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quinta-feira, 15 de agosto de 2019

FÁBRICAS DE MITOS: TIMELY COMICS


  Num tempo de maravilhas e prodígios, lançou as bases do Universo Marvel e a trepidante carreira de Stan Lee. Teve no Capitão América o seu porta-estandarte e, tal como ele, foi revivida para enfrentar os desafios do presente.

Self-made man

Numa tentativa de suster a abrupta queda nas vendas, no início de 2016 a Marvel anunciou o lançamento de uma nova linha de títulos económicos com o selo Timely Comics. Face à possibilidade de adquirirem reedições a preços de saldo, os leitores aplaudiram a iniciativa, indiferentes, porém, ao cariz revivalista da mesma. Tanto assim que somente uma ínfima minoria conhecerá a singular história daquela que foi uma espécie de antepassada neolítica da Casa das Ideias. Uma história que começou a ser gravada na pedra há precisamente 80 anos, e que teve em Martin Goodman, self-made man moldado pelos rigores da Grande Depressão, o seu principal intérprete.
Mas quem era, afinal, o homem, personificação do Sonho Americano, que, a partir do zero, construiu um império editorial que continua a influenciar o imaginário coletivo?
Primogénito de um humildade casal de imigrantes lituanos de origem judaica radicados no Brooklyn, foi nesse pitoresco bairro nova-iorquino que, em 1908, nasceu Moses Goodman - o seu nome de batismo antes de adotar o pseudónimo que o imortalizaria na cultura popular. Após breve passagem pelos bancos da escola (consta que não terá ido além da instrução primária), o pequeno Moe, como era tratado pelos amigos, começou a calejar as mãos para ajudar no sustento dos 16 irmãos que a sua mãe trouxera entretanto ao mundo.
Quando os desvarios de Wall Street reduziram a economia americana a um cemitério de sonhos destruídos, o clã Goodman, como tantas outras famílias subitamente atiradas para a mais aviltante pobreza, teve de deixar a cidade que nunca dorme, em busca de uma vida melhor.
Martin Goodman passou, assim, parte da sua juventude a deambular pelo país e a (sobre)viver em acampamentos de indigentes e vagabundos. Esse forte instinto de sobrevivência ajudá-lo-ia, anos mais tarde, a vingar no mundo dos negócios, onde tantas vezes impera a lei da selva.

Martin Goodman: de miserável a magnata.
No início dos anos 1930, Martin Goodman, recém-regressado a Nova Iorque, foi contratado para o departamento comercial da Eastern Distributing Corp., uma distribuidora de revistas presidida por Louis Silberkleit, futuro fundador da Archie Comics, Após a falência da empresa, oficialmente declarada em outubro de 1932, Martin Goodman angariou o capital necessário para criar a sua própria companhia. Nesse mesmo ano nascia a Western Fiction Publishing.
A primeira aposta de Martin Goodman como editor foi a Western Supernovel Magazine, uma antologia de contos ambientados no Velho Oeste que chegou às bancas em maio de 1933. E que, logo na edição seguinte, teria o seu nome alterado para Complete Western Book Magazine.
À boleia do sucesso desta primeira publicação, rapidamente a Western Fiction Publishing diversificou o seu catálogo. Da ficção científica às histórias de detetives, passando pelas aventuras na selva, nenhum dos géneros mais populares ficou de fora. Entre a caterva de títulos lançados, o mais bem-sucedido foi Marvel Science Stories. Seria ele que, em 1939, emprestaria nome à primeira revista editada pela Timely Comics. Que, provavelmente, nunca teria existido se, dois anos antes, Martin Goodman, regressado da sua lua-de-mel europeia, tivesse, como previsto, embarcado no malsinado Hidenburg.
Recorde-se que o dirigível, de fabrico germânico, se incendiou em pleno ar quando se preparava para pousar num aeródromo de Nova Jérsia, causando a morte a 36 pessoas, entre passageiros e membros da tripulação. Apesar de ter adquirido as respetivas passagens, o casal Goodman acabou, à última hora, por optar pelo avião, evitando desse modo uma viagem que poderia ter sido fatídica.

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O magazine pulp que daria nome
 à primeira publicação da Timely Comics.
Enquanto editor, Martin Goodman ficaria conhecido por duas coisas: replicar os sucessos da concorrência e inundar o mercado com publicações sobre as temáticas mais populares. A sua estratégia comercial era, essencialmente, focada no curto prazo. Em vez de ditar tendências, preferia segui-las. Em vez de correr riscos, preferia jogar pelo seguro.
Martin Goodman também não se preocupava muito com a inovação e, dada a sua imaginação limitada, pouco controlo editorial impunha aos seus colaboradores. Estes descreviam-no como um homem cordato e aprumado que não dispensava longas sestas no seu escritório.
Martin Goodman podia não ser um visionário, mas fazia bom dinheiro e evitava dar passos em falso. O seu mantra era "Se tens um título que vende bem, junta-lhe outros do mesmo género e multiplicarás o teu lucro." Sem surpresas, seria essa filosofia de negócios que transplantaria para a Timely Comics, a sua joia da coroa.

Tempos de mudança

Em 1939, Martin Goodman procurava novos nichos de mercado para expandir o seu negócio. Atento ao desenvolvimento da indústria dos comics books a reboque do retumbante êxito do Super-Homem no ano anterior, Goodman resolveu incluí-los na sua eclética linha de publicações. Viviam-se tempos de mudança e o dono da Timely Publications não queria ficar à margem. Era um editor à procura de histórias.
Num daqueles obséquios do acaso, Goodman travou por essa altura conhecimento com um vendedor ao serviço da recém-fundada Funnies Incorporated. Por sinal, uma agência de autores independentes à procura de um editor.
Por aqueles dias, o promissor segmento super-heroico era dominado por um quarteto de editoras: Fox Comics, Centaur Publications, All-American Comics e National Periodicals (estas duas últimas dariam origem à DC). A Funnies Incorporated era constituída por antigos colaboradores da Centaur, que começaram por acalentar o sonho de produzir conteúdos próprios. A falta de liquidez fê-los no entanto repensar a sua estratégia. Que consistia agora em providenciar histórias aos quadradinhos às editoras que não dispunham de staff próprio. Na Timely Comics encontraram uma parceira talhada à medida.
Originalmente, a Timely Comics era uma divisão da Timely Publications, grupo editorial presidido por Martin Goodman. Servia-lhe de sede um pequeno apartamento no McGraw Hill Building, imponente arranha-céus que dominava a paisagem do lendário bairro de Hell's Kitchen.
Conhecida a propensão de Martin Goodman para replicar sucessos da concorrência, muitos acreditam, erroneamente, que o nome "Timely" adveio de uma versão genérica da conceituada revista Time. Na verdade, a marca teve origem noutra imitação. Tal como o título deixa facilmente perceber, a Popular Digest era um fac-símile da Reader's Digest e tinha como premissa "Timely Topics Condensed" (algo como "Tópicos Condensados da Atualidade"). Foi, pois, nessa sua antiga publicação, da qual foram editados apenas dois fascículos, que Goodman se inspirou para batizar a sua nova empresa.

Índice do primeiro número de Popular Digest, a resposta de Martin Goodman à
popularidade da Reader's Digest.
A primeira edição lançada sob os auspícios da Timely Comics chegou às bancas em outubro de 1939. Uma vez mais, com título emprestado. Marvel Comics nº1 compilava histórias de diferentes géneros (nem todas ilustradas) e apresentou ao mundo três novos super-heróis: Tocha Humana, Namor, o Príncipe Submarino e Anjo (um detetive fantasiado sem qualquer relação com o X-Man homónimo). Com 80 mil exemplares vendidos, no mês seguinte seria lançada uma segunda edição de Marvel Comics nº1, obtendo tiragem idêntica à da primeira. Números que, embora impressionantes, eram muito inferiores aos conseguidos pelas maiores concorrentes, designadamente pela National Periodicals. Aos olhos dos "tubarões", a Timely Comics não passava de peixe miúdo. Mas isso estava prestes a mudar.
Em 1939, Marvel Comics nº1 introduziu
 os primeiros super-heróis da Timely.
Percebendo o filão que tinha em mãos, Martin Goodman, fiel à sua estratégia comercial, não perdeu tempo a lançar uma linha de títulos periódicos com super-heróis. Recrutando, para esse efeito, artistas e escritores de diferentes proveniências. No entanto, a sua contratação mais sonora seria um dos maiores talentos da Funnies Incorporated, a quem confiou o cargo de editor. Ninguém menos do que Joe Simon.
Simon não veio sozinho. Consigo trouxe Jack Kirby, seu antigo parceiro criativo na Fox Comics. A dupla criaria, pouco tempo depois, aquele que seria o porta-estandarte da Timely Comics: o Capitão América.
A despeito do bom desempenho do número inaugural de Marvel Comics (entretanto renomeada Marvel Mystery Comics), as edições subsequentes ficaram aquém das expectativas. Lançados com pequenos intervalos ao longo de 1940, Daring Mystery Comics, Mystic Comics e Red Raven Comics também demoravam a afirmar-se. O último seria mesmo precocemente cancelado, logo rendido por The Human Torch. O Tocha Humana tornava-se, assim, o primeiro herói da Timely Comics a ganhar série própria. Mas nem isso atraiu novos leitores
À euforia inicial seguiu-se a estagnação e a Timely Comics parecia condenada a dissolver-se na espuma sazonal. Começaram a soar os alarmes no escritório de Martin Goodman.

Joe Simon (de pé) e Jack Kirby.
Em baixo, dois dos títulos mais populares da Timely Comics.

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Mesmo com tiragem modesta, Marvel Mystery Comics continuava a ser, de longe, o título mais popular da Timely. Muito por conta dos seus dois astros residentes: Tocha Humana e Namor, o Príncipe Submarino. Explorando a dualidade simbólica das duas personagens (Fogo versus Água), em 1940 os respetivos criadores, Carl Burgos e Bill Everett, promoveram aquele que seria o primeiro crossover da história da 9ª Arte.
Numa história em duas partes, narrada sob o ponto de vista de cada um dos contendores, o androide inflamável e o temperamental monarca atlante mediram forças nos números 8 e 9 de Marvel Mystery Comics. Graças a essa arrojada - e inédita - iniciativa, a Timely Comics voltou ao jogo e foram estabelecidas as bases do futuro Universo Marvel.

