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sexta-feira, 15 de maio de 2015

DO FUNDO DO BAÚ: "O CONTRATO DE JUDAS"




   Caçados um a um por um novo e implacável inimigo, os Titãs perdem a inocência depois de provarem o fruto amargo da insídia. Coincidindo com fase áurea da equipa de jovens heróis, a saga, tectónica e polémica, continua a ser considerada uma das melhores de sempre.

Título original: The New Teen Titans: The Judas Contract
Ano: 1984
Licenciadora: DC Comics
Argumento: Marv Wolfman e George Pérez
Arte: George Pérez, Dick Giordano, Romeo Thangal, Mike DeCarlo e Adrienne Roy
Personagens principais: Titãs (Estelar, Ravena, Asa Noturna, Mutano, Cyborg e Moça-Maravilha); Exterminador, Terra, Jericó e C.O.L.M.E.I.A.
Coadjuvantes: Adeline Kane; Sarah Simms; Terry Long; W.R. Wintergreen; Renegados (Batman, Raio Negro, Halo, Metamorfo, Katana e Geoforça) 
Títulos abrangidos nos EUA: Tales of the Teen Titans nº42 a 44 (maio a julho de 1984) e Tales of the Teen Titans Annual nº3 (julho do mesmo ano)

Os quatro capítulos da saga.

VERSÃO EM PORTUGUÊS

Editora: Abril 
Títulos abrangidos no Brasil: Os Novos Titãs nº 18 a 20 (outubro a novembro de 1987) e Clássicos DC (reedição da saga lançada em 1992 pela mesma editora)
Na minha coleção desde: 1988


Reedição da saga com a chancela da Abril em 1992.

Histórico: Saga composta por quatro partes, O Contrato de Judas foi originalmente publicada nos EUA nos números 42 a 44 da série regular dos Titãs - Tales of the New Teen Titans -, de maio a julho de 1984. Com o respetivo epílogo a ser narrado, nesse mesmo mês, nas páginas de Tales of the Teen Titans Annual nº3.
  Escrita e editada por Marv Wolfman e George Pérez (ver texto anterior), foi também este último a presidir à equipa de ilustradores responsáveis pela arte da saga. Nesse naipe de desenhadores de primeira grandeza, pontificavam, além de Pérez, Dick Giordano, Romeo Thangal, Mike DeCarlo e Adrienne Roy.

 Pérez & Wolfman:  Duo Dinâmico.

   Quatro anos decorridos, em 1988, a saga seria compilada no volume encadernado New Teen Titans: The Judas Contract. Entre os leitores, este arco de histórias é quase unanimamente citado como o clímax do trabalho desenvolvido por Wolfman e Pérez com os Titãs. O Contrato de Judas é, com efeito, o corolário de uma complexa filigrana narrativa que começou a ser trabalhada com a precisão de um ourives, logo no segundo número da primeira série de New Teen Titans. Nessa edição, datada de dezembro de 1980, foram introduzidas duas das personagens-chave da trama: o mercenário conhecido como Exterminador e a organização terrorista com projetos de dominação mundial autodenominada C.O.L.M.E.I.A.

New Teen Titans nº2 (1980), marcou a estreia do Exterminador e plantou as sementes para O Contrato de Judas.

   Esta narrativa é significativa por várias razões. Em primeiro lugar, porque dá a conhecer a origem secreta do Exterminador, muito provavelmente o mais notório némesis dos Titãs. Depois, porque explana os termos do contrato que vincula o mercenário à C.O.L.M.E.I.A. Com a destruição desta última a ser revelada pouco tempo após o desfecho da saga, em Tales of the Teen Titans nº45 a 47.
   Terra, a comparsa do Exterminador na ignomínia que visa subjugar os Titãs, fora, por sua vez, introduzida em New Teen Titans nº26. Depois de se ter tornado assídua nas aventuras da equipa, a irmã caçula de Geoforça acabaria por ser admitida nas suas fileiras.Apenas para se revelar um cavalo de Troia  plantado por Slade Wilson, com quem mantinha um relacionamento íntimo. Residindo, aliás, neste elemento transgressor um dos aspetos mais controversos da história: o envolvimento sexual entre um homem de meia-idade e uma adolescente de apenas 16 anos. Inevitavelmente, algumas mentes mais puritanas (ou poluídas) viram aqui um despudorado incentivo à pedofilia.

Terra Markov, a maçã podre.


  Adeline Kane (ex-mulher de Slade Wilson) e Joey Wilson (o segundo filho do casal) são outras duas adições importantes na trama e na própria continuidade dos Titãs. Na sequência dos eventos narrados na saga, Joey assume a identidade de Jericó e torna-se membro de pleno direito da equipa. À sua mãe ficaria, por outro lado, reservado o papel de coadjuvante regular nas histórias vindouras dos Titãs.
  Outro marco histórico apresentado no decurso da saga consiste na primeira aparição de Dick Grayson como Asa Noturna (vide prontuário da personagem já publicado neste blogue).
  Com tão suculentos ingredientes, estava, assim, encontrada a receita para um épico dos tempos modernos. Nada voltaria a ser como antes na vida dos Titãs após a conclusão desta tectónica saga, com a assinatura daquela que foi, sem sombra de dúvida, uma das mais formidáveis duplas criativas da história da nona arte: Marv Wolfman e George Pérez.

Asa Noturna, Exterminador e Jericó: três personagens nucleares da trama.
    
