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segunda-feira, 1 de julho de 2019

CLÁSSICOS REVISITADOS: «PARA O HOMEM QUE TEM TUDO»


  No dia do seu aniversário, o Último Filho de Krypton recebe um presente envenenado de um velho inimigo. Preso num transe fatal, Kal-El vive aquele que é o seu mais íntimo desejo. Apenas para descobrir que a fantasia pode ser ainda mais cruel do que a realidade.

Título original: For the Man Who Has Everything...
Editora: Detective Comics (DC)
País: EUA
Autores: Alan Moore (argumento) e Dave Gibbons (arte)
Publicado em: Superman Annual Vol.1 nº11 (agosto de 1985)*
Protagonistas: Super-Homem / Kal-El
Coadjuvantes: Batman, Robin (Jason Todd), Mulher-Maravilha, Mongul, Jor-El, Lyra Ler-Rol, Allura In-Ze, Kara Zor-El, Van-El e Orna Kal-El
Cenários: Fortaleza da Solidão e Krypton (na fantasia do Super-Homem)

*Sucessivamente reeditada ao longo dos anos, em 2006 a história foi selecionada para integrar o volume antológico DC Universe: The Stories of Alan Moore, que compilava alguns dos melhores trabalhos do escritor britânico ao serviço da Editora das Lendas.

Edições em Português 

Sob o título "O Homem que Tinha Tudo", a história foi pela primeira vez apresentada ao público lusófono em maio de 1991, nas páginas de Super Powers nº21, cuja capa era um fac-símile da original. Ainda por terras de Vera Cruz, desde o início deste século vem sendo sucessivamente republicada sob a chancela de diferentes editoras.
A primeira a fazê-lo, logo em 2002, foi a Opera Graphica, numa controversa edição em formato americano mas a preto e branco. Seguiu-se a Panini Comics que, entre 2006 e 2013, a incluiu em três antologias, entre as quais DC 75 anos, coleção lançada no âmbito das comemorações das bodas de diamante da Editora das Lendas e que reunia algumas das suas histórias mais emblemáticas. Por fim, em 2018, a história foi inserta no 63º volume da Coleção DC Comics Graphic Novels, da Eaglemoss.


A edição original (cima) e a controversa republicação
 a preto branco da brasileira Opera Graphica.

Irreverência britânica

Coincidindo com o aumento de popularidade dos super-heróis em terras de Sua Majestade, desde a viragem da década de 1980 que Alan Moore era uma estrela em ascensão na indústria de quadradinhos britânica. Tanto a divisão local da Marvel Comics como a Quality Communications e a Fleetway requisitavam regularmente os seus serviços de argumentista para alguns dos seus principais títulos. Para esta última, por exemplo, Moore escreveu durante essa fase mais de meia centena de histórias publicadas em 2000 A.D., magazine de ficção científica no qual, em 1977, o Juiz Dredd fizera a sua estreia.
Em várias dessas ocasiões, as tramas de Moore haviam sido ilustradas pelo seu compatriota David Gibbons. Ambos faziam uma avaliação deveras positiva dessas colaborações, mas o talento de Gibbons foi o primeiro a chamar a atenção do outro lado do Atlântico. Logo em 1982, a DC Comics, na pessoa de Len Wein (à data, editor e argumentista de Green Lantern) contratou-o para desenhar a série mensal do Gladiador Esmeralda.
No ano seguinte, seria a vez de Moore, novamente por intermédio de Len Wein, ser cooptado para assumir os argumentos de Swamp Thing, cujas vendas vinham afundando a pique. Recebendo carta de alforria para levar a cabo as alterações que julgasse necessárias para reverter a situação, Moore não só fez disparar as vendas da série do Monstro do Pântano como, a par de artistas como Rick Veitch, reinventou a personagem, introduzindo temáticas inéditas nas suas tramas. Ao abordar, de forma experimental, questões sociais e ecológicas, Swamp Thing depressa concitou a atenção do público e da crítica, transformando o que parecia ser um caso perdido na nova coqueluche da Editora das Lendas.
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Alan Moore (esq.) e Dave Gibbons celebrando
 o lançamento de Watchmen,a obra que os imortalizou na história da Nona Arte.
Mesmo durante a fase em que assinava as histórias do Monstro do Pântano, Moore submeteu aos seus editores diversas propostas envolvendo personagens como o Caçador de Marte (consta que seria ele o protagonista original de For the Man Who Has Everything...) e os Desafiadores do Desconhecido (conceito desenvolvido por Jack Kirby após a sua zanga com a Marvel). Propostas essas que, invariavelmente, acabaram rejeitadas dada a circunstância de outros escritores estarem já a desenvolver projetos com as personagens cobiçadas por Moore.
Quando, no início de 1985, o Editor-Executivo e Vice-Presidente da DC, Dick Giordano, aprovou por fim o projeto que viria a ser consubstanciado na ovacionada minissérie Watchmen, Moore e Gibbons (autores da ideia) começaram de pronto a trabalhar na planificação das histórias.
Pouco depois, Julius Schwartz, o então todo-poderoso editor dos títulos do Homem de Aço, sondou Gibbons sobre a sua disponibilidade para desenhar uma história do herói. Gibbons declarou-se disponível, mas quis saber qual o escritor com quem iria trabalhar. Quando Schwartz lhe disse que poderia escolher o seu parceiro criativo, Gibbons imediatamente sugeriu Alan Moore.
Sem delongas, a Dupla Dinâmica da Velha Albion deitou mãos à obra e For the Man Who Has Everything... começou a ganhar forma. Levando em consideração duas importantes mudanças ocorridas na continuidade então estabelecida: 1) Em agosto de 1979, mais de duas décadas após a sua inclusão na mitologia do Super-Homem, Kandor - cidade kryptoniana miniaturizada por Brainiac antes da implosão do planeta- havia finalmente revertido ao tamanho normal, em Superman nº338; 2) Em março de 1983, Jason Todd, um órfão com passado de delinquência juvenil, sucedera a Dick Grayson como Robin, sendo agora ele quem acolitava o Cavaleiro das Trevas.
De referir ainda que os sucessivos êxitos de Moore e Gibbons impeliram a DC a contratar outros escribas britânicos para produzirem histórias de apelo similar. Grant Morrison, Neil Gaiman e Peter Milligan fizeram parte dessa armada britânica que, nos anos imediatos, aportaria na ex-colónia para revolucionar a forma de escrever banda desenhada. E que, no início dos anos 90, constituiriam o núcleo duro de Vertigo, a linha adulta da Editora das Lendas entretanto encerrada.

Enredo

No exterior da Fortaleza da Solidão, algures no Círculo Polar Ártico, a Mulher-Maravilha reúne-se à Dupla Dinâmica. É o aniversário do Super-Homem e os seus amigos trouxeram-lhe presentes especiais. Ao adentrar na estrutura kryptoniana, o trio depara-se, porém, com o anfitrião em estado catatónico e envolvido pelos tentáculos de uma grande planta alienígena presa ao seu peito.
Batman analisa rapidamente a situação e deduz que o presente envenenado terá chegado pelo canal de teletransporte, enviado por um dos muitos mundos agradecidos pela ajuda do Super-Homem, e que ignorava os efeitos nocivos da planta. Nesse instante, Mongul entra em cena e revela ter sido ele o responsável pelo envio da Clemência Negra. Assim se chama a misteriosa planta que, na realidade, é um organismo simbiótico. Uma vez acoplada ao seu hospedeiro, a Clemência Negra consome-lhe a força vital ao mesmo tempo que o infunde num sonho vívido baseado no seu desejo mais íntimo.
Durante a sua breve explanação, e perante a estupefação dos seus interlocutores, Mongul usa um par de gigantescas manoplas para tocar na Clemência Negra sem ser afetado por ela.

