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sábado, 5 de dezembro de 2015

ETERNOS: PETER DAVID (1956 - ...)




   Cedo se deixou fascinar pelas historietas com super-heróis que lia às escondidas devido à censura paterna. Homem feito, tornou-se um dos mais requisitados escritores da indústria dos quadradinhos, da qual sempre foi muito crítico. Versátil como poucos, a sua influência criativa estende-se à literatura, ao cinema, à televisão e até aos videojogos.

Biografia: Peter Allen David (PAD, para os amigos) nasceu há 59 anos em Fort Meade, no estado norte-americano do Maryland. De ascendência judaica, em meados da década de 1930, o seu pai e avós paternos procuraram refúgio nos EUA, para escaparem ao antissemitismo que alastrava então na sua Alemanha natal dominada pelos nazis.
   O mais velho de três irmãos, Peter começou a interessar-se por banda desenhada por volta dos cinco anos de idade. Tinha por hábito ler títulos da Harvey Comics, principalmente Casper e Wendy, aquando das suas visitas ocasionais ao barbeiro. Mais ao menos por essa altura, através da popular série televisiva Adventures of Superman (protagonizada por George Reeves), descobriu o fabuloso mundo dos super-heróis. Elegeria, de resto, o Homem de Aço como sua personagem favorita.
  Fascinado, o pequeno Peter enfrentou, porém, a desaprovação paterna relativamente a esse tipo de publicações. Personagens com aparências monstruosas, como o Hulk ou o Coisa, eram consideradas más influências pelo seu genitor. Consequentemente, a Peter não restou outro remédio senão ler à socapa os comics que tanto adorava.
  Antes ainda de obter autorização parental para ler estórias com super-heróis, Peter tornou-se admirador incondicional da arte de John Buscema. Seria, contudo, de outro desenhador lendário que conseguiria um autógrafo. Aconteceu em Nova Iorque, em meados de 1971, quando visitou pela primeira vez uma convenção de quadradinhos. Naquele que foi o seu primeiro encontro com um profissional da 9ª arte, Peter teve o privilégio de estar cara a cara com ninguém menos do que Jack Kirby.
  Outra das paixões precoces de Peter, herdada do seu pai (jornalista e crítico de cinema), foi a escrita. Por volta dos doze anos, ele começou a acalentar o sonho de vir a ser repórter ou escritor profissional. Objetivo que, ao longo do seu percurso de vida, nunca perdeu de vista.
  Na adolescência, enquanto frequentava o liceu de Verona (uma pacata cidade de Nova Jérsia), Peter foi perdendo aos poucos o interesse pelas histórias aos quadradinhos, que lhe pareciam agora demasiado pueris.
  Redescobriria, porém, a sua paixão por esse material em meados de 1975, quando lhe chegou às mãos um exemplar de Giant-Size X-Men nº1. Edição histórica onde era apresentada a nova fase da equipa mutante, da autoria de Len Wein (perfil já publicado neste blogue) e Dave Cockrum. Peter era por esses dias caloiro do curso de Jornalismo da Universidade de Nova Iorque, o qual concluiria anos depois e que seria preponderante para as suas aspirações literárias.

O novo começo dos X-Men levou Peter David a reencontrar a magia dos super-heróis.

  Outro episódio capital na sua vida ocorreria pouco tempo depois. Numa sessão de autógrafos com Stephen King, Peter confidenciou ao aclamado mestre do suspense a sua ambição de vir a ser um profissional da escrita. Em troca, recebeu de King a seguinte dedicatória assinada : "Boa sorte para a tua carreira de escritor". Palavras de encorajamento que Peter ainda hoje faz questão de inscrever nos livros de fãs que acalentam o mesmo sonho.
  Além de Stephen King, Peter David cita como suas principais referências literárias Arthur Conan Doyle, Neil Gaiman, Edgar Rice Burroughs e Harlan Ellison. Reconhecendo ser este último cujo estilo de escrita procura mimetizar nas suas obras. A despeito destas influências, a prosa de Peter possui algumas especificidades. Regra geral, o seu tecido narrativo é alinhavado com elementos da vida real, costurado com referências da cultura popular e arrematado com humor mordaz.
  Árduo foi, no entanto, o caminho que Peter David teve de calcorrear antes de consumar as suas veleidades de literato. Com efeito, os primeiros passos no movediço terreno das letras foram dados na qualidade de repórter. Ao serviço do Philadelphia Bulletin, em 1974 fez a cobertura jornalística da Convenção Mundial de Ficção Científica que nesse ano teve como palco a cidade de Washington.
   Sentindo-se pouco realizado profissionalmente, em paralelo à sua incipiente carreira como jornalista, Peter arriscou aventurar-se nos meandros da ficção literária. Muitos dos seus trabalhos acabaram, porém, rejeitados. Contrariedades que o levaram a colocar temporariamente na prateleira o seu projeto de vir a ganhar a vida como escritor.
  Durante esse parêntesis de quase uma década, Peter trabalhou numa pequena editora livreira, passou pela revista Playboy e quis o Destino que acabasse como assistente de vendas da Marvel Comics. Funções para as quais foi contratado por Carol B. Kalish, sob cujas ordens trabalharia ao longo de aproximadamente cinco anos. Seria, de resto, pela mão da sua chefe que, em 1985, Peter se estrearia como escritor de banda desenhada. Estreia particularmente auspiciosa, atendendo ao fragoroso sucesso da saga A Morte de Jean DeWolff (ver texto anterior).

