Mostrar mensagens com a etiqueta metrópolis. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta metrópolis. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 28 de junho de 2018

HERÓIS EM AÇÃO: SUPER-HOMEM


  Ao fazer da Terra o seu lar, um órfão das estrelas tornou-se filho de dois mundos sem realmente pertencer a qualquer um deles. A par da sua incessante luta pela Verdade e pela Justiça, aprender o significado de ser humano foi desde sempre o maior desafio deste estranho visitante, que apenas quer ser um de nós. 


Nota prévia: É altamente recomendável a leitura do artigo precedente, por forma a obter uma melhor compreensão da génese do Super-Homem, da sua importância enquanto precursor da Idade de Ouro da banda desenhada e do contencioso judicial desencadeado pelos respetivos direitos autorais.

Denominação original: Superman 
Licenciadora: Detective Comics (DC)
Criadores: Jerry Siegel (história) e Joe Shuster (arte conceitual)
Estreia: Action Comics nº1 (junho de 1938)
Nome verdadeiro: Kal-El (originalmente Kal-L)
Identidade civil: Clark Joseph Kent
Espécie: Alienígena 
Local de nascimento: Kryptonopolis ( cidade elevada a capital do planeta Krypton na sequência da abdução de Kandor perpetrada por Brainiac) 
Parentes conhecidos: Jor-El e Lara Lor-Van (pais biológicos, falecidos); Jonathan e Martha Kent (pais adotivos, falecidos); Zor-El e Alura In-Ze (tios, falecidos); Kara Zor-El/Supergirl (prima); Lois Lane (esposa) e Jonathan Samuel Kent (filho)
Profissão: Ex-agricultor, repórter e aventureiro
Afiliações: Membro fundador da Liga da Justiça e líder da Super-Família 
Base operacional: Metrópolis, Torre de Vigilância (satélite da Liga em órbita geoestacionária) e Fortaleza da Solidão (localizada algures no Ártico) 
Armas, poderes e habilidades: "Mais rápido do que uma bala! Mais forte do que uma locomotiva! Capaz de galgar prédios altos de um só salto!". Empregue pela primeira vez na série animada produzida pelos Irmãos Fleischer nos anos 1940 (ver Noutros media), esta descrição tradicional dos poderes do Super-Homem tornar-se-ia icónica mitologia do herói e na cultura popular do último século.
Contudo, o catálogo de poderes e habilidades do Último Filho de Krypton, bem como a respetiva magnitude, variou consideravelmente ao longo dos anos.
Na sua conceção original, e tal como descrito nas suas primeiras histórias, os poderes do Super-Homem eram limitados. Consistindo os mesmos em força sobre-humana - que lhe permitia, por exemplo, erguer um automóvel sobre a cabeça - correr a velocidades incríveis e pular grandes distâncias. A sua relativa invulnerabilidade era explicada pelo facto de possuir uma pele muito resistente, que nem balas ou outros projéteis conseguiam trespassar.
Quando os Irmãos Fleischer criaram aquela que seria a primeira série animada do Super-Homem, os constantes saltos do herói revelaram-se inconvenientes para o projeto, pelo que foi pedido à DC que os substituísse pela capacidade de voar.
Durante a Idade da Prata, os escritores que passaram pelas histórias do Homem de Aço incrementaram gradualmente os seus poderes para níveis cada vez mais elevados. Do seu arsenal clássico de poderes faziam parte, então, o voo, a superforça, a invulnerabilidade, os super-sentidos, a supervelocidade, o sopro congelante e uma gama de poderes óticos onde pontificava a visão de raios-X, térmica, microscópica e telescópica.
A este verdadeiro índice de superpoderes, foram ainda acrescentadas algumas habilidades insólitas. A saber, o super-ventriloquismo, o super-hipnotismo, gritos sónicos com mais de um milhão de decibéis e um super-beijo indutor de amnésia - o mesmo que, no filme Superman II, o herói usou para apagar as memórias de Lois Lane acerca da sua identidade secreta.
Era também comum, nesse mesmo período histórico, o Super-Homem voar através de galáxias ou deslocar planetas das suas órbitas. Como resultado, era tarefa cada vez mais complicada para os escritores das suas histórias desencantarem desafios credíveis para um herói que resvalava alegremente para a omnipotência.
Imagem relacionada
Não havia limites para as proezas do Super-Homem da Idade da Prata.
Até mesmo rebocar planetas  era uma tarefa corriqueira.
Houve então a necessidade de diminuir o poderio do Super-Homem, Várias tentativas foram ensaiadas ao longo dos anos, mas seria John Byrne a solucionar o problema em 1986. Na aclamada saga Man of Steel (já aqui esmiuçada), o escriba canadiano estabeleceu uma série de obstáculos intransponíveis para as habilidades do Super-Homem.
De há uns anos a esta parte, os níveis de poder do Homem de Aço têm vindo, porém, a aumentar novamente. Nas suas encarnações mais recentes, o herói consegue sobreviver a detonações nucleares ou viajar no espaço sideral sem oxigénio.
A fonte dos poderes do Super-Homem também nem sempre foi a mesma. Aquando do seu debute em Action Comics nº1, foi explicado que as suas capacidades sobre-humanas advinham da sua herança kryptoniana, que o tornava fisicamente mais evoluído do que os humanos. Mais tarde seria, contudo, estabelecido que a sua fisiologia kryptoniana lhe permitia, afinal, absorver a energia de estrelas amarelas como o nosso Sol. De acordo com esta explicação - tornada canónica- o organismo do Super-Homem funciona como uma espécie de bateria solar que absorve e armazena constantemente a energia emanada pelo Astro-Rei.
Não são, no entanto, apenas os seus assombrosos poderes que fazem do Super-Homem primus inter pares. O seu carisma e idealismo inspiram muitas vezes aqueles que o rodeiam e a sua vontade inquebrantável impele-o sempre a lutar por aquilo em que acredita. Além disso, o Homem de Aço é também um exímio lutador corpo a corpo e possui um quociente de inteligência difícil de quantificar numa escala humana. Dispondo, ademais, do acesso à mais sofisticada tecnologia kryptoniana na sua Fortaleza da Solidão.

Super-Homem desenhado por Joe Shuster, seu cocriador.

Vulnerabilidades: A despeito do seu enorme poderio e da sua virtual indestrutibilidade, o Homem de Aço é mortal e pode ser ferido. Desde logo por qualquer forma de magia ou feitiçaria, às quais é tão suscetível como qualquer pessoa comum.
O chumbo, por outro, lado bloqueia a sua visão de raios-X e demais poderes óticos. Ironicamente, esse é também o único material na Terra capaz de proteger o Super-Homem dos devastadores efeitos que a kryptonita surte no seu organismo.
Na sua variante mais comum - a verde, embora exista kryptonita de cores e efeitos diversos - esses detritos radioativos do seu planeta natal enfraquecem o Homem de Aço, causando-lhe náuseas e dores lancinantes. Uma exposição prolongada à kryptonita poderá mesmo ser-lhe fatal ou, no caso da sua variante dourada, resultar na perda definitiva dos seus poderes.
Sendo, como vimos, o sol amarelo da Terra a fonte dos poderes do Super-Homem, o herói é enfraquecido quando privado de luz solar durante longos períodos de tempo. O mesmo sucede quando é exposto à radiação - natural ou artificial - de um sol vermelho igual ao que aquecia e alumiava Krypton.

Imagem relacionada
Kryptonita, um presente envenenado para o Homem de Aço. 

Origem

Apesar de, ao longo dos anos, ter sido objeto de sucessivas revisitações, a origem do Super-Homem manteve-se, na sua essência, inalterada. Sendo, também por isso, do conhecimento geral, mesmo entre aqueles para quem o conceito de super-heróis é pouco ou nada apelativo.
Filho de Jor-El e Lara, o bebé Kal-El foi enviado para a Terra a bordo de uma nave construída pelo seu pai, instantes antes da explosão de Krypton. Chegado ao nosso planeta, foi adotado por Jonathan e Martha Kent, um simpático casal de agricultores do Kansas que o batizaram de Clark Kent.
Após passar a infância e a adolescência em Smallville - como Superboy, em algumas versões da história - , já adulto Clark mudou-se de armas e bagagens para Metrópolis. Na Cidade do Amanhã arranjou emprego como repórter do Daily Planet, onde travou amizade com o fotógrafo Jimmy Olsen e se perdeu de amores por Lois Lane, sua colega de profissão.
Secretamente, porém, Clark Kent usava os seus fabulosos poderes para lutar pela Verdade e Justiça ao melhor estilo americano como Super-Homem.
Clara alegoria dos imigrantes em busca do Sonho Americano, na origem do Super-Homem é possível identificar também diversos elementos religiosos. Desde logo o paralelismo existente entre a jornada do pequeno Kal-El e a de Moisés, o principal profeta do Judaísmo. Ambos foram salvos pelos seus progenitores de uma morte certa e ambos adotaram como sua uma cultura estrangeira que ajudaram a prosperar.

Resultado de imagem para dc comics jor-el and lara
Jor-El prestes a enviar o seu único filho para o nosso mundo.
Com uma sonoridade tipicamente hebraica, invocando outros dos grandes profetas do Judaísmo como Daniel ou Samuel, Kal-El - o nome kryptoniano do Super-Homem - pode ser traduzido como "A Voz de Deus". O sufixo El significa de facto "deus", ao passo que a grafia de Kal é muito semelhante à da palavra hebraica para "voz" ou "vaso". A despeito de terem dado à sua criação uma identidade eminentemente cristã, por forma a tornar o Homem de Aço mais apelativo ao público em geral, importa recordar que Jerry Siegel e Joe Shuster possuíam raízes judaicas.
Contudo, temáticas retiradas da mitologia cristã estão também ocasionalmente presentes na origem do Último Filho de Krypton. Um bom exemplo disso é a forma como ela foi apresentada em Superman, the Movie (ver Noutros media). No filme, a jornada de Kal-El  paraboliza o advento de Jesus Cristo à Terra, não faltando sequer uma nave a fazer lembrar a Estrela de Belém. Também a missão messiânica de liderar a Humanidade para um futuro radioso que lhe é confiada pelo pai não deixa grande margem para dúvidas.

Super-Homem sob o traço de Wayne Boring, o sucessor de Joe Shuster.

.Influências visuais

Conforme referido no artigo anterior dedicado aos autores do Super-Homem, nos seus verdes anos Jerry Siegel e Joe Shuster nutriam um grande fascínio por heróis viris e eram leitores vorazes de estórias de ficção científica. Muitas das quais apresentavam personagens dotadas de poderes extraordinários, como telepatia, invisibilidade ou força sobre-humana.
Assim, uma das principais influências na conceção do Homem de Aço foi John Carter de Marte, herói saído em 1917 da imaginação de Edgar Rice Burroughs - o criador de Tarzan, outro dos ídolos de juventude da dupla Siegel/Shuster.
Enviado acidentalmente para o Planeta Vermelho, John Carter, apesar da sua condição de simples humano, adquiria superforça e a capacidade de saltar grandes distâncias graças aos efeitos da baixa gravidade marciana. Qualquer semelhança com a versão primitiva do Super-Homem será, pois, mais do que uma singela coincidência.
Apesar de ser comummente aceite que a novela Gladiator (escrita em 1930 por Philip Wylie, e cujo protagonista detinha habilidades similares às do Super-Homem) terá influenciado sobremaneira o processo criativo de Siegel e Shuster, esse tese foi perentoriamente refutada pelo primeiro.
Certo é que Jerry Siegel e Joe Shuster eram grandes apreciadores de filmes, sendo notória a influência cinematográfica nas aventuras iniciais do Super-Homem. Shuster, em particular, era fã incondicional de Douglas Fairbanks - ator que interpretou Zorro e Robin Hood no grande ecrã - e foi na sua postura desafiante que se inspirou para desenhar a pose heroica do Homem de Aço.
Já a Clark Kent serviu como modelo o comediante Harold Lloyd, cuja principal personagem era um homem gentil que era acossado por rufias até ao dia em que perdia por fim as estribeiras e revidava com violência. Por ele próprio usar óculos e se rever na pacatez da personagem de Lloyd, Joe Shuster considerava-a passível de gerar identificação com muitos leitores.