Os amigos do Super-Homem deparam-se com uma cena perturbadora
antes de serem surpreendidos por Mongul (baixo).
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Paralelamente, é mostrado o que se desenrola no subconsciente do Homem de Aço: um simples homem de família, Kal-El vive feliz em Krypton, que nunca foi destruído. Casado com a ex-atriz Lyla Ler-Rol e pai de dois filhos, Van e Orna, Kal trabalha no Instituto de Geologia de Kryptonopolis, a capital do planeta e sua cidade natal.
De volta à Fortaleza da Solidão, a Mulher-Maravilha investe sobre Mongul - cujo poder excede o seu - enquanto Batman e Robin procuram desesperadamente libertar o Homem de Aço. Devido a essa interferência, a sua fantasia começa a adquirir tons mais sombrios.
Ao regressar a casa no dia do seu aniversário, Kal-El tem um festa-surpresa à sua espera. Nela estão presentes quase todos os seus entes queridos. Todos menos um: o seu pai, Jor-El.
Depois de as suas previsões catastrofistas acerca da iminente destruição de Krypton se terem revelado infundadas, Jor-El fora expulso do Conselho Científico e caíra em desgraça junto da opinião pública. E ainda mais isolado e amargurado ficara após a morte da sua esposa, Lara (mãe de Kal), vítima de uma moléstia incurável. Nem mesmo o recente falecimento do seu irmão, Zor-El, tinha servido para reconciliar Jor-El com a sua cunhada, Allura, e com a sua sobrinha, Kara.
No dia seguinte, Kal desloca-se ao laboratório do pai e encontra-o reunido com duas eminências pardas de Krypton: Lor-Em, líder de uma seita religiosa autodenominada Espada de Rao, e Dax-Ar, oficial de elevada patente do exército kryptoniano. Os três conspiram com vista à instauração de uma teocracia em Krypton, encabeçada por Lor-Em.

Kal-El não aprova as novas companhias do pai.

Após a saída dos comparsas de Jor-El, Kal tem uma acesa discussão com o pai. Que se insurge contra o que considera ser a deterioração dos valores da sociedade kryptoniana, a braços com a xenofobia e o tráfico de estupefacientes em larga escala. De nada adiantando Kal fazer notar ao pai que a sua associação com extremistas servirá somente para desbaratar o pouco prestígio que ainda lhe resta.
A altercação entre ambos metaforiza, aliás, a polarização da sociedade kryptoniana cujas bases vêm sendo sacudidas pela crescente convulsão política e social. Vive-se um clima de pré-guerra civil e um dos pomos da discórdia é a Zona Fantasma, a prisão extradimensional projetada por Jor-El para acomodar, a título perpétuo, criminosos irrecuperáveis.
Considerada um sistema desumano, a Zona Fantasma enfrentava uma onda de contestação, contribuindo sobremaneira para a impopularidade da Casa de El. Em consequência dessa animosidade para com os seus representantes, Kara Zor-El é brutalmente agredida por um grupo de manifestantes que usam Jax-Ur, um dos mais perigosos prisioneiros da Zona Fantasma, como mártir e símbolo.
Com a prima a lutar pela vida numa cama de hospital, Kal. temendo pela segurança da sua família, decide abandonar Kryptonopolis. Antes de partir, tem ainda tempo para testemunhar as escaramuças entre membros da Espada de Rao e manifestantes anti-Zona Fantasma nas ruas da cidade.
De visita à cratera de Kandor, Kal, cada vez mais consciente de que algo está errado, expressa o seu amor ao filho momentos antes de este se desvanecer como uma miragem nos seus braços. Esta dolorosa revelação coincide com o momento em que Batman consegue, por fim, arrancar a Clemência Negra do torso do Super-Homem. Ato contínuo, a planta atraca-se ao Homem-Morcego, submergindo-o num devaneio que dá forma ao seu mais profundo desejo.
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Kal-El despede-se do filho que nunca teve..
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Batman vive também o seu maior desejo.
Na fantasia de Batman, Thomas Wayne consegue desarmar o assaltante que cortara o caminho à sua família no Beco do Crime naquela fatídica noite em que o pequeno Bruce ficara órfão. Graças ao afeto e orientação dos pais, Bruce leva uma vida normal, chegando mesmo a casar e a ter uma filha.
Entretanto, dá-se o violento despertar do Super-Homem. Enfurecido pelo ataque da Clemência Negra e pela perda da sua família imaginária, ataca selvaticamente Mongul, que estava prestes a matar a Mulher-Maravilha tombada a seus pés.
Enquanto Super-Homem e Mongul se digladiam, destruindo secções inteiras da Fortaleza da Solidão e interferindo com os sismógrafos, Robin enfia as manoplas esquecidas pelo vilão e remove, a custo, a Clemência Negra do peito de Batman.

O violento despertar do Homem de Aço.
Prestes a desferir um golpe fatal no seu oponente, o Homem de Aço distrai-se momentaneamente ao entrever as estátuas dos seus pais kryptonianos. Mongul aproveita o ensejo para contra-atacar com ferocidade, deixando o herói à sua mercê. Antes que possa, no entanto, assestar a estocada final, o vilão é surpreendido pela presença de Robin.
Através de um buraco no teto, o Menino-Prodígio deixa cair a Clemência Negra sobre Mongul. Imediatamente capturado pela planta, o vilão extasia-se com o seu maior sonho: após assassinar o Super-Homem e vários outros heróis, conquista a Terra e, em seguida, todo o Universo.
Com os seus aliados ainda a recomporem-se, o Super-Homem informa-os do seu plano para se desenvencilhar de Mongul. Um plano que consiste em soltar a criatura no âmago de um buraco negro do outro lado da galáxia.
Chegado o momento de desembrulhar os presentes, o Homem de Aço agradece gentilmente a réplica de Kandor fabricada pelas joalheiras da Ilha Paraíso e ofertada pela Mulher-Maravilha. Sem que ninguém se aperceba, o herói voa a supervelocidade para esconder a sua própria réplica da Cidade Engarrafada guardada numa divisão adjacente, poupando assim a amiga ao embaraço.
Batman, por sua vez, pretendia presenteá-lo com uma nova espécie de rosa criada em laboratório e batizada de Krypton. A flor havia sido, porém, destruída durante a refrega com Mongul. Fleumático, o Super-Homem reconhece que talvez tenha sido melhor assim, antes de pedir que alguém prepare café enquanto ele arruma a casa.

Super-Homem usa a sua supervelocidade para esconder a sua réplica de Kandor
antes de receber a oferenda da Princesa Amazona.

Apontamentos 

*Superman Annual nº11 foi o penúltimo fascículo da primeira série desse título icónico do Homem de Aço, publicado de forma interpolada entre 1960 e 1986. Ao contrário do que o título sugere, a série teve periodicidade variável: de quadrimestral em 1961 passou a semestral em 1962 e novamente a anual no ano seguinte;
*Aclamada pelos leitores e pela crítica, em 1986 For the Man Who Has Everything... foi nomeada para o Kirby Award na categoria de Melhor História Individual e ocupa a 4ª posição na lista das cem melhores histórias de todos os tempos elaborada pela revista Wizard;
*Apesar de ser um dos melhores contos do Super-Homem e uma obra representativa da chamada Idade de Bronze (1970-1986), For the Man Who Has Everything... foi desconsiderada na continuidade pós-Crise nas Infinitas Terras. O que não impediu o escritor Geoff Johns de, já este século, recuperar a Clemência Negra para as histórias do Lanterna Verde;
*A par de Reign of the Supermen (O Regresso do Super-Homem, arco de histórias já aqui esmiuçado), For the Man Who Has Everything... alcandorou Mongul a arqui-inimigo do Homem de Aço; um dos poucos a conseguirem bater-se de igual para igual com o kryptoniano. Até então, Mongul (prontuário disponível neste blogue) era apenas mais um vilão intergaláctico com sonhos de conquista;

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Mongul é um dos mais formidáveis inimigos do Super-Homem.
*A história inclui também aquela que, com elevada quota de probabilidade, terá sido a primeira referência explícita à data de aniversário do Homem de Aço. Especula-se que a escolha de 29 de fevereiro terá sido uma brincadeira de Alan Moore para explicar a jovialidade do herói, que apenas celebraria o seu aniversário a cada quatro anos. Certo é que essa data seria consagrada pela DC, por altura das comemorações dos 50 anos do Super-Homem;
*Uma das mais belas e famosas atrizes de Krypton, Lyla Ler-Rol fizera a sua única aparição em Superman nº141 (novembro de 1960). Numa história típica da Idade de Prata (1956-1970), o Homem de Aço, com recurso à viagem no tempo, revisitava o seu planeta natal semanas antes da sua destruição. Tempo suficiente para Kal-El se enamorar e ficar noivo de Lyla. O casamento acabaria, contudo, por não se consumar. Lyla é também uma das várias coadjuvantes do Homem de Aço com as inicias LL;

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Super-Homem e Lyla Ler-Rol no primeiro encontro de ambos.
*Asa Noturna e Pássaro Flamejante (Nightwing e Flamebird no original) são outros dos elementos da Idade de Prata referenciados na trama. Tratam-se das identidades heroicas assumidas, respetivamente, por Super-Homem e Jimmy Olsen aquando das suas regulares visitas à cidade engarrafada de Kandor durante esse período editorial; 
*No seu ensaio Alan Moore´s Writing for Comics (Avatar Press, 2003), o polémico escriba britânico revelou que pretendia incluir a Supergirl na história, mas teve de substituí-la pela Mulher-Maravilha após ter sido informado da morte iminente da Última Prima de Krypton em Crise nas Infinitas Terras;
*O beijo trocado por Super-Homem e Mulher-Maravilha na ponta final da história sugere que, mesmo antes do romance vivido por ambos em Os Novos 52, a sua relação exorbitava a amizade platónica;
*Em 2004, quase vinte anos após a sua primeira publicação, For the Man Who Has Everything... serviu de mote a um episódio homónimo da primeira temporada de Justice League Unlimited, série animada da Liga da Justiça. A despeito das muitas licenças poéticas (como a omissão de Robin e de alguns trechos mais sombrios), Alan Moore, contrariamente ao que vem sendo seu apanágio, aprovou a adaptação. Mais recentemente, em 2016, um episódio da temporada inaugural de Supergirl (For the Girl Who Has Everything) foi também vagamente inspirado na história saída da pena de Moore.
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Kal-El à mercê de Mongul e da Clemência Negra em Justice League Unlimited.
Vale a pena ler?