Enredo: A história começa pouco tempo depois de Dick Grayson (Robin) e Wally West (Kid Flash) abandonarem as respetivas identidades heroicas com que se haviam notabilizado ao lado dos seus precetores, afastando-se também ambos da equipa de que haviam sido cofundadores. Entretanto, a mais recente aliada dos Titãs, Terra Markov, não tendo ainda obtido o estatuto de membro de pleno direito do grupo, conquistara já o coração e a mente de Mutano. Nenhum dos seus colegas suspeitava, porém, que ela os estivesse a espiar a mando do Exterminador, seu comparsa e amante. Entre a diversificada informação que a jovem vinha transmitindo ao vilão, incluíam-se as identidades secretas dos Titãs.
  O primeiro sinal de alerta em relação a Terra surgiu durante a realização de um treino de campo da equipa. Após ter sido alvo de várias brincadeiras de Mutano, a jovem lançou sobre ele um violento ataque que só por milagre não o deixou incapacitado para o resto da vida. Semelhante demonstração de instabilidade emocional deixa os restantes membros inquietos. É, no entanto, Ravena quem, graças aos seus poderes empáticos, diagnostica o real grau de perigosidade da rapariga.

O fim da inocência dos Titãs chegou com a traição de um dos seus.
  Uma vez recolhida toda a informação de que necessitava, Terra transmite-a ao Exterminador, que logo empreende uma meticulosa caçada aos Titãs. Na mira do mercenário começa por estar a cobertura onde residem Donna Troy (Moça-Maravilha) e Koriander (Estelar). A primeira é deixada inconsciente devido à exposição a uma mistura de gases tóxicos, ao passo que a segunda é neutralizada pela deflagração de uma bomba disruptora.
  Na lista de alvos a abater segue-se Cyborg. Victor Stone é deixado fora de combate depois de receber uma descarga elétrica de alta voltagem ao sentar-se numa cadeira no seu apartamento, previamente armadilhada pelo Exterminador. Mesmo sem causar danos de monta no herói cibernético, o ataque desativa-lhe os circuitos por tempo suficiente para o Exterminador o capturar.
  Único Titã sem superpoderes, Dick Grayson revela-se uma verdadeira dor de cabeça para o Exterminador. Surpreendido pela astúcia da sua presa, o mercenário não consegue evitar que ele escape.
  Frustrado, o Exterminador atravessa a cidade no encalço de Mutano. E nem precisa mexer um dedo para capturar o benjamim dos Titãs. Depois de lamber um selo embebido em veneno, o jovem ficara inconsciente e pronto a ser recolhido pelo vilão.

Fazendo uso dos ensinamentos de Batman, Dick Grayson logra escapar ao Exterminador.

 Com cinco dos seis Titãs capturados, o Exterminador viaja até à base secreta da C.O.L.M.E.I.A., localizada nas Montanhas Rochosas. Satisfeito por ter cumprido o contrato que fora celebrado pelo seu filho mais velho, Grant, o mercenário não evita ser repreendido pelos seus empregadores, agastados com a fuga do líder do grupo.
  Entretanto, após descobrir que todos os seus companheiro foram sequestrados, Dick Grayson regressa à Torre Titã. À sua espera tem Adeline Kane, a ex-esposa de Slade Wilson. Esta apresenta-o então ao filho mais novo do casal, Joey. De seguida, a mulher faz uma revelação bombástica: Terra é uma espia infiltrada nos Titãs pelo Exterminador.
  Incrédulo num primeiro instante, Dick acaba por acreditar nas palavras de Adeline, depois de esta lhe relatar as circunstâncias que estiveram por trás da transformação do ex-marido no Exterminador. Surdo-mudo de nascença, Joey é também um mutante com a habilidade de possuir outras pessoas. Ressentido com o  pai, o jovem está ansioso por ajudar Dick a derrotá-lo.
  Consciencializando-se de que não lhe será possível abandonar a sua carreira heroica a título definitivo, Dick assume uma nova identidade: Asa Noturna. Joey, por seu turno, está pronto para entrar em ação sob o codinome Jericó. Ambos partem para o resgate dos Titãs assim que recebem de Adeline as coordenadas do quartel-general da C.O.L.M.E.I.A.

Mutano apaixonou-se pela rapariga errada.
   Asa Noturna e Jericó infiltram-se na base secreta da organização e logo descobrem que os Titãs estão ligados a uma estranha máquina que lhes drena lentamente a energia vital. Confrontados por uma horda de agentes da C.O.L.M.E.I.A., os dois heróis acabam também capturados.
   Atónito por ver o seu filho aliado aos Titãs, o Exterminador procura negociar a sua libertação com a C.O.L.M.E.I.A. Perante a recusa desta e a hesitação do mercenário, Jericó aproveita o ensejo para possuir o próprio pai.
   Usando o corpo e o arsenal do Exterminador, Jericó consegue libertar os Titãs, liquidando de caminho diversos operacionais da C.O.L.M.E.I.A. Terra tem um acesso de fúria ao presenciar a cena, por considerar que a afeição de Slade ao filho o enfraquece. Completamente descontrolada, a jovem lança um ataque massivo com o objetivo de matar todos à sua volta. Apesar disso, Mutano, ainda enamorado dela, recusa-se a acreditar na malícia de Terra, sugerindo que o Exterminador lhe terá feito uma lavagem ao cérebro.
  Num crescendo de loucura e raiva, Terra provoca o desabamento do teto das instalações, ficando soterrada pelos destroços. Com os Titãs escaparem por um triz de idêntico destino.
   De volta a Nova Iorque, os Titãs realizam o funeral de Terra. À cerimónia fúnebre, além deles, apenas comparecem os Renegados. Geoforça, irmão mais velho da malograda jovem, é levado a acreditar que ela perdeu a vida de forma heroica.


Fúria telúrica.

Vale a pena ler?
   