Douglas Fairbanks (cima) e Harold Lloyd
 influenciaram, respetivamente, o visual do Super-Homem
 e de Clark Kent.
Shuster era também um grande fã daquilo a que hoje chamamos cultura fitness. Colecionava várias publicações a ela dedicadas e usavas as respetivas fotografias como referências visuais para a sua arte.
A conceção visual do Super-Homem foi, com efeito, fortemente influenciada pela temática desportiva. Começando pelo seu uniforme, que emulava as fatiotas justas e de cores garridas que recobriam os corpos musculados de halterofilistas e homens fortes circenses. A bem do pundonor imposto pelos rígidos padrões morais da época, era comum uns e outros usarem uma espécie de calção para resguardarem a respetiva genitália de olhares indiscretos. Explicando-se, assim, a inclusão desse adereço nos paramentos do Super-Homem. Ou seja, o Homem de Aço nunca usou a roupa interior por fora, como alguns brincalhões gostam de sugerir...
Não foi também por acaso que Shuster começou por desenhar o Super-Homem com sandálias entrelaçadas em vez das icónicas botas vermelhas. Tratava-se do tipo de calçado habitualmente usado tanto pelos halterofilistas do início do século XX como por heróis mitológicos como Sansão.
Por sua vez, a insígnia peitoral do Super-Homem (cujo S estilizado se tornaria com o tempo um símbolo mundialmente reconhecível) poderá muito bem ter sido inspirada nos emblemas costurados nos uniformes dos atletas de alta competição.

Imagem relacionada
Halterofilista do início do século XX.

Outros dos seus elementos mais distintivos, a capa do Super-Homem foi uma ideia retirada da literatura pulp onde era comum os espadachins usarem esse adereço. Uma opção estética que ficaria para sempre associada ao arquétipo super-heroico, conquanto as capas sejam hoje consideradas demodé.
Quanto à fisionomia apolínea do Homem de Aço, foi decalcada de John Weissmuller, o ex-nadador olímpico celebrizado pelo papel de Tarzan nos anos 30 e 40 do último século. Misturada, também, com os traços cartunescos de Dick Tracy, o famoso detetive de gabardina amarela.
Shuster definiu a estética do Super-Homem e durante várias décadas os artistas que lhe sucederam eram obrigados a conformar o seu traço a esse estilo predefinido. O que não obstou a uma constante evolução visual da personagem ao sabor tanto das tendências da época como do talento dos seus ilustradores. São também eles os homenageados neste artigo.

Super-Homem por Curt Swan,
 o artista que mais tempo desenhou
as histórias do herói kryptoniano.


Personalidade

Contrastando com a bonomia que hoje caracteriza o Super-Homem, nas suas primeiras histórias assinadas por Jerry Siegel e Joe Shuster, o herói era rude e agressivo. Sempre que interferia em algum crime, fazia-o com recurso a métodos extremamente violentos, mercê de um código de conduta menos estrito do que aquele que segue atualmente.
Ainda que não fosse tão desapiedado como o Batman era por aqueles dias, nos seus alvores o Homem de Aço não se preocupava com os danos que o seu uso desproporcionado da força poderia causar.  Vale a pena lembrar, a este propósito, que, no início da sua carreira, o Super-Homem enfrentava quase exclusivamente bandidos comuns. Pessoas de carne e osso a quem, com perturbadora frequência, o herói não hesitava em tirar a vida. Embora, por norma, essas mortes não fossem mostradas de forma explícita, de modo a evitar ferir a sensibilidade dos jovens leitores.

Resultado de imagem para golden age superman
Impensável nos dias de hoje, nos seus primórdios o Super-Homem não tinha pejo em matar os seus adversários.
 Se preciso fosse, com recurso a armas de fogo.

Esta vaga de violência desmedida terminaria em 1940, quando Whitney Ellsworth, o novo editor das histórias do Super-Homem, instituiu um código de conduta obrigatório para as suas personagens. Ficando, o Super-Homem, a partir desse momento, proibido de matar.
Alguns dos escribas que renderam Jerry Siegel cuidaram de vincar ainda mais esse traço no caráter do Super-Homem, incutindo-lhe um senso de idealismo e uma moral inabalável. Donde resultou o juramento solene do herói de nunca tomar uma vida humana. Juramento que seria, contudo, violado por mais do que uma vez, em diferentes segmentos culturais. Quem não se lembra, por exemplo, do pescoço partido do General Zod, no filme Homem de Aço?
Muitas vezes atribuído aos valores tradicionais do Centro-Oeste americano que lhe foram transmitidos pelos seus pais adotivos, o compromisso do Super-Homem em operar em estrita obediência da lei, tem constituído um exemplo para muitos heróis. Mas também criou ressentimentos noutros. São esses que se lhe referem pejorativamente como "o grande escuteiro azul". 
Com efeito, a intransigência moral do Homem de Aço tem suscitado ocasionalmente atritos no seio da comunidade super-heroica, visto que nem todos os seus pares se reveem nesse ethos.
Devido à destruição do seu planeta natal e consequente perda da sua família biológica, o Super-Homem denota uma natureza superprotetora em relação à Terra, especialmente no que aos seus entes queridos diz respeito.
Essa perda, combinada com a pressão para fazer um uso responsável dos seus poderes, provoca no Super-Homem um profundo sentimento de solidão, que nem a sua esposa e amigos conseguem por vezes aplacar. Momentos que servem como um doloroso lembrete da sua origem extraterrestre, e nos quais Kal-El compreende o real significado do sábio ensinamento do seu pai biológico: "Parecer-te-ás com eles, mas nunca serás um deles."

No período pós-Crise nas Infinitas Terras, 
John Byrne humanizou o Super-Homem.

Um rosto na multidão

Ridículo aos olhos de alguns e genial aos olhos de outros, o disfarce de Clark Kent usado pelo Super-Homem para se camuflar na paisagem humana de uma grande cidade como Metrópolis é mais elaborado do que à primeira vista parece.
Ao passo que muitos dos seus congéneres usam máscaras ou sofrem algum tipo de transformação física quando assumem as respetivas identidades heroicas, o Super-Homem exibe constantemente o seu rosto sorridente à luz do dia.
Por mais paradoxal que isso possa soar, reside precisamente neste facto o segredo para o anonimato do herói. Que, ao expor publicamente a sua face, transmite a ideia de nada ter a esconder.
Afinal de contas, por que motivo haveria um ser tão poderoso como o Super-Homem querer levar uma vida normal entre aqueles que protege?
Existe, assim, entre as pessoas comuns a crença de que o Homem de Aço é apenas um estranho visitante de outro mundo que dispensa mundanidades como ter um emprego ou uma identidade secreta. Poucos são aqueles que imaginam ser possível cruzarem-se com ele no elevador ou numa rua apinhada. Mais a mais porque o seu disfarce corresponde, de facto, a uma minuciosa encenação.

Imagem relacionada
Clark Kent serve de disfarce ao Homem de Aço ou vice.-versa?

Senão vejamos: para se fazer passar por um de nós, o Super-Homem cria um alter ego que, de tão medíocre, se torna invisível mesmo aos olhos dos que com ele convivem. Basta atentar na forma como a própria Lois Lane costumava suspirar pelo Homem de Aço ao mesmo tempo que desprezava Clark Kent. E se a frase anterior está conjugada no pretérito imperfeito do modo indicativo é porque, hoje em dia, Lois e Clark são marido e mulher, não havendo, por isso, lugar para segredos entre eles.
De todo o modo não são os óculos o adereço principal do disfarce do Super-Homem, contrariamente ao que muitos, erradamente, sustentam. Há toda uma complexa composição por detrás da personagem Clark Kent. Consistindo a mesma na simulação de gaguez, na postura atrofiada e no comportamento desastrado. Características que, somadas, fazem do repórter do Daily Planet a perfeita antítese do Super-Homem. Que, dessa forma, logra a proeza de se esconder à vista de todos. Apenas mais um rosto entre a multidão anónima que diariamente circula pelas ruas de Metrópolis.



De cima para baixo:
Dan Jurgens matou o Super-Homem,
Jim Lee modernizou-o
García-López iconizou-o.

Trivialidades

*Além de Homem de Aço e Último Filho de Krypton, Maravilha de Metrópolis, Grande Escuteiro Azul e Homem do Amanhã são outras das alcunhas normalmente associadas ao Super-Homem;
*Lois Lane, Lana Lang, Lara Lor-Van e Lex Luthor são apenas alguns dos muitos nomes com as iniciais LL inscritos na mitologia do Homem de Aço. Apesar da multitude de teses aventadas ao longo dos anos, permanece por clarificar o verdadeiro motivo por detrás desta profusão aliterativa;
*Embora tenha tido desde sempre em Lois Lane o seu principal interesse amoroso, ao longo dos anos o Super-Homem manteve romances com outras mulheres. Lana Lang, Loris Lemaris (uma sereia descendente de atlantes surgida durante a Idade da Prata) e mais recentemente, nos Novos 52, a Mulher-Maravilha foram, em algum momento, donas do coração do herói;