Um dos melhores contos do Super-Homem alguma vez escritos, For the Man Who Has Everything... é, outrossim, uma obra-prima da 9ª Arte. O facto de ter sido produzida no período pré-Crise nas Infinitas Terras comprova ainda que as boas ideias não estavam esgotadas; eram os autores que tinham perdido o arrojo de outros tempos. Nesse sentido, a pirotecnia verbal de Alan Moore, polemista consagrado que continua a polarizar opiniões, foi uma pedrada no charco em que o Homem de Aço chapinhava há já um bom tempo.
De todas as histórias já escritas do Último Filho de Krypton, esta será, porventura, aquela que melhor aborda o conflito interno que o atormenta. Se o seu planeta natal não tivesse sido destruído e ele não tivesse sido enviado ainda bebé para um lugar aonde nunca iria, a sua vida teria sido totalmente diferente. Não teria assumido o papel de maior campeão do seu mundo adotivo e, por conseguinte, não teria enfrentado tantos e tão poderosos inimigos. Dito de outro modo, sobre os seus ombros não recairia o destino da Humanidade.
Escrita com mestria, a história conta com personagens bem definidas e maravilhosas referências à Idade de Prata, da qual Moore é um confesso nostálgico. Com a arte de Gibbons a torná-la ainda mais impactante ao retratar eficazmente a raiva do protagonista (algo raramente conseguido até então). Uma das sequências mais memoráveis é, precisamente, aquela em que o Super-Homem tenta incinerar Mongul com a sua visão de calor. Não por acaso, é ainda hoje considerada uma das mais intensas na história da banda desenhada.
For the Man Who Has Everything... é também um bom exemplo de como uma equipa criativa competente pode impor um registo adulto a uma história de super-heróis sem diminuir o glamour e a grandeza das personagens.
Com um final surpreendente, desenhos de excelente caracterização e expressionismo, ação e detalhismo em cada quadro, esta é, inquestionavelmente, uma obra capital no vastíssimo repertório do Homem de Aço. E que encerra uma pungente lição de humanismo: até o homem que tem tudo precisa de amigos, porquanto são eles o seu maior tesouro.

A fúria do último escuteiro.




terça-feira, 30 de outubro de 2018

CLÁSSICOS REVISITADOS: «CRISE DE IDENTIDADE»


   O misterioso assassinato da cara-metade de um membro da Liga da Justiça traz à tona um tenebroso segredo que macula a história do grupo. Cientes dos perigos que as suas vidas duplas representam para as pessoas que mais amam, até onde estarão os heróis dispostos a ir para protegê-las?

Título original: Identity Crisis
Licenciadora: Detective Comics (DC)
País:  EUA
Autores: Brad Meltzer (argumento), Rags Morales (ilustrações) e Michael Blair (arte-final)
Data de publicação: Agosto de 2004 a fevereiro de 2005 
Categoria: Minissérie em sete edições mensais
Protagonistas: Aquaman, Átomo, Batman, Canário Negro, Homem-Elástico, Arqueiro Verde, Lanterna Verde (Kyle Rayner), Flash (Wally West), Caçador de Marte, Super-Homem. Mulher-Maravilha e Zatanna
Coadjuvantes: Sue Dibny, Jean Loring, Doutor Meia-Noite, Senhor Incrível, Águia Flamejante, Doutor Luz, Exterminador, Capitão Bumerangue, Calculador, Jack Drake, Nuclear e Lois Lane
Cenários: Torre de Vigilância da Liga da Justiça, Gotham City, Metrópolis, Nova Iorque, Ivy Town, Central City, Opal City e Smallville 


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Um pacto de silêncio
une antigos membros da LJA.

Edições em português 

Seguindo o modelo original, entre setembro de 2005 e março de 2006, a Panini brasileira começou por lançar Crise de Identidade no formato de uma minissérie em sete fascículos. No ano seguinte chegariam em simultâneo às bancas dois encadernados da série - um de capa dura, outro de capa mole. Ainda por Terras Tupiniquins, no mês passado foi a vez de a Eaglemoss reeditar a saga em dois volumes insertos na sua Coleção de Graphic Novels: Sagas Definitivas.
Deste lado do Atlântico, foi sob os auspícios da Levoir que, em 2013, Crise de Identidade teve direito à sua primeira edição em português europeu, com a história a ser dividida em dois volumes de capa dura.

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A minissérie original da Panini (cima)
 e os dois volumes encadernados lançados em Portugal pela Levoir.

Segredos dos bastidores

Ao apresentar uma visão dessacralizadora de alguns dos principais expoentes heroicos da Editora das Lendas, Crise de Identidade decretou em definitivo o fim da inocência no Universo DC. Consequentemente, a saga - depressa alcandorada a clássico da 9ª Arte - não deixou ninguém indiferente e ainda hoje divide opiniões. Entre aqueles que escarnecem o seu pretenso registo sensacionalista e os que aplaudem a humanização dos seus ídolos (pedra-de-toque da Marvel), o debate segue aceso.
Até poucos meses atrás, pouco se sabia porém sobre os bastidores de uma saga com extensas ramificações na cronologia da Editora das Lendas. Em agosto último, por ocasião do 18º aniversário de Crise de Identidade, Valerie D'Orazio, ex-editora-assistente da DC, usou a sua conta pessoal na rede social Twitter para divulgar alguns pormenores sumarentos.
A acreditar no relato de D'Orazio - que esteve diretamente envolvida na conceção da série -, as linhas-mestras de Crise de Identidade foram definidas exclusivamente pelo departamento editorial sem que Brad Meltzer tenha tido voto na matéria.

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Valerie D'Orazio esteve ao serviço
 da DC entre 2000 e 2005.
D'Orazio explica que a ideia consistia em produzir uma história com notas sombrias e violentas, por forma a deixar o Universo DC mais apelativo para uma audiência madura. Segundo ela, o então vice-presidente da DC, Dan DiDio, tinha como intenção declarada "tirar o sorriso dos quadradinhos".
Estas revelações - não desmentidas até ao momento - ilibam Brad Meltzer, vilipendiado ao longo dos anos pelos leitores mais conservadores. Os mesmos que ficaram ultrajados com a cena da violação de Sue Dibny e pelo nível geral de violência presente na narrativa, e que nunca perdoaram a inclusão destas temáticas adultas numa história da Liga da Justiça.

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Brad Meltzer e Rags Morales (baixo) assinaram
 um dos primeiros clássicos bedéfilos deste século.
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D'Orazio explica ainda que a escolha de Sue Dibny para vítima de tão inomináveis crimes decorreu do facto de ela ser pura de coração e acarinhada por todos os membros da Liga. Os editores consideravam, ademais, que o Homem-Elástico era uma piada e que a morte da esposa o deixaria mais soturno.Revelando-se muito crítica relativamente às opções editoriais tomadas, D'Orazio sublinha que o que o que fez a Marvel ser mais bem-sucedida do que a DC antes de Crise de Identidade não foi a tonalidade obscura das suas histórias, mas sim a qualidade destas. E carrega nas tintas ao assumir que, por causa do seu registo violento, Crise de Identidade foi um projeto perturbador do qual não guarda saudades.
Apesar da controvérsia que desencadeou - ou por conta desta - Crise de Identidade foi uma das sagas mais vendáveis de sempre. Em agosto de 2004, o primeiro número da série, com uma circulação superior a 163 mil exemplares, liderou as vendas de quadradinhos nos EUA.
A saga teve também fortes repercussões na continuidade da DC, lançando as sementes para Crise Infinita no ano seguinte e restaurando o estatuto de membro fundador da Liga da Justiça da Mulher-Maravilha, do qual a Princesa Amazona fora expropriada após Crise nas Infinitas Terras.

