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domingo, 23 de julho de 2017

ETERNOS: OTTO BINDER (1911-1974)


  Escreveu alguns dos títulos mais populares da Idade do Ouro e da Prata ao mesmo tempo que ajudava a criar um magote de personagens inesquecíveis. Apesar desses admiráveis pergaminhos, continua a ser um dos mais menosprezados autores da 9ª Arte. Apaixonado pela ficção científica, perfilhou teorias exóticas sobre as origens da Humanidade antes de sucumbir a uma tragédia familiar.

O mais novo dos seis filhos de um casal de imigrantes austríacos recém-chegados a terras do Tio Sam, Oscar Otto Binder nasceu a 26 de agosto de 1911 em Bessemer, pequena cidade do Michigan assim batizada em homenagem a Sir Henry Bessemer, engenheiro britânico do século XIX inventor do processo de fabrico do aço.
Devido às suas raízes familiares centro-europeias, Otto, tal como os irmãos, foi educado de acordo como os preceitos morais e religiosos do Luteranismo. Em 1922, quando se despedia da infância para embarcar na odisseia da puberdade, a sua família resolveu trocar a modorra de Bessemer pela azáfama de Chicago. Foi na grande metrópole do Illinois que Otto e o seu irmão favorito, Earl, se deixaram seduzir pelo charme kitsch das historietas de ficção científica. Género que, naquela época e sobretudo entre os mais jovens, gozava de uma crescente popularidade.
Em vez de, como seria de esperar, contribuir para o esmorecimento da paixão assolapada dos manos Binder pela ficção científica, a passagem do tempo teve o condão de espevitá-la ainda mais. Levando-os mesmo a aventurarem-se na escrita de narrativas desse jaez. Sob o pseudónimo Eando Binder (acrónimo de "E and O", composto pelas respetivas iniciais),  Earl e Otto conseguiram vender a sua primeira produção literária conjunta em 1930. Intitulada The First Martian (O Primeiro Marciano), seria dada à estampa dois anos depois em Amazing Stories, o primeiro - e, provavelmente, o mais duradouro - magazine exclusivamente dedicado à ficção científica, que vinha sendo editado desde a primavera de 1926.

A história I, Robot, de Eando Binder, em destaque na capa desta edição de 1939
do magazine de ficção científica Amazing Stories.
Cientes de que essa atividade, por si só, não lhes garantiria a sobrevivência económica, os irmãos Binder exerceram paralelamente vários outros ofícios. Enquanto Earl calejava as mãos numa fundição na periferia de Chicago, Otto rumou a Nova Iorque. Fê-lo na qualidade de agente literário ao serviço de Otis Kline, afamado autor de novelas de ficção científica - conhecido, também, pela sua amizade (e pretensa parceria literária) com Edgar Rice Burroughs, o criador de Tarzan - , recentemente convertido em editor e empresário.
Durante o curto período como agente literário, Otto ficou essencialmente encarregue da divulgação das obras do então desconhecido Robert E. Howard, "pai" de Conan, o Bárbaro e do subgénero conhecido como Espada & Feitiçaria.
A partida do benjamim do clã Binder para a Cidade Que Nunca Dorme fora precedida pela dissolução da sua sociedade com Earl. Mesmo sendo agora o único autor das estórias de ficção científica que ia vendendo a magazines e outras publicações especializadas, como a Thrilling Wonder Stories e a Amazing (para a qual desenvolveu a cultuada série de Adam Link, o robô senciente criado à imagem e semelhança dos humanos), continuou a assiná-las com o velho pseudónimo que incluía a inicial do irmão.

Em Adam Link Otto Binder teve a sua
  piéce de résistance no campo da ficção científica.
Sopravam ventos benfazejos na vida de Otto Binder até que os nefastos efeitos da Grande Depressão que devorava o coração da economia estadunidense obrigaram Otis Kline a cerrar as portas da sua editora, apenas um ano e meio decorrido sobre a sua fundação.
Vendo-se repentinamente privado da sua principal fonte de rendimento, em 1939, por sugestão de outro dos seus irmãos, Jack Binder (autor do Daredevil original), Otto resolveu tentar a sua sorte na fervilhante indústria dos comics. Pela mão de Jack, que há um par de anos lá vinha trabalhando como ilustrador, Otto juntou-se, assim, ao staff do estúdio Harry Chesler, um dos muitos que, no dealbar da Idade do Ouro, supriam as necessidades das cada vez mais numerosas editoras de banda desenhada.
Seria, no entanto, meteórica a passagem de Otto Binder pelo estúdio de Harry Chesler. Cerca de um ano depois de lá ter entrado pela primeira vez, estava já de malas aviadas para a Fawcett Comics, a recém-fundada subsidiária da Fawcett Publications.
Num primeiro momento, Otto Binder assumiu as histórias de personagens secundárias da Fawcett, como Bulletman, El Carim ou Golden Arrow. A sua criatividade e desenvoltura não passaram, porém, despercebidas ao editor Ed Herron que, em meados de 1941, lhe confiou os destinos da estrela da companhia: Captain Marvel (vulgo Shazam; não confundir, portanto, com o seu homónimo da Casa das Ideias).
Capitalizando o sucesso da série de ação real do Mortal Mais Poderoso da Terra (a primeira adaptação ao grande ecrã de um super-herói) que, por esses dias, atraía milhares de espectadores de todas as idades aos cinemas, a novela pulp The Return of the Scorpion foi, ainda em 1941, a primeira história do Capitão Marvel com o cunho de Otto Binder. Registando-se no ano seguinte o seu debute oficial como argumentista da série periódica do herói, em Captain Marvel Adventures nº9.

