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segunda-feira, 23 de setembro de 2019

GALERIA DE VILÕES: DOUTOR DESTINO


  Déspota esclarecido de rosto e alma desfigurados, acredita ser seu destino manifesto conquistar o mundo. Enquanto esse dia não chega, governa com pulso férreo a sua Latvéria natal e sonha com a destruição do Quarteto Fantástico. 

Denominação original: Doctor Doom
Editora: Marvel Comics
Criadores: Stan Lee (história) e Jack Kirby (arte conceptual)
Estreia: Fantastic Four nº5 (julho de 1962)
Identidade civil: Victor von Doom
Espécie: Humano
Local de nascimento: Um acampamento cigano nos arredores de Hassenstadt, capital da Latvéria.
Parentes conhecidos: Werner e Cynthia von Doom (pais, falecidos); Boris (pai adotivo e tutor); Krystoff Vernard (filho adotivo); Caroline le Fay (filha); Alexander Flynn (presumível filho).
Ocupação: Cientista, feiticeiro, inventor, monarca da Latvéria e aspirante a conquistador mundial.
Base operacional: Castelo do Destino (Latvéria) e Embaixada da Latvéria nos EUA (Nova Iorque).
Afiliações: Ex-líder do Clã Zéfiro; ex-membro da Cabala, dos Cavaleiros da Távola Redonda Atómica e da Fundação Futuro.
Némesis: Quarteto Fantástico (particularmente, o seu líder Reed Richards).
Poderes e parafernália: A despeito de todo o poderio bélico da sua armadura, a arma mais poderosa do Doutor Destino é a sua mente prodigiosa. Polímato e génio científico, Victor von Doom é, indubitavelmente, um dos homens mais inteligentes à face da Terra. Física, Robótica e Bioquímica são algumas das áreas em que é proficiente.
Uma das maiores façanhas científicas do Doutor Destino consistiu em reverter Ben Grimm (o Coisa, do Quarteto Fantástico) à forma humana - algo que Reed Richards apenas lograra fazer temporariamente.
Ao longo da sua carreira vilanesca, o Doutor Destino inventou uma panóplia de dispositivos, incluindo espaçonaves, uma máquina do tempo (a única funcional em todo o mundo) e uma vasta gama de robôs. De entre estes, os mais formidáveis são os Destinobôs (Doombots, no original), exatas réplicas mecânicas do seu criador equipadas com uma sofisticadíssima inteligência artificial. É a eles que o vilão recorre quando não pode estar presente num determinado local, ou quando deseja salvaguardar a sua integridade física. Muitas das aparentes ressurreições do Doutor Destino ficaram na verdade a dever-se ao uso destes seus sósias robóticos.
Além dos Destinobôs, Victor von Doom criou também os Servo-guardas, autómatos dotados de grande poder de fogo  responsáveis pela manutenção da lei e da ordem em território latveriano. E que, não raro, são usados pelo seu criador para reprimir focos de rebelião.

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A plataforma temporal do Dr. Destino
 é a coqueluche das suas invenções.
Fazendo a síntese perfeita entre Ciência e Magia, o Doutor Destino é também um poderoso feiticeiro. Autodidata nas artes arcanas, expandiu os seus poderes místicos enquanto discípulo e amante de Morgana le Fay. Teletransporte, manipulação elemental, absorção de energia e convocação de demónios fazem parte do seu extenso índice de habilidades. Quando o Doutor Estranho renunciou temporariamente ao cargo de Mago Supremo, considerou Victor von Doom como um dos mais fortes candidatos a suceder-lhe.
Por intermédio do simples contacto visual, o Doutor Destino consegue transferir a sua consciência para qualquer indivíduo. Talento apreendido durante o cativeiro que lhe foi imposto pela raça alienígena conhecida como Ovoides, e que lhe tem servido amiúde para escapar de todo o tipo de armadilhas e prisões.

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Destino e os seus Destinobôs.
Confecionada com titânio e alimentada por um minirreator nuclear, a armadura do Doutor Destino incrementa a sua força e resistência a níveis sobre-humanos. Embora, por regra, o vilão prefira evitar o confronto direto com adversários de maior poderio físico, o exoesqueleto de von Doom já resistiu aos brutais golpes do Coisa e do Incrível Hulk. Conferindo-lhe também proteção eficaz  contra ataques psiónicos e manipulação da matéria.
A armadura do Doutor Destino incorpora ainda um extenso arsenal hi-tech, designadamente um gerador interno de campos de força e luvas que disparam lasers e rajadas concussivas. Equipado com um sistema de reciclagem de ar, água, energia e alimentos, o traje é autossuficiente. Permitindo, dessa forma, ao seu usuário sobreviver no espaço sideral ou em ambiente subaquático durante consideráveis períodos de tempo.
Mesmo quando privado da sua armadura, o Doutor Destino é um exímio lutador, mestre em diferentes artes marciais. Numa ocasião, matou com as próprias mãos um leão de uma espécie protegida apenas porque desejava testar as suas capacidades no combate desarmado.
Enquanto monarca absoluto da Latvéria, o Doutor Destino detém o controlo total sobre os recursos naturais do país, bem como sobre a sua indústria e forças armadas. Quem o desafia terá, pois, de estar preparado para enfrentar não apenas um homem mas toda uma nação.

Fraquezas: É na arrogância do Doutor Destino que reside a sua principal fraqueza. Em última análise, o vilão é incapaz de admitir os próprios erros, preferindo, ao invés, culpar terceiros pelos seus fracassos.
Ainda que a elevada consideração em que tem a sua pessoa seja justificada, Victor von Doom recusa-se sistematicamente a aceitar que outrem possa ter maior clarividência do que ele em relação a determinada situação. O seu ego insuflado torna-o, pois, permeável a manipulações por parte de quem consegue tirar proveito da empáfia que o caracteriza.
Certa vez, o Homem-Aranha obteve a assistência do Doutor Destino na reparação de tecnologia alienígena, invocando simplesmente a suposta inépcia de Reed Richards para fazê-lo. A velha rivalidade pessoal com o líder do Quarteto Fantástico assenta, com efeito, numa disputa do foro intelectual. Com von Doom a não olhar a meios para demonstrar a sua superioridade no campo científico - algo que, até hoje, não conseguiu fazer.
O pacto faustiano que Destino celebrou em tempos com Mefisto tem servido, outrossim, para expor as limitações do soberano da Latvéria no que à feitiçaria diz respeito. Todos os anos von Doom convoca o Príncipe das Trevas, que, respeitando o previamente estipulado, lhe concede a oportunidade de resgatar a alma da sua falecida mãe das profundezas do Inferno. E todos os anos Destino fracassa miseravelmente. A cada novo fracasso diminuindo a deferência dos seus súbditos para com ele.

Duelo entre duas mentes brilhantes que não dispensam
 a força dos punhos para fazer valer os seus argumentos.