Imagem relacionada
O estranho amor entre um kryptoniano e uma sereia.
*Os kryptonianos prestavam culto religioso a Rao, o sol vermelho orbitado pelo seu planeta. Na versão clássica da origem do Super-Homem foi a implosão de Rao a provocar a destruição de Krypton;
*Clark Kent resulta da combinação dos nomes próprios dos atores Clark Gable e Kent Taylor;
*Toronto, cidade natal de Joe Shuster, serviu de modelo arquitetónico a Metrópolis, cujo nome, por sua vez, foi retirado do filme homónimo realizado em 1927 pelo germânico Fritz Lang;
*Em novembro de 2011, um exemplar de Action Comics nº1 foi vendido online por mais de 2 milhões dólares. Especula-se que poderá tratar-se de uma das edições roubadas da coleção privada do ator Nicholas Cage onze anos antes;
*O famoso mantra "pela Verdade e Justiça ao estilo americano" é na verdade uma declinação daquele que servia de introdução a cada episódio do primeiro folhetim radiofónico baseado no Super-Homem. A sua versão original estabelecia que o herói lutava pela "Verdade, Honestidade e Justiça". A substituição de "honestidade" por "ao estilo americano" visava apaziguar o sentimento anticomunista fortemente arraigado na cultura popular dos EUA durante os anos do macarthismo; 
*A opção de transformar Clark Kent num repórter sobreveio do facto de, na sua juventude, Jerry Siegel ter ambicionado uma carreira jornalística. Essa foi também a forma encontrada pelo Super-Homem de estar sempre em cima do acontecimento, possibilitando-lhe uma atuação mais eficiente. Apesar de tradicionalmente ligado à imprensa escrita, nos anos 1970 Clark Kent trocou o Daily Planet (originalmente trabalhava no Daily Star) pela Rede Galáxia, onde se tornaria pivô de telejornal;
*Em tempos, ao Super-Homem foi concedido o estatuto de cidadão honorário de todos os países membros das Nações Unidas. Já este século, numa história controversa, o herói renunciou à nacionalidade estadunidense;
Resultado de imagem para clark kent galaxy communications
Super-Homem torna-se cidadão honorário das Nações Unidas.
*O Super-Homem ocupa o primeiro lugar no Top 100 dos super-heróis organizado pelo IGN e foi eleito pela revista Empire como a melhor personagem de banda desenhada de todos os tempos;
*Muitos fãs acreditam na existência da chamada "Maldição do Super-Homem". Na origem desta macabra superstição, a tragédia e o infortúnio que se abateram sobre vários dos atores que deram vida ao herói (vide texto seguinte): George Reeves morreu em circunstâncias nebulosas, Christopher Reeve (falecido em 2004) ficou tetraplégico ao cair de um cavalo, ao passo que Kirk Alyn, Dean Cain e Brandon Routh tiveram as suas carreiras estagnadas. Será Henry Cavill a próxima vítima dessa suposta malapata?
*Clark Kent não fuma, não ingere bebidas alcoólicas e, num passado recente, assumiu-se temporariamente como vegetariano; 
*A primeira aparição do Homem de Aço em Terras Tupiniquins remonta a dezembro de 1938, no número 445 de A Gazetinha, suplemento infanto-juvenil distribuído à época com o jornal A Gazeta. O seu advento a Portugal seria mais tardio, tendo ocorrido em meados de 1952 num fascículo não especificado de Mundo de Aventuras, almanaque de banda desenhada publicado entre 1949 e 1987 sob os auspícios da extinta Agência Portuguesa de Revistas.

Resultado de imagem para mundo de aventuras super-homem
Em Portugal, as aventuras do Homem de Aço
 começaram por ser publicadas em Mundo de Aventuras.

Noutros media

Há muito consagrado como um portento mediático e um ídolo de multidões, foi à boleia da sua popularidades nos comics que o Super-Homem partiu à conquista de outros segmentos culturais. Logo em 1940, foi para o ar The Adventures of Superman, um folhetim radiofónico que só abandonaria as ondas hertzianas 11 anos depois, e que sinalizou a estreia do herói kryptoniano noutro meio de comunicação.
No ano seguinte, ao mesmo tempo que da pena de George Lowther saíam várias novelas dedicadas ao Homem de Aço ilustradas por Joe Shuster, o herói chegava pela primeira vez ao cinema por intermédio de uma série animada produzida pelos Irmãos Fleischer, e simplesmente intitulada Superman.

Resultado de imagem para superman fleischer studios
O Homem de Aço salva uma donzela em apuro
s na sua primeira série animada.

Ainda nessa década, seguiu-se, em 1948, o lançamento de Superman, a primeira série cinematográfica em ação real estrelada por Kirk Alyn. Aquele que foi o primeiro ator a dar vida ao Homem de Aço, repetiria o papel dois anos depois em Atom Man versus Superman, espécie de segunda temporada da série original.
Em 1951, o Super-Homem teve direito à sua primeira longa-metragem. Em Superman and the Mole Men, George Reeves surgiu como o herdeiro do manto sagrado que Kirk Alyn recusara continuar a ostentar. O filme serviu, na prática, como episódio-piloto de Adventures of Superman, a primeira série televisiva baseada no Super-Homem, exibida sem interrupções entre 1952 e 1958. O seu cancelamento seria, de resto, precipitado pelo aparente suicídio de Reeves - não faltando, todavia, quem acredite que o ator tenha sido vítima de homícidio.
Ao longo da década de 1960, o Super-Homem foi cabeça de cartaz de um par de séries animadas da DC e até de um musical da Broadway sugestivamente intitulado It's a bird... It's a plane... It's Superman.
Seria, contudo, em 1978, com a estreia de Superman, The Movie, no qual coube a Christopher Reeve representar o Último Filho de Krypton, que o herói conquistou toda uma nova audiência. Ovacionado pelo público e pela crítica, o filme foi um verdadeiro divisor de águas e inspirou quatro sequelas. A última das quais, Superman Returns,  aterrou nos cinemas de todo o mundo em 2006, com Brandon Routh a fazer as vezes do saudoso Christopher Reeve.

De Kirk Alyn a Henry Cavill:
os muitos rostos do Super-Homem no cinema e na TV.

Em 2013, o polémico Man of Steel inaugurou uma nova franquia cinematográfica da DC e teve a particularidade de, pela primeira vez, vermos um ator não-americano - Henry Cavill é britânico - a interpretar o Super-Homem.
No pequeno ecrã, Lois and Clark: The New Adventures of Superman (1993-97) e Smallville (2001-2011) foram as duas últimas séries de ação real do Homem de Aço a serem produzidas e estreladas, respetivamente, por Dean Cain e Tom Welling.
Além de personagem de jogos de vídeo e de ter inspirado vários parques temáticos nos EUA, o Homem de Aço foi também retratado em dois quadros da autoria de Andy Warhol. Confirmando,dessa forma, o seu estatuto de ícone da cultura mundial.


O Homem de Aço sob o traço do meu bom amigo Emerson Andrade,
 a quem agradeço mais este generoso contributo para o meu blogue.






quinta-feira, 14 de junho de 2018

ETERNOS: JERRY SIEGEL & JOE SHUSTER


  Nos dias sombrios da Grande Depressão, dois jovens sonhadores marcados pelo infortúnio deram ao mundo o seu maior herói. A glória do Super-Homem, arauto de uma nova era alçado a ícone global, apresentá-los-ia, porém, à face menos luminosa do Sonho Americano.
  No ano em que o Último Filho de Krypton comemora o seu 80º aniversário, fiquem a conhecer alguns dos maiores segredos por trás da sua criação e os dramas dos seus criadores.

À putativa capacidade de antecipar acontecimentos vindouros, próximos ou remotos, chama-se precognição ou premonição. Termos diferentes para designar algo que, desde tempos imemoriais, fascina a Humanidade: a arte de adivinhar o futuro.
Mito ou realidade, trata-se de um dom (ainda que alguns possam, legitimamente, considerá-lo uma maldição) cobiçado tanto por deuses como por reles mortais, e do qual nem o próprio Super-Homem desdenharia. Esse é, aliás, um dos talentos em falta no seu robusto catálogo de poderes e habilidades.
Também os criadores do Homem de Aço gostariam certamente de ter tido acesso a uma bola de cristal que lhes permitisse perscrutar o futuro. Esse pequeno mirante sobre o porvir poderia tê-los poupado a uma ingrata sina ditada por uma decisão precipitada. A mesma que mudaria para sempre as suas vidas e a história da Nona Arte.


Quando dois jovens do Ohio deram asas à imaginação,
nasceu um mito imorredouro.
Com efeito, se, no princípio dos anos 30 do século transato, Jerry Siegel e Joe Shuster, dois jovens judeus residentes em Cleveland (no estado norte-americano do Ohio), tivessem o poder de prever o que o Amanhã lhes reservava, as suas jornadas pessoais teriam decerto invocado menos uma longa travessia do Cabo das Tormentas.
Ambos teriam, com elevada quota de probabilidade, acumulado fortuna colossal e transformado para sempre o sistema mediático do seu país - e, quiçá, do resto do mundo. Desprovidos de talentos adivinhatórios e guiados pelos impulsos da juventude, tiveram de conformar-se com as migalhas que lhes foram atiradas. Chegando à indignidade de esmolar um módico de justiça e reconhecimento depois de terem dado aos fracos e oprimidos o seu campeão supremo.
Apenas uma das muitas amargas ironias a marcarem as vidas de Jerry Siegel e Joe Shuster, dois homens aparentemente fadados a serem protagonistas da desdita. E que, apesar de nascidos em latitudes distantes, a bússola irrequieta do destino cuidou de fazer com que os seus rumos convergissem. Vidas cruzadas ou uma cruz partilhada?

Dois homens, um destino 

Jerome "Jerry" Siegel, o mais novo da meia dúzia de rebentos de um casal de imigrantes lituanos fugidos à miséria e ao antissemitismo, veio ao mundo a 17 de outubro de 1914, em Cleveland. O sustento da família - cujo apelido original era Segalovich - provinha de uma loja de roupa usada que o pai explorava na baixa da cidade.
Escassos meses antes, a 10 de julho desse longínquo ano de 1914, a metrópole canadiana de Toronto servira de berço a Joseph "Joe" Shuster. Também ele filho de imigrantes judaicos - com raízes ucranianas e holandesas - o pequeno Joe tinha pai alfaiate e mãe a tempo integral. As coincidências não se quedavam, no entanto, por aí.
Jerry e Joe eram fascinados por histórias de ficção científica, lendo com avidez aquelas que, à época, eram publicadas em Amazing Stories, Weird Tales e em outras revistas pulp dedicadas ao género. Também as aventuras aos quadradinhos de Tarzan e Buck Rogers davam rédea solta à imaginação dos petizes encalhados numa infância pouco idílica.

Imagem relacionada


Resultado de imagem para weird tales pulp magazine
Duas das leituras preferidas nos verdes anos de Jerry Siegel e Joe Shuster.
Seria, de resto, essa paixão comum pelo fantástico o catalisador de uma duradoura e frutífera amizade iniciada na viragem da década de 1930, nos corredores do liceu Glenville de Cleveland. Cidade para onde a família Shuster - originalmente Shusterowich - se mudara em 1924 em busca de uma vida mais desafogada do que aquela que conhecera no Grande Vizinho do Norte. E que, entre outras coisas, obrigara o pequeno Joe a trabalhar como ardina do Toronto Daily Star a fim de contribuir para o magro orçamento familiar.
Mesmo antes de a Grande Depressão deixar a economia americana em frangalhos, a pobreza era outro denominador comum nas vidas de Jerry Siegel e Joe Shuster. Enquanto o primeiro sonhava escapar-lhe tornando-se escritor de ficção científica, o segundo vasculhava o lixo à procura de papel onde pudesse rabiscar os seus desenhos.
Tímidos e obcecados com universos de fantasia, as versões púberes de Jerry Siegel e Joe Shuster encaixavam-se perfeitamente no estereótipo nerd. Escusado será dizer que estavam longe de serem populares entre os seus pares, em especial os de sexo oposto. Duas almas solitárias reunidas por um obséquio do acaso para, juntas, darem forma aos sonhos que as ajudavam a suportar um quotidiano de agruras.