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Anunciado como "a batalha do século", o duelo entre o Tocha Humana e o Príncipe Submarino
foi o primeiro crossover da histórias da 9ª Arte.
Embora naturalmente satisfeito, Martin Goodman sabia que isso era insuficiente. Com novas editoras e novos heróis a surgirem em barda, sabia estar a travar um combate desigual. Para ficar em paridade de armas, precisava de um campeão de vendas. E foi isso que pediu a Joe Simon.
Ciente da urgência do pedido do patrão, Joe Simon tratou logo de deitar mãos à obra. Dias depois apresentou a sua proposta: um herói de inspiração patriótica vestido com a Star and Stripes e portando um escudo metálico. Em linha com a tradição da Timely, o conceito reproduzia outro preexistente. Escassos meses antes, a MLJ Comics (atual Archie Comics) apresentara uma personagem similar chamada The Shield.
Simon batizou inicialmente a sua criação de Super American, mas Captain America deverá ter-lhe soado melhor. Aprovada a ideia, Jack Kirby foi o escolhido para ilustrar a primeira história do Sentinela da Liberdade.
Lançado em dezembro de 1940, precisamente um ano antes do ataque japonês a Pearl Harbor e consequente participação dos EUA na II Guerra Mundial, Captain America nº1 (cuja capa, da autoria de Joe Simon, mostrava o herói a esmurrar Hitler), excedeu todas as expectativas ao vender mais de um milhão de exemplares.

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A edição de estreia do Capitão América vendeu mais de um milhão de exemplares.
Radiante e com cifrões a retinirem-lhe nos olhos, Martin Goodman de pronto manifestou o seu desejo de adquirir os direitos da personagem. Sabendo ter em mãos uma mina de ouro capaz de despertar a cobiça de editoras com maior poder económico do que a Timely, Joe Simon impôs várias condições à concretização do negócio.
Apesar da sua reputação de negociador implacável, Martin Goodman cedeu às exigências do seu colaborador. Concordou, desde logo, em atribuir uma série própria ao Capitão América, em vez de submergi-lo numa qualquer antologia. Creditados como autores, Joe Simon e Jack Kirby receberiam 25% dos lucros e seriam, ademais, promovidos, respetivamente, a editor-chefe e diretor artístico da Timely Comics. Termos bastante vantajosos e incomuns numa época em que escritores e artistas eram, na sua larga maioria, mão de obra descartável numa indústria que não tinha pejo em explorá-los.
Com o advento do Capitão América, a Timely Comics reuniu a primeira trindade de super-heróis, precedendo em alguns meses a da DC, na medida em que só em finais de 1941 a Mulher-Maravilha se juntaria ao Super-Homem e ao Batman.
Atolados em trabalho, Joe Simon e Jack Kirby imploravam por um assistente. A escolha recaiu sobre um extrovertido jovem de 17 anos que era primo da mulher de Martin Goodman. O seu nome era Stanley Lieber. Ficaria, porém, imortalizado pelo seu pseudónimo: Stan Lee.

A Trindade da Timely recriada pelo traço de David Finch.

Enfant terrible

Nos seus dias de glória, a Timely Publications era um vibrante ninho de nepotismo. Do respetivo staff faziam parte vários parentes de Martin Goodman, incluindo três dos seus irmãos. Artie Goodman elaborava guias de cores para as bandas desenhadas, Abe Goodman tratava da contabilidade e Dave Goodman tinha como árdua tarefa fotografar curvilíneas modelos seminuas para as revistas masculinas.
Outro elemento com ligações familiares ao presidente da Timely era Robert Solomon. Tratava-se de um cunhado de Martin Goodman encarregue dos assuntos que este estaria demasiado ocupado para resolver por si próprio. Solomon, ríspido no trato, era também uma das figuras mais detestadas pelo staff da Timely. Tio de Stan Lee, seria pela sua mão que o futuro guru da Marvel daria os primeiros passos na indústria dos comic books.
Por oito dólares por semana (o dobro do que auferiam muitos artistas), Stan Lee servia cafés, revia roteiros, organizava a correspondência e apagava as linhas de lápis nos esboços arte-finalizados de Jack Kirby. Nos tempos mortos, o irrequieto Stan gostava de bater com as portas ou tocar a sua ocarina, o que deixava os seus colegas de trabalho com os nervos em franja. A Kirby irritava-o profundamente não poder puxar as orelhas àquele enfant terrible, a salvo de corretivos apenas por ser primo do patrão.

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Stan Lee era ainda um jovem imberbe
 quando adentrou no mundo dos quadradinhos.
Apesar dos seus ocasionais atritos, Joe Simon, Jack Kirby e Stan Lee adoravam trabalhar na série mensal do Capitão América. Empolgado com o  apreciável sucesso do Sentinela da Liberdade, Martin Goodman acreditava que ele podia fazer sombra a outros campeões de vendas, como o Capitão Marvel, da Fawcett Comics, ou até mesmo ao próprio Super-Homem. Talvez porque nunca lhe terá ocorrido que o patriotismo, bem como as histórias de super-heróis, poderiam sair de moda.
Levava Captain America uma dezena de números publicados quando surgiu a primeira contrariedade. Entre mútuas acusações de deslealdade, Martin Goodman viu-se obrigado a demitir Joe Simon e Jack Kirby.
Os criadores do Sentinela da Liberdade vinham negociando em segredo uma transferência para a DC. Se Joe Simon não excluía a hipótese de ter havido uma fuga de informação por parte da rival, Jack Kirby, ao invés, estava convicto de que fora Stan Lee a dar com a língua nos dentes. Pouco tempo antes, Kirby cometera a imprudência de confidenciar ao primo do patrão os seus planos para deixar a Timely. Este seria, aliás, o primeiro de muitos episódios controversos a pontuarem a relação desses dois titãs da 9ª Arte.
Após a saída de Joe Simon e Jack Kirby, em finais de 1941, Stan Lee, em vésperas de completar 19 anos, foi promovido a editor interino. Cargo que acumulou com o de escritor de Captain America antes de ser chamado a cumprir o serviço militar. Embora inexperiente, o jovem Stan deu boa conta do recado e a série, mesmo desfalcada dos seus autores, manteve-se na senda do sucesso.
Com Stan Lee ao leme, os anos de guerra foram de prosperidade para a Timely Comics. Apesar de ter ainda no Capitão América o seu indisputado campeão de vendas, a editora dispunha agora de um catálogo abrangente que abarcava praticamente todos os géneros.
Por indicação do próprio Martin Goodman, sempre sintonizado com as tendências do mercado, desde abril de 1942 que a Timely Comics vinha publicando revistas humorísticas maioritariamente protagonizadas por animais antropomorfizados. Títulos como Zippy Pig and Silly Seal ou Super Rabbit Comics vendiam quase tanto como as séries super-heroicas.
Um público até então menosprezado, as adolescentes foram outra das apostas da Timely nesta fase. A pensar nelas foram lançados títulos como Millie the Model ou Patsy Walker, em paralelo com novas super-heroínas como Sun Girl ou Namorita, a contraparte feminina do Príncipe Submarino.

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O ecletismo editorial foi uma das imagens de marca da Timely Comics.
Outra novidade consistiu em incluir um escudo patriótico nas capas de todas as revistas editadas pela Timely Comics. Inspirado no escudo triangular originalmente portado pelo Capitão América, tornar-se-ia o símbolo da editora e aquele que perduraria na memória. Mais ou menos pela mesma altura, a Timely Comics transferiu a sua sede para o 14º piso do Empire State Building, onde permaneceria até 1951.
À medida que o fulgor dos super-heróis desvanecia no pós-guerra, muitas das personagens da Timely Comics foram resvalando para a obscuridade. À qual nem o próprio Capitão América escaparia.
Se é difícil assinalar com precisão o fim da Idade de Ouro, o crepúsculo da Timely Comics, reminiscência dessa era de maravilhas, coincidiu seguramente com o cancelamento de Captain America, em outubro de 1950.
Enquanto soava o dobre a finados de uma era, Martin Goodman, exemplo de perseverança, preparava-se para uma nova. A Timely Comics dava, assim, lugar à Atlas Comics para fazer face aos desafios presentes e futuros. Mas essa é uma história para outra altura...


Parte do panteão da Timely seria incorporado no Universo Marvel.


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2016 marcou o regresso da Timely Comics,
agora como linha low cost da Marvel.

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quinta-feira, 17 de novembro de 2016

HERÓIS EM AÇÃO: TOCHA HUMANA



   
   Reminiscência incandescente da Idade de Ouro dos comics, foi um dos arautos da era de maravilhas que deixaram o mundo embasbacado. Sobreviveu às épicas batalhas contra o Príncipe Submarino e aos horrores de uma conflagração planetária, mas não ao desvanecimento do género super-heroico. Resgatado ao oblívio, a glória encalhada no passado, habituou-se a viver à sombra do seu sucessor.

