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sexta-feira, 3 de março de 2017

RETROSPETIVA: «HELLBOY II- O EXÉRCITO DOURADO»



 Um elfo vingativo planeia fazer marchar sobre a Terra uma imbatível horda mecânica que tudo dizimará à sua passagem. Apenas Hellboy e seus aliados poderão travar a contagem decrescente para o Dia do Juízo Final. Voltando, assim, o destino da Humanidade a repousar na Mão Direita do Diabo, nesta sequela que, apesar do tom mais ligeiro, não se deixou ofuscar pelo charme gótico do primeiro filme. 

Título original: Hellboy II- The Golden Army
Ano: 2008
País: EUA
Género: Ação/Aventura/Fantasia
Duração: 120 minutos
Produção: Relativity Media e Dark Horse Entertainment
Distribuição: Universal Pictures
Realização: Guillermo del Toro
Argumento: Guillermo del Toro e Mike Mignola
Elenco: Ron Perlman (Hellboy), Selma Blair (Liz Sherman), Doug Jones (Abe Sapien), John Alexander/James Dodd (Johann Krauss), Luke Goss (Príncipe Nuada), Anna Walton (Princesa Nuala), Jeffrey Tambor (Diretor Manning), John Hurt (Professor Trevor Bruttenholm), Brian Steele (Mr. Wink) e Roy Dotrice (Rei Balor)
Orçamento: 85 milhões de dólares
Receitas: 160,4 milhões de dólares

Hellboy e Liz Sherman vivem nova aventura no cinema.
Desenvolvimento: Decorrido apenas um mês sobre a chegada de Hellboy aos cinemas de todo o mundo civilizado, a Revolution Studios anunciou o lançamento de um segundo filme baseado na criação suprema de Mike Mignola*. Porque em equipa ganhadora não se mexe, Guillermo del Toro voltaria a sentar-se na cadeira de realizador, Ron Perlman repetiria o papel principal e era quase certa a continuidade do restante elenco secundário.
Tendo em vista a produção de uma trilogia, os produtores avançaram 2006 como data provisória para a estreia do segundo capítulo da saga. Tudo parecia correr sobre esferas até que, no princípio do ano em questão, a Revolution Studios deixou meio mundo boquiaberto ao anunciar a sua extinção (retomaria a atividade em 2014), deixando assim órfão o projeto.
Após alguns meses em suspenso, os direitos da obra mudariam de mãos ao serem adquiridos pela Universal Pictures. Garantido o respetivo financiamento e distribuição, a rodagem da película arrancou em abril de 2007 no Reino Unido, transferindo-se, depois, para a Hungria. A estreia, essa, ficou agendada para o verão do ano seguinte.
Guillermo del Toro explorou, nesse ínterim, diversos conceitos a serem introduzidos na sequela na qual participaria na dupla condição de realizador e coargumentista. Entre as muitas ideias consideradas, incluía-se a recriação das versões clássicas de Drácula, Lobisomem e Frankenstein. Sempre em articulação com Mike Mignola, o cineasta mexicano ensaiou também uma adaptação de Almost Colossus, uma das mais aclamadas sagas de Hellboy.

Guillermo del Toro (esq.) e Mike Mignola:
obreiros de uma sequela bem-sucedida.
Ambos chegariam, porém, à conclusão de que seria mais fácil o desenvolvimento de uma história inédita baseada no folclore de diferentes culturas. Del Toro trabalhava por esses dias no enredo de O Labirinto do Fauno (filme que também dirigiu e que lhe valeu vários prémios, incluindo três Óscares em outros tantos segmentos técnicos). Já as histórias de Mike Mignola eram cada vez mais inspiradas em elementos mitológicos. Tratou-se, por conseguinte, de juntar o útil ao agradável.
Definido o foco da trama, Mignola e del Toro meteram mãos à obra e, em poucas semanas, apresentaram um primeiro rascunho da mesma aos mandachuvas da Universal. Ao que consta, a história original seria, no essencial, idêntica àquela que foi mostrada no grande ecrã. Consistindo a principal diferença na substituição dos quatro titãs elementais (Água, Terra, Ar e Fogo) inicialmente apresentados pelo infame Exército Dourado que subtitularia a sequela
De acordo com Mike Mignola, por contraponto ao anterior, o tema deste segundo filme de Hellboy não remete para cientistas loucos e máquinas diabólicas ao serviço dos Nazis. Mas sim para lendas e fábulas procedentes, essencialmente, do folclore celta e germânico. Trazendo assim de volta um cortejo de seres sobrenaturais esquecidos pelo mundo moderno onde a ciência e a tecnologia são endeusadas sobre todas as coisas.
Após uma passagem por Londres, as filmagens de Hellboy II prosseguiram em junho de 2007 nos recém-inaugurados Korda Studios, nos arredores de Budapeste ( a capital húngara). Foi, aliás, a primeira produção a ser rodada nesse gigantesco complexo cinemático. Cabendo, portanto, ao staff capitaneado por del Toro as honras de estreia daquela que é uma verdadeira fábrica da fantasia no coração do Velho Continente.
Concluídas as filmagens em dezembro de 2007, Hellboy II chegaria a mais de 3000 cinemas nos EUA e no Canadá a 11 de julho do ano seguinte. Arrebatando, logo no primeiro fim de semana em cartaz, o primeiro lugar do box office ao arrecadar 36 milhões de dólares em receitas de bilheteira. A partir daí, foi sempre a somar até amealhar uns impressionantes 160, 4 milhões de dólares.
De tão lucrativa, seria previsível que a franquia continuasse a prosperar com o lançamento de uma terceira película. Enquanto os fãs ardiam de excitação pelo epílogo de uma trilogia que, à partida, teria tudo para ser memorável, o fluir do tempo cobriu o projeto com uma borrasca de incerteza.
Com efeito, após sucessivos adiamentos, o próprio Guillermo del Toro anunciou no mês passado, via Twitter, que os planos para a produção de Hellboy III foram definitivamente abandonados. Permanecendo, contudo, por esclarecer as verdadeiras razões que estiveram na origem desta, ainda assim, surpreendente decisão. Que, um pouco por todo o mundo, terá certamente deixado inconsoláveis muitos fãs do demoníaco herói dado a conhecer ao mundo por Mike Mignola em 1993.

Doug Jones (esq.) e Ron Perlman
numa ação promocional de Hellboy II.

