Numa perturbadora aventura em tons condizentes com o uniforme negro que então usava, o Homem-Aranha vê-se na pele da presa de um caçador obstinado em fazer dele o seu troféu supremo. Levado ao limite pelo seu algoz, o herói aracnídeo terá de superar-se como nunca para sobreviver a tamanha provação.
Título original da saga: Kraven's Last Hunt (também conhecida como Fearful Simmetry)
Publicada originalmente em: Web of Spider-Man nº31, The Amazing Spider-Man nº293, Peter Parker, The Spectacular Spider-Man nº131, Web of Spider-Man nº32, The Amazing Spider-Man nº294 e Peter Parker, The Spectacular Spider-Man nº132 (títulos lançados nos EUA entre outubro e novembro de 1987)
Argumento: J.M. DeMatteis
Arte: Mike Zeck
Licenciadora: Marvel Comics
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| Capa de The Amazing Spider-Man nº294, onde foi publicado o quinto capítulo da saga. |
Edição brasileira
Título: Homem-Aranha - A Última Caçada de Kraven (subintitulada Terrível Simetria)
Data: Maio de 1991
Editora: Abril Jovem (em dezembro de 1991 a mesma editora lançou o volume encadernado da minissérie, a qual voltaria às bancas nesse formato em 2002 e em 2013, com a chancela da Panini e da Salvat, respetivamente)
Categoria: Minissérie em três edições
Número de páginas: 36 por edição
Formato: Americano (17 x 26 cm), colorido, com lombada agrafada
Na minha coleção desde: 1991 (edição encadernada da Abril)
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| A sombra do caçador. |
Histórico de publicação: Em meados da década de 1980, o argumentista J.M. DeMatteis propôs um arco de histórias em que Wonder Man (conhecido entre o público lusófono como Magnum), após um duelo com o seu meio-irmão Grim Reaper (o Ceifador), seria enterrado vivo, emergindo mais tarde do seu túmulo. Tom DeFalco, à data editor-chefe da Marvel, rejeitou a ideia.
Anos depois, numa história de Batman que explorava a hipótese de o Cruzado Encapuzado ser assassinado pelo Joker, DeMatteis recuperou o conceito de um herói a erguer-se da própria sepultura. Na sinopse fornecida aos responsáveis da DC, DeMatteis sustentava que seria essa a cura para a insanidade mental do Palhaço do Crime. O projeto não foi, contudo, aprovado, dadas as suas semelhanças com uma outra história de Batman que estava então a ser desenvolvida: nada mais nada menos do que a aclamada novela gráfica, da autoria de Alan Moore e Brian Bolland, Batman: The Killing Joke (A Piada Mortal).
Não se dando por vencido, DeMatteis introduziu algumas alterações na trama original. Tendo a principal consistido na substituição do Joker pelo Professor Hugo Strange (outro ilustre integrante da vasta e pitoresca galeria de vilões do Cavaleiro das Trevas). Nada que impressionasse, porém, os editores da DC que voltaram a não dar luz verde à ideia.
Inabalável nas suas convicções apesar das consecutivas recusas, DeMatteis voltou a trabalhar a história e apresentou a nova versão à Marvel. Agora com o Homem-Aranha como protagonista e com um novo vilão criado propositadamente para o efeito, o projeto recebeu finalmente o aval por parte dos editores da Casa das Ideias.
Vários elementos importantes foram sendo acrescentados ao enredo, à medida que DeMatteis trabalhava nele. Com Peter Parker e Mary Jane recém-casados, o escritor optou por colocar o enfoque emocional da sua narrativa no casal. Já a ideia de usar Kraven, o Caçador como antagonista surgiu após DeMatteis ter lido o seu prontuário em The Official Handbook of the Marvel Universe (espécie de "quem é quem" da editora).