A obra de estreia de Peter David como profissional da 9ª arte.
 
   Antes disso, Peter tentara já a sua sorte, submetendo algumas histórias da sua autoria - nomeadamente, do Cavaleiro da Lua - à apreciação de Dennis  O´Neil (à época, escritor de Iron Man e Daredevil). Tentativas que resultaram, porém, infrutíferas.
   Mesmo o seu primeiro êxito como argumentista não foi isento de dissabores. Acusado de usar o seu cargo no Departamento de Vendas para promover a saga da sua autoria, Peter pôs fim ao presumível conflito de interesses, recusando-se a discutir assuntos editoriais durante o horário de expediente. Atribuindo a esta sua decisão a débil prestação comercial de A Morte de Jean DeWolff, apesar da reação positiva dos leitores e da crítica.
   Meses após a sua demissão de Peter Parker, The Spectacular Spider-Man, Peter David foi convidado a assumir The Incredible Hulk. Título mensal que lutava então pela sobrevivência e que, por esse motivo, mais ninguém aceitaria escrever. No entanto, onde outros veriam um degredo, Peter viu uma segunda oportunidade para mostrar o seu valor. Não hesitando, por isso, em agarrá-la com ambas as mãos. Tanto mais que, devido ao declínio da personagem, ele beneficiaria de total liberdade para fazer o que bem entendesse com ela. Devido à densidade dos seus enredos, foi algures nesta fase que Peter deixou de usar o famoso Método Marvel (que consiste, essencialmente, numa sinopse alargada) para produzi-los.
  Assim, durante a dúzia de anos em que escreveu as histórias do Hulk, Peter explorou com mestria os distúrbios de personalidade que caracterizavam o amargurado Golias Esmeralda. Em linha com essa abordagem psicanalítica - e numa homenagem aos primórdios da personagem -, criou também uma versão cinzenta do Hulk - menos poderosa, porém mais inteligente do que a tradicional. Revisitando o passado familiar de Bruce Banner, Peter estabeleceu que o alter ego do Gigante Verde fora vítima de um pai abusivo na infância. Premissa já anteriormente aflorada por Bill Mantlo, numa história publicada em The Incredible Hulk nº312 (outubro de 1985) e recuperada em 2003, na longa-metragem dirigida por Ang Lee.
  Peter David teve, portanto, o condão de transformar um título decadente num best-seller da Casa das Ideias. A cereja no cimo do bolo surgiria em 1992, sob a forma de um Eisner Award pelo seu trabalho em The Incredible Hulk. Entretanto, o seu currículo foi sendo enriquecido com outros projetos bem-sucedidos, como Wolverine, X-Factor e Spider-Man 2009 (conceito de que foi coautor).

Pela pena de David, o Incrível Hulk viveu uma das suas melhores fases

  Tamanho sucesso despertou a cobiça da concorrência. Aliciado pela DC Comics, acabaria por aceitar mudar-se para a Editora das Lendas em meados dos anos 90, já depois de ter abandonado Spider-Man 2099 em protesto pela demissão do editor Joey Cavalieri.
   Esta não foi, aliás, a única vez em que Peter assumiu posições de rutura. Em diversas ocasiões expressou opiniões críticas relativamente à indústria dos comics. Reagindo, por outro lado, com veemência às pressões editoriais a que foi sujeito. Cansado de lhe ser exigido que reescrevesse as suas histórias de molde a que estas acomodassem eventos de outros títulos, por mais que uma vez Peter bateu com a porta. Um bom exemplo foi quando abandonou abruptamente X-Factor devido a esse tipo de exigências por parte dos seus editores. Ou quando, em resultado de alegadas divergências criativas, interrompeu o seu trabalho em Aquaman.
  Na sua mira esteve também a forma, por ele considerada pouco digna, como os escritores são tratados pelas editoras. Cujas estratégias de marketing, baseadas essencialmente no lançamento de trade paperbacks em prejuízo dos títulos mensais, ele também questionou publicamente.
 Houve ainda mais dois aspetos que lhe mereceram duras críticas: o frequente desrespeito pela continuidade das personagens, por um lado; e a forma leviana como estas são mortas e posteriormente ressuscitadas, por outro. Tudo circunstâncias que o tornaram uma figura incómoda aos olhos de alguns.