*Perfil disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2012/06/eternos-mike-mignola-1960.html

Enredo: No Natal de 1955, o pequeno Hellboy, então com apenas 11 anos de idade, ouve fascinado a história que, ao deitar, lhe é contada pelo seu pai adotivo, o Professor Trevor Bruttenholm.
Muito tempo atrás, uma horrenda guerra opôs os homens aos seres mágicos que com eles dividiam o mundo. Motivado pela ganância humana, o conflito resultou na capitulação das forças que arregimentavam fadas, elfos, duendes e outras criaturas sobrenaturais que ainda hoje povoam o folclore pagão de diversas culturas.
Quando tudo parecia perdido para os seres mágicos, o ferreiro-mor dos elfos apresentou-se diante do Rei Balor e ofereceu-se para construir um exército mecânico indestrutível. Encorajado pelo orgulhoso Príncipe Nuada, um dos seus filhos gémeos, o velho monarca deu a sua bênção ao projeto bélico que permitiria alterar o curso dos acontecimentos a favor do seu povo.
Marchando imparável sobre a Terra. o Exército Dourado às ordens do Rei Balor rapidamente desbaratou as hostes humanas. Sem fazer prisioneiros, a horda mecânica, controlada por uma coroa de ouro mágica que adornava a cabeça do soberano, deixava atrás de si um rasto de morte e destruição.
Perante tamanha carnificina, Balor foi tomado pela culpa e resolveu travá-la. Propôs então uma trégua aos seus depauperados inimigos, a qual eles de muito bom grado aceitaram.
Para selar a paz entre as duas espécies desavindas, aos humanos foram atribuídas as cidades e aos seres mágicos as florestas. Ficando, assim, uns e outros proibidos de invadirem os domínios alheios, sob pena de nova guerra. 
Quanto ao Exército Dourado, foi confinado em local secreto e a coroa mágica que o controlava partida em três pedaços pelo Rei Balor. Que depois entregou um deles à Humanidade e os restantes dois a cada um dos seus filhos, o Príncipe Nuada e a Princesa Nuala. 
Discordando da decisão paterna, Nuada rejeitou o fragmento da coroa que lhe era destinado e partiu para um exílio autoimposto. Deixando, todavia, a promessa de regressar quando o seu povo mais precisasse do seu auxílio.

O Rei Balor e os seus dois filhos,
 o Príncipe Nuada e a Princesa Nuala.
De volta ao presente, a Casa de Leilões Blackwood, em Nova Iorque, é tomada de assalto pelo Príncipe Nuada e por Mr. Wink, um gigantesco troll que lhe serve de guarda-costas. A parelha rouba o fragmento da coroa mágica pertencente à Humanidade depois de esta ter invadido as florestas habitadas pelos seres mágicos, obrigando-os a procurar refúgio debaixo da terra e violando dessa forma a ancestral trégua estabelecida pelo Rei Balor.
Antes de partir, Nuada liberta uma revoada de Fadas dos Dentes (pequenas criaturas aladas que se alimentam de cálcio e têm preferência pela arcada dentária, justificando assim o nome), matando todas as testemunhas oculares do assalto.
Dado o cariz sobrenatural do ataque, as autoridades acionam secretamente o Departamento de Pesquisa e Defesa Paranormal (DPDP). Destacados para a cena do crime pelo Diretor Manning, Hellboy, Liz Sherman e Abe Sapien dão início à investigação.
Nem tudo são, no entanto, rosas na vida conjugal de Hellboy e Liz. O casal vem atravessando uma fase complicada, muito por culpa da instabilidade emocional de Liz. À boleia disso, Hellboy vem-se insurgindo cada vez mais contra a natureza clandestina do DPDP. Organização tantas vezes responsável pela salvação do mundo, mas obrigada a agir nas sombras devido à bizarra aparência dos seus principais agentes.
Chegados à Casa de Leilões de Blackwood, Hellboy, Liz Sherman e Abe Sapien são atacados pelas ferozes Fadas dos Dentes. Durante a refrega, Hellboy deixa-se cair de uma janela, sendo avistado pela multidão de curiosos que se concentrara nas imediações do edifício. Como se isso não bastasse, a sua aparatosa queda captada e transmitida em tempo real pelas muitas câmaras televisivas presentes no local.Após décadas a operar sigilosamente, a existência do DPDP é revelada em consequência de um "acidente". Em meio ao pandemónio instalado, Abe Sapien descobre que Liz se encontra à espera de um filho de Hellboy. Depois de o fazer jurar segredo, a jovem confidencia a Abe a sua intenção de dar à luz o bebé, embora consciente dos perigos que daí advirão.
Agastada com a imprudência de Hellboy, a cúpula do DPDP em Washington retira-lhe o comando da equipa de campo e confia-o a Johann Krauss, um fantasma ectoplásmico de origem germânica e com talentos mediúnicos.

A elite do DPDP em ação.
Entrementes, algures nos subterrâneos nova-iorquinos onde habita boa parte dos seres mágicos expulsos das florestas devido ao avanço da civilização humana, o Príncipe Nuada assassina o próprio pai para se apoderar do segundo fragmento da coroa mágica que permite controlar o Exército Dourado. Contudo, a Princesa Nuala, sua irmã gémea, consegue escapar levando consigo o terceiro e último pedaço da coroa.
Agora sob o comando de Krauss, Hellboy e Abe Sapien seguem a pista das Fadas dos Dentes até um mercado subterrâneo de trolls situado debaixo da Ponte do Brooklyn. Enquanto o trio explora o local em busca de mais informação, Abe esbarra acidentalmente com a Princesa Nuala. perdendo-se de amores por ela. Os dois visitam em seguida uma loja de mapas onde um estranho ser chamado Cabeça-de-Catedral lhes fornece um com a localização do Exército Dourado: a ilha escocesa de Bethmoora.
A alegria da descoberta é, porém interrompida pelo ataque de Mr. Wink e de uma divindade elemental às ordens de Nuada. Encurralados pelas criaturas, Abe Sapien e a Princesa Nuala são salvos no último instante por Hellboy. Ato heroico que não evita que uma multidão de humanos o culpe pela destruição causada. Facto que o Príncipe Nuada aproveita para questionar Hellboy sobre o sentido de proteger quem o vê como um monstro.