Tendo Mike Zeck sido o eleito para assumir a arte da história, DeMatteis considerou que seria interessante incluir uma personagem criada por ambos. E, assim, o repulsivo Rattus (Vermin, no original) ganhou um lugar de destaque na saga, cuja publicação integral estava inicialmente prevista para Peter Parker: The Spectacular Spider-Man. Todavia, o editor Jim Salicrup deliberou que a publicação deveria ser transversal a todos os títulos do Escalador de Paredes, argumentando que o impacto da morte do herói seria atenuado se, em simultâneo, houvesse outras histórias suas a serem lançadas.
Enquanto limava as derradeiras arestas da trama, DeMatteis comentou: "Não estou a olhar para além destas seis edições. Esta história não se encaixa na continuidade dos restantes títulos do Homem-Aranha. Na verdade, creio que uma minissérie ou uma edição especial seriam formatos mais apropriados para a sua publicação".
Ainda segundo o autor, a sua intenção era explorar a personalidade do herói aracnídeo e a forma como os outros - em especial os seus inimigos - o veem. DeMatteis explica: "O que Kraven planeia fazer é matar o Homem-Aranha e tomar o seu lugar, para assim provar que consegue ser melhor do que ele. Claro que aquilo em que ele se transforma não é o Homem-Aranha, mas sim a sua perceção dele. Kraven está, pois, longe de imaginar que Peter Parker não se limita a colocar uma máscara para caçar criminosos. O Homem-Aranha não é a sombria e violenta criatura notívaga interpretada pelo seu algoz. Não importa a cor do traje que veste, não importa o que ele faz, Peter Parker será sempre um sujeito com boa índole e um caráter íntegro. Características fundamentais da sua personalidade que o diferenciam muito de Kraven".
Com a versão final do argumento em mãos, Mike Zeck optou por desenhar as seis capas antes de ilustrar a história. De acordo com o próprio, a icónica capa de Web of Spider-Man nº32 (título onde foi publicado originalmente o quarto capítulo da saga intitulado Resurrection) foi a primeira a ser produzida. Todas as outras derivaram dela.
A título de curiosidade, refira-se que, na esteira do enorme sucesso comercial de Kraven's Last Hunt, em 1994 a DC autorizou finalmente a publicação da história apresentada cerca de uma década antes por DeMatteis, na qual o Joker aparentemente executava Batman. Sob o título Going Sane, a narrativa em quatro partes foi apresentada aos leitores da Editora das Lendas nas páginas de Batman: Legends of the Dark Knight nº65- 68.
Anos depois, numa história de Batman que explorava a hipótese de o Cruzado Encapuzado ser assassinado pelo Joker, DeMatteis recuperou o conceito de um herói a erguer-se da própria sepultura. Na sinopse fornecida aos responsáveis da DC, DeMatteis sustentava que seria essa a cura para a insanidade mental do Palhaço do Crime. O projeto não foi, contudo, aprovado, dadas as suas semelhanças com uma outra história de Batman que estava então a ser desenvolvida: nada mais nada menos do que a aclamada novela gráfica, da autoria de Alan Moore e Brian Bolland, Batman: The Killing Joke (A Piada Mortal).
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| J.M. DeMatteis. |
Não se dando por vencido, DeMatteis introduziu algumas alterações na trama original. Tendo a principal consistido na substituição do Joker pelo Professor Hugo Strange (outro ilustre integrante da vasta e pitoresca galeria de vilões do Cavaleiro das Trevas). Nada que impressionasse, porém, os editores da DC que voltaram a não dar luz verde à ideia.
Inabalável nas suas convicções apesar das consecutivas recusas, DeMatteis voltou a trabalhar a história e apresentou a nova versão à Marvel. Agora com o Homem-Aranha como protagonista e com um novo vilão criado propositadamente para o efeito, o projeto recebeu finalmente o aval por parte dos editores da Casa das Ideias.
Vários elementos importantes foram sendo acrescentados ao enredo, à medida que DeMatteis trabalhava nele. Com Peter Parker e Mary Jane recém-casados, o escritor optou por colocar o enfoque emocional da sua narrativa no casal. Já a ideia de usar Kraven, o Caçador como antagonista surgiu após DeMatteis ter lido o seu prontuário em The Official Handbook of the Marvel Universe (espécie de "quem é quem" da editora).
