Mostrar mensagens com a etiqueta metropolis. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta metropolis. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

GALERIA DE VILÕES: LEX LUTHOR


  Era o Rei Sol da Cidade do Amanhã até ser eclipsado por um forasteiro de sorriso caloroso e poderes divinos que arrebatou os corações dos seus súbditos. Recusando viver à sombra do falso deus, jurou destruí-lo em prol da Humanidade que só a ele deveria venerar.

Licenciadora: Detective Comics (DC)
Criadores: Jerry Siegel (história) e Joe Shuster (arte conceitual)
Estreia: Superman nº4 (março de 1940)
Identidade civil: Alexei Luthor (Idade da Prata); Alexis Luthor (Idade da Prata e do Bronze); Alexander Joseph Luthor (versão moderna)
Espécie: Humano
Local de nascimento: Smallville, Kansas (Idade da Prata e versão moderna);  Beco do Suicídio, Metrópolis (versão pós-Crise nas Infinitas Terras)
Parentes conhecidos: Lionel e Leticia Luthor (pais, falecidos); Casey e Elaine Griggs (pais adotivos, falecidos); Lena Luthor (irmã, falecida); Lori Luthor (sobrinha); Ardora (ex-esposa, falecida); Condessa Erica Alexandra del Portenza (ex-esposa, presumivelmente falecida); Lex Luthor Jr. (filho, falecido); Lena Luthor (filha); Perry White Jr. (filho ilegítimo, falecido); Kon-El / Superboy ("filho" parcialmente clonado a partir do seu ADN)
Ocupação: Cientista, empresário, filantropo, aventureiro e ex-Presidente dos EUA
Base operacional: Uma pequena cidade flutuante não identificada (Idade do Ouro); Smallville (Idade da Prata); planeta Lexor (Idade do Bronze); Metrópolis (versão moderna)
Afiliações: Presidente executivo da LexCorp; ex-agente da A.R.G.U.S.; ex-líder da Legião do Mal, do Sexteto Secreto, da Liga da Injustiça e da Sociedade Secreta de Supervilões 
Armas, poderes e habilidades: Lex Luthor dispõe das capacidades físicas normais de um homem da sua idade e compleição. Com o rolar das décadas foi, contudo, invariavelmente descrito como um génio científico, senhor de uma das mais prodigiosas mentes da Terra. Alguns não hesitam mesmo em classificá-lo como o humano mais inteligente de todo o Universo DC.
Além de memória eidética (vulgo memória fotográfica), Luthor é proficiente em áreas tão diversificadas como robótica, computação, bioengenharia, nanotecnologia e até viagens temporais e extradimensionais.
Não admira, por isso, que, com a imodéstia que o caracteriza, Luthor se considere intelectualmente superior aos demais. Exceção feita a Brainiac, o vilão coluano que é outro dos oponentes clássicos do Homem de Aço, e com o qual Luthor forjou já várias alianças.
Associando o seu formidável intelecto a uma desarmante amoralidade e falta de ética, Luthor encontrou a receita infalível para o sucesso no mundo dos negócios. Desde a sua reformulação às mãos de John Byrne no período pós-Crise nas Infinitas Terras, Luthor despiu a pele de cientista insano para vestir a de um poderoso magnata, cuja colossal fortuna o coloca no pódio dos homens mais ricos do planeta.
Metódico e carismático, Luthor é um líder inato, seja no submundo do crime organizado, no meio empresarial ou na arena política. Foram, aliás, esses predicados que, aliados às suas propostas demagógicas, lhe valeram em tempos a eleição para Presidente dos EUA (ver Origem e evolução).
Depois de décadas a usar várias formas de kryptonita para causar dano ao Super-Homem, desde a Idade do Bronze que Luthor se apetrechou com um traje blindado equipado com um vasto arsenal e que, entre outras coisas, lhe permite voar e gerar campos de força. A versão atual da sua armadura incorpora tecnologia de Apokolips, sendo presumivelmente energizada por uma Caixa Materna, o que aumenta consideravelmente o seu poderio.
Embora, por norma, evite o confronto físico com os seus adversários, Luthor está longe de ser indefeso em cenários de combate corpo a corpo. Ou não tivesse ele sido treinado por alguns dos melhores mestres de artes marciais que o dinheiro pode comprar - sem mencionar que é um trapaceiro sem emenda, incapaz de jogar limpo.
A arma mais letal de Luthor é, no entanto, a sua mente. Que, como ele gosta de se vangloriar, supera o músculo e prisão alguma poderá manter cativa.

A armadura de Luthor permite-lhe equilibrar
os combates com o Homem de Aço.

Fraquezas: Às naturais limitações decorrentes da sua condição de simples humano, Luthor acrescenta ao seu rol de pontos fracos uma proverbial soberba intelectual e uma profunda incapacidade de compreender a psicologia dos seus adversários.
Esse défice de empatia é ainda mais evidente no que aos heróis concerne. Motivações altruístas e atos abnegados afiguram-se-lhe meras abstrações e, por isso, falha sistematicamente em compreendê-los ou antecipá-los.
Apesar de apetrechado com uma mente analítica, Luthor recusa, por exemplo a possibilidade de um ser tão poderoso como o Super-Homem ser completamente benévolo, ou ter a necessidade de se disfarçar como um humano. Pois isso é algo que Luthor - que, no fundo, aspira à divindade e despreza os seus semelhantes - jamais faria.
Daí Luthor ter ridicularizado as evidências que em tempos lhe foram apresentadas de que o Homem de Aço e Clark Kent eram uma só pessoa. Ao fazê-lo, desbaratou uma importantíssima vantagem estratégica sobre o seu némesis, abdicando voluntariamente de qualquer possibilidade de vitória sobre ele.

Origem e evolução

Também ele saído da imaginação de Jerry Siegel e Joe Shuster, que menos de dois antes haviam apresentado o Super-Homem ao mundo, Lex Luthor fez a sua estreia oficial em Superman nº4 (março de 1940). Identificado apenas pelo apelido que se tornaria sinónimo de velhacaria, começou por ser retratado como um génio diabólico animado pela ganância.
Com uma cidade suspensa por um dirigível a servir-lhe de base de operações móvel, Luthor procurava, nessa sua primeira aparição, desencadear um conflito entre duas nações europeias. Os seus planos seriam, contudo, frustrados pela intervenção do Super-Homem. Algo que, com o passar do tempo, se tornaria uma tradição.