O monstruoso Mr. Wink.
Para júbilo de Abe Sapien, a Princesa Nuala é acolhida pelo DPDP e levada para o quartel-general da organização. No entanto, graças ao vínculo mágico que une os dois herdeiros do malogrado Rei Balor, Nuada consegue localizar a irmã e parte no seu encalço.
Pressentindo a iminente  chegada de Nuada, Nuala procura destruir o mapa que indica o paradeiro do Exército Dourado e esconde o último fragmento da coroa mágica que o controla entre os livros da biblioteca pessoal de Abe Sapien.
Nuada invade a sede do DPDP, apodera-se do mapa semidestruído mas falha em encontrar o último fragmento da coroa. Quando Hellboy o confronta, o vilão trespassa-o com uma lança mágica, ferindo-o com extrema gravidade.
Apesar dos esforços dos seus colegas de equipa, ninguém consegue arrancar a lança do torso de Hellboy. Nuada propõe então à irmã uma troca: a vida do herói pelo derradeiro pedaço da coroa mágica. Nuala aquiesce e ambos partem para a ilha de Bethmoora a fim de reviver o Exército Dourado.
Socorrendo-se de uma cópia do mapa de Nuala, Krauss, Liz e Abe Sapien viajam também para a ilha, transportando com eles o moribundo Hellboy. Lá encontram um duende que os conduz à presença do Anjo da Morte. A entidade anuncia-lhes poder salvar o herói mas que isso implicará que ele venha um dia a desencadear o Apocalipse. Liz escuta também o inquietante aviso de que será ela, mais do que qualquer outra pessoa no mundo, a sofrer com a concretização dessa funesta profecia. De coração pesado e debulhada em lágrimas, a jovem implora pela vida do amado.
Após extrair a lança do peito de Hellboy, o Anjo da Morte exorta Liz a dar-lhe um motivo para viver. Liz obedece e revela ao herói que ele irá ser pai dentro em breve.
Com Hellboy já plenamente restabelecido, o grupo é conduzido pelo duende até ao local onde Nuada os aguarda com a irmã feita refém, exigindo como moeda de troca o terceiro fragmento da coroa mágica em posse de Abe Sapien. Este entrega-lho e o perverso príncipe dos elfos apressa-se a reviver o Exército Dourado com que pretende varrer a Humanidade da face da Terra. Antes, porém, ordena aos seus soldados mecânicos que matem os agentes do DPDP.
Segue-se um acirrado confronto que serve apenas para confirmar a indestrutibilidade da horda mecânica que, quando danificada, se autorrepara num piscar de olhos. Face à impossibilidade de derrotar o Exército Dourado, Hellboy desafia o Príncipe Nuada para um duelo, cabendo ao vencedor a posse da coroa mágica outrora portada pelo Rei Balor. Embora a contragosto, Nuada é forçado a aceitar o desafio, uma vez que o pai de Hellboy fizera parte da realeza do Inferno.

Hellboy procura, em vão, deter o Exército Dourado.
Hellboy e Nuada digladiam-se num combate mano a mano até o maligno elfo acabar prostrado aos pés do herói.
Apesar de Hellboy lhe poupar a vida, Nuada procura apunhalá-lo, sendo impedido de o fazer pela irmã, que sustém o golpe com o próprio corpo, acabando a soltar o seu último suspiro nos braços de Abe Sapien. Mas assim também sentenciando à morte Nuada devido ao elo mágico que os unia.
Tentado por um breve instante a usar a coroa, Hellboy é prontamente dissuadido por Liz que usa a sua pirocinese para derretê-la, neutralizando para sempre o Exército Dourado.
De regresso à superfície, o grupo é confrontado por um furioso diretor Manning, que os repreende pela imprudência das suas ações. Em resposta, Hellboy e os seus colegas de equipa apresentam a sua demissão do DPDP. 
Ansioso por constituir família ao lado de Liz, Hellboy descobre que esta será, afinal, maior do que o previsto, quando a namorada lhe anuncia estar grávida de gémeos.

Trailer: 




Prémios e nomeações: Indicado para vários galardões, Hellboy II, conquistaria cinco deles: o Saturn Award para Melhor Filme de Terror e quatro Fangoria Chainsaw Awards nas categorias de Melhor Ator (Ron Perlman), Melhor Ator Secundário (Doug Jones), Melhor Caracterização (Mike Elizalde) e Melhor Distribuição (Warner Bros). Recorde-se que, quatro anos antes, o seu antecessor, apesar das várias nomeações recebidas, voltara para casa de mãos a abanar.

Foram quatro os troféus iguais a este
 arrebatados por Hellboy II.

Curiosidades:

*São vários os elementos da mitologia celta conceptualizados em Hellboy II. Segundo a lenda, Nuada terá sido o primeiro soberano do povo Tuatha De Dannan, sendo cognominado de Mão de Prata por ter passado a usar um braço fabricado com esse metal precioso após perder o verdadeiro numa batalha. No filme, o Príncipe Nuada é alcunhado de Lança de Prata e o seu pai, o Rei Balor, possui um braço mecânico;
*Apesar da insistência dos produtores, Christopher Lee (falecido em 2015) manteve-se irredutível na sua decisão de não aceitar desempenhar o papel de Rei Balor;
*Brian Steele, o ator que interpreta o troll chamado Mr. Wink, perdeu mais de 5 Kg durante a rodagem do filme. Consequência do enorme desgaste físico de um papel que implicava a utilização de um fato de 60 Kg e de umas andas de 2,5 metros;
*Mr. Wink foi assim batizado em homenagem ao cão zarolho que Selma Blair tinha à época como mascote;
*Quando envergava os figurinos de Abe Sapien, Chamberlain e Anjo da Morte (os três papéis por ele representados na película), Doug Jones ficava praticamente privado da visão e da audição devido aos implantes prostéticos na cabeça que ajudavam à caracterização;

Um irreconhecível Doug Jones
 em pleno processo de transformação em Abe Sapien.
*No interior de uma redoma de vidro na sede do Departamento de Pesquisa e Defesa Paranormal é possível ver a máscara danificada de Kroenen, o sinistro cientista nazi que foi um dos vilões de Hellboy;
*Tal como já se verificara no primeiro filme, o nome dos atores não consta no genérico de abertura, tampouco nos cartazes promocionais ou nos trailers oficiais;
*A invenção dos óculos especiais usados por Hellboy e companhia para verem o mercado dos trolls é atribuída a Eugene Schufftan. Trata-se de uma homenagem àquele que foi um dos pioneiros no emprego de efeitos visuais no cinema, recorrendo, essencialmente, a espelhos e lentes deformadoras;
*O número 7 é referenciado em diferentes momentos do filme: é dito que o Exército Dourado é composto por um total de 70 x 70 soldados e, na Casa de Leilões, o fragmento da coroa mágica que o comandava surge catalogado como o item nº777, com um valor-base de licitação de 7 milhões de dólares;
*Na versão original do enredo, o Exército Dourado estaria depositado no fundo do mar, o que implicaria gravações subaquáticas. Ideia que seria no entanto descartada por questões orçamentais;
*Não é por acaso que a aparência vampiresca do Príncipe Nuada faz lembrar a de Nomak em Blade 2. Ambos os filmes tiveram Guillermo del Toro como realizador e ambas as personagens foram interpretadas por Luke Goss;
*A repórter televisiva a quem Hellboy concede uma curta entrevista do lado de fora da Casa de Leilões Blackwood após o incidente com as Fadas dos Dentes é na verdade Blake Perlman, filha de Ron Perlman.