Preâmbulo

Numa história clássica da Liga da Justiça, dada à estampa em 1979 nos números 166, 167 e 168 de Justice League of America, a Sociedade Secreta de Supervilões capturou alguns dos membros da equipa, trocando de corpos com eles. Graças a este ardil, os vilões apreenderam as identidades secretas dos heróis. Na conclusão do arco, a situação seria revertida depois de Zatanna usar a sua magia para lobotomizar os inimigos da Liga da Justiça, apagando todas as suas memórias relacionadas com o incidente.

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A história clássica da LJA que serviu de mote a Crise de Identidade.
Em reconhecimento pelo meritório trabalho desenvolvido por Sue Dibny na embaixada europeia da Liga da Justiça Internacional, foi-lhe outorgado pelo Capitão Átomo (líder da referida secção) o título de membro honorário da equipa. Mercê desse estatuto - extensível apenas a um punhado de indivíduos - Sue beneficiava de várias prerrogativas, mormente o livre acesso ao quartel-general da Liga e a informação confidencial acerca dos membros e atividades da organização.
Casada com Ralph Dibny, o Homem-Elástico, Sue era muito benquista pelos restantes membros da Liga da Justiça, que tinham nela uma amiga e confidente. Sue seria também protagonista involuntária de um episódio traumático que colocou os heróis perante um excruciante dilema moral  Dividido num primeiro momento, o grupo acabaria por cerrar fileiras em redor de um terrível segredo. Que, como todos os segredos, voltou para assombrá-los.

Enredo

Ao mesmo tempo que o Homem-Elástico participa com Águia Flamejante numa rotineira operação de vigilância, Sue Dibny é assassinada no apartamento do casal, sucumbindo, aparentemente, às graves queimaduras que lhe são infligidas pelo atacante.
Na ressaca deste trágico acontecimento, a comunidade super-heroica - particularmente, a Liga da Justiça da América - mobiliza-se em peso para descobrir a identidade do assassino. Com a lista de suspeitos a ser encabeçada por um velho conhecido: o Doutor Luz.
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Sue Dibny e o Homem-Elástico:
só a morte separou aquele que era um dos casais
 mais felizes dos quadradinhos.
Enquanto os heróis se lançam numa febril caça ao homem, o Arqueiro Verde revela ao Lanterna Verde e ao Flash que certa vez o Doutor Luz, a fim de recuperar a sua arma, havia invadido o Satélite da Liga (antiga base orbital do grupo) e violado Sue quando esta se encontrava sozinha a bordo.
Objetivando garantir que um episódio dessa natureza não mais se repetiria com Sue ou qualquer outro ente querido da Liga, os membros da época, após renhida votação, permitiram que Zatanna conjurasse um feitiço que, de uma assentada, lobotomizou o Doutor Luz e lhe alterou a personalidade, convertendo-o num bufão inofensivo.
Nas entrelinhas do relato feito pelo Arqueiro Verde fica, ademais, implícito que o grupo terá recorrido reiteradas vezes a esse expediente para salvaguardar a segurança dos seus membros e dos que lhes são próximos.
Os heróis localizam finalmente o Doutor Luz mas este, sabendo ter a cabeça a prémio, havia contratado o Exterminador como guarda-costas. Durante a encarniçada refrega que se segue, o vilão recupera a memória do incidente e, enfurecido pela sevícia de que foi vítima, usa os seus poderes para escapar.

Doctor Light (Arthur Light) – This Day In Comics
Doutor Luz, velho inimigo da Liga, torna-se
 o principal suspeito da morte de Sue Dibny.

Questionado diretamente pelo Super-Homem, Flash prefere proteger o inquietante segredo que lhe foi confiado pelo Arqueiro Verde.
Longe dali, em Ivy Town, Ray Palmer (o Átomo) encontra a sua ex-mulher, Jean Loring, pendurada numa porta, amarrada e vendada. Prestes a morrer estrangulada, Jean é salva no último instante pelo ex-marido, mas é incapaz de fornecer uma descrição do agressor.
Dias depois, Lois Lane, cara-metade do Super-Homem, recebe uma ameaça de morte que deixa o casal apreensivo.
Em Gotham City, Jack Drake, pai de Tim Drake (o terceiro Robin), recebe por sua vez uma nota anónima a avisá-lo para a iminência de um atentado contra a sua vida. A nota vem acompanhada com uma arma que Jack usa para se defender quando é atacado pelo Capitão Bumerangue, que havia sido contratado pelo Calculador para matá-lo. Após uma troca de tiros, ambos acabam mortalmente feridos.
Chegado ao local do crime, Robin é confortado por Batman que se apressa a confiscar o bilhete antes que a polícia e a imprensa tomem conhecimento da sua existência.

plano critico funeral de sue dibny plano critico crise de identidade
A comunidade heroica compareceu em peso ao funeral de Sue Dibny.

À medida que a investigação prossegue, Nuclear tem o peito trespassado pela espada do Cavaleiro Brilhante empunhada pelo Ladrão das Sombras, a quem interrogava. Ao atingir a sua massa crítica, o herói atómico explode na atmosfera.
Enquanto a comunidade heroica chora a perda de um dos seus,  o Arqueiro Verde, confrontado pelo Flash, confessa que o método de Zatanna não foi aplicado somente a criminosos. Após a captura do Doutor Luz, Batman abandonara o satélite da Liga mas, por algum motivo, regressou pouco depois, surpreendendo os seus companheiros de equipa a lobotomizar o vilão.
Perante a firme oposição do Homem-Morcego a este ato, aos heróis não restou alternativa senão varrer aquele episódio da mente do seu colega.

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Batman tem a sua memória apagada por Zatanna. 
O mesmo Batman que invade entretanto o esconderijo deserto do Calculador. Apesar da fuga antecipada do vilão, o Cavaleiro das Trevas encontra pistas que lhe permitem deduzir que ele servira de testa de ferro ao verdadeiro mandante do ataque que vitimou Jack Drake.
Realizada pelo Doutor Meia-Noite e pelo Senhor Incrível, da Sociedade da Justiça da América, a autópsia de Sue Dibny conclui ter sido um acidente vascular cerebral a verdadeira causa de morte. Um exame microscópico ao cérebro de Sue deteta a presença de duas minúsculas pegadas. Ficando assim claro que estas pertenciam a alguém com acesso à tecnologia do Átomo, que lhe possibilita reduzir-se ao tamanho subatómico.
Antes que os heróis consigam averiguar se o assassino foi o próprio Átomo ou alguém que se apropriou indevidamente da sua invenção, o pequeno herói faz uma descoberta chocante. Em conversa com a sua ex-mulher, Ray Palmer percebe que, a despeito de essa informação ter sido mantida secreta, Jean está ao corrente da nota anónima enviada a Jack Drake, deduzindo ser ela a assassina de Sue Dibny.
File:Sue Dibny Autopsy.jpg
A autópsia de Sue Dibny descobre pistas
 acerca da verdadeira identidade do seu assassino.
Jean Loring havia encontrado o traje encolhedor do marido e tinha-o vestido enquanto falava ao telefone com Sue Dibny, viajando através dos cabos telefónicos até penetrar no cérebro da sua interlocutora. A presença microscópica de Jean acabaria por induzir um AVC fatal em Sue.
Ao retomar o seu tamanho normal, Jean apercebera-se do que fizera e, para encobrir o seu crime, usara uma pistola de raios para queimar parte do cadáver de Sue.
A morte de Sue fez Jean perceber que os heróis fazem tudo ao seu alcance para proteger as pessoas que mais amam. Simulara, por isso, um atentado contra si mesma com o intuito de atrair Ray Palmer. Porque, no fundo, tudo se resumira a um demencial plano para reconstruir o casamento desfeito de ambos.

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Jean Loring, 
a ex-mulher de Ray Palmer.
Ao longo da sua confissão Jean não evidencia remorsos e afirma não ter tido intenção de matar quem quer que fosse. Declarada mentalmente insana, a ex-mulher de Ray Palmer é internada no Asilo Arkham, sendo mantida sob forte medicação. Átomo, envergonhado pelas ações da mulher que em tempos amara, resolve afastar-se por uns tempos.
Na cena final, Flash mostra-se desconfortável na presença do Batman, o que leva o Cavaleiro das Trevas a suspeitar do comportamento do seu companheiro de equipa. No ar paira a dúvida se Batman se recordará ou não do sucedido com o Doutor Luz e com ele próprio...

Requiem pela inocência.

