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quinta-feira, 17 de outubro de 2019

CLÁSSICOS REVISITADOS: «O QUE ACONTECEU AO HOMEM DE AÇO?»


  Dez anos após o misterioso desaparecimento do Super-Homem, o mundo não esqueceu o seu maior herói. Sob a lenda jaz, porém, um filão de segredos por desvendar. Poderá Lois Lane, única testemunha ocular da hora suprema do ex-campeão de Metrópolis, ser a chave do enigma?

Título original: Whatever Happened to the Man of Tomorrow?
Editora: Detective Comics (DC)
País: Estados Unidos da América
Autores: Alan Moore (argumento), Curt Swan (esboços), George Pérez & Kurt Schaffenberger (arte-final)
Publicado em: Superman nº423 e Action Comics nº583 ( ambos lançados em setembro de 1986)
Personagens: Super-Homem; Lois Lane; Lex Luthor; Bizarro; Brainiac; Homem-Kryptonita; Metallo; Mister Mxyzptlk; Legião dos Super-Heróis; Legião dos Supervilões; Krypto; Homem dos Brinquedos; Galhofeiro; Jimmy Olsen; Lana Lang; Perry White; Alice White; Supergirl 
Cenários: Metrópolis e Fortaleza da Solidão


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Iniciada em Superman nº423, 
a história seria concluída em Action Comics nº583.

Edições em Português

Sob os auspícios da Abril, à época detentora dos direitos do Universo DC em Terras Tupiniquins, a primeira versão em língua portuguesa desta história clássica do Homem de Aço encerrava o alinhamento de Super Powers nº21. Edição em formatinho datada de maio de 1991, inteiramente dedicada a Alan Moore, e que incluía ainda o conto (já aqui dissecado) Para o Homem Que Tem Tudo.
Em 2003, seria a vez da Opera Graphica republicar a história sob o título Super-Homem - O Adeus, numa muito criticada edição a preto e branco que ignorava a colorização digital que lhe fora recentemente aplicada nos EUA. Lapso emendado três anos depois pela Panini Comics, ao inserir essa versão retocada no nono volume da sua coleção Grandes Clássicos DC.
A despeito da sua grada importância na memorabilia do Super-Homem, O Que Aconteceu Ao Homem De Aço? - à semelhança de tantas outras obras capitais da Editora das Lendas - segue inédita em terras lusitanas, onde apenas a edição da Abril desembarcou.

A versão retocada da história foi inserta
 em Grandes Clássicos DC nº9, da Panini Comics.

O fim de uma era

Em junho de 1938, chegava às bancas americanas uma edição histórica. Lançada pela National Allied Publications (antepassada da DC Comics), Action Comics nº1 marcou o início da publicação do Super-Homem.
Mais popular do que qualquer outra das publicações da National, Action Comics devia o seu sucesso ao herói superpoderoso criado por Jerry Siegel e Joe Shuster. Tanto assim que, num movimento sem precedentes, a editora resolveu apostar num título próprio do Homem de Aço. Precisamente um ano após o lançamento de Action Comics, foi colocado à venda o primeiro número de Superman.
Mesmo em dose dupla, o Super-Homem continuava a entusiasmar os leitores e as vendas mantiveram-se nos píncaros durante os anos 1940. Mas nem o Homem de Aço ficou imune às profundas transformações sociais do pós-guerra.

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Action Comics nº1 marcou o início da Idade de Ouro dos super-heróis.
No decorrer das décadas seguintes, a personagem passaria por significativas mudanças, assistindo-se também a uma evolução das suas tramas. Se nas suas primeiras aparições o Super-Homem enfrentava bandidos comuns e políticos corruptos, com o tempo as suas histórias foram ganhando um viés mais fantástico. Sobretudo após o surgimento dos primeiros supervilões.
Em 1954, o Comics Code Authority impôs um conjunto de regras visando impedir que as histórias aos quadradinhos exercessem influência negativa nas crianças e jovens. Surgindo desse modo a necessidade de criar tramas mais ligeiras, enfatizando de caminho a respetiva moralidade.
No caso específico do Homem de Aço, isso passou por realçar o seu heroísmo e virtuosismo. Características que se tornariam o seu cartão de visita, valendo-lhe a alcunha de "Super-Escuteiro".
Destas mudanças resultaram inevitavelmente inconsistências em relação ao conceito original. Sendo uma das mais flagrantes a participação do Super-Homem em duas organizações heroicas que atuavam em contextos históricos diferenciados. Com efeito, ele era simultaneamente membro honorário da Sociedade da Justiça da América e membro ativo da Liga da Justiça da América (herdeira direta da primeira).
Este conflito seria resolvido em Flash nº123. Nessa edição de setembro de 1961, foi apresentada a história Flash of Two Worlds (Flash De Dois Mundos), que lançou as bases do Multiverso DC. A partir desse momento, ficou estabelecida a existência de dimensões paralelas habitadas por personagens de diferentes épocas. Aquelas que haviam surgido durante a Idade de Ouro (1938-1955), assim como as respetivas histórias, pertenceriam à Terra-2. Ao passo que a Terra-1 acomodaria as histórias e personagens publicadas desde 1956 (ano inaugural da Idade de Prata).

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A história Flash De Dois Mundos mudaria para sempre o Universo DC.
Como as histórias do Super-Homem vinham sendo publicada sem interrupções, era preciso esclarecer quais as que pertenciam ao cânone. A separação das águas ocorreria em 1969. Nesse ano, a DC estipulou que a personagem apresentada em Action Comics nº1 era Kal-L, e que este deveria ser relegado para a Terra-2. Por conseguinte, apenas as histórias do Homem de Aço publicadas a partir de 1961 seriam ambientadas na Terra-1.
Embora fascinante, o conceito de Multiverso acabaria, contudo, por se revelar demasiado confuso. Inúmeros mundos paralelos foram pipocando nos anos seguintes, na mesma proporção em que os leitores se iam afastando.
Face ao declínio das vendas, a DC decidiu juntar todas as suas personagens e publicações num universo compartilhado. Para que isso fosse possível, era necessário encerrar todos os títulos ativos.
Aproveitando as celebrações do seu 50º aniversário, em 1985 a Editora das Lendas lançou Crisis on Infinite Earths, minissérie em 12 edições que culminou com a destruição pura e simples de todas as dimensões paralelas, estabelecendo uma única e renovada realidade.

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Crise nas Infinitas Terras ditou o fim do Multiverso DC.
Com a conclusão do evento, a continuidade ficcional iniciada na década de 1960 seria definitivamente encerrada. Assim, entre outubro e dezembro de 1986, o único título protagonizado pelo Super-Homem foi a minissérie Man of Steel (já aqui esmiuçada), com assinatura de John Byrne. Além de uma nova origem para o Último Filho de Krypton, a história de Byrne estabelecia um novo cânone.
Em consequência disso, Julius Schwartz, editor dos títulos do Super-Homem, deixaria a função que vinha desempenhando desde 1971. Ocorreu-lhe então a ideia de apresentar a última história do Super-Homem, aquela que marcaria o fim de uma era e o princípio de uma lenda. Para reforçar este simbolismo, Schwartz escolheu inicialmente Jerry Siegel para escrevê-la. Apesar de honrado, o cocriador do Homem de Aço foi obrigado a recusar o convite, devido a impedimentos legais.

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Julius Schwartz (1915-2004) foi
 um dos mais influentes editores do Homem de Aço.
Quando tomou conhecimento da intenção de Julius Schwartz, o britânico Alan Moore -por aqueles dia, uma estrela em ascensão devido ao seu trabalho em Swamp Thing - colocou de imediato a sua pena à disposição. Grande admirador do Homem de Aço, Moore não desperdiçou a oportunidade de homenageá-lo e fez questão de incluir na história elementos fundamentais da mitologia do herói. Reunindo assim todos os ingredientes para a produção da aventura final do Super-Homem clássico.
Por muitos considerado o artista definitivo do Homem de Aço, Curt Swan apresentou-se a Julius Schwartz como a escolha natural para desenhar a despedida do mito que o seu lápis ajudou a esculpir durante anos a fio.
Desta soma de vontades nasceria um épico que engrandeceria ainda mais o seu protagonista, encerrando tudo o que sobre ele fora previamente escrito. Chegava ao fim uma era e nada voltaria a ser igual.

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Nenhum outro artista desenhou
 tantas histórias do Super-Homem como Curt Swan (1920-1996).

A sua hora suprema

Corre o ano de 1997. Passou uma década desde a última vez que o Super-Homem foi avistado. Muitos acreditam que ele morreu; outros que ele deixou a Terra; e há também aqueles convencidos que ele ainda vive entre nós sob novo disfarce.
Tim Crane, um repórter do Daily Planet, visita a agora ex-jornalista Lois Lane-Elliot, na expectativa de que a única testemunha ocular dos momentos finais do herói possa verter alguma luz sobre o seu misterioso sumiço.
Perante o indisfarçável enfado do seu marido, um mecânico de automóveis chamado Jordan Elliot, Lois aceita revisitar os últimos dias do homem que em tempos foi dono do seu coração.
Dez anos atrás, após incontáveis crises e conflitos, a paz reinava finalmente em Metrópolis. Quatro dos mais perigosos inimigos do Super-Homem haviam sido neutralizados: Terra-Man e Parasita tinham-se destruído mutuamente; Lex Luthor estava desaparecido há anos; e Brainiac - agora um ser robótico - fora danificado além do reparável.
Parecendo não haver mais contra quem lutar, o Homem de Aço dedicara-se à exploração espacial, passando longas temporadas ausente da Terra.
Ao regressar de mais uma dessas missões nos confins da galáxia, o herói deparou-se com o primeiro incidente: Metrópolis parcialmente arrasada por Bizarro e centenas de baixas civis. Até aí um aleijão bem-intencionado cujo raciocínio invertido o impelia porém a fazer o exato oposto do que pretendia, Bizarro passara repentinamente a agir como um monstro sanguinário.
Derrotado pelo Homem de Aço, o moribundo Bizarro confessou que era tudo parte de um plano para o seu autodesenvolvimento. A ideia era afirmar-se, em todos os sentidos, como a duplicata imperfeita do herói.
Se o Super-Homem salvava vidas, Bizarro tirava-as; já que Krypton fora destruído por causas naturais e o Super-Homem chegou à Terra ainda bebé, Bizarro obliterou o seu mundo e veio para o nosso em adulto; por fim, Bizarro cometeu suicídio com recurso a uma amostra de kryptonita azul (ver Apontamentos), porque, se o Super-Homem, estava vivo, então ele tinha de morrer.

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O suicídio de Bizarro deixou o Super-Homem aturdido.
Ainda abalado por este perturbador episódio, dias depois o Homem de Aço teve o seu maior segredo exposto em horário nobre. Galhofeiro e Homem dos Brinquedos, dois criminosos de segunda categoria, foram os autores da proeza.
Às instalações da WGBS (estação televisiva onde Clark Kent trabalhava como pivô) haviam chegado duas caixas, minutos antes de o principal noticiário ir para o ar. Clark estava a postos para o início da emissão quando de uma das caixas saíram brinquedos automatizados que começaram a bombardear tudo à sua volta.
Enquanto os seus colegas procuravam abrigo, Clark foi atingido em cheio por diversos disparos. Apesar de protegido pela sua invulnerabilidade, o ataque destruiu-lhe as roupas civis, revelando o uniforme azul e vermelho que trazia vestido sob elas. Momento captado e transmitido em direto pelas câmaras de TV para milhões de telespectadores.