Denominação original: The Human Torch
Criador: Carl Burgos
Licenciador: Timely Comics (1939-49). Atlas Comics (1953-54)  e Marvel Comics (de 1966 ao presente)
Primeira aparição: Marvel Comics nº1 (outubro de 1939)
Identidade civil: James "Jim" Hammond
Local de nascimento: Laboratório do Professor Phineas T. Horton, Brooklyn (Nova Iorque)
Categoria: Androide senciente 
Parentes conhecidos: Tratando-se de um androide, o Tocha Humana não possui verdadeiros vínculos familiares, na aceção biológica do conceito. Ao Professor Horton, seu criador, poderá contudo ser reconhecida a paternidade simbólica daquele que foi o primeiro homem sintético no Universo Marvel. Também Centelha (Toro, no original) foi a dada altura perfilhado pelo herói, que, assim, se tornou pai adotivo do seu adjunto juvenil.
Entre o Tocha Humana e outras formas de inteligência artificial a que a tecnologia do Professor Horton serviu de matriz existem igualmente fortes afinidades. Casos, por exemplo, de Adam II, Volton e, claro, do Visão*.
Afiliação: Agindo sob o disfarce de Jim Hammond nos primórdios da sua longeva carreira de combatente do crime, o Tocha Humana foi paralelamente um agente do Departamento de Polícia de Nova Iorque. Além da já citada parceria heroica com Centelha, ainda na Idade do Ouro, formou temporariamente parelha com Sun Girl, heroína que também lhe serviu de interesse romântico. Seguir-se-ia a fundação dos Invasores**, em conjunto com o Capitão América e o Príncipe Submarino, para travar as forças do Eixo durante a 2ª Guerra Mundial. Regressado ao ativo após longos anos em hibernação, passou pelas fileiras de diversas organizações, como os Vingadores da Costa Oeste ou os Novos Invasores. É atualmente um operacional da SHIELD.
Base de operações: Originalmente, o Tocha Humana tinha em Nova Iorque a sua base operacional. Nos dias que correm está aquartelado em Camp Hammond, o centro de treino da SHIELD para meta-humanos assim batizado em sua homenagem e sediado em Stamford (Connecticut).
Armas, poderes e habilidades: Sem que daí advenha qualquer dano para o seu corpo sintético, o Tocha Humana consegue envolver-se num manto de plasma incandescente. Habilidade que decorre do facto de ele ter cada milímetro de pele recoberto pelas chamadas células Horton. As quais, em contacto com o oxigénio, entram em combustão espontânea. Processo que, inicialmente, o herói não controlava, o que trouxe alguns amargos de boca ao seu criador.
Quando transformado num braseiro ambulante, a energia térmica gerada pelo Mestre do Fogo pode ser canalizada para diversos efeitos, incluindo voar ou disparar rajadas flamejantes que também podem ser concussivas. Importa notar que, no caso das primeiras, a respetiva intensidade oscila entre um simples fogacho e uma irrupção energética equivalente à implosão de uma pequena nova.
Mesmo quando as labaredas provêm de uma fonte externa, o Tocha Humana consegue manipulá-las a seu bel-prazer graças ao seu controlo telecinético sobre a energia térmica ambiental. Antes de sublimar esse talento, nas suas primeiras aparições o herói costumava gritar (!) ordens ao lume. Que, como se de um animal amestrado se tratasse, obedecia aos seus comandos vocais.
Como qualquer ignição, as labaredas geradas pelo Mestre do Fogo alimentam-se de oxigénio, podendo ser extintas com recurso a água, areia, espuma supressora de fogo ou a qualquer outro material clássico de combate a incêndios. Exceto quando as mesmas atingem temperaturas de tal forma elevadas que vaporizam instantaneamente qualquer coisa que entre em contacto com elas.
Durante a Idade do Ouro era comum o Tocha Humana usar o seu corpo incandescente para atravessar paredes, cofres e outros objetos sólidos. Qual míssil humano, conseguia penetrar profundamente no solo ou no casco dos vasos de guerra inimigos na 2ª Guerra Mundial.
Continua, contudo, por aferir a verdadeira extensão dos poderes do herói. Se em determinada ocasião saiu fortalecido de uma explosão termonuclear, noutra quase foi destruído por uma. Certo é que o Tocha Humana, por oposição às suas chamas, consegue sobreviver sem oxigénio. Bastando, para isso, entrar em estase.
Dotado de níveis de força e resistência ligeiramente superiores à média humana por conta da sua fisiologia inorgânica (vide texto seguinte), o Tocha Humana é também um hábil combatente corpo a corpo. Competências de defesa pessoal adquiridas quer pelo treino recebido na Academia de Polícia, quer pelo que lhe foi em tempos ministrado pelo Capitão América.

* Anatomia do Fantasma de Pedra disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/08/herois-em-acao-visao.html
** Prontuário sobre os Invasores em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2015/02/herois-em-acao-invasores.htm

Nem paredes de aço travavam o Tocha Humana.
Fisiologia: Ao ser apresentado ao mundo, no virar da década de 1930, como o primeiro homem sintético da História, o Tocha Humana configurou um caso ímpar no panorama ficcional da época. Não só na banda desenhada mas também na literatura e no cinema. Segmentos culturais onde, até aí, o conceito mais glosado fora o do tradicional robô metálico.
Fazendo amiúde lembrar  um homem de lata, o aspeto dessa figura icónica da ficção científica podia ser mais ou menos antropomorfizado sem, contudo, lograr disfarçar a sua natureza mecânica aos olhos dos leitores e/ou dos espectadores.
Ora. embora composto por materiais inorgânicos, o Tocha Humana é anatomicamente idêntico a um ser humano do sexo masculino. Toda a sua fisiologia reproduz, aliás, até ao mais ínfimo pormenor, a de um homem de carne e osso.
Além de todo um conjunto de órgãos internos artificiais, o androide dispõe igualmente de um sistema circulatório. O sangue sintético do Tocha Humana corresponde, de resto, a uma das suas características fisiológicas mais admiráveis. Não só porque é compatível com todos os fenótipos catalogados (incluindo mutantes) mas, sobretudo, pelas suas reconhecidas propriedades regenerativas. Servindo igualmente de veículo transmissor de habilidades meta-humanas.
Recorde-se que foi depois de receber uma transfusão sanguínea do Tocha Humana que a heroína britânica Spitfire adquiriu a sua supervelocidade. Já uma segunda transfusão, recebida décadas mais tarde, salvou-lhe a vida e restaurou-lhe a juventude.

Spitfire ganhou supervelocidade graças
 ao sangue sintético do Tocha Humana.
De igual modo, os poderes latentes de Centelha, Homo Superior e antigo sidekick adolescente do herói, manifestaram-se apenas na sequência da sua exposição às células Horton. Nelas reside, com efeito, o segredo para estas milagrosas propriedades do sangue sintético do Tocha Humana. Ao cabo de uma investigação científica exaustiva, o Pensador Louco concluiu que a sua composição inclui plástico e polímeros de carbono que lhes possibilitam mimetizar as estruturas moleculares presentes nas células orgânicas. Mesmo em pequenas amostras, as células Horton conseguem produzir e acumular enormes quantidades de energia.
Não obstante tudo isto, o Mestre do Fogo possui, grosso modo, as mesmas necessidades e fraquezas de qualquer ser humano. Conforme atesta o facto de, em diversas ocasiões, ele ter sido mostrado a dormir ou a ingerir alimentos. Centelha chegou mesmo a sugerir humoristicamente que o seu mentor estaria apetrechado com um aparelho excretor. Brincadeiras à parte, tanto nas suas estórias clássicas como nas atuais, o Tocha Humana já demonstrou ser vulnerável, entre outras coisas, a gases tóxicos, à hipnose e a ataques telepáticos.
Curioso observar, no entanto, que a representação anatómica da personagem tem variado significativamente ao longo do tempo. Sobretudo desde que ele ganhou uma segunda vida no Universo Marvel, em meados dos anos 1960. Desde então, vários foram os cientistas que examinaram e modificaram o corpo robótico do Tocha Humana. Dentre eles, o Pensador Louco, responsável pela sua reativação, foi aquele que mais profundas transformações nele operou.

O Tocha Humana foi o primeiro homem sintético.
À boleia dessas reconfigurações tecnológicas, alguns dos escritores que passaram pelas histórias do Mestre do Fogo enfatizaram a sua origem mecânica. Por um lado, expondo sem pudor as suas entranhas cibernéticas (servomotores, circuitos elétricos, etc.); por outro, sugerindo que o androide obedece a uma programação predefinida e suscetível de ser alterada. Elementos inovadores que levaram a uma gradual desumanização da personagem, lembrando os leitores que estão em presença de uma máquina. E em prejuízo das características fisiológicas que tinham feito do Tocha Humana uma singularidade entre a constelação de inteligências artificiais que, após o seu surgimento, foram despontando nos quadradinhos e na ficção científica.

Tocha Humana: maravilha ou ameaça? 
Histórico de publicação: Com uma história assinada pelo próprio Carl Burgos, seu criador, o Tocha Humana estreou-se nas páginas de Marvel Comics nº1. Estávamos em novembro de 1939 e, em boa verdade, tratou-se de uma dupla estreia. De uma assentada, o neófito da Timely apadrinhava o lançamento do mais recente título periódico da editora. O mesmo que, mais de uma vintena de anos transcorridos, lhe daria o nome que a imortalizou nos pergaminhos da 9ª Arte.
Caído desde logo nas boas graças dos leitores, a quem incendiava a imaginação com as suas façanhas, a popularidade do Tocha Humana rendeu-lhe uma série própria. Seria, de resto, um dos primeiros super-heróis a beneficiar de tal privilégio, reforçando dessa forma o estatuto de coqueluche da Timely. Que, por esses dias, procurava conquistar o seu lugar ao sol no efervescente e competitivo mercado dos comics, alavancado pelo surgimento recente de personagens como Batman e Superman.



Em cima: Carl Burgos, o criador do Tocha Humana.
Em baixo: a sua estreia em Marvel Comics nº1 (1939).
Ao mesmo tempo que vivia trepidantes aventuras em The Human Torch (cujo número inaugural chegara às bancas norte-americanas no outono de 1940), o herói flamejante continuou a ser presença assídua noutros títulos da editora ao longo de todo o decénio. Captain America, Young Allies e Mystic Comics foram algumas das séries que, durante esse período áureo, acolheram tão distinto convidado.
Ainda em 1940, mais precisamente em maio e junho desse ano, o Tocha Humana coprotagonizaria com o Príncipe Submarino* aquele que é que considerado o primeiro crossover da história da banda desenhada. Entretanto renomeada de Marvel Mystery Comics, a série mensal que dera a conhecer ao mundo o primeiro homem sintético serviu de arena àqueles que eram, à época, os dois titãs da Timely. Uma batalha de contornos épicos que contemplava também um duelo elemental, visto que Namor e o Tocha Humana simbolizavam, respetivamente, a Água e o Fogo.
Narrada sob o ponto de vista dos dois contendores, a peleja espraiou-se por outras tantas edições de Marvel Mystery Comics, levando ao rubro as emoções dos leitores. Por exigência destes, assistir-se-ia, ao longo de toda a Idade do Ouro, a várias reedições desse confronto titânico.

Fogo versus Água.
Reprodução de um duelo clássico da Idade do Ouro.

Numa época em que os super-heróis prosperavam, parecia impossível os fãs cansarem-se das proezas da Primeira Maravilha. Exceção feita ao Capitão América, nenhuma outra personagem da Timely apareceu em tão grande número de histórias como o Tocha Humana. Já diz, no entanto, o velho adágio que "não há mal que sempre dure nem bem que não se acabe". E, de facto, tudo mudaria no pós-guerra. Período histórico que, além da paz e da esperança, trouxe também consigo o inexorável declínio do género super-heroico. À medida que a década de 1940 caminhava a passos largos para o seu epílogo, poucos foram os vigilantes fantasiados que escaparam ao oblívio.
Até então altas e pujantes, as labaredas do Tocha Humana começaram lentamente a esmorecer até se extinguirem. Em março de 1949, a sua série periódica foi cancelada em consequência da abrupta queda nas vendas. Apenas três meses depois seria a vez de à lendária Marvel Mystery Comics ser aplicada idêntica sentença de morte.
Ironicamente, a derradeira história do Tocha Humana publicada com a chancela da Timely Comics recontava a sua origem. Embarcando assim a personagem numa viagem ao passado sem bilhete de regresso ao futuro.
Numa tentativa de reabilitação do género super-heroico, em 1954 a Atlas Comics (herdeira da Timley Comics) lançou Young Men, série antológica que compilava algumas das histórias mais emblemáticas de Capitão América, Príncipe Submarino e Tocha Humana. A iniciativa redundaria, porém, num fiasco e duraria menos de um ano. Com os super-heróis a cambalearem pelas ruas da amargura, nem os mais otimistas se atreviam então a augurar-lhes um futuro risonho.