Tendo Mike Zeck sido o eleito para assumir a arte da história, DeMatteis considerou que seria interessante incluir uma personagem criada por ambos. E, assim, o repulsivo Rattus (Vermin, no original) ganhou um lugar de destaque na saga, cuja publicação integral estava inicialmente prevista para Peter Parker: The Spectacular Spider-Man. Todavia, o editor Jim Salicrup deliberou que a publicação deveria ser transversal a todos os títulos do Escalador de Paredes, argumentando que o impacto da morte do herói seria atenuado se, em simultâneo, houvesse outras histórias suas a serem lançadas.
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| Vermin/Rattus foi criado por J.M.DeMatteis e Mike Zeck em 1982. |
Ainda segundo o autor, a sua intenção era explorar a personalidade do herói aracnídeo e a forma como os outros - em especial os seus inimigos - o veem. DeMatteis explica: "O que Kraven planeia fazer é matar o Homem-Aranha e tomar o seu lugar, para assim provar que consegue ser melhor do que ele. Claro que aquilo em que ele se transforma não é o Homem-Aranha, mas sim a sua perceção dele. Kraven está, pois, longe de imaginar que Peter Parker não se limita a colocar uma máscara para caçar criminosos. O Homem-Aranha não é a sombria e violenta criatura notívaga interpretada pelo seu algoz. Não importa a cor do traje que veste, não importa o que ele faz, Peter Parker será sempre um sujeito com boa índole e um caráter íntegro. Características fundamentais da sua personalidade que o diferenciam muito de Kraven".
Com a versão final do argumento em mãos, Mike Zeck optou por desenhar as seis capas antes de ilustrar a história. De acordo com o próprio, a icónica capa de Web of Spider-Man nº32 (título onde foi publicado originalmente o quarto capítulo da saga intitulado Resurrection) foi a primeira a ser produzida. Todas as outras derivaram dela.
| Mike Zeck. |
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| Há um novo Homem-Aranha na cidade. |
Enredo: Houve um tempo em que o mundo admirava a sua pujança física. Uma época debruada a ouro em que a sua coragem inspirava reverência e as suas façanhas eram lendárias. Uma época em que ele era considerado o melhor caçador do mundo. Mas isso foi antes de os ambientalistas e os ativistas dos direitos dos animais arruinarem a sua reputação. Antes de conhecer o Homem-Aranha.
Sergei Kravinov - celebrizado nesse passado glorioso como Kraven, o Caçador - está ciente que a morte se aproxima. Pressente a sua presença nas sombras e quase consegue perscrutar o seu semblante tétrico. Mas ele não está preparado para morrer. Não sem antes recuperar a honra e dignidade perdidas. Não sem antes saciar o seu orgulho e provar a sua superioridade.E isso só será possível derrotando o Homem-Aranha.
Reunido as forças que ainda lhe restam, Kraven empreende, assim, a sua derradeira caçada.
Conquanto seja ainda ágil como uma pantera e forte como um tigre, Kraven sabe que está longe do seu ápice físico de outrora. No entanto, ele acredita que nunca descansará em paz se não vergar o Homem-Aranha. Tomando poções e infusões de ervas trazidas das selvas mais profundas para amplificar os seus sentidos e a sua força, Kraven concebe um macabro plano: enterrar o seu rival com centenas de aranhas.
Recém-regressado da sua lua de mel com Mary Jane e meditando sobre a morte à sua volta durante o funeral de um meliante, o Homem-Aranha sente necessidade de dar um passeio noturno. Absorto em divagações enquanto se balança nas suas teias, o herói é subitamente atacado, drogado e capturado por Kraven.