Nomak (Blade II) versus Nuada (Hellboy II):
descubram as diferenças.
Veredito: 76%


Para quem está pouco ou mesmo nada familiarizado com o material em que se baseia este filme, mas que, ainda assim, não chorou o dinheiro do bilhete, importa esclarecer que as bandas desenhadas de Hellboy, publicadas em terras do Tio Sam sob a chancela da Dark Horse Comics, não são exatamente um fenómeno de vendas. Não pela sua falta de qualidade, note-se, mas pelo caráter profano das histórias impregnadas de elementos mitológicos e sobrenaturais numa opressiva atmosfera gótica.
Sejamos claros: apesar do seu bom coração e do seu fundo humano, Hellboy é uma criatura infernal. Que, ainda para mais, encerra em si a chave para o Juízo Final. Some-se a isto uma personalidade irreverente e sarcástica, e ele não poderia estar mais afastado do arquétipo super-heroico consagrado por editoras como a Marvel e a DC. 
Quanto muito, Hellboy poderá ser classificado como um anti-herói. Conceito que, como é sabido, goza atualmente de uma crescente popularidade nos diversos segmentos culturais. Personagens com essas características continuam, não obstante, a ter alguma dificuldade em cair nas boas graças do vulgo, mais apreciador de adolescentes picados por aranhas irradiadas ou por extraterrestres que usam os seus poderes semidivinos em prol da comunidade.

Hellboy pelo traço do seu criador.
Assim se explicando os retoques a que foi necessário proceder na essência de Hellboy aquando da sua transposição ao grande ecrã. Cedendo à pressão comercial, Mike Mignola aceitou sacrificar alguma da originalidade do seu conceito, por forma a aproximá-lo um pouco mais dos super-heróis convencionais. Esforço que se torna ainda mais evidente neste segundo filme do que no primeiro. E que foi generosamente recompensado tanto pelos espectadores como pela crítica, que não lhe regateou elogios.
Os quais, diga-se de passagem, foram mais do que merecidos considerando que estamos em presença de um filme 3D (divertido, dinâmico e despretensioso). Daqueles que combinam muito bem com um grande balde de pipocas e com lânguidas matinés caseiras em domingos chuvosos. Mas que nem por isso é tão esquecível como a maioria dos blockbusters estivais.
Além da magnífica caracterização (não foi por acaso que foi nomeado para um Óscar nessa categoria), o filme tem nos efeitos especiais (consideravelmente mais fascinantes do que os do seu antecessor) e na soberba interpretação de Ron Perlman (de tão talhado para o papel, parece a ele predestinado) os seus pontos mais fortes.
O charme de Hellboy II não se limita, porém, ao apelo estético e performativo. Conta também com uma trama menos simplista do que a da película original, embora sem nada de verdadeiramente inovador. Apesar disso, o dilema existencial com que o herói se debate (valerá a pena continuar a defender uma Humanidade que o despreza?) leva a alguns bons momentos de reflexão.
Mestre do cinema fantástico, Guillermo del Toro confirmou os seus créditos ao realizar um filme que dignifica o seu protagonista e cumpre com louvor a sua missão de entreter. 
Só é pena ter ficado incompleta a prometida trilogia. Mas o mundo dá muitas voltas e o que hoje é verdade, amanhã poderá muito bem deixar de o ser. Mesmo não padecendo de um otimismo narcótico, ainda acredito no relançamento de uma franquia que teria todas as condições para se intrometer num campeonato atualmente disputado apenas pelas arquirrivais Marvel e DC, com clara vantagem para a primeira.

Voltará Hellboy a dar um ar sua graça no grande ecrã?
A esperança é a última a morrer...









sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

DO FUNDO DO BAÚ: A MORTE DE ROBIN

 



       Mal-amado pelos leitores, Jason Todd (o segundo Menino Prodígio) foi sentenciado à morte por meio de uma polémica votação telefónica, cujos resultados poderão ter sido falseados.

Título original: Batman: A Death in the Family
Licenciadora: DC
Publicado em: Batman nº426, 427, 428 e 429 (dezembro de 1988 e janeiro de 1989)
Argumento: Jim Starlin
Arte: Jim Aparo e Mike Mignola (capas)

Capa de Batman nº427 com a inconfundível arte de Mike Mignola.


Edição em Português: DC Especial 1 - A Morte de Robin
Data: novembro de 1989
Editora: Abril Jovem
Número de páginas: 132
Formato: formatinho (13,5 x 19cm), colorido e com lombada colada
Na minha coleção desde: 2007

DC Especial 1 compilava o arco de histórias Batman: A Death in the Family.

História de publicação: Cientes da impopularidade de Jason Todd entre os leitores, a DC e Dennis O'Neil, editor à época dos títulos do Homem-Morcego, tomaram a decisão de eliminar a personagem. Restava contudo a dúvida de como isso seria feito. Procurando uma forma inovadora de interagirem com os fãs - e, muito provavelmente, influenciados pelas referências à morte de Jason Todd no futuro alternativo retratado na minissérie Batman, O Cavaleiro das Trevas - a editora teve a ideia de criar dois números telefónicos através dos quais os leitores poderiam votar contra ou a favor da morte do segundo Menino Prodígio. O escrutínio teve início após a publicação do capítulo da história em que Jason Todd e a sua mãe ficavam encurralados num armazém.
       Foram recebidos mais de dez mil telefonemas numa votação renhida, que culminou, porém, com um resultado favorável à morte de Jason Todd (5343 votos contra 5271 em sentido contrário). A DC publicou então, sob grande alarido mediático, o terceiro dos quatro capítulos da saga Batman: A Death in the Family, o qual mostrava o momento que em Batman encontrava o corpo sem vida do seu pupilo.
       Dez anos volvidos sobre estes factos, numa entrevista concedida à Newsarama, Dennis O'Neil declarou: " Ouvi dizer que houve um tipo que programou o seu computador para marcar a cada 90 segundos - e durante oito horas - o número a favor da morte de Jason Todd. A ser verdade, obviamente que isso terá falseado o resultado final da votação.".
      Mesmo carecendo de comprovação, esse rumor reforça as dúvidas quanto à fiabilidade da votação telefónica e, por conseguinte, se a maioria dos leitores desejaria efetivamente o fim de Jason Todd. No entanto, a despeito de toda a polémica que antecedeu e seguiu a sua publicação, Batman: A Death in the Family foi um sucesso de vendas, ocupando a 15ª posição na lista das 25 melhores sagas do Cavaleiro das Trevas publicada no site IGN.
 