A edição que marcou a estreia de Otto Binder
como argumentista do Mortal Mais Poderoso da Terra.
Por conta da pródiga imaginação de Otto Binder, o título mensal do Capitão Marvel ganharia novo elã, destronando mesmo o Superman no pódio das vendas. Enquanto a coqueluche da DC Comics era assim inapelavelmente ofuscada (embora inconfessado, seria esse um dos verdadeiros motivos que, anos depois, levariam a Editora das Lendas a processar a Fawcett por um alegado plágio), o brilho de Otto Binder era mais intenso a cada dia que passava. E não tardou a irradiar um conjunto de spin-offs estrelados pelos igualmente icónicos Captain Marvel Jr. e Mary Marvel, esta última criada a meias por Otto Binder e o artista Marc Swayze, em dezembro de 1942.
Aqui ficam alguns números impressionantes que ilustram bem a envergadura da obra de Otto Binder ao serviço da Fawcett Comics: entre 1941 e 1953, ele escreveu 986 das 1743 histórias do Capitão Marvel, correspondendo, grosso modo, a 60% do total das que foram publicadas durante esse período. Ao longo do qual Otto concebeu, em articulação com C.C, Beck (o lendário criador do Mortal Mais Poderoso da Terra) e Marc Swayze, um magote de personagens que se tornariam emblemáticas.
Além da já citada Mary Marvel, Black Adam (Adão Negro), Uncle Dudley (Tio Marvel), Tawky Tawny (o tigre falante conhecido entre o público lusófono como Senhor Malhado) e os pérfidos filhos adolescentes do Doutor Sivana - Sivana Jr. e Georgia Sivana - completavam esse rol de coadjuvantes de luxo. Refira-se, a este propósito, que, em 1953, quando já se adivinhava o canto do cisne da Fawcett Comics, Otto Binder e C.C. Beck viram frustrada a sua intenção de produzir uma tira de jornal protagonizada pelo Senhor Malhado.



Mary Marvel (cima) e Adão Negro foram duas das mais icónicas criações
 de Otto Binder para a Fawcett Comics.
Ao imprimir nos enredos da Família Marvel a lógica dos sonhos, Otto Binder cumpria na perfeição os desejos de qualquer criança sem, contudo, infantilizar em demasia as suas narrativas. Exorbitando frequentemente as fronteiras da imaginação, as aventuras dos discípulos do mago Shazam tanto podiam transportar os leitores para um conto de fadas como para um plano surreal. Foi, pois, essa dimensão onírica que fez de Captain Marvel Adventures um caso sério de popularidade, mobilizando, mês após mês, o interesse e a imaginação de milhares de leitores.



Tigres falantes e planetas vivos?
Nas histórias do Capitão Marvel saídas da pena de Otto Binder tudo era possível.
Mesmo após a extinção da Fawcett Comics, Otto Binder agora um escriba consagrado, continuou sem mãos a medir. Até finais de 1954 (ano em que assentou arraiais na DC Comics, com a qual vinha colaborando pontualmente desde 1948), desdobrou-se entre a Timely Comics e a Quality Comics*.
Para a primeira, Otto escreveu histórias do Capitão América, Príncipe Submarino e do Tocha Humana original**, ícones da Idade do Ouro e personagens de charneira daquela que seria a precursora da Marvel Comics. Sobrando-lhe ainda tempo e imaginação para participar na criação de The Whizzer (Ciclone) e All-Wiinners Squad (Esquadrão Vitorioso).
Já para  segunda, o seu trabalho consistiu em escrever algumas das suas séries periódicas mais bem-sucedidas, nomeadamente Blackhawk, Doll Man e Uncle Sam. Para não fugir à regra, foi ainda cocriador de Kid Eternity (Kid Eternidade) que, sem embargo, se converteria numa das figuras de proa da Quality Comics.
Há ainda a registar, durante esse ínterim que preludiou a sua transferência para a DC, algumas colaborações episódicas com a MLJ Comics (antecessora da Archie Comics), a Gold Key Comics (para qual criou Mighty Samson, um das personagens mais icónicas da editora) e com a EC Comics (onde voltou a escrever histórias de ficção científica).
Na DC, Otto Binder reencontrou um velho conhecido dos seus tempos na Thrilling Wonder Stories: o editor Mort Weisinger. Sob a sábia batuta de Weisinger, Otto, que nunca foi homem de ficar arrimado às glórias pretéritas, empreendeu nova fase seminal, que mudaria para sempre a mitologia do Superman.
Assim, ao longo de década e meia, de 1954 a 1969, Otto Binder assumiu sozinho o catálogo de títulos do Homem de Aço (no qual pontificavam os históricos Superman, Superboy e Action Comics), introduzindo neles um lote de personagens inéditas que logo se tornariam presença assídua nas aventuras do campeão de Metrópolis.

Otto Binder era um mestre do burlesco
que caracterizou a Idade da Prata dos comics.
Entre os conceitos que ajudou a desenvolver nesse contexto, avultavam - citando somente os mais emblemáticos - Supergirl, Brainiac, Bizarro e a Legião dos Super-Heróis. Se a participação de Otto Binder na conceção de Bizarro é por vezes contestada, é consensual que a versão mais conhecida do vilão é da sua autoria. Assim como outros elementos que, no decurso da Idade da Prata. se tornaram recorrentes nas aventuras do Superman. A saber: a Zona Fantasma, o relógio-sinalizador de Jimmy Olsen e a cidade engarrafada de Kandor, essa fascinante reminiscência da civilização kryptoniana.

Supergirl, uma das mais acarinhadas cocriações de Binder
 ao serviço da Editora das Lendas.
O estilo narrativo de Otto Binder correspondia, com efeito, ao epítome da Idade da Prata dos quadradinhos. Caracterizada, entre outros aspetos, pelos conflitos derivados da ansiedade das personagens e pelas tramas rocambolescas com reviravoltas a condizer. Não admira, portanto, que o trabalho de Otto Binder tenha feito escola, sendo emulado por muitos argumentistas da sua geração.
Mesmo depois de ter abandonado a DC por razões pessoais que mais adiante explanarei, Otto Binder não foi esquecido pelos seus pares. Quando, em 1972, foi publicada a primeira história do Capitão Marvel (entretanto renomeado de Shazam) com a chancela da Editora das Lendas, foi-lhe rendida uma singela homenagem. Desenhado pelo próprio C.C. Beck, Otto Binder surgia como um dos coadjuvantes do Mortal Mais Poderoso da Terra naquela edição histórica.
Ironicamente, a referida homenagem coincidiu com um dos períodos mais infaustos da vida de Otto Binder. Se na indústria dos comics trazia o sucesso e o prestígio à ilharga, fora dela a desdita fez-lhe marcação cerrada, sombreando-lhe os dias com as cores negras do fracasso e da tragédia.
No início dos anos 1960 - sem que daí adviesse prejuízo para o fenomenal trabalho que continuava a executar na DC - ,  Otto Binder foi cofundador e editor-chefe de Space World, um magazine de Astronomia. Vítima das fracas vendas, o projeto seria, porém , cancelado após 16 números, deixando Otto Binder em grandes apuros financeiros.
Apesar de ter hipotecado a própria casa e de ter desbaratado todas as suas poupanças, Otto continuava endividado até ao tutano. Não tendo, portanto, outro remédio se não adiar a sua reforma e o seu sonho  de se tornar escritor de ficção científica a tempo inteiro. O que não o impediu de dar largas à sua veia literária.