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    O Super-Homem teve o seu maior segredo
     exposto em horário nobre.

Através de um dos bonecos,  o Galhofeiro e o Homem dos Brinquedos revelaram como haviam conseguido extorquir a informação sobre a verdadeira identidade do Super-Homem: torturando até à morte Pete Ross, um amigo de infância de Clark Kent em Smallville. Era seu o cadáver que estava dentro da segunda caixa.
Rastreando as ondas de rádio da transmissão, o Homem de Aço localizou rapidamente a parelha de assassinos, mas começou a temer o pior. Se os incómodos do passado viraram assassinos, o que esperar quando reaparecerem os assassinos de sangue frio?
Ao mesmo tempo que, em Metrópolis, o Super-Homem lidava com as ondas de choque da bombástica revelação da sua identidade, algures no Círculo Polar Ártico Lex Luthor encontrava a cabeça inerte de Brainiac. Esta ficou, porém, subitamente ativa e, num piscar de olhos, conseguiu dominar mentalmente Luthor, passando a controlar-lhe o corpo como se de uma marioneta humana se tratasse.

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Luthor e Brainiac tornam-se um só.
Após construir uma nave para o transportar até à Cidade do Amanhã, o híbrido Luthor-Brainiac recrutou o Homem-Kryptonita. Também ele se sentia estranhamente compelido a destruir o Super-Homem.
Em Metrópolis, um grupo de Metallos atacou a redação do Daily Planet, semeando o caos. Após dirimir a ameaça, o Homem de Aço, temendo pela vida dos seus entes queridos, levou Lois Lane, Lana Lang, Jimmy Olsen e o casal Perry e Alice White para a sua Fortaleza da Solidão. Por essa altura já era claro para todos que os ataques em curso não eram aleatórios, e que outros se lhes seguiriam em breve.
À Fortaleza da Solidão chegou também Krypto. Após uma prolongada ausência, o Super-Cão, porventura pressentindo o perigo que rondava o dono, ajudou-o a proteger os seus hóspedes.
Entretanto, os preparativos do Super-Homem para um cerco foram interrompidos pela inesperada visita da Legião dos Super-Heróis, do século XXX. Mais surpreendente ainda foi a presença da Supergirl na comitiva, uma vez que ela estava morta no presente.
Não menos desconcertante foi o presente que o Homem de Aço recebeu dos legionários: uma estatueta sua segurando o projetor da Zona Fantasma e com a frase "A sua hora suprema." inscrita na base.

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Super-Homem é surpreendido pela visita
 da Legião dos Super-Heróis e da Supergirl.
Após a partida da Legião, o significado da oferenda tornou-se claro para o Super-Homem: os heróis do futuro visitaram-no naquela data específica para lhe renderem a sua derradeira homenagem. A sós com Krypto, um Homem de Aço fragilizado chorou ao imaginar a sua morte iminente.
Na manhã seguinte, os temores do Super-Homem começaram a concretizar-se. A Legião dos Supervilões - igualmente oriunda do século XXX e composta por Rei Cósmico, Rainha Satúrnia e Lorde Trovão - viajou para o passado para testemunhar o confronto final do Homem de Aço com o seu maior inimigo. Segundo as lendas, seria esse o ocaso do herói.
Com o Super-Homem e os seus amigos barricados no interior da Fortaleza da Solidão, o híbrido Luthor-Brainiac ergueu um campo de força em redor da estrutura para impedir a entrada dos outros heróis que tentavam acudir-lhes.

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Luthor-Brainiac e a Legião dos Supervilões
 preparam o assalto à Fortaleza da Solidão.
À noite, Jimmy Olsen e Lana Lang usaram artefactos expostos na Sala de Troféus da fortaleza para adquirirem superpoderes. Num misto de coragem e imprudência, decidiriam atacar os vilões antes que eles conseguissem invadir o local. Lana subjugou o Homem-Kryptonita, dando tempo a Jimmy para desligar o gerador do campo de força.
Durante a refrega, Luthor conseguiu anular momentaneamente a influência de Brainiac, implorando a Lana para que pusesse fim à sua agonia. Lana partiu-lhe o pescoço, mas teve os seus poderes eliminados pelo Rei Cósmico. Ato contínuo, Lorde Trovão eletrocutou a jovem, impregnando o ar com um intenso cheiro a carne queimada.
Cego pela raiva, Jimmy Olsen investiu sobre os assassinos, mas acabou também ele morto por Brainiac, que ainda conservava o controlo sobre o corpo sem vida de Luthor. Em seguida, o vilão detonou uma ogiva nuclear, derrubando finalmente as paredes da Fortaleza da Solidão.
Era chegado o momento da ofensiva final e o Homem-Kryptonita tomou a dianteira. A sua intenção era envenenar o Super-Homem, mas foi morto por Krypto. Que, por sua vez, também sucumbiu aos efeitos da kryptonita.

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Fiel até ao fim, Krypto morre a proteger o seu amo.
Ao deparar-se com o cadáver calcinado de Lana, o Super-Homem quase incinerou o Lorde Trovão com a sua visão de calor. Provocando, assim, a debandada da Legião do Supervilões. O grupo mantinha-se, porém, convicto da inevitabilidade da vitória de Brainiac.
Contudo, o híbrido Luthor-Brainiac tombou pesadamente por terra, quando o rigor mortis tomou conta do corpo de Luthor.
Perante aquela reviravolta, o Super-Homem deduziu quem era, afinal, o verdadeiro responsável pelos ataques:  Senhor Mxyzptlk, o duende da Quinta Dimensão.
Mxyzptlk revelou por fim a sua presença, já não como um duende com chapéu de coco, mas como um gigante quadrimensional vagamente humanoide. Após dois mil anos a realizar pequenas travessuras, a criatura ficara entediada e pretendia iniciar uma nova fase na sua existência imortal na pele de um diabólico vilão.
Com a ajuda de Lois, o Super-Homem percebeu finalmente o verdadeiro significado do presente ofertado pela Legião dos Super-Heróis. O projetor da Zona Fantasma era a chave para derrotar Mxyzptlk.

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Lois descobre a chave para derrotar o diabólico Mxyzptlk.
Na mira do Homem de Aço, Mxyzptlk apressou-se a dizer o seu nome ao contrário, para assim regressar à Quinta Dimensão. Nesse mesmo instante, o Super-Homem acionou o projetor da Zona Fantasma. Despedaçado entre as duas dimensões, Mxyzptlk soltou um grito aterrador antes de morrer.
Como penitência por ter violado o seu juramento de nunca matar, o Homem de Aço, perante o olhar atónito de Lois, adentrou num compartimento onde mantinha guardadas amostras de kryptonita dourada. Despojado dos seus poderes, o herói encaminhou-se depois para o exterior da Fortaleza da Solidão para nunca mais ser visto.
Quando os restantes heróis conseguiram finalmente penetrar na fortaleza, encontraram apenas três sobreviventes: Lois Lane e o casal White. Do corpo do Super-Homem nem sinal. Todos assumiram que havia sucumbido aos rigores do Ártico. Era o fim do maior campeão da Justiça..
Lois Lane conclui a entrevista dizendo que, apesar de o corpo do herói nunca ter sido encontrado, ela sabia que o Super-Homem havia morrido naquele dia.

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O fulgor dourado da despedida do maior herói de todos os tempos.
Após a partida do repórter, Lois conversa animadamente com o marido acerca dos prazeres de uma vida normal. Ambos estão aliviados e esperam ser deixados em paz por mais uma década. Sem que nenhum deles se aperceba, Jonathan, o filho bebé do casal, esmaga com a mão um pedaço de carvão, transformando-o num reluzente diamante.
Antes de fechar a porta do quarto do pequeno Jonathan, Jordan Elliot brinda os leitores com uma piscadela de olho. Gesto que confirma que ele é na verdade o Homem de Aço disfarçado.

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Segredos familiares.

Apontamentos

*O título original da história é uma referência a Whatever Happened to...?, série de pequenos contos que, a partir de meados dos anos 1970,  revisitavam personagens da Idade de Prata há muito caídas no esquecimento. Essas histórias eram publicadas em DC Comics Presents, título que também tinha Julius Schwartz como editor;
*O termo Homem do Amanhã (Man of Tomorrow, em inglês) é um dos cognomes do Super-Homem e remete ao conceito de "Übermensch" citado em Assim Falou Zaratrusta. Alguns estudiosos da 9ª Arte acreditam que essa obra do filósofo germânico Friedrich Nietzsche terá influenciado a criação do herói;
*Na capa original de Action Comics nº583, Jenette Khan (na altura, presidente-executiva da DC), Curt Swan e Julius Schwartz encabeçavam a pequena multidão que, no topo do edifício do Daily Planet, se despedia do campeão de Metrópolis;
*Jordan Elliot, a nova identidade civil do Super-Homem, presta homenagem a Jor-El, o pai kryptoniano do herói. Também o nome do seu filho bebé, Jonathan, é uma clara referência a Jonathan Kent, o pai adotivo de Clark Kent;
*Ocasionalmente traduzida no Brasil como Super-Mulher, a Superwoman surge em dois momentos distintos da narrativa: no primeiro, integra o contingente de heróis que tentam atravessar a barreira erguida por Brainiac em redor da Fortaleza da Solidão; no segundo, já no interior da estrutura semidestruída, examina os restos mortais dos amigos e inimigos do Super-Homem. A sua presença indicia que a história não tem lugar na Terra-1, uma vez que nessa realidade a Superwoman é Kristin Wells, uma descendente de Jimmy Olsen do século 29. Com efeito, em 2006, a edição definitiva de Crisis on Infinite Earths, estabeleceu que O que Aconteceu ao Homem de Aço? era ambientada na Terra-423;

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Kristin Wells, uma das mulheres
 que assumiram o manto da Superwoman.
*Mesmo tendo apenas arte-finalizado os esboços de Curt Swan, George Pérez considerou a sua participação no projeto um dos momentos mais gratificantes da sua carreira;
*Insatisfeito com a simplificação da mitologia do Super-Homem decorrente do protocolo modificativo de John Byrne após Crise nas Infinitas Terras, Alan Moore revisitou muitos dos temas das histórias clássicas do herói durante a sua passagem, nos anos 90, por Supreme - pastiche do Homem de Aço criado por Rob Liefeld e originalmente publicado pela Image Comics. Do ponto de vista de Moore, o revisionismo de Byrne descaracterizara por completo o Super-Homem, transformando-o numa personagem diferente;
*Em 2009, o britânico Neil Gaiman escreveu Whatever Happened to the Caped Crusader? (O Que Aconteceu ao Cruzado Encapuzado?), explorando premissas similares às da história final do Homem de Aço, da autoria do seu compatriota e arquirrival. Numa altura em que Gaiman vinha reincorporando diversos elementos da Idade de Prata na mitologia moderna do Homem-Morcego, a trama descrevia as repercussões da aparente morte de Bruce Wayne e da subsequente assunção do manto do Batman por Dick Grayson. Apesar das reações maioritariamente positivas da crítica e dos fãs, a história de Gaiman perde na comparação com a de Alan Moore;

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Também o Batman teve direito à sua aventura final.