Capas das 4 edições onde a saga foi originalmente publicada, acompanhadas de algumas reações mediáticas.
 
Enredo: Jason Todd, o segundo Robin, encontra-se num momento difícil na sua relação com Batman. As suas lutas contra os criminosos são cada vez mais descuidadas e suicidas, como se tudo não passasse de um jogo. À medida que a tensão cresce no seio do Duo Dinâmico, o Homem-Morcego questiona-se se não se terá precipitado ao permitir que o jovem assumisse o lugar deixado vago por Dick Grayson (ver texto anterior). Ciente de que Jason ainda não superara a morte dos pais, Batman procura em vão conversar com ele sobre esse assunto.
      Algum tempo depois, ao passear pela sua antiga vizinhança, Jason encontra  uma velha amiga da sua família desaparecida, que lhe dá fotos e documentos que foram dos seus pais. Ao ler a sua certidão de nascimento, Jason percebe que o nome da sua mãe está rasurado mas a inicial é um "S" e não o "C" de Catherine Todd, a mulher que ele pensava ser sua progenitora.
     O rapaz conclui assim que Catherine era na verdade sua madrasta e resolve investigar a identidade da sua mãe biológica. Na agenda que pertencera ao seu pai ele encontra os nomes de três mulheres, todos começados por "S" e usa o Batcomputador para descobrir o paradeiro atual delas. Todas estão fora dos Estados Unidos, vivendo no Médio Oriente e em África. Jason foge de casa com o propósito de localizar as três candidatas.
 
Antes de ser assassinado pelo Joker, Robin vinha assumindo comportamentos imprudentes.
 
      Entretanto, evadido uma vez mais do Asilo Arkham, o Joker deixa um rasto de morte atrás de si antes de deixar os EUA. Batman descobre que o seu eterno némesis conseguiu um dispositivo nuclear e que tenciona vendê-lo a terroristas. Viaja, por isso,  para o Líbano, país onde Jason já se encontra, seguindo as pistas que o conduziram a Sharmin Rosen, uma agente da Mossad (os serviços secretos de Israel). Questionada por Jason, a mulher nega que algum dia tivesse dado à luz em Gotham City.
      De seguida, Jason vai no encalço da segunda possível mãe. Trata-se de Lady Shiva, uma velha inimiga de Batman, presentemente instalada num campo de treino de terroristas. Ajudado pelo Homem-Morcego, Jason derrota os asseclas da vilã, a quem  administra depois uma dose de soro da verdade. Descobre dessa forma que Shiva também não é a sua mãe.
      Por fim, Jason vai até à Etiópia, onde se encontra com Sheila Haywood, uma enfermeira ao serviço de uma ONG. Ela prova ser a mãe do rapaz e o encontro entre ambos é emocionante. Sem que, porém, Batman e Robin o soubessem , Sheila estava a ser chantageada pelo Joker, pois este último descobrira que ela praticara abortos ilegais em adolescentes de Gotham. Na sequência da morte de uma dessas raparigas, ela fora proibida de exercer medicina em território norte-americano. Munido dessa informação, o Joker forçou Sheila a fornecer-lhe medicamentos contrabandeados, que guarda num armazém secreto. O vilão pretendia substituir o conteúdo dos remédios pelo seu mortífero gás hilariante e dessa forma matar milhares de pessoas.
      Ao descobrir que Jason é Robin, Sheila entrega-o ao Joker. O vilão espanca o garoto com um pé-de-cabra e  prende-o juntamente com a mãe num armazém com uma bomba-relógio. Batman chega tarde demais e depara-se com os cadáveres de ambos.
 
A sequência que mostra o brutal espancamento de Robin com um pé-de-cabra.
 
O momento em que Batman encontra o corpo sem vida de Jason Todd.
 
      Os corpos são enviados para Gotham City para serem sepultados. Apenas Bruce Wayne e três amigos - o mordomo Alfred Pennyworth, o Comissário Gordon e a sua filha paraplégica Barbara -comparecem à cerimónia fúnebre.
     Recriminando-se pela morte do seu pupilo, Batman prossegue sozinho a sua cruzada contra o crime. Mais taciturno do que nunca, recusa a sugestão de Alfred de reatar a sua parceria com Dick Grayson, o primeiro Menino Prodígio, a operar agora como Asa Noturna.
     A milhares de quilómetros dali, no Irão, o Joker é recebido pessoalmente pelo aiatola Khomeini que lhe promete um cargo no governo do seu país. De seguida, o Palhaço do Crime, na sua nova condição de embaixador da República Islâmica, ruma a Nova Iorque, mais precisamente ao edifício-sede das Nações Unidas. Enquanto espera no exterior do edifício, Batman é interpelado pelo Super-Homem, enviado pelo Departamento de Estado norte-americano. O Homem de Aço tenta dissuadir o Cavaleiro das Trevas de atentar contra o Joker, desencadeando assim um incidente diplomático de consequências imprevisíveis. Perante a recusa do amigo em responder às suas perguntas, Batman esmurra o queixo do Super-Homem, quase partindo a mão. Isto no preciso momento em que o Joker chega às Nações Unidas onde é esperado para discursar diante da Assembleia Geral.
     Assumindo a sua identidade de Bruce Wayne e socorrendo-se dos seus contactos ao mais alto nível, Batman consegue estar presente na reunião magna da ONU sob o estatuto de observador não oficial.
     No seu discurso, o Joker proclama que tanto ele como a nação que agora representa têm sido desrespeitados pela comunidade internacional. Dito isto, anuncia a sua intenção de matar todos os delegados e espectadores presentes na Assembleia Geral, lançando uma dose letal do seu gás hilariante. Subitamente, porém, um segurança intervém, desarmando o vilão e inalando todo o gás entretanto libertado. Na verdade trata-se do Super-Homem disfarçado.
 
Joker discursando na ONU como novo embaixador iraniano.
 
     Enquanto o herói kryptoniano voa para fora do edifício em busca de um lugar seguro para libertar o gás, Batman e Joker confrontam-se. O vilão acaba no entanto por conseguir escapar a bordo de um helicóptero enviado pelo seus patronos. Quando percebe que Batman está agarrado ao aparelho, um dos homens de Joker abre fogo com uma metralhadora. Voam balas em todas as direções, atingindo o próprio Palhaço do Crime e o piloto, levando assim à queda desgovernada da aeronave no mar.
      Salvo pelo Super-Homem, Batman exige-lhe que procure o corpo do Joker. Apesar dos esforços do herói de aço, o corpo do vilão não é encontrado. Batman lamenta que tudo entre ele e o seu arqui-inimigo fique sempre por resolver.
 