O falhanço de Space World deixou Otto Binder em maus lençóis.
Indefetível da controversa Teoria dos Astronautas Ancestrais, cujos postulados pseudocientíficos foram apresentados pela primeira vez em 1919 pelo escritor americano Charles Fort, Otto Binder foi o autor de dois livros dedicados ao assunto: Flying Saucers Are Watching Us (Os Discos Voadores Observam-nos, de 1968) e, em coautoria com Max Flindt, Mankind Child of Stars (Humanidade Filha das Estrelas, 1974). Ambas as obras serviram para Otto Binder sustentar a hipótese de a Humanidade ser uma espécie híbrida, resultado de experimentos de bioengenharia realizados por extraterrestres que visitaram o nosso planeta milénios atrás.

O primeiro dos dois livros de Otto Binder
dedicados à controversa Teoria dos Astronautas Ancestrais.
Crenças que nem a tragédia familiar sofrida anos antes conseguira abalar. Em 1967, a única filha do casal Binder (Mary, de apenas 14 anos) fora colhida mortalmente por um automóvel desgovernado à entrada da escola onde estudava.
Devastados, Otto e a esposa nunca recuperaram do desgosto. Enquanto ele afogava as mágoas na bebida, ela sufocava lentamente no abraço viscoso da depressão. Na viragem da década, já depois de Otto ter abandonado definitivamente a DC, o casal ainda ensaiou um novo começo fora de Nova Iorque. Uma fuga para a frente precocemente interrompida pelo falecimento da mulher.
Até ser fulminado por um ataque cardíaco em outubro de 1974 (escassos meses após o seu regresso a Nova Iorque), Otto Binder, apesar do espírito esmagado, devotou os últimos dias da sua vida à mais imorredoura das suas paixões: as histórias de ficção científica. Agora ao serviço da Pendulum Press, ganhava a vida a escrever adaptações aos quadradinhos de clássicos da literatura fantástica como Frankenstein e 20.000 Léguas Submarinas.
O reconhecimento, esse, seria tardio mas condigno. Em 2004, cumpridos trinta anos sobre o seu desaparecimento, o nome de Otto Binder seria inscrito no Will Eisner Hall of Fame. Seis anos antes de ser contemplado com um Bill Finger Award, galardão que, desde 2005, laureia (quase sempre a título póstumo) a nata dos escritores de banda desenhada.
Com menos pompa e circunstância, também os produtores de Supergirl não deixaram de homenagear o cocriador da Última Prima de Krypton. Otto Binder era o nome da ponte que, no episódio-piloto da série, a heroína de aço evita que seja destruída por um avião em queda.
Acredito, no entanto, que o maior tributo que poderá ser prestado a este gigante da Nona Arte consistirá na (re)descoberta da vastíssima obra que nos legou, e que merece ser reverenciada. Faço, por isso, votos para que esta minha modesta evocação de Otto Binder sirva esse propósito. A ele, o meu muito obrigado pelos momentos inesquecíveis que as suas histórias me proporcionaram. Sem elas,a minha infância teria sido decerto menos divertida e empolgante.

Otto Binder (1911-1974).
«O mérito é como os rios: quanto mais profundo, menos ruído faz.»
(George Halifax, estadista inglês do século XVII)

* http://bdmarveldc.blogspot.pt/2017/06/fabrica-de-mitos-quality-comics.html
** http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/11/herois-em-acao-tocha-humana.html


































sexta-feira, 23 de junho de 2017

FÁBRICA DE MITOS: QUALITY COMICS


  Reflexo da hiperatividade do seu fundador, foi uma das mais prolíficas editoras da Idade de Ouro dos comics. Influenciou sobremaneira o género super-heroico, acompanhando-o, porém, no seu inexorável declínio. Votada a um imerecido esquecimento, o oportunismo da concorrência ajudou a manter vivo parte do seu fascinante legado.

Uma era de maravilhas e mistérios



Imagine o estimado leitor que é um arqueólogo e que o seu maior sonho consiste em reconstruir o esqueleto de um dinossauro raro. Para executar tão complexa operação necessitaria não só de identificar os vestígios da sua passagem como de proceder à cuidadosa escavação dos fósseis. Mesmo que a sorte lhe sorrisse e os encontrasse em perfeito estado de conservação, teria sempre de certificar-se de que aquelas ossadas pertenciam, de facto, ao animal que motivou a sua demanda, e não a um espécime aparentado.
Cumpridas todas essas etapas, seria bem possível que lhe faltasse pelo menos um osso. Sabendo de antemão que este, à semelhança da peça de um qualquer quebra-cabeças, por mais pequeno que fosse, poderia fazer toda a diferença.
Diante do esqueleto incompleto daquele resquício de um mundo há muito perdido nos rincões do tempo, seriam decerto inúmeras as dúvidas a assaltar-lhe o espírito e a mente. Desde logo as circunstâncias da morte daquela exótica criatura. Ter-se-ia ficado a dever a causas naturais? Ou teria, ao invés, sido resultado do ataque de um qualquer predador?


Vem esta analogia jurássica a propósito da significativa dificuldade em documentar o Big Bang criativo a que os historiadores da Nona Arte convencionaram designar de Idade de Ouro da Banda Desenhada. Sendo esta usualmente balizada pelo lapso de tempo compreendido entre 1938 (ano do debute de um certo Homem de Aço) e 1956, e atendendo à plêiade de editoras que pontificaram durante esse período (algumas deles verdadeiros fogos-fátuos cujo fulgor se extinguiu sem deixar rastro), percebe-se a razão dessa dificuldade. Robustecida, ademais, pelo facto de muitos dos intérpretes dessa época mirífica já não se encontrarem entre nós.


À falta dos seus testemunhos em discurso direto, restam, pois, as raras entrevistas por eles concedidas em vida. Ou, em derradeira instância, as suas obras. Pressupondo, claro, que estas terão sido conservadas ou, pelo menos, devidamente catalogadas. Algo que, para grande consternação dos arqueólogos da Nona Arte como este que vos escreve, nem sempre se verificou.
Se no caso de editoras como a Marvel e a DC, cuja atividade tem sido contínua desde esses tempos áureos, a sua história vem sendo documentada internamente - e até, pontualmente, dada à estampa sob a forma de imponentes compêndios - outras houve que, mercê de circunstâncias diversas, ficaram parcial ou totalmente sepultadas sob as areias da memória, adensando dessa forma o mistério em seu redor.