*Uma eleição promovida entre os visitantes da plataforma Comic Book Resources atribuiu a O Que Aconteceu ao Homem de Aço? o 25º lugar na lista das 100 melhores histórias de super-heróis de todos os tempos;
*Elemento fundamental da mitologia do Homem de Aço - e sua principal fraqueza -, a kryptonita foi introduzida pela primeira vez em junho de 1943, num episódio do programa radiofónico The Adventures of Superman. Seis anos depois, ganharia estatuto canónico através de uma história publicada em Superman nº61. Embora a kryptonita verde seja a mais comum, a Idade de Prata popularizou outras variedades multicoloridas dessa substância radioativa potencialmente letal para os kryptonianos. Correspondendo a cada uma delas efeitos diferenciados: a vermelha afetava, de forma temporária e imprevisível, a personalidade do Super-Homem; a dourada removia-lhe definitivamente os poderes (ainda que o processo tenha sido revertido por mais que uma vez); a branca era mortal para a flora de qualquer planeta; a azul (manufaturada pelo próprio Homem de Aço) era apenas prejudicial para os habitantes do Mundo Bizarro;
*Criação de Jerry Siegel e  Ira Yarbrough, Mister Mxyztplk, um endiabrado duende da Quinta Dimensão dotado de poderes místicos, debutou em setembro de 1944, nas páginas de Superman nº30. Seria, contudo, durante a Idade de Prata que o pequeno vilão de nome impronunciável se tornaria um habitué nas histórias do Homem de Aço. Tirando proveito da suscetibilidade do herói kryptoniano à magia, Mxyztplk dava largas às suas travessuras, deixando o Super-Homem com os nervos em franja. A única maneira de devolvê-lo à Quinta Dimensão consistia em obrigá-lo a pronunciar o próprio nome às avessas. Mxyztplk era, no entanto, praticamente inofensivo, por contraste com a sua sinistra versão retratada em O Que Aconteceu Ao Homem de Aço?;

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O visual clássico do Sr. Mxyzptlk (esq.)
 e a sua versão da Idade de Ouro.
Vale a pena ler?

Não é por acaso que O Que Aconteceu ao Homem de Aço? é tantas vezes citada como uma das melhores histórias do Super-Homem. Desde logo por apresentar algumas das cenas mais memoráveis do herói. Como aquela em que, ao tomar aguda consciência da sua finitude, ele chora com Krypto deitado aos seus pés. Igualmente delicioso é o epílogo, quando o segredo de Jordan Elliot é subtilmente compartilhado com os leitores. Uma simples piscadela de olho vale por mil palavras.
Qual artífice do verbo que labuta no cadinho da imaginação, Alan Moore serviu-nos uma história ora tocante, ora assombrosa, ora divertida. Mas sempre uma leitura estimulante tanto para fervorosos admiradores do Homem de Aço como para leitores casuais com conhecimentos rudimentares da sua mitologia.
Curt Swan, por seu turno, faz jus ao título de artista definitivo do Super-Homem, desenhando toda a história como uma aventura íntima. O seu traço clássico casa na perfeição com o registo nostálgico e elegíaco da trama, permeada por um toque de modernidade.
Em vez de uma despedida melodramática, O Que Aconteceu ao Homem de Aço? é um raio de esperança e um trampolim para a lenda. Cercado pela noite que ameaçava toldar-lhe os últimos dias de fulgor, o Super-Homem logrou escapar da escuridão e encontrar de novo o Sol. E sob ele consumou o seu desejo de viver com um comum mortal.
Mesmo despojado dos seus poderes semidivinos, o Super-Homem continua a ser uma personagem luminosa, positiva e gentil. É essa a sua essência e Moore soube retratá-la de forma magistral.

Um Super-Homem também chora.










quinta-feira, 14 de junho de 2018

ETERNOS: JERRY SIEGEL & JOE SHUSTER


  Nos dias sombrios da Grande Depressão, dois jovens sonhadores marcados pelo infortúnio deram ao mundo o seu maior herói. A glória do Super-Homem, arauto de uma nova era alçado a ícone global, apresentá-los-ia, porém, à face menos luminosa do Sonho Americano.
  No ano em que o Último Filho de Krypton comemora o seu 80º aniversário, fiquem a conhecer alguns dos maiores segredos por trás da sua criação e os dramas dos seus criadores.

À putativa capacidade de antecipar acontecimentos vindouros, próximos ou remotos, chama-se precognição ou premonição. Termos diferentes para designar algo que, desde tempos imemoriais, fascina a Humanidade: a arte de adivinhar o futuro.
Mito ou realidade, trata-se de um dom (ainda que alguns possam, legitimamente, considerá-lo uma maldição) cobiçado tanto por deuses como por reles mortais, e do qual nem o próprio Super-Homem desdenharia. Esse é, aliás, um dos talentos em falta no seu robusto catálogo de poderes e habilidades.
Também os criadores do Homem de Aço gostariam certamente de ter tido acesso a uma bola de cristal que lhes permitisse perscrutar o futuro. Esse pequeno mirante sobre o porvir poderia tê-los poupado a uma ingrata sina ditada por uma decisão precipitada. A mesma que mudaria para sempre as suas vidas e a história da Nona Arte.


Quando dois jovens do Ohio deram asas à imaginação,
nasceu um mito imorredouro.
Com efeito, se, no princípio dos anos 30 do século transato, Jerry Siegel e Joe Shuster, dois jovens judeus residentes em Cleveland (no estado norte-americano do Ohio), tivessem o poder de prever o que o Amanhã lhes reservava, as suas jornadas pessoais teriam decerto invocado menos uma longa travessia do Cabo das Tormentas.
Ambos teriam, com elevada quota de probabilidade, acumulado fortuna colossal e transformado para sempre o sistema mediático do seu país - e, quiçá, do resto do mundo. Desprovidos de talentos adivinhatórios e guiados pelos impulsos da juventude, tiveram de conformar-se com as migalhas que lhes foram atiradas. Chegando à indignidade de esmolar um módico de justiça e reconhecimento depois de terem dado aos fracos e oprimidos o seu campeão supremo.
Apenas uma das muitas amargas ironias a marcarem as vidas de Jerry Siegel e Joe Shuster, dois homens aparentemente fadados a serem protagonistas da desdita. E que, apesar de nascidos em latitudes distantes, a bússola irrequieta do destino cuidou de fazer com que os seus rumos convergissem. Vidas cruzadas ou uma cruz partilhada?

Dois homens, um destino 

Jerome "Jerry" Siegel, o mais novo da meia dúzia de rebentos de um casal de imigrantes lituanos fugidos à miséria e ao antissemitismo, veio ao mundo a 17 de outubro de 1914, em Cleveland. O sustento da família - cujo apelido original era Segalovich - provinha de uma loja de roupa usada que o pai explorava na baixa da cidade.
Escassos meses antes, a 10 de julho desse longínquo ano de 1914, a metrópole canadiana de Toronto servira de berço a Joseph "Joe" Shuster. Também ele filho de imigrantes judaicos - com raízes ucranianas e holandesas - o pequeno Joe tinha pai alfaiate e mãe a tempo integral. As coincidências não se quedavam, no entanto, por aí.
Jerry e Joe eram fascinados por histórias de ficção científica, lendo com avidez aquelas que, à época, eram publicadas em Amazing Stories, Weird Tales e em outras revistas pulp dedicadas ao género. Também as aventuras aos quadradinhos de Tarzan e Buck Rogers davam rédea solta à imaginação dos petizes encalhados numa infância pouco idílica.

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Duas das leituras preferidas nos verdes anos de Jerry Siegel e Joe Shuster.
Seria, de resto, essa paixão comum pelo fantástico o catalisador de uma duradoura e frutífera amizade iniciada na viragem da década de 1930, nos corredores do liceu Glenville de Cleveland. Cidade para onde a família Shuster - originalmente Shusterowich - se mudara em 1924 em busca de uma vida mais desafogada do que aquela que conhecera no Grande Vizinho do Norte. E que, entre outras coisas, obrigara o pequeno Joe a trabalhar como ardina do Toronto Daily Star a fim de contribuir para o magro orçamento familiar.
Mesmo antes de a Grande Depressão deixar a economia americana em frangalhos, a pobreza era outro denominador comum nas vidas de Jerry Siegel e Joe Shuster. Enquanto o primeiro sonhava escapar-lhe tornando-se escritor de ficção científica, o segundo vasculhava o lixo à procura de papel onde pudesse rabiscar os seus desenhos.
Tímidos e obcecados com universos de fantasia, as versões púberes de Jerry Siegel e Joe Shuster encaixavam-se perfeitamente no estereótipo nerd. Escusado será dizer que estavam longe de serem populares entre os seus pares, em especial os de sexo oposto. Duas almas solitárias reunidas por um obséquio do acaso para, juntas, darem forma aos sonhos que as ajudavam a suportar um quotidiano de agruras.

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Dois jovens visionários com infâncias difícieis
deram ao mundo o seu maior herói.
Data de 1931 uma das primeiras colaborações artísticas da parelha criativa que, antes do final dessa década, conceberia aquele que seria o primeiro super-herói. Nesse ano, Jerry Siegel e Joe Shuster produziram Groober, the Mighty, uma confessa paródia de Tarzan. Publicada no Glenville Torch, o jornal da escola que ambos frequentavam, a história evidenciava já a predileção dos seus autores por figuras corajosas e viris. No fundo, aquilo que Jerry e Joe aspiravam ser.
Terminado o liceu, Joe Shuster teve uma breve passagem pela Cleveland School of Art. Apesar desse aprendizado formal, Joe era - mais por necessidade do que por opção - um autodidata. Sem o virtuosismo artístico de Hal Foster (criador do Príncipe Valente) ou Alex Raymond*, o seu traço primava pela simplicidade, sendo notória a influência cinematográfica na composição das suas narrativas visuais.
A arte de Joe Shuster era, contudo, prejudicada pelos seus graves problemas de visão. Como o próprio revelaria em entrevistas concedidas ao longo dos anos, para ver os seus próprios desenhos, Joe precisava aproximar a página até esta ficar a um palmo da sua cara. Mercê dessas dificuldades, foi ele o inventor das chamadas splash pages, páginas preenchidas por uma única ilustração. Uma inovação narrativa que, pelo seu impacto visual, faria escola entre muitos oficiais do mesmo ofício até aos dias de hoje.
Por sua vez, Jerry Siegel, sem meios para financiar um curso superior, abraçou vários empregos mal remunerados enquanto acalentava o sonho de ganhar a vida como autor de ficção científica. Cansado de cortejar em vão as editoras, partiu dele a ideia de lançar um fanzine - um dos primeiros surgidos em terras do Tio Sam - para divulgar as histórias produzidas a meias com o seu compincha.
Com o subtítulo The Advance Guard of Future Civilization, o número inaugural de Science Fiction seria editado em outubro de 1932, e expedido por correio aos interessados. No seu rol de colaboradores ocasionais pontificaram nomes como Mort Weisinger (futuro editor dos títulos do Homem de Aço na DC Comics) e Forrest J. Ackerman (cocriador de Vampirella**).
Além das historietas saídas da pena de Jerry Siegel - e, invariavelmente, ilustradas por Joe Shuster - , cada um dos cinco fascículos publicados de Science Fiction continha ainda resenhas de outros fanzines e de livros de ficção científica. Apesar da efemeridade do projeto, seria no seu terceiro número, lançado em janeiro de 1933, que seria apresentado o protótipo do Super-Homem.
Numa história intitulada The Reign of the Superman (O Reinado do Super-Homem), Jerry Siegel e Joe Shuster mostravam como um indigente chamado Bill Dunn era transformado por um cientista inescrupuloso, com recurso a substâncias alienígenas. num poderosíssimo telepata. Habilidade que Dunn usava para manipular mentes alheias, assumindo-se como uma ameaça para a Humanidade circundante e transformando-se desse modo num dos primeiros supervilões da banda desenhada.