Retrato de um déspota

Como tantas outras personagens icónicas surgidas durante a Idade de Prata da banda desenhada, o Doutor Destino teve a assinatura de Stan Lee e Jack Kirby, os demiurgos da Casa das Ideias.. Com a série mensal do Quarteto Fantástico em alta, era chegado o momento de introduzir um antagonista capaz de testar os limites do grupo.
Devido à sua eloquente simplicidade e à terrífica ameaça implícita, Doctor Doom (também traduzível como Doutor Fatal) foi o nome escolhido por Stan Lee para crismar o novo vilão. Para cuja conceção visual Jack Kirby usou a tradicional representação da Morte como modelo. Foi, pois, essa a razão para a inclusão de um manto com capuz no respetivo figurino. A ideia era acentuar a natureza tétrica e desumana do Doutor Destino,  de modo a que a simples menção do seu nome bastasse para instilar medo nos corações dos seus inimigos.
Com o seu passado e motivações envoltos em mistério, o Doutor Destino fez a sua estreia em julho de 1962, nas páginas de Fantastic Four nº5. Nessa sua primeira aparição, o vilão capturou a Mulher Invisível, usando-a como refém para obrigar o Quarteto Fantástico a embarcar numa viagem ao passado. O objetivo era roubar o tesouro encantado do pirata Barba Negra, que o ajudaria a conquistar o mundo. Esse seria, de resto, o seu mais recorrente desígnio, porém nunca alcançado.

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O Quarteto Fantástico à mercê do Dr. Destino em Fantastic Four nº5 (1962).
Após esse primeiro embate com o Quarteto Fantástico, o Doutor Destino tornou-se presença assídua nas histórias do grupo, sendo rapidamente elevado ao estatuto de seu arqui-inimigo. Facto a que não foi alheia a predileção de Stan Lee pela personagem. Entre a multidão de supervilões criados pelo saudoso Papa da Marvel, Destino era assumidamente o seu favorito.
No entanto, apenas dois anos após o debute do Doutor Destino a sua origem seria finalmente revelada. Em Fantastic Four Annual nº2 (setembro de 1964), os leitores ficaram a conhecer um pouco melhor o homem por detrás da máscara de ferro.
Dono de uma personalidade complexa e multifacetada, não é claro se o Doutor Destino é intrinsecamente cruel, ou se essa crueldade é fruto de uma vida marcada pela tragédia e solidão. Tal como o seu rosto, também a sua alma foi desfigurada.
Apesar disso, o vilão pauta sempre as suas ações por um estrito código de honra. Ao abrigo dele, Destino já poupou a vida a adversários que respeita, por estes se encontrarem enfraquecidos ou em enorme desvantagem. No seu entendimento, uma vitória obtida nessas circunstâncias seria desprovida de significado. Chegando mesmo ao ponto de interceder a favor do Quarteto Fantástico quando este se encontrava à mercê de um qualquer inimigo mais poderoso. Não por compaixão (embora também a demonstre ocasionalmente), mas pela sua obstinação de ser ele o carrasco da equipa liderada pelo seu velho rival.



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A Morte inspirou o visual do Dr. Destino.
Líder carismático, o Doutor Destino absorve a admiração de todos os que o rodeiam, mesmo dos seus adversários. Avesso a alianças, nas raras ocasiões em que se associou a terceiros fê-lo apenas para obter ganhos pessoais, ou para enfrentar ameaças que o transcendiam.
Apesar da sua reputação de implacável, o Doutor Destino preocupa-se genuinamente com o bem-estar dos seus súbditos, contanto que estes o reverenciem incondicionalmente. Certa vez submeteu-se voluntariamente ao julgamento de Bas, a Deusa Pantera de Wakanda, que confirmou o seu desejo de conduzir a Humanidade a um futuro utópico de paz e prosperidade. Escusado será dizer que tal desígnio só estaria ao alcance de um déspota esclarecido como ele próprio.

Destino manifesto

Um pequeno reino eremita encravado no coração dos Balcãs, a Latvéria serviu de berço ao Doutor Destino, que hoje a governa com mão de ferro.
Victor von Doom veio ao mundo num acampamento cigano nos subúrbios de Hassenstadt, a capital latveriana. A sua mãe, Cynthia von Doom, era uma feiticeira que invocou Mefisto para obter poder e conhecimento. Victor era apenas um menino quando a mãe morreu às mãos do Príncipe das Trevas.
O pai de Victor, Werner von Doom, era o líder do Clã Zéfiro - uma tribo de ciganos nómadas - e um médico conceituado. Pouco tempo após a morte da esposa, Werner foi convocado ao castelo do Rei Vladimir para tratar a Rainha. A mulher padecia, porém, de um cancro incurável e acabaria por sucumbir.
O Rei Vladimir culpou Werner pela tragédia e ordenou a sua execução imediata. Tomado pelo desespero, Werner colocou-se em fuga acompanhado pelo pequeno Victor. Escondidos na encosta de uma montanha coberta de neve, Werner cobriu o filho com o seu capote, protegendo-o do frio intenso enquanto ele morria enregelado.
Victor sobreviveu e, ao regressar ao acampamento, encontrou os livros e artefactos místicos da sua mãe. Nos anos que se seguiram estudou com afinco as artes arcanas, sonhando com o dia em que se vingaria do Rei Vladimir.

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Antes da ascensão do Dr. Destino ao trono, a Latvéria era um pais arcaico.
Combinando tecnologia com feitiçaria, Victor von Doom criou vários aparatos para proteger o seu povo da opressão. As suas invenções atraíram a atenção do reitor da Universidade Empire State, que lhe ofereceu uma generosa bolsa de estudo. Perante a possibilidade de estudar numa das mais prestigiadas academias norte-americanas, Victor abandonou a sua terra natal e Valeria, a única mulher que, além da sua mãe, amou em toda a vida.
Foi na Universidade Empire State que os caminhos de Victor von Doom e Reed Richards se cruzaram pela primeira vez. Reed começou por ser colega de quarto de Victor mas este antipatizou com ele e exigiu-lhe que saísse.
Algum tempo depois, Victor construiu uma máquina que permitia comunicar com os mortos, especificamente com a sua mãe. Apesar dos avisos de Reed acerca dos seus cálculos errados, Victor prosseguiu a sua experiência com resultados desastrosos.
Tal como Reed previra, a máquina de Victor explodiu logo após ser acionada, desfigurando-lhe a face. Foi esse o momento definidor que o empurrou de vez para a vilania.

Uma simples cicatriz mudou para sempre a vida de Victor von Doom.
Expulso da universidade após o acidente, Victor viajou pelo mundo até ser salvo de uma morte certa por monges tibetanos.
Num monastério oculto algures nos Himalaias, Victor aprendeu a disciplina dos monges que o haviam resgatado. Foram também eles que o ajudaram a forjar uma sinistra armadura metálica que lhe serviria de segunda pele. Assim nasceu o Doutor Destino, a Besta dos Balcãs.
De volta à Latvéria, o Doutor Destino usurpou o trono após assassinar o Rei Vladimir. Sob os seus auspícios, o feudalismo deu lugar a uma economia moderna e pujante. Num país onde prosperidade não rima com liberdade, o novo regente demonstrou sempre especial preocupação com o bem-estar da minoria romani, à qual pertence.

Um usurpador no trono da Latvéria.