X-Factor: o grupo de heróis mutantes a quem Peter David deu um novo fôlego.

  Entre as várias controvérsias em que Peter David se foi envolvendo ao longo dos anos, sobressai aquela que o opôs em 1993 a Todd McFarlane (com quem trabalhara em Hulk). E que teve o seu clímax num debate organizado no âmbito da Comic Con de Filadélfia em outubro desse ano. Numa altura em que a Image Comics se tentava afirmar no competitivo mercado editorial norte-americano, McFarlane acusava os meios de comunicação social e o próprio Peter David de discriminarem a empresa de que fora cofundador. Após uma acalorada troca de argumentos, o júri acabou por dar razão a Peter David.
  Visceralmente adverso a qualquer forma de censura, o escritor entrou várias vezes em rota de colisão com instâncias ligadas à indústria dos quadradinhos. O seu alvo predileto parece ser, no entanto, a Comics Code Authority. A entidade que regula a ética das licenciadoras foi por ele várias vezes acusada de práticas censórias. Complementarmente, Peter David é um dos promotores do Comic Book Legal Defense Fund. Trata-se de um fundo criado com o objetivo de prestar auxílio financeiro a autores e distribuidores em dificuldades.
  No campo político, a Peter David (liberal assumido) são também conhecidas posições bem vincadas. Adepto de causas sociais fraturantes preconiza, por exemplo, a admissão de homossexuais nas Forças Armadas estadunidenses, a abolição da pena capital e um controlo mais restrito ao porte de armas por parte de civis. Foi ainda um feroz opositor da Guerra do Iraque e da administração Bush.
   De volta aos quadradinhos, ao serviço da DC, Peter teve em Supergirl o seu trabalho mais notável. Ao reinventar a origem e os poderes da prima do Homem de Aço, transformou a sua série mensal num fenómeno de popularidade. Proeza posteriormente repetida com  Aquaman, Star Trek e Young Justice. De facto, à medida que ia dando novo elã a títulos moribundos ou com pouca expressão no respetivo universo editorial, Peter ganhava a fama de "milagreiro" e um lugar cativo no altar da 9ª arte.


A personalidade fragmentada da Supergirl de Peter David...


...e a sua conversão num avatar angélico de asas flamejantes.

  Além das gigantes Marvel e DC, Peter David colaborou também com editoras de menor dimensão. Entre 1999 e 2004, por exemplo, escreveu diversos números de The Spy, série de espionagem dedicada ao público juvenil editada pela Dark Horse Comics. Pelo meio, teve ainda tempo para, a meias com a segunda mulher, escrever os quatro volumes da minissérie Negima para a Del Rey Manga.
 Pela primeira vez em quase duas décadas,  Peter David volta a ser  responsável pelos enredos de dois títulos em simultâneo: X-Factor e Spider-Man 2099 (escritos por si desde julho de 2014). Nada que tire o sono a um dos mais versáteis e prolíficos autores de banda desenhada da atualidade, cuja influência se estende a outras áreas de entretenimento.
  No campo literário, Peter David soma mais de meia centena de obras publicadas, algumas das quais figuraram na conceituada lista de best-sellers do New  York Times. Apesar da sua preferência pela ficção científica, o seu repertório abrange uma grande variedade de géneros. Onde não faltam as novelizações de filmes com super-heróis. Nesta categoria, destacam-se The Rocketeer, Batman Forever e Hulk.
  Na TV, Peter foi cocriador de Space Cases, uma popular série de ficção científica cujas duas temporadas - antes do cancelamento ditado por cortes orçamentais -  foram transmitidas pelo canal Nickelodeon, entre 1996 e 1997. Outros trabalhos de relevo para o pequeno ecrã incluem os enredos de alguns episódios de Babylon 5 e da sua sucessora, Crusade.

Space Cases, a série televisiva de ficção científica de que Peter David foi coautor.