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Originalmente, o Super-Homem era um criminoso
com poderes mentais.
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A fisionomia de Bill Dunn (o primeiro Super-Homem)
parece ter servido de molde a Lex Luthor,
o eterno némesis do Homem de Aço.
Notoriamente inspirada em Frankenstein e com atributos muito diferentes do herói que os imortalizaria no folclore popular, esta criação de Jerry Siegel e Joe Shuster foi a primeira a ser identificada como Super-Homem. Contrariamente à tese propalada por algumas mentes bizantinas, esta nomenclatura não emanou, porém, de Assim Falou Zaratrusta. Obra da autoria de Friedrich Nietzsche editada em 1885, na qual o filósofo germânico discorria sobre as potencialidades do Übermensch" - literalmente, o "Homem Superior"; termo que seria todavia traduzido como "Super-homem".
Sucede que não consta que Jerry e Joe tenham alguma vez lido a obra em apreço ou a ela tenham aludido para explicar a origem do nome escolhido para batizar a sua criação. De facto, a sua intenção consistia, tão-somente, em inverter o arquétipo heroico de personagens mitológicas consideradas sobre-humanas, como Hércules ou Sansão. Foi, pois, esse o real motivo para o Super-Homem ter sido inicialmente retratado como um criminoso.
O público, contudo, mostrou-se pouco recetivo ao conceito de um vilão omnipotente. Apesar do seu inquestionável valor histórico, The Reign of the Superman foi, do ponto de vista literário, pouco impactante. Tratou-se, não obstante, da primeira investida dos autores na ideia de um ser superpoderoso, ulteriormente transmutado de vilão para herói. Roupagens com que seria apresentado aos editores de revistas de banda desenhada - os famosos comics. Numa época em que este novo veículo de comunicação de massas se começava a afirmar no panorama mediático estadunidense.

Super-Homem renascido

Após extinguirem o seu fanzine, Jerry Siegel e Joe Shuster resolveram tentar a sua sorte na florescente indústria dos quadradinhos. Importa ter presente que, até meados da década de 1930, era no formato de tiras diárias na imprensa que heróis clássicos como Tarzan, Mandrake ou Flash Gordon tinham as suas histórias publicadas. Obrigando dessa forma os leitores a esperarem até ao dia seguinte para acompanhar o próximo episódio romanesco dos seus ídolos.
Ora tudo isso mudaria com o advento dos comic books. Que, além de apresentarem histórias completas, podiam também ser colecionados. Se, numa fase inicial, as revistas incluíam, essencialmente, republicações de tiras e outro material preexistente, o sucesso comercial do novo formato logo ditaria a necessidade de personagens e histórias inéditas.
Atentos à evolução do mercado editorial, Jerry Siegel e Joe Shuster, com o entusiasmo próprio da juventude, imaginaram que poderiam encontrar nos comics o espaço ideal para desenvolverem as suas atividades.
Os dois haviam, nesse ínterim, reformulado por completo o conceito do Super-Homem. De vilão com talentos telepáticos, a personagem passara a um vigoroso herói - embora ainda sem superpoderes.
Sem delongas, os dois amigos apresentaram a renovada versão do Super-Homem à Consolidated Book Publishers, editora com sede em Chicago interessada em lançar uma linha de comics, e que procurava por isso matéria-prima para o seu projeto.
Intitulada The Superman, a obra de Jerry Siegel e Joe Shuster apresentada à Consolidated consistia numa revista completa, da qual sobraria apenas a capa chamuscada. As restantes páginas foram queimadas por um enraivecido Joe Shuster depois de a editora ter encerrado inopinadamente o seu departamento de quadradinhos.

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Um dos primeiros esboços do Super-Homem
saído do lápis de Joe Shuster em 1936.

Gorada essa primeira tentativa de publicação, a ideia de uma banda desenhada protagonizada por um ser superpoderoso seria temporariamente posta de lado, mas não descartada. Cerca de um ano depois, Jerry Siegel, o sempre laborioso escriba da dupla, propôs ao colega o reaproveitamento do Super-Homem numa tira diária a ser oferecida aos syndicates que forneciam esse tipo de material aos jornais.
Apesar dos reveses anteriores, Joe Shuster deixou-se uma vez mais contagiar pelo entusiasmo do amigo e deitou, de pronto, mãos à obra. Desenhando de forma quase febril, em pouco tempo tinha prontas para publicação várias tiras daquele que viria a ser um dos mais importantes ícones da  cultura pop mundial.
O resultado final afigurou-se bastante satisfatório aos olhos dos dois jovens autores. Nos meses seguintes, enviaram o seu trabalho a uma caterva de editores, colecionando recusa atrás de recusa.
Em 1934, por exemplo, o pacote que haviam remetido para a revista Famous Funnies foi-lhes devolvido sem sequer ter sido aberto. Ainda nesse ano, Jerry Siegel e Joe Shuster encetaram negociações com a editora Super Magazine, mas não chegaram a acordo sobre os termos contratuais.
Seria apenas no final de 1937 que a sorte dos dois amigos começaria a mudar. M.C. Gaines, que rejeitara o Super-Homem quando trabalhava para a Dell Comics, indicou-o para um novo título em produção para a National Allied Publications, uma das editoras que estaria na génese da DC Comics.
Nessa época, Jerry e Joe já não eram propriamente neófitos no ramo dos comics ou completamente desconhecidos para a National. Desde outubro de 1935 que ambos vinham colaborando regularmente em algumas publicações da editora, iniciadas por meio de duas personagens da sua autoria: Henri Duval of France, Famed Soldier of Fortune (um garboso aventureiro gaulês) e Doctor Occult, the Ghost Detective (um investigador paranormal que alguns historiadores classificam como o primeiro super-herói da DC).

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Um dos primeiros trabalhos profissionais
 de Jerry Siegel e Joe Shuster.

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Outra criação da dupla Siegel/Shuster, o Dr. Oculto é
considerado o primeiro super-herói da DC.
Estas e outras criações bem-sucedidas encorajaram Jerry Siegel e Joe Shuster a aperfeiçoar o Super-Homem. Agora retratado como o último sobrevivente do planeta Krypton, o herói ganhara  entretanto um uniforme colorido (inspirado na indumentária circense), uma identidade secreta (Clark Kent, o timorato repórter tirado a papel químico de Joe Shuster), uma cidade (Metrópolis, inspirada no filme homónimo de Fritz Lang) e uma namorada (Lois Lane, a quem Joanne Siegel, a segunda esposa de Jerry, serviu de modelo).
Apesar de ainda não voar (limitava-se originalmente a pular muito alto), o Super-Homem possuía já força descomunal e era virtualmente invulnerável. Ao longo dos anos foi consensualizado que esta sua característica refletia a influência de Gladiator, novela de ficção científica da autoria de Philip Wylie dada à estampa em 1930. Poderá existir, no entanto, outra explicação para Jerry Siegel ter imaginado uma personagem indestrutível.
Episódio ainda envolto em denso mistério, em junho de 1932 o pai de Jerry Siegel morrera durante um assalto à sua loja de roupa usada. Várias testemunhas garantiram às autoridades terem sido disparados tiros. No entanto, a causa oficial da morte apresentada no relatório da autópsia foi um ataque cardíaco.
Em meio século de entrevistas, Jerry Siegel nunca fez qualquer menção ao sucedido. Interrogo-me, no entanto, se terá sido mera coincidência um jovem órfão ter criado um herói à prova de bala e empenhado em fazer justiça pelas próprias mãos depois de o pai ter morrido durante um assalto?
Conjeturas à parte, em junho de 1938 aterrava nas bancas norte-americanas Action Comics nº1, trazendo na capa ninguém menos do que o Super-Homem. Fora ele o escolhido para apadrinhar o lançamento do novo título mensal da agora denominada Detective Comics, Inc. Estava desbravado o caminho para a fama e fortuna dos dois jovens idealistas do Ohio que o haviam criado.

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Action Comics nº1, a histórica edição
 que apresentou o Super-Homem ao mundo, em junho de 1938.

Arautos de uma nova era

O Super-Homem foi um sucesso imediato. Não demorou a que os editores percebessem que era ele, e não Action Comics, que os leitores procuravam freneticamente nas bancas e escaparates espalhados pelo país. Antes mesmo de completar um ano de publicação, o Último Filho de Krypton era o soberano absoluto das vendas, atingindo meio milhão de exemplares de tiragem - cifra que duplicaria nos anos imediatos.
Mercê desses momentos tonitruantes do Homem de Aço, em junho de 1939 - precisamente um ano após a sua estreia - chegava às bancas o primeiro número de Superman. De ora em diante, para gáudio de uma audiência que aumentava de tamanho de mês para mês, o herói desdobrar-se-ia entre o seu título em nome próprio e Action Comics. Foi, de resto, o primeiro a fazê-lo.

Com o lançamento de Superman nº1, em junho de 1939, o
Homem de Aço tornou-se o primeiro super-herói a
estrelar duas séries periódicas.
Apesar desse registo impressionante, o maior mérito do Super-Homem foi ficar inextrincavelmente ligado à proposição de um novo género narrativo que doravante se confundiria com os comics. A criação de Jerry Siegel e Joe Shuster serviu, com efeito, de matriz a um miríade de justiceiros fantasiados a que se convencionou chamar "super-heróis". Conceito que se tornaria predominante na indústria dos quadradinhos, concorrendo em larga medida para a sua prosperidade no período conhecido como Idade de Ouro da banda desenhada. E que teve em Jerry Siegel e Joe Shuster os seus principais arautos.
Na sua qualidade de proponentes dessa nova ordem narrativa, Jerry Siegel e Joe Shuster foram os primeiros profissionais diretamente beneficiados por ela, atingindo rapidamente a fama e o prestígio com que haviam sonhado desde as suas empreitadas juvenis. Mas, contrariamente ao que seria de supor, não enriqueceram à boleia do retumbante sucesso da sua criação. Em vez disso, seriam apresentados ao reverso do Sonho Americano, do qual, enquanto, imigrantes bem-sucedidos, eram representações vivas.