   Atendendo ao facto de que estamos em presença de uma das melhores sagas da história da DC e da nona arte, a resposta à pergunta acima só poderá ser um rotundo "sim.". Devendo, portanto, ser considerada leitura obrigatória para qualquer fã dos Titãs e/ou do trabalho conjunto de Marv Wolfman e George Pérez.
  Dos variadíssimos pontos de interesse da narrativa, começo por destacar um em particular: a clareza desde o início das perversas intenções de Terra. Contrariamente ao que seria expectável, o leitor nunca duvida que ela irá trair os seus companheiros de equipa. Tornando-se, assim, uma testemunha ocular das maquinações em curso nos bastidores da intriga. Quem lê a história pela primeira vez é, ainda assim, induzido a acreditar num possível volte-face da personagem, abrindo desse modo caminho para um desfecho redentor. Esperanças, contudo, infundadas, pois a má índole da pequena Judas prevalece até ao fim.
  Outro ponto interessante, também relacionado com Terra, é a sua idade. Mesmo não sendo surpreendente que uma saga estrelada por heróis juvenis conte com uma personagem de apenas 16 anos, não deixa ser assinalável a sua erotização. Se à luz dos padrões morais da atualidade um romance entre uma adolescente e um homem com idade para ser seu avô é suscetível de reprovação social, imagine-se o impacto do mesmo três décadas atrás. Espanta-me, aliás, como terá esse e outros elementos da história (como o facto de Terra surgir várias vezes a fumar e a beber) passado no crivo da Comics Code Authority. 


Terra e Exterminador: farinha do mesmo saco.
  
  Creio que, ao invés do que fizeram com o Exterminador - apetrechando-o com um código de honra e um peculiar sentido de humor - Wolfman e Pérez nunca quiseram suavizar os traços do (mau) caráter de Terra, por forma a torná-la um pouco mais simpática aos olhos dos leitores.
  Fluida e dinâmica, a escrita de Marv Wolfman é igualmente competente na formulação dos diálogos e na caracterização das personagens. Conquanto se trate de uma história de super-heróis e supervilões, a cada um deles é atribuída uma personalidade consistente com a de pessoas de carne e osso. Wolfman tem ainda o mérito de evitar sucessivas recapitulações da história, quase inevitáveis quando a mesma é contada em capítulos interpolados por um mês.
  Focando-me agora na arte da saga, sou suspeito na minha apreciação da mesma, na medida em que George Pérez é um dos meus desenhadores preferidos. Dito isto, apenas posso classificar de esplêndido mais este seu trabalho. Realço particularmente o seu esmero em retratar de forma distinta a fisionomia e a personalidade de cada um dos protagonistas. Embora subtis, são percetíveis as diferenças nas suas expressões faciais e maneirismos. Notável também a capacidade de Pérez de acumular vários painéis numa só página sem, contudo, a deixar confusa. Sendo essa, de facto, uma das suas marcas registadas, como ficou comprovado em Crise nas Infinitas Terras.
  Um dos aspetos mais memoráveis da passagem de Wolfman e Pérez pelos Titãs, foi o sentimento e humanismo infundidos nas histórias do grupo. O Contrato de Judas pode muito bem ter sido o melhor exemplo disso, robustecendo por essa via o seu valor literário. Mesmo se perspetivada como uma clássica narrativa com super-heróis, a saga distingue-se pela sua profundidade e dramatismo.
  Motivos mais do que suficientes para me orgulhar de ter esta magnífica pérola da nona arte na minha coleção e para recomendar a sua leitura aos iniciados neste saudável vício de ler banda desenhada de qualidade.

Os Titãs sobreviveram à traição de Terra, mas nada voltaria a ser como dantes.
   


terça-feira, 5 de maio de 2015

ETERNOS: GEORGE PÉREZ (1954 - ...)



    Um dos mais talentosos e idolatrados artistas ainda no ativo, atingiu o apogeu ao serviço da DC, ficando o seu nome associado à mãe de todas as sagas produzidas pela Editora das Lendas. No entanto, os primeiros passos na indústria dos quadradinhos foram dados na eterna rival.

Biografia e carreira: Primogénito de um modesto casal de imigrantes porto-riquenhos que se conheceu em terras do Tio Sam, George Pérez nasceu a 9 de junho de 1954 no Bronx, Nova Iorque. Menos de um ano depois, nasceria David, o seu irmão mais novo. Aspirando ambos a uma carreira artística, foi contudo George a revelar um talento precoce para a ilustração. Com apenas cinco anos, começou a desenhar, para assombro dos pais (ele operário numa fábrica de embalamento de carne; ela dona de casa a tempo inteiro).
   Corria o ano de 1973 quando George Pérez teve o seu primeiro contacto com a indústria dos comics, na qualidade de assistente do artista Rich Buckler (celebrizado pelo seu trabalho com o Pantera Negra). Em agosto do ano seguinte, George estreou-se como profissional ao serviço da Marvel Comics, para a qual desenhou uma sátira de duas páginas de Deathlok (personagem  cuja paternidade pertencia justamente a Buckler), publicada em Astonishing Tales nº25.
   O talento do jovem artista não passou despercebido aos mandachuvas da Casa das Ideias. Em pouco tempo, George assumiria a arte de Sons of the Tiger, série de artes marciais escrita por Bill Mantlo e há muito publicada no magazine pulp Deadly Hands of Kung Fu, inserido na linha de títulos a preto e branco da Marvel.
   Aproveitando a enorme popularidade nessa época das histórias envolvendo artes marciais, George e Bill criaram em conjunto o Tigre Branco. Embora se tenha estreado nas páginas de Deadly Hands of Kung Fu, aquele que foi o primeiro super-herói porto-riquenho logo migraria para os títulos coloridos da editora, fazendo várias aparições nas histórias do Homem-Aranha.

Deadly hands of kung fu 1975.jpg

Primeira cocriação de Pérez, o Tigre Branco debutou nas páginas de Deadly Hands of Kung-Fu (em cima).