Apontamentos

*Sue Dibny seria brevemente ressuscitada na saga Blackest Night (A Noite Mais Densa). Após um anel energético ter assumido o controlo do seu cadáver, a saudosa esposa do Homem-Elástico viu-se transformada num dos Lanternas Negros arregimentados por Nekron para disseminar o caos no Universo. Tal como os restantes membros da legião de desmortos, Sue seria destruída pela Tropa Índigo, podendo dessa forma voltar a descansar em paz;
*Dada a circunstância de Sue Dibny ter sido encontrada sem vida e horrivelmente queimada no interior do seu apartamento sem sinais de arrombamento, a lista de suspeitos da sua morte incluía vários criminosos com poderes incandescentes (casos do Doutor Fósforo e Onda Térmica), assim como diversos teleportadores, entre os quais Mestre dos Espelhos e Penumbra;
*Jack Drake ficara a saber da vida dupla do seu filho como escudeiro do Batman pouco tempo antes de ser assassinado;
*Embora o Nuclear original (Ronald Raymond) tenha morrido no decurso da saga para dar lugar a Jason Rusch, a ideia inicial era eliminar Átomo ou o Caçador de Marte. Brad Meltzer teve influência direta na decisão editorial de poupar estas duas personagens ao destino fatídico que lhes fora reservado;

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Nuclear não sobreviveu a Crise de Identidade.
*No início da história são referenciadas outras mortes de membros da Liga da Justiça. A saber: Flash (Barry Allen), Arqueiro Verde, Lanterna Verde (Hal Jordan) e Super-Homem. Curiosamente, todos os defuntos enumerados acabaram por regressar do Além e mantêm-se no ativo;
*Após Crise nas Infinitas Terras, convencionou-se que somente um número muito restrito de pessoas teria conhecimento das verdadeiras identidades dos membros da Liga da Justiça. Conceito que foi, contudo, abandonado em Crise de Identidade, com os heróis não raro a tratarem-se informalmente pelos seus nomes civis;
*Vilões como o Doutor Destino (não confundir com o seu homónimo da Marvel) ou Onda Mental que, com recurso às suas habilidades psíquicas, poderiam facilmente descortinar os alter egos de cada um dos integrantes da Liga da Justiça não conseguiram, aparentemente, fazê-lo. Não porque tal nunca lhes tenha ocorrido, mas porque Zatanna apagou magicamente as suas memórias quando foram bem-sucedidos nessa tarefa. Confirmando, assim, que essa era há muito uma prática consagrada para salvaguardar as identidades e os  entes queridos dos heróis;
*Originalmente centrado nas suas insanáveis divergências políticas, o antagonismo mútuo entre o Arqueiro Verde (defensor de causas conotadas com a extrema-esquerda) e o Gavião Negro (com posições próximas da ultradireita) resultava afinal também das suas opiniões opostas sobre o que deveria ter sido feito ao Doutor Luz após o episódio da violação de Sue Dibny;

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Nunca foi pacífica a relação
 entre o Arqueiro Verde e o Gavião Negro.
*Numa aparente inconsistência narrativa, Guy Gardner - expulso há anos da Tropa Esmeralda, reinventara-se como Guerreiro - participa nas exéquias de Sue Dibny envergando o seu uniforme de Lanterna Verde. É, no entanto, verosímil que, dada a solenidade da ocasião, Guy tenha escolhido aprumar-se com aquela que era a sua farda de gala;
*A consecutivas gerações de leitores lusófonos, Átomo (tradução literal da nomenclatura original) foi apresentado como Eléktron. Assim rebatizado nos anos 1960 pela brasileira EBAL, por forma a diferenciá-lo da sua contraparte da Idade do Ouro, era ainda por essa alcunha que o liliputiano herói atendia nas edições da Panini lançadas em terras de Vera Cruz. Registe-se, a este propósito, que o Átomo original não partilhava com o seu sucessor a capacidade de se miniaturizar;

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Átomo, o Pequeno Polegar da DC
 que os leitores lusófonos conhecem como Eléktron.

Vale a pena ler?

Brad Meltzer é um espécime exótico na fauna de literatos contemporâneos. A despeito de o seu nome ter figurado repetidas vezes na lista de best-sellers do New York Times por conta de obras como The Millionaires e The Book of Fate, este advogado nova-iorquino que cresceu entre o Brooklyn e Miami só se aventurou na literatura graças à sua assolapada paixão pela banda desenhada.
Certa vez Meltzer disse, em entrevista, que podia não saber os nome de todos os estados que compõem a União, mas sabe de cor e salteado o nome de todos os membros da Liga da Justiça, bem como a ordem pela qual entraram ou saíram do grupo. Esse seu conhecimento enciclopédico do Universo DC e de cada uma das engrenagens que movimentam as suas personagens está patente em Crise de Identidade, obra de referência na memorabilia da DC e que lançou um novo olhar sobre alguns dos seus maiores ícones.
Invocando os contos policiais de antanho, Crise de Identidade serve ao leitor um mistério no melhor estilo "quem é o culpado?". De caminho, Meltzer, iconoclasta involuntário,  fornece um nova dimensão aos confrontos entre super-heróis e supervilões que ele cresceu a ler. Mostrando que, mesmo neste mundo de fantasia, não sobra lugar para maniqueísmos absolutos.
A história tem ainda a particularidade de não possuir um protagonista que se sobreponha aos restantes, na medida em que todas as personagens são vitais para o desenrolar da trama. É no entanto concedida uma atenção especial àqueles que, habitualmente, são os membros de segunda linha da Liga da Justiça.
Com efeito, Crise de Identidade explora diversos núcleos do Universo DC, retratados com um realismo quase sem paralelo nas histórias dentro da continuidade principal da editora. Meltzer não se satisfaz em mostrar-nos as relações dos heróis com os seu pares e com os seus entes queridos. Leva-nos também para dentro do mundo dos vilões, dando-lhes personalidades e motivações únicas. Há, de resto, todo um carinho dispensado àquelas personagens habitualmente relegadas para segundo plano, que passam a ser vistas sob um prisma diferente.
Referenciando sempre os romances policiais, a narrativa chega a declarar que apresentar personagens secundárias, fazer com o que o público se identifique com elas para, logo em seguida, matá-las é um chavão literário. Meltzer explora esse e outros clichés do género, mas são as respetivas consequências aquilo que realmente lhe interessa. A morte de Sue Dibny serve, pois, o duplo propósito de esmiuçar as motivações de cada personagem e de pôr à prova a amizade que une os heróis.
Mortes impactantes e revelações surpreendentes aguardam o leitor ao virar de cada página. Sem que Meltzer, em momento algum, nos insulte a inteligência com piruetas rebuscadas, pois cada momento é orquestrado com a precisão de um ourives. Nisso, a importância de Rags Morales é crucial. Morales pode não ter o mais deslumbrante dos traços mas o seu estilo de narrativa visual casa muito bem com a proposta de Meltzer.
O que os autores de Crise de Identidade nos mostram não é uma aventura do Super-Homem, do Batman ou da Mulher-Maravilha, mas um suspense de cortar a respiração que nos revela mais sobre a intimidade de Clark Kent, Bruce Wayne, Diana e tantos outros que abrilhantam o panteão da DC, removendo-os do pedestal e trazendo-os para junto do comum dos mortais. Recomendo.

Sob as máscaras coloridas 
escondem-se homens e mulheres imperfeitos.











sexta-feira, 14 de abril de 2017

CLÁSSICOS REVISITADOS: «SUPERMAN - ENTRE A FOICE E O MARTELO»




  E se, por um capricho do destino, o foguete que transportava o Último Filho de Krypton não se tivesse despenhado nos EUA mas sim no coração da URSS estalinista? Como seria o mundo sob os auspícios de um Homem de Aço arvorado a campeão do proletariado e símbolo supremo do comunismo?
  Eis as empolgantes premissas porfiadas num exercício de imaginação com o cunho de Mark Millar (Guerra Civil, O Velho Logan), e que influenciou também a abordagem de Henry Cavill ao herói em Man of Steel.

Título original: Superman: Red Son
País: EUA
Data de publicação: De junho a agosto de 2003
Categoria: Minissérie mensal em três volumes em formato americano
Licenciadora: Detective Comics (DC)
Autores: Mark Millar (trama) e Dave Johnson (ilustrações)
Protagonistas: Superman e Lex Luthor
Vilões: Brainiac
Coadjuvantes: Batman, Mulher-Maravilha, Lois Lane, Jimmy Olsen, Pyotr Roslov, Perry White, Lana Lazarenko, Amazonas de Themyscira e Tropa dos Lanternas Verdes 
Cenários: Palácio de Inverno do Superman, Themyscira, Batcaverna, Museu do Superman, Zona Fantasma, EUA, URSS e várias geografias da Terra-30 do Multiverso DC



As capas originais da minissérie
cujos créditos artísticos pertencem a Dave Johnson.
Edições em português: Como habitualmente, a primeira versão em língua portuguesa da saga ficou por conta da Panini brasileira que, em 2004, a lançou pela primeira vez em Terras Tupiniquins em formato idêntico ao original. Ainda sob o selo da mesma editora, Superman - Entre a Foice e o Martelo seria, dois anos depois, compilada num volume encadernado.
Titulada Herança Vermelha , a saga seria lançada deste lado do Atlântico em 2014 pela Levoir num volume único.