Reveses da fortuna

Ansiosos por garantirem finalmente a publicação do Super-Homem, Jerry Siegel e Joe Shuster haviam vendido ao desbarato - uns míseros 130 dólares - a sua primeira história. Longe de imaginarem o filão que tinham em mãos, concordaram igualmente com a venda de todos os direitos sobre a personagem. Tal como observei no terceiro parágrafo deste artigo, uma bola de cristal teria vindo mesmo a calhar para prevenir um negócio que se revelaria ruinoso para os criadores do Homem de Aço.
Em 1946, insatisfeitos com a exígua parcela que lhes cabia no latifúndio proporcionado pelas aplicações mercantis da sua criação, Jerry Siegel e Joe Shuster interpuseram um processo judicial a fim de exigirem à DC aquilo que consideravam ser o seu justo quinhão. Disputa que seria, porém, vencida pela empresa um par de anos volvidos.
Aos olhos da Justiça norte-americana, os criadores do Super-Homem não detinham qualquer direito de propriedade sobre a personagem, porquanto tinham aberto mão dela em favor da editora responsável pela sua publicação e licenciamento.
Jerry e Joe receberiam, contudo, 100 mil dólares ao abrigo de um acordo extrajudicial em que renunciavam definitivamente aos direitos sobre o Super-Homem e seus derivados. Seguindo-se a sua inapelável exoneração do corpo criativo da Editora das Lendas.
Expropriados da sua criação máxima e com os seus méritos dispensados pela DC, os "pais" do Super-Homem ensaiaram ainda um regresso à ribalta. Agora ao serviço da Magazine Enterprises, em 1948 criaram Funnyman. Uma rábula ao género super-heroico cujo resultado ficou, porém, muito aquém do esperado.

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Funnyman foi o último trabalho conjunto da dupla Siegel/Shuster.
Nos anos seguintes, Jerry Siegel assumiu as funções de diretor artístico da Ziff Comics antes de, no final da década de 1950, regressar à DC. Período durante o qual voltou a escrever histórias do Super-Homem não sendo, contudo, creditado por elas. Coincidindo esta fase com o lançamento de The Adventures of Superman, a lucrativa primeira série televisiva do Homem de Aço estrelada por George Reeves.
Tal como em outras produções prévias, os nomes de Siegel e Shuster não constavam da respetiva ficha técnica. À ausência de dividendos, somava-se, assim, o vexame de quem havia criado uma máquina de fazer dinheiro.
Ao mesmo tempo que prosseguia a sua campanha judicial com vista à recuperação dos direitos do Super-Homem, ao longo dos anos 1960 Jerry Siegel passou por diversas concorrentes da DC, entre as quais a Marvel Comics, a Charlton Comics*** e até a italiana Mondadori Editore.
A carreira de Joe Shuster como ilustrador foi, no entanto, mais curta. Após uma passagem meteórica pela Charlton, desenhou durante algum tempo histórias eróticas para a revista Night Terror antes de a sua quase cegueira ditar a procura por novo ofício. O momento mais triste da sua vida - já de si marcada por sucessivas desventuras - ocorreu precisamente nesta época.

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Uma das bandas desenhadas para adultos com arte de Joe Shuster.

A trabalhar como carteiro, Joe, numa daquelas dramáticas piruetas do destino, era frequentemente obrigado a entregar correspondência no edifício-sede da DC, onde - seguramente de coração pesado - via artistas mais jovens a desenharem as histórias do herói que ele tinha ajudado a criar.
O pungente drama pessoal de Joe Shuster provocou a indignação de muitos colegas de profissão que se solidarizaram com a sua luta para que lhe fosse atribuída uma pensão decente por parte da DC. A editora, no entanto, respondeu com gélida indiferença aos apelos que lhe foram sendo dirigidos para que se compadecesse da situação do seu ex-colaborador. Do ponto de vista dos mandachuvas da DC, a empresa não tinha qualquer obrigação legal - tampouco moral -  de o fazer.
Com os seus nomes simplesmente obliterados dos créditos das revistas do Super-Homem, bem como da galáxia de produtos licenciados, a história dos criadores do Homem de Aço poderia ter tido um desfecho ainda mais lúgubre não fosse pela corajosa decisão de Jerry Siegel de empreender uma campanha de relações públicas em 1975. No ano em que a DC anunciou, com pompa e circunstância, a sua intenção de produzir uma longa-metragem do Super-Homem para assinalar o 40º aniversário do herói, Jerry recorreu à imprensa para denunciar o tratamento indigno que lhe vinha sendo aplicado e a Joe Shuster por parte da Editora das Lendas.

Em nome da Verdade e da Justiça

Receosa das repercussões negativas decorrentes da campanha de Jerry Siegel, em especial no que ao desempenho comercial do filme dizia respeito, a DC concordou com a atribuição de uma pensão vitalícia de 30 mil dólares anuais a cada um dos criadores da sua galinha dos ovos de ouro. Comprometendo-se de igual modo a reconhecer formalmente os direitos autorais de Jerry Siegel e  Joe Shuster em todas as publicações e merchandising afetos ao Super-Homem.
Em termos económicos era assim feito um módico de justiça aos autores, conquanto o valor em questão representasse uma ninharia se comparado com o manancial financeiro proporcionado pelo Super-Homem. Mais importante do que a compensação material era, porém, a reparação moral, pois a partir desse momento Jerry e Joe puderam gozar do respeito e admiração dos seus pares. Sem falar na legião de fãs que, um pouco por todo o mundo, acompanhavam com devoção religiosa as aventuras do Homem do Amanhã nascido há 80 anos da imaginação de dois jovens desajustados do Ohio.
Vítima de cegueira nos últimos anos de vida, Joe Shuster despediu-se do mundo a 30 de julho de 1992. Jerry Siegel sobreviveu-lhe apenas quatro anos, fulminado em 1996 por um ataque cardíaco. Depois de uma vida passada à sombra do magnífico legado do Super-Homem - entretanto alçado a ícone global - gosto de imaginar que os dois velhos amigos se terão reencontrado num lugar melhor.
Contudo, logo após o falecimento de Jerry Siegel, a sua mulher e filhos voltaram aos tribunais, determinados a reaver todos os direitos sobre o Super-Homem. Após uma longa e onerosa guerra judicial, a Justiça americana deliberou que os copyrights do Homem de Aço pertencem agora aos herdeiros de Siegel, e  não mais à Warner Bros., atual proprietária da DC Comics.
Uma sentença histórica que estipulou ainda que os Siegels terão direito a todos os proventos relacionados com o licenciamento do Super-Homem após 1999. Data a partir da qual nos créditos das revistas do herói passou a figurar a legenda informativa "Super-Homem criado por Jerry Siegel e Joe Shuster. Por um acordo especial com a família de Jerry Siegel". Joe Shuster não teve filhos e, portanto, não deixou herdeiros que pudessem beneficiar desse acordo.
A consagração definitiva dos criadores do Super-Homem só aconteceria, porém, já este século. Em 2005, Jerry Siegel recebeu postumamente o Bill Finger Award for Excellence in Comic Book Writing, ao passo que Joe Shuster teve o seu nome inserido no Canadian Comic Book Hall of Fame. Foram também criados os Joe Shuster Awards for Canadian Book Creators, galardões concedidos anualmente aos autores canadianos que, pelo seu mérito, se destacam na Nona Arte.
Um reconhecimento serôdio mas mais do que merecido aos dois homens que deram ao mundo o seu maior herói. E a quem, por meio deste artigo, presto a minha singela, porém sentida, homenagem. Jerry e Joe, onde quer que estejam um grande bem-haja por tudo. Mesmo em tempos ensombrados pelo desalento e pela incerteza, o Super-Homem será sempre um farol de esperança a alumiar a Humanidade.

Jerry Siegel e Joe Shuster fizeram-nos acreditar
que um homem pode voar.

*http://bdmarveldc.blogspot.com/2017/12/eternos-alex-raymond-1909-1956.html
**http://bdmarveldc.blogspot.com/2017/07/heroinas-em-acao-vampirella.html
***http://bdmarveldc.blogspot.com/2018/03/fabricas-de-mitos-charlton-comics.html

Agradecimento muito especial ao meu mui talentoso amigo Emerson Andrade que, com a bonomia com que sempre acede aos meus pedidos, restaurou digitalmente a imagem que serve de ilustração principal a este artigo, associando-se dessa forma à homenagem que nele é rendida aos criadores do maior herói de todos os tempos. 































































































sábado, 13 de janeiro de 2018

CLÁSSICOS REVISITADOS: «O HOMEM DE AÇO»


  Nesta aclamada reinterpretação da sua origem com o cunho de John Byrne, o Último Filho de Krypton surgiu mais humanizado do que nunca. Uma visão dessacralizadora  de um mito intemporal que aliciou toda uma nova safra de leitores. Mas que, mesmo expurgada das propostas mais arrojadas do seu autor, não escapou à controvérsia.

Título original: The Man of Steel
Licenciadora: Detective Comics (DC)
País: EUA
Data de publicação: Outubro a dezembro de 1986
Argumento e arte: John Byrne
Categoria: Minissérie em 6 edições quinzenais
Protagonistas: Clark Kent/Superman, Lana Lang, Lois Lane e Lex Luthor 
Coadjuvantes: Jor-El, Lara Lor-Van, Jonathan Kent, Martha Kent, Batman, Bizarro, Perry White, Jimmy Olsen, Lucy Lane, Magpie, Kelex e Kelor
Cenários: Krypton, Smallville, Metrópolis, Gotham City e Hong Kong


Nos EUA, The Man of Steel nº1 foi lançado
 com duas capas variantes com rácios de distribuição equivalentes.

Edições em Português

A primeira versão traduzida para a língua de Camões (embora com sotaque tropical) de The Man of Steel foi lançada pela brasileira Abril. Entre agosto de 1987 e janeiro de 1988, as seis partes da minissérie foram publicadas mensalmente nos números 38 a 43 da primeira série de Super-Homem. Volvidos quatro anos, em maio de 1992, a mesma editora republicaria a saga num único volume em Clássicos DC nº1, usando pela primeira vez uma das capas variantes de Man of Steel nº1.
Ainda por terras de Vera Cruz, desde o início deste século, contabilizam-se já quatro reedições da saga sob os auspícios de três editoras diferentes. A saber: Super-Homem - O Homem de Aço (Mythos, dezembro de 2006); Coleção DC 70 Anos nº1 e Coleção DC 75 Anos nº4 (ambas editadas pela Panini Comics em 2008 e 2011, respetivamente); por fim, em dezembro de 2015, seria a vez da Eaglemoss republicar a versão integral de The Man of Steel no oitavo volume de DC Comics - Coleção de Graphic Novels .
Deste lado do Atlântico, The Man of Steel foi compilada pela primeira vez no início de 2013, inserta na segunda série de Super-Heróis DC lançada nesse ano pela Levoir. Com a originalidade de a capa escolhida ter sido desenhada não por John Byrne, mas por Jerry Ordway.