   Na segunda metade da década de 70, George Pérez ganhou maior projeção por via do seu trabalho em The Avengers (série mensal que desenharia entre 1975 e 1980). Durante esse período emprestou o seu traço a várias outros títulos regulares da Marvel, designadamente The Inhumans, Creatures on the Loose (revista dedicada ao sobrenatural, na qual pontificava o Homem-Lobo) e Fantastic Four. Foi, de resto, numa edição anual do Quarteto que George colaboraria pela primeira vez com o escritor Marv Wolfman (ver biografia já publicada neste blogue). Anos depois, a dupla, conforme veremos adiante, seria responsável por algumas das mais bem-sucedidas sagas da DC.
Os Vingadores pelo traço de George Pérez.
   Em 1980, enquanto continuava a desenhar as histórias dos Vingadores - e já depois de ter cocriado com David Michelinie o vilão conhecido como Treinador (Taskmaster em inglês) - George Pérez começou a trabalhar simultaneamente para a DC. Sondado para assumir a arte de The New Teen Titans - a mais recente aposta da editora para recuperar algum do terreno perdido para a concorrência -, aquilo que verdadeiramente o aliciou foi a perspetiva de poder vir a desenhar a Liga da Justiça, algo que ele considerava ser uma extensão natural do seu duradouro trabalho com os Vingadores.
   Num golpe de asa do Destino, o veterano artista de JLA, Dick Dillin, faleceu pouco depois da mudança de Pérez para a DC.Chamado a substituir o malogrado colega, Pérez logo encantou os fãs com o seu traço límpido e dinâmico.

Depois dos Vingadores, a Liga da Justiça. Poucos artistas tiveram o privilégio de desenhar duas das mais emblemáticas equipas de super-heróis da 9ª arte..

  Naquilo que pretendia ser a resposta da DC ao estrondoso sucesso dos X-Men à época, em 1980 foi lançada uma nova encarnação dos Titãs. Projeto que marcaria o auspicioso reencontro de George Pérez com Marv Wolfman. Em agosto de 1984, o surpreendente êxito de The New Teen Titans abriu caminho para uma segunda série, também ela produzida pela dupla-maravilha.
  Com o tempo, Pérez foi aprimorando a sua arte, evidenciando uma crescente facilidade em desenhar cenários, rostos e outros detalhes que faziam as delícias dos leitores, e que o elevaram ao estrelato. Ao longo da sua longa e próspera carreira, Pérez revelou, com efeito, uma especial predileção por desenhar coletivos super-heroicos. Com alguns desses trabalhos a serem premiados e a servirem de referência a outros artistas.

A icónica capa de The New Teen Titans nº1(1980) com arte de Pérez.
  Em finais de 1984, Pérez abandonou as histórias dos Titãs para se juntar a Marv Wolfman no ambicioso projeto editorial que a  DC tinha na calha para assinalar o seu cinquentenário: a monumental saga Crise Nas Infinitas Terras. Trabalho que, na opinião de muitos, foi a obra-prima do artista de ascendência porto-riquenha.
  No período pós-Crise, George Pérez voltaria a formar equipa com Marv Wolfman para, em novembro de 1986, produzir The History of the DC Universe, compêndio ilustrado que sumariava a nova continuidade da Editora das Lendas.
Crise nas Infinitas Terras deixou a indústria e os fãs de comics definitivamente rendidos ao  talento de George Pérez.
   Escolhido em 1987 para assumir a arte do novo título da Mulher-Maravilha, George Pérez inspirou-se nos trabalhos de John Byrne e Frank Miller - em Superman e Batman, respetivamente -, para dar um novo alento às histórias da Princesa Amazona Numa fase inicial, teve como parceiros criativos os escritores Greg Potter e Len Wein, acabando no entanto Pérez por assumir também o argumento. Sob a sua batuta, foram reforçados os laços da Mulher-Maravilha com os deuses gregos, com as histórias da heroína a serem igualmente depuradas de corpos estranhos introduzidos no pré-Crise.
  Ainda que não tão impactante como The New Teen Titans ou Crisis on Infinite Earths, a nova série da Mulher-Maravilha foi bem-sucedida no seu propósito de revitalizar aquela que, a par do Super-Homem e do Batman, é uma das figuras de proa da DC. A ligação de Pérez a Wonder Woman prolongar-se-ia por cinco anos (1987-1992), embora em metade desse tempo apenas na qualidade de argumentista.

Wonder Woman foi o segundo trabalho produzido por Pérez na ressaca da Crise.

   Em dezembro de 1988 - e já depois da série ter sido renomeada The New Titans -George Pérez voltou às histórias dos Titãs, na dupla qualidade de desenhador e coargumentista. Esta sua segunda passagem pelo título ficaria marcada pela nova origem da Moça-Maravilha (atando assim uma das pontas soltas de Crise nas Infinitas Terras) e pela introdução de Tim Drake como o terceiro Menino-Prodígio.
   Seguir-se-ia, em meados de 1989, uma meteórica passagem de Pérez por Action Comics e Adventures of Superman (aqui como argumentista). Não tendo, porém, sido este o seu primeiro contacto com as histórias do Homem de Aço. A ligação de Pérez ao herói kryptoniano começara, com efeito, meia dúzia de anos antes, em junho de 1983, quando concebeu a icónica armadura de combate de Lex Luthor em Action Comics nº544.

O traje blindado de Luthor ( idealizado por George Pérez e, nesta imagem, com arte de Gil Kane e Dick Giordano) permitia ao vilão equilibrar um pouco as coisas com o Homem de  Aço.