Não se tratando de um enigma imperscrutável, há, contudo, ainda muito por descobrir acerca da história da Quality Comics. Tanto mais que datam apenas do início da década de 70 do século transato os primeiros estudos (conduzidos por Jim Steranko, lenda viva dos comics) sobre aquela que foi uma das precursoras da Idade do Ouro. E que, sob a pátina do imerecido oblívio a que foi votada, deixou um riquíssimo património cultural e artístico que urge revisitar, porquanto foi apenas parcialmente resgatado por duas das suas antigas concorrentes. Sim, leram bem. Ao contrário do que é voz corrente, a DC Comics não foi a única a tirar proveito do infortúnio da Quality, acabando, ironicamente, por ajudar a preservar o seu legado. Mais adiante, será revelado o nome da segunda necrófaga.


Foi, portanto, com as minhas empoeiradas vestes de Indiana Jones amador que me lancei à aventura de exumar o escuso passado da Quality Comics. A muito custo, trouxe à luz do dia um punhado de achados arqueológicos e segredos surpreendentes que, sem mais delongas, faço questão de compartilhar com quem me lê. Na esperança de assim dar a conhecer alguns aspetos menos conhecidos da história de uma editora lendária com a qual os aficionados da Nona Arte têm, mesmo sem o saberem, um enorme débito de gratidão.
Venha daí comigo nesta emocionante viagem ao passado e permita que lhe apresente alguns dos alquimistas dos quadradinhos que, em tempos plúmbeos, douraram a imaginação de toda uma geração com as suas receitas de fantasia.

Segredos de uma editora lendária

Recheada de segredos e originalidades, a história da Quality Comics confunde-se com a do seu fundador, em quem teve aliás, o seu alfa e o seu ómega. Neto de um abastado empresário do ramo imobiliário, filho de um lente de Matemática e com uma árvore genealógica com raízes na Guerra da Independência dos EUA, Everett M. Arnold viera ao mundo na primavera de 1899 em Providence, a pitoresca capital do estado norte-americano do Rhode Island.
Do avô paterno, Arnold herdou o apurado faro para o negócio; da infância, a alcunha que faria as vezes do nome próprio que desde tenra idade aprendera a detestar: Busy (irrequieto, em tradução livre). Ganhara-a por conta da sua personalidade frenética que, a fazer fé nos relatos de amigos e familiares, o impedia de manter-se parado no mesmo sítio por mais do que alguns minutos.
Valeu-lhe, pois, o desporto para extravasar parte desse superávite energético. Aquando da sua passagem pela Universidade de Brown (onde o pai lecionara e de onde ele sairia diplomado em História), Busy distinguiu-se como guarda-redes na respetiva equipa de hóquei no gelo. Extremamente competitivo, consta que terá, em certa ocasião, desafiado um atleta olímpico para uma corrida, da qual, contrariando todas as probabilidades, terá saído vencedor. Lenda alimentada ao longo dos anos por Dick Arnold, seu filho e ele próprio um  ex-maratonista.

Busy Arnold fotografado em 1941 ao lado da escritora Gwen Hanson num clube noturno.
Somente uma beldade para conseguir reter o irrequieto fundador da Quality Comics.
Chegado o momento de transpor esse seu constante desejo de superação para a pista de obstáculos que é a vida, Busy Arnold, uma vez concluídos os estudos superiores em 1921, partiu à descoberta do mundo na metrópole que o encapsula: Nova Iorque. Na Grande Maçã, tirando certamente proveito da sua proverbial loquacidade, encetou uma meritória carreira como vendedor antes de se tornar um bem-sucedido empresário da indústria gráfica, numa altura em que esta se encontrava em franca expansão.
Devendo, por conseguinte, ser encarada como uma extensão natural deste seu último mister a sua subsequentes aposta na publicação de histórias aos quadradinhos. Material que, importa observar, nada sugere que Busy, leitor voraz, apreciasse sobremaneira; tampouco lhe era conhecida especial afeição pelas artes.
O que terá, então, motivado alguém com este perfil a fundar uma editora de banda desenhada? De tão prosaica, a resposta a essa pergunta resume-se numa palavra: lucro!
Perante a crescente popularidade de que gozavam os comics a meio da década de 1930, Busy Arnold sinalizou um filão que urgia explorar antes que outros se lhe antecipassem. São, de facto, muitos os paralelismos que podem ser traçados entre o boom das histórias aos quadradinhos e a Corrida ao Ouro que, menos de um século antes, levara garimpeiros de todo o país a rumarem à Califórnia em busca da pepita dourada que lhes poderia para sempre mudar as vidas.
Viviam-se os anos de chumbo da Grande Depressão que precedeu a entrada dos EUA na II Guerra Mundial e o sempre azougado Busy Arnold, com a visão que o caracterizava, intuiu que não faltaria quem procurasse nesse tipo de publicações um escape barato e sem contraindicações conhecidas às agruras do quotidiano.
Muito provavelmente com o duplo obejtivo de medir o pulso ao mercado e de adquirir know-how, em 1935 a gráfica de Busy Arnold começou a assegurar a impressão de alguns dos títulos da Comics Magazine Company (posteriormente renomeada Centaur Publications). Confiante no êxito do empreendimento, um par de anos bastaram para Busy decidir avançar com a criação da sua própria editora.
Da parceria estratégica estabelecida em 1937 entre Busy Arnold e uma tríade de estúdios independentes (McNaught Syndicate, Frank J. Markey Syndicate, e Register and Tribune Syndicate) nasceu o consórcio Comics Favorites, Inc., que teve em Features Funnies o seu título inaugural.

Feature Funnies nº1 (outubro de 1937).
Em linha com a práxis editorial da época, a neófita série republicava a cores antigas tiras de jornal, aqui e ali misturadas com histórias inéditas. Parte das quais eram fornecidas à la carte pelo Eisner & Iger, um dos mais requisitados estúdios por onde, nos primórdios da indústria dos quadradinhos, passaram alguns dos mais talentosos artistas freelancers.
Habituado a estar sempre um passo à frente da concorrência, Busy Arnold terá considerado pouco prudente prolongar por muito mais tempo essa dependência em relação a terceiros. Para dirimi-la, precisava de começar, o quanto antes, a produzir os seus próprios conteúdos. O que viria verificar-se logo em Features Funnies nº3 (edição datada de dezembro de 1937). Tornando-se, assim, a Comics Favorites a segunda editora a publicar material original, poucas semanas depois de a National Allied Publications (uma das empresas que originariam a DC Comics) o ter começado a fazer.
Ano capital na história da Quality Comics, 1939 começou por ficar marcado pela compra dos interesses da McNaught e da Markey (seu antigos sócios) por parte de Busy Arnold e dos proprietários do Register & Tribune Syndicate. Dando dessa forma a Comics Favorites lugar à Comics Magazine, Inc., doravante responsável pela publicação da linha de títulos com a nova chancela da Quality Comics. Residindo neste ponto uma das suas mais interessantes originalidades, visto que esse nunca foi, legalmente, o nome da editora. Não obstante, foi através dessa denominação informal que ela se notabilizou entre os leitores e que se imortalizou na história da Nona Arte.
Em tempos de recessão económica e de profunda crise social, Busy Arnold sabia bem que as pessoas pensariam duas ou mais vezes antes de gastarem cada centavo arduamente ganho, pelo que teria de aliciá-las com material superior àquele que a concorrência tinha para oferecer. Quality Comics seria, portanto, o selo de qualidade que acompanharia cada um dos títulos editados sob os auspícios da Comics Magazine, tendo sido Crack Comics nº5 (setembro de 1940) o primeiro volume a ostentá-lo no respetivo frontispício.