A compilação da saga
lançada em 2006 pela Panini.

Antecedentes: Segundo rezam as crónicas lavradas pelo próprio, Mark Millar seria ainda pessoa de palmo e meio na sua Escócia natal quando leu a história do Homem de Aço que, décadas depois, serviria de ponto de partida a Red Son.
Tem, portanto, a palavra o autor: «Foi um outro exercício de imaginação que li quando tinha apenas seis anos de idade que me inspirou a escrever Red Son. A história em causa fazia parte de Superman nº300 (edição comemorativa lançada em 1976) e marcou-me profundamente. Enquanto criança criada em plena Guerra Fria, não pude ficar indiferente à respetiva premissa: E se, em vez do Kansas, a nave que transportava o Último Filho de Krypton tivesse amarado em águas internacionais?
Num clima de alta tensão político-militar entre os EUA e a URSS, ambas as superpotências se apressariam a reclamar o bebé, acabando os americanos por se antecipar. Fascinava-me, no entanto, conjeturar o que teria acontecido se os soviéticos tivessem levado a melhor nessa disputa.
Sempre com esse pensamento em mente, à medida que fui crescendo continuei a reunir ideias para a minha própria narrativa. Quando tinha 13 anos, animado por aquela ousadia típica da puberdade, remeti-a à DC, na ingénua esperança de que viesse a ser publicada. Claro que, na melhor das hipóteses, o que escrevi correspondia a um rascunho. Sem mencionar que os meus desenhos eram para lá de toscos. Foi contudo esse meu projeto adolescente a lançar as bases para Red Son.
Em 1992, quando ainda residia na Grã-Bretanha e escrevia títulos como 2000 AD e Crisis para a Fleetway Publications, tinha já definido alguns dos principais eixos narrativos. Por essa altura era já ponto assente que, em vez do Kansas, o foguete que trouxe Kal-El ao nosso planeta teria aterrado numa Unidade de Produção Coletiva no coração da União Soviética governada com mão de ferro por Estaline. Quando adulto, em vez de trabalhar no Daily Planet, o Superman seria jornalista do Pravda (antigo órgão oficial do PCUS).

A fonte de inspiração para Red Son.
«Haveria também uma dramática inversão das circunstâncias geopolíticas das duas superpotências. Nesta realidade divergente, enquanto a URSS prosperava e se afirmava como farol da Humanidade, os EUA enfrentavam a decadência económica e a ameaça de desintegração representada pelos sonhos independentistas da Geórgia e da Luisiana. Uma das cenas mais impactantes mostraria tanques a esmagarem a revolta nas ruas de Nova Orleães, a exemplo do ocorrido na ex-Checoslováquia durante a Primavera de Praga.
Apesar de centrada no Superman, a história contaria com a participação de Batman, Lanterna Verde e outras figuras gradas do Universo DC. Todas elas apresentadas sob ângulos completamente distintos dos habituais. Estava ciente de que se tratava de um exercício de imaginação tão estimulante quanto arriscado. Mas eu estava disposto a assumir os riscos e, por isso, continuei a escrever.
Antes mesmo de saber se a DC me concederia foral para esta abordagem tão pouco ortodoxa à sua personagem de charneira, o meu bom e velho amigo Grant Morrison ajudou-me a definir o desfecho da trama. Uma ideia que, mesmo não sendo totalmente inovadora, apenas posso qualificar de genial (ver Trivialidades).»
A DC acabaria mesmo por dar luz verde à iniciativa, com Red Son a chegar às bancas norte-americanas em 2003. Dois anos depois, ironicamente, de Mark Millar ter apresentado a sua demissão da Editora das Lendas, onde vinha trabalhando desde 1994.
Dave Johnson, artista nascido há 51 anos em terras do Tio Sam e cujo repertório incluía à data títulos como Demon e R.E.B.E.L.S., seria o eleito para desenhar aquela que viria a ser considerada uma das melhores sagas do Homem de Aço produzidas este século e uma obra de referência na memorabilia do herói.

Mark Millar, um provocador nato
cujas fábulas não deixam ninguém indiferente..

Enredo: Em meados da década de 1950, a União Soviética surpreendo o mundo ao revelar a existência do Superman. Um alienígena com poderes semidivinos às ordens de Estaline faz soar as campainhas de alarme nos EUA, e muda o foco da corrida armamentista, em curso desde o início da Guerra Fria, das bombas atómicas para os meta-humanos.
É percetível nas entrelinhas que o despenhamento, duas décadas antes, da nave que transportava o bebé Kal-El em solo ucraniano se terá ficado a dever a um ligeiro desfasamento temporal relativamente à linha cronológica canónica.Ou seja, um par de horas de diferença na rotação da Terra colocou a nave na rota da URSS em vez dos EUA. Já a identidade dos pais adotivos do Último Filho de Krypton é um segredo de Estado muito bem guardado.
Reputado cientista dos Laboratórios S.T.A.R. e uma das mentes mais brilhantes do planeta, Lex Luthor é contratado por um agente da CIA chamado Jimmy Olsen para destruir o novo campeão soviético.
Objetivando a recolha do material genético do Superman, Luthor induz a queda do satélite Sputnik 2 em Metrópolis. Previsivelmente, o desastre é evitado graças à providencial intervenção do herói. Que, no processo, acaba também por travar conhecimento com Lois Lane, a sedutora esposa de Luthor. Apesar da tensão romântica imediatamente instalada entre o casal, ambos resistem à atração mútua devido ao estado civil de Lois.
Invocando razões de segurança nacional, o Governo estadunidense confisca o satélite soviético e Luthor utiliza os vestígios biológicos nele deixados por Superman para fabricar um clone do herói. Algo falha no processo e a duplicata, oficialmente denominada Superman 2, exibe várias deformidades físicas que lhe conferem uma aparência bizarra.

Superman, o campeão do proletariado.
Entretanto, Superman e Mulher-Maravilha, a embaixadora de Themyscira, são apresentados numa festa diplomática. Seduzida pelo garbo e pela nobreza de caráter do Homem de Aço, a Princesa Amazona insinua-se, mas o herói é forçado a abandonar apressadamente o evento após avistar o tenebroso Pyotr Roslov, diretor da não menos tenebrosa NKVD (polícia política antecessora da KGB) e filho ilegítimo de Estaline.
Ressentido com a afeição dispensada pelo pai a um extraterrestre, Pyotr considera que o advento do Superman reconfigurou a estrutura de poder do regime soviético, hipotecando as suas hipóteses de vir a ser o herdeiro designado de Estaline à frente dos destinos daquela que é uma das duas nações mais poderosas do mundo.
A despeito disso, Pyotr executa pessoalmente um casal de dissidentes que vinham imprimindo e distribuindo panfletos alertando para a potencial ameaça representada pelo Superman. Crime cometido à frente do filho do casal, assim traçando o destino do menino.
Cada vez mais perturbado, Pyotr ordena em segredo o envenenamento do pai com cianeto. Decisão de que se arrepende mas não ao ponto de confessar a autoria moral da conjura que levou à morte de Estaline. Com o povo soviético enlutado e tomado por um sentimento de orfandade, o Superman é convidado pelo Politburo a assumir a liderança do Partido, mas não cede ao apelo do poder.

A relação próxima de Estaline com Superman não agradava a todos.
Semanas depois, a mando de Luthor, o Superman 2 ataca o Homem de Aço. Sem que dele emirja um vencedor inequívoco, o titânico confronto provoca o lançamento acidental de um míssil nuclear sobre o Reino Unido.
Infundido do mesmo heroísmo do original, o Superman 2 imola-se na tentativa de impedir o holocausto no qual pereceriam milhões. Londres acaba, porém, por ser atingida pelas devastadoras ondas de choque da detonação, daí resultando um elevado número de vítimas mortais entre os seus habitantes. Paralelamente a todas as outras repercussões, o incidente tem também como consequência o rompimento das relações diplomáticas entre o Reino Unido e os EUA.
Inconformado com o fracasso do seu projeto, Luthor resolve abandonar os Laboratórios S.T.A.R. e fundar a sua própria empresa, a LuthorCorp. Não sem antes assassinar a sangue frio todos os seus ex-colaboradores.
Negligenciada pelo marido, Lois Lane fantasia com o Superman que, por sua vez, também não a consegue expulsar do pensamento. Tudo muda no entanto quando se propicia o reencontro do herói com Lana Lazarenko, o seu amor de infância.
Ao observar o sofrimento de Lana e dos seus filhos, o Superman conhece pela primeira vez o reverso do paraíso socialista apregoado pela bem oleada máquina propagandística do regime. Circunstância que o leva a reconsiderar a sua decisão de rejeitar a liderança do PCUS, por entender ser seu dever moral fazer uso dos seus poderes para transformar não só a URSS mas o mundo inteiro numa utopia.