De cima para baixo:
dois dos volumes antológicos editados no Brasil
 com os selos da Abril e da Mythos
e a antologia lançada pela Levoir portuguesa (com capa de Jerry Ordway).

Antecedentes e contexto

Produto da imaginação de dois jovens estudantes do secundário residentes em Cleveland - Jerry Siegel e Joe Shuster - o Superman foi criado em meados de 1933 para ser o protagonista de uma tira de banda desenhada a ser publicada diariamente num jornal. Em vez disso, porém, o herói só seria apresentado ao mundo cinco anos depois, em junho de 1938, nas páginas de Action Comics nº1.
Nessa edição histórica com a chancela da National Allied Publications - antepassada da DC -, os leitores ficaram a conhecer de forma pouco detalhada a origem do Último Filho de Krypton, resumida numa só página.
Apesar dessa abordagem de raspão às suas raízes kryptonianas, o Homem de Aço (assim alcunhado devido à sua invulnerabilidade) granjeou de imediato enorme popularidade. No verão de 1939 tornar-se-ia mesmo a primeira personagem a sustentar dois títulos em simultâneo - a Action Comics somou-se entretanto Superman.
Ao longo das décadas seguintes, a história do Superman foi sendo expandida de molde a acomodar novas tramas e personagens. Após a saída dos seus criadores, outros autores foram adicionando sucessivamente novos elementos à mitologia daquele que é considerado o primeiro dos super-heróis, e cujo debute sinalizou o dealbar da chamada Idade de Ouro da banda desenhada (1938-1950).

A estreia de Superman em Action Comics nº1 sinalizou também
 o início da chamada Idade de Ouro da banda desenhada.
No início de 1945, por exemplo, foram introduzidas as aventuras de Superboy em Smallville, apresentando assim uma versão adolescente do  Homem de Aço com as suas capacidades totalmente desenvolvidas. Com o surgimento da Supergirl, em 1959, o Superman deixou, objetivamente, de ser o último dos kryptonianos.
Inevitavelmente, estes elementos inovadores não tardaram a tornar-se conflituantes com outros que haviam sido explorados em histórias anteriores, sobretudo naquelas que coincidiram com a transição da Idade do Ouro para a Idade da Prata.
Nessa fase surgiram novos heróis e versões modernizadas de outros preexistentes (casos, por exemplo, de Jay Garrick e Barry Allen, os dois homens a adotar a persona do Flash no período citado), aos quais o Homem de Aço se associou para fundar a Liga da Justiça da América.
Sucede que, a par do Batman e da Mulher-Maravilha, o Superman era uma das três personagens da DC cuja publicação permanecia ininterrupta desde a Idade do Ouro. Por conseguinte, a sua participação nas histórias da Sociedade da Justiça da América ambientadas nessa época expunham uma série de incoerências. Para as quais os editores da DC encontrariam uma solução engenhosa mas que, a médio prazo, se revelaria um autêntico quebra-cabeças.
Em setembro de 1961, o número 123 de The Flash incluía no seu alinhamento uma história que, além de emblemática nos anais da 9ª Arte, mudaria para sempre a continuidade da Editora das Lendas. Sugestivamente intitulada Flash of Two Worlds (Flash de Dois Mundos), mostrava o primeiro encontro entre o Flash da Idade do Ouro e a sua contraparte da Idade da Prata.
A narrativa protagonizada pelos Velocistas Escarlates de duas eras distintas mais não era, no fundo, do que a representação ficcional do postulado da mecânica quântica que propõe a existência de universos paralelos. Com base nessa premissa, estabeleceu-se que as personagens surgidas durante a Idade do Ouro habitariam, de ora em diante, uma segunda Terra em tudo idêntica àquela que servia de lar às suas versões modernas.

A história protagonizada pelos Velocistas Escarlates de duas eras
 que esteve na origem do intrincado Multiverso DC.
Estavam assim lançadas as bases do Multiverso DC que, além de ilimitados exercícios de imaginação, possibilitaria a coexistência editorial e cronológica de personagens de épocas diferentes. Era, no entanto, imperativo esclarecer quais as histórias que pertenciam ao cânone estabelecido para cada uma delas. A título exemplificativo, em 1969 os leitores ficaram a saber que o Superman surgido em Action Comics nº1 era na verdade Kal-L, uma personagem distinta do Kal-El da Terra 1.
Embora inicialmente bem recebido pelos leitores, com o tempo o Multiverso tornar-se-ia demasiado confuso, a ponto de afastá-los das publicações da Editora das Lendas.
Perante este impacto negativo nas suas tiragens, a DC entendeu por bem tomar medidas drásticas para reverter a situação. Medidas que, grosso modo, se resumiram à concentração de todos os seus títulos e conceitos num único universo coeso e compartilhado. Para que isso fosse possível, seria no entanto necessário encerrar tudo o que vinha sendo publicado e voltar ao ponto de partida.
No encalço desse objetivo, em 1985 - ano em que a DC comemorava meio século de existência - foi lançada Crisis on Infinite Earths (Crise nas Infinitas Terras)*, evento de amplas e duradouras repercussões que culminou com a obliteração do Multiverso, abrindo assim espaço para a emergência de uma nova continuidade.

Um dos dramáticos  capítulos da saga que revolucionou
 a continuidade da Editora das Lendas.
Em vez de múltiplas Terras paralelas habitadas, não raro, por declinações do mesmo conceito, passaria doravante a existir somente uma Nova Terra e uma versão unívoca de cada personagem.
Na esteira dessa ambiciosa iniciativa, as figuras de proa da Editora das Lendas tiveram as suas origens recontadas à luz dos tempos modernos. Foi, pois, nesse contexto de revitalização que, em concomitância com outras obras análogas como Batman: Year One ou Green Lantern: Emerald Dawn, foi lançado The Man of Steel. Projeto igualmente ambicioso que vinha, contudo, sendo cogitado há vários anos, e cuja produção encerra até hoje alguns segredos sobre os quais procurarei derramar alguma luz no texto seguinte.

*http://bdmarveldc.blogspot.pt/2014/10/do-fundo-do-bau-crise-nas-infinitas.html

Produção

A acentuar-se, de mês para mês, a curva descendente no gráfico de vendas dos títulos estrelados pelo Homem de Aço, nos anos que precederam Crise nas Infinitas Terras os editores da DC começaram a discutir entre si a possibilidade de levar a cabo uma profunda reformulação da personagem. Convidando, para esse efeito, vários escritores consagrados a apresentarem as suas propostas com vista à revitalização daquele que era o maior ativo da companhia. Alan Moore, Frank Miller e Marv Wolfman* foram alguns dos pesos-pesados que aceitaram o repto.

Evolução das vendas da revista Superman entre 1965 e 1987.

A despeito dos diferentes ângulos de abordagem, todos eles concordavam na necessidade de uma reestruturação da continuidade do Superman. A única voz dissonante era a de Cary Bates. Aquele que era na altura o principal argumentista do Último Filho de Krypton preconizava, ao invés, uma evolução na continuidade.
A revolução de veludo sugerida por Bates colidia, no entanto, com as teses radicais perfilhadas por Marv Wolfman. Habituado a sacudir o status quo, o arquiteto de Crise nas Infinitas Terras considerava premente eliminar Superboy, reclicar Lex Luthor, diminuir os poderes do Superman e fazer dele o último dos kryptonianos.
Ao inteirar-se da saída iminente de John Byrne** da arquirrival Marvel Comics, Marv Wolfman tê-lo-á incentivado a apresentar a sua visão do Superman. Contudo, o envolvimento do versátil autor britânico naturalizado canadiano no projeto não é totalmente claro.
Anos mais tarde - já depois de se ter incompatibilizado com Wolfman - Byrne afirmou ter partido de Dick Giordano - um dos editores da DC e arte-finalista de The Man of Steel - o convite para a sua participação no processo de revitalização do Homem de Aço.
Certo é que, num primeiro momento, a sintonia de ideias e objetivos entre Byrne e Wolfman era quase total. Divergindo ambos apenas na redefinição de Lex Luthor, com a visão do primeiro a prevalecer sobre a do segundo (ver Mitologia Retocada).

Recém-saído da Marvel,
 John Byrne foi o eleito para reformular o maior ícone da DC.
Com a irreverência que sempre o caracterizou, Byrne apresentou à DC aquilo a que chamou "Lista de Exigências Indispensáveis", espécie de caderno de encargos onde elencava quais as idiossincrasias do Superman que ele entendia carecerem de revisão. A saber: desconsiderar a existência de outros sobreviventes de Krypton - Supergirl, Krypto, etc. - e de elementos excessivamente fantásticos, como a Fortaleza da Solidão ou a cidade engarrafada de Kandor.
Apesar de arrojadas, as propostas de Byrne foram quase integralmente avalizadas pela cúpula da Editora das Lendas. Segundo consta, apenas uma delas terá sido deixada de fora.
Numa entrevista realizada em 2002, o autor de The Man of Steel revelou qual foi a única exceção: «Um dos problemas que percebi que a minha versão do "único sobrevivente de Krypton" suscitaria era como ficaríamos a saber que a kryptonita poderia matar o Superman? Quero dizer, claro que todos nós sabemos que  a kryptonita pode matá-lo, mas como tornar isso uma evidência naquele contexto específico? A minha solução passaria por colocar Lara, grávida de Kal-El, na nave em direção à Terra. Ao chegar, ela daria à luz e o seu bebé ganharia gradualmente os seus poderes. Então, Lara encontraria o único pedaço de kryptonita que chegou ao nosso planeta e, em consequência da sua exposição a ele, morreria vítima de envenenamento radioativo.»
Jenette Khan, à época presidente-executiva da DC, vetaria essa ideia por considerá-la excessivamente afastada do conceito primordial. Em alternativa, Khan propôs que a kryptonita fosse descrita como sendo um elemento radioativo responsável pela morte de kryptonianos antes mesmo da explosão do planeta. Byrne acabaria por reconhecer que essa sugestão era melhor do que sua ideia original e implementá-la-ia na minissérie.
A acreditar no relato de Jim Shooter, antigo editor da Marvel e uma das primeiras pessoas a quem Byrne deu a conhecer as linhas-mestras do seu plano de revitalização do Superman, esta não terá sido, porém, a única proposta controversa rejeitada pela DC. Segundo Shooter, Byrne pretendia igualmente retratar Lois Lane como a concubina de Lex Luthor a quem trocaria pelo Homem de Aço.
Ademais, a caracterização de Krypton como um planeta frio e estéril fora sugerida por Dick Giordano (muito provavelmente influenciado pela estética de Superman, The Movie), por forma  a que os leitores percebessem desde a primeira página que tudo seria diferente.

Em The Man of Steel, Krypton surge como um mundo inóspito
 onde pontifica uma sociedade intelectualizada e estéril.