O  icónico selo da Quality Comics e
 a primeira edição a ostentá-lo sob o respetivo logótipo.
Ainda nesse louco ano de 1939 a sede da Quality Comics foi transferida para Stamford, no estado do Connecticut, para onde Busy Arnold se mudara entretanto com a família. Alguns estudiosos da Idade do Ouro sugerem, aliás, que terá sido ao epíteto dessa cidade - Quality City (Cidade de Qualidade) - que Busy terá ido beber inspiração na hora de crismar o seu novo projeto.
Foi também por essa altura que a Quality Comics redefiniu a sua política editorial, passando progressivamente a conceder maior primazia às séries estreladas por super-heróis (conceito cada vez mais em voga naqueles dias), em detrimento das histórias policiais e de terror que, até aí, eram hegemónicas no seu cardápio de publicações.




Três dos títulos mais emblemáticos da Quality Comics.
Plastic Man, Kid Eternity e Phantom Lady (conhecidos entre nós, respetivamente, como Homem-Borracha, Kid Eternidade e Lady Fantasma) foram, a par do intrépido aviador Blackhawk (Falcão Negro, que teria, inclusivamente, direito a uma série cinematográfica de baixo orçamento em 1952), algumas das novas coqueluches da Quality Comics. À qual, em 1942, coube igualmente a honra de publicar pela primeira vez em formato magazine as histórias de The Spirit. Até então, os fãs do detetive mascarado idealizado dois anos antes por Will Eisner apenas tinham podido acompanhar as suas aventuras através de tiras de jornal ou de ocasionais suplementos dominicais distribuídos com os tabloides.
Numa jogada que apenas pode ser classificada como brilhante, Busy Arnold socorreu-se de todo o seu poder persuasivo para convencer Eisner a trocar o seu prestigiado estúdio pela Quality Comics. No culminar de um meticuloso processo negocial com vista a salvaguardar os seus direitos autorais, o criador de Spirit tornar-se-ia o segundo pilar do clamoroso sucesso da editora ao longo de toda a década de 1940. Se Busy Arnold era o homem de negócios, Eisner, nomeado editor-chefe, seria de ora em diante o cérebro da Quality. Tanto mais que, tal como todos os que o antecederam e lhe sucederam no cargo, foi fiel-depositário da total confiança de Busy Arnold, que sempre se manteve à margem das decisões editoriais.


Will Eisner (cima) e The Spirit:
dois reforços de peso para Quality Comics
Eisner não foi, no entanto, o único virtuoso da Nona Arte a reforçar a equipa criativa da Quality Comics. Jack Cole (criador de Plastic Man), Lou Fine ( antigo"fantasma" do próprio Eisner) e Nick Cardy (ver perfil neste blogue) fizeram também parte do escol de artistas que influenciaram o género super-heroico, contribuindo sobremaneira para a sua popularidade.
Alguns dos seus trabalhos acabariam todavia por perder-se devido à renitência de Busy Arnold em restituir a arte original aos respetivos autores, receando que eles a revendessem. Havendo mesmo quem jure ter visto Busy Arnold a rasgar alguns desenhos originais. Circunstância que em nada ajudou à preservação do magnífico património cultural da Quality Comics.
Mesmo desfalcada de algumas das suas vedetas em consequência do esforço de guerra (o próprio Eisner seria chamado a cumprir serviço militar), a Quality Comics continuou a prosperar até à viragem da década de 1950. Prosperidade materializada numa profusão de títulos e personagens que, como mais adiante se perceberá, despertavam a cobiça das editoras rivais.
Com o advento da televisão e a revitalização dos livros de bolso, os primeiros anos da década de 50 trouxeram consigo o irrefreável declínio dos super-heróis. Acentuado, em boa medida, pela vilipendiação  de que foram alvo, a partir de 1948, pelo polémico psiquiatra germânico Fredric Wertham, autor do igualmente controverso livro Sedução dos Inocentes (1954).

A revista masculina Classic Photography
foi uma das últimas iniciativas editoriais da Quality.
Ironicamente, a Quality Comics sobreviveu à ferocidade da concorrência, aos horrores de uma conflagração mundial e a uma torpe cruzada conservadora, mas não às dificuldades logísticas.
Numa altura em que as vendas da editora já caíam a pique, a American News Company, sua distribuidora de longa data, declarou falência. Sem ela, a Quality Comics não tinha como fazer chegar as suas publicações aos pontos de venda. Ainda recorreu aos serviços de outra empresa nos meses que precederam a sua extinção, mas a rede de distribuição manteve-se deficiente, causando o esmorecimento dos leitores que se lhe tinham mantido fiéis.
Desvanecido o fulgor dourado de outros tempos, e quando soavam já os tétricos acordes do seu réquiem, a editora fundada por Busy Arnold, numa última e desesperada tentativa para escapar ao seu fatídico destino, apostou as fichas que lhe restavam no ecletismo das suas publicações, chegando mesmo a lançar um pastiche da Playboy intitulado Classic Photography. Estratégia que, contudo, logrou apenas adiar o inevitável. Em 1956, ao fim de quase duas décadas de intensa atividade, a Quality Comics cerrou portas, para não mais as reabrir.
Resignado, também Busy Arnold rumou à Califórnia para gozar a sua merecida reforma, mantendo-se afastado do mundo dos negócios até ao fim dos seus dias. Escrevia-se assim o epitáfio simbólico da Idade do Ouro.