Imagem relacionada
Erroneamente atribuída por algumas fontes a Action Comics nº23 (abril de 1940),
a estreia de Luthor deu-se de facto um mês antes em Superman nº4.
Nestas primeiras histórias dadas à estampa nos alvores da Idade do Ouro, os esquemas de Luthor centravam-se, invariavelmente, na obtenção de riqueza ou em desígnios megalómanos. Ao contrário da quase totalidade das suas versões posteriores, o vilão não demonstrava então qualquer animosidade pessoal contra o Super-Homem além, claro está, do natural ressentimento derivado das constantes interferências do herói nos seus planos.
Originalmente, Luthor era retratado como um homem de meia-idade, anafado e com uma guedelha ruiva a ornar-lhe a cabeça. Facto pouco conhecido, a sua icónica calvície foi fruto de um lapso artístico.
Numa tira de jornal publicada no início de 1941, o ilustrador Leo Nowak terá confundido Luthor com o Ultra-Humanoide, o primeiro supervilão das histórias do Super-Homem cuja aparência invocava a de um idoso careca. Esta perda abrupta de cabelo seria profusamente referenciada na próxima aparição da personagem, em Superman nº10 (maio de 1941).

Imagem relacionada
O visual original de Luthor antes de ser confundido com o Ultra-Humanoide (baixo).

Resultado de imagem para dc comics golden age ultra humanite

Quando, já na Idade da Prata, o Multiverso DC começou a ganhar forma, a versão ruiva do vilão foi batizada como Alexei Luthor e apresentada como a sua contraparte da Terra-2.
Foi também nesse período que, após uma longa ausência, Luthor regressou para atormentar a versão juvenil do Homem de Aço. Numa história publicada em Superboy nº59 (setembro de 1957), um misterioso homem calvo usava as suas geniais invenções para ajudar o povo de Smallville.
Quando o Superboy percebe que tudo não passa de um embuste para desviar as atenções do assalto a um banco que o forasteiro pretende executar, apressa-se a deitar por terra os seu planos. Colocado atrás das grades, Luthor revela por fim o seu nome e jura vingar a afronta.
Em abril de 1960, numa história inclusa em Adventure Comics nº271 e escrita pelo próprio Jerry Siegel, foi finalmente revelada a origem e o primeiro nome de Luthor. Cuja família, no início da sua adolescência, se mudara para Smallville.
Lex, que já então dava mostras de grande talento científico, passou a idolatrar o Superboy. Os dois chegaram a trabalhar juntos em prol da comunidade e Lex chegou mesmo a estudar um meio de tornar o Rapaz de Aço imune aos efeitos nocivos da kryptonita.
Essa breve amizade terminaria de forma dramática quando, na sequência de um acidente laboratorial causado pelo Superboy, Luthor perdeu o seu cabelo. Nunca perdoando o sucedido, Luthor jurou matar o Rapaz de Aço a fim de provar ao mundo a sua superioridade.

Imagem relacionada
Luthor culpa Superboy pela sua calvície.
Durante a década de 1970, na chamada Idade do Bronze, Luthor, embora um infame criminoso na Terra, seria aclamado como um salvador em Lexor. Planeta assim batizado em sua honra depois de Lex ter ajudado os nativos a reconstruir a sua civilização.
Após sofrer uma humilhante derrota às mãos do Homem de Aço, Luthor trocou a Terra por Lexor, passando a usar o seu mundo adotivo como plataforma para o lançamento de incessantes ofensivas contra o seu arqui-inimigo.
Foi durante essa fase que Luthor projetou a sua icónica armadura verde e roxa, da qual se tornaria inseparável. Foi também em Lexor que Luthor conheceu Ardora, uma adorável nativa  que ele desposaria e que lhe daria o seu primeiro descendente biológico, Lex Luthor Jr.
Quando um dos planos de Luthor resultou na destruição de Lexor, o vilão, embora consternado pela perda dos seus entes queridos, culpa uma vez mais o Super-Homem pelo sucedido.

O modelo original do traje blindado de Luthor
surgiu na Idade do Bronze.
Após Crise nas Infinitas Terras, Luthor, assim como várias outras personagens-chave da mitologia do Homem de Aço, foi reformulado por John Byrne. De cientista louco passou a empresário sem escrúpulos nascido no Beco do Suicídio (uma das zonas mais degradadas de Metrópolis), onde passou uma infância marcada pela pobreza e pelos maus-tratos infligidos por um pai alcoólico que zombava dos seus sonhos de uma vida melhor.
Uma biografia não-autorizada sugere que, ainda adolescente, Luthor terá sido o responsável pelo acidente de automóvel que vitimou os seus pais. Certo é que a choruda apólice de seguro recebida foi o primeiro passo para acumular uma apreciável fortuna.
Lex usou a sua riqueza e genialidade para fundar a LexCorp, uma gigantesca multinacional atuante em áreas bastante diversificadas, mas que sobressai na pesquisa científica e no desenvolvimento de tecnologia de ponta.  À medida que a empresa crescia, tornando-se parte vital da economia de Metrópolis, crescia também o prestígio e influência de Luthor, que não tardaria a tornar-se o homem mais poderoso da Cidade do Amanhã*.
Tudo isso mudaria com o advento do Super-Homem. De um dia para o outro, Luthor viu-se ofuscado por um bom samaritano com poderes semidivinos. O facto de o novo ídolo das multidões ter nascido com os seus poderes sem, por contraste com Luthor, ter conquistado coisa alguma, despertou no magnata uma profunda inveja.
Sentimento que evoluiria para o mais visceral dos ódios quando Luthor percebeu que o Homem de Aço não podia ser corrompido ou sequer manipulado. Em virtude disso, Luthor não olhou a meios para destruir o herói.  E quase o conseguiu em várias ocasiões, especialmente depois de ter deitado a mão à única amostra de kryptonita existente na Terra.
Da sua prolongada exposição à radiação do mineral alienígena resultaria, no entanto, um cancro em fase terminal. Mas até a morte Luthor conseguiu fintar ao transferir a sua mente para um clone que, num primeiro momento, se fez passar por seu filho ilegítimo nascido na Austrália.

Imagem relacionada
O Luthor pós-Crise
 e o seu filho bastardo
que era, afinal, um clone (baixo).

Imagem relacionada

Ao cabo de vários anos a cultivar uma imagem de filantropo, Luthor empregaria a sua tecnologia na reconstrução de Gotham City - arrasada por um terramoto e transformada numa terra de ninguém**.
Beneficiando da forma inábil como a anterior Administração gerira os efeitos da catástrofe, Luthor foi eleito Presidente dos EUA na viragem do século XX para o século XXI.
Um enorme escândalo envolvendo uma transação de armas com Apokolips ditaria, porém, a sua destituição a meio do mandato presidencial. Ironicamente, numa altura em que os seus índices de popularidade estavam em alta.
Na esteira desses acontecimentos Luthor perdeu também o controlo do seu conglomerado e, caído em desgraça, desapareceu do radar durante uma longa temporada.

