar pela primeira vez em formato magazine as histórias de The Spirit. Até então, os fãs do detetive mascarado idealizado dois anos antes por Will Eisner apenas tinham podido acompanhar as suas aventuras através de tiras de jornal ou de ocasionais suplementos dominicais distribuídos com os tabloides.
Numa jogada que apenas pode ser classificada como brilhante, Busy Arnold socorreu-se de todo o seu poder persuasivo para convencer Eisner a trocar o seu prestigiado estúdio pela Quality Comics. No culminar de um meticuloso processo negocial com vista a salvaguardar os seus direitos autorais, o criador de Spirit tornar-se-ia o segundo pilar do clamoroso sucesso da editora ao longo de toda a década de 1940. Se Busy Arnold era o homem de negócios, Eisner, nomeado editor-chefe, seria de ora em diante o cérebro da Quality. Tanto mais que, tal como todos os que o antecederam e lhe sucederam no cargo, foi fiel-depositário da total confiança de Busy Arnold, que sempre se manteve à margem das decisões editoriais.


Will Eisner (cima) e The Spirit:
dois reforços de peso para Quality Comics
Eisner não foi, no entanto, o único virtuoso da Nona Arte a reforçar a equipa criativa da Quality Comics. Jack Cole (criador de Plastic Man), Lou Fine ( antigo"fantasma" do próprio Eisner) e Nick Cardy (ver perfil neste blogue) fizeram também parte do escol de artistas que influenciaram o género super-heroico, contribuindo sobremaneira para a sua popularidade.
Alguns dos seus trabalhos acabariam todavia por perder-se devido à renitência de Busy Arnold em restituir a arte original aos respetivos autores, receando que eles a revendessem. Havendo mesmo quem jure ter visto Busy Arnold a rasgar alguns desenhos originais. Circunstância que em nada ajudou à preservação do magnífico património cultural da Quality Comics.
Mesmo desfalcada de algumas das suas vedetas em consequência do esforço de guerra (o próprio Eisner seria chamado a cumprir serviço militar), a Quality Comics continuou a prosperar até à viragem da década de 1950. Prosperidade materializada numa profusão de títulos e personagens que, como mais adiante se perceberá, despertavam a cobiça das editoras rivais.
Com o advento da televisão e a revitalização dos livros de bolso, os primeiros anos da década de 50 trouxeram consigo o irrefreável declínio dos super-heróis. Acentuado, em boa medida, pela vilipendiação  de que foram alvo, a partir de 1948, pelo polémico psiquiatra germânico Fredric Wertham, autor do igualmente controverso livro Sedução dos Inocentes (1954).

A revista masculina Classic Photography
foi uma das últimas iniciativas editoriais da Quality.
Ironicamente, a Quality Comics sobreviveu à ferocidade da concorrência, aos horrores de uma conflagração mundial e a uma torpe cruzada conservadora, mas não às dificuldades logísticas.
Numa altura em que as vendas da editora já caíam a pique, a American News Company, sua distribuidora de longa data, declarou falência. Sem ela, a Quality Comics não tinha como fazer chegar as suas publicações aos pontos de venda. Ainda recorreu aos serviços de outra empresa nos meses que precederam a sua extinção, mas a rede de distribuição manteve-se deficiente, causando o esmorecimento dos leitores que se lhe tinham mantido fiéis.
Desvanecido o fulgor dourado de outros tempos, e quando soavam já os tétricos acordes do seu réquiem, a editora fundada por Busy Arnold, numa última e desesperada tentativa para escapar ao seu fatídico destino, apostou as fichas que lhe restavam no ecletismo das suas publicações, chegando mesmo a lançar um pastiche da Playboy intitulado Classic Photography. Estratégia que, contudo, logrou apenas adiar o inevitável. Em 1956, ao fim de quase duas décadas de intensa atividade, a Quality Comics cerrou portas, para não mais as reabrir.
Resignado, também Busy Arnold rumou à Califórnia para gozar a sua merecida reforma, mantendo-se afastado do mundo dos negócios até ao fim dos seus dias. Escrevia-se assim o epitáfio simbólico da Idade do Ouro.

Legado em mãos alheias

Após a extinção da Quality Comics, a maior parte das suas personagens e das suas séries periódicas foram adquiridas pela DC Comics, que optou, no entanto, por dar continuidade apenas a quatro delas: Blackhawk, G.I. Combat, Robin Hood Tales e Heart Throbs (esta última com mais de 100 edições publicadas sob a égide da Editora das Lendas).
Dentre os antigos ícones da Quality Comics revividos ao longo das décadas seguintes pela DC, Plastic Man foi, indubitavelmente, o mais acarinhado pelos fãs. Muitos dos quais tiveram, como eu, a sua infância marcada pela série animada que o teve como protagonista entre 1979 e 1981.
Até à unificação do Multiverso DC ditada pelos eventos de Crise nas Infinitas Terras, as personagens oriundas da Quality Comics ficaram acomodadas em duas realidades separadas: Terra-Quality e Terra-X.
Enquanto na primeira a História seguiu um curso idêntico ao das restantes Terras, já a segunda divergia radicalmente delas. Nesse dimensão paralela, a II Guerra Mundial prolongou-se até 1973. Foi este o subterfúgio encontrado para justificar a atividade dos Freedom Fighters (Combatentes da Liberdade) vários anos transcorridos sobre o término do conflito. Situação que seria, contudo, objeto de revisão na continuidade pós-Crise.

Os Combatentes da Liberdade em ação durante Crise nas Infinitas Terras.
Além da DC, também a AC (sigla de Americomics) adquiriu e republicou muito do material original da Quality protagonizado por personagens menos conhecidas e deixando de fora os super-heróis.
Conforme ratifica a ausência de registo na Biblioteca do Congresso dos EUA, nenhuma delas renovou, no entanto, os direitos sobre essa propriedade intelectual, relegando-a dessa forma para o domínio público. Significando isto que, na prática, qualquer pessoa poderá utilizar esse valioso espólio.
Algures por aí existe, portanto, uma espécie de Arca Perdida a transbordar de tesouros de papel à espera de serem (re)apresentados ao mundo por um qualquer Indiana Jones. Enquanto isso não acontece, resta-nos venerar o magnífico legado da Quality Comics, sem o qual a história do género super-heroico seria certamente menos rica.

ÍCONES QUALITY

No sentido dos ponteiros do relógio temos:
Captain Triumph (Capitão Triunfo);  Phantom Lady  (Lady Fantasma);
Blackhawk  (Falcão Negro);
Ray, Miss América e  Plastic Man (Homem-Borracha).

ÍCONES QUALITY II

Pela mesma ordem da imagem anterior temos:
Max Mercury  (Max Mercúrio); Tio Sam (dos Combatentes da Liberdade);
Jester;
Wildfire (Chama); Torchy e  Firebrand (Labareda) 

Agradecimento muito especial ao meu bom amigo Emerson Andrade que, com a sua costumeira bonomia, acedeu a conceber estas duas fabulosas montagens para servirem de suporte gráfico ao meu artigo. Para ele, um abraço do tamanho do oceano que nos aparta.
































































o.
Concluído os estudos, Arnold mudou-se em 1921 para Nova Iorque.