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sábado, 3 de março de 2018

FÁBRICAS DE MITOS: CHARLTON COMICS


 Fundada atrás das grades, foi uma incubadora de talentos ímpar na sua autossuficiência. Alcançou glória efémera na Idade da Prata graças ao seus "heróis de ação"que inspirariam os Watchmen, de Alan Moore.

Reis da Sucata

Menos glamorosa e com contornos mais invulgares do que as de outras editoras surgidas em plena Idade do Ouro, a história da Charlton Comics começou a escrever-se em 1923. Nesse ano, seguindo as pisadas de tantos outros dos seus conterrâneos, um jovem italiano chamado John Santangelo cruzou o Atlântico à conquista do Sonho Americano.
Desembarcado em Nova Iorque com a sua mala de cartão, Santangelo começou por garantir o sustento a trabalhar como pedreiro antes de se estabelecer como empresário da construção. Estávamos em 1931 e, por esses dias, o rádio era ainda uma vibrante novidade. Mercê desse facto, em muitos lares continuava a ouvir-se música através de gira-discos, grafonolas e outros aparelhos similares. Cuja deficiente acústica nem sempre permitia aos ouvintes acompanharem as letras das suas melodias favoritas.

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Apesar do apregoado
 em anúncios publicitários como este,
 o som das grafonolas e afins 

deixava muito a desejar.
Ocorreu então ao ladino Santangelo, dono de um apurado faro para o negócio, que não faltariam porventura interessados em comprar as letras impressas das canções mais populares. E, se bem o pensou, melhor o fez: pouco tempo depois do seu momento eureca, Santangelo arrecadava já bom dinheiro com a venda de brochuras contendo esse tipo de material.
Havia apenas um pequeno senão: Santangelo não pagava direitos de autor pelas letras que disponibilizava ao público. Processado pela Sociedade Americana de Compositores, Autores e Produtores, de nada lhe valeram em tribunal as suas alegações de que ignorava em absoluto ter cometido uma infração.
Apesar dessas proclamações de inocência, em 1934 Santangelo seria mesmo sentenciado a um ano de prisão efetiva. Pena que cumpriria integralmente na Penitenciária Estadual de New Haven, no estado vizinho do Connecticut; não muito longe de Derby, a pequena cidade para onde ele e a sua cara-metade se haviam mudado tempos atrás, e que viria a acolher a sede da Charlton Publications.
Durante essa sua curta estadia atrás das grades, Santangelo travou amizade com Edward Levy, um ex-advogado a cumprir pena ligeira por crimes de colarinho branco, e que sabia reconhecer uma boa ideia quando lha apresentavam.
Visto que ambos seriam em breve restituídos à liberdade, Santangelo e Levy tornaram-se sócios no que viria a ser um negócio legal de divulgação de letras de canções e das novas tendências musicais. Ambos tinham filhos chamados Charles e, por isso, concordaram em batizar a futura editora de T.W.O. Charles Company.
Numa opção estratégica que se revelaria decisiva para o êxito do empreendimento, Santangelo e Levy adquiriram uma gráfica industrial e uma robusta frota de camiões. A primeira asseguraria a impressão das publicações, a segunda a sua distribuição um pouco por todo o país. Fazendo assim da T.W.O. Charles Company um caso único de autossuficiência no panorama editorial norte-americano.
Da edição à distribuição passando pela impressão, a empresa controlava toda a cadeia de produção a partir do seu quartel-general em Derby. Se por um lado isso lhe conferia uma importante vantagem sobre a concorrência, por outro encorajava uma menor exigência no que à qualidade do material produzido dizia respeito, já que a T.W.O. Charles Company não tinha de prestar contas a quem quer que fosse.

Panorâmica aérea da antiga sede da Charlton Publications, em Derby.
Demolida em 1999, no seu lugar existe hoje um centro comercial.
Quando tudo ficou finalmente a postos, no início de 1942 a T.W.O. Charles Company lançou Hit Pareder, um dos primeiros e mais duradouros magazines musicais publicado ininterruptamente ao longo de meio século. Embora especializada nesse tipo de material, o catálogo da nova editora incluía originalmente livros e revistas de palavras cruzadas.

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Fenómeno de longevidade, o magazine musical Hit Parader
 seria publicado pela Charlton até 1991.
Renomeada Charlton Publications em 1945, no ano seguinte a editora decidiu lançar a sua própria linha de histórias aos quadradinhos. Contrariamente a outras fábricas de mitos que continuavam a laborar a toda a brida, fê-lo no entanto com o exclusivo propósito de manter as suas gigantescas rotativas a funcionarem em contínuo, dado que qualquer pausa acarretaria custos proibitivos.
Assim nasceu a Charlton Comics, com a mediocridade inscrita no seu código genético. Salvo por uma outra pequena pepita, ao longo da sua história notabilizar-se-ia por vender pechisbeque e outras bugigangas de reduzido valor. Dito de outro modo, a Charlton Comics nunca foi uma editora de topo porque nunca aspirou a tal.
Preferindo seguir tendências a criá-las, a Charlton Comics navegou sempre ao sabor das caprichosas correntes do mercado: quando, na viragem da década de 50, os contos de terror estiveram na berlinda, a editora prosperou por conta deles; quando, a meio da década seguinte, as histórias de guerra perderam o seu apelo devido à impopularidade do conflito no Vietname, as suas vendas ressentiram-se.
Há, ainda assim, que lhe reconhecer o mérito de, por contraponto a muitas das suas concorrentes, ter conseguido manter-se à tona entre as cíclicas borrascas que fustigaram a indústria dos comics. Chegando mesmo a crescer em contraciclo. Quando, no final da II Guerra Mundial, as histórias aos quadradinhos entraram em declínio levando à falência de muitas editoras, a Charlton, escorada na sua autossuficiência e no ecletismo das suas publicações, não só resistiu à crise como aumentou a sua lucratividade.
Importa por outro lado ressalvar que, apesar do ecletismo do catálogo da Charlton Comics (no qual cabia uma impressionante variedade de géneros abrangendo desde romance adolescente a façanhas do Velho Oeste passando pela ficção científica), os super-heróis estiveram durante muito tempo subrepresentados nele. Sobrevindo este facto de a editora os ter encarado sempre como um subproduto, logo ainda mais descartável do que os restantes.