Resultado de imagem para lex luthor president of the usa
Um milionário controverso na Casa Branca 
(ou quando a ficção antecipa a realidade).
Na continuidade dos Novos 52, Luthor começou por ser um agente governamental ao serviço da A.R.G.U.S., organização encarregue de monitorizar atividades meta-humanas. Foi, de resto, com esse estatuto que capturou e torturou um jovem Clark Kent que ainda não tinha desenvolvido o seu pleno potencial.
Empenhado em expor o Super-Homem como uma ameaça à Humanidade, Luthor seria no entanto surpreendido pela morte do herói.
Para perplexidade geral, após esse trágico evento, Luthor adornou o seu novo traje de combate com o símbolo do seu velho inimigo e ocupou a sua vaga como novo defensor de Metrópolis. Perante as suspeitas do Super-Homem clássico - entretanto regressado em Renascimento - Luthor tem-se esforçado por provar a nobreza das suas intenções e até já foi membro temporário da Liga da Justiça.
O tempo dirá se o velho Lex se regenerou de facto ou se tudo se resume a uma das suas costumeiras maquinações para levar o Homem de Aço a baixar a guarda.

Imagem relacionada
Super Luthor: herói ou vilão?

Personalidade

Desde sempre retratado como um indivíduo frio, calculista e megalómano, Lex Luthor era já azedo e antissocial nos seus verdes anos. Por conta dos abusos sofridos na infância por parte dos seus progenitores, Luthor desenvolveu uma personalidade implacável com requintes de sadismo e passou a encarar as pessoas como meros instrumentos ao seu dispor ou obstáculos a serem removidos do seu caminho.
Essa sua natureza retorcida permitiu-lhe, todavia, escalar até ao topo da pirâmide social. Algo que só foi possível graças a todo o tipo de jogadas sujas, de que Luthor logrou sempre sair impune, agindo nos bastidores ou delegando-as em subordinados descartáveis.
Construindo uma imagem de self-made man, Luthor acaba por ser uma representação enviesada do sonho americano. Contudo, o  seu poder e influência fizeram dele uma inspiração para muitos cidadãos comuns, cuja adulação nutria o obeso ego de Luthor antes do advento do Super-Homem à Cidade do Amanhã. A Maravilha de Metrópolis deu aos seus habitantes um novo ideal  ao qual aspirar, ofuscando Luthor.
Contrariamente à generalidade dos seus concidadãos, Luthor não vê no Homem de Aço uma bênção ou um salvador, mas antes uma ameaça extraterrestre - ou, na melhor das hipóteses, um indesejável entrave ao progresso humano.

Luthor sonha ter o mundo a seus pés.
Em linha com esse raciocínio,  em inúmeras ocasiões Luthor proclamou a sua intenção de, após destruir o Super-Homem, trabalhar para o aprimoramento da Humanidade. Que, sob a sua sábia orientação, poderia aspirar à divindade. Embora, em boa verdade, Luthor se veja a si mesmo como o único deus digno de ser reverenciado pelos seus semelhantes.
Movido por um mesquinho sentimento de inveja mascarado de xenofobia humanista, Luthor persegue obstinadamente o seu principal desígnio: matar o Super-Homem, por forma a tornar-se o maior campeão da Humanidade - título que julga seu por direito.
Não obstante, já deu ocasionalmente provas de ser capaz de praticar atos heroicos. Durante a saga Noite Final, por exemplo, ajudou a Liga da Justiça a "recarregar" o Sol, evitando dessa forma a extinção da vida na Terra.

Trivialidades 

*Um cientista louco não identificado - mas com notórias semelhanças fisionómicas com Lex Luthor - marcou presença numa história publicada em More Fun Comics nº23. Facto que nada teria de assinalável se a edição em causa não tivesse precedido em três anos a criação do arqui-inimigo do Super-Homem. Igualmente inegáveis são as parecenças físicas entre Luthor e o protótipo do Super-Homem (um vilão calvo com poderes telepáticos) apresentado em 1934 por Jerry Siegel e Joe Shuster***;
*Em Smallville (ver texto seguinte), um jovem Lex Luthor torna-se próximo de Clark Kent. Essa amizade (e subsequente rutura) é em tudo idêntica à relação mantida entre ambos durante a Idade da Prata. Com a diferença de que, na versão televisiva, foi a radiação de uma chuva de meteoritos a causar a calvície de Luthor. Em ambos os casos, porém, Clark foi indiretamente responsável pelo sucedido, motivando dessa forma o ressentimento de Lex;
*Embora fossem ambos adolescentes quando os seus caminhos se cruzaram pela primeira vez, em Adventure Comics nº271 (abril de 1960), existe uma discrepância nunca explicada entre a idade de Clark Kent e Lex Luthor. Dois anos antes, em Adventure Comics nº253, Luthor era já adulto (e ainda dono de uma farta cabeleira ruiva) quando encontrou o Superboy pela primeira vez;
*Após uma viagem no tempo com o Homem de Aço, Luthor causou inadvertidamente o catastrófico terramoto que, em 1906, arrasou uma parcela significativa da cidade californiana de São Francisco;
*Em 1944, cerca de um ano antes dessa arma ser vista em ação pela primeira vez, Luthor foi a primeira personagem da banda desenhada (e um dos primeiros na ficção) a usar uma bomba atómica. Motivando, assim, um pedido por parte do Departamento de Guerra dos EUA para que a publicação da história fosse adiada, por forma a manter secreto o Projeto Manhattan. Em resultado disso, a história em questão só seria apresentada aos leitores um par de anos mais tarde, em 1946;
*Lex Luthor foi, também, o primeiro carrasco do Super-Homem. Numa história não-canónica publicada em Superman nº149 (novembro de 1961), o vilão conseguia finalmente matar o seu arqui-inimigo, expondo-o a uma dose maciça de kryptonita. Dando largas ao seu sadismo, Luthor obrigou Lois Lane e outros dos entes queridos do Homem de Aço a testemunharem a lenta agonia do herói;

A primeira morte do Homem de Aço
 foi às mãos do seu inimigo de sempre.
*Apesar dos muitos embaraços que as investigações jornalísticas de Lois Lane lhe causaram ao longo dos anos, Lex Luthor nutre uma paixão secreta -e não correspondida - pela repórter do Daily Planet;
*Colecionador de aventuras galantes, Luthor foi casado oito vezes (ou nove, consoante a biografia consultada), a última das quais com a condessa Erica Alexandra del Portenzo, aristocrata italiana que com ele partilhava as mesmas deficiências de caráter e que lhe deu a sua única filha, Lena Luthor (assim batizada em homenagem à finada irmã de Lex);
*Lex Luthor ocupa o quarto lugar no Top 100 dos Maiores Vilões da BD de Todos os Tempos organizado pelo site IGN e surge classificado na oitava posição de uma lista idêntica elaborada pela revista Wizard;
*Na Terra-3, Alexander Luthor Sr. é o único super-herói desse mundo paralelo subjugado pelas contrapartes corrompidas da Liga da Justiça. Tal como a sua versão canónica, compensa a ausência de superpoderes com uma boa dose de audácia e um arsenal de alta tecnologia desenvolvido graças à sua genialidade científica.