Miscelânea

*Victor von Doom alega ter desenvolvido autoconsciência quando se encontrava ainda no útero da sua mãe. Proeza bizarra que ele atribui ao recorrente contacto da sua progenitora com demónios e outros entes sobrenaturais;
*Victor von Doom assumiu a liderança do clã Zéfiro quando tinha apenas 16 anos. A mesma idade com que cometeu o seu primeiro assassinato. Apesar de ter agido em legítima defesa (estrangulou um soldado latveriano que o havia capturado), a experiência deixou-o profundamente traumatizado;
*Num exercício de continuidade retroativa, é sugerido que Ben Grimm poderá ter sido o verdadeiro responsável pelo acidente que desfigurou a face de Victor von Doom. Ressentido com os constantes desaforos de von Doom, Ben terá, presumivelmente, sabotado a máquina que ele construíra para comunicar com os mortos;
*O Amaldiçoado, o Grande Destruidor e a Besta dos Balcãs são alguns dos cognomes que espelham a tenebrosa natureza do Doutor Destino;
*Sugerindo uma hipotética viagem no tempo, o Doutor Destino alega ter sido discípulo de Abraham van Helsing, o arqui-inimigo do Conde Drácula - título nobiliárquico que, aliás, von Doom não reconhece;
*Apesar de ter sido expulso da Universidade Empire State antes de concluir a sua formação, Victor von Doom faz gala das suas insígnias académicas, alegando possuir vários doutoramentos em diferentes áreas;
*Decorrente do culto de personalidade instituído pelo Doutor Destino, um feriado com o seu nome é anualmente celebrado na Latvéria, com grande pompa e circunstância. Além das paradas militares, as comemorações incluem manifestações populares de apoio - mais ou menos espontâneo - ao monarca. Também a capital do país foi renomeada Doomstadt em sua homenagem;
*Originalmente, o Doutor Destino trazia à ilharga uma pistola que usava para alvejar traidores e outros adversários por ele considerados indignos;
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Na mira do Destino.
*Na sua qualidade de líder de um Estado soberano, o Doutor Destino beneficia de imunidade diplomática. Significando isto que qualquer tentativa de capturá-lo ou matá-lo em território estrangeiro resultaria num grave incidente internacional. Foi ao abrigo desse privilégio que, numa das suas visitas aos EUA,  Victor von Doom teve o Capitão América como seu guarda-costas pessoal;
*Grande apreciador de arte conhecido pelo seus gostos sofisticados, Victor von Doom ordenou a destruição de uma pintura de Renoir da sua coleção privada por considerá-la desagradável à vista;
*O Doutor Destino foi um dos vilões a figurar na coleção de selos postais lançada pela Marvel em 1975;
*No Universo 2099 da Marvel (linha temporal ambientada nesse ano), o Doutor Destino é o maior herói da Humanidade. Por contraste com os restantes justiceiros fantasiados dessa época, o seu manto continua, porém, a pertencer ao verdadeiro Victor von Doom. Há muito dado como morto, o Doutor Destino ressurgiu nesse futuro distante e, horrorizado com o estado do mundo, decidiu salvá-lo da única forma que se lhe afigurava eficaz: conquistando-o;
*Atestando a sua enorme notoriedade e importância nos quadradinhos, o Doutor Destino encerra o pódio na lista dos cem melhores vilões de todos os tempos elaborada pelo site IGN. A mesma plataforma classifica-o como o melhor vilão da Marvel;

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Em 2099, o Dr. Destino tem finalmente o mundo a seus pés.

Noutros media

Extensão natural da sua influência e notoriedade na banda desenhada, o Doutor Destino possui uma forte pegada mediática. A sua transição para o segmento audiovisual registou-se em 1966, por via da sua participação avulsa num episódio da série animada The Marvel Super Heroes, em que, curiosamente, enfrentava o Príncipe Submarino (com quem, nos quadradinhos, chegou a unir forças contra o Quarteto Fantástico).
Presença habitual em dezenas de outras séries do mesmo género baseadas no Universo Marvel, foi naquelas que tiveram o Quarteto Fantástico como protagonista que o Doutor Destino mais se destacou. Ao longo dos anos, surgiu frequentemente como personagem jogável em diversos jogos de vídeo e inspirou até uma diversão - Doctor Doom Freefall - na Islands of Adventure, um parque temático instalado em Orlando, Florida.

As múltiplas versões do Dr. Destino nas animações da Marvel.
Foi, porém, através do cinema que o Doutor Destino alcançou uma audiência mais abrangente. Embora, tecnicamente, o seu advento ao grande ecrã tenha ocorrido apenas em 2005, em Fantastic Four, fora ele, em 1994, o vilão de serviço no filme homónimo dirigido por Roger Corman, porém nunca lançado.
Nessa sua primeira versão em ação real, o Doutor Destino foi interpretado por Joseph Culp e, em linha com a sua origem clássica, apresentado como o antigo colega de quarto de Reed Richards nos tempos de faculdade.
Já na longa-metragem de 2005, realizada por Tim Story e a primeira com estatuto oficial, o Doutor Destino, agora encarnado por Julian McMahon (que, volvidos dois anos, repetiria o papel em Fantastic Four: Rise of the Silver Surfer), era um magnata tecnológico que disputava a Reed Richards os afetos de Susan Storm.

Julian McMahon como Doutor Destino em Fantastic Four (2005).
Na sua última passagem pelo grande ecrã, datada de 2015, o Doutor Destino - como, de resto, o próprio Quarteto Fantástico - surgiu praticamente irreconhecível. Agora interpretado por Toby Kebbell, antes da sua metamorfose o vilão era um cientista e programador informático com tanto de genial como de antissocial ao serviço da Fundação Baxter.
Durante a San Diego Comic Con de 2017, o produtor televisivo Noah Hawley anunciou que estaria em desenvolvimento um filme a solo do Doutor Destino. Semanas depois, seria a vez do ator dinamarquês Mads Mikkelsen - que já havia sido equacionado para o papel em 2015 - expressar o seu interesse em dar vida à personagem.
À data em que escrevo estas linhas, nada do anunciado se concretizou. Porém, com a compra da Sony por parte da Disney, é expectável que o Doutor Destino chegue num futuro próximo ao Universo Cinematográfico da Marvel. A dúvida é se isso acontecerá por conta própria ou num filme do Quarteto...

Que papel estará reservado ao Dr. Destino no futuro do MCU?



segunda-feira, 22 de julho de 2019

HERÓIS EM AÇÃO: QUARTETO FANTÁSTICO


  Mesmo nos seus momentos menos felizes, a Primeira Família de Heróis - tão falha e disfuncional como qualquer outra - provou que o todo é maior do que a soma das partes. Argonautas do impossível sedentos de novas aventuras, enfrentam futuro incerto dentro e fora dos quadradinhos.