Muito longe, portanto, do local aprazível descrito no passado.
Inicialmente, Byrne não pretendia reconfigurar tanto a morfologia de Krypton e a têmpera dos pais biológicos do Superman; apenas retratá-los de forma mais futurista. Mas, ao questionar-se acerca dos elementos kryptonianos que mais o incomodavam, percebeu que aquilo que lhe parecia mais prejudicial à história era o carinho (se não mesmo um exacerbado patriotismo) com o que o Superman se referia ao seu planeta natal. Razão pela qual Byrne se empenhou em retratar Krypton como um local pouco acolhedor. Nas suas palavras, "um sítio que, no final das contas, o Superman ficaria feliz em deixar."
O estatuto de imigrante de Byrne e a sua identificação com a cultura do respetivo país de acolhimento foi determinante para a sua reinterpretação da origem do Superman. O escritor defendia que esta deveria ser contada como uma típica história americana de sucesso; a do imigrante que triunfou numa terra que não era a sua, contribuindo dessa forma para o seu engrandecimento.
Em linha com esta abordagem, Byrne percebeu que teria de rever também a relação de Clark Kent com Smallville. O que implicaria uma nova dinâmica com Lana Lang, a primeira namorada do herói. Byrne tinha a intenção de manter Lana como interesse romântico do Homem de Aço, mesmo após o seu estabelecimento em Metrópolis. Porém, o "triângulo amoroso" entre Clark, Lois e o Superman era tido como inviolável pela DC.
Assim, para justificar a posição de maior destaque que Lana assumia na vida e na mitologia do herói, Byrne tornou-a conhecedora dos superpoderes de Clark antes da sua transformação em Superman (vide texto seguinte).

Primeiro amor de Clark Kent, em The Man of Steel Lana Lang
 foi também uma das poucas pessoas conhecedoras do seu segredo.
*http://bdmarveldc.blogspot.pt/2014/09/eternos-marv-wolfman-1946.html
**http://bdmarveldc.blogspot.pt/2015/01/eternos-john-byrne-1950.html

Enredo

A milhares de anos-luz da Terra, Krypton - um planeta tecnologicamente evoluído mas emocionalmente estéril onde a reprodução por métodos naturais faz parte de um passado remoto -enfrenta uma ameaça existencial. Jor-El, um dos seus mais proeminentes cientistas, descobriu enfim a origem de uma misteriosa moléstia que dizimara já milhares dos seus compatriotas.
Devido à enorme pressão exercida sobre o núcleo do planeta, vários elementos químicos preexistentes tinham-se fundido num novo metal altamente radioativo. A exposição à kryptonita era, pois,  potencialmente fatal para os kryptonianos.
Havia, contudo, uma maior fonte de angústia para Jor-El: o aumento exponencial da pressão tornara o núcleo de Krypton instável ao ponto de poder a qualquer momento desencadear uma reação geológica em cadeia que resultaria na implosão do planeta.
Os desesperados alertas de Jor-El junto do Conselho Científico haviam sido no entanto acolhidos com ceticismo e desdém.
Ciente de que a contagem decrescente para o desastre era imparável, Jor-El pesquisara durante meses um planeta que pudesse abrigar o seu filho ainda em gestação. De entre as várias opções estudadas, a Terra prefigurava-se como a mais viável. Opinião que não era partilhada pela sua esposa, Lara Lor-Van, para quem a Terra era um mundo primitivo e hostil.
No entanto, seria mesmo para o nosso mundo que, minutos após a destruição de Krypton, Kal-El foi enviado a bordo de uma pequena espaçonave que o seu pai construíra em segredo.

Jor-El e Lara, os pais biológicos de Kal-El.
Dezoito anos mais tarde, em Smallville, pequena comunidade rural do Kansas, o jovem Clark Kent é o astro da equipa de futebol americano da sua escola. No final de mais um jogo ganho graças à sua extraordinária prestação dentro de campo, Clark é levado pelo seu pai de volta à quinta da família.
Lá chegados, Jonathan Kent revela ao filho o foguete espacial onde ele e a sua esposa, Martha, o haviam encontrado ainda bebé, e que permanecera escondido durante todo aquele tempo no celeiro da quinta.
Perante a incredulidade do filho, Jonathan explica também como, graças a um feliz acaso, naquele mesmo dia toda a região fora fustigada por uma violenta nevasca que isolou os três na quinta durante meses. Contingência que, uma vez dissipada a intempérie, permitiu que Clark fosse anunciado como o filho recém-nascido do casal.

Jonathan e Martha Kent, o casal de agricultores do Kansas
 que perfilharam um bebé vindo das estrelas.
À medida que, com o passar dos anos, Clark vai desenvolvendo poderes e habilidades sobre-humanos, a revelação da sua verdadeira origem fá-lo questionar o seu papel num mundo que, afinal, não é o dele.
Clark decide então abandonar Smallville para viajar ao redor do globo ao longo de sete anos. Período durante o qual interfere discretamente para prevenir vários crimes e catástrofes. Apesar dos relatos que começam a circular dando conta dos avistamentos de uma misteriosa figura voadora, Clark consegue preservar  o seu anonimato.
Tudo muda quando, durante as comemorações do 250º aniversário de Metrópolis, o vaivém espacial Constitution é abalroado em pleno voo por um pequeno avião. Perante a iminência do desastre, Clark  - misturado com a multidão que assistia ao pouso do vaivém - vê-se obrigado a alçar voo e a fazer uso da sua superforça para evitar o pior.
Assustado com a reação emotiva da multidão, Clark apressa-se a regressar à quinta da sua família. Onde, com a ajuda da mãe, elabora um vistoso traje que lhe servirá de disfarce sempre que precisar ajudar alguém. Escolhendo para pseudónimo a alcunha que lhe havia sido dada pela imprensa após a sua primeira aparição pública: Superman.

A confeção do traje e a escolha do símbolo do Superman.

Nas semanas seguintes o Superman realiza diversas intervenções espetaculares em Metrópolis, deixando os seus habitantes boquiabertos com as suas proezas.
Após "conseguir" a primeira entrevista exclusiva com o herói, Clark Kent é contratado como jornalista do Daily Planet. Aquela que é considerada a notícia do século rende-lhe a admiração dos colegas de redação e a rivalidade de Lois Lane, uma das mais respeitadas repórteres a nível nacional.
De visita a Gotham com a intenção de capturar o vigilante mascarado conhecido como Batman, o Superman acaba, todavia, surpreendido pela astúcia do Homem-Morcego. Após um tenso frente a frente, os dois concordam em deixar temporariamente de lado as suas divergências para deter Magpie, uma ladra excêntrica cujas ações haviam colocado dezenas de inocentes em perigo. Debelada a ameaça, o Homem de Aço e o Cavaleiro das Trevas seguem rumos diferentes.
Certa noite, Clark e Lois comparecem a uma festa a bordo do iate de Lex Luthor, o empresário mais poderoso de Metrópolis e um dos três homens mais ricos do mundo. Durante o evento um grupo de terroristas toma de assalto a embarcação fazendo reféns todos os convivas.
Apesar do conhecimento prévio que tinha do ataque, Luthor, interessado em aferir as capacidades do Superman, ordenara à sua equipa de segurança que nada fizesse, a menos que o herói não aparecesse.
Como Luthor previra, o Superman surge no local e neutraliza rapidamente os terroristas. Quando o magnata, impressionado pela eficiência do herói, faz menção de entregar-lhe um cheque de 25 mil dólares, revela perante todos os presentes que sabia do ataque mas que nada fizera para impedi-lo por forma a poder testemunhar a ação da nova maravilha de Metrópolis.
Indignado com tamanha prepotência, o mayor da cidade - um dos convidados de honra da festa - nomeia o Superman "agente especial da Polícia" e ordena-lhe que prenda Luthor.
Libertado da prisão poucas horas volvidas, Luthor, humilhado e ressentido, confronta o Homem de Aço declarando-lhe a sua inimizade e jurando tudo fazer para o desacreditar e destruir. Promessa que quase consegue materializar quando, a seu pedido, um dos seus cientistas logra produzir um clone aparentemente perfeito do Superman a parti de uma amostra do ADN do herói.

Luthor jura vingança pela humilhação
 sofrida às mãos do Homem de Aço.
O plano só fracassa porque o processo de clonagem não levou em consideração a biologia extraterrestre do Superman. Em consequência dessa falha, a sua cópia genética é vítima de degeneração celular acelerada, convertendo-se numa monstruosidade irracional com um nível de poder equivalente ao do original.
Segue-se uma acirrada peleja entre o Superman e o seu bizarro oponente, que termina com este último reduzido a uma nuvem de partículas. Miraculosamente, essa chuva de partículas cura a cegueira de Lucy Lane, a irmã mais nova de Lois por quem o monstro se enamorara.

Superman surpreendido pela força de Bizarro.
Clark regressa uma vez mais a Smallville após uma longa temporada em Metrópolis. Certa noite, é assombrado pelo "fantasma" de Jor-El (na verdade, um sofisticado holograma) que com ele tenta comunicar num idioma desconhecido. É através dessa perturbadora experiência que Clark toma finalmente consciência da sua origem kryptoniana. Revelação que deixa igualmente aturdidos os seus pais adotivos.
Esse não é, porém, o único choque a marcar o regresso de Clark à cidade onde cresceu. Lana Lang, a sua namorada dos tempos do liceu a quem revelara os seus poderes na véspera de partir para Metrópolis, exprime-lhe a sua mágoa por esse abandono e pelo fardo que carrega desde então.
Ambos os episódios levam Clark a abraçar ainda mais a sua humanidade sem, contudo, desvalorizar o seu legado kryptoniano. Carregando desse modo o peso de dois mundos sem que sinta verdadeiramente pertencer a qualquer um deles.

Filho de dois mundos,
 o Superman procura honrar ambos os legados que carrega.

.Mitologia retocada

O Homem de Aço não foi o único a ter a sua origem e personalidade retocadas por Byrne. O mesmo sucedeu com algumas das personagens clássicas das suas histórias. Esses novos elementos seriam, por sua vez, objeto de sucessivos revisionismos até perderem o seu estatuto canónico.
Recordemos, por isso, aquelas que foram as principais alterações inicialmente introduzidas à mitologia do Superman.

Clark Kent: No início da história é apresentado como um estudante do secundário totalmente alheado da sua origem extraterrestre e cuja popularidade resulta das suas proezas desportivas, em especial no futebol americano. Byrne inverteu desse modo a caracterização da personagem, fazendo com que Clark deixasse de ser o disfarce adotado pelo Superman aquando da sua mudança para Metrópolis. Significando isto que é agora o Superman quem serve de disfarce a Clark Kent para que este possa usar os seus poderes em público sem ser reconhecido. Poderes esses que foram consideravelmente diminuídos por Byrne, em especial a sua invulnerabilidade agora explicada pelo campo bioelétrico que envolve o corpo do herói. Byrne detalhou também a forma como o Sol amarelo da Terra lhe proporcionava superpoderes e como Clark recorria a um espelho e à sua visão de calor para se barbear;

Graças à minúcia de Byrne, ficámos pela primeira vez a conhecer
 o método usado pelo Superman para escanhoar o rosto.