O Luthor heroico da Terra-3.


Noutros media

Reflexo da apreciável popularidade de que sempre gozou nos quadradinhos e reforçando desse modo o seu estatuto de ícone da cultura pop, Lex Luthor tem sido um habitué nas produções audiovisuais baseadas no Universo DC.
A sua estreia nesse segmento verificou-se em Atom Man versus Superman (1950). Nesse que foi o segundo folhetim cinematográfico protagonizado pelo Homem de Aço, coube a Lyle Talbot a honra de interpretar pela primeira vez o vilão. Cujo modus operandi correspondia, então, ao do típico cientista louco sempre a arquitetar os mais mirabolantes planos para destruir o seu arqui-inimigo.

Resultado de imagem para lyle talbot
Lyle Talbot como Lex Luthor em Atom Man versus Superman.
Quase três décadas volvidas, Luthor regressaria em 1978 ao grande ecrã. Desta feita interpretado por Gene Hackman em Superman, the Movie. Papel que o ator repetiria em três dos filmes que compõem a tetralogia - apenas falhou o terceiro.
Por contraste com a sua versão canónica, o segundo Luthor cinematográfico não alimentava qualquer tipo de animosidade pessoal em relação ao Último Filho de Krypton, sendo, em vez disso, movido pela ganância e pela vaidade.
Apesar de conservar alguma da comicidade do seu antecessor, o Lex Luthor de Kevin Spacey em Superman Returns (2006) não fazia segredo do seu rancor em relação ao herói que o colocara atrás das grades. Tem, de resto, alguns traços de personalidade comuns com a versão da personagem introduzida dez anos depois em Batman versus Superman: Dawn of Justice.
Agora encarnado por Jesse Eisenberg, este Luthor em início de carreira é retratado como um jovem prodígio com tendências sociopáticas que vê no Super-Homem uma espada de Dâmocles a pender sobre a Humanidade, da qual se arvora defensor.

As muitas faces de Lex Luthor no cinema e na TV.
Na coluna da esquerda (de cima para baixo): Gene Hackman (Superman I, II e IV),
John Shea (Lois and Clark: The New Adventures of  Superman)
e a versão do vilão em Super Friends.
Na coluna da direita (pela mesma ordem):
O Luthor de Superman: The Animated Series,
Michael Rosenbaum (Smallville)
e Kevin Spacey (Superman Returns).
Ao centro: Jesse Eisenberg (Batman vs Superman: Dawn of Justice).

Curiosamente ausente de Adventures of Superman, a primeira série televisiva do Homem de Aço, no ar ao longo de praticamente toda a década de 1950, a estreia de Luthor no pequeno ecrã ocorreria apenas em Superboy (1988-1992). Interpretado por Scott James na primeira temporada e por Sherman Howard nas restantes três, nesta sua encarnação Luthor era um adolescente rico e mimado que se entretinha a infernizar a vida ao Rapaz de Aço.
Cinco anos depois, em 1993, agora com John Shea a dar-lhe corpo, Luthor seria coprotagonista em Lois and Clark: The New Adventures of Superman. Fortemente influenciados pela sua contraparte dos quadradinhos com a assinatura de John Byrne, Luthor surgia agora como um poderoso magnata que, a coberto da sua filantropia. geria uma miríade de negócios escusos e não perdoava ao Homem de Aço por o ter destronado no coração dos habitantes de Metrópolis.
Ainda pela TV, mas já neste século, Smallville (2001-2011) apresentou uma versão renovada de Lex Luthor. Com Michael Rosenbaum a vestir-lhe a pele, Luthor não se assumiu desde o início como um velhaco, sendo, ao invés, a sua corrupção moral um processo gradual resultante de uma complexa conjuntura.
Também no campo da animação, desde meados da década de 1960 (altura em que se estreou em The New Adventures of Superman), que Luthor vem tendo participações de relevo em diversas produções da DC. Destaque para Super Friends (1973-74), Superman: The Animated Series (1996-2000) e, mais recentemente, The Death of Superman, longa-metragem lançada já este ano.
Além de surgir como personagem jogável em todos os jogos de vídeo do Super-Homem produzidos até à data, Lex Luthor tem também já presença confirmada em Metropolis, série televisiva com estreia prevista para o próximo ano e que pretende ser uma prequela de Man of Steel (curiosamente, uma das poucas películas do Super-Homem de que esteve ausente). Até ao momento não foi ainda divulgado o nome do ator que lhe dará vida nesse projeto.


Resultado de imagem para superman versus luthor classic
Superman contra Luthor:
o deus que quer ser homem e o homem que quer ser deus.


 * https://bdmarveldc.blogspot.com/2018/01/classicos-revisitados-o-homem-de-aco.html
** https://bdmarveldc.blogspot.com/2017/08/classicos-revisitados-batman-terra-de.html
*** https://bdmarveldc.blogspot.com/2018/06/eternos-jerry-siegel-joe-shuster.html





sexta-feira, 14 de abril de 2017

CLÁSSICOS REVISITADOS: «SUPERMAN - ENTRE A FOICE E O MARTELO»




  E se, por um capricho do destino, o foguete que transportava o Último Filho de Krypton não se tivesse despenhado nos EUA mas sim no coração da URSS estalinista? Como seria o mundo sob os auspícios de um Homem de Aço arvorado a campeão do proletariado e símbolo supremo do comunismo?
  Eis as empolgantes premissas porfiadas num exercício de imaginação com o cunho de Mark Millar (Guerra Civil, O Velho Logan), e que influenciou também a abordagem de Henry Cavill ao herói em Man of Steel.