Imagem relacionada
Dois jovens visionários com infâncias difícieis
deram ao mundo o seu maior herói.
Data de 1931 uma das primeiras colaborações artísticas da parelha criativa que, antes do final dessa década, conceberia aquele que seria o primeiro super-herói. Nesse ano, Jerry Siegel e Joe Shuster produziram Groober, the Mighty, uma confessa paródia de Tarzan. Publicada no Glenville Torch, o jornal da escola que ambos frequentavam, a história evidenciava já a predileção dos seus autores por figuras corajosas e viris. No fundo, aquilo que Jerry e Joe aspiravam ser.
Terminado o liceu, Joe Shuster teve uma breve passagem pela Cleveland School of Art. Apesar desse aprendizado formal, Joe era - mais por necessidade do que por opção - um autodidata. Sem o virtuosismo artístico de Hal Foster (criador do Príncipe Valente) ou Alex Raymond*, o seu traço primava pela simplicidade, sendo notória a influência cinematográfica na composição das suas narrativas visuais.
A arte de Joe Shuster era, contudo, prejudicada pelos seus graves problemas de visão. Como o próprio revelaria em entrevistas concedidas ao longo dos anos, para ver os seus próprios desenhos, Joe precisava aproximar a página até esta ficar a um palmo da sua cara. Mercê dessas dificuldades, foi ele o inventor das chamadas splash pages, páginas preenchidas por uma única ilustração. Uma inovação narrativa que, pelo seu impacto visual, faria escola entre muitos oficiais do mesmo ofício até aos dias de hoje.
Por sua vez, Jerry Siegel, sem meios para financiar um curso superior, abraçou vários empregos mal remunerados enquanto acalentava o sonho de ganhar a vida como autor de ficção científica. Cansado de cortejar em vão as editoras, partiu dele a ideia de lançar um fanzine - um dos primeiros surgidos em terras do Tio Sam - para divulgar as histórias produzidas a meias com o seu compincha.
Com o subtítulo The Advance Guard of Future Civilization, o número inaugural de Science Fiction seria editado em outubro de 1932, e expedido por correio aos interessados. No seu rol de colaboradores ocasionais pontificaram nomes como Mort Weisinger (futuro editor dos títulos do Homem de Aço na DC Comics) e Forrest J. Ackerman (cocriador de Vampirella**).
Além das historietas saídas da pena de Jerry Siegel - e, invariavelmente, ilustradas por Joe Shuster - , cada um dos cinco fascículos publicados de Science Fiction continha ainda resenhas de outros fanzines e de livros de ficção científica. Apesar da efemeridade do projeto, seria no seu terceiro número, lançado em janeiro de 1933, que seria apresentado o protótipo do Super-Homem.
Numa história intitulada The Reign of the Superman (O Reinado do Super-Homem), Jerry Siegel e Joe Shuster mostravam como um indigente chamado Bill Dunn era transformado por um cientista inescrupuloso, com recurso a substâncias alienígenas. num poderosíssimo telepata. Habilidade que Dunn usava para manipular mentes alheias, assumindo-se como uma ameaça para a Humanidade circundante e transformando-se desse modo num dos primeiros supervilões da banda desenhada.

.
Originalmente, o Super-Homem era um criminoso
com poderes mentais.
Imagem relacionada
A fisionomia de Bill Dunn (o primeiro Super-Homem)
parece ter servido de molde a Lex Luthor,
o eterno némesis do Homem de Aço.
Notoriamente inspirada em Frankenstein e com atributos muito diferentes do herói que os imortalizaria no folclore popular, esta criação de Jerry Siegel e Joe Shuster foi a primeira a ser identificada como Super-Homem. Contrariamente à tese propalada por algumas mentes bizantinas, esta nomenclatura não emanou, porém, de Assim Falou Zaratrusta. Obra da autoria de Friedrich Nietzsche editada em 1885, na qual o filósofo germânico discorria sobre as potencialidades do Übermensch" - literalmente, o "Homem Superior"; termo que seria todavia traduzido como "Super-homem".
Sucede que não consta que Jerry e Joe tenham alguma vez lido a obra em apreço ou a ela tenham aludido para explicar a origem do nome escolhido para batizar a sua criação. De facto, a sua intenção consistia, tão-somente, em inverter o arquétipo heroico de personagens mitológicas consideradas sobre-humanas, como Hércules ou Sansão. Foi, pois, esse o real motivo para o Super-Homem ter sido inicialmente retratado como um criminoso.
O público, contudo, mostrou-se pouco recetivo ao conceito de um vilão omnipotente. Apesar do seu inquestionável valor histórico, The Reign of the Superman foi, do ponto de vista literário, pouco impactante. Tratou-se, não obstante, da primeira investida dos autores na ideia de um ser superpoderoso, ulteriormente transmutado de vilão para herói. Roupagens com que seria apresentado aos editores de revistas de banda desenhada - os famosos comics. Numa época em que este novo veículo de comunicação de massas se começava a afirmar no panorama mediático estadunidense.

Super-Homem renascido

Após extinguirem o seu fanzine, Jerry Siegel e Joe Shuster resolveram tentar a sua sorte na florescente indústria dos quadradinhos. Importa ter presente que, até meados da década de 1930, era no formato de tiras diárias na imprensa que heróis clássicos como Tarzan, Mandrake ou Flash Gordon tinham as suas histórias publicadas. Obrigando dessa forma os leitores a esperarem até ao dia seguinte para acompanhar o próximo episódio romanesco dos seus ídolos.
Ora tudo isso mudaria com o advento dos comic books. Que, além de apresentarem histórias completas, podiam também ser colecionados. Se, numa fase inicial, as revistas incluíam, essencialmente, republicações de tiras e outro material preexistente, o sucesso comercial do novo formato logo ditaria a necessidade de personagens e histórias inéditas.
Atentos à evolução do mercado editorial, Jerry Siegel e Joe Shuster, com o entusiasmo próprio da juventude, imaginaram que poderiam encontrar nos comics o espaço ideal para desenvolverem as suas atividades.
Os dois haviam, nesse ínterim, reformulado por completo o conceito do Super-Homem. De vilão com talentos telepáticos, a personagem passara a um vigoroso herói - embora ainda sem superpoderes.
Sem delongas, os dois amigos apresentaram a renovada versão do Super-Homem à Consolidated Book Publishers, editora com sede em Chicago interessada em lançar uma linha de comics, e que procurava por isso matéria-prima para o seu projeto.
Intitulada The Superman, a obra de Jerry Siegel e Joe Shuster apresentada à Consolidated consistia numa revista completa, da qual sobraria apenas a capa chamuscada. As restantes páginas foram queimadas por um enraivecido Joe Shuster depois de a editora ter encerrado inopinadamente o seu departamento de quadradinhos.

Imagem relacionada
Um dos primeiros esboços do Super-Homem
saído do lápis de Joe Shuster em 1936.

Gorada essa primeira tentativa de publicação, a ideia de uma banda desenhada protagonizada por um ser superpoderoso seria temporariamente posta de lado, mas não descartada. Cerca de um ano depois, Jerry Siegel, o sempre laborioso escriba da dupla, propôs ao colega o reaproveitamento do Super-Homem numa tira diária a ser oferecida aos syndicates que forneciam esse tipo de material aos jornais.
Apesar dos reveses anteriores, Joe Shuster deixou-se uma vez mais contagiar pelo entusiasmo do amigo e deitou, de pronto, mãos à obra. Desenhando de forma quase febril, em pouco tempo tinha prontas para publicação várias tiras daquele que viria a ser um dos mais importantes ícones da  cultura pop mundial.
O resultado final afigurou-se bastante satisfatório aos olhos dos dois jovens autores. Nos meses seguintes, enviaram o seu trabalho a uma caterva de editores, colecionando recusa atrás de recusa.
Em 1934, por exemplo, o pacote que haviam remetido para a revista Famous Funnies foi-lhes devolvido sem sequer ter sido aberto. Ainda nesse ano, Jerry Siegel e Joe Shuster encetaram negociações com a editora Super Magazine, mas não chegaram a acordo sobre os termos contratuais.
Seria apenas no final de 1937 que a sorte dos dois amigos começaria a mudar. M.C. Gaines, que rejeitara o Super-Homem quando trabalhava para a Dell Comics, indicou-o para um novo título em produção para a National Allied Publications, uma das editoras que estaria na génese da DC Comics.
Nessa época, Jerry e Joe já não eram propriamente neófitos no ramo dos comics ou completamente desconhecidos para a National. Desde outubro de 1935 que ambos vinham colaborando regularmente em algumas publicações da editora, iniciadas por meio de duas personagens da sua autoria: Henri Duval of France, Famed Soldier of Fortune (um garboso aventureiro gaulês) e Doctor Occult, the Ghost Detective (um investigador paranormal que alguns historiadores classificam como o primeiro super-herói da DC).

Resultado de imagem para henri duval of france famed soldier of fortune
Um dos primeiros trabalhos profissionais
 de Jerry Siegel e Joe Shuster.

Imagem relacionada
Outra criação da dupla Siegel/Shuster, o Dr. Oculto é
considerado o primeiro super-herói da DC.
Estas e outras criações bem-sucedidas encorajaram Jerry Siegel e Joe Shuster a aperfeiçoar o Super-Homem. Agora retratado como o último sobrevivente do planeta Krypton, o herói ganhara  entretanto um uniforme colorido (inspirado na indumentária circense), uma identidade secreta (Clark Kent, o timorato repórter tirado a papel químico de Joe Shuster), uma cidade (Metrópolis, inspirada no filme homónimo de Fritz Lang) e uma namorada (Lois Lane, a quem Joanne Siegel, a segunda esposa de Jerry, serviu de modelo).
Apesar de ainda não voar (limitava-se originalmente a pular muito alto), o Super-Homem possuía já força descomunal e era virtualmente invulnerável. Ao longo dos anos foi consensualizado que esta sua característica refletia a influência de Gladiator, novela de ficção científica da autoria de Philip Wylie dada à estampa em 1930. Poderá existir, no entanto, outra explicação para Jerry Siegel ter imaginado uma personagem indestrutível.
Episódio ainda envolto em denso mistério, em junho de 1932 o pai de Jerry Siegel morrera durante um assalto à sua loja de roupa usada. Várias testemunhas garantiram às autoridades terem sido disparados tiros. No entanto, a causa oficial da morte apresentada no relatório da autópsia foi um ataque cardíaco.
Em meio século de entrevistas, Jerry Siegel nunca fez qualquer menção ao sucedido. Interrogo-me, no entanto, se terá sido mera coincidência um jovem órfão ter criado um herói à prova de bala e empenhado em fazer justiça pelas próprias mãos depois de o pai ter morrido durante um assalto?
Conjeturas à parte, em junho de 1938 aterrava nas bancas norte-americanas Action Comics nº1, trazendo na capa ninguém menos do que o Super-Homem. Fora ele o escolhido para apadrinhar o lançamento do novo título mensal da agora denominada Detective Comics, Inc. Estava desbravado o caminho para a fama e fortuna dos dois jovens idealistas do Ohio que o haviam criado.

Resultado de imagem para action comics #1
Action Comics nº1, a histórica edição
 que apresentou o Super-Homem ao mundo, em junho de 1938.

Arautos de uma nova era

O Super-Homem foi um sucesso imediato. Não demorou a que os editores percebessem que era ele, e não Action Comics, que os leitores procuravam freneticamente nas bancas e escaparates espalhados pelo país. Antes mesmo de completar um ano de publicação, o Último Filho de Krypton era o soberano absoluto das vendas, atingindo meio milhão de exemplares de tiragem - cifra que duplicaria nos anos imediatos.
Mercê desses momentos tonitruantes do Homem de Aço, em junho de 1939 - precisamente um ano após a sua estreia - chegava às bancas o primeiro número de Superman. De ora em diante, para gáudio de uma audiência que aumentava de tamanho de mês para mês, o herói desdobrar-se-ia entre o seu título em nome próprio e Action Comics. Foi, de resto, o primeiro a fazê-lo.