Denominação original: Fantastic Four
Editora: Marvel Comics
Criadores: Stan Lee e Jack Kirby
Estreia: The Fantastic Four nº1 (novembro de 1961)
Membros fundadores: Senhor Fantástico (Mister Fantastic), Mulher Invisível (Invisible Woman),  O Coisa (The Thing) e Tocha Humana (Human Torch)
Local de fundação: Central City, Califórnia
Outros membros: Cristalys, Medusa, Mulher-Hulk, Nova, Mulher-Coisa, Franklin Richards, Valeria Richards, Pantera Negra e Tempestade
Base operacional: Nas suas primeiras histórias, o Quarteto Fantástico operava a partir de Central City (cidade natal de Reed Richards e local de formação do grupo), mas depressa se instalaria em Nova Iorque. Na Grande Maçã ocupou vários quartéis-generais, o mais notável dos quais foi o Edifício Baxter, um arranha-céus de 35 andares situado no coração de Manhattan. Quando este foi destruído pelo filho adotivo de Victor Von Doom (o infame Doutor Destino), o grupo ficou temporariamente alojado na Mansão dos Vingadores antes de se transferir para o imponente e ultrasofisticado Four Freedoms Plaza (assim batizado em alusão a um célebre discurso ao Congresso pronunciado pelo Presidente Franklin D. Roosevelt nas vésperas da entrada dos EUA na II Guerra Mundial). Após a destruição do Four Freedoms Plaza em consequência de um devastador ataque dos Thunderbolts, o Quarteto Fantástico usou o Cais 4 - um discreto armazém no porto de Nova Iorque - como sede provisória. Quando o Cais 4 sofreu destino idêntico ao dos seus antecessores, o grupo foi presenteado com uma nova e melhorada versão do Edifício Baxter, cortesia de Noah Baxter, antigo professor de Reed Richards. Construído em órbita, o novo Edifício Baxter foi depois teletransportado para o exato local onde outrora se erguia o original.
Némesis: Doutor Destino 


O Edifício Baxter original (cima) e o Four Freedoms Plaza
 foram as duas primeiras moradas da Família Fundamental.

Primeiros inquilinos da Casa das Ideias

A história, com matizes lendárias mas nunca desmentida pelos saudosos intervenientes, reza assim: num belo dia de 1961, Martin Goodman (editor-chefe da Marvel) e Jack Liebowitz (seu homólogo da DC) disputavam uma das suas costumeiras partidas de golfe. Num intervalo entre tacadas, o segundo ter-se-á gabado do sucesso da Liga da Justiça da América. Para delírio dos fãs, aquela que era a nova coqueluche da Editora das Lendas reunia numa mesma revista alguns dos maiores astros da companhia.
A bazófia do rival terá desencadeado em Goodman um momento eureca. De volta aos escritórios da Marvel, exortou Stan Lee, editor do departamento super-heroico, a criar uma equipa de justiceiros fantasiados  para competir diretamente com a Liga da Justiça.
Ao princípio, Stan Lee não ficou propriamente empolgado com a ideia. Tanto mais que estava de malas aviadas. Por considerar que a indústria dos quadradinhos se encontrava estagnada - muito por culpa das restrições moralistas impostas pela Comic Code Authority -  Lee planeava abandoná-la tão logo expirasse o contrato que o vinculava à Marvel.
Convicto de que aquela seria a última história de super-heróis que escreveria na vida, Stan Lee encheu-se de brios para fechar com chave de ouro a sua já longa carreira nos quadradinhos, iniciada nos alvores da Idade de Ouro ao serviço da Timely Comics.
O destino tinha, no entanto, outros planos para Stan Lee. Sem que este o soubesse, aquele seria um momento crucial no percurso que faria dele uma lenda viva dos quadradinhos.  Nos dias seguintes, Lee não deu descanso à pena:«No que deveria ter sido a minha despedida, resolvi escrever uma história que eu próprio gostasse de ler. Uma história com personagens falíveis, ídolos com pés de barro com os quais a maioria de nós simpatizaria.»
Lee terá fornecido então uma sinopse a Jack Kirby, a quem coube desenhar a história. À arte de Kirby, Lee acrescentou depois as legendas e os diálogos. Um processo criativo a que foi dado o nome de Método Marvel, e que faria escola dentro e fora da Casa das Ideias.
Quando confrontado com esta versão dos acontecimentos, numa entrevista de 1990, Jack Kirby reagiu assim: «Não passa de uma mentira descarada! Fui eu quem apresentou a Martin Goodman a ideia para o Quarteto Fantástico. Lee limitou-se a adicionar os diálogos à história que eu havia desenhado." 
Kirby também reafirmou em diferentes ocasiões que tinha sido ele a conceptualizar os elementos visuais da história. Apontando, à laia de prova, as semelhanças com os Desafiadores do Desconhecido (Challengers of the Unknown), grupo de aventureiros científicos que havia criado para a DC em 1957.
«Se atentarem nos uniformes do Quarteto Fantástico, - explicou Kirby -  perceberão que são similares aos dos Desafiadores do Desconhecido. Sempre tive preferência por uniformes práticos e com cinto. Uns e outros seguem esse padrão. E, no caso do Quarteto, o Coisa serviu para quebrar a monotonia do azul."
Apesar dos relatos divergentes, é opinião unânime entre vários dos seus contemporâneos que Stan Lee e Jack Kirby partilham a "paternidade" da Primeira Família de Heróis.

Jack Kirby (esq.) e Stan Lee recordavam de forma diferente
 a criação da primeira super-equipa da Marvel.
Em baixo, os Desafiadores do Desconhecido pelo traço do Rei.
Já no que tange à criação da insígnia peitoral que adorna os uniformes do Quarteto (um 4 estilizado dentro de um círculo), não restam dúvidas de que foi Stan Lee o autor da ideia. No entanto, a equipa atuou à paisana nas suas duas primeiras histórias. Foi essa a forma encontrada para prevenir um eventual atrito com a DC que, além de concorrente direta, era também a proprietária da distribuidora que fazia chegar às bancas as revistas da Marvel.
Em novembro de 1961, o Quarteto Fantástico fez a sua estreia em The Fantastic Four nº1 (o "The" cairia no número 16) e o seu estrepitoso sucesso surpreendeu até os próprios autores. Ao ponto de fazer Stan Lee reconsiderar a sua decisão de abandonar a Marvel e, por extensão, a indústria dos comic books.
Antes de salvar o mundo, o Quarteto Fantástico salvou, portanto, a carreira de Stan Lee. Que retribuiu com um fortíssimo investimento emocional, escrevendo algumas das melhores histórias do grupo, sempre sublimadas pelo magnífico traço de Jack Kirby.
Numa época em que a palavra de ordem era "inovar", o realismo da caracterização dos membros do Quarteto Fantástico foi uma das coordenadas do sucesso. Apesar da constante tensão entre eles, dificultando o trabalho em equipa, sabiam sempre transformar as fraquezas individuais na força do coletivo.
Outro aspeto diferenciador do Quarteto Fantástico era a ausência de identidades secretas. Em vez do anonimato cultivado pela maioria dos super-heróis, os seus membros gozavam do estatuto de celebridades. A mesma multidão que, não raro, suspeitava dos vigilantes mascarados, idolatrava sem reservas Reed Richards e companhia.
Era, todavia, na sua dinâmica familiar que residia o principal atrativo do Quarteto Fantástico. Uma mistura volátil de emoções e personalidades contrastantes, nem sempre eram a mais funcional das famílias mas tinham sempre presente que, perante as provações, a união faz a força. Constituindo, desse modo, uma metáfora perfeita para o turbulento relacionamento entre Stan Lee e Jack Kirby, o alfa e o ómega da Casa das Ideias.
A mesma Casa das Ideais que teve no Quarteto Fantástico os seus primeiro inquilinos. Mas que, hoje, parece não ter espaço para eles. Depois do inusitado cancelamento da sua série mensal em 2015, a Primeira Família de Heróis regressou ao ativo no ano passado, mais na qualidade de hóspedes VIP do que de anfitriões de uma casa devoluta de imaginação mas sobrelotada de causas identitárias.