Título original: Superman: Red Son
País: EUA
Data de publicação: De junho a agosto de 2003
Categoria: Minissérie mensal em três volumes em formato americano
Licenciadora: Detective Comics (DC)
Autores: Mark Millar (trama) e Dave Johnson (ilustrações)
Protagonistas: Superman e Lex Luthor
Vilões: Brainiac
Coadjuvantes: Batman, Mulher-Maravilha, Lois Lane, Jimmy Olsen, Pyotr Roslov, Perry White, Lana Lazarenko, Amazonas de Themyscira e Tropa dos Lanternas Verdes 
Cenários: Palácio de Inverno do Superman, Themyscira, Batcaverna, Museu do Superman, Zona Fantasma, EUA, URSS e várias geografias da Terra-30 do Multiverso DC



As capas originais da minissérie
cujos créditos artísticos pertencem a Dave Johnson.
Edições em português: Como habitualmente, a primeira versão em língua portuguesa da saga ficou por conta da Panini brasileira que, em 2004, a lançou pela primeira vez em Terras Tupiniquins em formato idêntico ao original. Ainda sob o selo da mesma editora, Superman - Entre a Foice e o Martelo seria, dois anos depois, compilada num volume encadernado.
Titulada Herança Vermelha , a saga seria lançada deste lado do Atlântico em 2014 pela Levoir num volume único.

A compilação da saga
lançada em 2006 pela Panini.

Antecedentes: Segundo rezam as crónicas lavradas pelo próprio, Mark Millar seria ainda pessoa de palmo e meio na sua Escócia natal quando leu a história do Homem de Aço que, décadas depois, serviria de ponto de partida a Red Son.
Tem, portanto, a palavra o autor: «Foi um outro exercício de imaginação que li quando tinha apenas seis anos de idade que me inspirou a escrever Red Son. A história em causa fazia parte de Superman nº300 (edição comemorativa lançada em 1976) e marcou-me profundamente. Enquanto criança criada em plena Guerra Fria, não pude ficar indiferente à respetiva premissa: E se, em vez do Kansas, a nave que transportava o Último Filho de Krypton tivesse amarado em águas internacionais?
Num clima de alta tensão político-militar entre os EUA e a URSS, ambas as superpotências se apressariam a reclamar o bebé, acabando os americanos por se antecipar. Fascinava-me, no entanto, conjeturar o que teria acontecido se os soviéticos tivessem levado a melhor nessa disputa.
Sempre com esse pensamento em mente, à medida que fui crescendo continuei a reunir ideias para a minha própria narrativa. Quando tinha 13 anos, animado por aquela ousadia típica da puberdade, remeti-a à DC, na ingénua esperança de que viesse a ser publicada. Claro que, na melhor das hipóteses, o que escrevi correspondia a um rascunho. Sem mencionar que os meus desenhos eram para lá de toscos. Foi contudo esse meu projeto adolescente a lançar as bases para Red Son.
Em 1992, quando ainda residia na Grã-Bretanha e escrevia títulos como 2000 AD e Crisis para a Fleetway Publications, tinha já definido alguns dos principais eixos narrativos. Por essa altura era já ponto assente que, em vez do Kansas, o foguete que trouxe Kal-El ao nosso planeta teria aterrado numa Unidade de Produção Coletiva no coração da União Soviética governada com mão de ferro por Estaline. Quando adulto, em vez de trabalhar no Daily Planet, o Superman seria jornalista do Pravda (antigo órgão oficial do PCUS).

A fonte de inspiração para Red Son.
«Haveria também uma dramática inversão das circunstâncias geopolíticas das duas superpotências. Nesta realidade divergente, enquanto a URSS prosperava e se afirmava como farol da Humanidade, os EUA enfrentavam a decadência económica e a ameaça de desintegração representada pelos sonhos independentistas da Geórgia e da Luisiana. Uma das cenas mais impactantes mostraria tanques a esmagarem a revolta nas ruas de Nova Orleães, a exemplo do ocorrido na ex-Checoslováquia durante a Primavera de Praga.
Apesar de centrada no Superman, a história contaria com a participação de Batman, Lanterna Verde e outras figuras gradas do Universo DC. Todas elas apresentadas sob ângulos completamente distintos dos habituais. Estava ciente de que se tratava de um exercício de imaginação tão estimulante quanto arriscado. Mas eu estava disposto a assumir os riscos e, por isso, continuei a escrever.
Antes mesmo de saber se a DC me concederia foral para esta abordagem tão pouco ortodoxa à sua personagem de charneira, o meu bom e velho amigo Grant Morrison ajudou-me a definir o desfecho da trama. Uma ideia que, mesmo não sendo totalmente inovadora, apenas posso qualificar de genial (ver Trivialidades).»
A DC acabaria mesmo por dar luz verde à iniciativa, com Red Son a chegar às bancas norte-americanas em 2003. Dois anos depois, ironicamente, de Mark Millar ter apresentado a sua demissão da Editora das Lendas, onde vinha trabalhando desde 1994.
Dave Johnson, artista nascido há 51 anos em terras do Tio Sam e cujo repertório incluía à data títulos como Demon e R.E.B.E.L.S., seria o eleito para desenhar aquela que viria a ser considerada uma das melhores sagas do Homem de Aço produzidas este século e uma obra de referência na memorabilia do herói.

Mark Millar, um provocador nato
cujas fábulas não deixam ninguém indiferente..

Enredo: Em meados da década de 1950, a União Soviética surpreendo o mundo ao revelar a existência do Superman. Um alienígena com poderes semidivinos às ordens de Estaline faz soar as campainhas de alarme nos EUA, e muda o foco da corrida armamentista, em curso desde o início da Guerra Fria, das bombas atómicas para os meta-humanos.
É percetível nas entrelinhas que o despenhamento, duas décadas antes, da nave que transportava o bebé Kal-El em solo ucraniano se terá ficado a dever a um ligeiro desfasamento temporal relativamente à linha cronológica canónica.Ou seja, um par de horas de diferença na rotação da Terra colocou a nave na rota da URSS em vez dos EUA. Já a identidade dos pais adotivos do Último Filho de Krypton é um segredo de Estado muito bem guardado.
Reputado cientista dos Laboratórios S.T.A.R. e uma das mentes mais brilhantes do planeta, Lex Luthor é contratado por um agente da CIA chamado Jimmy Olsen para destruir o novo campeão soviético.
Objetivando a recolha do material genético do Superman, Luthor induz a queda do satélite Sputnik 2 em Metrópolis. Previsivelmente, o desastre é evitado graças à providencial intervenção do herói. Que, no processo, acaba também por travar conhecimento com Lois Lane, a sedutora esposa de Luthor. Apesar da tensão romântica imediatamente instalada entre o casal, ambos resistem à atração mútua devido ao estado civil de Lois.
Invocando razões de segurança nacional, o Governo estadunidense confisca o satélite soviético e Luthor utiliza os vestígios biológicos nele deixados por Superman para fabricar um clone do herói. Algo falha no processo e a duplicata, oficialmente denominada Superman 2, exibe várias deformidades físicas que lhe conferem uma aparência bizarra.