Com o lançamento de Superman nº1, em junho de 1939, o
Homem de Aço tornou-se o primeiro super-herói a
estrelar duas séries periódicas.
Apesar desse registo impressionante, o maior mérito do Super-Homem foi ficar inextrincavelmente ligado à proposição de um novo género narrativo que doravante se confundiria com os comics. A criação de Jerry Siegel e Joe Shuster serviu, com efeito, de matriz a um miríade de justiceiros fantasiados a que se convencionou chamar "super-heróis". Conceito que se tornaria predominante na indústria dos quadradinhos, concorrendo em larga medida para a sua prosperidade no período conhecido como Idade de Ouro da banda desenhada. E que teve em Jerry Siegel e Joe Shuster os seus principais arautos.
Na sua qualidade de proponentes dessa nova ordem narrativa, Jerry Siegel e Joe Shuster foram os primeiros profissionais diretamente beneficiados por ela, atingindo rapidamente a fama e o prestígio com que haviam sonhado desde as suas empreitadas juvenis. Mas, contrariamente ao que seria de supor, não enriqueceram à boleia do retumbante sucesso da sua criação. Em vez disso, seriam apresentados ao reverso do Sonho Americano, do qual, enquanto, imigrantes bem-sucedidos, eram representações vivas.

Reveses da fortuna

Ansiosos por garantirem finalmente a publicação do Super-Homem, Jerry Siegel e Joe Shuster haviam vendido ao desbarato - uns míseros 130 dólares - a sua primeira história. Longe de imaginarem o filão que tinham em mãos, concordaram igualmente com a venda de todos os direitos sobre a personagem. Tal como observei no terceiro parágrafo deste artigo, uma bola de cristal teria vindo mesmo a calhar para prevenir um negócio que se revelaria ruinoso para os criadores do Homem de Aço.
Em 1946, insatisfeitos com a exígua parcela que lhes cabia no latifúndio proporcionado pelas aplicações mercantis da sua criação, Jerry Siegel e Joe Shuster interpuseram um processo judicial a fim de exigirem à DC aquilo que consideravam ser o seu justo quinhão. Disputa que seria, porém, vencida pela empresa um par de anos volvidos.
Aos olhos da Justiça norte-americana, os criadores do Super-Homem não detinham qualquer direito de propriedade sobre a personagem, porquanto tinham aberto mão dela em favor da editora responsável pela sua publicação e licenciamento.
Jerry e Joe receberiam, contudo, 100 mil dólares ao abrigo de um acordo extrajudicial em que renunciavam definitivamente aos direitos sobre o Super-Homem e seus derivados. Seguindo-se a sua inapelável exoneração do corpo criativo da Editora das Lendas.
Expropriados da sua criação máxima e com os seus méritos dispensados pela DC, os "pais" do Super-Homem ensaiaram ainda um regresso à ribalta. Agora ao serviço da Magazine Enterprises, em 1948 criaram Funnyman. Uma rábula ao género super-heroico cujo resultado ficou, porém, muito aquém do esperado.

Resultado de imagem para funnyman comics
Funnyman foi o último trabalho conjunto da dupla Siegel/Shuster.
Nos anos seguintes, Jerry Siegel assumiu as funções de diretor artístico da Ziff Comics antes de, no final da década de 1950, regressar à DC. Período durante o qual voltou a escrever histórias do Super-Homem não sendo, contudo, creditado por elas. Coincidindo esta fase com o lançamento de The Adventures of Superman, a lucrativa primeira série televisiva do Homem de Aço estrelada por George Reeves.
Tal como em outras produções prévias, os nomes de Siegel e Shuster não constavam da respetiva ficha técnica. À ausência de dividendos, somava-se, assim, o vexame de quem havia criado uma máquina de fazer dinheiro.
Ao mesmo tempo que prosseguia a sua campanha judicial com vista à recuperação dos direitos do Super-Homem, ao longo dos anos 1960 Jerry Siegel passou por diversas concorrentes da DC, entre as quais a Marvel Comics, a Charlton Comics*** e até a italiana Mondadori Editore.
A carreira de Joe Shuster como ilustrador foi, no entanto, mais curta. Após uma passagem meteórica pela Charlton, desenhou durante algum tempo histórias eróticas para a revista Night Terror antes de a sua quase cegueira ditar a procura por novo ofício. O momento mais triste da sua vida - já de si marcada por sucessivas desventuras - ocorreu precisamente nesta época.

Imagem relacionada
Uma das bandas desenhadas para adultos com arte de Joe Shuster.

A trabalhar como carteiro, Joe, numa daquelas dramáticas piruetas do destino, era frequentemente obrigado a entregar correspondência no edifício-sede da DC, onde - seguramente de coração pesado - via artistas mais jovens a desenharem as histórias do herói que ele tinha ajudado a criar.
O pungente drama pessoal de Joe Shuster provocou a indignação de muitos colegas de profissão que se solidarizaram com a sua luta para que lhe fosse atribuída uma pensão decente por parte da DC. A editora, no entanto, respondeu com gélida indiferença aos apelos que lhe foram sendo dirigidos para que se compadecesse da situação do seu ex-colaborador. Do ponto de vista dos mandachuvas da DC, a empresa não tinha qualquer obrigação legal - tampouco moral -  de o fazer.
Com os seus nomes simplesmente obliterados dos créditos das revistas do Super-Homem, bem como da galáxia de produtos licenciados, a história dos criadores do Homem de Aço poderia ter tido um desfecho ainda mais lúgubre não fosse pela corajosa decisão de Jerry Siegel de empreender uma campanha de relações públicas em 1975. No ano em que a DC anunciou, com pompa e circunstância, a sua intenção de produzir uma longa-metragem do Super-Homem para assinalar o 40º aniversário do herói, Jerry recorreu à imprensa para denunciar o tratamento indigno que lhe vinha sendo aplicado e a Joe Shuster por parte da Editora das Lendas.

Em nome da Verdade e da Justiça

Receosa das repercussões negativas decorrentes da campanha de Jerry Siegel, em especial no que ao desempenho comercial do filme dizia respeito, a DC concordou com a atribuição de uma pensão vitalícia de 30 mil dólares anuais a cada um dos criadores da sua galinha dos ovos de ouro. Comprometendo-se de igual modo a reconhecer formalmente os direitos autorais de Jerry Siegel e  Joe Shuster em todas as publicações e merchandising afetos ao Super-Homem.
Em termos económicos era assim feito um módico de justiça aos autores, conquanto o valor em questão representasse uma ninharia se comparado com o manancial financeiro proporcionado pelo Super-Homem. Mais importante do que a compensação material era, porém, a reparação moral, pois a partir desse momento Jerry e Joe puderam gozar do respeito e admiração dos seus pares. Sem falar na legião de fãs que, um pouco por todo o mundo, acompanhavam com devoção religiosa as aventuras do Homem do Amanhã nascido há 80 anos da imaginação de dois jovens desajustados do Ohio.
Vítima de cegueira nos últimos anos de vida, Joe Shuster despediu-se do mundo a 30 de julho de 1992. Jerry Siegel sobreviveu-lhe apenas quatro anos, fulminado em 1996 por um ataque cardíaco. Depois de uma vida passada à sombra do magnífico legado do Super-Homem - entretanto alçado a ícone global - gosto de imaginar que os dois velhos amigos se terão reencontrado num lugar melhor.
Contudo, logo após o falecimento de Jerry Siegel, a sua mulher e filhos voltaram aos tribunais, determinados a reaver todos os direitos sobre o Super-Homem. Após uma longa e onerosa guerra judicial, a Justiça americana deliberou que os copyrights do Homem de Aço pertencem agora aos herdeiros de Siegel, e  não mais à Warner Bros., atual proprietária da DC Comics.
Uma sentença histórica que estipulou ainda que os Siegels terão direito a todos os proventos relacionados com o licenciamento do Super-Homem após 1999. Data a partir da qual nos créditos das revistas do herói passou a figurar a legenda informativa "Super-Homem criado por Jerry Siegel e Joe Shuster. Por um acordo especial com a família de Jerry Siegel". Joe Shuster não teve filhos e, portanto, não deixou herdeiros que pudessem beneficiar desse acordo.
A consagração definitiva dos criadores do Super-Homem só aconteceria, porém, já este século. Em 2005, Jerry Siegel recebeu postumamente o Bill Finger Award for Excellence in Comic Book Writing, ao passo que Joe Shuster teve o seu nome inserido no Canadian Comic Book Hall of Fame. Foram também criados os Joe Shuster Awards for Canadian Book Creators, galardões concedidos anualmente aos autores canadianos que, pelo seu mérito, se destacam na Nona Arte.
Um reconhecimento serôdio mas mais do que merecido aos dois homens que deram ao mundo o seu maior herói. E a quem, por meio deste artigo, presto a minha singela, porém sentida, homenagem. Jerry e Joe, onde quer que estejam um grande bem-haja por tudo. Mesmo em tempos ensombrados pelo desalento e pela incerteza, o Super-Homem será sempre um farol de esperança a alumiar a Humanidade.

Jerry Siegel e Joe Shuster fizeram-nos acreditar
que um homem pode voar.

*http://bdmarveldc.blogspot.com/2017/12/eternos-alex-raymond-1909-1956.html
**http://bdmarveldc.blogspot.com/2017/07/heroinas-em-acao-vampirella.html
***http://bdmarveldc.blogspot.com/2018/03/fabricas-de-mitos-charlton-comics.html

Agradecimento muito especial ao meu mui talentoso amigo Emerson Andrade que, com a bonomia com que sempre acede aos meus pedidos, restaurou digitalmente a imagem que serve de ilustração principal a este artigo, associando-se dessa forma à homenagem que nele é rendida aos criadores do maior herói de todos os tempos. 































































































sábado, 13 de janeiro de 2018

CLÁSSICOS REVISITADOS: «O HOMEM DE AÇO»


  Nesta aclamada reinterpretação da sua origem com o cunho de John Byrne, o Último Filho de Krypton surgiu mais humanizado do que nunca. Uma visão dessacralizadora  de um mito intemporal que aliciou toda uma nova safra de leitores. Mas que, mesmo expurgada das propostas mais arrojadas do seu autor, não escapou à controvérsia.

Título original: The Man of Steel
Licenciadora: Detective Comics (DC)
País: EUA
Data de publicação: Outubro a dezembro de 1986
Argumento e arte: John Byrne
Categoria: Minissérie em 6 edições quinzenais
Protagonistas: Clark Kent/Superman, Lana Lang, Lois Lane e Lex Luthor 
Coadjuvantes: Jor-El, Lara Lor-Van, Jonathan Kent, Martha Kent, Batman, Bizarro, Perry White, Jimmy Olsen, Lucy Lane, Magpie, Kelex e Kelor
Cenários: Krypton, Smallville, Metrópolis, Gotham City e Hong Kong


Nos EUA, The Man of Steel nº1 foi lançado
 com duas capas variantes com rácios de distribuição equivalentes.