Superman toma finalmente consciência
das misérias do regime que simboliza.
Quatro décadas depois, em 1978, o panorama mundial é deveras diferente daquele que todos conhecemos. Com John F. Kennedy na Casa Branca após suceder a Richard Nixon (assassinado em Dallas 15 anos antes), os EUA estão no limiar do colapso social. Cenário contrastante com o da URSS que, graças à liderança do Superman, vive uma era de inaudita prosperidade económica e vem alargando o seu arco de influência a praticamente todo o globo. De facto, salvo os EUA, apenas o Chile se mantém à margem da utopia socialista fundada pelo Homem de Aço.
No entanto, nem tudo é tão idílico como aparenta. A paz e a prosperidade tiveram como custo a severa restrição das liberdades individuais. Com o Superman transformado num tirano benevolente, os dissidentes são submetidos a lobotomias que os convertem em autómatos obedientes. Embora governe agora a URSS em conjunto com a Mulher-Maravilha, o herói não a trata como sua consorte e ignora o amor que ela lhe devota.
Enquanto o impulso secessionista de vários estados empurram os EUA para a implosão, Luthor, mais obcecado do que nunca em destruir o Superman, planeia encolher Moscovo. O plano acaba, contudo, por fracassar depois de Brainiac, o seu novo aliado, encolher por engano Estalinegrado. Os dois acabam detidos pelo Superman que, malgrado os seus esforços, é incapaz de reverter o processo de miniaturização de uma das principais cidades soviéticas. Esse seu primeiro revés deixo-o consumido pela culpa. Para aliviá-la, decide engarrafar Estalinegrado para melhor a preservar e para lhe servir de lembrete da sua falibilidade.

Estalinegrado, uma cidade engarrafada.
Recusando-se a atirar a toalha ao chão, Luthor engendra novo plano de destruição do seu némesis. Um que envolve Batman, sob cujo capuz se esconde o órfão que, em criança, viu os seus pais serem assassinados por Pyotr Roslov. E é precisamente com o auxílio deste, agora chefe supremo da KGB, que Batman sequestra a Mulher-Maravilha com o intuito de usá-la como engodo para atrair o Superman para uma armadilha com raios que imitam o sol vermelho do seu planeta natal. Em teoria, isso deixá-lo-ia privado dos seus poderes.
O plano resulta na perfeição, deixando o Superman em agonia. Ele consegue no entanto persuadir a Mulher-Maravilha a libertar-se do laço que a prendia e a destruir as lâmpadas de sol vermelho. Restabelecido, o Superman parte rapidamente no encalço dos seus algozes, indiferente aos profundos ferimentos da sua companheira, infligidos quando ela se esforçava para lhe salvar a vida.
Uma vez capturado pelo Superman, Pyotr Roslov é transformado num dos seus robôs. Temendo sofrer idêntico destino, Batman opta pelo suicídio, assim fornecendo um mártir à causa Anti-Superman. Luthor, por seu lado, coloca em marcha novo plano após a descoberta de uma misteriosa lanterna verde entre os destroços de uma nave espacial acidentada em Roswell, Novo México.
Heróis da Terra-30.
Reprogramado pelo Superman, Brainiac torna-se seu lacaio e é incumbido da construção do seu Palácio de Inverno na Sibéria. Apesar de determinado a vencer o braço de ferro com os EUA, o Homem de Aço vai rejeitando as sugestões feitas por Brainiac para que invada o país inimigo.
Pouco tempo depois, Lex Luthor e Jimmy Olsen são eleitos, respetivamente, Presidente e Vice-Presidente dos EUA. Fazendo uso do seu conhecimento científico, de vasto capital económico e dos seus poderes autocráticos, o novo líder norte-americano honra a sua promessa de restituir a grandeza à nação que vê nele um messias.

Luthor, um presidente aclamado pelo povo.
Tudo isso faz no entanto parte de um plano mais abrangente, que visa instigar o Superman a invadir os EUA. E quando isso acontecer, Luthor conta com duas armas secretas: a Tropa dos Lanternas Verdes e a Zona Fantasma (local fora do alcance da superaudição do Homem de Aço que, acredita-se, a usa para ouvir cada palavra pronunciada no mundo).
Demora pouco a Luthor passar da teoria à prática, confrontando o Superman no seu Palácio de Inverno. Acaba no entanto capturado por Brainiac, que aproveita o ensejo para voltar a instigar o Homem de Aço a invadir os EUA. Obtendo desta feita uma resposta positiva da parte do seu amo.
Com a Costa Leste dos EUA sob ataque do Superman, a Primeira Dama, Lois Lane, viaja até Themyscira, agora governada por uma amarga Mulher-Maravilha, na expectativa de forjar uma aliança com as Amazonas.
Entretanto, a Tropa dos Lanternas Verdes, comandada pelo coronel Hal Jordan, é facilmente desbaratada pelo Superman. Caída a primeira linha defensiva dos EUA, cabe de seguida às Amazonas e à equipa de supervilões reunida secretamente ao longo dos anos por Luthor procurar suster o avanço do Homem de Aço. Mas todos eles acabam igualmente derrotados.
Num ataque coordenado com o do Superman, na Costa Oeste a gigantesca nave espacial de Brainiac pulveriza a frota naval do Pacífico antes de os dois superseres convergirem para a Casa Branca, onde Luthor os saúda com a sua derradeira arma secreta: uma simples nota manuscrita onde se pode ler "Porque não pões simplesmente o mundo inteiro numa garrafa, Superman?".
Magoado pela alusão ao ocorrido com Estalinegrado, o Superman percebe ter ido longe de mais e ordena a Brainiac o cessar das hostilidades. Este, no entanto, nunca estivera realmente sob seu domínio e ataca-o com kryptonita.

A traição de Brainiac.
Desligado remotamente por Luthor, Brainiac cai por terra, deixando desgovernada a sua nave que ameaça colapsar sobre Washington, D.C.
Reunindo as energias que ainda lhe restam, o Superman alça voo e empurra a nave de Brainiac para o espaço, onde ela explode em mil pedaços. Num ato de justiça poética, o mundo é salvo pelo  sacrifício supremo do seu opressor.
Nos meses seguintes ao desaparecimento do seu líder e campeão, a URSS mergulha na anarquia, mas a ordem é rapidamente restabelecida graças à ação dos Batmen (antigos membros da Resistência que adotaram o símbolo do morcego após a morte do Batman).
Luthor incorpora vários dos conceitos de Superman e Brainiac na sua nova doutrina - o Luthorismo - que serve de base à fundação dos Estados Unidos Globais. Sendo esse um momento definidor na História da Humanidade. Graças aos progressos científicos proporcionados por essa era de paz e prosperidade sem precedentes, são encontradas as curas para todas as doenças conhecidas. É também iniciada a colonização do sistema solar sob a égide do Governo Global presidido por Luthor, cuja vida se prolonga por mais de um século.
Quando Luthor morre por fim, o Superman comparece às suas exéquias usando um disfarce em tudo semelhante ao de Clark Kent. Identidade que, recorde-se, ele nunca assumiu nesta dimensão paralela. Ao avistar aquela misteriosa figura entre a multidão, Lois Lane, a viúva de Luthor, tem uma estranha sensação de déjà vu mas não suspeita do que quer que seja.
Afastando-se discretamente, o Superman, cuja imortalidade fica implícita, planeia viver doravante entre os humanos em vez de governá-los.
Milhões de anos no futuro, a Terra está a ser destroçada por violentos maremotos causados pelo Sol, agora transformado num gigante vermelho. Jor-L, um longínquo descendente de Luthor, envia o seu filho recém-nascido, Kal-L, numa viagem para o passado com a missão de prevenir a iminente extinção da Humanidade.
Os painéis finais da história mostram a nave que transporta o bebé a aterrar numa quinta coletiva algures na Ucrânia em 1938 (ano da estreia oficial do Superman na BD), causando dessa forma um paradoxo de predestinação. Consistindo o mesmo em o Homem de Aço ser um descendente de Luthor.

Um mundo virado do avesso.