  Foram igualmente da sua autoria os guiões de dois jogos de vídeo que fizeram furor entre os fãs desse divertimento: Shadow Complex (2009) e Spider-Man: Edge of Time (2011).
 Finalmente, para o cinema, escreveu vários argumentos para filmes produzidos pela Full Moon Entertainment. Um dos quais, o western futurista Oblivion, foi eleito vencedor na categoria de Terror e Fantasia pelo júri do Festival Internacional de Houston, na sua edição de 1994.
  Sem surpresas, tão multifacetada obra rendeu-lhe ao longo  dos anos uma panóplia de prémios e outras distinções. Além do já mencionado Eisner Award, o seu currículo é abrilhantado, também, por galardões internacionais. Em 1995 viu ser-lhe atribuído um Haxtur Award (Espanha) e, no ano seguinte, arrebatou um OZCon (Austrália), ambos na categoria de Melhor Escritor. Sendo esses, porém, apenas alguns dos títulos mais prestigiosos que pontificam no seu impressionante palmarés.
   Escriba incansável, Peter David é também um homem de família. Casado em segundas núpcias desde 2001 com a também escritora Kathleen O'Shea, o casal reside atualmente em Suffolk County, um pitoresco subúrbio de Nova Iorque. Do seu primeiro matrimónio (com Myra Kasman, que conhecera em 1977 numa convenção de trekkies), Peter tem três filhas. A que se juntou uma quarta, fruto do seu enlace com Kathleen. E à qual deu nome de Caroline, em homenagem à sua velha amiga Carol Kalish a quem deve, recorde-se, a sua entrada no mundo dos quadradinhos.
   Peter fez saber em várias ocasiões que, quando trabalha num determinado projeto, tem sempre em mente uma pessoa ou um conjunto de pessoas a quem gostaria de dedicá-lo. Foi assim, por exemplo, com Supergirl, título escrito a pensar nas suas filhas. Já The Incredible Hulk foi  um tributo à sua primeira esposa, que o encorajara a aceitar esse desafio. Note-se, a este propósito, a ironia de a personagem que catapultou Peter David para o estrelato ter sido justamente uma daquelas que motivaram a interdição paterna nos seus tempos de menino. Acrescentando, à guisa de curiosidade, a mágoa que o escritor guarda devido ao facto de nunca ter tido oportunidade de trabalhar com Batman, Drácula ou Tarzan.
   Adivinhando-se-lhe ainda muitos anos de atividade literária  - apesar de alguns problemas de saúde diagnosticados - é bem possível que, num futuro próximo, Peter David venha a colmatar essas lacunas no seu repertório.Reforçando assim o seu estatuto de grande expoente da cultura pop.

Peter David é presença assídua nas Comic Cons. Para quando a sua vinda a Portugal?

    


    





quinta-feira, 19 de novembro de 2015

CLÁSSICOS REVISITADOS: « A MORTE DE JEAN DEWOLFF»




   Na peugada do assassino da sua mais valorosa aliada, um transtornado Homem-Aranha enreda-se numa teia de mistérios e segredos desconcertantes. Logo descobrindo, porém, que esse foi apenas o prelúdio de uma macabra história escrita com o sangue de inocentes. 
  Obra de estreia de Peter David como profissional dos quadradinhos, esta saga ocupa um lugar de destaque na memorabilia do herói aracnídeo.


Título original da saga:  The Death of Jean DeWolff
Data de publicação: Outubro de 1985 a janeiro de 1986
Licenciadora: Marvel Comics
Autores: Peter David (enredo) e Rich Buckler (arte)
Títulos abrangidos: Peter Parker, The Spectacular Spider-Man nº 107-110
Personagens principais: Homem-Aranha, Devorador de Pecados, Jean DeWolff, Demolidor, J. Jonah Jameson, Betty Brant, Emil Gregg, Tia May e Ernie Popchik

Edição brasileira


A primeira metade da saga foi publicada em Homem-Aranha nº87.

Editora: Abril*
Publicado em: Homem-Aranha (1ª série) nº87 e 88 (setembro-outubro de 1990)
Formato: Formatinho (13,5 x 19cm), colorido e com lombada agrafada
Na minha coleção desde: 1991

*Sob os auspícios da Panini Comics, em março de 2013, foi lançada a compilação da saga num volume com 172 páginas e em formato americano.

Edição encadernada da Panini (2013).

Conceção e desenvolvimento: Recém-chegado à indústria dos comics, Peter David foi incumbido pelo então editor da linha de títulos do Homem-Aranha, Jim Owsley (pseudónimo de Christopher Priest), de escrever uma saga que desse um safanão ao herói e aos fãs. Owsley pretendia uma história que incluísse o assassinato da Capitã Jean DeWolff e uma série de acobertamentos feitos no interior do departamento policial nova-iorquino. Ficando desse modo patente que partiu de Owsley, e não de David, a ideia de matar aquela que era uma habitué das aventuras do Escalador de Paredes desde meados dos anos 70.
  Sem pudores, Jim Owsley assumiu a autoria moral do "crime" numa entrevista concedida a uma publicação especializada em quadradinhos: "O tom caprichoso de Spectacular Spider-Man há muito que deixara de agradar-me. Foi por isso que não hesitei em enxotar Al Milgrom, trazendo para o seu lugar o brilhante Peter David. Embora ele fosse um novato no meio, desde o primeiro momento reconheci as suas potencialidades enquanto escritor. Sabia, no entanto, que a minha aposta só seria bem-sucedida se ele fosse adjuvado por um artista de qualidade. Quando pensei num nome, o de Rich Buckler foi o que mais me entusiasmou. Com ele e David à frente de Spectacular Spider-Man, a série adquiriu um registo mais adulto, passando a abordar temas mais complexos.
  À premissa proposta por Owsley, David juntou elementos da sua autoria. O escritor pretendia produzir uma história na qual o Homem-Aranha seria levado ao limite enquanto enfrentava um vilão capaz de cometer atos hediondos. Outro aspeto que ele pretendia explorar eram as diferenças filosóficas entre o herói aracnídeo e o Demolidor.
  Esses e outros pormenores foram incorporados na trama durante uma reunião de Owsley e David em casa deste último, a qual se prolongou até de madrugada. Ficando igualmente estipulado que a história seria composta por quatro capítulos.