Edições em Português

A primeira versão traduzida para a língua de Camões (embora com sotaque tropical) de The Man of Steel foi lançada pela brasileira Abril. Entre agosto de 1987 e janeiro de 1988, as seis partes da minissérie foram publicadas mensalmente nos números 38 a 43 da primeira série de Super-Homem. Volvidos quatro anos, em maio de 1992, a mesma editora republicaria a saga num único volume em Clássicos DC nº1, usando pela primeira vez uma das capas variantes de Man of Steel nº1.
Ainda por terras de Vera Cruz, desde o início deste século, contabilizam-se já quatro reedições da saga sob os auspícios de três editoras diferentes. A saber: Super-Homem - O Homem de Aço (Mythos, dezembro de 2006); Coleção DC 70 Anos nº1 e Coleção DC 75 Anos nº4 (ambas editadas pela Panini Comics em 2008 e 2011, respetivamente); por fim, em dezembro de 2015, seria a vez da Eaglemoss republicar a versão integral de The Man of Steel no oitavo volume de DC Comics - Coleção de Graphic Novels .
Deste lado do Atlântico, The Man of Steel foi compilada pela primeira vez no início de 2013, inserta na segunda série de Super-Heróis DC lançada nesse ano pela Levoir. Com a originalidade de a capa escolhida ter sido desenhada não por John Byrne, mas por Jerry Ordway.




De cima para baixo:
dois dos volumes antológicos editados no Brasil
 com os selos da Abril e da Mythos
e a antologia lançada pela Levoir portuguesa (com capa de Jerry Ordway).

Antecedentes e contexto

Produto da imaginação de dois jovens estudantes do secundário residentes em Cleveland - Jerry Siegel e Joe Shuster - o Superman foi criado em meados de 1933 para ser o protagonista de uma tira de banda desenhada a ser publicada diariamente num jornal. Em vez disso, porém, o herói só seria apresentado ao mundo cinco anos depois, em junho de 1938, nas páginas de Action Comics nº1.
Nessa edição histórica com a chancela da National Allied Publications - antepassada da DC -, os leitores ficaram a conhecer de forma pouco detalhada a origem do Último Filho de Krypton, resumida numa só página.
Apesar dessa abordagem de raspão às suas raízes kryptonianas, o Homem de Aço (assim alcunhado devido à sua invulnerabilidade) granjeou de imediato enorme popularidade. No verão de 1939 tornar-se-ia mesmo a primeira personagem a sustentar dois títulos em simultâneo - a Action Comics somou-se entretanto Superman.
Ao longo das décadas seguintes, a história do Superman foi sendo expandida de molde a acomodar novas tramas e personagens. Após a saída dos seus criadores, outros autores foram adicionando sucessivamente novos elementos à mitologia daquele que é considerado o primeiro dos super-heróis, e cujo debute sinalizou o dealbar da chamada Idade de Ouro da banda desenhada (1938-1950).

A estreia de Superman em Action Comics nº1 sinalizou também
 o início da chamada Idade de Ouro da banda desenhada.
No início de 1945, por exemplo, foram introduzidas as aventuras de Superboy em Smallville, apresentando assim uma versão adolescente do  Homem de Aço com as suas capacidades totalmente desenvolvidas. Com o surgimento da Supergirl, em 1959, o Superman deixou, objetivamente, de ser o último dos kryptonianos.
Inevitavelmente, estes elementos inovadores não tardaram a tornar-se conflituantes com outros que haviam sido explorados em histórias anteriores, sobretudo naquelas que coincidiram com a transição da Idade do Ouro para a Idade da Prata.
Nessa fase surgiram novos heróis e versões modernizadas de outros preexistentes (casos, por exemplo, de Jay Garrick e Barry Allen, os dois homens a adotar a persona do Flash no período citado), aos quais o Homem de Aço se associou para fundar a Liga da Justiça da América.
Sucede que, a par do Batman e da Mulher-Maravilha, o Superman era uma das três personagens da DC cuja publicação permanecia ininterrupta desde a Idade do Ouro. Por conseguinte, a sua participação nas histórias da Sociedade da Justiça da América ambientadas nessa época expunham uma série de incoerências. Para as quais os editores da DC encontrariam uma solução engenhosa mas que, a médio prazo, se revelaria um autêntico quebra-cabeças.
Em setembro de 1961, o número 123 de The Flash incluía no seu alinhamento uma história que, além de emblemática nos anais da 9ª Arte, mudaria para sempre a continuidade da Editora das Lendas. Sugestivamente intitulada Flash of Two Worlds (Flash de Dois Mundos), mostrava o primeiro encontro entre o Flash da Idade do Ouro e a sua contraparte da Idade da Prata.
A narrativa protagonizada pelos Velocistas Escarlates de duas eras distintas mais não era, no fundo, do que a representação ficcional do postulado da mecânica quântica que propõe a existência de universos paralelos. Com base nessa premissa, estabeleceu-se que as personagens surgidas durante a Idade do Ouro habitariam, de ora em diante, uma segunda Terra em tudo idêntica àquela que servia de lar às suas versões modernas.

A história protagonizada pelos Velocistas Escarlates de duas eras
 que esteve na origem do intrincado Multiverso DC.
Estavam assim lançadas as bases do Multiverso DC que, além de ilimitados exercícios de imaginação, possibilitaria a coexistência editorial e cronológica de personagens de épocas diferentes. Era, no entanto, imperativo esclarecer quais as histórias que pertenciam ao cânone estabelecido para cada uma delas. A título exemplificativo, em 1969 os leitores ficaram a saber que o Superman surgido em Action Comics nº1 era na verdade Kal-L, uma personagem distinta do Kal-El da Terra 1.
Embora inicialmente bem recebido pelos leitores, com o tempo o Multiverso tornar-se-ia demasiado confuso, a ponto de afastá-los das publicações da Editora das Lendas.
Perante este impacto negativo nas suas tiragens, a DC entendeu por bem tomar medidas drásticas para reverter a situação. Medidas que, grosso modo, se resumiram à concentração de todos os seus títulos e conceitos num único universo coeso e compartilhado. Para que isso fosse possível, seria no entanto necessário encerrar tudo o que vinha sendo publicado e voltar ao ponto de partida.
No encalço desse objetivo, em 1985 - ano em que a DC comemorava meio século de existência - foi lançada Crisis on Infinite Earths (Crise nas Infinitas Terras)*, evento de amplas e duradouras repercussões que culminou com a obliteração do Multiverso, abrindo assim espaço para a emergência de uma nova continuidade.

Um dos dramáticos  capítulos da saga que revolucionou
 a continuidade da Editora das Lendas.
Em vez de múltiplas Terras paralelas habitadas, não raro, por declinações do mesmo conceito, passaria doravante a existir somente uma Nova Terra e uma versão unívoca de cada personagem.
Na esteira dessa ambiciosa iniciativa, as figuras de proa da Editora das Lendas tiveram as suas origens recontadas à luz dos tempos modernos. Foi, pois, nesse contexto de revitalização que, em concomitância com outras obras análogas como Batman: Year One ou Green Lantern: Emerald Dawn, foi lançado The Man of Steel. Projeto igualmente ambicioso que vinha, contudo, sendo cogitado há vários anos, e cuja produção encerra até hoje alguns segredos sobre os quais procurarei derramar alguma luz no texto seguinte.

*http://bdmarveldc.blogspot.pt/2014/10/do-fundo-do-bau-crise-nas-infinitas.html

Produção

A acentuar-se, de mês para mês, a curva descendente no gráfico de vendas dos títulos estrelados pelo Homem de Aço, nos anos que precederam Crise nas Infinitas Terras os editores da DC começaram a discutir entre si a possibilidade de levar a cabo uma profunda reformulação da personagem. Convidando, para esse efeito, vários escritores consagrados a apresentarem as suas propostas com vista à revitalização daquele que era o maior ativo da companhia. Alan Moore, Frank Miller e Marv Wolfman* foram alguns dos pesos-pesados que aceitaram o repto.

Evolução das vendas da revista Superman entre 1965 e 1987.

A despeito dos diferentes ângulos de abordagem, todos eles concordavam na necessidade de uma reestruturação da continuidade do Superman. A única voz dissonante era a de Cary Bates. Aquele que era na altura o principal argumentista do Último Filho de Krypton preconizava, ao invés, uma evolução na continuidade.
A revolução de veludo sugerida por Bates colidia, no entanto, com as teses radicais perfilhadas por Marv Wolfman. Habituado a sacudir o status quo, o arquiteto de Crise nas Infinitas Terras considerava premente eliminar Superboy, reclicar Lex Luthor, diminuir os poderes do Superman e fazer dele o último dos kryptonianos.
Ao inteirar-se da saída iminente de John Byrne** da arquirrival Marvel Comics, Marv Wolfman tê-lo-á incentivado a apresentar a sua visão do Superman. Contudo, o envolvimento do versátil autor britânico naturalizado canadiano no projeto não é totalmente claro.
Anos mais tarde - já depois de se ter incompatibilizado com Wolfman - Byrne afirmou ter partido de Dick Giordano - um dos editores da DC e arte-finalista de The Man of Steel - o convite para a sua participação no processo de revitalização do Homem de Aço.
Certo é que, num primeiro momento, a sintonia de ideias e objetivos entre Byrne e Wolfman era quase total. Divergindo ambos apenas na redefinição de Lex Luthor, com a visão do primeiro a prevalecer sobre a do segundo (ver Mitologia Retocada).

Recém-saído da Marvel,
 John Byrne foi o eleito para reformular o maior ícone da DC.
Com a irreverência que sempre o caracterizou, Byrne apresentou à DC aquilo a que chamou "Lista de Exigências Indispensáveis", espécie de caderno de encargos onde elencava quais as idiossincrasias do Superman que ele entendia carecerem de revisão. A saber: desconsiderar a existência de outros sobreviventes de Krypton - Supergirl, Krypto, etc. - e de elementos excessivamente fantásticos, como a Fortaleza da Solidão ou a cidade engarrafada de Kandor.
Apesar de arrojadas, as propostas de Byrne foram quase integralmente avalizadas pela cúpula da Editora das Lendas. Segundo consta, apenas uma delas terá sido deixada de fora.
Numa entrevista realizada em 2002, o autor de The Man of Steel revelou qual foi a única exceção: «Um dos problemas que percebi que a minha versão do "único sobrevivente de Krypton" suscitaria era como ficaríamos a saber que a kryptonita poderia matar o Superman? Quero dizer, claro que todos nós sabemos que  a kryptonita pode matá-lo, mas como tornar isso uma evidência naquele contexto específico? A minha solução passaria por colocar Lara, grávida de Kal-El, na nave em direção à Terra. Ao chegar, ela daria à luz e o seu bebé ganharia gradualmente os seus poderes. Então, Lara encontraria o único pedaço de kryptonita que chegou ao nosso planeta e, em consequência da sua exposição a ele, morreria vítima de envenenamento radioativo.»
Jenette Khan, à época presidente-executiva da DC, vetaria essa ideia por considerá-la excessivamente afastada do conceito primordial. Em alternativa, Khan propôs que a kryptonita fosse descrita como sendo um elemento radioativo responsável pela morte de kryptonianos antes mesmo da explosão do planeta. Byrne acabaria por reconhecer que essa sugestão era melhor do que sua ideia original e implementá-la-ia na minissérie.
A acreditar no relato de Jim Shooter, antigo editor da Marvel e uma das primeiras pessoas a quem Byrne deu a conhecer as linhas-mestras do seu plano de revitalização do Superman, esta não terá sido, porém, a única proposta controversa rejeitada pela DC. Segundo Shooter, Byrne pretendia igualmente retratar Lois Lane como a concubina de Lex Luthor a quem trocaria pelo Homem de Aço.
Ademais, a caracterização de Krypton como um planeta frio e estéril fora sugerida por Dick Giordano (muito provavelmente influenciado pela estética de Superman, The Movie), por forma  a que os leitores percebessem desde a primeira página que tudo seria diferente.