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Quatro dos títulos mais emblemáticos
 da Charlton Publications.
Apesar desse seu diminuto apreço pelo género super-heroico, a Charlton já antes se aventurara na publicação de material dessa natureza. Em setembro de 1944, tinha chegado às bancas Yellowjacket, uma antologia de historietas de terror e de super-heróis com o selo da Frank Comunale Publishing Company.
Era comum nos primórdios da indústria dos quadradinhos as editoras mudarem frequentemente de nome, por forma a contornarem o racionamento de papel imposto pelo esforço de guerra e/ou para ludibriarem o Fisco. Escusado será dizer que a Charlton Comics não fugiu à regra tendo criado, além da já mencionada Frank Comunale Publishing Company, várias outras subsidiárias. Casos da Children Comics Publishing (vocacionada para o público infantil, publicou Zoo Funnies, um dos títulos de charneira da editora), da Charles Company Publishing ou ainda da Frank Publications.

Yellowjacket nº1 (1944) incluía as primeiras histórias
 de super-heróis publicadas pela Charlton.
Mantendo-se fiel ao seu perfil low cost - e sempre sob a liderança bicéfala de Levy (diretor executivo) e Santangelo (diretor financeiro) - ao longo dos anos seguintes a Charlton Comics compraria ao desbarato personagens detidas por editoras moribundas ou a braços com graves problemas de tesouraria. Entre as vítimas da sua necrofagia contam-se a Superior Comics e a Mainline Publications (fundada em tempos por Joe Simon e Jack Kirby, criadores do Capitão América), tendo ainda reclamado para si parte dos despojos mortais da Fawcett Comics*. A sua aquisição de maior monta seria, contudo, o Besouro Azul, antigo porta-estandarte do Fox Features Syndicate.
Outra das práticas pelas quais a Charlton Comics se tornou tristemente notória foi a dos baixos salários pagos aos seus colaboradores. O que não a impediu de conseguir arregimentar, na primeira metade da década de 50,  talentosos artistas e escritores aliciados pelo maior controlo criativo que a editora lhes proporcionava. Entre eles pontificavam algumas futuras lendas da Nona Arte, como Steve Ditko (cocriador do Homem-Aranha). Joe Gill (escriba prolífico) e Dick Giordano (ilustrador virtuoso e futuro editor-chefe da DC Comics). Vindo este último, como mais adiante se perceberá, a ficar inextricavelmente ligado ao curto apogeu da Charlton Comics.
Sinalizando o despontar do que se convencionou designar como a Idade de Prata da banda desenhada, em 1956 a DC Comics reformulou alguns dos seus ícones clássicos, como o Flash e o Lanterna Verde. Influenciada pelo renovado vigor assim infundido ao género super-heroico, logo em 1960 (antecipando-se à revolução trazida pela Marvel Comics a partir do ano imediato) a Charlton criou de raiz o seu primeiro super-herói: o Capitão Átomo.

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O visual original do Capitão Átomo.
Já com Dick Giordano a ocupar o posto de seu editor-chefe, entre 1965 e 1968 a Charlton Comics viveu aquele que a generalidade dos fãs e dos historiadores da Nona Arte consideram ter sido o ponto mais alto da sua carreira. Muito por conta, note-se, dos seus "heróis de ação" (action heroes, no original), designação atribuída por Giordano à nova safra de justiceiros fantasiados da editora. Além do Capitão Átomo e de uma versão recauchetada do Besouro Azul, dele faziam parte também Pacificador, Questão, Thunderbolt e Mestre Judoca, citando apenas os mais populares.
Reflexo dessa inédita aposta num género que até então sempre menosprezara, a Charlton Comics adquiriu, em paralelo, os direitos de licenciamento de Flash Gordon e do Fantasma ao King Features Syndicate. Duas personagens consagradas que, naquela época, eram sinónimo de boas vendas.
Pela mão de Dick Giordano, chegaram ainda à Charlton Comics Jim Aparo**, Dennis O'Neill (que escrevia sob o pseudónimo Sergius O’Shaughnessy) e todo um contingente de novos talentos dos quadradinhos que tiveram na editora a rampa de lançamento para as suas meteóricas carreiras. Transformada num alfobre de estrelas em ascensão, por lá passariam anos mais tarde os "galácticos" John Byrne e Jim Starlin.

Dick Giordano (1932-2010) capitaneou
 uma revolução de veludo na Charlton Comics.
Qual fogo-fátuo, o sucesso dos "heróis de ação" da Charlton Comics esfumou-se num abrir e fechar de olhos. Antes ainda da saída de Giordano para a DC no ano seguinte, em 1967 viram os seus títulos mensais serem cancelados sem apelo nem agravo. Chegava assim ao fim o curto estado de graça de uma editora que nunca foi provida dela.
Naquele que seria o seu derradeiro esforço para reviver o seu panteão super-heroico, em 1973 a Charlton Comics lançou E-Man, cujo tom humorístico das histórias captou inicialmente a atenção dos fãs. No entanto, o seu débil desempenho comercial ditaria o cancelamento da sua série ao fim de uma dezena de números publicados.
Em consequência desse revés, ao longo do resto da década de 1970 a Charlton Comics limitou-se a publicar histórias de terror (das quais os leitores pareciam não se cansar) e a reeditar material antigo do seu inventário. Especializou-se igualmente nas adaptações de séries televisivas que por aqueles dias faziam furor. Casos, por exemplo, de Bionic Woman e The Six Million Dollar Man. Prodigalizando sempre a costumeira mediocridade que, à parte o pequeno parêntesis acima descrito, foi sempre a imagem de marca da editora.