Jim Owsley (em cima)  e Peter David: parceiros no crime.

  Jim Owsley recorda assim o final impactante do terceiro capítulo da saga: "Uma sequência tão intensa que chegámos a considerar a sua exclusão. Eu próprio fiquei assustado com ela. Imaginam a reação das mamãs suburbanas que haviam comprado aquela edição para os seus rapazinhos? Qual seria a cara delas ao perceberem que o Devorador de Pecados fazia explodir as entranhas de Betty Brant com um disparo da sua arma?"
  Afirmando ter-se inspirado numa antiga tradição inglesa para conceber a personagem (ver prontuário infra), Peter David explica que não foi aleatória a escolha da persona civil do Devorador de Pecados. Segundo ele, "Stan (diminutivo de Stanley) é um nome simpático para os leitores depois de décadas de associação com Stan Lee. Além disso, retratei Stanley Carter como judeu. Isaac Asimov disse certa vez que se queremos introduzir um vilão cujas intenções maliciosas devem ser dissimuladas, nada como fazê-lo judeu e pô-lo a falar com frases invertidas. Isso fará lembrar o Mestre Yoda (da saga cinemática Guerra das Estrelas), levando a que os leitores o percecionem como uma personagem amistosa".
  David lauda também o trabalho de Rich Buckler, cujo traço denso e dinâmico fez a história pulsar de vida: "Buckler conseguiu imprimir a dose ideal de realismo na trama. Foi quase como se o Homem-Aranha estivesse a participar num episódio de Hill Street Blues (série policial dos anos 80 que, em Portugal, foi traduzida como Balada de Hill Street).


Rich Buckler, o terceiro atirador.


Curiosidades:

* No terceiro capítulo da saga, existe uma cena em que o Rei do Crime dita uma carta na qual responde ao contacto efetuado por uma assassina profissional, identificada como "Senhorita C.B. Kalish". Trata-se de uma private joke envolvendo Carol B. Kalish, à época Diretora Comercial da Marvel Comics e velha amiga de Peter David. Foi, com efeito, pela mão dela que o escritor deu os primeiros passos nos meandros da 9ª arte;
* Na primeira página do quarto (e último) capítulo da trama, os flashbacks em que o Homem-Aranha rememora o fugaz romance que teve na juventude com Betty Brant são, na verdade, reproduções de painéis incluídos em algumas das primeiras histórias do herói, publicadas no início dos anos 60 em Amazing Spider-Man.

O lado lunar do Escalador de Paredes vem à tona na saga.


Quem era Jean DeWolff?


   
   Personagem idealizada por Bill Mantlo e Sal Buscema, a Capitã Jean DeWolff fez a sua primeira aparição em agosto de 1976, nas páginas de Marvel Team-Up nº48. Nos anos que precederam a sua morte, foi coadjuvante no portfólio de títulos estrelados pelo Escalador de Paredes.
  Filha de Phillip DeWolff, um antigo inspetor da Polícia nova-iorquina, Jean resolveu seguir as pisadas do pai, apesar das objeções deste. Após muito trabalho árduo, alcançou a patente de capitã no Departamento de Polícia de Nova Iorque (DPNI). Inteligente e obstinada, destacou-se também pelo seu gosto por visuais retro inspirados nos anos 30.
  Quando investigava uma série de atentados à bomba, a capitã DeWolff conheceu o Homem-Aranha, de quem se tornaria admiradora e aliada. Tornando-se, assim, uma exceção no seio de um  DPNI tradicionalmente hostil ao Escalador de Paredes, muito por conta dos virulentos editoriais do Clarim Diário.
  Na sequência da morte da capitã DeWolff às mãos do próprio namorado (Stanley Carter, vulgo Devorador de Pecados), o Homem-Aranha descobriu que ela colecionara fotos e recortes de jornais onde ele aparecia. Levando o herói a concluir que os sentimentos que ela nutria em relação à sua pessoa eram mais calorosos do que ele imaginava. Descoberta que deixou ainda mais abalado o Escalador de Paredes.


Quem era o Devorador de Pecados?