Em The Man of Steel, Krypton surge como um mundo inóspito
 onde pontifica uma sociedade intelectualizada e estéril.

Muito longe, portanto, do local aprazível descrito no passado.
Inicialmente, Byrne não pretendia reconfigurar tanto a morfologia de Krypton e a têmpera dos pais biológicos do Superman; apenas retratá-los de forma mais futurista. Mas, ao questionar-se acerca dos elementos kryptonianos que mais o incomodavam, percebeu que aquilo que lhe parecia mais prejudicial à história era o carinho (se não mesmo um exacerbado patriotismo) com o que o Superman se referia ao seu planeta natal. Razão pela qual Byrne se empenhou em retratar Krypton como um local pouco acolhedor. Nas suas palavras, "um sítio que, no final das contas, o Superman ficaria feliz em deixar."
O estatuto de imigrante de Byrne e a sua identificação com a cultura do respetivo país de acolhimento foi determinante para a sua reinterpretação da origem do Superman. O escritor defendia que esta deveria ser contada como uma típica história americana de sucesso; a do imigrante que triunfou numa terra que não era a sua, contribuindo dessa forma para o seu engrandecimento.
Em linha com esta abordagem, Byrne percebeu que teria de rever também a relação de Clark Kent com Smallville. O que implicaria uma nova dinâmica com Lana Lang, a primeira namorada do herói. Byrne tinha a intenção de manter Lana como interesse romântico do Homem de Aço, mesmo após o seu estabelecimento em Metrópolis. Porém, o "triângulo amoroso" entre Clark, Lois e o Superman era tido como inviolável pela DC.
Assim, para justificar a posição de maior destaque que Lana assumia na vida e na mitologia do herói, Byrne tornou-a conhecedora dos superpoderes de Clark antes da sua transformação em Superman (vide texto seguinte).

Primeiro amor de Clark Kent, em The Man of Steel Lana Lang
 foi também uma das poucas pessoas conhecedoras do seu segredo.
*http://bdmarveldc.blogspot.pt/2014/09/eternos-marv-wolfman-1946.html
**http://bdmarveldc.blogspot.pt/2015/01/eternos-john-byrne-1950.html

Enredo

A milhares de anos-luz da Terra, Krypton - um planeta tecnologicamente evoluído mas emocionalmente estéril onde a reprodução por métodos naturais faz parte de um passado remoto -enfrenta uma ameaça existencial. Jor-El, um dos seus mais proeminentes cientistas, descobriu enfim a origem de uma misteriosa moléstia que dizimara já milhares dos seus compatriotas.
Devido à enorme pressão exercida sobre o núcleo do planeta, vários elementos químicos preexistentes tinham-se fundido num novo metal altamente radioativo. A exposição à kryptonita era, pois,  potencialmente fatal para os kryptonianos.
Havia, contudo, uma maior fonte de angústia para Jor-El: o aumento exponencial da pressão tornara o núcleo de Krypton instável ao ponto de poder a qualquer momento desencadear uma reação geológica em cadeia que resultaria na implosão do planeta.
Os desesperados alertas de Jor-El junto do Conselho Científico haviam sido no entanto acolhidos com ceticismo e desdém.
Ciente de que a contagem decrescente para o desastre era imparável, Jor-El pesquisara durante meses um planeta que pudesse abrigar o seu filho ainda em gestação. De entre as várias opções estudadas, a Terra prefigurava-se como a mais viável. Opinião que não era partilhada pela sua esposa, Lara Lor-Van, para quem a Terra era um mundo primitivo e hostil.
No entanto, seria mesmo para o nosso mundo que, minutos após a destruição de Krypton, Kal-El foi enviado a bordo de uma pequena espaçonave que o seu pai construíra em segredo.

Jor-El e Lara, os pais biológicos de Kal-El.
Dezoito anos mais tarde, em Smallville, pequena comunidade rural do Kansas, o jovem Clark Kent é o astro da equipa de futebol americano da sua escola. No final de mais um jogo ganho graças à sua extraordinária prestação dentro de campo, Clark é levado pelo seu pai de volta à quinta da família.
Lá chegados, Jonathan Kent revela ao filho o foguete espacial onde ele e a sua esposa, Martha, o haviam encontrado ainda bebé, e que permanecera escondido durante todo aquele tempo no celeiro da quinta.
Perante a incredulidade do filho, Jonathan explica também como, graças a um feliz acaso, naquele mesmo dia toda a região fora fustigada por uma violenta nevasca que isolou os três na quinta durante meses. Contingência que, uma vez dissipada a intempérie, permitiu que Clark fosse anunciado como o filho recém-nascido do casal.

Jonathan e Martha Kent, o casal de agricultores do Kansas
 que perfilharam um bebé vindo das estrelas.
À medida que, com o passar dos anos, Clark vai desenvolvendo poderes e habilidades sobre-humanos, a revelação da sua verdadeira origem fá-lo questionar o seu papel num mundo que, afinal, não é o dele.
Clark decide então abandonar Smallville para viajar ao redor do globo ao longo de sete anos. Período durante o qual interfere discretamente para prevenir vários crimes e catástrofes. Apesar dos relatos que começam a circular dando conta dos avistamentos de uma misteriosa figura voadora, Clark consegue preservar  o seu anonimato.
Tudo muda quando, durante as comemorações do 250º aniversário de Metrópolis, o vaivém espacial Constitution é abalroado em pleno voo por um pequeno avião. Perante a iminência do desastre, Clark  - misturado com a multidão que assistia ao pouso do vaivém - vê-se obrigado a alçar voo e a fazer uso da sua superforça para evitar o pior.
Assustado com a reação emotiva da multidão, Clark apressa-se a regressar à quinta da sua família. Onde, com a ajuda da mãe, elabora um vistoso traje que lhe servirá de disfarce sempre que precisar ajudar alguém. Escolhendo para pseudónimo a alcunha que lhe havia sido dada pela imprensa após a sua primeira aparição pública: Superman.

A confeção do traje e a escolha do símbolo do Superman.

Nas semanas seguintes o Superman realiza diversas intervenções espetaculares em Metrópolis, deixando os seus habitantes boquiabertos com as suas proezas.
Após "conseguir" a primeira entrevista exclusiva com o herói, Clark Kent é contratado como jornalista do Daily Planet. Aquela que é considerada a notícia do século rende-lhe a admiração dos colegas de redação e a rivalidade de Lois Lane, uma das mais respeitadas repórteres a nível nacional.
De visita a Gotham com a intenção de capturar o vigilante mascarado conhecido como Batman, o Superman acaba, todavia, surpreendido pela astúcia do Homem-Morcego. Após um tenso frente a frente, os dois concordam em deixar temporariamente de lado as suas divergências para deter Magpie, uma ladra excêntrica cujas ações haviam colocado dezenas de inocentes em perigo. Debelada a ameaça, o Homem de Aço e o Cavaleiro das Trevas seguem rumos diferentes.
Certa noite, Clark e Lois comparecem a uma festa a bordo do iate de Lex Luthor, o empresário mais poderoso de Metrópolis e um dos três homens mais ricos do mundo. Durante o evento um grupo de terroristas toma de assalto a embarcação fazendo reféns todos os convivas.
Apesar do conhecimento prévio que tinha do ataque, Luthor, interessado em aferir as capacidades do Superman, ordenara à sua equipa de segurança que nada fizesse, a menos que o herói não aparecesse.
Como Luthor previra, o Superman surge no local e neutraliza rapidamente os terroristas. Quando o magnata, impressionado pela eficiência do herói, faz menção de entregar-lhe um cheque de 25 mil dólares, revela perante todos os presentes que sabia do ataque mas que nada fizera para impedi-lo por forma a poder testemunhar a ação da nova maravilha de Metrópolis.
Indignado com tamanha prepotência, o mayor da cidade - um dos convidados de honra da festa - nomeia o Superman "agente especial da Polícia" e ordena-lhe que prenda Luthor.
Libertado da prisão poucas horas volvidas, Luthor, humilhado e ressentido, confronta o Homem de Aço declarando-lhe a sua inimizade e jurando tudo fazer para o desacreditar e destruir. Promessa que quase consegue materializar quando, a seu pedido, um dos seus cientistas logra produzir um clone aparentemente perfeito do Superman a parti de uma amostra do ADN do herói.

Luthor jura vingança pela humilhação
 sofrida às mãos do Homem de Aço.
O plano só fracassa porque o processo de clonagem não levou em consideração a biologia extraterrestre do Superman. Em consequência dessa falha, a sua cópia genética é vítima de degeneração celular acelerada, convertendo-se numa monstruosidade irracional com um nível de poder equivalente ao do original.
Segue-se uma acirrada peleja entre o Superman e o seu bizarro oponente, que termina com este último reduzido a uma nuvem de partículas. Miraculosamente, essa chuva de partículas cura a cegueira de Lucy Lane, a irmã mais nova de Lois por quem o monstro se enamorara.

Superman surpreendido pela força de Bizarro.
Clark regressa uma vez mais a Smallville após uma longa temporada em Metrópolis. Certa noite, é assombrado pelo "fantasma" de Jor-El (na verdade, um sofisticado holograma) que com ele tenta comunicar num idioma desconhecido. É através dessa perturbadora experiência que Clark toma finalmente consciência da sua origem kryptoniana. Revelação que deixa igualmente aturdidos os seus pais adotivos.
Esse não é, porém, o único choque a marcar o regresso de Clark à cidade onde cresceu. Lana Lang, a sua namorada dos tempos do liceu a quem revelara os seus poderes na véspera de partir para Metrópolis, exprime-lhe a sua mágoa por esse abandono e pelo fardo que carrega desde então.
Ambos os episódios levam Clark a abraçar ainda mais a sua humanidade sem, contudo, desvalorizar o seu legado kryptoniano. Carregando desse modo o peso de dois mundos sem que sinta verdadeiramente pertencer a qualquer um deles.

Filho de dois mundos,
 o Superman procura honrar ambos os legados que carrega.

.Mitologia retocada

O Homem de Aço não foi o único a ter a sua origem e personalidade retocadas por Byrne. O mesmo sucedeu com algumas das personagens clássicas das suas histórias. Esses novos elementos seriam, por sua vez, objeto de sucessivos revisionismos até perderem o seu estatuto canónico.
Recordemos, por isso, aquelas que foram as principais alterações inicialmente introduzidas à mitologia do Superman.

Clark Kent: No início da história é apresentado como um estudante do secundário totalmente alheado da sua origem extraterrestre e cuja popularidade resulta das suas proezas desportivas, em especial no futebol americano. Byrne inverteu desse modo a caracterização da personagem, fazendo com que Clark deixasse de ser o disfarce adotado pelo Superman aquando da sua mudança para Metrópolis. Significando isto que é agora o Superman quem serve de disfarce a Clark Kent para que este possa usar os seus poderes em público sem ser reconhecido. Poderes esses que foram consideravelmente diminuídos por Byrne, em especial a sua invulnerabilidade agora explicada pelo campo bioelétrico que envolve o corpo do herói. Byrne detalhou também a forma como o Sol amarelo da Terra lhe proporcionava superpoderes e como Clark recorria a um espelho e à sua visão de calor para se barbear;

Graças à minúcia de Byrne, ficámos pela primeira vez a conhecer
 o método usado pelo Superman para escanhoar o rosto.