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Da TV para a BD. 
Quando se adivinhava já o seu canto do cisne, em 1983 a Charlton Comics aceitou vender à DC, por uns módicos 30 mil dólares acrescidos de royalties, os seus "heróis de ação" que vinham acumulando poeira numa qualquer gaveta. Segundo consta, ter-se-á tratado de um presente oferecido pelo então Vice-Presidente Executivo da DC, Paul Levitz, a Dick Giordano em reconhecimento pelo excelente trabalho que ele vinha desenvolvendo na Editora das Lendas.
Certamente mais do que uma infeliz coincidência, o cerrar definitivo de portas da Charlton ocorreria pouco tempo depois, em 1985. No ano seguinte,  Alan Moore expressou o seu desejo de usar os antigos "heróis de ação" da Charlton em Watchmen, aquela que seria a magnum opus do controverso escritor britânico, e uma das sagas mais memoráveis da história da Nona Arte. Intenção que esbarrou contudo na renitência dos mandachuvas da DC em alienarem a título definitivo ativos recém-adquiridos, e aos quais reconheciam potencialidades. 
Assim, não restou a Moore outro remédio senão criar pastiches descartáveis para a sua história. O Capitão Átomo transformou-se no Doutor Manhattan, o Besouro Azul no Coruja e por aí afora.

Duas faces da mesma moeda:
 os "heróis de ação" da Charlton e os Watchmen, de Alan Moore.
Quanto aos verdadeiros "heróis de ação" da Charlton, tiveram sortes diferentes. Ao passo que Capitão Átomo, Besouro Azul e Questão obtiveram lugar de destaque na mitologia da DC, de Mestre Judoca ou Pacificador restam apenas ténues reminiscências (vide texto seguinte).
Numa deliciosa ironia, seriam pois os mesmos super-heróis de que a Charlton Comics tanto desdenhou a salvá-la do ostracismo a que parecia irremediavelmente condenada.
Epitáfio inglório para uma editora cuja história é um compêndio de oportunidades desperdiçadas, mas cuja "mística" sobrevive ainda na memória afetiva de muitos fãs. E também de antigos colaboradores. Como Dick Giordano que, certa vez, resumiu de forma lapidar o legado da Charlton Comics: "Se assim o tivesse desejado, a Charlton poderia ter ombreado com a DC. Poderia ter produzido material de melhor qualidade por metade do preço. Poderia ter virado o jogo a seu favor e revolucionado a indústria dos quadradinhos. Mas os seus donos preferiram ser os reis da sucata."

*http://bdmarveldc.blogspot.pt/2017/09/fabrica-de-mitos-fawcett-comics.html
**http://bdmarveldc.blogspot.pt/2015/10/eternos-jim-aparo-1932-2005.html

Heróis de Ação

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Falar em panteão super-heroico da Charlton Comics poderá soar um tudo-nada exagerado. Quanto muito,  a editora dispôs brevemente de um lote de justiceiros fantasiados que, se não tivessem sido adquiridos pela DC, estariam muito provavelmente fadados ao oblívio. Sorte a que nem todos lograram, ainda assim, escapar.
Foi, no entanto, por intermédio dos seus "heróis de ação" que a Charlton conseguiu ser mais do que uma mera nota de rodapé na história da Nona Arte. Sendo por isso da mais elementar justiça corrigir alguns equívocos no que à propriedade original dessas personagens concerne. Isto porque, sendo verdade que nem todos correspondem a conceitos originais da editora, também não é menos verdade que alguns continuam a ser erroneamente creditados à DC, como se sempre tivessem sido sua pertença.
Importa por isso dar a conhecer um pouco melhor alguns dos lendários "heróis de ação" da Charlton Comics, mormente aqueles que serviram de modelo aos Watchmen, de Alan Moore.

Besouro Azul (Blue Beetle): Sem dúvida o mais acarinhado dos "heróis de ação" da Charlton, pertenceu originalmente à Fox Comics. Apesar da assinalável popularidade de que gozou durante a Idade do Ouro, não conseguiu reeditá-la sob o selo da nova editora. Joe Jill e Steve Ditko foram por isso incumbidos de desenvolver uma sua nova versão que debutou em Captain Atom nº83 (novembro de 1966). A nova velha personagem depressa conquistaria a simpatia dos fãs. Em Watchmen (saga e filmes já aqui esmiuçados) teve como contraparte o Coruja. Prontuário detalhado em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2015/09/herois-em-acao-besouro-azul.html ;

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Ted Kord,
o segundo Besouro Azul.

Capitão Átomo: O primeiro super-herói original da Charlton Comics e um dos poucos com superpoderes. Também ele saído da imaginação da dupla Joe Gill/Steve Ditko, na sua estreia em Space Adventures nº33 (março de 1960) surgia com um uniforme azul na capa e um dourado no interior da revista. Um erro de impressão que atesta bem o descaso com que este ramo da Charlton Publications tratava os seus produtos. Na DC, o Capitão Átomo teve a sua identidade civil e visual alterados.  Foi nele que Moore se inspirou para criar o Doutor Manhattan. Podem saber mais sobre este herói em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2013/05/herois-em-acao-capitao-atomo.html ;

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Os três uniformes do Capitão Átomo na Charlton.

Mestre Judoca (Judo Master): Mestre das artes marciais e ex-veterano da II Guerra Mundial, foi uma criação de Joe Jill e Frank McLaughlin. Estreou-se em Special War Series nº4 (novembro de 1965), ganhando pouco tempo depois um parceiro juvenil chamado Tigre. Após diversas modificações impostas pela DC, na sua versão mais recente é uma mulher chamada Sonia Sato;

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Lutador invencível.

Pacificador (Peacemaker): Dividia o seu tempo entre o trabalho diplomático como emissário dos EUA na Conferência de Genebra e o combate ao crime como um implacável vigilante urbano. Conceito desenvolvido por Joe Jill e Pat Boyette, fez a sua primeira aparição em Fightin'5 nº40 (novembro de 1966) antes de ganhar um título próprio que duraria apenas 5 números. Serviu de modelo ao cínico Comediante dos Watchmen;

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Paz armada.