A estreia da Primeira Família de Heróis em Fantastic Four nº1 (1962).

Argonautas do impossível

Um dos maiores vultos mundiais da engenharia aeroespacial, Reed Richards inventou a primeira espaçonave capaz de viajar até aos confins do nosso Sistema Solar. Esta foi, no entanto, uma pequena alteração ao rascunho inicial da história que apresentava a origem do Quarteto Fantástico. Num primeiro momento, Stan Lee definira Marte como destino da abortada missão espacial que levaria à formação daquela que seria a primeira super-equipa da Marvel.
Dado o considerável avanço que, por aqueles dias, os soviéticos levavam sobre os americanos na corrida espacial, Lee considerou prudente ser mais abrangente na sua descrição. Não fosse dar-se o caso de, aquando da publicação da história, uma bandeira da URSS ter já sido plantada na superfície do Planeta Vermelho.
Quando, em vésperas da data lançamento do foguetão de Richards, o Governo americano anunciou a sua intenção de cortar o financiamento do projeto, o jovem cientista ficou desesperado face à perspetiva de todo o seu trabalho ter sido em vão.
Recusando-se a atirar a toalha ao chão, Reed convenceu então a sua namorada (Susan Storm), o irmão dela (Johnny Storm) e um seu amigo dos tempos da faculdade (Ben Grimm) a acompanhá-lo num voo orbital não-autorizado. Cabendo a Ben, um experiente ex-piloto de testes, assumir os comandos da nave.
A coberto da noite, e antes que os jatos da Força Aérea pudessem intercetá-lo, o foguetão descolou rumo às estrelas com os quatro astronautas improvisados a bordo. Logo depois de ter saído da atmosfera terrestre, a nave foi engolida por uma tempestade subespacial e exposta a um intenso bombardeamento de radiação cósmica.
Assustada e desorientada, a tripulação comandada por Reed não teve outra opção senão abortar a missão e regressar, a muito custo, à Terra. Apesar de a nave se ter despenhado numa zona florestal, os seus ocupantes saíram aparentemente ilesos. Depressa descobriram, porém, terem sofrido mutações induzidas pelos raios cósmicos, que os dotaram de incríveis poderes.
Reed Richards conseguia agora esticar o seu corpo e membros como se de um elástico humano se tratasse; Susan Storm conseguia ficar invisível; Johnny Storm incendiava-se e conseguia voar; Ben Grimm, o menos afortunado do grupo, teve o seu corpo recoberto por uma densa camada rochosa e era senhor de uma força descomunal.
Note-se como os poderes de cada membro do Quarteto Fantástico correspondem aos quatro elementos primordiais estabelecidos pela Filosofia grega clássica: Terra (Coisa), Ar (Mulher Invisível), Fogo (Tocha Humana) e Água (Senhor Fantástico).

Terra, Ar, Fogo e Água.
Os 4 elementos primordiais estão representados no Quarteto Fantástico.
Apesar de ter decidido usar as suas habilidades em prol da Humanidade, o Quarteto Fantástico sempre se considerou mais uma família de cientistas e exploradores do que uma equipa de super-heróis. Foi Reed quem, por exemplo, descobriu a Zona Negativa, uma dimensão paralela composta por antimatéria, mas com uma atmosfera respirável que permite ao grupo visitá-la com regularidade.
Em todo o caso, o financiamento das atividades do Quarteto advém das inúmeras patentes registadas por Reed ao longo dos anos. Uma das mais lucrativas diz respeito às moléculas instáveis, usadas na confeção dos uniformes usados pelo grupo devido à sua capacidade de adaptação aos poderes de cada membro. É graças a elas que, por exemplo, o traje do Tocha Humana não arde sempre que ele se incendeia.
Para estes argonautas do impossível, habituados a viverem epopeias que desafiam os limites da imaginação e a contemplar as maiores maravilhas e horrores que o Universo tem para oferecer, viagens extradimensionais ou encontros com entidades cósmicas de incomensurável poder são apenas mais um dia no escritório.

Família alargada

À imagem e semelhança de qualquer outra família, o Quarteto Fantástico sofreu diversas reconfigurações no decurso dos anos. Em qualquer uma das suas formações, o grupo provou no entanto que o todo consegue ser maior do que a soma das partes, e soube sempre dar resposta coesa aos desafios que lhe foram sendo apresentados.
O seu núcleo duro é composto por quatro personalidades tão distintas entre si como as quatro estações do ano o costumavam ser antes de as alterações climáticas as baralharem. Fiquemos agora a conhecê-las um pouco melhor, assim como alguns apontamentos curiosos sobre cada um dos Quatro Fantásticos:

*Senhor Fantástico: Génio científico, Reed Richards representa a figura paterna do grupo, com perfil condizente: pragmático, autoritário e, não raro, enfadonho. Reed recrimina-se pelo fiasco da sua missão espacial e, particularmente, pela horrenda transformação do seu velho amigo Ben Grimm.
Capaz de esticar, deformar ou expandir o seu corpo em qualquer forma concebida pela sua imaginação, os seus poderes elásticos foram inspirados nos de Plastic Man (antiga propriedade da Quality Comics, agora detida pela DC). Apesar do seu Q.I. estratosférico, Reed tende a ser socialmente inábil e reprovou quatro vezes no seu exame de condução. Tem como passatempo preferido corrigir as teses de outros cientistas de elevada craveira, em especial as de Stephen Hawking.

Mister Fantastic (Reed Richards) by Ron Frenz #RonFrenz #MisterFantastic #ReedRichards #FantasticFour #FF #FutureFoundation #Avengers #Defenders #Illuminati
Reed Richards, o cérebro do grupo.

*Mulher Invisível: Única representante do belo sexo no conjunto, Susan Storm agrega os papéis tradicionalmente reservados às mulheres: esposa, mãe e amiga. Stan Lee concedeu-lhe o dom de manipular a luz para se tornar invisível porque não apreciava a ideia de ter um clone da Mulher-Maravilha a distribuir porrada. Preferindo, ao invés, criar uma contraparte feminina do Homem Invisível imaginado por H.G. Wells em 1897.
Nos anos 80 do século passado, durante a aclamada fase da autoria de John Byrne, Susan Storm ganharia a capacidade adicional de gerar campos de força invisíveis, usados tanto para efeitos defensivos como ofensivos. Pela mão do autor canadiano, Susan tornar-se-ia simultaneamente uma mulher independente e o membro mais poderoso da equipa.
Em harmonia com os costumes da época em que foi criada, Susan foi inicialmente retratada como modelo, mas um retcon conferiu-lhe um doutoramento numa área não especificada. Infeliz no seu casamento com Reed, viveu em tempos um tórrido affair com o Príncipe Submarino, do qual resultou o seu abandono temporário do grupo e consequente substituição pela Inumana Medusa.