Jonathan e Martha Kent: Por contraponto ao antigo cânone do herói, nesta nova versão os seus pais adotivos permanecem vivos quando ele atinge a idade adulta e principia a sua carreira como Superman, cujo uniforme é aliás costurado pela própria mãe;

Smallville: Byrne estabeleceu que a pequena cidade rural onde Clark passou a infância e juventude ficaria no estado do Kansas, e que Lana Lang - a sua primeira namorada - tinha conhecimento de que ele e o Superman eram a mesma pessoa;

Superboy: Em virtude de os poderes de Clark se terem desenvolvido por completo apenas no final da puberdade, a versão juvenil do Homem de Aço foi apagada da existência. Originando assim um paradoxo, uma vez que a formação da Legião dos Super-Heróis do século 30 fora inspirada pelas façanhas do Superboy (ver Impacto cultural);

Lois Lane: Definitivamente afastada do arquétipo de "donzela em apuros" (do qual se vinha, aliás, demarcando ainda durante o período pré-Crise nas Infinitas Terras), Lois é caracterizada como uma jornalista experiente e uma mulher independente dotada de grande carisma e inteligência;

Lois Lane,
uma mulher emancipada dos tempos modernos.

Lex Luthor: Despindo as roupagens de cientista louco que vinha usando há meio século, o eterno némesis do Homem de Aço foi redefinido como um poderoso e inescrupuloso magnata. Cujo enorme ascendente sobre o povo de Metrópolis é eclipsado pelo surgimento do Superman. Justificando-se desse modo a sua visceral animosidade em relação ao herói. Nas palavras de Byrne, este novo Luthor - cujo visual parece decalcado da sua contraparte cinematográfica interpretada, à época, por Gene Hackman - "é uma mistura de Ted Turner, Donald Trump e talvez até Satanás". Muito longe, portanto do vilão inconsequente da Idade da Prata e do Bronze que Byrne desprezava;

Batman: Uma das alterações mais significativas decorrentes de The Man of Steel consiste precisamente no relacionamento entre o guardião de Gotham e a maravilha de Metrópolis. Até então retratados como amigos, desde a Idade do Ouro que os dois heróis partilhavam uma revista mensal - World's Finest. No entanto, por conta dos seus métodos de trabalho distintos, passaram a encarar-se quase como adversários que se respeitavam mutuamente mas que se olhavam com desconfiança.

Impacto cultural

De 1986 a 2003 (ano em que foi lançado o arco Superman: Birthright), The Man of Steel foi a origem canónica do Homem de Aço. A reboque do seu apreciável sucesso, Byrne produziu três minisséries especiais que exploravam de forma mais aprofundada a nova mitologia do herói: The World of Krypton, The World of Smallville e The World of Metropolis foram originalmente publicadas entre dezembro de 1987 e novembro de 1988, assumindo-se como apêndices da narrativa original.
Paralelamente, a DC apostou em três títulos mensais protagonizadas pelo novo Homem de Aço: Superman, Action Comics e Adventures of Superman (este último com Marv Wolfman como argumentista). Neles, Byrne e Wolfman explanaram as alterações ao cânone do Superman decorrentes de The Man of Steel. As mais importantes das quais consistiam, nunca é demais recordar, no restabelecimento de Kal-El como único sobrevivente de Krypton e a supressão da sua carreira como Superboy.
Estas alterações tiveram, contudo, um forte impacto na Legião dos Super-Heróis, na medida em que fora o Superboy a inspirar a formação da equipa no século 30. Acrescia a isto o facto de, no período pré-Crise, a Supergirl ter sido também uma legionária. A eliminação das duas personagens tinha, por isso, originado um paradoxo que Byrne, de forma algo inábil, tentou corrigir.

No período pré-Crise, Superboy - e também Supergirl - eram
 membros de pleno direito da Legião dos Super-Heróis.
Para explicar o presumível desaparecimento do Superboy, Byrne escreveu uma história na qual introduziu o conceito de "universo compacto" (pocket universe, em inglês). Os leitores ficaram assim a saber que era, afinal, para essa espécie de realidade alternativa criada pelo Senhor do Tempo (um dos inimigos jurados da Legião dos Super-Heróis) que o grupo viajava sempre que regressava ao passado. O mesmo acontecendo quando o Superboy visitava o futuro. Servindo a existência desse "universo compacto" para explicar também a existência de uma variante da Supergirl. Que, em vez da prima kryptoniana do Superman, ressurgiu como uma criatura de protoplasma capaz de assumir diferentes formas.
Com a confusão instalada, em 1999, altura em que Eddie Berganza assumiu as funções de editor responsável pelas histórias do Superman, diversas personagens e conceitos que haviam sido suprimidos em The Man of Steel foram reincorporados na continuidade do herói, sem que contudo a obra de Byrne fosse desconsiderada. Entre as personagens resgatadas, incluía-se a verdadeira Supergirl.
Apesar destes imbróglios e controvérsias, o impacto de The Man of Steel fez-se sentir também noutros segmentos culturais. Em 1988, dois anos após a sua publicação, o estúdio Ruby-Spears produziu a série animada Superman aproveitando vários dos conceitos estabelecidos pela história de Byrne.
Também a série televisiva Lois and Clark: The New Adventures of Superman, estreada em 1993, incorporou no enredo muitos elementos emanados de The Man of Steel. A localização de Smallville no Kansas e o facto de os pais adotivos de Clark continuarem presentes na vida adulta do filho são alguns dos exemplos mais evidentes.

A série televisiva do Homem de Aço
 que fez furor nos anos 90
 foi fortemente influenciada por The Man of Steel.
Quase 30 anos após o seu lançamento, em 2013 os ecos de The Man of Steel também chegaram ao cinema. No filme epónimo dirigido por Zack Snyder, são detetáveis diversas influências da obra de Byrne, sobretudo no que ao legado kryptoniano do herói diz respeito.
Apesar da forte aclamação com que foi recebida, The Man of Steel arregimentou ferozes detratores. Os quais acusavam Byrne de não compreender a quinta-essência do Superman, desvirtuando-o ao ponto de deixá-lo irreconhecível.
Críticas que em nada beliscaram o valor de uma obra, cujo primeiro número vendeu meio milhão de exemplares (cifras que o Homem de Aço não alcançava desde a Idade do Ouro) e que, em 2012, os usuários da plataforma digital Comic Book Resources elegeram como uma das 25 melhores histórias do Superman de todos os tempos.

Apontamentos

*A mascote de Clark Kent na adolescência era um Cocker Spaniel chamado Rusty;
*Na equipa de futebol americano do liceu de Smallville, Clark alinhava com a camisola nº15;
*Apesar de ter sido concebido em Krypton através de métodos naturais, o nascimento de Kal-El coincidiu com a sua chegada à Terra. Este elemento, per si, constitui uma rutura com o cânone da personagem. Em todas as suas versões pregressas, o herói fora sempre enviado em bebé para o nosso planeta;
A chegada do bebé Kal-El à Terra
no interior de uma câmara de gestação kryptoniana.
*A data da destruição de Krypton pretendia coincidir com a da estreia do Superman em Action Comics nº1 (junho de 1938). Pormenor que só seria oficialmente estabelecido em Action Comics nº600 (maio de 1988);
*Em The Man of Steel nº1, Metrópolis celebra o seu 250º aniversário. Esta efeméride é, contudo, inconsistente com a informação providenciada por outras fontes. Algumas das quais apontam 1634 como o ano do estabelecimento dos primeiros colonos europeus no território indígena onde seriam lançados os alicerces da Cidade do Amanhã. Sugerindo, assim, que a sua fundação teria ocorrido um século antes da data indicada por Byrne;
*Antes do seu lançamento oficial, a minissérie recebera The Legend of Superman (A Lenda do Superman) como título provisório;
*O encontro do Homem de Aço com o Batman no terceiro volume da minissérie sugere um Cavaleiro das Trevas ainda em início de carreia e a operar à margem da Lei. O Homem-Morcego também não dispunha ainda do seu icónico Batmobile, conduzindo em vez dele um potente e sofisticado bólide desportivo equipado com um laboratório forense portátil. Ainda na mesma edição, Magpie mata um dos seus comparsas colocando-lhe uma barra de dinamite acesa na boca. A rábula Happy Birthday, dos Looney Tunes, serviu de inspiração a esta sequência;
*A capa de The Man of Steel nº 5 é a única a não apresentar uma personagem que parece fitar diretamente o leitor. Com efeito, Bizarro - que em momento algum é referenciado dessa forma na história - caminha de costas voltadas para quem tem a revista em mãos. Byrne recorreu a esse subterfúgio visual para metaforizar a natureza invertida da criatura, desde sempre descrita como uma duplicata assimétrica do Superman. A história em questão é, aliás, vagamente inspirada naquela que em Superboy nº68 (novembro de 1958) introduziu o vilão na mitologia do Homem de Aço. Com a diferença de que, na história original, o objeto da afeição de Bizarro não era Lucy Lane (a irmã mais nova de Lois Lane) mas uma mulher chamada apenas Melissa;
*Somente na ponta final da história os pais adotivos de Clark descobrem a origem alienígena do filho que, até esse momento, tinham assumido tratar-se de um humano aprimorado a fim de participar no programa espacial  secreto de uma qualquer potência estrangeira.

As seis capas originais da minissérie
 seguiam um padrão visual quebrado apenas pela do nº5.
Vale a pena ler?

Analisando The Man of Steel com a perspetiva concedida por mais de três décadas, é inegável o caráter datado de alguns dos elementos presentes na obra. Porém, como qualquer clássico, ela conserva intocado o seu apelo atemporal.
O grande mérito da história reside, a meu ver, na intenção dessacralizadora que lhe subjaz.  Quem leu algumas histórias do Superman dadas à estampa durante a Idade da Prata sabe quão próximo ele estava da omnipotência divina. Apesar de menos poderoso, este novo Superman nem por isso é menos heroico. Muito pelo contrário.
Ao vincar a humanidade do Último Filho de Krypton, Byrne colocou em evidência as suas fraquezas mas também a sua força moral. Aquela que possui alguém que, agraciado com poderes semidivinos, os coloca abnegadamente ao serviço da comunidade, devolvendo, de caminho, a esperança a um mundo que não é o seu. Isto ao mesmo tempo que aprende a lidar com o peso do legado que carrega enquanto último representante de uma civilização condenada. Sem mencionar o impacto negativo que o seu segredo causa em alguns dos seus entes mais queridos.
Diga-se o que se disser acerca desta reformulação do Homem de Aço, nunca antes a sua origem fora contada com tanta minúcia. Circunstância que, só por si, me leva a considerar The Man of Steel a versão definitiva de uma história tantas vezes revisitada. Atrevo-me mesmo a dizer que será a pièce de résitance de Byrne. Sobre a qual, malgrado a natureza testamentária da presente análise, muito mais haveria ainda para dizer.
A minha singela evocação desta obra incontornável na memorabilia do Homem de Aço configura, de resto, o primeiro de vários tributos que tenciono render ao herói dos heróis, no ano em que se comemora o seu 80º aniversário.
Mantenham-se sintonizados porque não vão certamente querer perder pitada do que está na calha...

A vitalidade de um octogenário
que continua a ser o ídolo de multidões.