  O vilão responsável pela morte de Jean DeWolff (Sin-Eater,no original) debutou em outubro de 1985, nas páginas de Peter Parker, The Spectacular Spider-Man nº107. De seu nome verdadeiro Stanley Carter, trata-se de um conceito desenvolvido conjuntamente por Peter David e Rich Buckler, com base no folclore inglês.
  Em certas regiões do Reino Unido (e também nas montanhas Ozark, nos EUA), sempre que alguém morre, os seus entes queridos depositam frutos e outros alimentos no peito do cadáver. De acordo com esta tradição pagã, o ritual servirá para absorver os pecados do defunto. Cabendo, assim, ao Devorador de Pecados (geralmente um mendigo) comer as oferendas, assegurando dessa forma a absolvição dos pecados cometidos em vida pelo malogrado.
  Antes de se voluntariar como cobaia para uma droga experimental, o agente da SHIELD Stanley Carter já estava familiarizado com esta tradição. Inoculada no organismo humano, a substância em causa dotava os seus usuários de capacidades físicas sobre-humanas, designadamente força, resistência e reflexos amplificados. Considerado demasiado perigoso pelo Governo norte-americano (um dos efeitos colaterais da droga era a demência das cobaias), o programa recebeu ordem de encerramento. Decisão que Carter interiorizou como um abuso de autoridade, motivando a sua renúncia.
  Carter foi submetido a testes antes de regressar à vida civil, não tendo sido detetados vestígios da droga no seu organismo. Alguns comportamentos seus indiciavam, porém, uma sanidade mental precária e uma crescente propensão para a violência.
 Pouco tempo depois, Carter ingressou no Departamento de Polícia de Nova Iorque, passando a desempenhar funções como detetive. Quando o seu parceiro foi abatido num tiroteio com um bando de delinquentes juvenis, Carter tornou-se obcecado com a ideia de liquidar indivíduos que abusavam da sua autoridade para deixar impunes os criminosos.
  Decidido a "absorver" os pecados do mundo, Carter tencionava executar juízes que aplicavam sentenças irrisórias a malfeitores, advogados que os defendiam em tribunal mesmo conscientes da sua culpabilidade e até mesmo os padres que escutavam as suas confissões e mantinham sigilo delas. Com esse objetivo em vista, ele adquiriu uma espingarda e improvisou um disfarce para ocultar a sua verdadeira identidade. Nascia assim o Devorador de Pecados, cuja primeira vítima foi a Capitã Jean DeWolff, namorada de Stanley Carter. Ironicamente, seria ele o detetive designado para investigar o homicídio. Circunstância que o levou a trabalhar em conjunto com o Homem-Aranha.

Capa de Peter Parker, The Spectacular Spider-Man nº109 (1985).

Enredo: Após capturar os meliantes que haviam agredido Ernie Popchik, um dos residentes no lar de idosos gerido pela Tia May, o Homem-Aranha fica mortificado ao descobrir que a Capitã Jean DeWolff, sua amiga e aliada de longa data, fora morta durante o sono. Transtornado, o herói interpela o detetive encarregue da investigação do caso, o Sargento Stanley "Stan" Carter. Este revela-lhe alguns pormenores sobre o crime: DeWolff terá sido baleada à queima-roupa por uma espingarda de canos sobrepostos e o seu distintivo terá sido roubado pelo assassino.
 Entretanto, Matthew Murdock (vulgo, Demolidor) é designado como advogado oficioso dos agressores de Ernie Popchik, conseguindo que os jovens sejam libertados sem caução. Desagradado com a conduta desordeira dos seus clientes, Matt confidencia ao juiz Horace Rosenthal (seu antigo mentor) os seus receios em relação ao serviço pro bono que vem prestando. Durante a conversa entre ambos, Matt pressente a presença de um intruso armado nos aposentos do juiz. Quando este sai da sala, o Devorador de Pecados assoma e abre fogo sobre Matt. Ao ouvir o estrépito dos disparos, Rosenthal regressa à sala e é executado a sangue-frio pelo Devorador de Pecados, que de imediato se põe em fuga.

O momento da descoberta do cadáver da Capitã DeWolff.