Mulher Invisível
Susan Storm, a matriarca da Família Fundamental.
*Tocha Humana: Irmão mais novo de Susan Storm e benjamim do grupo, Johnny Storm foi agraciado com mimetismo pirocinético, ou seja, a capacidade de transformar o seu corpo em fogo. Em virtude disso, consegue voar e disparar rajadas incandescentes. A sua personalidade rebelde e impulsiva é em tudo semelhante à de um adolescente. Johnny ressente-se, por isso, de ser uma criança entre adultos, que nem sempre o levam a sério.Tem no Homem-Aranha um dos seus melhores amigos, apesar de a relação entre os dois ter começado com o pé esquerdo.
O seu nome e habilidades homenageiam o Tocha Humana da Idade de Ouro (prontuário disponível neste blogue), tendo mesmo Johnny chegado a adotar em tempos um uniforme idêntico ao do seu antecessor.
Uma vez que ao inflamar-se incinera todos os germes e bactérias presentes no seu corpo, Johnny não tem realmente necessidade de tomar banho ou escovar os dentes, ainda que não prescinda desses hábitos de higiene.

Human Torch of the Fantastic 4 (Marvel Comics) creating a 4 symbol in the sky
Johnny Storm, o eterno enfant terrible.

*O Coisa: Antigo colega de quarto dos tempos da faculdade e melhor amigo de Reed Richards, Ben Grimm não está ligado por qualquer grau de parentesco aos restantes membros do grupo. Representando, antes, uma espécie de tio por afinidade, daqueles que existem em quase todas as famílias.
Com uma personalidade decalcada da de Jack Kirby, Ben é temperamental e dono de um sentido de humor corrosivo. Apesar de amargurado pela impossibilidade de reverter a sua monstruosa aparência, o seu coração de manteiga faz dele o mais humano de todos os elementos que compõem a Família Fundamental, sendo por isso muito acarinhado pelos fãs.
À sua força descomunal (estima-se que conseguirá levantar, aproximadamente, 85 toneladas), o Coisa alia uma incrível resistência física e uma vontade inquebrantável. Judeu como Kirby, originalmente a sua aparência invocava a de um Golem - de acordo com o folclore hebraico, um gigante de pedra animado com recurso à magia. É também o alvo preferido das partidas do Tocha Humana, que se diverte com a sua crónica rabugice.

Ben Grimm, a alma e coração do Quarteto.
Da necessidade de substituir provisoriamente algum dos membros fundadores, resultou ao longo dos anos o recrutamento de vários integrantes temporários do Quarteto Fantástico. Foram os casos, por exemplo, da Inumana Cristalys (que ocupou a vaga da Mulher Invisível durante a primeira gravidez desta), de Medusa, ou ainda da Mulher-Hulk, que emprestou músculo à equipa durante o exílio autoimposto  do Coisa no final das primeiras Guerras Secretas.
No rescaldo da Guerra Civil (saga já aqui esmiuçada), também o Senhor Fantástico e a Mulher Invisível abandonaram o Quarteto, sendo respetivamente revezados pelo Pantera Negra e Tempestade.
Ainda que o grupo nunca tenha passado oficialmente a quinteto, em vários momentos da sua história contou, de facto, com cinco elementos. No rol de supletivos destacam-se, pela importância e duração das suas participações, Nova e Mulher-Coisa - ex-namoradas de Johnny Storm e Ben Grimm, respetivamente.
Houve ainda uma ocasião em que os quatro membros originais foram capturados por uma fugitiva Skrull, abrindo caminho a uma formação inédita composta por Hulk, Wolverine, Homem-Aranha e Motoqueiro Fantasma (Danny Ketch).


Em tempos, a Mulher-Hulk substituiu o Coisa.

Miscelânea

*O disforme regente de um império subterrâneo povoado por diferentes tipos de monstros, o Homem-Toupeira (Mole Man) foi o primeiro antagonista do Quarteto Fantástico, em Fantastic Four nº1;
*No âmbito de uma campanha promocional, em 1974 a Marvel lançou uma coleção de selos com as suas personagens mais emblemáticas. Distribuída em conjunto com as revistas mensais da editora, a coleção podia ser também adquirida por via postal. Cada um dos membros do Quarteto Fantástico teve direito a uma estampilha individual;


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O selo individual do Coisa na coleção lançada pela Marvel em 1974.
*Em 1980, John Byrne produziu uma edição especial de Fantastic Four para a Coca-Cola. A história seria, no entanto, vetada pelos executivos da empresa, que a consideraram demasiado violenta. Meses depois, a Marvel publicá-la-ia em Fantastic Four 220 e 221;
*Exercícios de metalinguagem e autorreferenciação eram frequentes nas histórias antigas do Quarteto Fantástico. No final dos anos 1960, por exemplo, o grupo vendeu os seus direitos de imagem à Marvel Comics, que os adaptou aos quadradinhos. Noutra ocasião, Stan Lee e Jack Kirby surgiram como coadjuvantes interagindo diretamente com as suas criações;
*Entre Reed Richards e Susan Storm existe uma considerável diferença de idades. Consoante a fonte consultada, a mesma varia entre os dez e os vinte anos. Ironicamente, na última aventura cinematográfica da Primeira Família de Heróis (vide texto seguinte), Kate Mara - atriz que sucedeu a Rebecca Staab e Jessica Alba no papel de Mulher Invisível - era quatro anos mais velha do que Milles Teller, a quem coube interpretar o Senhor Fantástico;
*Todos os membros do Quarteto Fantástico já passaram, em algum momento, pelas fileiras dos Vingadores, bem como de outros contingentes heroicos;
*Nos primórdios da sua carreira heroica, o Homem-Aranha procurou ingressar no Quarteto Fantástico, desistindo desse intento ao ser informado que não seria remunerado. As suas recorrentes colaborações com o grupo fariam porém dele uma espécie de quinto elemento oficioso. Em 2011, após a aparente morte do Tocha Humana, o Escalador de Paredes, acedendo ao último pedido do amigo, juntou-se à Fundação Futuro, organização filantrópica herdeira direta do Quarteto;
*No Brasil, a Primeira Família de Heróis debutou em 1969, na revista do Demolidor publicada pela EBAL. No ano seguinte ganharia título próprio, dando sequência às histórias iniciadas na série do Homem Sem Medo. Seguiu-se uma breve passagem pela GEA antes do regresso da equipa à EBAL, em finais de 1973. Durante essa fase, as histórias do Quarteto foram insertas na revista do Homem-Aranha. Na viragem da década de 1980, o grupo seria sucessivamente relançado em título próprio pela Bloch e RGE. Em 1983, foi a vez de a Abril adquirir os direitos do Quarteto Fantástico, os quais conservaria até 2000. Atualmente, é a Panini a sua detentora em Terras Tupiniquins. Já na pequena paróquia atlântica povoada pelos descendentes de Viriato, o grupo estreou-se em 1977, sob os auspícios da Palirex e com direito a título próprio: Os 4 Fantásticos  (nomenclatura que seria mantida pela Agência Portuguesa de Revistas até meados da década seguinte);

A série quinzenal a preto branco dos 4 Fantásticos editada pela Palirex.