 
Curiosidades:

*Além de mostrar um Batman mais violento do que nunca, a narrativa aflora diversos temas sociais e políticos que marcavam a atualidade em finais do anos 80 do século passado. Destacam-se entre eles a guerra civil libanesa, o conflito israelo-arábe, a fome na Etiópia e a ameaça à segurança internacional representada por Estados-párias;
* Quando viaja para o Líbano, Bruce Wayne usa um passaporte falso da Irlanda do Norte, território que era sinónimo de terrorismo à época;
* Apesar de, na altura, parecer pouco verosímil um criminoso como o Joker ter acesso a uma ogiva nuclear, o contrabando desse tipo de armas tornou-se uma enorme preocupação nos últimos anos;
* São feitas na história referências explícitas ao escândalo Irão-Contras, que manchou a presidência de Ronald Reagan. Um bom exemplo é a venda de um míssil de cruzeiro por parte do Joker a milícias árabes inimigas de Israel;
* O Joker atribui a sua precária condição financeira às políticas económicas implementadas pela Administração Reagan;
* Em várias passagens da história é sugerido que o Joker conhece a verdadeira identidade de Batman. Quando Jason Todd revela à mãe ser o parceiro do herói, o Palhaço do Crime estava suficientemente próximo para o ouvir.  Mais tarde ele diria a Batman que "até um louco consegue somar 2 mais 2".

Uma história com uma violência pouco comum nos comics.
Repercussões:
 
      Mostrando um Batman prestes a perder o autocontrolo e a morte de uma personagem emblemática da DC decidida por meio de uma votação telefónica, Batman: A Death in the Family tornou-se naturalmente um marco na história dos quadradinhos norte-americanos, com repercussões que se prolongaram no tempo. Com efeito, a morte de Jason Todd assumiu na vida do Homem-Morcego uma importância apenas superada pelo assassínio dos seus pais. Por outro lado, acentuou o caráter pessoal da inimizade entre o herói e o Joker.
      Anos depois, exposto à toxina do medo do Espantalho, o Cavaleiro das Trevas alucina com a morte do seu antigo protegido. Em vez de, como esperado, reagir com tristeza, explode num fúria quase homicida. Julgando estar a espancar o Palhaço do Crime, ele grita incessantemente o nome de Jason Todd.
      Depois do fim trágico do segundo Menino Prodígio, Batman relutou durante muito tempo em admitir novos parceiros juvenis que o coadjuvassem na sua cruzada contra o crime. Para preservar a memória de Jason Todd, conserva numa redoma de vidro colocada na Batcaverna uma réplica do uniforme de Robin usado pelo seu malogrado pupilo. Na base da referida redoma pode ler-se o epitáfio "Um bom soldado".
 



segunda-feira, 18 de junho de 2012

ETERNOS: MIKE MIGNOLA (1960 - ...)

 

      Talentoso e versátil, ao criar o inigualável Hellboy, Mike Mignola conquistou o seu lugar no panteão dos Eternos aos quais os fãs de banda desenhada tanto devem. No entanto, nos primórdios da sua carreira, tinha um objetivo modesto: desenhar monstros.
      Nascido a 16 de setembro de 1960 (51 anos), em Berkeley, Califórnia, Michael Joseph Mignola, cedo desenvolveu uma estranha paixão por monstros, em particular pelos que figuravam nas bandas desenhadas que devorava com sofreguidão na sua infância e adolescência.  A história que mais o marcou, porém, foi "Drácula", esse clássico da literatura de terror da autoria de Bram Stroker. O qual, de resto, influenciaria fortemente as suas narrativas futuras. Depois disso, as suas escolhas literárias recaíram sobre as histórias de fantasmas e contos sobrenaturais, assim como sobre  mitos transmitidos ao longo de gerações em várias culturas do globo.
       Desde criança que Mignola acalentava o desejo de vir um dia a trabalhar na indústria dos comics. Planeava, para esse efeito, mudar-se para Nova Iorque logo que atingisse a maioridade. E, conforme explicou numa entrevista concedida anos depois, já quando o sonho se tornara realidade: "Se ia viver para a Grande Maçã, porque haveria de me dar ao trabalho de tirar a carta de condução?Há lá muitos táxis para te levarem aonde precisas ir."
        O seu objetivo de vida (desenhar monstros) parecia modesto mas Mike perseguiu-o com ardor e tenacidade.  Depois de se formar no California College of Arts and Crafts em 1982, rumou a Nova Iorque. Possuía já alguns contactos na indústria dos comics decorrentes de um pequeno trabalho realizado para a Marvel Comics. As suas primeiras tentativas de arranjar emprego foram relativamente bem sucedidas mas, ao cabo de seis meses, retornou à Califórnia, alimentando a esperança de conseguir um trabalho à distância como freelancer. Tal não se concretizou e Mike rumou novamente à Costa Leste. A sua persistência deu, finalmente, frutos e ele começou a trabalhar regularmente como ilustrador.
A arte de Mignola na minissérie Odisseia Cósmica da DC.
        No ano seguinte, Mike realizou o seu primeiro trabalho como desenhador numa minissérie em quatro volumes intitulada Rocket Racoon, lançada pela Marvel. Seguiram-se várias outras personagens da editora, entre as quais o Incrível Hulk.  Em 1988, Mignola trocou a Marvel pela arquirrival DC.  À época, depois do retumabante sucesso de Watchmen e de The Dark Knight Returns, a DC resolvera investir fortemente em séries e graphic novels vocacionadas para um público adulto. A atmosfera soturna e amiúde violenta dessas produções atraiu Mignola e não demorou muito a que este estabelecesse a sua reputação de artista notável com um estilo excitante. Entre outros trabalhos, Mike desenhou a minissérie Cosmic Odissey (Odisseia Cósmica, publicada no Brasil pela Abril Jovem em 1990) e produziu as capas para a série Batman: A Death in the Family. Um dos seus projetos na DC consistia em escrever uma história onde o Cavaleiro das Trevas enfrentava um vilão fantasmagórico.
Aquando da sua passagem pela DC, Mignola desenhou Batman.