Questão (Question): Mesmo sem nunca ter tido direito a uma série em nome próprio, esta criação de Steve Ditko (vista pela primeira vez em junho de 1967, nas páginas de Blue Beetle nº1) foi um dos mais bem-sucedidos "heróis de ação" da Charlton. Popularidade reforçada aquando da sua passagem para a DC, onde ganhou finalmente um título só para si. Teve o seu figurino e modus operandi replicados por Rorschach;

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Justiça sem rosto.

Sombra da Noite (Nightshade): Único elemento feminino do contingente original de "heróis de ação", conseguiu na DC (onde começou por ser integrada no Esquadrão Suicida) a notoriedade que lhe faltou na Charlton. Criação de David Kaler e Steve Ditko, esta teleportadora capaz de gerar sombras vivas estreou-se em Captain Atom nº82 (setembro de 1966). Foi uma das três heroínas clássicas que estiveram na origem da Espectral dos Watchmen (as outras duas foram Lady Fantasma e Canário Negro);

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Sombra viva.

Thunderbolt: Após atingir o ápice físico e mental, este órfão americano criado por monges tibetanos enveredou por uma carreira como combatente do crime. Tendo feito a sua primeira aparição em Peter Cannon, Thunderbolt nº1 (agosto de 1966), os créditos da sua criação pertencem a Peter Morisi. Ozymandias foi diretamente baseado nele, porém nunca conseguiu vingar na DC. É atualmente propriedade da Dynamite Entertainment;

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Ás de ação.

E-Man: Uma entidade alienígena composta por pura energia que podia assumir forma humana. Criado por Nicola Cuti e Joe Staton foi introduzido em E-Man nº1 (outubro de 1973). O registo humorístico das suas aventuras contribuiu em larga medida para o seu efémero sucesso. Apesar de não ser sido incluído no lote de personagens vendidas à DC, a First Comics tentaria revivê-lo nos anos 80;

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A ciência do humor.

Filho de Vulcano (Son of Vulcan): A resposta da Charlton Comics ao Poderoso Thor, da Marvel. Sempre que gritava "Vulcano, ajuda-me!", o repórter de guerra Johnny Mann transformava-se no formidável campeão dos Deuses Romanos. Estreou-se em Mysteries of Unexplored Worlds nº46 (maio de 1965) e teve em Pat Masulli e Bill Fraccio os seus autores. Adquirido pela DC, esteve em grande plano na saga Guerra dos Deuses (War of the Gods, 1991) antes de passar o manto a um Vulcano adolescente.

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Gladiador dos tempos modernos.

Um grande bem-haja ao meu bom e talentoso amigo Emerson Andrade. É da sua autoria a magnífica montagem que abre este artigo. 




















































sábado, 27 de janeiro de 2018

RETROSPETIVA: « O FANTASMA»


  Entre as misteriosas florestas de Bengalla e os desfiladeiros de betão nova-iorquinos, defrontando novos e velhos inimigos, o Fantasma procura resgatar poderosos artefactos místicos e uma paixão do passado.
  No ano em que cumpriu o seu 60º aniversário, aquele que foi um dos primeiros heróis mascarados da BD regressou ao grande ecrã num filme para toda a família. Que, apesar do apocalipse nas bilheteiras, se tornaria objeto de culto e uma relíquia da cultura pulp.

Título original: The Phantom
Ano: 1996
País: EUA / Austrália
Duração: 100 minutos 
Género: Ação/Aventura/Fantasia
Produção: The Ladd Company e Village Roadshow Pictures
Realização: Simon Wincer
Argumento: Jeffrey Boam
Distribuição: Paramount Pictures
Elenco: Billy Zane (Kit Walker/Fantasma), Treat Williams (Xander Drax), Kristy Swanson (Diana Palmer), Catherine Zeta-Jones (Sala), James Remar (Quill), Patrick McGoohan (pai do Fantasma), Radmar Agana Jao (Guran), Robert Coleby (Capitão Philip Horton) e Cary-Hiroyuki Tagawa (o Grande Kabai Sengh)
Orçamento: 45 milhões de dólares
Receitas domésticas: 17,3 milhões de dólares

Quem é o Espírito-Que-Anda?



Assumindo que, entre os que me leem, existirá quem pouco ou nada conheça acerca do Fantasma, entendi por bem começar por resumir a fulgurante trajetória daquele que é um dos mais antigos super-heróis ainda no ativo.
Afinal,  nunca é demais lembrar, este blogue destina-se tanto a eruditos como a leigos em "Heroilogia". Se ao útil conseguir juntar o agradável, tanto melhor. Espero, por isso, que apreciem a pequena lição gratuita que se segue.
A reboque do assinalável êxito de Mandrake, o Mágico - publicado pela primeira vez em 1934, no formato de uma tira diária a preto e branco - os editores do King Features Syndicate instaram Lee Falk a criar uma segunda personagem.
Fascinado desde criança por mitos e lendas, bem como pelas figuras romanescas emanadas da literatura do início do século XX, Falk incluiu elementos de El Cid, Tarzan, Zorro e Robin Hood na conceção de um justiceiro mascarado a que deu o nome de Fantasma (The Phantom, em inglês).

O Fantasma
 foi a segunda criação bem-sucedida de Lee Falk.
Num primeiro momento, o Fantasma foi apresentado como um vigilante urbano de hábitos notívagos a que Jimmy Wells, um playboy milionário, servia de identidade civil (ver Curiosidades). Qualquer semelhança com um certo Homem-Morcego, surgido anos mais tarde, não será decerto mera coincidência...
Considerando existirem já demasiadas personagens com The Phantom no nome (The Phantom Detective, The Phantom of the Opera, etc.), Lee Falk ponderou crismar a sua mais recente criação de The Gray Ghost (O Fantasma Cinzento). Voltaria, no entanto, atrás nessa sua decisão, optando pela manutenção da nomenclatura original.
A 17 de fevereiro de 1936, o Fantasma faria a sua estreia oficial no mesmo formato em que, dois anos antes, Mandrake se dera a conhecer ao público estadunidense. Superando todas as expectativas, o sucesso da nova coqueluche do King Features Syndicate rapidamente extravasaria fronteiras, tornando-se um epifenómeno de popularidade à escala planetária.
No seu auge, em 1966, as tiras do Fantasma (que Lee Falk escreveu até 1999, ano da sua partida do mundo terreno) eram publicadas em quase 600 jornais de todo o mundo, atingindo dessa forma uma audiência diária estimada em 100 milhões de leitores.
Por razões de ordem diversa - que iam desde preferências cromáticas a (im)possibilidades gráficas - as cores do uniforme do Fantasma sofreram modificações nalguns países. Se, no Brasil e na Itália, o roxo original deu lugar ao encarnado, nas nações escandinavas foi o azul a prevalecer.