O Tocha Humana em destaque na capa de Young Men nº25 (1954).
Empurrado para a obscuridade, onde já definhavam muitos dos seus coevos da Idade do Ouro, o Tocha Humana por lá permaneceria durante doze longos anos. Sendo finalmente resgatado das catacumbas da memória coletiva em 1966. Apenas para ser morto em Fantastic Four Annual nº4. Não sem antes travar conhecimento com o seu jovem e irrequieto epónimo, Johnny Storm.
A morte nos quadradinhos é, no entanto, quase sempre um estágio temporário. Especialmente quando o suposto defunto é um androide. Foi, pois, sem grande surpresa que, alguns anos depois, os leitores reagiram à revelação de que o Tocha Humana original fora, afinal, reconfigurado e reprogramado para ser o Vingador robótico conhecido como Visão. Quando esta tese foi desmentida, os Vingadores não descansaram enquanto não recuperaram o verdadeiro corpo do Mestre do Fogo. Que, graças ao engenho científico de Hank Pym, seria revivido. O mesmo não acontecendo, porém, com a sua glória de outrora.
Mesmo sem o fulgor de outros tempos, o Tocha Humana clássico tem vindo gradualmente a recuperar notoriedade na mitologia da Marvel. Efeito direto da sua participação em The New Invaders. Título baseado na bem-sucedida série mensal dos Invasores editada nos anos 1970, e que vem sendo dado à estampa desde 2014.
O que quer que o futuro reserve à Primeira Maravilha, nada nem ninguém conseguirá alguma vez apagar o seu lastro incandescente na história da Casa das Ideias, em cujas paredes escreveu o seu nome com letras de fogo grego.


All New Invaders (cima) devolveu o Tocha Humana à ribalta.
Em baixo: o elenco original dos Invasores.
Origem: Pioneiro no campo da inteligência artificial e da robótica, o Professor Phineas T. Horton projetou um androide capaz de mimetizar praticamente todas as funções orgânicas de um ser humano, e também as cognitivas.
Usando exclusivamente materiais inorgânicos no processo de construção, o cientista criou dessa forma o primeiro homem sintético. Cuja epiderme estava totalmente recoberta pelas chamadas células Horton. De origem fotoelétrica, estas serviam-lhe de fonte de energia, constituindo simultaneamente a única deficiência da criatura. Devido à sua extrema volatilidade, as células Horton entravam em combustão espontânea em contacto com o oxigénio. Sem, contudo, danificar o corpo do androide.
Apesar dessa contrariedade, o Professor Horton resolveu anunciar a sua invenção ao mundo, convocando uma conferência de imprensa para o efeito, em novembro de 1939. Perante uma pequena multidão de repórteres céticos, o cientista mostrou como o androide irrompia em chamas ao permitir a entrada de oxigénio no interior do cilindro de vidro onde ele se encontrava confinado. Mas as coisas não correram exatamente como Horton planeara, com os jornalistas presentes a reagirem com um misto de escárnio e pavor.

O Professor Horton apresenta a sua criação ao mundo.
Descrito pelos tabloides como uma potencial ameaça à segurança pública, o surgimento do Tocha Humana gerou, naturalmente, alarme social. Perante este quadro, o Presidente dos EUA emitiu um decreto intimando Horton a neutralizar de imediato a sua criação. Foi assim que a Primeira Maravilha acabou enterrada várias dezenas de metros abaixo do nível do solo dentro de um caixão de concreto.
Enquanto Horton retomava a sua pesquisa na esperança de encontrar uma forma de evitar que o androide se inflamasse em contacto com o ar - ou que, pelo menos, aprendesse a controlar as suas labaredas - o Tocha Humana logrou evadir-se da sua prisão subterrânea. Proeza só possível devido a uma pequena rachadura no seu caixão de cimento que permitiu a entrada de oxigénio em quantidade suficiente para ativar as células Horton que revestiam o seu corpo.
Uma vez em liberdade, o Tocha Humana provocou acidentalmente vários focos de incêndio dispersos pela cidade de Nova Iorque, gerando pânico à sua passagem. Por fim, a sua jornada caótica conduziu-o à propriedade de Anthony Sardo, um criminoso oportunista que, tirando proveito da desorientação do androide,  usaria durante algum tempo os seus formidáveis poderes  para cometer uma série de delitos.
Quando tomou consciência das más intenções de Sardo, o Tocha Humana rebelou-se, acabando por, inadvertidamente. desencadear uma explosão que tiraria a vida ao bandido. Em consequência desse trágico episódio, e já depois de ter aprendido finalmente a controlar os seus poderes, o androide jurou solenemente servir a Humanidade.
Para levar a cabo essa árdua missão, o Tocha Humana passaria a contar logo depois com o voluntarismo de Centelha. De seu nome verdadeiro Thomas Raymond, Centelha era o filho adolescente de um casal de cientistas nucleares nascido com o talento mutante de controlar o fogo devido aos níveis de radiação a que haviam sido expostos os seus progenitores.
Mais ou menos pela mesma altura, movido pelo mesmo espírito cívico que o levara a operar como vigilante, o Tocha Humana criou a persona de Jim Hammond para ingressar no Departamento de Polícia nova-iorquino. Identidade civil que abandonaria ao cabo de pouco tempo. Continuando, todavia, a colaborar oficialmente com as autoridades municipais como Tocha Humana.
Quando os EUA entraram na II Guerra Mundial, o Mestre do Fogo e o seu adjunto juvenil aliaram-se a outros super-heróis para, nos campos de batalha europeus ou na frente do Pacífico, combaterem as forças do Eixo que ameaçavam a liberdade mundial. Nas fileiras dos Invasores, lutou, entre outros, ao lado do Capitão América e do Príncipe Submarino, seu antigo némesis.

Auxiliado por Centelha, o Tocha Humana
frustra os sinistros planos de um comando nipónico.
Na continuidade da Marvel, o Tocha Humana foi, aliás, o verdugo de Adolf Hitler. Com o Exército Vermelho às portas de Berlim, ele e Centelha invadiram o bunker do Fuhrer momentos antes de este se suicidar. Apesar dos seus esforços, o herói flamejante não conseguiu convencer o tirano a entregar-se aos americanos em vez de se render aos soviéticos. Quando Hitler disparou sobre ele, o Tocha Humana incinerou-o vivo com uma rajada de plasma incandescente.
Findas as hostilidades, o Tocha Humana seria desativado e enterrado sob as areias escaldantes do Deserto de Mojave. A sua hibernação seria, contudo, interrompida pelo ensaio de uma bomba atómica. Ao tomar conhecimento de que Centelha fora capturado e lobotomizado pelos soviéticos, o Mestre do Fogo resgatou o seu antigo parceiro e filho adotivo. Descobrindo entretanto que os seus poderes, embora amplificados pela radiação da bomba atómica que o despertara, também se tinham tornado mais instáveis.
Temendo representar uma ameaça para a Humanidade, o Tocha Humana regressou ao Deserto de Mojave e libertou toda a energia acumulada no seu corpo sintético, induzindo assim a própria desativação. Permanecendo inerte e esquecido por vários anos até ser encontrado pelo Pensador Louco que o tentou usar para liquidar o Quarteto Fantástico. Episódio que assinalou a sua reintrodução na continuidade moderna da Casa das Ideias.

Origem e evolução do Príncipe Submarino em: http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/05/herois-em-acao-namor-o-principe.html

Fogo contra fogo. ´
O Tocha Humana original defronta o seu sucessor em Fantastic Four Annual nº4 (1966).

Trivialidades:

* São muitos os leitores que ignoram até hoje que Johnny Storm, o celebérrimo Tocha Humana do Quarteto Fantástico, herdou esse título do seu antepassado da Idade de Ouro dos quadradinhos. No princípio dos anos 1970, o benjamim da equipa capitaneada pelo Senhor Fantástico chegou mesmo a adotar brevemente um visual inspirado no do Tocha Humana original, apresentado nas páginas de Fantastic Four Vol.1 nº132 (edição datada de março de 1973);

A estreia do uniforme vermelho e dourado de Johnny Storm,
que teve como modelo o do Tocha Humana original.
* Muitos são aqueles também que desconhecem por completo que, na sua primeira aparição, o cabelo do herói era ruivo, passando a loiro na edição seguinte; ou, ainda, que ele costumava deixar pegadas de fogo por onde passava, as quais demoravam horas a extinguir-se naturalmente;
* Apesar de o Tocha Humana atuar frequentemente de cara descoberta, nem a imprensa nem o público alguma vez conseguiram identificá-lo como Jim Hammond;
*Em linha com uma multitude de publicações do género, The Human Torch serviu fins propagandísticos durante a II Guerra Mundial. Impregnadas de fervor patriótico, era comum as historietas do Mestre do Fogo incluírem referências a episódios reais do conflito em curso. Pretendia-se desse modo enaltecer o esforço de guerra americano e, por inerência, a causa aliada;
* Conforme foi referido anteriormente, Camp Hammond, o centro de treino da SHIELD para meta-humanos, foi assim nomeado em homenagem ao Tocha Humana. Que, em tempos, teve também direito a uma estátua no interior do recinto, em cuja base se podia ler a seguinte inscrição: "Jim Hammond, a primeira das maravilhas. Ele mostrou-nos que os heróis podem ser criados." O monumento seria, contudo, derrubado por uma turba enfurecida durante a saga Reinado Sombrio (Dark Reign, 2009), quando, após desmantelar a SHIELD, Norman Osborn ordenou o encerramento das suas instalações espalhadas pelo globo;

Jim Hammond, agente da SHIELD.
*Apesar de ter aprendido a voar muito precocemente, por algum motivo o Tocha Humana não fez uso dessa habilidade em algumas das suas primeiras aventuras. Era, porém, capaz de correr mais depressa do que qualquer automóvel da época e de saltar a grandes alturas;
* Incendiário (Firebug), Mestre do Fogo (Fire Master) e Primeira Maravilha (First of the Marvels) são os principais epítetos utilizados para cognominar o Tocha Humana. Devendo-se este último não ao facto de ele ter sido o primeiro super-herói da Casa das Ideias (a sua estreia foi precedida em alguns meses pela do Príncipe Submarino), mas por lhe terem cabido as honras de inaugurar Marvel Comics. Título mensal que, como explicado acima, daria nome à editora anteriormente conhecida como Timely Comics e Atlas Comics;
* No Brasil, as histórias do primeiro Tocha Humana foram publicadas sob os auspícios de diversas editoras. Foi, todavia, com a chancela da Bloch que, entre 1975 e 1976, ele granjeou maior notoriedade em Terras Tupiniquins, ao ter direito a uma série mensal em nome próprio. Esta, além de servir de repositório ao material antigo da personagem publicado pela Timely Comics na década de 40 do século transato, reproduzia igualmente capas e histórias de um título regular que o herói flamejante estrelara em 1974 nos EUA. Como bónus, O Tocha Humana incluía ainda aventuras a solo do seu epónimo, Johnny Storm.
Mais recentemente, em 2015, foi a vez da editora Salvat lançar uma antologia das histórias emblemáticas do Tocha Humana original, tomo integrado na coleção Os Heróis Mais Poderosos da Marvel.