Legado em mãos alheias

Após a extinção da Quality Comics, a maior parte das suas personagens e das suas séries periódicas foram adquiridas pela DC Comics, que optou, no entanto, por dar continuidade apenas a quatro delas: Blackhawk, G.I. Combat, Robin Hood Tales e Heart Throbs (esta última com mais de 100 edições publicadas sob a égide da Editora das Lendas).
Dentre os antigos ícones da Quality Comics revividos ao longo das décadas seguintes pela DC, Plastic Man foi, indubitavelmente, o mais acarinhado pelos fãs. Muitos dos quais tiveram, como eu, a sua infância marcada pela série animada que o teve como protagonista entre 1979 e 1981.
Até à unificação do Multiverso DC ditada pelos eventos de Crise nas Infinitas Terras, as personagens oriundas da Quality Comics ficaram acomodadas em duas realidades separadas: Terra-Quality e Terra-X.
Enquanto na primeira a História seguiu um curso idêntico ao das restantes Terras, já a segunda divergia radicalmente delas. Nesse dimensão paralela, a II Guerra Mundial prolongou-se até 1973. Foi este o subterfúgio encontrado para justificar a atividade dos Freedom Fighters (Combatentes da Liberdade) vários anos transcorridos sobre o término do conflito. Situação que seria, contudo, objeto de revisão na continuidade pós-Crise.

Os Combatentes da Liberdade em ação durante Crise nas Infinitas Terras.
Além da DC, também a AC (sigla de Americomics) adquiriu e republicou muito do material original da Quality protagonizado por personagens menos conhecidas e deixando de fora os super-heróis.
Conforme ratifica a ausência de registo na Biblioteca do Congresso dos EUA, nenhuma delas renovou, no entanto, os direitos sobre essa propriedade intelectual, relegando-a dessa forma para o domínio público. Significando isto que, na prática, qualquer pessoa poderá utilizar esse valioso espólio.
Algures por aí existe, portanto, uma espécie de Arca Perdida a transbordar de tesouros de papel à espera de serem (re)apresentados ao mundo por um qualquer Indiana Jones. Enquanto isso não acontece, resta-nos venerar o magnífico legado da Quality Comics, sem o qual a história do género super-heroico seria certamente menos rica.

ÍCONES QUALITY

No sentido dos ponteiros do relógio temos:
Captain Triumph (Capitão Triunfo);  Phantom Lady  (Lady Fantasma);
Blackhawk  (Falcão Negro);
Ray, Miss América e  Plastic Man (Homem-Borracha).

ÍCONES QUALITY II

Pela mesma ordem da imagem anterior temos:
Max Mercury  (Max Mercúrio); Tio Sam (dos Combatentes da Liberdade);
Jester;
Wildfire (Chama); Torchy e  Firebrand (Labareda) 

Agradecimento muito especial ao meu bom amigo Emerson Andrade que, com a sua costumeira bonomia, acedeu a conceber estas duas fabulosas montagens para servirem de suporte gráfico ao meu artigo. Para ele, um abraço do tamanho do oceano que nos aparta.
































































o.
Concluído os estudos, Arnold mudou-se em 1921 para Nova Iorque. 

quinta-feira, 11 de maio de 2017

ETERNOS NICK CARDY (1920-2013)


   As raízes plebeias não o impediram de ser um príncipe da 9ª Arte, cuja magnífica obra continua a ser reverenciada pelos seus pares. Versátil e perfecionista, gostava de chamar a si todo o processo de criação artística, fazendo dele um caso ímpar na sua época. Tão glamorosas como as capas que produziu em série para a DC eram as musas e ninfetas esculpidas pelo seu lápis.

Biografia: Nova-iorquino de gema, Nick Cardy nasceu Nicholas Viscanti a 20 de outubro de 1920, no Lower East Side, pitoresco bairro de Manhattan que, antes da especulação imobiliária dos últimos anos, acolhia tradicionalmente as classes menos endinheiradas. Filho de um casal de modestos imigrantes italianos - o pai operário, a mãe costureira, nenhum deles falando mais do que algumas palavras de inglês - cedo começou a dar sinais de ser um talento precoce e um predestinado das artes.
Para embevecimento dos seus progenitores, com apenas 6 anos de idade o pequeno Nick já desenhava, esculpia e fazia entalhes em madeira. Aos 14, alguns dos murais que pintara para embelezar a comunidade onde cresceu foram fotografados pelo New York Herald Tribune e pela Literacy Digest, o que lhe valeu os seus primeiros minutos de fama.
Nada que, no entanto, lhe subisse à cabeça. Apesar de todo o prestígio que granjearia ao longo da sua exemplar carreira como ilustrador e arte-finalista, a humildade seria um traço indelével da sua personalidade.
Chegado ao secundário, foi pois sem surpresa que, em vez de um liceu convencional, Nick optou por matricular-se na recém-fundada School of Industrial Art. Instituição que, como o próprio nome sugere, se propunha a desenvolver as aptidões artísticas dos seus alunos com vista ao seu ingresso no mercado de trabalho.
Ao longo dos anos que por lá andou, o talento de Nick não passou despercebido nem a colegas nem a professores. Tendo mesmo o seu trabalho artístico sido distinguido com vários prémios e honrarias. Não obstante todo esse reconhecimento, sabia que tinha ainda uma longa aprendizagem pela frente. Passando por isso a frequentar em simultâneo aulas de arte nas filiais nova-iorquinas do Boys Club of America e da Art Students League, duas organizações filantrópicas que, a troco de propinas quase simbólicas, proporcionavam essas e outras atividades extracurriculares a jovens carenciados.
Depois de dizer adeus aos bancos da escola - e sem se poder dar ao luxo de os trocar por os de uma qualquer universidade -, Nick trabalhou durante um curto período de tempo como aprendiz numa agência publicitária antes de ser contratado para o Eisner & Iger.
Corria o ano de 1939, o espectro negro da guerra pairava sobre a Europa, e foi nesse lendário estúdio fundado por Will Eisner e Jerry Iger, dois iconoclastas, que ele deu os primeiros passos na turbulenta indústria dos comics. Que, por esses dias, em contraste com os tempos de chumbo que se aproximavam, vivia a sua época áurea.
Ao mesmo tempo que, na sua qualidade de avençado, desenhava títulos como Fight Comics ou Jungle Comics para a Fiction House (editora extinta nos anos 50 que teve em Sheena, a Rainha das Selvas o seu maior êxito), Nick assinava com o pseudónimo Ford Davis as tiras de Lady Luck publicadas no suplemento dominical do mesmo jornal em que eram também apresentadas as aventuras de The Spirit.