Durante muitos anos,
 o Fantasma vestiu de vermelho no Brasil.
Esse retumbante sucesso sobreveio, em larga medida, da reformulação da personagem realizada por Lee Falk escassos meses após o seu surgimento. Passando então o Fantasma a ser retratado, já não como um simples vigilante urbano, mas como o 21º representante de uma dinastia de combatentes do crime fundada 400 anos antes pelo único sobrevivente de um ataque de piratas ao largo da costa africana. Sobre a caveira do assassino do seu pai, o jovem náufrago jurou solenemente devotar a sua vida e a dos seus descendentes a combater a pirataria, a opressão e o Mal em todas as suas formas.
Assim nasceu o Fantasma, cuja lenda ecoaria ao longo do séculos pelas profundezas  das misteriosas florestas de Bangalla. Originalmente localizada algures no litoral africano, esta nação imaginária que serve de lar ao Espírito-Que-Anda seria posteriormente renomeada de Bengalla e transferida para o Extremo Oriente, reforçando dessa forma o exotismo dos cenários em que se desenrolavam as aventuras do herói.

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Em 1939, a origem do Fantasma foi revisitada
 na sua primeira tira dominical com arte de Ray Moore.
A despeito de constituir um exemplo pioneiro dentro do género super-heroico, muitos são os estudiosos da Nona Arte que preferem classificar o Fantasma como uma personagem de transição. Isto porque, ao mesmo tempo que incorporava aspetos típicos dos heróis da literatura pulp (como o Sombra), antecipou também várias características definidoras de conceitos como o Superman ou o Batman. Sendo, aliás, por demais evidentes as influências do Fantasma na mitologia do Homem-Morcego.
Por muitos considerado o "avô" dos super-heróis modernos (a sua aparição precedeu num par de anos a do Superman), o Fantasma foi, com efeito, o primeiro a adotar o tipo de traje colorido de inspiração circense que se tornaria a principal imagem de marca dessa categoria de personagens. Por influência da estatuária helénica, foi, ademais, o primeiro a usar uma máscara sem pupilas visíveis, estabelecendo assim outro dos padrões estéticos do género super-heroico.
Contudo, ao contrário da generalidade dos super-heróis seus contemporâneos e do que o próprio nome sugere, o Fantasma não possui quaisquer talentos sobrenaturais. Apesar de trazer sempre um par de pistolas à ilharga, o seu draconiano código de conduta proíbe-o de empregar força letal. Dependendo, portanto, da sua capacidade atlética, da sua astúcia e da sua reputação de imortal (donde a cognominação Espírito-Que-Anda e O Homem-Que-Nunca-Morre) para levar a melhor sobre os seus adversários. Contando ainda com a preciosa ajuda dos seus escudeiros quadrúpedes: Hero (um alazão branco) e Devil (um lobo negro), conhecidos entre o público lusófono como Herói e Capeto.
Nas suas histórias clássicas (três das quais, como mais adiante se perceberá, serviram de inspiração ao enredo da sua primeira longa-metragem), Kit Walker, o 21º Fantasma, é casado com Diana Palmer. O casal conheceu-se quando ambos estudavam numa universidade dos EUA e vive com os seus dois filhos gémeos - Kit e Heloise - na Caverna da Caveira. De acordo com os preceitos da tradição familiar, caberá ao filho varão do Fantasma suceder ao pai quando este morrer ou ficar demasiado velho para continuar a encarnar o Espírito-Que-Anda.
Marcado pela itinerância editorial, o longo percurso do Fantasma na banda desenhada tem sido feito sob múltiplas chancelas. Originalmente publicado pelo King Features Syndicate, passou, entre outras, pela Charlton Comics e pela DC Comics, sendo os respetivos direitos detidos presentemente pela Dynamite Entertainment, que chamou a si missão de reapresentar este herói clássico a uma nova leva de leitores.
As novas aventuras do Espírito-Que-Anda
 têm agora o selo da Dynamite Entertainment.

Pré-produção e desenvolvimento

Os primeiros rumores acerca de uma possível adaptação do Fantasma ao cinema surgiram no seguimento de uma entrevista de Sergio Leone, na qual o realizador italiano expressou o seu interesse em dirigir um projeto dessa natureza.
Ao mesmo tempo que escrevia o argumento do filme, Leone começou também a fazer um levantamento de locais que poderiam servir de cenários à história que vinha alinhavando. Segundo consta, Leone pretenderia homenagear as duas criações de Lee Falk e, por isso, à longa-metragem  do Fantasma seguir-se-ia uma do Mandrake.
Ainda no início dos anos 1990, seria contudo Joe Dante (Gremlins) o realizador escolhido pela Paramount Pictures para dirigir aquela que seria a segunda aventura cinematográfica do Fantasma, depois da série por ele protagonizada em 1943. Em articulação com o argumentista Jeffrey Boam (Indiana Jones e a Grande Cruzada), Dante desenvolveu um enredo que parodiava as histórias do Espírito-Que-Anda.
Quando a Paramount adiou em vários meses o arranque da produção, Dante abandonou o projeto para assumir outros compromissos profissionais. Apesar disso, seria creditado como um dos produtores executivos de The Phantom.
Dante revelaria mais tarde que recebera a notícia do adiamento quando ele e a sua equipa estavam já de malas aviadas para a Austrália, um dos locais escolhidos para as filmagens. Se essa decisão o apanhou de surpresa, mais perplexo ficou ao perceber que, apesar do registo humorístico do enredo que escrevera a meias com Jeffrey Boam, The Phantom pretendia ser um filme sério.
Após o afastamento de Joe Dante, Joe Schumacher (Batman Para Sempre) chegou a ser considerado para assumir a direção do projeto. A escolha definitiva da Paramount Pictures recairia, porém, sobre o realizador australiano Simon Wincer (Libertem Willy), um confesso admirador do Fantasma desde os seus tempos de menino.