Jonathan e Martha Kent: Por contraponto ao antigo cânone do herói, nesta nova versão os seus pais adotivos permanecem vivos quando ele atinge a idade adulta e principia a sua carreira como Superman, cujo uniforme é aliás costurado pela própria mãe;

Smallville: Byrne estabeleceu que a pequena cidade rural onde Clark passou a infância e juventude ficaria no estado do Kansas, e que Lana Lang - a sua primeira namorada - tinha conhecimento de que ele e o Superman eram a mesma pessoa;

Superboy: Em virtude de os poderes de Clark se terem desenvolvido por completo apenas no final da puberdade, a versão juvenil do Homem de Aço foi apagada da existência. Originando assim um paradoxo, uma vez que a formação da Legião dos Super-Heróis do século 30 fora inspirada pelas façanhas do Superboy (ver Impacto cultural);

Lois Lane: Definitivamente afastada do arquétipo de "donzela em apuros" (do qual se vinha, aliás, demarcando ainda durante o período pré-Crise nas Infinitas Terras), Lois é caracterizada como uma jornalista experiente e uma mulher independente dotada de grande carisma e inteligência;

Lois Lane,
uma mulher emancipada dos tempos modernos.

Lex Luthor: Despindo as roupagens de cientista louco que vinha usando há meio século, o eterno némesis do Homem de Aço foi redefinido como um poderoso e inescrupuloso magnata. Cujo enorme ascendente sobre o povo de Metrópolis é eclipsado pelo surgimento do Superman. Justificando-se desse modo a sua visceral animosidade em relação ao herói. Nas palavras de Byrne, este novo Luthor - cujo visual parece decalcado da sua contraparte cinematográfica interpretada, à época, por Gene Hackman - "é uma mistura de Ted Turner, Donald Trump e talvez até Satanás". Muito longe, portanto do vilão inconsequente da Idade da Prata e do Bronze que Byrne desprezava;

Batman: Uma das alterações mais significativas decorrentes de The Man of Steel consiste precisamente no relacionamento entre o guardião de Gotham e a maravilha de Metrópolis. Até então retratados como amigos, desde a Idade do Ouro que os dois heróis partilhavam uma revista mensal - World's Finest. No entanto, por conta dos seus métodos de trabalho distintos, passaram a encarar-se quase como adversários que se respeitavam mutuamente mas que se olhavam com desconfiança.

Impacto cultural

De 1986 a 2003 (ano em que foi lançado o arco Superman: Birthright), The Man of Steel foi a origem canónica do Homem de Aço. A reboque do seu apreciável sucesso, Byrne produziu três minisséries especiais que exploravam de forma mais aprofundada a nova mitologia do herói: The World of Krypton, The World of Smallville e The World of Metropolis foram originalmente publicadas entre dezembro de 1987 e novembro de 1988, assumindo-se como apêndices da narrativa original.
Paralelamente, a DC apostou em três títulos mensais protagonizadas pelo novo Homem de Aço: Superman, Action Comics e Adventures of Superman (este último com Marv Wolfman como argumentista). Neles, Byrne e Wolfman explanaram as alterações ao cânone do Superman decorrentes de The Man of Steel. As mais importantes das quais consistiam, nunca é demais recordar, no restabelecimento de Kal-El como único sobrevivente de Krypton e a supressão da sua carreira como Superboy.
Estas alterações tiveram, contudo, um forte impacto na Legião dos Super-Heróis, na medida em que fora o Superboy a inspirar a formação da equipa no século 30. Acrescia a isto o facto de, no período pré-Crise, a Supergirl ter sido também uma legionária. A eliminação das duas personagens tinha, por isso, originado um paradoxo que Byrne, de forma algo inábil, tentou corrigir.

No período pré-Crise, Superboy - e também Supergirl - eram
 membros de pleno direito da Legião dos Super-Heróis.
Para explicar o presumível desaparecimento do Superboy, Byrne escreveu uma história na qual introduziu o conceito de "universo compacto" (pocket universe, em inglês). Os leitores ficaram assim a saber que era, afinal, para essa espécie de realidade alternativa criada pelo Senhor do Tempo (um dos inimigos jurados da Legião dos Super-Heróis) que o grupo viajava sempre que regressava ao passado. O mesmo acontecendo quando o Superboy visitava o futuro. Servindo a existência desse "universo compacto" para explicar também a existência de uma variante da Supergirl. Que, em vez da prima kryptoniana do Superman, ressurgiu como uma criatura de protoplasma capaz de assumir diferentes formas.
Com a confusão instalada, em 1999, altura em que Eddie Berganza assumiu as funções de editor responsável pelas histórias do Superman, diversas personagens e conceitos que haviam sido suprimidos em The Man of Steel foram reincorporados na continuidade do herói, sem que contudo a obra de Byrne fosse desconsiderada. Entre as personagens resgatadas, incluía-se a verdadeira Supergirl.
Apesar destes imbróglios e controvérsias, o impacto de The Man of Steel fez-se sentir também noutros segmentos culturais. Em 1988, dois anos após a sua publicação, o estúdio Ruby-Spears produziu a série animada Superman aproveitando vários dos conceitos estabelecidos pela história de Byrne.
Também a série televisiva Lois and Clark: The New Adventures of Superman, estreada em 1993, incorporou no enredo muitos elementos emanados de The Man of Steel. A localização de Smallville no Kansas e o facto de os pais adotivos de Clark continuarem presentes na vida adulta do filho são alguns dos exemplos mais evidentes.

A série televisiva do Homem de Aço
 que fez furor nos anos 90
 foi fortemente influenciada por The Man of Steel.
Quase 30 anos após o seu lançamento, em 2013 os ecos de The Man of Steel também chegaram ao cinema. No filme epónimo dirigido por Zack Snyder, são detetáveis diversas influências da obra de Byrne, sobretudo no que ao legado kryptoniano do herói diz respeito.
Apesar da forte aclamação com que foi recebida, The Man of Steel arregimentou ferozes detratores. Os quais acusavam Byrne de não compreender a quinta-essência do Superman, desvirtuando-o ao ponto de deixá-lo irreconhecível.
Críticas que em nada beliscaram o valor de uma obra, cujo primeiro número vendeu meio milhão de exemplares (cifras que o Homem de Aço não alcançava desde a Idade do Ouro) e que, em 2012, os usuários da plataforma digital Comic Book Resources elegeram como uma das 25 melhores histórias do Superman de todos os tempos.

Apontamentos

*A mascote de Clark Kent na adolescência era um Cocker Spaniel chamado Rusty;
*Na equipa de futebol americano do liceu de Smallville, Clark alinhava com a camisola nº15;
*Apesar de ter sido concebido em Krypton através de métodos naturais, o nascimento de Kal-El coincidiu com a sua chegada à Terra. Este elemento, per si, constitui uma rutura com o cânone da personagem. Em todas as suas versões pregressas, o herói fora sempre enviado em bebé para o nosso planeta;
A chegada do bebé Kal-El à Terra
no interior de uma câmara de gestação kryptoniana.
*A data da destruição de Krypton pretendia coincidir com a da estreia do Superman em Action Comics nº1 (junho de 1938). Pormenor que só seria oficialmente estabelecido em Action Comics nº600 (maio de 1988);
*Em The Man of Steel nº1, Metrópolis celebra o seu 250º aniversário. Esta efeméride é, contudo, inconsistente com a informação providenciada por outras fontes. Algumas das quais apontam 1634 como o ano do estabelecimento dos primeiros colonos europeus no território indígena onde seriam lançados os alicerces da Cidade do Amanhã. Sugerindo, assim, que a sua fundação teria ocorrido um século antes da data indicada por Byrne;
*Antes do seu lançamento oficial, a minissérie recebera The Legend of Superman (A Lenda do Superman) como título provisório;
*O encontro do Homem de Aço com o Batman no terceiro volume da minissérie sugere um Cavaleiro das Trevas ainda em início de carreia e a operar à margem da Lei. O Homem-Morcego também não dispunha ainda do seu icónico Batmobile, conduzindo em vez dele um potente e sofisticado bólide desportivo equipado com um laboratório forense portátil. Ainda na mesma edição, Magpie mata um dos seus comparsas colocando-lhe uma barra de dinamite acesa na boca. A rábula Happy Birthday, dos Looney Tunes, serviu de inspiração a esta sequência;
*A capa de The Man of Steel nº 5 é a única a não apresentar uma personagem que parece fitar diretamente o leitor. Com efeito, Bizarro - que em momento algum é referenciado dessa forma na história - caminha de costas voltadas para quem tem a revista em mãos. Byrne recorreu a esse subterfúgio visual para metaforizar a natureza invertida da criatura, desde sempre descrita como uma duplicata assimétrica do Superman. A história em questão é, aliás, vagamente inspirada naquela que em Superboy nº68 (novembro de 1958) introduziu o vilão na mitologia do Homem de Aço. Com a diferença de que, na história original, o objeto da afeição de Bizarro não era Lucy Lane (a irmã mais nova de Lois Lane) mas uma mulher chamada apenas Melissa;
*Somente na ponta final da história os pais adotivos de Clark descobrem a origem alienígena do filho que, até esse momento, tinham assumido tratar-se de um humano aprimorado a fim de participar no programa espacial  secreto de uma qualquer potência estrangeira.

As seis capas originais da minissérie
 seguiam um padrão visual quebrado apenas pela do nº5.
Vale a pena ler?

Analisando The Man of Steel com a perspetiva concedida por mais de três décadas, é inegável o caráter datado de alguns dos elementos presentes na obra. Porém, como qualquer clássico, ela conserva intocado o seu apelo atemporal.
O grande mérito da história reside, a meu ver, na intenção dessacralizadora que lhe subjaz.  Quem leu algumas histórias do Superman dadas à estampa durante a Idade da Prata sabe quão próximo ele estava da omnipotência divina. Apesar de menos poderoso, este novo Superman nem por isso é menos heroico. Muito pelo contrário.
Ao vincar a humanidade do Último Filho de Krypton, Byrne colocou em evidência as suas fraquezas mas também a sua força moral. Aquela que possui alguém que, agraciado com poderes semidivinos, os coloca abnegadamente ao serviço da comunidade, devolvendo, de caminho, a esperança a um mundo que não é o seu. Isto ao mesmo tempo que aprende a lidar com o peso do legado que carrega enquanto último representante de uma civilização condenada. Sem mencionar o impacto negativo que o seu segredo causa em alguns dos seus entes mais queridos.
Diga-se o que se disser acerca desta reformulação do Homem de Aço, nunca antes a sua origem fora contada com tanta minúcia. Circunstância que, só por si, me leva a considerar The Man of Steel a versão definitiva de uma história tantas vezes revisitada. Atrevo-me mesmo a dizer que será a pièce de résitance de Byrne. Sobre a qual, malgrado a natureza testamentária da presente análise, muito mais haveria ainda para dizer.
A minha singela evocação desta obra incontornável na memorabilia do Homem de Aço configura, de resto, o primeiro de vários tributos que tenciono render ao herói dos heróis, no ano em que se comemora o seu 80º aniversário.
Mantenham-se sintonizados porque não vão certamente querer perder pitada do que está na calha...

A vitalidade de um octogenário
que continua a ser o ídolo de multidões.