Superman, o campeão do proletariado.
Entretanto, Superman e Mulher-Maravilha, a embaixadora de Themyscira, são apresentados numa festa diplomática. Seduzida pelo garbo e pela nobreza de caráter do Homem de Aço, a Princesa Amazona insinua-se, mas o herói é forçado a abandonar apressadamente o evento após avistar o tenebroso Pyotr Roslov, diretor da não menos tenebrosa NKVD (polícia política antecessora da KGB) e filho ilegítimo de Estaline.
Ressentido com a afeição dispensada pelo pai a um extraterrestre, Pyotr considera que o advento do Superman reconfigurou a estrutura de poder do regime soviético, hipotecando as suas hipóteses de vir a ser o herdeiro designado de Estaline à frente dos destinos daquela que é uma das duas nações mais poderosas do mundo.
A despeito disso, Pyotr executa pessoalmente um casal de dissidentes que vinham imprimindo e distribuindo panfletos alertando para a potencial ameaça representada pelo Superman. Crime cometido à frente do filho do casal, assim traçando o destino do menino.
Cada vez mais perturbado, Pyotr ordena em segredo o envenenamento do pai com cianeto. Decisão de que se arrepende mas não ao ponto de confessar a autoria moral da conjura que levou à morte de Estaline. Com o povo soviético enlutado e tomado por um sentimento de orfandade, o Superman é convidado pelo Politburo a assumir a liderança do Partido, mas não cede ao apelo do poder.

A relação próxima de Estaline com Superman não agradava a todos.
Semanas depois, a mando de Luthor, o Superman 2 ataca o Homem de Aço. Sem que dele emirja um vencedor inequívoco, o titânico confronto provoca o lançamento acidental de um míssil nuclear sobre o Reino Unido.
Infundido do mesmo heroísmo do original, o Superman 2 imola-se na tentativa de impedir o holocausto no qual pereceriam milhões. Londres acaba, porém, por ser atingida pelas devastadoras ondas de choque da detonação, daí resultando um elevado número de vítimas mortais entre os seus habitantes. Paralelamente a todas as outras repercussões, o incidente tem também como consequência o rompimento das relações diplomáticas entre o Reino Unido e os EUA.
Inconformado com o fracasso do seu projeto, Luthor resolve abandonar os Laboratórios S.T.A.R. e fundar a sua própria empresa, a LuthorCorp. Não sem antes assassinar a sangue frio todos os seus ex-colaboradores.
Negligenciada pelo marido, Lois Lane fantasia com o Superman que, por sua vez, também não a consegue expulsar do pensamento. Tudo muda no entanto quando se propicia o reencontro do herói com Lana Lazarenko, o seu amor de infância.
Ao observar o sofrimento de Lana e dos seus filhos, o Superman conhece pela primeira vez o reverso do paraíso socialista apregoado pela bem oleada máquina propagandística do regime. Circunstância que o leva a reconsiderar a sua decisão de rejeitar a liderança do PCUS, por entender ser seu dever moral fazer uso dos seus poderes para transformar não só a URSS mas o mundo inteiro numa utopia.

Superman toma finalmente consciência
das misérias do regime que simboliza.
Quatro décadas depois, em 1978, o panorama mundial é deveras diferente daquele que todos conhecemos. Com John F. Kennedy na Casa Branca após suceder a Richard Nixon (assassinado em Dallas 15 anos antes), os EUA estão no limiar do colapso social. Cenário contrastante com o da URSS que, graças à liderança do Superman, vive uma era de inaudita prosperidade económica e vem alargando o seu arco de influência a praticamente todo o globo. De facto, salvo os EUA, apenas o Chile se mantém à margem da utopia socialista fundada pelo Homem de Aço.
No entanto, nem tudo é tão idílico como aparenta. A paz e a prosperidade tiveram como custo a severa restrição das liberdades individuais. Com o Superman transformado num tirano benevolente, os dissidentes são submetidos a lobotomias que os convertem em autómatos obedientes. Embora governe agora a URSS em conjunto com a Mulher-Maravilha, o herói não a trata como sua consorte e ignora o amor que ela lhe devota.
Enquanto o impulso secessionista de vários estados empurram os EUA para a implosão, Luthor, mais obcecado do que nunca em destruir o Superman, planeia encolher Moscovo. O plano acaba, contudo, por fracassar depois de Brainiac, o seu novo aliado, encolher por engano Estalinegrado. Os dois acabam detidos pelo Superman que, malgrado os seus esforços, é incapaz de reverter o processo de miniaturização de uma das principais cidades soviéticas. Esse seu primeiro revés deixo-o consumido pela culpa. Para aliviá-la, decide engarrafar Estalinegrado para melhor a preservar e para lhe servir de lembrete da sua falibilidade.

Estalinegrado, uma cidade engarrafada.
Recusando-se a atirar a toalha ao chão, Luthor engendra novo plano de destruição do seu némesis. Um que envolve Batman, sob cujo capuz se esconde o órfão que, em criança, viu os seus pais serem assassinados por Pyotr Roslov. E é precisamente com o auxílio deste, agora chefe supremo da KGB, que Batman sequestra a Mulher-Maravilha com o intuito de usá-la como engodo para atrair o Superman para uma armadilha com raios que imitam o sol vermelho do seu planeta natal. Em teoria, isso deixá-lo-ia privado dos seus poderes.
O plano resulta na perfeição, deixando o Superman em agonia. Ele consegue no entanto persuadir a Mulher-Maravilha a libertar-se do laço que a prendia e a destruir as lâmpadas de sol vermelho. Restabelecido, o Superman parte rapidamente no encalço dos seus algozes, indiferente aos profundos ferimentos da sua companheira, infligidos quando ela se esforçava para lhe salvar a vida.
Uma vez capturado pelo Superman, Pyotr Roslov é transformado num dos seus robôs. Temendo sofrer idêntico destino, Batman opta pelo suicídio, assim fornecendo um mártir à causa Anti-Superman. Luthor, por seu lado, coloca em marcha novo plano após a descoberta de uma misteriosa lanterna verde entre os destroços de uma nave espacial acidentada em Roswell, Novo México.
Heróis da Terra-30.
Reprogramado pelo Superman, Brainiac torna-se seu lacaio e é incumbido da construção do seu Palácio de Inverno na Sibéria. Apesar de determinado a vencer o braço de ferro com os EUA, o Homem de Aço vai rejeitando as sugestões feitas por Brainiac para que invada o país inimigo.
Pouco tempo depois, Lex Luthor e Jimmy Olsen são eleitos, respetivamente, Presidente e Vice-Presidente dos EUA. Fazendo uso do seu conhecimento científico, de vasto capital económico e dos seus poderes autocráticos, o novo líder norte-americano honra a sua promessa de restituir a grandeza à nação que vê nele um messias.