Noutros media

Com forte penetração no segmento audiovisual refletindo a sua popularidade na banda desenhada, o Quarteto Fantástico protagonizou, até ao momento, quatro séries animadas e outros tantos filmes em ação real.
A transição do grupo para o pequeno ecrã verificou-se em 1967, ano em que o canal ABC exibiu Fantastic Four, produzida pela Hanna-Barbera e com desenhos de Alex Toth. Mais de uma década volvida, em 1978, a Primeira Família de Heróis regressaria à TV, desfalcada porém de um dos seus membros. Nessa segunda série animada saída dos estúdios DePatie-Freleng, o robô H.E.R.B.I.E. fez as vezes do Tocha Humana, cujos direitos haviam sido vendidos pela Marvel para um filme a solo nunca produzido.
Com introduções de Stan Lee e inserida no bloco The Marvel Action Hour, a terceira série animada do Quarteto Fantástico, outra vez titulada simplesmente Fantastic Four, manteve-se no ar entre 1994 e 1996. A reboque do filme lançado no ano anterior, em 2006 a última incursão do grupo no campo da animação - Fantastic Four: World's Greatest Heroes - teve a chancela da Moonscoop.

The 1967 series
A primeira série animada do Quarteto foi produzida pela Hanna-Barbera em 1967.
Oficialmente, a estreia cinematográfica do Quarteto Fantástico ocorreu em 2005, com o lançamento da longa-metragem epónima dirigida por Tim Story e com Ioan Gruffudd, Jessica Alba, Chris Evans e Michael Chiklis a interpretarem, respetivamente, Senhor Fantástico, Mulher Invisível, Tocha Humana e O Coisa. Apesar da reação morna da crítica e dos fãs, o filme daria, dois anos depois, origem à sequela Fantastic Four: Rise of the Silver Surfer.
Estas duas adaptações oficiais do grupo ao grande ecrã foram, todavia, precedidas de uma longa-metragem apócrifa produzida em 1994. Dirigida por Roger Corman, cineasta especializado em filmes de baixo orçamento, Fantastic Four nunca chegaria às salas de cinema ou sequer seria distribuído no circuito vídeo, na medida em que serviu exclusivamente para que a Constantin Films conservasse os direitos das personagens, adquiridos à Marvel Comics em meados da década anterior.
Em resposta ao débil desempenho comercial de Fantastic Four: Rise of the Silver Surfer, em 2015 foi lançado um reboot da franquia. Com realização a cargo de Josh Trank, Fant4stic contou com Milles Teller, Kate Mara, Michael B. Jordan e Jamie Bell nos principais papéis, sendo baseado na versão Ultimate do grupo. Desmantelado pela crítica, o filme soçobrou nas bilheteiras e é considerado por muitos fãs um dos piores dentro do género super-heroico.

Os filmes do Quarteto Fantástico ainda não convenceram os fãs.
Na sequência da aquisição da 21st Century Fox (detentora dos direitos cinematográficos do Quarteto Fantástico) pela Disney (proprietária dos Estúdios Marvel), em março deste ano, é expectável que, a exemplo do que já sucedeu com o Homem-Aranha, a Primeira Família de Heróis venha, num futuro próximo, a ser integrada no MCU.
Além dos filmes, séries animadas e jogos de vídeo, o Quarteto Fantástico deu também origem, em 1975, a um folhetim radiofónico. Apesar da sua curta duração, o projeto - que revisitava as histórias iniciais do grupo em episódios de 5 minutos - contava com a narração do próprio Stan Lee e ajudou a celebrizar o então desconhecido Bill Murray, ator escolhido para emprestar voz ao Tocha Humana.

The Fantastic Four returns to monthly comics in August, 2018.
Estará a Família Fundamental a caminho do MCU?
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quarta-feira, 16 de março de 2016

CLÁSSICOS REVISITADOS: «A CHEGADA DE GALACTUS»




   Meio século atrás, quando a imaginação e a criatividade escorriam pelas paredes da Casa das Ideias, Stan Lee e Jack Kirby gratificaram os fãs do Quarteto Fantástico com uma épico dos tempos modernos. Alegoria de inspiração bíblica, a história teve ainda o condão de introduzir duas personagens inéditas, logo consagradas: Galactus, o Devorador de Mundos e o seu amargurado arauto Surfista Prateado.

Título original: The Coming of Galactus! (também conhecida como Galactus Trilogy por conta do tríptico de volumes que compunha a saga)
Licenciadora: Marvel Comics
Autores: Stan Lee* (história) e Jack Kirby* (arte)
Publicada originalmente em: Fantastic Four nº 48 a 50 (março a maio de 1966)
Personagens principais: Quarteto Fantástico, Galactus, Surfista Prateado e o Vigia
Coadjuvantes: Inumanos, Skrulls e Alicia Masters
Cenários: Nova Iorque (lar do Quarteto Fantástico), Himalaias (localização secreta do Grande Refúgio dos Inumanos) e Tarnax IV (planeta-metrópole do império galáctico Skrull)

* Ainda que estes dois monstros sagrados da 9ª arte dispensem apresentações, podem consultar aqui as respetivas biografias: http://bdmarveldc.blogspot.pt/2011/09/eternos-stan-lee.html e http://bdmarveldc.blogspot.pt/2011/10/eternos-jack-kirby-1917-1994.html


Nunca antes o Quarteto Fantástico defrontara tão poderoso adversário.


Notas prévias:

Quem é o Vigia?



  Conceito desenvolvido por Stan Lee e Jack Kirby, o Vigia (The Watcher, no original) fez a sua primeira aparição em abril de 1963, numa história do Quarteto Fantástico publicada em Fantastic Four nº13. Com o decorrer dos anos, o enigmático ser tornar-se-ia presença assídua nas histórias da Família Fundamental da Marvel.
  Uatu - é esse o seu nome de batismo - faz parte de uma raça alienígena que se dedica a observar os eventos cruciais do Universo e do Multiverso. Estando contudo os Vigias terminantemente proibidos de qualquer interferência no curso da História das civilizações por eles monitorizadas.
  A partir da sua fortaleza sediada na chamada Área Azul da Lua, Uatu tem sido ao longo de incontáveis milénios testemunha silenciosa dos progressos e fracassos da nossa espécie.
  À imagem dos demais representantes da sua raça, o Vigia é extremamente poderoso e tem como marcas distintivas a sua calvície e a colossal estatura. Contrariamente, porém, aos seus homólogos, Uatu em várias ocasiões intercedeu em prol da humanidade. Infração que o levou a ser julgado e ostracizado pelos outros Vigias.


Quem são os Inumanos?