Quando Kraven se acerca dele, o Homem-Aranha está prestes a perder os sentidos. Contudo, tem ainda tempo de ver a espingarda e o olhar sinistro do seu verdugo enquanto este se prepara para o executar a sangue frio. Balbuciando sobre a restauração da sua honra, Kraven aponta a arma à cabeça do Escalador de Paredes e dispara à queima-roupa, bem no meio dos olhos.
Transportando o corpo inerte da sua presa para o seu covil, Kraven coloca-o num ataúde repleto de aranhas e enterra-o em local desconhecido. Não era, todavia, suficiente para o vilão chacinar o seu rival. Era imperativo demonstrar a sua superioridade sobre ele. Razão pela qual Kraven usurpa a identidade do Escalador de Paredes. Envergando uma cópia do traje do herói, Kraven começa a patrulhar a cidade de Nova Iorque, aplicando o seu distorcido conceito de justiça.
Ao invés do original, este falso Homem-Aranha não se inibe de liquidar alguns dos criminosos que tiveram a infelicidade de lhe cruzarem o caminho.
Kraven, em dado momento, chega a salvar Mary Jane de um grupo de assaltantes, mas ela de imediato percebe estar na presença de um impostor.
Sergei Kravinov - celebrizado nesse passado glorioso como Kraven, o Caçador - está ciente que a morte se aproxima. Pressente a sua presença nas sombras e quase consegue perscrutar o seu semblante tétrico. Mas ele não está preparado para morrer. Não sem antes recuperar a honra e dignidade perdidas. Não sem antes saciar o seu orgulho e provar a sua superioridade.E isso só será possível derrotando o Homem-Aranha.
Reunido as forças que ainda lhe restam, Kraven empreende, assim, a sua derradeira caçada.
Conquanto seja ainda ágil como uma pantera e forte como um tigre, Kraven sabe que está longe do seu ápice físico de outrora. No entanto, ele acredita que nunca descansará em paz se não vergar o Homem-Aranha. Tomando poções e infusões de ervas trazidas das selvas mais profundas para amplificar os seus sentidos e a sua força, Kraven concebe um macabro plano: enterrar o seu rival com centenas de aranhas.
Recém-regressado da sua lua de mel com Mary Jane e meditando sobre a morte à sua volta durante o funeral de um meliante, o Homem-Aranha sente necessidade de dar um passeio noturno. Absorto em divagações enquanto se balança nas suas teias, o herói é subitamente atacado, drogado e capturado por Kraven.
Quando Kraven se acerca dele, o Homem-Aranha está prestes a perder os sentidos. Contudo, tem ainda tempo de ver a espingarda e o olhar sinistro do seu verdugo enquanto este se prepara para o executar a sangue frio. Balbuciando sobre a restauração da sua honra, Kraven aponta a arma à cabeça do Escalador de Paredes e dispara à queima-roupa, bem no meio dos olhos.
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| O momento que antecede a presumível execução do Homem-Aranha. |
Transportando o corpo inerte da sua presa para o seu covil, Kraven coloca-o num ataúde repleto de aranhas e enterra-o em local desconhecido. Não era, todavia, suficiente para o vilão chacinar o seu rival. Era imperativo demonstrar a sua superioridade sobre ele. Razão pela qual Kraven usurpa a identidade do Escalador de Paredes. Envergando uma cópia do traje do herói, Kraven começa a patrulhar a cidade de Nova Iorque, aplicando o seu distorcido conceito de justiça.
Ao invés do original, este falso Homem-Aranha não se inibe de liquidar alguns dos criminosos que tiveram a infelicidade de lhe cruzarem o caminho.
Kraven, em dado momento, chega a salvar Mary Jane de um grupo de assaltantes, mas ela de imediato percebe estar na presença de um impostor.
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| Epitáfio de um herói. |
Entretanto, Rattus - um híbrido de homem e rato - começa a semear o medo nas ruas de Nova Iorque por via dos seus sanguinolentos ataques a transeuntes. Dotada de força e sentidos sobre-humanos, a criatura atrai a atenção do falso Homem-Aranha que lhe move uma feroz perseguição através da rede subterrânea de esgotos. Quando finalmente encontra Rattus, Kraven espanca-o brutalmente, captura-o e leva-o para o seu esconderijo.