Foi sob a batuta de Simon Wincer
 que o filme do Fantasma ganhou forma.
Com a cadeira de realizador finalmente ocupada, seguiu-se a escolha do protagonista. Bruce Campbell (A Noite dos Mortos-Vivos) e Kevin Tod Smith (ator neozelandês com vários telefilmes no currículo) partiram como favoritos na corrida ao papel principal. Por indicação de Wincer, seria, contudo, Billy Zane a arrebatá-lo.
Zane tinha ganho notoriedade por via da sua interpretação de um psicopata em Dead Calm (1989). Tendo sido precisamente durante a  rodagem desse filme que o ator tivera o seu primeiro contacto com as histórias do Fantasma, pelas quais logo se deixou fascinar.
Além da intensa preparação física a que se submeteu durante mais de um ano, Billy Zane estudou minuciosamente a linguagem corporal do Fantasma na banda desenhada como parte do processo de construção da sua personagem.
De acordo com o calendário predefinido, as filmagens decorreram entre outubro e dezembro de 1995 com passagens por Los Angeles, Austrália e Tailândia. Entre os cenários utilizados, o destaque vai para a lendária mansão de Hugh Hefner, o finado fundador da revista Playboy que era também um fã de longa data do Fantasma.

Lee Falk posou ao lado de Billy Zane no set de filmagens.
Chegado às salas de cinema norte-americanas a 7 de junho de 1996, The Phantom combinava elementos sobrenaturais com outros retirados de três histórias clássicas do Espírito-Que-Anda (todas saídas da pena do seu criador): The Singh Brotherhood, Sky Band e The Belt.
Apesar da atuação de Zane ter sido louvada, os críticos dividiram-se na hora de avaliar um filme que, no fim de semana de estreia - e mesmo sem ter de lidar com concorrentes de peso - se quedou por um modesto sexto lugar no ranking das receitas de bilheteira. Sofrendo assim o mesmo destino de The Shadow que, dois anos antes, transpusera para o grande ecrã as aventuras do Sombra, outro herói clássico saído das páginas da literatura pulp.
Inviabilizada a franquia (estavam previstas duas sequências),  The Phantom registaria, no entanto, um bom desempenho no mercado VHS e DVD. Como tantos outros filmes mal-amados, com o tempo tornar-se-ia objeto de culto por parte de certas franjas da comunidade cinéfila. As mesmas que, enquanto não se materializa o anunciado reboot, terão de contentar-se com esta relíquia da Sétima Arte.

Sinopse

À laia de preâmbulo, a voz cava do 20º Fantasma (progenitor do atual) narra a dramática história de um menino que, 400 anos atrás, testemunhou, impotente, a morte do seu pai durante um ataque perpetrado pela infame Irmandade Sengh ao navio onde viajavam.
Enquanto os piratas chacinavam a restante tripulação, o menino lançou-se ao mar e conseguiu nadar até uma praia na misteriosa ilha de Bengalla. Lá foi encontrado por uma tribo indígena que o acolheu no seu seio e o tratou como igual.
Depois de receber das mãos do xamã da tribo o Anel do Caveira, o menino jurou devotar a sua vida a lutar contra todas as formas de injustiça. Chegado à idade adulta, adotou a identidade de O Fantasma, um vingador mascarado. Título que, ao longo dos séculos,  foi sendo transmitido de pai para filho, levando aqueles que com ele se cruzaram a acreditar piamente na imortalidade do chamado Espírito-Que-Anda.
A lenda do Fantasma
 é velha de quatro séculos.
Em 1938, no coração da luxuriante selva de Bengalla, um grupo de mercenários chefiado por um homem chamado Quill procuram uma das Caveiras de Touganda. Quando reunidos, esses artefactos místicos conferem grande poder destrutivo aos seus detentores.
A expedição liderada por Quill é, contudo, interrompida devido à interferência do Fantasma. O Espírito-Que-Anda (que é na realidade Kit Walker, o 21º portador do Anel da Caveira), salva o menino nativo que havia sido sequestrado pelos mercenários para lhes servir de guia. À exceção de Quill, todos os bandidos são capturados pelo Fantasma que, em seguida, os deixa sob a custódia da Patrulha da Selva.
Antes de escapulir-se levando consigo uma das Caveiras de Touganda, um estranho símbolo tatuado no antebraço de Quill denuncia a sua pertença à Irmandade Sengh, o que deixa o Fantasma intrigado.
Longe dali, em Nova Iorque, Diana Palmer, sobrinha do proprietário do World Tribune e ex-namorada de Kit Walker nos tempos de faculdade, voluntaria-se para viajar até Bengalla a fim de investigar os indícios encontrados pelo jornal do tio de que Xander Drax, um empresário sedento de poder, estaria envolvido em atividades ilícitas.

Diana Palmer,
uma donzela de espírito aventureiro.
Próximo à costa de Bengalla, o avião que transporta Diana Palmer é tomado de assalto em pleno voo pela Sky Band, uma quadrilha de piratas do ar composta exclusivamente por mulheres e liderada por uma femme fatale chamada Sala. Diana é sequestrada e levada para o esconderijo secreto da Sky Band em Bengalla.
Ao ser informado do sucedido pelo Capitão Horton, da Patrulha da Selva, o Fantasma parte imediatamente em missão de resgate. Com a colaboração de Herói, Capeto e da Tribo da Corda, o Espírito-Que-Anda consegue libertar Diana do seu cativeiro. Depois de deixá-la em segurança na base da Patrulha da Selva, o herói parte para Nova Iorque com a intenção de recuperar a caveira e de descobrir o paradeiro das restantes.
Agindo sob a sua identidade civil de Kit Walker, o Fantasma reencontra Diana Palmer durante uma reunião com o tio desta no edifício-sede do World Tribune. Surpreendida pela inesperada presença de Kit, Diana manifesta sentimentos ambíguos relativamente ao ex-amante que desaparecera  da sua vida há vários anos.