  Devido à sobrecarga de trabalho decorrente da sua colaboração simultânea com Wonder Woman e Action Comics, Pérez viu-se forçado a abandonar este último em abril de 1990. No ano seguinte, a relação do artista com a DC conheceu uma fase delicada. Na origem desse frisson estiveram essencialmente dois fatores: por um lado, Pérez considerava que a editora não estava tão empenhada como deveria em assinalar os 50 anos da Mulher-Maravilha; por outro, a decisão da DC em distribuir a saga War of the Gods (escrita por Pérez) usando apenas o circuito de lojas especializadas desagradou ao artista.
  As tensões foram-se acumulando e, quando os editores da DC resolveram substituir Pérez por William Messner-Loebs como argumentista de War of the Gods, foi a gota de água que fez transbordar o copo. Inconformado com a decisão, Pérez desistiu do projeto e divorciou-se da Editora das Lendas por vários anos. Na base desse ressentimento do artista, esteve também o facto de ter sido atribuída ao seu sucessor a missão de escrever a cena final da saga apresentando o casamento das personagens Steve Trevor e Etta Candy (ideia cujos créditos pertenciam a Pérez).
  Ainda em 1991, Pérez foi contratado pela Marvel para desenhar os seis capítulos da saga Infinity Gaunlet (Desafio Infinito, minissérie editada pela Abril em 1995) da autoria de Jim Starlin. As coisas não correram, porém, como esperado. Em consequência da turbulência ocorrida em War of the Gods, e coincidindo com um período atribulado da vida pessoal de Pérez, este apenas conseguiu finalizar quatro dos seis volumes previstos da saga. Cabendo, assim, a Ron Lim desenhar os outros dois. Apesar de Pérez se ter disponibilizado para assessorar o seu substituto, os editores da Casa das Ideias acharam por bem afastá-lo do projeto.
   Em virtude destes dois episódios, George Pérez ganhou a fama de ser um artista virtuoso, porém incapaz de levar os seus projetos até ao fim. Colocado na prateleira pelas duas principais licenciadoras, Pérez virou-se então para as editoras independentes.
   Na Malibu Comics desenhou Break-Thru e Ultraforce (títulos que integravam o chamado Ultraverso). Ao passo que na Tekno Comix foi responsável pelas ilustrações de I-Bots. Embora principescamente pago, Pérez não se sentia empolgado com as personagens que tinha em mãos e logo perderia o interesse em colaborar com os respetivos títulos.



Duas máculas no currículo de Pérez.
   Afastado dos holofotes ao longo dos primeiros anos da década de 1990 - ainda que tenha participado em diversos projetos nesse período - Pérez regressaria à Casa das Ideias em finais de 1992 para desenhar o arco de histórias Hulk: Future Imperfect (Hulk: Futuro Imperfeito) escrito por Peter David. Com este a eleger Pérez como seu ilustrador favorito, e um dos três cuja arte conseguia materializar na perfeição as suas ideias e conceitos.
   Feitas finalmente as pazes com a DC, Pérez regressou à Editora das Lendas, em outubro de 1996, para assumir a arte-final de Dan Jurgens nos primeiros 15 números de Teen Titans vol.2 (série que seria cancelada em setembro de 1998, ao cabo de 24 edições).
   A exemplo de muitos dos seus colegas de ofício nos anos 1990, Pérez também se aventurou na criação de material próprio. Com os resultados a ficarem, porém, aquém das expectativas. Publicada originalmente em 1997 pela defunta Event Comics, Crimson Plague era uma inacabada novela gráfica de ficção científica protagonizada por uma alienígena com sangue tóxico. Três anos volvidos, e já sob a égide da Gorilla Comics, o primeiro número da série seria reeditado sendo-lhe adicionadas algumas páginas inéditas.

Outro dos projetos inacabados de Pérez.
  Seria ainda lançado um segundo número de Crimson Plague antes de os elevados custos da autoedição levaram Pérez a desistir do projeto, desconhecendo-se até hoje se tencionaria fazer algo mais com esse material.
  No início deste século, a sua passagem pela CrossGen também não correu de feição, visto que a editora faliu poucos meses depois de Pérez ter sido contratado para desenhar o seu título de charneira, Solus.
  Encerrado esse parêntesis na sua carreira profissional, o regresso de Pérez à ribalta ocorreu na viragem do século ao serviço da Marvel. Em 1999, juntou-se ao escritor Kurt Busiek na muito ovacionada terceira série de The Avengers. Como nos bons velhos tempos, a arte de Pérez deixou os fãs extasiados, ao ponto de eles o absolverem dos seus pecadilhos passados.
  Quando, três anos depois, Pérez deixou o título, teve ainda tempo e energia para, em conjunto com Busiek, produzir o há muito aguardado crossover entre a Liga da Justiça e os Vingadores. Dado à estampa em 2003, as origens deste projeto comum da Marvel e da DC remontam ao princípio dos anos 1980. Cancelado devido a divergências entre as duas editoras, a sua versão original contava com 21 páginas desenhadas por Pérez, as quais seriam inclusas, em 2004, na edição encadernada da saga.

Pérez sentiu-se como peixe na água a desenhar o épico JLA/Avengers. 
   Em 2011, cinco anos após o seu mais recente regresso à DC (em efervescência devido aos Novos 52!), Pérez tornou-se argumentista de Superman, assegurando também a arte das capas. Paralelamente, num projeto que reuniu a equipa criativa responsável pelo êxito dos Novos Titãs em meados da década de 1980, ele e Marv Wolfman produziram a aclamada graphic novel New Teen Titans: Games.
  Pérez justificou, em julho de 2012, a sua saída extemporânea do título do Homem de Aço (do qual escreveu somente 6 números) com a enorme pressão editorial a que foi submetido. Uma das suas principais razões de queixa assentava na incapacidade dos seus editores em explicarem-lhe alguns aspetos básicos da nova continuidade do herói (como o facto de os seus pais adotivos estarem ainda vivos). Incoerências a que se somavam as dificuldades de articulação com o outro título do herói, Action Comics (escrito à época por Grant Morrison), ambientado cinco anos antes dos eventos narrados em Superman.


George Pérez foi um dos obreiros da reformulação do Super-Homem em Os Novos 52.

   Casado há mais de 30 anos com a ex-bailarina e atual professora de dança, Carol Flynn, George Pérez é diabético, tendo já sido submetido a uma operação à retina. Acumula as funções de diretor-adjunto da The Hero Initiative (projeto filantrópico patrocinado pela indústria dos comics) com o seu trabalho artístico. Aos 60 anos e com um currículo invejável, não pensa na reforma. Diz também não ter qualquer personagem favorita. Conhecida a sua preferência por desenhar magotes de heróis, talvez o bom e velho George acredite que, por vezes, quantidade é realmente sinónimo de qualidade.
  Independentemente do que o futuro lhe reserva, pelo seu extraordinário talento e pelo seu inestimável contributo à 9ª arte, George Pérez já garantiu há muito o seu lugar no Olimpo dos deuses da banda desenhada.