  Alertado pelo rebuliço causado pelo atentado, o Homem-Aranha acorre ao local, deparando-se com o Devorador de Pecados. Sem hesitar, o vilão dispara sobre o Escalador de Paredes, que facilmente se esquiva das balas. Pior sorte têm, contudo, alguns transeuntes que circulavam no exterior do tribunal, feridos pelas balas perdidas.
  Enquanto luta com o seu atacante, o Homem-Aranha apercebe-se que este tem na sua posse o distintivo policial da falecida Capitã DeWolff. Deduzindo de imediato que está em presença do assassino da sua amiga. Contudo, ao ver a Tia May desfalecida na calçada, o herói aracnídeo permite a fuga do Devorador de Pecados.
  Depois de obter autorização do Sargento Carter para revistar o apartamento de DeWolff, o Homem-Aranha não descobre quaisquer pistas ou indícios. Encontra, no entanto, fotos e recortes de jornais onde ele aparece. Ficando dessa forma claro que DeWolff tinha um interesse romântico no herói. Facto que o deixa ainda mais consternado.
  Pela boca do próprio Carter, o Escalador de Paredes fica a par do seu passado como agente da SHIELD e do folclore associado ao Devorador de Pecados.
  No dia seguinte, durante o funeral do juiz Rosenthal, Matt Murdock consegue identificar, algures entres os presentes, a batida cardíaca do Devorador de Pecados. É, porém, incapaz de reconhecê-lo.
   Nessa mesma noite, o Devorador de Pecados executa a tiro o padre que havia conduzido as exéquias da Capitã DeWolff.
   Devido à vaga de mortes atribuída ao Devorador de Pecados, é montado um circo mediático, aproveitado pelo Reverendo Jackson Tulliver para acicatar a opinião pública. Paralelamente, o Homem-Aranha e o Demolidor procuram no submundo do crime nova-iorquino pistas sobre a verdadeira identidade do assassino da Capitã DeWolff. As suas investigações são, todavia, infrutíferas.
   Dias depois, o Devorador de Pecados irrompe na redação do Clarim Diário, exigindo falar com J. Jonah Jameson. Este encontrava-se, no entanto, ausente em férias. Momentaneamente distraído por Joe Robertson (editor-chefe do jornal), o vilão é alvejado por uma máquina de escrever arremessada por Peter Parker.
  Inanimado, o Devorador de Pecados é desmascarado, sendo identificado como Emil Gregg. Este não tem, no entanto, qualquer lembrança de ser o autor dos homicídios que lhe são imputados. Alega, ainda assim, que vozes lhe haviam ordenado que os cometesse.
   Chegado entretanto ao local, o Demolidor assiste à confissão de Gregg, não reconhecendo, contudo, o seu ritmo cardíaco. Assumindo, portanto, tratar-se de um impostor. Perante o ceticismo do Homem-Aranha, o Diabo da Guarda convida-o a acompanhá-lo numa busca ao apartamento de Gregg.
  No apartamento supostamente propriedade de Gregg, os dois heróis encontram a arma e o traje usados pelos Devorador de Pecados, bem como um gravador contendo registos áudio do vilão. Rapidamente concluem ser aquela a origem das vozes que, presumivelmente, atormentariam Gregg. No entanto, a revelação mais chocante surge sob a forma de correspondência destinada ao verdadeiro proprietário do imóvel: Stanley Carter.
   Ao darem pela falta de uma segunda arma no armário onde o Devorador de Pecados guardava o seu arsenal, o Homem-Aranha e o Demolidor concluem que ele terá usado Gregg como engodo, enquanto se dirigia a casa de JJ. Jameson para o matar. Dada a grande distância que os separava da morada e o avanço levado pelo Devorador de Pecados, seria impossível os heróis chegarem a tempo de impedir o crime.
  Em desespero, o Homem-Aranha telefona para o Clarim Diário e consegue obter o número de telefone de JJJ. Sem perder tempo, o Cabeça de Teia efetua a chamada, atendida por Betty Brant (secretária pessoal de Jameson e primeira namorada de Peter). No entanto, antes que o Homem-Aranha possa avisá-la, ouve-se o som de um disparo em fundo.

Uma das sequências mais dramáticas da saga: a pretensa execução sumária de Betty Brant.


  Convencido de que Betty estaria morta, o herói aracnídeo ruma rapidamente à morada de Jameson. Embora aterrorizada, a rapariga está, no entanto, viva e ilesa. Facto, ainda assim, insuficiente para aplacar a fúria homérica do Escalador de Paredes, que espanca violentamente o Devorador de Pecados, mesmo depois de ele ter perdido os sentidos.
  Chegado ao local, o Demolidor evita a custo que o Homem-Aranha faça justiça pelas próprias mãos.
  Stan Carter é preso e a notícia de que o Devorador de Pecados era um agente policial deixa a comunidade em choque. Enquanto isso, Ernie Popchik, armado com o seu velho revólver, atira sobre três meliantes que o ameaçam no interior de uma carruagem de metro.
 A Polícia é informada pela SHIELD de que Carter fora submetido a tratamentos com uma droga experimental. Circunstância que explica tanto as suas capacidades sobre-humanas como as suas atividades como Devorador de Pecados.
 Dias depois, os planos das autoridades para transferirem em segredo o Devorador de Pecados para a Ilha Riker chegam ao conhecimento dos media. Uma turba enfurecida concentra-se diante da esquadra onde ele se encontra detido e tenta linchá-lo. O Demolidor intervém, mas acaba ele próprio agredido pela multidão.Tanto ele como o Devorador de Pecados são salvos, in extremis, pelo Homem-Aranha.
  Depois de Stan Carter ter sido finalmente transportado para a penitenciária, o Demolidor repreende o Escalador de Paredes pelo seu desrespeito pelo sistema judicial. Oferecendo de seguida os seus serviços de advogado para, em regime pro bono, defender Popchik em tribunal.

O Demolidor impede o Homem-Aranha de sujar as mãos de sangue.