Luthor, um presidente aclamado pelo povo.
Tudo isso faz no entanto parte de um plano mais abrangente, que visa instigar o Superman a invadir os EUA. E quando isso acontecer, Luthor conta com duas armas secretas: a Tropa dos Lanternas Verdes e a Zona Fantasma (local fora do alcance da superaudição do Homem de Aço que, acredita-se, a usa para ouvir cada palavra pronunciada no mundo).
Demora pouco a Luthor passar da teoria à prática, confrontando o Superman no seu Palácio de Inverno. Acaba no entanto capturado por Brainiac, que aproveita o ensejo para voltar a instigar o Homem de Aço a invadir os EUA. Obtendo desta feita uma resposta positiva da parte do seu amo.
Com a Costa Leste dos EUA sob ataque do Superman, a Primeira Dama, Lois Lane, viaja até Themyscira, agora governada por uma amarga Mulher-Maravilha, na expectativa de forjar uma aliança com as Amazonas.
Entretanto, a Tropa dos Lanternas Verdes, comandada pelo coronel Hal Jordan, é facilmente desbaratada pelo Superman. Caída a primeira linha defensiva dos EUA, cabe de seguida às Amazonas e à equipa de supervilões reunida secretamente ao longo dos anos por Luthor procurar suster o avanço do Homem de Aço. Mas todos eles acabam igualmente derrotados.
Num ataque coordenado com o do Superman, na Costa Oeste a gigantesca nave espacial de Brainiac pulveriza a frota naval do Pacífico antes de os dois superseres convergirem para a Casa Branca, onde Luthor os saúda com a sua derradeira arma secreta: uma simples nota manuscrita onde se pode ler "Porque não pões simplesmente o mundo inteiro numa garrafa, Superman?".
Magoado pela alusão ao ocorrido com Estalinegrado, o Superman percebe ter ido longe de mais e ordena a Brainiac o cessar das hostilidades. Este, no entanto, nunca estivera realmente sob seu domínio e ataca-o com kryptonita.

A traição de Brainiac.
Desligado remotamente por Luthor, Brainiac cai por terra, deixando desgovernada a sua nave que ameaça colapsar sobre Washington, D.C.
Reunindo as energias que ainda lhe restam, o Superman alça voo e empurra a nave de Brainiac para o espaço, onde ela explode em mil pedaços. Num ato de justiça poética, o mundo é salvo pelo  sacrifício supremo do seu opressor.
Nos meses seguintes ao desaparecimento do seu líder e campeão, a URSS mergulha na anarquia, mas a ordem é rapidamente restabelecida graças à ação dos Batmen (antigos membros da Resistência que adotaram o símbolo do morcego após a morte do Batman).
Luthor incorpora vários dos conceitos de Superman e Brainiac na sua nova doutrina - o Luthorismo - que serve de base à fundação dos Estados Unidos Globais. Sendo esse um momento definidor na História da Humanidade. Graças aos progressos científicos proporcionados por essa era de paz e prosperidade sem precedentes, são encontradas as curas para todas as doenças conhecidas. É também iniciada a colonização do sistema solar sob a égide do Governo Global presidido por Luthor, cuja vida se prolonga por mais de um século.
Quando Luthor morre por fim, o Superman comparece às suas exéquias usando um disfarce em tudo semelhante ao de Clark Kent. Identidade que, recorde-se, ele nunca assumiu nesta dimensão paralela. Ao avistar aquela misteriosa figura entre a multidão, Lois Lane, a viúva de Luthor, tem uma estranha sensação de déjà vu mas não suspeita do que quer que seja.
Afastando-se discretamente, o Superman, cuja imortalidade fica implícita, planeia viver doravante entre os humanos em vez de governá-los.
Milhões de anos no futuro, a Terra está a ser destroçada por violentos maremotos causados pelo Sol, agora transformado num gigante vermelho. Jor-L, um longínquo descendente de Luthor, envia o seu filho recém-nascido, Kal-L, numa viagem para o passado com a missão de prevenir a iminente extinção da Humanidade.
Os painéis finais da história mostram a nave que transporta o bebé a aterrar numa quinta coletiva algures na Ucrânia em 1938 (ano da estreia oficial do Superman na BD), causando dessa forma um paradoxo de predestinação. Consistindo o mesmo em o Homem de Aço ser um descendente de Luthor.

Um mundo virado do avesso.

Apontamentos:

*A propaganda soviética acerca do Superman reproduz, ipsis verbis, o genérico de introdução de The Adventures of Superman. O primeiro folhetim radiofónico baseado no herói, emitido em diferentes formatos no período compreendido entre 1940 e 1951, apresentava-o como "um estranho visitante de outro mundo capaz de mudar o curso de rios e de dobrar barras de aço com as próprias mãos";
*Ao entrar em cena pela primeira vez, Lex Luthor surge entretido com a montagem de um quebra-cabeças da Acme Corporation. Trata-se da empresa fictícia cuja parafernália de acessórios é utilizada nos desenhos animados da Looney Tunes. Que, tal como a DC, é propriedade da Warner Bros;
*O painel do primeiro tomo da saga onde o Superman devolve um balão a um menino americano enquanto segura com a outra mão o globo do Daily Planet rende homenagem à icónica capa de Superman nº1 (1939);


A homenagem feita a Superman nº1 (em cima).
*A miniaturização de Estalinegrado é uma referência à Cidade Engarrafada de Kandor, elemento recorrente nas história do Homem de Aço durante a chamada Idade de Prata dos quadradinhos;
*Entre os vários itens em exposição no Museu do Superman avultam as estátuas dos seus pais biológicos, cuja estética corresponde a uma mescla daquelas que tradicionalmente os representavam na Fortaleza da Solidão com o célebre monumento Operário e Camponesa, esculpido por Vera Mukhina em 1937 para a participação soviética na Exibição de Artes, Ofícios e Ciências patente em Paris nesse mesmo ano. Outra das relíquias a integrar o referido acervo museológico é o  lendário Supermobile. Veículo construído pelo herói numa história datada de 1978 em que ele ficara temporariamente privado dos seus superpoderes, em consequência da explosão de um sol vermelho;