Autorretrato do Mestre.
Prémios e distinções: Sem surpresa, ao longo da sua prolífica carreira, George Pérez viu vários dos seus trabalhos distinguidos tanto pelos seus pares como pelos fãs. O primeiro prémio por ele arrebatado data de 1979: um Eagle Award para o melhor arco de histórias (The Avengers nº167, 168 e 170 a 177). Feito reeditado no ano seguinte e em 1986, nas categorias de, respetivamente, melhor arte de capa (ainda com Avengers) e artista favorito do público. Pelo meio, em 1983, recebeu um Inkpot Award para melhor ilustrador.
  Verdadeiro ano de ouro para Pérez, 1985 marcou a sua consagração definitiva: ao mesmo tempo que o seu nome era incluído na lista das 50 personalidades homenageadas pela DC no seu cinquentenário, Crise nas Infinitas Terras conquistava o Jack Kirby Award para melhor saga (galardão dividido com Marv Wolfman e reconquistado em 1986).
  Por três anos consecutivos (1985, 1986 e 1987), Pérez foi eleito pelo Comics Buyer's Guide (espécie de boletim periódico que dá a conhecer as preferências dos fãs) como o melhor ilustrador de capas. Ainda a enriquecer o seu impressionante portfólio, outros três prémios para melhor artista atribuídos pelo mesmo CBG nos anos de 1983, 1985 e 1987. Aos quais se somam muitos outros que - a título individual ou coletivo - distinguem o seu trabalho artístico. Indiferente a esta glorificação, Pérez conserva a sua humildade,sendo conhecido pela sua simpatia militante. Virtudes que fazem dele um artista de tarimba e um homem de caráter.



   

sábado, 27 de setembro de 2014

ETERNOS: MARV WOLFMAN (1946 - ...)




     Consagrado através do trabalho desenvolvido com os Novos Titãs na década de 1980, Marv Wolfman teve em Crise Nas Infinitas Terras um dos maiores desafios da sua multifacetada e multipremiada carreira. Criador de personagens carismáticas, como Blade, Nova ou Tim Drake (Robin III), tornou-se ele próprio um herói acidental na defesa dos direitos autorais dos argumentistas.

Biografia e carreira: Segundo filho (tem uma irmã 12 anos mais velha) de um modesto casal composto por um polícia e uma doméstica, Marvin "Marv" Arthur Wolfman nasceu a 13 de maio de 1946 no Brooklyn, sendo portanto um nova-iorquino de gema. Aos 13 anos, mudou-se com a sua família para Queens, passando a frequentar o liceu local. Na esperança de vir a ser um cartunista, transferiu-se, anos depois, para o High School of Art and Design, em Manhattan.
     Sempre com esse objetivo em vista, durante os anos que se seguiram manteve-se muito ativo no circuito amador da 9ª arte, colaborando em diversos fanzines. Wolfman foi, de resto, o primeiro a publicar Stephen King nas páginas de um desses seus projetos editoriais: em 1965 deu à estampa Stories of Suspense #2 -um fanzine de terror da sua autoria - contendo um conto do mestre do suspense, intitulado In A Half-World Of Terror.
   A profissionalização como argumentista chegaria três depois, em 1968, ao serviço da DC Comics. Blackhawk #242 (datado de agosto/setembro desse ano) assinalou a primeira publicação oficial de material produzido por Wolfman (sem que, contudo, o mesmo lhe tivesse sido creditado). Meses depois, ele e o seu velho amigo Len Wein criaram em conjunto a personagem Jonny Double, cuja primeira aparição ocorreu em Showcase #78, ficando a história a cargo de Wolfman. Ainda nesse ano, em dezembro, os dois escreveram a meias Eye of the Beholder para Teen Titans #18. Com a particularidade de ter sido essa a primeira vez que Len Wein teve direito a figurar nos créditos da revista.

Uma das primeiras criações de Marv Wolfman.

    Em meados de 1969, Neal Adams foi chamado para reescrever e redesenhar uma história dos Titãs originalmente concebida por Wolfman e Wein. A qual - se não tivesse sido vetada pelo editor Carmine Infantino-  teria introduzido na mitologia da DC o primeiro super-herói afro-americano. Apesar desse revés, Wolfman - agora em parceria com Gil Kane - deu a conhecer em Teen Titans nº22 (julho/agosto de 1969) a origem inédita da Moça-Maravilha, sendo igualmente apresentado nessa edição o novo uniforme da personagem.
    Em 1972, já depois de ter criado com Bernie Wrightson a personagem Destiny (reciclada anos depois por Neil Gaiman), Marv Wolfman, na qualidade de protegido do editor-chefe da Marvel Roy Thomas, mudou-se de armas e bagagens para a Casa das Ideias. Quando Thomas abandonou o cargo, Wolfman assumiu o seu lugar, desempenhando inicialmente as funções de editor dos títulos a preto e branco publicados pela Marvel Comics, daí transitando para a linha de séries coloridas. Wolfman confidenciaria quase uma década depois que " a Marvel nunca se comprometeu completamente com a sua linha de títulos a preto e branco. Tão-pouco assumiu o menor compromisso com os profissionais que nela trabalhavam. Coube-me a mim selecionar e formar um novo painel de argumentistas e ilustradores". Não obstante, Wolfman renunciou ao cargo de editor-chefe de molde a dispor de mais tempo para se dedicar àquilo que mais gostava de fazer: escrever.
     Pouco tempo após tomar esta decisão, Wolfman foi convidado a assumir os argumentos de The Tomb of Dracula, série de terror (publicada entre 1972 e 1979) que se tornou um fenómeno de culto entre os leitores, sendo também muito aclamada pela crítica. Durante este período, Wolfman - em conjunto com Gene Colan - criou Blade, o caçador de vampiros celebrizado décadas depois no cinema através de uma sensacional trilogia protagonizada por Wesley Snipes.