Apontamentos:

*A propaganda soviética acerca do Superman reproduz, ipsis verbis, o genérico de introdução de The Adventures of Superman. O primeiro folhetim radiofónico baseado no herói, emitido em diferentes formatos no período compreendido entre 1940 e 1951, apresentava-o como "um estranho visitante de outro mundo capaz de mudar o curso de rios e de dobrar barras de aço com as próprias mãos";
*Ao entrar em cena pela primeira vez, Lex Luthor surge entretido com a montagem de um quebra-cabeças da Acme Corporation. Trata-se da empresa fictícia cuja parafernália de acessórios é utilizada nos desenhos animados da Looney Tunes. Que, tal como a DC, é propriedade da Warner Bros;
*O painel do primeiro tomo da saga onde o Superman devolve um balão a um menino americano enquanto segura com a outra mão o globo do Daily Planet rende homenagem à icónica capa de Superman nº1 (1939);


A homenagem feita a Superman nº1 (em cima).
*A miniaturização de Estalinegrado é uma referência à Cidade Engarrafada de Kandor, elemento recorrente nas história do Homem de Aço durante a chamada Idade de Prata dos quadradinhos;
*Entre os vários itens em exposição no Museu do Superman avultam as estátuas dos seus pais biológicos, cuja estética corresponde a uma mescla daquelas que tradicionalmente os representavam na Fortaleza da Solidão com o célebre monumento Operário e Camponesa, esculpido por Vera Mukhina em 1937 para a participação soviética na Exibição de Artes, Ofícios e Ciências patente em Paris nesse mesmo ano. Outra das relíquias a integrar o referido acervo museológico é o  lendário Supermobile. Veículo construído pelo herói numa história datada de 1978 em que ele ficara temporariamente privado dos seus superpoderes, em consequência da explosão de um sol vermelho;

O Supermobile em ação contra Amazo.
*Oliver Queen (persona civil do Arqueiro Verde no universo canónico da DC) e Iris West (interesse amoroso do Flash Barry Allen no mesmo contexto) surgem retratados na história como funcionários do Daily Planet. O próprio Barry Allen é também referenciado por Iris como tendo chegado com duas horas de atraso à festa de despedida de Perry White, o agora aposentado editor do tabloide;
*Identificada como Devilpig, a estátua exposta na Batcaverna foi batizada com o pseudónimo com que o ilustrador Dave Johnson gosta por vezes de assinar as suas obras;
*A arquitetura do Palácio de Inverno do Superman é baseada na da sua Fortaleza da Solidão da Idade da Prata. O acesso às duas estruturas só era possível com recurso a uma gigantesca chave metálica que pesava várias toneladas. No interior do Palácio de Inverno, além dos destroços do Titanic, encontram-se expostas as estátuas de Darkseid e Krypto (o Super-cão), bem como a nave kryptoniana que trouxe Kal-El à Terra;
*No momento em que, no terceiro e último capítulo da história, o Homem de Aço discute com Brainiac a situação política dos EUA, uma cena em fundo mostra um grupo de manifestantes a tombarem um automóvel e um homem a fugir do caos instalado. Trata-se de uma homenagem à capa de Action Comics nº1, a histórica edição que, em junho de 1938, apresentou o Superman ao mundo;
*Pese embora a Ucrânia surja referenciada numa legenda como sendo parte integrante da Rússia em 1938, isso não corresponde à verdade. Antes da formação da União Soviética, em 1922, ambas eram nações independentes e, depois dessa data, adquiriram o estatuto de repúblicas constituintes da nova entidade geopolítica. Trata-se, portanto, de uma gafe histórica do autor;
*Informalmente creditado ao escritor britânico Grant Morrison, o final da saga contém alguns conceitos imaginados por Jerry Siegel em 1934 para explicar a origem do Superman. Nesse primeiro rascunho da história do herói, ele seria oriundo do futuro e teria sido enviado para o passado pelo seu pai, o último homem da Terra, com a missão de prevenir a extinção da Humanidade;
*Henry Cavill citou Red Son como uma das quatro obras capitais do Superman que influenciaram a sua interpretação em Man of Steel (2013);
*O visual e missões do Superman, Mulher-Maravilha e Batman no jogo de vídeo Injustice: Gods Among Us são baseados nas suas contrapartes de Red Son;

Henry Cavill em Man of Steel: um herói marxista?

Vale a pena ler?

Isso lá é coisa que se pergunte? É como perguntar a um cego se ele quer ver ou a um paralítico se ele gostaria de voltar a andar. Esta é, sem sombra de dúvida, uma das melhores histórias do Superman dadas à estampa este século. Fadada a ser um clássico e, por conseguinte, a ocupar lugar de destaque na memorabilia do herói.
Acham que estou a exagerar? Leiam até ao fim a minha análise e retirem as vossas próprias conclusões. Lembrem-se,  no entanto, que, ao cabo de quase 80 anos de aventuras e desventuras do Homem de Aço, não é fácil uma história sua surpreender-nos ao ponto que esta o faz.
Nunca fiz segredo do meu fascínio por dimensões paralelas e realidades alternativas. Quem não perde pitada do que por aqui vou publicando sabe bem quanto aprecio esses estimulantes exercícios de imaginação em que os nossos heróis de sempre são transpostos para contextos diferentes dos habituais. Poucos escritores da atualidade exibem, no entanto, tanta mestria na exploração dessas premissas inovadoras como Mark Millar.
Mesmo os que lhe regateiam elogios terão de reconhecer que lhe sobeja coragem para fazer abordagens arrojadas (e, não raro, polémicas) a personagens consagradas. Circunstância que consolida o seu estatuto de fabulista dos tempos modernos, com uma costela subversiva.
Da pena de Millar vêm saindo sagas memoráveis, algumas das quais já adaptadas ao cinema. Casos, por exemplo, de Guerra Civil e O Velho Logan (ambas da Marvel, ambas já aqui esmiuçadas). Mas antes delas Millar assinou este magistral épico onde o Superman é apresentado como nunca antes o tínhamos visto.

Uma nova ordem mundial sob a égide do Superman.
Todas as culturas dispõem de uma iconografia própria. Personagens e figuras reconhecíveis por qualquer indivíduo que delas faça parte. Ou até mesmo por quem lhes é estranho. Em qualquer dos casos, esses ícones, quais monstros sagrados, tendem a ser reverenciados e, portanto, são frequentemente vistos como intocáveis.
Poucas culturas conseguirão todavia globalizar as suas iconografias como a norte-americana. Lembro-me de ter lido algures que a principal exportação dos EUA são os sonhos. Começando, obviamente, pelo tão incensado sonho americano que, apesar de já ter conhecido melhores dias, nem por isso deixou de ser menos apetecível.
Nenhuma outra personagem melhor o metaforiza do que o Superman. Afinal, estamos a falar de um refugiado vindo das estrelas que encontrou guarida em terras do Tio Sam, tornando-se, a par dele, um dos símbolos maiores dos EUA.
No fundo, o Superman representa o que os EUA deveriam ser enquanto nação: poderosa, mas justa e compassiva. Mesmo dispondo dos meios para controlar o mundo, o herói escolhe não o fazer. E todos gostamos de acreditar que isso se deve ao facto de ele ter sido criado por um bondoso casal do Kansas, que o dotou de uma fibra moral tão forte como o metal que o cognomina.
Partindo desse pressuposto, Millar examina em Red Son como as coisas poderiam ter sido muito diferentes se a trajetória do herói tivesse sido outra.
Sem subverter o mito, a história coloca-o em perspetiva. De salvador, o Superman passa a tirano bem-intencionado. Com Luthor a assumir-se como libertador da Humanidade. Uma fascinante inversão de papéis que leva o leitor a questionar quem será afinal o verdadeiro vilão. Ou se haverá sequer um (exceto por Brainiac, que não sabe ser outra coisa).
Evocando a estética da antiga propaganda soviética, a arte de Dave Johnson dá um toque especial à trama, na qual todo um conjunto de personagens são devidamente trabalhadas. Mais importante do que tudo isso é, porém, a mensagem que ela encerra. E não me refiro apenas ao subtexto político suscetível de ser interpretado de múltiplas formas consoante a ideologia perfilhada pelo leitor. Se um conservador poderá ver na história uma alegoria para os perigos da estatização da sociedade, aos olhos de um liberal ela poderá ser um manifesto anti-imperialismo.
A essas leituras ideologicamente engajadas sobrepõe-se uma mensagem que lhes é transversal: a de que os indivíduos e as sociedades são definidos pelas escolhas que fazem. Podem nem sempre ser as mais acertadas, mas o importante é que sejam livres. Porque, à falta de um salvador semidivino na vida real,teremos de salvar-nos a (e de) nós próprios. É essa a grande lição de moral a retirar de Red Son.

Símbolo de esperança ou de opressão?