Fight Comics foi um dos títulos da Fiction House
desenhados por Nick Cardy.
Ambas as personagens haviam saído da imaginação de Will Eisner em 1940, motivando meses antes a dissolução da sua sociedade com Jerry Iger. Para o qual Nick continuou no entanto a trabalhar durante mais algum tempo.
Reconhecendo as enormes potencialidades de Nick, Eisner tornou-se seu mentor e confiou-lhe a arte de Lady Luck, para assim se poder dedicar por inteiro àquela que seria a sua criação suprema: The Spirit. Ao que consta, apesar do pseudónimo Ford Davis, o jovem pupilo de Eisner encontrava sempre maneira de inscrever subtilmente as suas verdadeiras iniciais (NV) em pontos estratégicos dos painéis por si ilustrados.
Em qualquer caso, a experiência foi-lhe de grande valia na medida em que, além do próprio Eisner, ela permitiu-lhe trabalhar de perto com outros grandes vultos da 9ª Arte, como Lou Fine, Bob Powell ou George Tuska. Unânimes em reputar Nick como um virtuoso da ilustração cuja humildade só encontrava paralelo na pertinácia que patenteava na constante sublimação do seu traço, caracterizado pela abordagem clássica à anatomia humana aliada a uma inesgotável criatividade.

Will Eisner confiou a sua Lady Luck a Nick Cardy.
Foi também apadrinhado por Eisner que, a partir de finais de 1940, Nick teve oportunidade de trabalhar na Quality Comics (outra das mais proeminentes editoras da Idade do Ouro de onde saiu, entre outros, Plastic Man). Ao serviço da qual foi autorizado pela primeira vez a usar o seu nome de batismo. Optou, todavia, por abreviá-lo - ou americanizá-lo, diriam alguns - como Cardy, apelido com que ficaria imortalizado na história da banda desenhada.
Ao cabo de um par de anos a perfumar com o seu talento alguns dos títulos mais emblemáticos da Quality, Nick Cardy foi contratado pela Fiction House, cujo contingente de artistas residentes reforçaria até ser chamado a vestir a farda do Exército norte-americano em 1943.

Ao serviço da Quality Comics, Nick Cardy pôde usar pela primeira vez
  o seu nome verdadeiro.
Crack Comics foi um dos títulos por onde passou.
Poucos saberão, de resto, que Nick Cardy foi um herói de guerra, condecorado não com um mas com dois Corações Púrpura* correspondentes a outros tantos ferimentos sofridos em combate. É difícil imaginar algo assim com alguém mais habituado a ter lápis e pincéis como armas. E, com efeito, Cardy documentou minuciosamente a sua epopeia de G.I. Joe através de dezenas de esboços e aguarelas.
Nada fazia prever, de facto, grandes atos de bravura por parte do soldado raso Nick Cardy. Inicialmente incorporado na 66ª Divisão de Infantaria dos EUA, passaria a trabalhar como mecânico nas oficinas do quartel-general da unidade após ter vencido um concurso para a conceção da respetiva insígnia. Era essa a única vaga disponível quando um general admirador do seu trabalho resolveu puxar uns cordelinhos para manter Cardy o mais afastado possível da linha da frente. Aonde acabaria mesmo por ir parar quando, nos primeiros meses de 1944, recebeu ordem para se juntar à 3ª Divisão Blindada, então estacionada na Velha Albion.


66th Infantry Division shoulder sleeve insignia.jpg
Em cima: Nick Cardy em pose de galã de cinema;
Em baixo: o logótipo por ele concebido para a 66ª Divisão de Infantaria dos EUA.
Aos comandos de um tanque, Cardy acabaria dessa forma por participar ativamente na invasão da Normandia, operação militar que ditaria em larga medida a vitória aliada na 2ª Guerra Mundial.
Ferido duas vezes em combate, terminaria a sua comissão de serviço em França, num confortável gabinete do Departamento de Informação e Educação do Exército dos EUA.
De regresso à vida civil e à Grande Maçã, o primeiro emprego que Nick Cardy conseguiu foi como freelancer da Fiction House e ilustrador de revistas de palavras cruzadas. Era esse o seu ganha-pão quando, em 1946, conheceu e desposou Ruth Houghty, mãe do seu único filho (falecido em 2001), e com quem se manteria casado até 1969.
Após uma fugaz passagem pelas tiras a preto e branco de Tarzan, em 1950 Nick Cardy iniciou a sua longa colaboração de mais de um quarto de século com a DC. Na Editora das Lendas começou por desenhar duas séries de curta duração - The Legends of Daniel Boone e Congo Bill -, bem como historietas avulsas para House of Mystery e Gang Busters.
Numa época em que era comum os artistas desdobrarem-se entre diferentes géneros, Cardy emprestou também o seu traço a uma panóplia de séries de terror e romance da Standard Comics. Menos comum era um desenhador arte-finalizar o próprio trabalho. Algo que fazia de Nick Cardy se não caso único, pelo menos, uma das poucas exceções à regra.
Em resposta ao novo impulso dado pela Marvel Comics aos super-heróis no princípio dos anos 1960, a DC investiu fortemente nas suas publicações estreladas por essas figuras coloridas que haviam entrado em decadência no pós-guerra. A títulos consagrados como Action Comics, Showcase ou Detective Comics somaram-se assim alguns inéditos, incluindo Aquaman. Que, muito por conta da soberba arte de Nick Cardy, se revelaria uma aposta ganha. Exímio a desenhar criaturas marinhas e correntes marítimas, a fluidez do seu traço criava uma atmosfera subaquática visualmente cativante para dentro da qual os leitores se sentiam transportados.
Vale a pena lembrar que desde a sua estreia, em 1941, nunca o Soberano dos Mares dispusera de uma série própria. Sendo, portanto, justo reconhecer a Nick Cardy o mérito de tê-lo convertido numa das personagens de charneira do Universo DC, após década a viver na sombra de Superman e companhia.

Uma das mais glamorosas capas de Aquaman desenhadas por Nick Cardy.
Beneficiando de uma dinâmica particularmente favorável - especialmente quando Carmine Infantino** foi nomeado editor-chefe da DC - Nick Cardy iniciou uma fase seminal que se prolongaria até ao início da década seguinte. Entre 1962 e 1968 desenhou mais de 40 edições de Aquaman, continuando no entanto como seu capista até ao cancelamento da série em 1971.
Com cada trabalho seu a superar o anterior, algumas das capas que produziu durante esse período tornar-se-iam icónicas. Adjetivo que também se poderia aplicar a Mera, a curvilínea namorada de Aquaman que Cardy ajudara a criar logo em 1963. E que, à imagem e semelhança de tantas outras figuras femininas esculpidas pelo seu lápis, se tornaria uma musa cujas formas voluptuosas pareciam quase tridimensionais. Cardy notabilizou-se de facto por desenhar algumas das mais belas mulheres dos quadradinhos, dotando-as de curvas e não de ângulos.
Além de Mera, Nick Cardy foi também cocriador do Mestre dos Oceanos (Ocean Master, no original), ainda hoje um dos principais antagonistas do Soberano dos Mares.