A estreia de Blade em Tomb of Dracula #10 (1972).

    Até 1980 (ano em que, em litígio com a Marvel, regressou à DC), Wolfman imprimiu o seu cunho numa panóplia de títulos da Casa das Ideias, como Marvel Two-in-One, Spider-Woman, Spider-Man e Fantastic Four. Pelo meio, trabalhou em projetos paralelos como uma tira diária de Howard, the Duck e criou ou reinventou diversas personagens: Nova, Gata Negra e Mercenário (Bullseye, no original) são apenas alguns exemplos dessa sua efervescência  criativa.
  Novamente ao serviço da Editora das Lendas, Wolfman formou com George Pérez a dupla criativa incumbida de revitalizar o título regular dos Titãs. Adicionando ao elenco original da equipa novas e carismáticas personagens -  Cyborg, Starfire (Estelar), Raven (Ravena) e Changeling (Mutano) - os dois conseguiram não só dar um novo elã à série, como torná-la o primeiro grande êxito da DC em vários anos. Não surpreendendo por isso que, em 1984, Wolfman e Pérez tenham sido novamente cooptados para assumir os destinos de uma segunda série de The New Teen Titans.

The Judas Contract (O Contrato de Judas) foi uma das melhores sagas produzidas pela dupla Wolfman/Pérez naquela que é considerada a fase áurea dos Novos Titãs.

   Mais surpreendente foi o ovacionado Chris Claremont (à época uma das superestrelas da Marvel) ter sido, presumivelmente, sondado por um executivo da DC numa festa natalícia em 1986, para assumir as histórias dos Novos Titãs. Proposta prontamente declinada por Claremont, que se apressou a transmitir o sucedido a Wolfman. Quando este confrontou os mandachuvas da editora, eles alegaram que tudo não passara de uma brincadeira. A despeito deste desmentido, Claremont sustentou sempre que, na sua opinião, se tratara de uma oferta genuína de trabalho.
   O episódio acima relatado verificou-se já depois de George Pérez ter abandonado The New Teen Titans. Wolfman, por seu turno, manteve-se responsável pelos enredos da série durante mais alguns anos, colaborando nesse períodos com outros artistas consagrados, como Tom Grummett, Eduardo Barreto ou José Luis García-López.
   A dupla-maravilha Wolfman/Pérez reunir-se-ia, contudo, para produzir uma ambiciosa saga em doze capítulos intitulada Crisis on Infinite Earths (Crise nas Infinitas Terras). Corria o ano de 1985 e, para assinalar o seu meio século de existência, a DC resolveu arrumar a casa. O mesmo é dizer que a Wolfman e Pérez coube a ciclópica missão de reestruturar uma cronologia velha de 50 anos, na qual pontificava uma miríade de personagens espalhadas por um intrincado multiverso.
    Sob a batuta de Wolfman, dezenas de personagens foram eliminadas enquanto algumas provenientes de outras editoras foram incorporadas na depurada cronologia da DC. Findo esse megaprojeto, seguiu-se outro de idêntica envergadura: sempre em colaboração com Pérez, Wolfman escreveu History of the DC Universe, espécie de compêndio que sumarizava a renovada história da Editora das Lendas.

Capa do primeiro volume de Crisis on Infinite Earths, a saga que revolucionou para sempre o Universo DC.

    Antes de se envolver numa disputa pública com a DC tendo como base o sistema de classificação dos conteúdos publicados pela editora, Wolfman teve ainda tempo para dar o seu contributo no relançamento do Super-Homem, reinventado o seu eterno némesis (Lex Luthor) e introduzindo nas histórias do herói kryptoniano personagens como o Professor Emil Hamilton e a repórter social Cat Grant.
    Na sequência da disputa supracitada, Wolfman seria destituído das suas funções editoriais na DC, que não lhe perdoou o facto de ter tornado públicas as suas críticas ao sistema de classificação de conteúdos por ela implementado. Algum tempo depois, contudo, os responsáveis da empresa reconsideram a sua decisão e apresentaram um pedido de desculpas a Wolfman, acompanhado de um convite para que ele voltasse à DC. Wolfman aceitou o primeiro, tendo porém recusado o segundo.
     As pazes só seriam feitas no início da década de 1990, altura em que Wolfman, regressado à Editora das Lendas, teve uma breve passagem por Batman, a qual se saldou na criação de Tim Drake (o terceiro Menino Prodígio). Antes de reassumir os enredos de The New Teen Titans (desta feita em parceria com Tom Grummett), foi o responsável pela adaptação da primeira história de sempre do Homem-Morcego, publicada a par de outras duas adaptações e da original numa iniciativa inserida nas comemorações das bodas de ouro do herói.
     Apesar desses ponto altos, o regresso de Wolfman à DC ficou aquém das expectativas. A isto não terá sido alheio o facto de, em meados dos anos 90, ele ter abraçado, em paralelo, vários projetos televisivos e de animação. Com efeito, por essa altura, Wolfman assentou arraiais na Disney Comics, onde produziu vários arcos de histórias para algumas das figuras de proa da editora, como o Rato Mickey e o Tio Patinhas. Funções que acumulou com as de editor da revista Disney Adventures.
     Em finais da década de 1990, Wolfman foi um dos obreiros da série televisiva Beast Machines, baseada nos Transformers e muito elogiada pela consistência dos seus argumentos. Esse projeto decorreu de uma sua anterior colaboração, remontando aos anos 80, na terceira temporada da série animada Transformers. Wolfman foi o autor da história que marcou o regresso de Optimus Prime.
    No alvor deste século, Marv Wolfman regressou à indústria dos comics. O seu primeiro projeto nesta nova fase da sua carreira consistiu em escrever as histórias de Defex, personagem de charneira da Devil's Due Productions. Diversificando o escopo do seu trabalho, foi também consultor de Geoff Johns em várias edições de The Teen Titans, responsável pela novelização de Crise nas Infinitas Terras e do filme Superman Returns, além de coargumentista em Condor, filme de animação produzido pela Pow Entertainment (propriedade de Stan Lee) e lançado diretamente em DVD.