Kit e Diana reencontram-se após vários anos.
Graças a uma dica fortuita fornecida por Jimmy Wells, o pretendente de Diana, Kit descobre que a segunda Caveira de Touganda se encontra exposta no Museu de História Natural. Quando ele e Diana procuram recuperar o artefacto, são surpreendidos por Drax e pelos seus asseclas.
Ao reparar que Quill usa um cinturão com o símbolo da caveira, Kit deduz estar na presença do assassino do seu pai. Entretanto, o poder combinado das duas caveiras revela a Drax a localização da terceira: uma ilha não cartografada no Vórtice do Diabo, algures no Mar Amarelo.
Drax toma Diana como refém a fim de se precaver contra o Fantasma e ordena a Quill que se desenvencilhe de Kit. No entanto, é Kit quem consegue desenvencilhar-se dos capangas de Drax.
Já como Fantasma, o herói empreende uma audaciosa fuga à polícia (tanto o Comissário como o mayor estão mancomunados com Drax) pelas ruas e avenidas nova-iorquinas.

Xander Drax com uma das Caveiras de Touganda.
Pilotado por Sala, um hidroavião prepara-se para levantar voo com destino a Bengalla. A bordo seguem também Drax, Quill e Diana. Segundos antes de a aeronave descolar, o Fantasma consegue apanhar boleia escondido num dos seus flutuadores.
Na ilha desconhecida, Drax fica frente a frente com o Grande Kabai Sengh, descendente direto do fundador da Irmandade Sengh, que tem em sua posse a terceira Caveira de Touganda. Drax propõe-lhe uma aliança, mas Sengh alerta-o para a existência de uma quarta caveira capaz de controlar as outras três.
O Fantasma entra em cena e, após um acirrado duelo com Kabai Sengh, vê o vilão ser devorado vivo pelos tubarões que mantinha numa piscina de água salgada no interior da gruta que servia de quartel-general à Irmandade.

Sala e a sua Sky Band.
Ao juntar finalmente as três Caveiras de Touganda, Drax ativa o imenso poder destrutivo dos artefactos. Quando procura alvejar o Fantasma com o raio desintegrador emitido pelas caveiras, Drax acaba acidentalmente por pulverizar Quill.
O Fantasma usa então o seu anel - que tem incrustada a quarta Caveira de Touganda - para neutralizar o poder das caveiras. Colhido pela explosão consequente, Drax é  instantaneamente vaporizado.
Com a ilha prestes a implodir, o Fantasma consegue evacuar Diana e Sala. De volta a Bengalla, Diana confidencia ao herói ter reconhecido Kit Walker sob a máscara.
De rosto exposto, Kit informa Diana de como está autorizado a confiar os seus segredos apenas à mulher com quem pretende casar. Apesar de se sentir lisonjeada, Diana decide regressar a Nova Iorque com Sala.
No epílogo, o pai do Fantasma lamenta o fracasso amoroso do filho mas diz-se confiante de que, um dia, Diana regressará a Bengalla para cumprir o seu destino: ser a consorte do Espírito-Que-Anda.

Trailer: 


A primeira aventura cinematográfica do Fantasma

Mais de meio século separa o filme do Fantasma da sua primeira incursão pelo grande ecrã. Em dezembro de 1943, chegava aos cinemas norte-americanos The Phantom, um folhetim de 15 capítulos a preto e branco.
Produzida pela Columbia Pictures, a série tinha em Tom Tyler (ator que, apenas dois anos antes, havia interpretado o Capitão Marvel num formato idêntico) o seu astro principal. Como quase todas as produções do género naquela época, The Phantom dispôs de orçamento exíguo e, por isso, as cenas ambientadas na selva de Bengalla foram integralmente rodadas num estúdio em Hollywood.
Uma vez que, na altura, não era ainda conhecido o verdadeiro nome do Fantasma, na série foi-lhe atribuído o alter ego Geoffrey Prescott. Num dos episódios, porém, o herói pede para ser chamado de Walker, numa óbvia referência a Kit Walker, a sua persona civil na BD.

Tom Tyler foi o primeiro ator
 a encarnar o Espírito-Que-Anda.
Cartaz promocional de um dos capítulos
 do folhetim cinemático do Fantasma.
Muito por conta da fidelidade às histórias originais e das extraordinárias semelhanças físicas de Tom Tyler com o herói criado por Lee Falk, The Phantom conseguiu uma notável prestação nas bilheteiras. Justificando desse modo uma sequência que, apesar de ter sido produzida em 1955 (já sem Tom Tyler, falecido no ano anterior), acabaria, contudo, por nunca ser exibida.
Na origem dessa contingência esteve a súbita descoberta por parte dos responsáveis da Columbia Pictures de que os seus direitos sobre a personagem haviam caducado, aliada à recusa do King Features Syndicate em renová-los. Foi assim que The Return of the Phantom se transformou em The Adventures of Captain Africa. Apesar das alterações introduzidas, o novo herói era um flagrante pastiche do Fantasma.