          Até 1993, Mignola  limitara-se a ilustrar o trabalho de outros. Isso mudaria quando nesse mesmo ano foi convidado pela Dark Horse Comics (uma editora conhecida por publicar bandas desenhadas baseadas em filmes de sucesso), a participar num desses projetos. Iniciou-se assim uma parceria duradoura entre Mignola e a Dark Horse, da qual resultaria o nascimento de Hellboy.
          Há muito que Mignola desejava desenvolver uma nova personagem. "A ideia era criar um tipo de monstro com bom coração que trabalhasse como investigador do paranormal", declarou o "pai" de Hellboy quando entrevistado anos atrás. Desse projeto nasceu um demónio musculado, de pele vermelha , cornos e cauda, norteado por um enorme sentido de justiça, decorrente da educação recebida da sua família adotiva. Para criar Hellboy, Mike misturou habilmente elementos retirados das obras de mestres do terror como Edgar Allan Poe e H.P. Lovecraft.
           Nos anos subsequentes, Mike escreveu e ilustrou numerosas edições de Hellboy, revelando gradualmente detalhes sobre o passado da personagem. Este e outros trabalhos valeram-lhe alguns do mais prestigiantes prémios dos quadradinhos, como os  Eisner Awards e  os Harvey Awards.
           Quando, em 2004, a adaptação cinematográfica de Hellboy se tornou realidade, Mike Mignola nem queria acreditar, tantos foram os projetos anteriormente recusados pelos estúdios de Hollywood.  Mike encontrou no realizador Guillermo del Toro um parceiro criativo perfeito visto que ambos comungavam das mesmas ideias para transportar herói demoníaco ao grande ecrã. A este propósito, Mike confidenciou um dia: "Guillermo del Toro deve ser o único tipo que gosta mais do Hellboy do que eu."
           Apesar do filme ter catapultado Hellboy e o seu criador para a ribalta, este manteve-se humilde: "A grande diferença é que agora vivo num mundo em que as pessoas conhecem realmente o Hellboy", declarou dias após a estreia da película nos cinemas norte-americanos.
Hellboy é a obra-prima de Mignola.

     

sexta-feira, 15 de junho de 2012

HERÓIS EM AÇÃO: HELLBOY



       Criação suprema de Mike Mignola, Hellboy é um demónio vindo de outra dimensão cuja Mão Direita do Destino pode libertar um mal inimaginável.

Nome original: Hellboy
Primeira aparição: San Diego Comic-Con Comics nº2  (agosto de 1993)
Criador: Mike Mignola
Licenciadora: Dark Horse Comics
Identidade civil: Anung un Rama
Filiação: Departamento de Pesquisa e Defesa Paranormal (DPDP)
Base de operações: móvel
Poderes e armas: Superforça, sentidos aguçados, resistência sobre-humana, longevidade, fator de cura, vasto conhecimento do sobrenatural e capacidade inata para compreender línguas mágicas são os principais poderes de Hellboy. Aos quais se soma a Mão Direita do Destino: bastante maior do que a esquerda, a sua mão direita é feita de pedra vermelha e pode servir como chave para libertar o demónio Ogdru Jahad, que desencadearia o apocalipse. Também costuma transportar no seu cinto de utilidades ervas mágicas, ferraduras, relíquias sagradas, granadas e uma vasta parafernália de instrumentos. Quase como uma extensão natural do seu corpo, a pistola que lhe foi ofertada pelo antigo super-herói Tocha da Liberdade é a arma de eleição de Hellboy sempre que enfrenta ameaças sobrenaturais.

A estreia de Hellboy em San Diego Comic-Con Comics nº2 (1993).
Biografia: Anung un Rama, o ser que posteriormente se tornaria Hellboy, foi descoberto na noite de 23 de dezembro de 1944 numa ilha da costa escocesa. Convocado à Terra pelo pérfido mago russo Grigori Rasputin, ao serviço dos nazis, o demónio bebé materializou-se a quilómetros de distância, no adro de uma igreja em East Bromwich. Aí foi encontrado por uma equipa de soldados americanos com a missão de investigar o estranho ritual levado a cabo por Rasputin. Entre eles, encontrava-se o Professor Trevor Bruttenholm, do Departamento de Pesquisa e Defesa Paranoramal (DPDP). Bruttenholm batizou o pequeno demónio de Hellboy e levou-o para as instalações do DPDP onde seria treinado em segredo para ser um investigador do paranormal.
                   Em 1952, com apenas oito anos de idade e após uma temporada numa base aérea norte-americana no Novo México, Hellboy ingressou no DPDP. Nesse mesmo ano, foi-lhe atribuído pelas Nações Unidas o estatuto de humano honorário.
                 À medida que os anos passavam, o seu corpo ia envelhecendo mas esse processo não era acompanhado pela sua mente. Com efeito, Hellboy tem a aparência de um homem de meia-idade mas a maturidade emocional e psicológica de um adolescente, o que se traduz numa proverbial irreverência. Interessou-se ao longo dos anos por diversos temas ligados ao Oculto e ao sobrenatural, tais como possessões demoníacas, assombrações, exorcismos, encantamentos e artefactos místicos. Isso permitiu-lhe tornar-se no principal agente de campo do DPDP, viajando pelos quatro cantos do mundo e enfrentado múltiplas ameaças sobrenaturais. A ele juntou-se um lote de criaturas bizarras dotadas de poderes sobre-humanos: Liz Sherman (uma jovem pirocinética); Abe Sapien (um humanoide anfíbio e telepata); Roger (uma enorme homúnculo);  Johann Kraus (o espírito de um médium num fato de contenção); Kate Corrigan (uma professora de folclore da Universidade de Nova Iorque); e o capitão Ben Daimio (um militar das operações especiais com experiência no Oculto).
               Durante uma visita à igreja de East Broomwich (local do seu "nascimento"), Hellboy descobriu que foi concebido há 300 anos por uma bruxa e um demónio. O que prova que ele é, na realidade, meio-humano.

Hellboy: Seed of Destruction , uma das melhores grapich novels do herói demoníaco.

Historial de publicação: Antes de ser publicado pela Dark Horse Comics, Hellboy foi apresentado aos executivos da concorrente Detective Comics (DC). Embora tenham adorado o conceito desenvolvido por Mignola, desagradou-lhes o envolvimento de temáticas relacionadas com o Inferno.
               As primeiras histórias da personagem foram concebidas e desenhadas por Mike Mignola, sendo o argumento da autoria de John Byrne. Entre elas, encontra-se uma história de quatro páginas  a preto e branco, lançada durante a convenção de fãs San Diego Comic-Con em agosto de 1993. Dois anos antes, porém, Hellboy já figurara num panfleto onde era apresentada uma pequena biografia de Mike Mignola.
Audaz e irreverente. Assim é Hellboy.