Dilúvio de fogo.
Duelo de Tochas Humanas a abrir a série solo do herói editada pela Bloch.
Noutros media: Por contraponto à sua versão contemporânea, o Tocha Humana clássico é um ilustre desconhecido do grande público. Contam-se, de resto, pelos dedos de uma mão as suas incursões no panorama audiovisual. Facto que, sem sombra de dúvida, contribui para reforçar esse seu semianonimato. Somente em 1994, num episódio avulso da primeira temporada da série animada Fantastic Four, é que o Mestre do Fogo timidamente se aventurou fora da banda desenhada.
Nessa sua estreia televisiva, a personagem teve, porém, a sua origem retocada. Na nova versão da sua história, ele continuava a ser um androide, mas projetado por Reed Richards. O que aconteceu depois de o líder do Quarteto ter descoberto uma forma de replicar os poderes incandescentes de Johnny Storm. Com esta cambiante, inverteu-se a ordem cronológica da aparição dos dois Tochas. Corruptela histórica apenas percecionada por verdadeiros eruditos da 9ª Arte.
Desde esta sua discreta participação em Fantastic Four, o primeiro Tocha Humana fez apenas dois cameos, um na TV e outro no cinema. O primeiro ocorreu em 2010 num episódio de The Super Hero Squad Show, outra série de animação produzida pelos Estúdios Marvel.
No ano seguinte, a personagem marcou presença em Capitão América: O Primeiro Vingador ( filme já aqui esmiuçado). Numa clara piscadela de olho ao material original, na sequência ambientada na Expo Stark, é mostrado um vislumbre do corpo inerte do androide no interior de um cilindro de vidro estanque e transparente. Uma vez mais, essa deliciosa referência terá passado despercebida ao leigos em "heroilogia".

O Tocha Humana na Expo Stark
em Capitão América: O Primeiro Vingador.



terça-feira, 24 de maio de 2016

ETERNOS: BILL EVERETT (1917-1973)




   Com uma carreira profissional que se confunde com a história da Marvel Comics, foi um visionário e um iconoclasta da Idade do Ouro dos Quadradinhos que teve no Príncipe Submarino o seu alfa e o seu ómega. Menos óbvio foi o seu papel na conceção de um certo Homem Sem Medo.

Biografia e carreira: Com berço numa família influente e endinheirada, William "Bill" Everett veio ao mundo no já longínquo dia 18 de maio de 1917, em Cambridge (no estado norte-americano do Massachusetts). Mitómano, fabricou ao longo dos anos uma série de ficções acerca da sua juventude. Entre as patranhas que gostava de impingir a quem com ele privava, contava que havia concluído o liceu no Arizona. Narrativa que colidia com uma outra em que jurava a pés juntos ter-se alistado na Marinha Mercante dos EUA com apenas 15 anos de idade.
   Em boa verdade, Bill nascera no Hospital de Cambridge, tendo crescido nos arrabaldes de Watertown,  um pequeno e pacato município encravado na área metropolitana de Boston. Fê-lo na companhia dos pais (Robert e Elaine Everett) e de uma irmã dois anos mais velha chamada Elizabeth.
  Com raízes em Nova Inglaterra (território geográfico localizado no nordeste dos EUA, junto à fronteira com o Canadá) e uma genealogia velha de três séculos, o clã Everett tivera até aí em Edward Everett e em William Blake os seus membros mais ilustres. Após desempenhar os prestigiosos cargos de reitor da Universidade de Harvard e de Governador do Massachusetts, o primeiro fora nomeado Secretário de Estado do Governo dos EUA em 1852. Ao passo que o segundo, nascido em terras de Sua Majestade, foi um dos maiores expoentes da poesia romântica europeia nos séculos XVIII e XIX.
  Proprietário de um bem-sucedido negócio de transporte rodoviário de mercadorias, em meados dos anos 20 do século passado, Robert Everett resolveu mudar-se com a família para um palacete de verão no litoral do Maine. Seria nesse ambiente burguês que, encorajado pelos seus progenitores, o pequeno Bill daria os primeiros passos na ilustração, refinando paulatinamente o seu inato talento artístico.
   Leitor voraz, o catraio preferia no entanto os clássicos da literatura aos romances de cordel ou às histórias aos quadradinhos que faziam as delícias de muitas crianças da sua idade. Seriam ainda assim os trabalhos de diversos ilustradores e cartunistas (com o famigerado Floyd MacMillan Davis à cabeça) a influenciarem o estilo de Bill Everett. 
   Em 1929, então com 12 anos de idade e a frequentar o sexto ano de escolaridade, Bill contraiu tuberculose. Moléstia que motivou a sua saída abrupta da escola para, na companhia da mãe e da irmã, viajar para o Arizona, onde passou quatro meses em convalescença.
   Contudo, pouco tempo decorrido sobre o seu regresso a casa, Bill teve uma recaída que o obrigou a nova estada forçada na Costa Oeste. Período em que o jovem teve o seu primeiro contacto com bebidas alcoólicas, naquilo que seria uma espécie de rito iniciático para uma adolescência ensombrada pelo alcoolismo.
  Quando, após quatro turbulentos anos, Bill regressou por fim ao seu Massachusetts natal, levou a desarmonia à nova mansão familiar que o seu pai, incólume aos devastadores efeitos da Grande Depressão na economia estadunidense, adquirira entretanto num subúrbio de Boston. Exasperados com a insolência e o diletantismo do filho, os Everetts tomaram a difícil decisão de retirá-lo do liceu onde vadiava para, em 1934, inscrevê-lo - quase à força - na Vesper George School of Arts, uma conceituada academia de artes sediada no coração de Boston.
 Incapaz de se manter concentrado nos estudos, Bill abandonaria a instituição cerca de ano e meio depois, para profundo desgosto dos seus progenitores, mormente do seu pai. Que, vítima de uma apendicite aguda, faleceria pouco tempo depois sem ver concretizado o seu sonho de ver o filho tornar-se um cartunista de sucesso.

Bill Everett fotografado em 1939 no estúdio da Centaur Publications,
a sua porta de entrada para o lucrativo negócio dos comics.
   Mesmo dispondo de recursos financeiros que lhe continuavam a assegurar uma vida desafogada, a mãe de Bill entendeu por bem mudar-se com a prole para um apartamento localizado no centro de Cambridge.
  Obrigado pelas circunstâncias a assumir as suas responsabilidades enquanto novo patriarca do clã Everett, Bill depressa abandonaria a sua vida boémia, encetando uma carreira como ilustrador profissional que, sem que ele o imaginasse,  lhe garantiria lugar de destaque na memorabilia da Casa das Ideias.
   A troco de um cheque semanal de 12 dólares, em meados de 1936 Bill Everett começou a trabalhar como ilustrador no departamento publicitário do The Herald-Traveler, um dos tabloides mais antigos de Boston. Não teve, porém, sequer tempo de aquecer o lugar. Ao cabo de escassos meses, estava de malas aviadas para a periferia depois de aceitar uma proposta de emprego apresentada por uma empresa de engenharia civil, onde, durante um curto período, desempenhou as funções de desenhador projetista.
  Seguir-se-ia uma aventura (logo transformada em desventura) profissional na Costa Oeste que, entre outras paragens, o levou a Los Angeles. Uma vez mais, as coisas não correram de feição a Bill que não tardaria a regressar à Costa Leste. Assentando então arraiais em Nova Iorque, cidade onde esperava encontrar novas oportunidades para mostrar o seu valor.
  Na Grande Maçã, começou por trabalhar novamente como ilustrador no departamento publicitário de um jornal (o New York Herald-Tribune). Incapaz de manter um emprego por muito tempo, nos meses seguintes Bill Everett desempenharia as funções de editor artístico da revista Radio News antes de rumar a Chicago para assumir o cargo de subdiretor artístico de uma publicação não especificada. Certo é que acabaria demitido por, segundo o próprio, ser "demasiado presunçoso".
   De volta a Nova Iorque, Bill começou a procurar novo emprego no campo da ilustração. A sorte, porém, parecia andar arredada da sua vida. À medida que o tempo passava e as portas se lhe fechavam na cara, o desalento começou a apoderar-se dele. Em desespero de causa, entrou em contacto com Walter Holze, um antigo colega de escola que, por esses dias, trabalhava na efervescente indústria dos comics.
   Vários anos depois, Bill recordaria assim aquele que seria um ponto de viragem na sua vida: "Walter perguntou-me se eu podia desenhar histórias aos quadradinhos. É claro que eu respondi que sim. Estava falido e sem emprego. Aceitaria qualquer coisa. Não estava, portanto, interessado no negócio dos comics; fui empurrado pelas circunstâncias para dentro dele."
    Como ilustrador freelance ao serviço da Centaur Publications, Bill Everett começou por receber 2 dólares por cada página produzida. No entanto, por conta do seu virtuosismo, rapidamente passaria a ganhar sete vezes mais pelo mesmo trabalho. Uma respeitável maquia à luz dos padrões da época. Convém ter presente que estávamos no final dos anos 1930, numa altura em que os EUA eram ainda assolados pela Grande Depressão. Simetricamente, vivia-se o ápice da chamada Idade do Ouro dos Quadradinhos.
   Numa época em que brotavam super-heróis como cogumelos e as suas histórias vendiam como pãezinhos quentes, Bill Everett esteve diretamente envolvido na conceção de Amazing-Man, personagem da Centaur Publications desenvolvida a meias com Lloyd Jacquet, seu diretor artístico. Quando este fundou a sua própria editora, a Funnies, Inc., Bill aceitou de bom grado o convite para participar no projeto.