Curiosidades

*Um traje com músculos falsos semelhante àqueles que Michael Keaton vestiu nos dois filmes do Batman dirigidos por Tim Burton chegou a ser confecionado. Acabaria, no entanto, por não ser utilizado devido à excelente forma física alcançada por Billy Zane após um ano de treino intensivo;
*Para que o capuz do traje do Fantasma lhe assentasse o melhor possível, Zane rapou a cabeça, obrigando desse modo a que todas as cenas em que a sua personagem surgia à paisana fossem gravadas logo no arranque da produção;
*Imagem de marca na BD, os calções listrados que o Fantasma usa por cima das calças foram testados num dos protótipos do traje mas seriam igualmente descartados por serem considerados demasiado ridículos;
*Nos intervalos das filmagens, Billy Zane tinha por hábito ir comer sushi a um restaurante nas redondezas do set levando vestido figurino da sua personagem; 
*Falkmoore, o nome do mordomo dos Palmer, é na verdade uma amálgama dos apelidos do criador e do primeiro artista do Fantasma (Lee Falk e Ray Moore, respetivamente);
*Para não melindrar os indivíduos com esse apelido (muito comum entre os sikhs indianos), o Grande Kabai Singh e a sua Irmandade tiveram o nome alterado para Sengh;

Nem o Grande Kabai Sengh
 escapou aos ditames do politicamente correto.
*Jimmy Wells, o frívolo pretendente de Diana Palmer, marcou presença nas primeiras histórias do Fantasma, quando a identidade e motivações do herói eram ainda incógnitas por resolver. Lee Falk pretendia estabelecer Wells como o alter ego do Espírito-Que-Anda, chegando mesmo a plantar diversas pistas para esse efeito antes de definir a sua criação como o último representante de uma longa linhagem de combatentes do crime;
*Além das que serviriam para desenvolver o romance entre o Fantasma e Diana Palmer, foram igualmente cortadas duas cenas em que o herói enfrentava, respetivamente, um leão e uma jiboia; 
*Minnie Driver foi a primeira atriz escolhida para interpretar Sala, a deslumbrante líder da Sky Band. Conflitos de agenda ditariam, contudo, o seu afastamento do projeto. Também Jenny McCarthy e Jennifer Lopez participaram em audições para o papel que, por indicação de Simon Wincer, seria entregue a Catherine Zeta-Jones. Determinante para essa escolha foi o facto de o cineasta ter apreciado sobremaneira trabalhar com a atriz galesa em Indiana Jones: Crónicas da Juventude, série televisiva estreada em 1993;
*A caveira é o símbolo dominante no folclore associado ao Fantasma. A Caverna da Caveira serve-lhe de lar e de base de operações, o herói usa um Anel da Caveira e, na película, procura resgatar um tríptico de caveiras imbuídas de poderes místicos. Uma observação atenta dos seus paramentos cinematográficos permitirá ainda detetar várias caveiras estampadas no tecido;
*Em meados dos anos 70 do último século, um filme de baixo orçamento do Fantasma entrou em pré-produção no México. O papel principal seria assumido por ninguém menos do que Adam West, o Batman televisivo da década anterior. Problemas relacionados com os direitos da personagem inviabilizaram, contudo, o projeto;
*Escrita por Rob MacGregor - autor das adaptações literárias de Indiana Jones - a novela epónima baseada em The Phantom apresentava os antecedentes de várias personagens e explorava mais pormenorizadamente a origem do Fantasma. Várias sequências eliminadas do filme foram também incluídas no livro.

The Phantom
teve direito a adaptação literária.

Veredito: 62%

Divertido e despretensioso, O Fantasma é outro filme de super-heróis menosprezado a que urge fazer alguma justiça. Tão despropositada como uma indicação aos Óscares seria a atribuição de uma Framboesa de Ouro a esta deliciosa extravagância com laivos de um romantismo antiquado.
Visualmente fantástico, O Fantasma, como quase todas as adaptações do género feitas naquela época, prima pela fidelidade ao conceito original (ou não tivesse Lee Falk feito questão de supervisionar a produção), e apresenta boas sequências de ação ao melhor estilo de Indiana Jones. Também a ideia de ambientar a trama na Idade de Ouro dos comics foi uma opção acertada.
Num flagrante contraste com o sorumbático realismo que tem caracterizado algumas das mais recentes transposições de super-heróis ao grande ecrã, O Fantasma é alegre e colorido, contagiando o espectador com o seu otimismo. Personagens caricaturais e estereotipadas, como Xander Drax e Sala, mais não são do que reminiscências da cultura pulp, a que a película - seguindo as pisadas de O Sombra e Rocketeer, também eles mal-amados - presta tributo.
No que ao herói diz respeito, não se torna menos misterioso do que a sua contraparte da BD, apesar das revelações feitas sobre o seu passado. Billy Zane deu muito boa conta do recado, recusando-me, por isso, a alinhar na teoria conspiratória segundo a qual a película teria sido prejudicada devido à orientação sexual do ator, que é declaradamente gay.
Se é verdade que, à época, era menor a tolerância em relação à homossexualidade, também o era a apetência do público pelas aventuras cinematográficas de super-heróis. Prova disso mesmo é o confrangedor rol de fracassos que marcaram os anos 90: Barb Wire, Judge Dredd, Spawn, Steel e Tank Girl são apenas alguns exemplos de adaptações de personagens saídas dos quadradinhos que se saldaram por flopes de bilheteira. A perceção do género era, pois, muito diferente da atual.
Além de ter precedido em vários anos a avalanche de filmes com super-heróis em  curso desde o início deste século, O Fantasma, em virtude da sua reduzida expressão fora dos quadradinhos, era - e, lamentavelmente, continua a ser - um ilustre desconhecido para as gerações mais novas. Precisamente aquelas que alimentam a profusão de franquias lançadas entretanto pela Marvel e pela DC.
À luz da atual tendência - mais pronunciada nas megaproduções dos Estúdios Marvel - de reduzir os filmes com super-heróis a intermináveis sucessões de piadas forçadas, é bem provável que, se tivesse sido lançado nos dias que correm, O Fantasma, por conta do seu registo ligeiro, teria sido um blockbuster.
Não falta por aí quem rotule O Fantasma de kitsch ou exemplo acabado de trash movie. Eu prefiro chamar-lhe entretenimento em estado puro e um oásis de inocência, ideal para preencher matinés domingueiras ou serões em família.

A mãe de todas as ironias é
 quando um justiceiro é vítima de injustiça.