Curiosidades: De acordo com Mignola, a personalidade de Hellboy foi decalcada da do seu próprio pai, um trabalhador que não raras vezes regressava a casa com mazelas mas que conservava sempre o bom humor.
                O nome "Hellboy" nasceu de uma private joke de Mignola, que achava o nome hilário.
                As aventuras de Hellboy e o estilo artístico de Mignola, foram fortemente influenciados pela arte de Jack Kirby, bem como pela obra de Bram Stroker (o criador de Drácula), o escritor preferido de Mike.

Noutros media: Depois do sucesso do filme Hellboy (vide texto anterior), foi lançada uma sequela em 2008: Hellboy II: The Golden Army. Ambos protagonizados por Ron Perlman e ambos contribuindo para aumentar a visibilidade da personagem junto do grande público.
                           Fora do grande ecrã, Hellboy também já teve direito a dois filmes de animação  (Hellboy Animated: Sword of Storms e Hellboy Animated: Blood and Iron), lançados diretamente no circuito de vídeo e com as vozes dos atores que deram vida às personagens nos filmes referidos acima.
Hellboy ao serviço do DPDP também no cinema.
                 

terça-feira, 12 de junho de 2012

BD CINE APRESENTA: HELLBOY






        Surpreendendo tudo e todos, em 2004 o filme Hellboy catapultou para a ribalta um super-herói pouco ortodoxo e praticamente desconhecido da generalidade do público português.
         Inicia-se aqui um dossiê em três partes sobre a obra-prima de Mike Mignola.

Título original: Hellboy
Ano: 2004
País: EUA
Duração: 122 minutos
Realização: Guillermo del Toro
Argumento: Guillermo del Toro e Peter Briggs
Elenco: Ron Perlman (Hellboy), Rupert Evans (John Myers), Selma Blair (Liz Sherman), Doug Jones (Abe Sapien) e Ladislav Beran (Karl Kroenen).
Orçamento: 66 milhões de dólares
Receitas: 99,3 milhões de dólares

Ron Perlman encarna Hellboy na perfeição.

Sinopse: Em 1944, nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, os Nazis construíram um portal interdimensional na costa escocesa. Com a ajuda do mago russo Rasputin, pretendiam libertar o demónio Ogdru Jahad para que este os ajudasse a derrotar os Aliados. A operação é comandada por Karl Kroenen, um assassino de elite ao serviço de Hitler.
                Uma força-tarefa aliada é enviada para o local a fim de destruir o portal. Rasputin é absorvido durante o processo enquanto Kroenen consegue fugir. No final, os Aliados descobrem, saído do portal, um demónio infantil com a mão direita feita de pedra. O qual é prontamente batizado de Hellboy.
               Seis anos depois, o agente do FBI John Myers é transferido para o Departamento de Pesquisa e Defesa Paranormal (DPDP), onde conhece um Hellboy já adulto, bem como um lote de criaturas bizarras dotadas de poderes sobrenaturais. É o caso de Abe Sapien, um humanoide anfíbio e telepata, e de Liz Sherman, uma jovem com habilidades pirocinéticas.

O sinistro Kroenen.

                Entretanto, Kroenen ressuscita Rasputin nas montanhas da Moldávia e, juntos, libertam um demónio chamado Sammael. Rasputin concede à criatura o poder de reencarnar e de transferir a sua essência, fazendo com que dois dos seus ovos ecludam sempre que uma das duplicatas morre.
                 A capacidade de Sammael para se multiplicar torna-se um problema à medida que Hellboy o mata repetidamente. Abe Sapien é ferido enquanto destrói alguns dos ovos da criatura e Kroenen, cujo corpo mutilado possui algumas partes mecânicas, desliga-se, fingindo-se morto. O seu pretenso cadáver é transportado para o DPDP.

Hellboy enfrenta o demónio Sammael.

                Rasputin materializa-se no DPDP em busca de Hellboy, que acredita ser a chave para um gigantesco cataclismo que destruirá o mundo. Entretanto, uma equipa liderada por Hellboy é enviada para Moscovo onde fora descoberto o túmulo de Rasputin. Na missão participam também John Myers e Liz Sherman. Esta acaba por ter a sua alma drenada pelo sinistro mago russo. A fim de obrigar Hellboy a libertar Ogdru Jahad, Rasputin ameaça não devolver Liz à vida. Hellboy desperta então o seu verdadeiro poder de Anung un Rama, fazendo com que os seus chifres voltem a crescer.
               No entanto, Ogdru Jahad não é libertado porque John Myers relembra Hellboy da sua capacidade de escolher o seu próprio caminho. Retomando a sua forma habitual, Hellboy volta a selar o portal interdimensional e mata Rasputin.Este, porém, fora possuído por um esbirro de Ogdru Jahad. O corpo de Rasputin é destroçado, dele emergindo um enorme monstrengo. Hellboy deixa-se engolir por ele a fim de detonar um cinto de de explosivos no seu bojo.

Liz Sherman, a bela mutante pirocinética por quem Hellboy é apaixonado.


Curiosidades:
* Vin Diesel foi o primeiro ator cogitado para encarnar Hellboy no cinema;
* Mike Mignola, criador de Hellboy, faz um pequeno cameo vestido de cavaleiro numa multidão fantasiada ameaçada por Sammael;
* O argumento do filme é baseado em várias histórias de Hellboy;
* Numa das paredes do seu quarto, Hellboy tem um poster de Ghost, outra personagem sobrenatural da editora Dark Horse;
* Depois de maquilhado, a única parte visível do corpo de Ron Perlman são as suas pálpebras.
Prémios e nomeações: Hellboy foi nomeado para cinco categorias dos Saturn Awards em 2005, incluindo Melhor Maquilhagem (a única em que venceu). A revista Empire colocou-o na 11ª posição na sua lista dos vinte melhores filmes baseados em personagens de banda desenhada.

Abe Sapien, humanoide anfíbio e telepata.

Minha avaliação:  60%  É sempre refrescante ver um filme com um herói pouco convencional como Hellboy. Ron Perlman foi uma escolha acertada para o papel  pois, a par da pose de duro, explora um lado mais humano da personagem, tornando-a irresistível. Infelizmente, o enredo surge por vezes fraturado.Em grande medida devido às cenas narrativas desnecessárias que quebram o ritmo da ação. Outra das pechas deriva da reduzida densidade psicológica das personagens coadjuvantes, embora compensadas pela personalidade cativante do protagonista. Não deixa, contudo, de ser um bom filme baseado no universo dos comics, muitos furos acima de algumas produções da Marvel e da DC.