Amazing-Man foi o primeiro super-herói
concebido por Bill Everett.

   Numa sua biografia publicada postumamente, Bill Everett relatava: "Deixei a Centaur Publications com o Lloyd Jacquet e outro colega do qual não me recordo do nome. Fui aliciado pela ideia de Lloyd de criar uma pequena empresa que providenciasse mão-de-obra e matéria-prima às editoras já implantadas no mercado. Além de mim, ele também convidou o Carl Burgos (futuro criador do Tocha Humana original). Embora fôssemos o núcleo duro do projeto, continuávamos a trabalhar como freelancers. Não sei bem explicar o motivo. Mas era esse o acordo que tínhamos feito. E que ninguém contestou."
   Seria precisamente durante a sua passagem pela Funnies, Inc. que Bill Everett criaria a personagem que o imortalizaria na História da 9ª Arte. No âmbito de uma iniciativa editorial que visava a produção de uma banda desenhada a ser distribuída gratuitamente em algumas salas de cinema, Bill teve a ideia para um herói anfíbio que crismou de Namor, o Príncipe Submarino (vide texto anterior).                                                            Quando o projeto foi por água abaixo, Bill resolveu mostrar a sua criação a Martin Goodman, um influente editor de quadradinhos detentor de uma importante quota de mercado. Agradado com o trabalho de Bill, Goodman propôs-lhe que aumentasse o número de páginas da história original (de 8 passaria para 12), com vista à sua publicação no volume inaugural de Marvel Comics, a primeira série regular lançada pela Timely Comics (antepassada da Marvel).
   Muito por conta do seu perfil de anti-herói (conceito pouco explorado à época), Namor revelou-se um sucesso instantâneo, depressa se tornando, em paralelo com o Tocha Humana e o Capitão América, uma das figuras de proa da recém-fundada editora.
  Face à crescente popularidade das historietas do Príncipe Submarino, Bill (que as escrevia e desenhava) logo introduziria nelas um lote de coadjuvantes, entre os quais avultavam Namora e Betty Dean. Enquanto a primeira era prima do soberano das profundezas oceânicas com poderes similares aos seus, a segunda era uma agente policial que era simultaneamente interesse romântico e parceira do herói no combate ao crime.

Um dos primeiros super-heróis da História,
o Príncipe Submarino foi a obra-prima de Bill Everett
   Quando a carreira profissional de Bill Everett parecia ir de vento em popa, foi subitamente interrompida em 1942, ano em que ele foi cooptado pelo Exército norte-americano em consequência da entrada dos EUA na II Guerra Mundial. Dois anos mais tarde, após regressar do teatro operações europeu, Bill casaria com Gwen Randall, também ela a cumprir serviço militar.
    Em vésperas de embarcar para nova comissão numa frente de guerra - desta feita nas Filipinas-, Bill foi pai de uma menina. Que, até ao início de 1946 (altura em que Bill regressou a casa no pós-guerra), seria criada apenas pela mãe.      
   De volta aos EUA, Bill aproveitou a  herança de um tio-avô entretanto falecido,para tirar umas férias prolongadas e fazer várias viagens dentro e fora dos EUA antes de assentar na cidade natal da mulher, no Nebraska.
   Foi por essa altura que ele reatou a sua ligação com Martin Goodman e a Timely Comics. Enviando os seus trabalhos por correio, Bill retomou as histórias do Príncipe Submarino no ponto onde as deixara quatro anos antes. Acrescentando-lhes a sua colaboração com outras séries regulares da editora, como The Human Torch, Marvel Mistery Comics e Namora. Durante esta fase prolífica da sua carreira, Bill adotou diversos pseudónimos, entre os quais Bill Roman e Willie Bee.

Namora, outra das criações de Bill Everett,
fez furor na Idade do Ouro dos Quadradinhos.

   Tudo mudaria, porém, com a chegada da nova década. No início dos anos 1950, a Timely Comics deu lugar à Atlas Comics. A mudança de nome foi contudo insuficiente para contrariar o declínio que afetava o género super-heroístico. E Namor, apesar de aclamado pouco tempo antes, não fugiu à regra. Com a sua popularidade em queda livre junto dos leitores, o Príncipe Submarino tivera o seu título cancelado em 1949, precisamente uma década depois da sua estreia oficial.
   Após um interregno de 4 anos, em 1953, o herói atlante, juntamente com o Capitão América, o Tocha Humana e Namora, foram reabilitados pela Atlas. Nesse contexto, Bill Everett foi uma vez mais chamado a assumir a arte (mas já não a escrita) das histórias da personagem que idealizara, na vã esperança de lhe restaurar a glória do passado.
 Paralelamente ao trabalho artístico desenvolvido em Sub-Mariner Comics durante esse período,  Bill Everett desenharia também outros títulos de charneira da companhia, como Venus, Marvel Boy e Menace. Este último era uma antologia de contos de terror, muitos dos quais eram da autoria do então editor-chefe da Atlas: um jovem promissor chamado Stan Lee que muito admirava o traço de Bill. Tanto que, em 1964, lhe confiou a tarefa de desenhar os primeiros esboços da sua mais recente criação: Daredevil (Demolidor). Ou, pelo menos, uns dos primeiros esboços da personagem, considerando que Jack Kirby  afirmou em diversas ocasiões ter sido ele o primeiro a desenhar o Homem Sem Medo.
   Procurando deslindar um mistério com mais de meio século, Mark Evanier, historiador da Nona Arte, entrevistou certa vez Kirby e Everett. A sua investigação resultaria, contudo, inconclusiva.
  De acordo com Evanier, Kirby fora de facto o primeiro a trabalhar no visual do Homem Sem Medo. Era também dele o traço que surgia na primeira página da história que dava a conhecer a origem do herói. Dados confirmados por Bill Everett na citada entrevista. No entanto, a partir deste ponto, as coisas ficam algo nebulosas. Nenhum dos envolvidos parecia recordar com precisão como tudo se processou. Embora tenham ambos concordado que o mais provável é que, por causa de algum atraso por parte de Kirby na finalização do seu trabalho, Stan Lee tenha resolvido procurar alguém que o fizesse. Tudo indicando que terá sido Bill Everett a voluntariar-se para o efeito. Recebendo dessa forma os créditos pela coautoria do Demolidor.

A origem do Demolidor contou com o traço de Bill Everett.
Mas terá sido ele o primeiro a desenhar o herói cego?

  Versão desmentida, no entanto, pelo ex-editor-chefe da Marvel, Joe Quesada. Segundo ele, terá sido Bill Everett quem se atrasou na entrega das ilustrações da primeira história do Homem Sem Medo, cabendo a Steve Ditko* terminar o trabalho, tendo como base os esboços feitos algum tempo antes por Jack Kirby.
  Esta tese ganha alguma força quando analisamos as palavras do próprio Bill Everett numa entrevista concedida em 1969 ao ex-editor da Marvel, Roy Thomas. Questionado sobre a polémica em torno do seu papel na conceção do Demolidor, Bill respondeu: "Devo ter telefonado ao Stan Lee ou mantido algum tipo de contacto com ele. Não sei o que me terá levado a fazê-lo. Sei apenas que tentámos articular as nossas ideias por telefone. Como as coisas não atavam nem desatavam à distância, julgo que terei sugerido deslocar-me a Nova Iorque para uma reunião com ele. Devo ter pedido uma folga no emprego (como diretor artístico na Eton Paper Corporation, no Massachusetts) e arrepiado caminho. Eu tinha desenhado a história que Stan me pedira, mas não podia continuar a fazê-lo por causa do meu emprego. É importante que se perceba que eu trabalhava diariamente 14 ou 15 horas na fábrica e que, madrugada adentro, tentava desenhar histórias aos quadradinhos. Era areia de mais para a minha camioneta. Era por isso que me recusava a trabalhar com prazos, pois sabia que dificilmente os cumpriria. Foi esse o motivo pelo qual, depois de ter desenhado a primeira história do Demolidor, disse a Stan que não poderia contar mais comigo."
   Não obstante, em meados de 1966, Bill Everett recomeçaria a trabalhar para a Marvel. Primeiro arte-finalizando os esboços de Jack Kirby nas histórias do Hulk publicadas em Tales to Astonish, e mais tarde emprestando o seu traço às aventuras do Doutor Estranho em Strange Tales. Graças a The Great Comics Book Heroes (obra antológica da autoria de Jules Feiffer, dada à estampa em 1965), a nova safra de leitores de quadradinhos pôde conhecer também o trabalho desenvolvido por Bill nas décadas anteriores.

*Perfil disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2012/03/eternos-steve-ditko.html

A última capa de Sub-Mariner desenhada por Bill Everett.
 
  A viver uma das mais prósperas fases da sua carreira, consta que, em finais de 1971, Bill Everett terá sido a primeira escolha de Stan Lee para assumir a arte de Tomb of Dracula, antologia de histórias de terror cujo número inaugural chegaria às bancas no ano seguinte.
  Certo é que por essa altura já Bill havia retomado a sua ligação ao Príncipe Submarino, cujas histórias produzia ora sozinho ora assessorado por terceiros. Seria, no entanto, traído pela sua saúde que, ao degradar-se de forma galopante, o impediria de dar continuidade ao magnífico trabalho que vinha desenvolvendo nas páginas de Sub-Mariner.
  Num derradeiro esforço, o criador de Namor tentaria ainda, no início de 1973, finalizar um crossover do monarca atlante com o Homem-Aranha a ser publicado num número de Marvel Team-Up. Acabaria, contudo, por se finar antes de o conseguir fazer. Tinha então 55 anos e sobreviveram-lhe a mulher e a filha.
  Num capricho do Destino, Bill Everett teve pois no Príncipe Submarino o seu alfa e o seu ómega, despedindo-se do mundo a trabalhar na personagem que o alcandorou ao Olimpo dos iconoclastas do século XX.

Bill Everett numa convenção de quadradinhos
 em abril de 1970, 3 anos antes da sua morte.

   
   

   
 
     

quinta-feira, 12 de maio de 2016

HERÓIS EM AÇÃO: NAMOR, O PRÍNCIPE SUBMARINO




   Soberano das profundezas oceânicas, a despeito da sua herança mestiça, nem sempre se relacionou de forma harmoniosa com os habitantes da superfície. Ocupa, ainda assim, lugar de destaque no arquivo museológico da 9ª arte por via do seu duplo estatuto de primeiro mutante e de um dos mais antigos super-heróis dos quadradinhos.