Defex marcou o regresso de Marv Wolfman aos quadradinhos.

   Em  2006, Marv Wolfman assumiu as funções de diretor editorial da Impact Comics, licenciadora de material didático inspirado no género mangá e direcionado para os estudantes estadunidenses a frequentarem o ensino secundário. Nesse mesmo ano, tornou-se argumentista da série Nightwing.
    Após escrever uma minissérie estrelada por Ravena, voltou a colaborar com George Pérez. Desta feita na produção de uma película de animação baseada na ovacionada saga dos Novos Titãs, Judas Contract (O Contrato de Judas).
     De então para cá, Wolfman e o seu eterno parceiro criativo concluíram, em 2011, a novela gráfica New Teen Titans: Games, projeto que haviam começado a desenvolver nos anos 80 do século passado. No ano seguinte, Wolfman, secundado pelo artista Tom Mandrake, reviveu a série Night Force. Prestou também consultoria na elaboração do enredo do jogo de vídeo Epic Mickey 2: The Power of Two, trabalho pelo qual foi nomeado para o Writers Guild of America Award, na categoria de Videojogo Com Melhor Argumento. E este, como fica patente na listagem abaixo, não foi o único galardão que recebeu ao longo da sua fulgurante carreira. Marcada, ainda assim, por algumas polémicas.

A graphic novel que assinalou a reedição da dupla-maravilha Wolfman/Pérez.

    Começando pela sua decisão de, em vésperas da estreia do filme Blade (1998) nos cinemas de todo o mundo, intentar um processo judicial contra a Marvel Comics, assente numa suposta violação dos seus direitos autorais. Em 2000, porém, um tribunal norte-americano deu razão à Casa das Ideias, sendo o acórdão essencialmente fundamentado no argumento de que, conquanto Blade tenha sido uma criação de Marv Wolfman em 1972, o subsequente uso da personagem por parte da editora foi substancialmente diverso do conceito original.
Marv Wolfman (dir.) conversa com Wesley Snipes numa pausa nas filmagens de Blade.

    Outra polémica, remontando aos primórdios da sua carreira, envolveu a Comics Code Authority (espécie de censor prévio dos conteúdos publicados pela indústria dos quadradinhos nos EUA). Numa época em que raros eram os autores a receberem os créditos nas publicações em que colaboravam, Marv Wolfman foi uma dessas exceções, quando ainda escrevia histórias para séries de terror e mistério editadas pela DC. Na origem do problema esteve o apelido do escritor (Wolfman significa Homem-Lobo em inglês). Uma vez que o Comics Code Authority (CCA) não permitia referências a lobisomens, exigiu que o seu nome fosse removido da ficha técnica das revistas em questão, julgando tratar-se de um pseudónimo.
   Porém, depois de a DC ter informado o organismo supervisor de que Wolfman era um apelido verdadeiro, a CCA insistiu que o nome constasse dos créditos das publicações. Abrindo dessa forma um precedente que motivou outros autores a reivindicarem igual direito. Pouco tempo depois, essa tornou-se uma prática corrente na indústria. Wolfman tornou-se, pois, inadvertidamente, um precursor na defesa dos direitos autorais dos seus pares.
     Casado em segundas núpcias e pai de uma filha, Marv Wolfman conta atualmente 68 anos, mas mantém-se no ativo. No seu site pessoal ( www.marvwolfman.com), pode ler-se:
  "Comecei a escrever por causa da minha paixão pela banda desenhada. É por isso muito gratificante ver muitas das personagens por mim criadas ganharem vida na TV e no cinema. Na verdade, só Stan Lee conseguiu ver mais criações suas transpostas para esses media do que eu. E sinto que ainda tenho muito para dar".
     E nós, fãs de ontem, hoje e amanhã, cá estaremos para nos deleitarmos com as suas fascinantes estórias.


Marv Wolfman  formou com George Pérez (dir.) uma das mais formidáveis duplas criativas da nona arte.

Principais criações e cocriações: 

* Nightwing/Asa Noturna (a identidade, não o conceito original, foi uma criação conjunta com George Pérez);
* Tim Drake (Robin III);
* Trigon;
* Brother Blood/Irmão Sangue;
* Terra;
* Destiny;
*Nova;
*Blade;
* Deathstroke/Exterminador; Cyborg; Raven/Ravena; Starfire/Estelar (cocriações com George Pérez);
* Bullseye/Mercenário;
* Terrax;
*Gata Negra;
*Monitor;
*Anti-Monitor;
* Jonny Double (cocriação com Len Wein);
* Omega Men;
* E muitos, muitos mais...


Mercenário.

Prémios e distinções: 

* 1 Shazam Award para melhor escritor humorístico em 1973;
* 1 Eagle Award na categoria de melhor nova série em 1982;
* 2 Eagle Awards (1984 e 1985) na categoria de melhor grupo de super-heróis (Novos Titãs);
* 2 Jack Kirby Awards (1985 e 1986) para melhor saga (Crise nas Infinitas Terras), distinção dividida com George Pérez);
* 1 Scribe Award conquistado em 2007 pela sua novelização de Superman Returns;
* 1 National Jewish Book Award pela sua obra de não ficção Homeland, The Illustrated History of the State of Israel;
* Além destes galardões, outras distinções abrilhantam o seu impressionante currículo. Destacando-se entre elas o facto de, em 1985 (ano em que se celebrou o 50º aniversário da DC), o seu nome ter figurado no quadro de honra da Editora das Lendas. Marv Wolfman foi uma das 50 personalidades homenageadas nessa data histórica.

Simplesmente Marv.