Ramificações:

* O enredo de A Morte de Jean DeWolff incluía uma intriga secundária envolvendo um ladrão vestido de Pai Natal. Esta narrativa paralela seria posteriormente retomada em Peter Parker, The Spectacular Spider-Man nº112 (março de 1986). Edição em que é igualmente revelado que Ernie Popchik fora libertado da prisão após ter sido absolvido por um júri. Na edição seguinte, Popchik, acossado pelos jornalistas, regressa ao lar de terceira idade gerido pela Tia May. No entanto, ele e os restantes residentes são feitos reféns pelos delinquentes que ele alvejara numa carruagem de metro. O Homem-Aranha intervém e consegue subjugar três dos quatro meliantes, sendo o quarto abatido pela Polícia. Sentindo-se culpado pelo sucedido, Popchik parte para local incerto;
*Peter David trouxe de volta o Devorador de Pecados num arco de histórias publicado, entre janeiro e março de 1988, nos números 134,135 e 136 de Peter Parker, The Spectacular Spider-Man. Ambientada cerca de um ano depois dos eventos narrados em A Morte de Jean DeWolff, esta espécie de sequela informal  explorava a origem do vilão e a sua tentativa de reabilitação.Sob custódia da SHIELD, Stan Carter é sujeito a psicoterapia e a um programa de desintoxicação para purgar a droga do seu organismo. Após a sua libertação, Stan sente grandes dificuldades de reinserção social, pois continua a ser assombrado por visões dos crimes que perpetrou como Devorador de Pecados. Sucumbindo por fim à sua demência, Carter volta a vestir o seu velho disfarce e, brandindo uma arma descarregada, irrompe numa esquadra de polícia, acabando abatido pelos agentes no local. Peter David descreveu este trágico epílogo como um ato de misericórdia para com Stanley Carter;
*Em The Amazing Spider-Man nº300 (maio de 1988), os leitores ficaram a saber que o repórter do Daily Globe, Eddie Brock, escrevera um artigo no qual expunha Emil Gregg como o suposto alter ego do Devorador de Pecados. A revelação de que Stan Carter era a verdadeira identidade do vilão motivou a demissão de Brock e o seu subsequente divórcio. O rancor que Brock passou a nutrir relativamente ao Homem-Aranha (que culpava pelos seus reveses), serviria de catalisador para a sua transformação em Venom.


Eddie Brock sucedeu a Peter Parker como hospedeiro do simbionte alienígena.



Vale a pena a ler?

   Há 30 anos, o panorama dos quadradinhos com super-heróis e a forma como estes eram perspetivados pelos leitores eram substancialmente diferentes dos atuais. Se nos dias que correm a ocorrência de mortes nas páginas deste tipo de publicações se tornou comezinha, à época era uma raridade. Facto que, em larga medida, explica o profundo impacto produzido por esta saga.
 Conforme observou Peter David, a história torneava as convenções instituídas na indústria dos comics. Um dos aspetos em que mais notoriamente o faz reside no fim indigno da Capitã DeWolff. Em vez da tradicional morte gloriosa no clímax de uma batalha épica, a personagem é cobardemente assassinada durante o sono.
  Outra singularidade que destoa dos padrões da época consiste em termos um antagonista que não se insere no paradigma clássico do supervilão dotado de capacidades sobre-humanas. No seu lugar, temos um vigilante mentalmente perturbado que não olha a meios para cumprir a missão crucial de que se julga investido. 
  Este é, aliás, um dos pontos mais fortes da  saga. Através das ações tresloucadas do Devorador de Pecados, o leitor é convidado a questionar-se sobre os perigos do vigilantismo. Conceito que, convém lembrar, alberga qualquer um que, substituindo-se ao sistema judicial, resolve fazer justiça pelas próprias mãos. Ainda que com outros matizes, é precisamente isso que os chamados super-heróis fazem. Levando, assim, a um questionamento das suas ações. Potenciado na trama pelo descontrolo emocional do Homem-Aranha, que quase o leva a tirar a vida ao assassino da sua amiga. Se isso tivesse acontecido, o que o distinguiria, afinal, do vilão?
  De assinalar também que, à data de publicação desta saga, os dilemas morais costumavam andar arredados das páginas dos títulos Marvel e DC. Salvos raras exceções, as historietas neles apresentadas não abordavam temas complexos (na verdade, os seus autores fugiam deles como do tifo); tão-pouco se caracterizavam pelo realismo (por contraponto ao culto que dele se faz presentemente). 
  Tudo motivos, portanto, para que A Morte de Jean DeWolff tenha sido uma pedrada no charco, cujos círculos concêntricos chegaram até ao presente. Tanto assim que, transcorridas três décadas, ela continua a ser considerada uma das melhores histórias de sempre do Escalador de Paredes. Estatuto corroborado, com efeito, pelas críticas assaz favoráveis que recebeu por parte de reputadas publicações, como a Wizard e o Comics Bulletin. E tudo graças à genialidade de um debutante na nona arte...
     
Amizade interrompida.