Nome original: Namor, The Sub-Mariner
Licenciadoras: Timely Comics (1939-49), Atlas Comics (1954-55) e Marvel Comics (desde 1962)
Criador: Bill Everett
Primeira aparição: Motion Picture Funnies Weekly nº1 (abril de 1939)
Identidade civil: Namor McKenzie
Local de nascimento: Atlântida
Espécie: Mutante híbrido de humano e atlante
Parentes conhecidos: Fen e Leonard McKenzie (pais biológicos falecidos), Tom e Gladys Smallwood (pais adotivos), Lawrence McKenzie (meio-irmão), Dorma (ex-esposa falecida), Marrina (esposa), Kamar (filho falecido), Namora e Namorita (primas). A este núcleo familiar acresce ainda uma longa linhagem, humana e atlante, de antepassados e descendentes do Príncipe Submarino.
Afiliação: Ex-membro do Esquadrão Vitorioso, dos Invasores, Vingadores, X-Men, Defensores, Illuminati, da Cabala e da Força Fénix
Base de operações: Nova Atlântida
Armas, poderes e habilidades: Por conta da sua singular herança genética, Namor é um espécime único tanto entre humanos como entre atlantes. Embora a maior parte dos seus poderes e habilidades derivem dessa mestiçagem, a sua capacidade de voar não pode ser explicada por essa condição. Motivo pelo qual ele é comummente designado como o primeiro mutante do Universo Marvel. Este é, porém, um título discutível, conforme fica demonstrado no tópico seguinte.
   Aquando da sua estreia nos quadradinhos no já longínquo ano de 1939, Namor foi descrito por Bill Everett (seu criador) como um ser anfíbio capaz de voar e detentor de uma força descomunal equivalente à de várias centenas de homens da superfície. Ou seja, uma gama de poderes muito mais restrita do que aquela de que dispõe atualmente. E que encolheu ainda mais  em 1954 quando, no âmbito de uma tentativa de reabilitação da personagem levada a cabo pela Atlas Comics (ver Histórico de publicação), o Príncipe Submarino foi espoliado das suas icónicas asas nos tornozelos e, por conseguinte, do seu poder de voo. Ambos lhe seriam, contudo, restituídos pouco tempo depois.
  No início dos anos 60 do século passado, Stan Lee e Jack Kirby revitalizaram Namor, concedendo-lhe no processo novos poderes e habilidades. Uma dessas novas habilidades consistia na sua recém-adquirida (e logo omitida) capacidade de mimetizar as características de algumas espécies marinhas. Inovação que não foi bem acolhida pelos leitores (porventura pela sua similitude com os poderes de Aquaman, seu émulo da DC), tendo sido exibida somente em duas histórias publicadas em Fantastic Four.

Um portento anfíbio.

   Não obstante, em qualquer uma das suas encarnações, Namor foi sempre descrito como possuidor de superforça (estima-se que poderá ultrapassar as 75 toneladas, o que faz dele uma das personagens mais pujantes do Universo Marvel), bem como de velocidade, resistência e agilidade sobre-humanas. Oscilando o nível dos seus poderes em função do seu contacto com a água. Quanto mais tempo o herói permanecer arredado do seu elemento natural, mais enfraquecido ficará.
 Outra das suas mais extraordinárias capacidades é a de comunicar telepaticamente com qualquer criatura marinha senciente (incluindo os seus súbditos atlantes e, especula-se, até mesmo com os humanos). Somando-se a isto uma panóplia de habilidades subsidiárias onde se incluem o seu biossonar, os seus sentidos amplificados, as suas propriedades regenerativas e a sua longevidade (a esperança média de vida de um atlante comum ronda os 120 anos).
  Em complemento a tudo isto, Namor porta muitas vezes o Tridente de Neptuno. Trata-se de um artefacto milenar forjado num metal místico que, entre outras coisas, permite ao seu usuário manipular a água em qualquer um dos seus estados e disparar poderosas rajadas energéticas.
   Em consequência da sua exigente formação como monarca da Atlântida, o Príncipe Submarino alia aos seus poderes a proficiência no combate corpo a corpo, a habilidade diplomática e uma superior cultura tática. Tal profusão de recursos faz de Namor um oponente de respeito, mesmo quando tem pela frente adversários de grande poder.

Namor versus Coisa: combate de pesos-pesados.

Mutante? Sim. O primeiro de todos? Discutível.

  Conforme ressalvei acima, apesar de Namor ser habitualmente referenciado como o primeiro mutante do Universo Marvel, esse estatuto é dúbio. Senão vejamos: no quesito editorial, em 1939 o Príncipe Submarino foi, efetivamente, a primeira personagem a ser descrita com características genéticas idênticas às dos Homo superior. Contudo, cronologicamente, a sua aparição foi precedida de um leque de outros mutantes. Alguns dos quais velhos de séculos, como é o caso de Apocalipse (que reclama para si o título de O Primeiro).
  O vilão nascido no Antigo Egito não é, porém, caso único na medida em que Wolverine terá, provavelmente, vindo ao mundo em finais do século XIX. Havendo ainda a registar nesta categoria de anciãos portadores do gene X Selene, mutante imortal que se afirma mais antiga do que o próprio Tempo (o que, a ser verdade, faria dela a primeira Homo superior da História).
   Outro aspeto a levar em consideração nesta análise está relacionado com a natureza híbrida de Namor. Convém lembrar que nas suas veias corre tanto sangue humano como atlante. Peculiaridade que o torna ímpar mesmo no seio da comunidade mutante.
   Nada indica, ademais, que o Príncipe Submarino traga atrelada a si uma história plurissecular desconhecida que, pelo menos do ponto de vista cronológico, o coloque no mesmo patamar de qualquer um dos exemplos supramencionados.

Ao trono da Atlântida, Namor soma
o (questionável) título de primeiro mutante.
    
Fraquezas: Ironicamente, decorrem também da fisiologia híbrida de Namor as suas principais fraquezas. Sobressaindo desde logo os efeitos nocivos, tanto a nível físico como psicológico, induzidos pelo desequilíbrio de oxigénio no seu organismo. Quando permanece demasiado tempo dentro de água ou fora dela, o Príncipe Submarino evidencia frequentemente sintomas de bipolaridade. Distúrbio mental que explica em larga medida as súbitas oscilações de humor e a irascibilidade que são a sua imagem de marca. Mas que podem ser prevenidas se o Filho Vingador encontrar o ponto de equilíbrio entre o tempo de permanência em ambas as atmosferas.
  É possível que a esta sua fraqueza esteja associada uma outra, ainda que tal nunca tinha sido devidamente comprovado: quando atingido em determinados pontos da cabeça, Namor sucumbe facilmente. Mesmo que a pancada tenha sido desferida por um humano munido de uma simples barra de ferro ou de qualquer outro objeto contundente. Facto desconcertante considerando que o monarca atlante já resistiu a violentos golpes aplicados na mesma parte do corpo pelo próprio Hulk.
   Por outro lado, a ambivalência moral de Namor  faz com que sejam tantos os que o veem como herói como os que o consideram um escroque (que o diga o Sr. Fantástico que no passado viu a esposa ter um tórrido affair com o Príncipe Submarino ), representando essa outra das suas fraquezas. Com efeito, devido ao seu caráter ambíguo, Namor nem sempre se assume como um aliado confiável aos olhos dos outros heróis.

O amor adúltero de Namor e Susan Richards.

Histórico de publicação: Namor, o Príncipe Submarino surgiu pela primeira vez em abril de 1939 no protótipo de Motion Picture Funnies Weekly, uma banda desenhada produzida pela Funnies Inc. e que estava previsto ser distribuída como brinde em alguns cinemas estadunidenses. Quando a iniciativa abortou devido à falta de financiamento, Bill Everett usou a personagem em Marvel Comics nº1, título entretanto lançado pela Timely Comics (predecessora da Marvel) e renomeado como Marvel Mistery Comics logo a partir do seu segundo número.
   Nas suas primeiras aparições, Namor agia como um inimigo dos EUA. Descrito assim por Les Daniels, um dos mais reputados historiadores da 9ª arte: "O Príncipe Submarino era uma aberração ao serviço do caos. Embora o seu modus operandi fosse o de um vilão, os leitores entreviam alguma justiça nas suas causas. Facto que os levava a perdoar a destruição em massa que ele causava de cada vez que entrava em cena."


Bill Everett (1917-1973) teve em Namor o seu maior êxito criativo.
Consta que, em todo o mundo, haverá apenas
 8 exemplares de Motion Picture Funnies Weekly nº1 (1939)

Namor debutou em Marvel Comics nº1 (1939) .

   A partir de julho de 1941 (e durante oito anos consecutivos), Namor dispôs do seu próprio título. Sub-Mariner Comics começou por ter uma periodicidade quadrimestral mas, em virtude da sua enorme popularidade junto do público, passaria a trimestral e, mais tarde, a bimestral.
   À semelhança da generalidade das personagens da Timely Comics, Namor foi votado ao ostracismo em consequência do declínio do género super-heroico após a II Guerra Mundial. Em 1946 assistiu-se ainda a uma tentativa de inverter essa situação,  através do lançamento de All-Winners Squad. Série mensal estrelada por um grupo de combatentes do crime que incluía, além do Príncipe Submarino, o Capitão América, o Tocha Humana original e um punhado de heróis da Idade do Ouro que assim tentavam emergir das brumas da memória.
   Mas o destino dessas personagens consideradas obsoletas estava traçado e, por um longo período de tempo, ficariam aprisionadas num limbo. Exceção feita ao breve parêntesis (1954-55) em que foram resgatadas pela Atlas Comics. Apesar das boas intenções da editora (que chegou a ressuscitar o título Sub-Mariner Comics), a adesão do público foi fraca e os heróis voltaram a ser colocados na prateleira. De onde seriam quase todos retirados nos primeiros anos da década de 1960, quando Stan Lee e Jack Kirby reinventaram o conceito de super-heróis.


Número inaugural do título solo do Príncipe Submarino (1941).