O Supermobile em ação contra Amazo.
*Oliver Queen (persona civil do Arqueiro Verde no universo canónico da DC) e Iris West (interesse amoroso do Flash Barry Allen no mesmo contexto) surgem retratados na história como funcionários do Daily Planet. O próprio Barry Allen é também referenciado por Iris como tendo chegado com duas horas de atraso à festa de despedida de Perry White, o agora aposentado editor do tabloide;
*Identificada como Devilpig, a estátua exposta na Batcaverna foi batizada com o pseudónimo com que o ilustrador Dave Johnson gosta por vezes de assinar as suas obras;
*A arquitetura do Palácio de Inverno do Superman é baseada na da sua Fortaleza da Solidão da Idade da Prata. O acesso às duas estruturas só era possível com recurso a uma gigantesca chave metálica que pesava várias toneladas. No interior do Palácio de Inverno, além dos destroços do Titanic, encontram-se expostas as estátuas de Darkseid e Krypto (o Super-cão), bem como a nave kryptoniana que trouxe Kal-El à Terra;
*No momento em que, no terceiro e último capítulo da história, o Homem de Aço discute com Brainiac a situação política dos EUA, uma cena em fundo mostra um grupo de manifestantes a tombarem um automóvel e um homem a fugir do caos instalado. Trata-se de uma homenagem à capa de Action Comics nº1, a histórica edição que, em junho de 1938, apresentou o Superman ao mundo;
*Pese embora a Ucrânia surja referenciada numa legenda como sendo parte integrante da Rússia em 1938, isso não corresponde à verdade. Antes da formação da União Soviética, em 1922, ambas eram nações independentes e, depois dessa data, adquiriram o estatuto de repúblicas constituintes da nova entidade geopolítica. Trata-se, portanto, de uma gafe histórica do autor;
*Informalmente creditado ao escritor britânico Grant Morrison, o final da saga contém alguns conceitos imaginados por Jerry Siegel em 1934 para explicar a origem do Superman. Nesse primeiro rascunho da história do herói, ele seria oriundo do futuro e teria sido enviado para o passado pelo seu pai, o último homem da Terra, com a missão de prevenir a extinção da Humanidade;
*Henry Cavill citou Red Son como uma das quatro obras capitais do Superman que influenciaram a sua interpretação em Man of Steel (2013);
*O visual e missões do Superman, Mulher-Maravilha e Batman no jogo de vídeo Injustice: Gods Among Us são baseados nas suas contrapartes de Red Son;

Henry Cavill em Man of Steel: um herói marxista?

Vale a pena ler?

Isso lá é coisa que se pergunte? É como perguntar a um cego se ele quer ver ou a um paralítico se ele gostaria de voltar a andar. Esta é, sem sombra de dúvida, uma das melhores histórias do Superman dadas à estampa este século. Fadada a ser um clássico e, por conseguinte, a ocupar lugar de destaque na memorabilia do herói.
Acham que estou a exagerar? Leiam até ao fim a minha análise e retirem as vossas próprias conclusões. Lembrem-se,  no entanto, que, ao cabo de quase 80 anos de aventuras e desventuras do Homem de Aço, não é fácil uma história sua surpreender-nos ao ponto que esta o faz.
Nunca fiz segredo do meu fascínio por dimensões paralelas e realidades alternativas. Quem não perde pitada do que por aqui vou publicando sabe bem quanto aprecio esses estimulantes exercícios de imaginação em que os nossos heróis de sempre são transpostos para contextos diferentes dos habituais. Poucos escritores da atualidade exibem, no entanto, tanta mestria na exploração dessas premissas inovadoras como Mark Millar.
Mesmo os que lhe regateiam elogios terão de reconhecer que lhe sobeja coragem para fazer abordagens arrojadas (e, não raro, polémicas) a personagens consagradas. Circunstância que consolida o seu estatuto de fabulista dos tempos modernos, com uma costela subversiva.
Da pena de Millar vêm saindo sagas memoráveis, algumas das quais já adaptadas ao cinema. Casos, por exemplo, de Guerra Civil e O Velho Logan (ambas da Marvel, ambas já aqui esmiuçadas). Mas antes delas Millar assinou este magistral épico onde o Superman é apresentado como nunca antes o tínhamos visto.

Uma nova ordem mundial sob a égide do Superman.
Todas as culturas dispõem de uma iconografia própria. Personagens e figuras reconhecíveis por qualquer indivíduo que delas faça parte. Ou até mesmo por quem lhes é estranho. Em qualquer dos casos, esses ícones, quais monstros sagrados, tendem a ser reverenciados e, portanto, são frequentemente vistos como intocáveis.
Poucas culturas conseguirão todavia globalizar as suas iconografias como a norte-americana. Lembro-me de ter lido algures que a principal exportação dos EUA são os sonhos. Começando, obviamente, pelo tão incensado sonho americano que, apesar de já ter conhecido melhores dias, nem por isso deixou de ser menos apetecível.
Nenhuma outra personagem melhor o metaforiza do que o Superman. Afinal, estamos a falar de um refugiado vindo das estrelas que encontrou guarida em terras do Tio Sam, tornando-se, a par dele, um dos símbolos maiores dos EUA.
No fundo, o Superman representa o que os EUA deveriam ser enquanto nação: poderosa, mas justa e compassiva. Mesmo dispondo dos meios para controlar o mundo, o herói escolhe não o fazer. E todos gostamos de acreditar que isso se deve ao facto de ele ter sido criado por um bondoso casal do Kansas, que o dotou de uma fibra moral tão forte como o metal que o cognomina.
Partindo desse pressuposto, Millar examina em Red Son como as coisas poderiam ter sido muito diferentes se a trajetória do herói tivesse sido outra.
Sem subverter o mito, a história coloca-o em perspetiva. De salvador, o Superman passa a tirano bem-intencionado. Com Luthor a assumir-se como libertador da Humanidade. Uma fascinante inversão de papéis que leva o leitor a questionar quem será afinal o verdadeiro vilão. Ou se haverá sequer um (exceto por Brainiac, que não sabe ser outra coisa).
Evocando a estética da antiga propaganda soviética, a arte de Dave Johnson dá um toque especial à trama, na qual todo um conjunto de personagens são devidamente trabalhadas. Mais importante do que tudo isso é, porém, a mensagem que ela encerra. E não me refiro apenas ao subtexto político suscetível de ser interpretado de múltiplas formas consoante a ideologia perfilhada pelo leitor. Se um conservador poderá ver na história uma alegoria para os perigos da estatização da sociedade, aos olhos de um liberal ela poderá ser um manifesto anti-imperialismo.
A essas leituras ideologicamente engajadas sobrepõe-se uma mensagem que lhes é transversal: a de que os indivíduos e as sociedades são definidos pelas escolhas que fazem. Podem nem sempre ser as mais acertadas, mas o importante é que sejam livres. Porque, à falta de um salvador semidivino na vida real,teremos de salvar-nos a (e de) nós próprios. É essa a grande lição de moral a retirar de Red Son.

Símbolo de esperança ou de opressão?