Enquanto Kraven se regozija com mais este seu triunfo, o verdadeiro Homem-Aranha desperta do coma e soergue-se da sua sepultura. Tinha, afinal, sido drogado e enterrado vivo pelo seu algoz.
Duas semanas se haviam passado. Desesperado por rever a sua esposa, o herói aracnídeo vai ao encontro de Mary Jane. Após certificar-se de que ela está sã e salva, o Homem-Aranha parte na peugada de Kraven. E não demora a localizar o seu covil.
Recorrendo a toda sorte de sevícias, Kraven subjugara Rattus. O vilão mantivera a criatura em cativeiro porque queria perceber se o Homem-Aranha seria capaz de fazer o mesmo. Mas o Escalador de Paredes nada tinha a provar nem qualquer desejo de infligir dor a Rattus. O monstro, porém, não hesitou em atacar o compassivo herói. Sendo, contudo, prontamente detido por Kraven, que não estava disposto a conceder a quem quer que fosse o privilégio de matar o seu rival. Confuso, Rattus aproveita o ensejo para escapar.
Cego de raiva, o herói aracnídeo ataca Kraven sem dó nem piedade. Este, porém, nem se dá ao trabalho de revidar. Limita-se a encaixar os golpes desferidos pelo seu adversário enquanto sorri. Apesar de tudo, ele vencera. Permitira que a sua presa vivesse quando podia facilmente tê-la matado. Dessa forma provara a si mesmo a sua superioridade relativamente ao rival que o ensombrava.
Cumprido o seu desígnio, Kraven permite que o Homem-Aranha parta no encalço de Rattus. Suicidando-se de seguida.
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| Do ponto de vista de Kraven, a vitória final pertenceu-lhe. |
Vale a pena ler?
Esta é, obviamente, uma pergunta meramente retórica, já que A Última Caçada de Kraven é leitura obrigatória para qualquer fã de BD que se preze - e não apenas para os entusiastas do Escalador de Paredes. A par de Watchmen e de Batman, O Cavaleiro das Trevas, trata-se de uma das melhores histórias aos quadradinhos alguma vez produzidas. Ilustrando todas elas a importância e o imenso potencial criativo da nona arte.
Aquando da sua publicação nos EUA, A Última Caçada de Kraven mereceu os mais rasgados elogios por parte da crítica e dos fãs. Mais recentemente, em 2012, foi eleita pelos leitores de Comic Book Resources como a melhor história de sempre do Homem-Aranha. Mesmo sendo este título discutível, não há dúvidas de que estamos em presença de uma das mais magistrais e memoráveis sagas do aranhiço.
Dirigindo-se, pela sua maturidade narrativa, a um público mais sofisticado, A Última Caçada de Kraven alia a dinâmica dos comics a elementos extraídos de clássicos da literatura. Ao longos das suas páginas, Kraven recita vários excertos do poema The Tyger, da autoria de William Blake. Isto enquanto a arte de Mike Zeck imprime um realismo fotográfico a uma trama que tem na elaborada caracterização psicológica dos seus protagonistas e na superior qualidade dos diálogos os seus principais pontos fortes.
Embora a história seja, toda ela, uma alegoria para o perpétuo conflito entre presas e predadores, adquire susbstrato emocional ao colocar um enfoque especial no neófito casamento de Peter Parker e Mary Jane. Algumas das suas passagens mais intensas exploram, de facto, a forma como MJ lida com o desaparecimento do marido e como reagiria ela à sua hipotética morte em ação. Uma abordagem que não só acrescenta camadas emotivas à trama, como desvela o lado mais humano do herói aracnídeo cujos primeiros pensamentos, quando desperta do coma, são dirigidos à mulher que ama.