Heróis de outrora que o mundo teimava em esquecer

   No caso específico do Príncipe Submarino, a sua reentrada em cena ocorreu em 1962, nas páginas de Fantastic Four nº4 (datado de maio desse ano). Depois de ser encontrado pelo novo Tocha Humana a errar pelas ruas de Nova Iorque como um mendigo amnésico, Namor consegue recuperar a memória com a ajuda do benjamim do Quarteto Fantástico e rapidamente regressa à sua Atlântida natal. Encontrando-a devastada por testes nucleares subaquáticos, resolve fazer jus ao cognome de Filho Vingador  e declara guerra à humanidade. Impelido quer pelo seu desejo de vingança quer pela sua crise de identidade, Namor corresponde, nesta sua encarnação moderna, ao modelo de anti-herói.
   Apesar da sua sobranceria relativamente aos habitantes da superfície, durante esta fase o Príncipe Submarino era, em última análise, um pária. Estatuto contrariado, no dealbar da década de 1970, pela sua adesão aos Defensores (cujo elenco primitivo incluía ainda o Dr. Estranho, o Surfista Prateado e o Hulk); apenas o primeiro de vários coletivos heroicos de que o monarca atlante faria parte nos anos seguintes.
    Privado de um título próprio, o percurso editorial de Namor na década de 1980 foi marcado pela intermitência. Desse período há, no entanto, a destacar The Saga of the Sub-Mariner, minissérie em doze capítulos publicada entre 1988 e 1989 e  que serviu. essencialmente, para cortar algumas das pontas soltas na cronologia do herói.

Logo na estreia da sua versão moderna,
 Namor cobiçou mulher alheia

   Inicialmente escrita e ilustrada por John Byrne, em 1990 chegou às bancas norte-americanas a nova e aclamada série regular do Príncipe Submarino, intitulada Namor, The Sub-Mariner. Coincidindo o  seu declínio com a saída do autor canadiano e o subsequente corrupio de escritores e artistas. Malgrado essas vicissitudes, o título subsistiu durante cinco anos, ao longo dos quais foram lançados 62 volumes. Nessa fase, Namor vestiu a pele de um magnata engajado com a defesa do ambiente, particularmente dos ecossistemas marinhos ameaçados pela ação imprudente dos habitantes da superfície.

O regresso do Filho Vingador
pelas competentes mãos de John Byrne.

   Ainda que com alguns percalços de permeio (como o precoce cancelamento da sua nova série mensal em 2011), aos poucos o Príncipe Submarino tem vindo a recuperar o seu estatuto de figura cimeira do Universo Marvel. Para isso contribuiu, em primeiro lugar, a sua participação nos Illuminati, conclave de super-heróis que opera nos bastidores para influenciar alguns dos mais importante eventos mundiais. Por outro lado, na saga Avengers versus X-Men (2012), Namor teve papel de destaque ao ser um dos cinco hospedeiros da Força Fénix corrompidos pelo incomensurável poder da entidade cósmica. Foi, de resto, nessa condição que o soberano da Atlântida lançou um devastador ataque a Wakanda, lar do Pantera Negra.Facto que ditaria o acirrar do conflito em curso.
   Mesmo tendo estado do lado dos vencidos nesse confronto épico entre duas das mais poderosas equipas de super-heróis do mundo, Namor conservou o seu lugar entre os Illuminati que, no biénio 2013-2015, foram cabeças de cartaz na terceira série de The New Avengers.
   Em fevereiro deste ano, nas páginas de Squadron Supreme vol. 4 nº1,  Namor foi brutalmente assassinado por Hyperion, quando tentava vingar a destruição da Atlântida às mãos deste. Atendendo, contudo, à reversibilidade da morte nos quadradinhos, é deveras plausível um retorno do herói a breve trecho.

   
Namor posa com os restantes Illuminati. 

Origem: Meses antes da eclosão da II Guerra Mundial, um navio de exploração oceanográfica chamado "Oracle" navegava ao largo da Antártida. Para abrir caminho entre a enorme massa de gelo,os tripulantes fizeram detonar várias cargas explosivas no fundo do mar. Liderada pelo enigmático Paul Destino, a expedição procurava secretamente vestígios de uma antiga civilização.
  Acidentalmente, as cargas explosivas detonadas pela tripulação do "Oracle" causaram enormes prejuízos na Atlântida, uma cidadela subaquática que servia de lar a outra civilização lendária.
  Julgando tratar-se de um ataque ao seu povo, Thakorr, o imperador atlante, ordenou à sua filha, a princesa Fen, que fosse com um batalhão armado à superfície para descobrir a identidade dos seus pretensos agressores. Afoita, Fen resolveu contudo ir por conta própria. Ingerindo uma poção que lhe permitia respirar fora de água, subiu a bordo do "Oracle", deixando toda a tripulação inebriada com a sua estonteante beleza.
   Determinada em aprofundar a sua investigação, a princesa atlante decidiu permanecer a bordo da embarcação. A sua presença serviu para impedir novas detonações que fizessem perigar o seu povo. Entretanto, aprendeu também a língua e os costumes dos habitantes da superfície. Contando para isso com a ajuda de Leonard McKenzie, o comandante do "Oracle", por quem logo se enamoraria.
   Já depois de o casal ter trocado alianças a bordo do navio, McKenzie descobriu Lemúria, outra cidade submersa. Ele e Paul Destino mergulharam então nas profundezas para explorá-la. Porém, ao deparar-se com uma relíquia maligna chamada Capacete do Poder, Destino enlouqueceu e provocou a destruição da Atlântida. Centenas dos seus habitantes pereceram em consequência dessa calamidade.
   Horrorizado com o que testemunhara, McKenzie apressou-se a regressar ao "Oracle". Seria, todavia, gravemente ferido pelos soldados atlantes enviados pelo Imperador Thakorr, para resgatar Fen, que acreditava ter sido feita refém. A princesa, por sua vez, julgou que o marido não havia sobrevivido ao ataque perpetrado pelos seus compatriotas.
   Regressada à Atlântida - cuja reconstrução começara entretanto - Fen descobriu estar grávida. Meses depois nasceria Namor (nome que significa "Filho Vingador" no dialeto atlante), cuja pele rosada destoava da tez azulada dos demais atlantes. Muitos dos quais não viam com bons olhos a possibilidade de virem a ser governados por um mestiço.

Filho de dois mundos, Namor
 nunca se encaixou em nenhum deles.

  À medida que crescia, Namor foi vivendo rocambolescas aventuras submarinas (inclusive jogadas políticas com vista à tomada do poder), praticamente sem contacto com o mundo da superfície. Cujos habitantes ele desprezava profundamente, tanto devido à poluição marítima por eles causada como por conta das lendas atlantes que lhe iam sendo transmitidas e que, invariavelmente, diabolizavam os humanos.


Do fundo do mar para a ribalta.
 
   Nos primórdios da II Guerra Mundial, a Atlântida seria um dano colateral das encarniçadas batalhas navais entre os Aliados e as forças do Eixo. Enviado pelo seu avô em busca de vingança para o seu povo, Namor começou por atacar o coração de Nova Iorque. Sendo então confrontado pelo Tocha Humana original*. A rivalidade entre ambos tornar-se-ia, de resto, lendária. Só uma ameaça comum os obrigaria a porem de lado as suas diferenças. O que aconteceria quando, juntamente com o Capitão América, os dois formaram os Invasores** com o propósito de travar o avanço do Terceiro Reich.
  Despontava assim a longa e controversa carreira pública do Príncipe Submarino, marcada por  inúmeros triunfos e tormentos. Se é verdade que ele nem sempre esteve do lado certo da barricada, não é menos verdade que sempre se mostrou firme na luta pelas causas que abraçou, nomeadamente a defesa do povo atlante e da comunidade mutante.

* Criação de Carl Burgos, tal como Namor, a estreia do primeiro Tocha Humana remonta a 1939. Tratava-se de um androide com poderes incandescentes projetado por um cientista chamado Phineas Horton. Não confundir, portanto, com o Tocha Humana do Quarteto Fantástico, cujo nome serviu para homenagear o seu antepassado da Idade do Ouro.
** A origem e a lista de membros dos Invasores pode ser consultada em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2015/02/herois-em-acao-invasores.html


Revisitação do duelo clássico entre
 Namor e o primeiro Tocha Humana.
     
Curiosidades: 

* O reino submerso que servia de lar a Namor foi pela primeira vez referenciado como sendo a lendária Atlântida aquando da revitalização operada por Stan Lee e Jack Kirby em 1962;
* Imperius Rex, o estridente grito de guerra que o Príncipe Submarino entoa nas suas batalhas, é uma expressão latina que significa "Rei do Império";
* Em meados dos anos 1970, Namor foi um dos heróis incluídos na coleção de selos lançada pela Marvel;
* Por contraponto aos outros antigos membros do Quinteto Fénix (os cinco hospedeiros da Força Fénix na saga Avengers versus X-Men), o Príncipe Submarino não teve os seus poderes afetados após a sua desvinculação da entidade cósmica.

A estampilha dedicada a Namor
 na coleção lançada pela Marvel nos anos 1970.

Noutros media: A despeito do seu impressionante lastro histórico nos quadradinhos, até à data, o Príncipe Submarino não conseguiu ainda exportar a sua influência para o panorama audiovisual.
  Ainda em meados dos anos 50 do século passado, foi equacionada a produção de uma série de ação real baseada no herói, mas o projeto acabaria por nunca se materializar. Cerca de duas décadas volvidas, outro projeto dessa natureza acabaria abortado por conta das suas semelhanças com The Man From Atlantis (série televisiva vagamente inspirada em Namor que, em terras lusas, foi titulada de O Homem da Atlântida e, no Brasil, de O Homem do Fundo do Mar).
  Mais recentemente, em 1997, os Estúdios Marvel encetaram contactos com o realizador Phillip Kaufman e com o argumentista Sam Hamm com vista à produção de uma longa-metragem estrelada pelo Príncipe Submarino. No entanto, em virtude de sucessivos adiamentos e constrangimentos, a sua estreia cinematográfica continua sem data marcada.

As várias versões animadas do Príncipe Submarino.

   Se no currículo mediático do Príncipe Submarino há um embaraçoso espaço em branco no que a produções de ação real diz respeito, o quadro é pouco mais animador em matéria de animação. À parte um segmento próprio de que dispôs em 1966 na série animada The Marvel Super-Heroes, contam-se pelos dedos de uma mão as participações (pouco relevantes) de Namor em séries alheias. E já lá vão dez anos desde que isso aconteceu pela última vez. Foi em 2006, num par de  episódios de Fantastic Four: World's Greatest Heroes. 
    É, pois, caso para dizer que, fora da BD, Namor se sente como peixe fora de água. E nem os seus poderes anfíbios lhe parecem valer de grande coisa.

Um herói septuagenário preparado
 para enfrentar os desafios dos nossos dias.