Mera, a cara-metade de Aquaman, pelo traço de Nick Cardy.
A segunda série da Editora da Lendas para cujo sucesso Nick Cardy deu um importante contributo foi Teen Titans. Ficando a sua passagem por ela marcada por uma estreia e por uma polémica. Esta última suscitada pelo veto de Carmine Infantino a uma história dos Novos Titãs ilustrada por Cardy e que, se não fosse por essa interferência, teria introduzido o primeiro herói negro da história da DC. Já a estreia referia-se ao novo visual da Moça-Maravilha (Wonder Girl).
Objetivando sinalizar a maturidade da antiga adjunta juvenil da Mulher-Maravilha, Cardy substituiu-lhe o velho uniforme - essencialmente um pastiche do da sua precetora - por um modelo mais moderno e arrojado, que se tornaria a imagem de marca da personagem ao longo de mais de duas décadas.

Graças a Nick Cardy, Moça-Maravilha surgiu
de look renovado em Teen Titans #23 (1969).
Fazendo jus à sua reputação de trabalhador incansável, em paralelo a Teen Titans (de que desenhou os 42 primeiros números e outras tantas capas), entre os últimos meses de 1968 e os primeiros de 1969, Nick Cardy assumiu também a arte de Bat Lash. Ambientada no Velho Oeste e protagonizada por um carismático anti-herói muito diferente dos truculentos cowboys, esta série de curtíssimo prazo de validade (expirou ao fim de apenas 7 volumes) procurava reinventar o western, obliterando muitos dos seus clichés ao mesmo tempo que piscava o olho à contracultura que parecia ganhar mais adeptos a cada dia que passava. A combinação de tramas inteligentes, mulheres bonitas e vilões caricaturais tornou-a objeto de culto até aos dias de hoje.
Mesmo tendo fracassado na sua missão primordial de reviver um género moribundo, Bat Lash é por muitos considerada a piéce de résistance de Nick Cardy. Então com 48 anos, o artista viu cimentada a sua posição de importante intérprete da arte sequencial ao escrever também o seu segundo número.
Bat Lash #7 p. 3 (2)
A arte de Nick Cardy atingiu o seu ápice em Bat Lash.
Quando deixou finalmente as histórias dos Novos Titãs, em meados de 1973, Nick Cardy encontrou guarida na Casa das Ideias, onde fez parte da equipa criativa de Marvel Comics' Crazy Magazine, publicação humorística que satirizava elementos da cultura pop, incluindo os super-heróis. Manteve no entanto o seu estatuto de capista de referência da DC, assinando dezenas de capas de Superman, Batman, The Brave and the Bold, entre outros.
No final de 1974, Nick Cardy deixou os fãs em choque ao anunciar a sua retirada dos quadradinhos. Na origem desta inesperada decisão terão estado, dependendo das fontes consultadas, disputas relacionadas com direitos autorais ou a simples necessidade de mudar de ares ao fim de mais de três décadas ao serviço da indústria dos comics.
Certo é que quando trocou os quadradinhos pela arte comercial, passou a assinar como Nick Cardi as suas novas empreitadas. Que, além de ilustrações publicitárias, incluíam também cartazes promocionais de filmes. Sendo o mais icónico do seu portefólio aquele que concebeu para Apocalipse Now, a odisseia bélica dirigida em 1979 por Francis Ford Coppola.
1996 marcaria o regresso, ainda que interino, de Nick Cardy aos quadradinhos e à DC, casa que tão bem conhecia. Nesse ano foi um dos desenhadores convidados a participarem em Superman: Wedding Album, volume especial lançado para assinalar o casamento do Homem de Aço com o seu amor de sempre, Lois Lane. A sua despedida definitiva aconteceria em março de 2001, quando desenhou duas páginas de Titans #25, herdeiro do título que, quatro décadas antes, Cardy ajudara a catapultar para a ribalta.

A última capa desenhada por Nick Cardy para a DC, em 2000,
homenageava os Titãs originais,
Apesar das alterações de estilo ao longo dos anos, a arte de Nick Cardy primou sempre pela elevada qualidade. Dotando-o de um incomparável dom narrativo que lhe permitia contar histórias quase sem necessidade de suporte textual E se ele é menos conhecido entre os fãs atuais do que alguns dos seus contemporâneos isso deve-se ao facto de ele não ter tido oportunidade de desenhar com maior regularidade os principais ícones da DC, começando pela Trindade (Batman, Superman e Mulher-Maravilha). O que não obstou a que sua obra continue a ser admirada pelos seus pares, aos quais ainda hoje serve de referência.
Falecido em novembro de 2013, aos 93 anos, em resultado de problemas cardíacos, Nick Cardy viveu tempo suficiente para ver o seu trabalho reconhecido. Depois de, em 1998, ter sido galardoado com um Inkpot Award (prémio anual que, desde 1974, distingue os melhores profissionais do entretenimento), em 2005 foi um dos quatro nomes indicados pela indústria dos quadradinhos para o Will Eisner Comic Book Hall of Fame. Sendo também, a partir de hoje, um dos Eternos da 9ª Arte a abrilhantar este blogue com a sua solene presença. Dado o desconhecimento geral das novas safras de leitores relativamente à obra de Nick Cardy, penso que divulgá-la será a melhor das homenagens a prestar-lhe.

Uma das últimas fotografias de Nick Cardy, tirada em sua casa
pouco tempo antes de o artista se despedir do mundo dos vivos.

*Purple Heart (ou Coração Púrpura) é uma comenda militar atribuída pelo Presidente dos EUA aos veteranos de guerra feridos no campo de batalha;
** Perfil disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2013/06/eternos-carmine-infantino-1925-2013.html

Galeria de capas: 


The Brave and the Bold #94 (DC Comics, março de 1971)


Bat Lash #1 (DC Comics, novembro de 1968)

Aquaman #1 (DC Comics, fevereiro de 1962)

Congo Bill #1 (DC Comics, setembro de 1954)

DC Special #3 (DC Comics, Abril de 1969)
Falling in Love #119 (DC Comics, novembro de 1970)

Crazy Magazine #15 (Marvel Comics, janeiro de 1976)

The Deadly Hands of Kung Fu #18 (Marvel Comics, novembro de 1975)