Ao brilhantismo da escrita de J.M. DeMatteis, soma-se, pois, o traço soturno de Mike Zeck. Dessa sinergia nasce uma estética lúgubre onde pontifica o simbolismo imagético. Desde o primeiro relance de Kraven na primeira página da saga (envolto em fumo e numa luz escarlate a fazer lembrar o sangue), até ao momento climático em que o Homem-Aranha emerge do seu túmulo, passando pelas sequências tendo como cenário os esgotos subterrâneos (que, de tão densas, o leitor quase lhes consegue sentir o fedor), a arte de Zeck é inebriante do princípio ao fim.
Esta é, obviamente, uma pergunta meramente retórica, já que A Última Caçada de Kraven é leitura obrigatória para qualquer fã de BD que se preze - e não apenas para os entusiastas do Escalador de Paredes. A par de Watchmen e de Batman, O Cavaleiro das Trevas, trata-se de uma das melhores histórias aos quadradinhos alguma vez produzidas. Ilustrando todas elas a importância e o imenso potencial criativo da nona arte.
Aquando da sua publicação nos EUA, A Última Caçada de Kraven mereceu os mais rasgados elogios por parte da crítica e dos fãs. Mais recentemente, em 2012, foi eleita pelos leitores de Comic Book Resources como a melhor história de sempre do Homem-Aranha. Mesmo sendo este título discutível, não há dúvidas de que estamos em presença de uma das mais magistrais e memoráveis sagas do aranhiço.
Dirigindo-se, pela sua maturidade narrativa, a um público mais sofisticado, A Última Caçada de Kraven alia a dinâmica dos comics a elementos extraídos de clássicos da literatura. Ao longos das suas páginas, Kraven recita vários excertos do poema The Tyger, da autoria de William Blake. Isto enquanto a arte de Mike Zeck imprime um realismo fotográfico a uma trama que tem na elaborada caracterização psicológica dos seus protagonistas e na superior qualidade dos diálogos os seus principais pontos fortes.
Embora a história seja, toda ela, uma alegoria para o perpétuo conflito entre presas e predadores, adquire susbstrato emocional ao colocar um enfoque especial no neófito casamento de Peter Parker e Mary Jane. Algumas das suas passagens mais intensas exploram, de facto, a forma como MJ lida com o desaparecimento do marido e como reagiria ela à sua hipotética morte em ação. Uma abordagem que não só acrescenta camadas emotivas à trama, como desvela o lado mais humano do herói aracnídeo cujos primeiros pensamentos, quando desperta do coma, são dirigidos à mulher que ama.
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| Uma imagem que enriqueceu a iconografia da 9ª arte. |
Ao brilhantismo da escrita de J.M. DeMatteis, soma-se, pois, o traço soturno de Mike Zeck. Dessa sinergia nasce uma estética lúgubre onde pontifica o simbolismo imagético. Desde o primeiro relance de Kraven na primeira página da saga (envolto em fumo e numa luz escarlate a fazer lembrar o sangue), até ao momento climático em que o Homem-Aranha emerge do seu túmulo, passando pelas sequências tendo como cenário os esgotos subterrâneos (que, de tão densas, o leitor quase lhes consegue sentir o fedor), a arte de Zeck é inebriante do princípio ao fim.
Mais do uma simples banda desenhada, A Última Caçada de Kraven é uma espécie de recriação contemporânea de mitos ancestrais. A trama, as personagens e o simbolismo são épicos - na aceção homérica do termo. Tornando o produto final capaz de satisfazer o palato do leitor mais exigente.
DeMatteis e Zeck criaram uma fórmula de sucesso que tem sido replicada por diversos autores ao longo dos anos, dando assim origem a alguns sucedâneos que, todavia, não se comparam ao original.
Dito isto, o meu veredito não podia ser outro: Imperdível!
DeMatteis e Zeck criaram uma fórmula de sucesso que tem sido replicada por diversos autores ao longo dos anos, dando assim origem a alguns sucedâneos que, todavia, não se comparam ao original.
Dito isto, o meu veredito não podia ser outro: Imperdível!
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| Os heróis não se abatem. |