  Igualmente frutos da prodigiosa imaginação da dupla Lee/Kirby, os Inumanos (Inhumans) são descendentes de vulgares homo sapiens que, muitos séculos atrás, serviram de cobaias a experimentalismos genéticos operados pelos Krees, uma avançada raça extraterrestre que usou o nosso planeta como tubo de ensaio.
  Em dezembro de 1965, os Inumanos surgiram pela primeira vez em Fantastic Four nº45 como coadjuvantes do Quarteto Fantástico. Antes dessa estreia coletiva, alguns dos seus membros já haviam, porém, aparecido individualmente como vilões (casos de Medusa e Gorgon).
   A comunidade inumana assenta num rígido sistema de castas, em cujo vértice se encontra a Família Real. Esta é composta por Raio Negro (Rei dos Inumanos), Medusa (sua consorte que chegou a substituir temporariamente a Mulher Invisível no Quarteto Fantástico), Maximus (irmão louco de Raio Negro), Karnak, Cristalys, Gorgon e Triton. Todos eles possuem habilidades meta-humanas em consequência da sua espécie ter tido o seu genoma reescrito pelos Krees.
  Originalmente, o Grande Refúgio (localizado algures na cordilheira dos Himalaias) servia de lar aos Inumanos. Este seria posteriormente transferido para a Área Azul da Lua (tornando, assim, os súbditos de Raio Negro vizinhos do Vigia), objetivando escapar aos efeitos da poluição da atmosfera terrestre que ameaçava a sobrevivência da comunidade.


A Família Real dos Inumanos pelo traço de Jack Kirby.
Da esq. para a dir.: Gorgon, Cristalys, Raio Negro, Medusa, Karnak e Triton.

E, já agora, quem são os Skrulls?

  Para não destoar, os Skrulls são outra criação conjunta de Stan Lee e Jack Kirby. Criação essa que é até anterior ao surgimento do Vigia e dos Inumanos, já que a sua estreia teve lugar logo no segundo número de Fantastic Four, com data de janeiro de 1962.
   Os Skrulls são alienígenas que, na sua aparência primordial, possuem pele verde, orelhas pontiagudas e um queixo com saliências. A maior peculiaridade desta espécie reside, contudo, nas suas habilidades transmorfas que lhes permitem assumir a forma de qualquer ser vivo ou objeto inanimado.
  Entre os arqui-inimigos dos Skrulls, além do Quarteto Fantástico, destacam-se os Krees, com quem já travaram diversas guerras sangrentas.

Figurino padrão dos Skrulls.


Histórico de publicação: Em 1966, aproximadamente cinco anos depois de terem lançado Fantastic Four (um dos títulos de charneira da Marvel Comics), Stan Lee e Jack Kirby afadigavam-se na conceção de um antagonista inédito para o Quarteto Fantástico. Um dos quesitos passava por evitar os estereótipos na base da criação da esmagadora maioria dos vilões daquela época. Tendo em conta este pressuposto, Lee e Kirby depressa consensualizaram o perfil da nova personagem: um ser com a estatura e o poder de um deus.
   No prefácio de Marvel Masterworks: Fantastic Four Volume 5 (coletânea que, em 1993, reuniu algumas das melhores sagas do Quarteto Fantástico), Stan Lee descreveu nos seguintes termos o desenvolvimento do Devorador de Mundos: "Galactus foi apenas mais um na longa linha de supervilões que eu e Jack tínhamos adorado criar. Depois de termos imaginado tantos mauzões com dons extraordinários, percebemos que a única maneira de nos superarmos seria criar um com poderes divinos. 
   Claro que a escolha natural foi um semideus. Mas logo surgiu a dúvida: o que faríamos com alguém assim tão poderoso? A última coisa que queríamos era usá-lo para alimentar o cliché estafado do vilão megalómano que quer dominar o mundo. E foi então que, quase como se tivéssemos sido fulminados por um raio, se fez luz nas nossas mentes. Porque não atribuir-lhe uma natureza amoral? Por que motivo haveria um ser dessa envergadura reger-se pelos padrões da moralidade humana? Bem vistas as coisas, uma criatura com esse perfil estaria certamente além do bem e do mal. Mais: e se ele retirasse o seu sustento da energia vital dos planetas?"
  Palavras que corroboram o depoimento de Jack Kirby em The Masters of the Comic Book Art, documentário produzido em 1987. Nele, o rei do desenho assume as inspirações bíblicas na conceção de Galactus e do Surfista Prateado: "Pressionados a aumentar as vendas de Fantastic Four, eu e Stan começámos a trocar ideias sobre a criação de um novo supervilão. Concordámos, no entanto, que teríamos de fugir aos lugares-comuns se queríamos manter os nossos empregos. 
   Com isto em mente, dei comigo certo dia a folhear a Bíblia. Bastou-me ler alguns trechos para  encontrar a inspiração que procurava. Quase pude ver materializar-se diante de mim a imponente figura de Galactus. Um ser que eu conhecia bem, porque sempre habitou a minha imaginação. Um ser de tão formidável poder que eu não o podia  abordar como se de um comum mortal se tratasse. E que sempre se faria anunciar por um arauto angélico. Foi assim que surgiu a ideia para o Surfista Prateado.
  Dei-me conta desde o primeiro momento que nunca antes personagens com tais características tinham sido usadas em histórias de super-heróis. Mais do que figuras mitológicas, Galactus e o Surfista Prateado eram divindades cósmicas. Estatuto que as coloca acima de qualquer julgamento moral. Afinal, o bem e o mal mais não são do que conceitos desenvolvidos pelos humanos para condicionarem as suas próprias ações. Ora, Galactus não respondia perante ninguém pelos seus atos. Em certa medida, ele seria uma alegoria de Deus e o Surfista Prateado representaria metaforicamente o seu anjo caído em desgraça."


Jack Kirby (esq.) e Stan Lee: o Rei e o Papa da Marvel.

  Na obra da sua autoria 500 Comic Book Villains (dada à estampa em 2004), o escritor Mike Conroy aprofundou a análise feita por Lee e Kirby. Aqui ficam, em discurso direto, as suas considerações: "Em apenas cinco anos, Lee e Kirby tinham introduzido nas histórias do Quarteto Fantástico uma panóplia de raças extraterrestres ou seus representantes. Havia os Skrulls, o Vigia, o Estranho e todo um rol infindável de personagens que ambos tinham usado na fundação do Universo que eles vinham construindo. E no qual tudo era possível, contanto que não fossem desprezadas as "leis naturais" desta cosmologia imaginária.
  Nos primórdios do Universo Marvel, as personagens agiam de forma consistente com o título em que estavam inseridas, sabendo de antemão que as suas ações reverberariam noutros. No fundo, tratava-se de uma espécie de telenovela à escala cósmica, com uma miríade de personagens a entroncar numa gigantesca trama. Corporizando Galactus a sua dimensão épica ."
  Findo o trabalho de bastidores, a entrada em cena do Devorador de Mundos e do seu acólito aconteceria em março de 1966, nas páginas de Fantastic Four nº48. Principiava assim a monumental saga precursora do subgénero cósmico. E cujo emocionante clímax mostrou o Surfista Prateado a desafiar o seu mestre com o intuito de salvar a humanidade, pagando um preço elevado pela sua rebeldia.
    
Galactus e Surfista Prateado, parábola divina.

Enredo:

Capítulo I: «A Chegada de Galactus» (The Coming of Galactus!)

Fantastic Four nº48 (março de 1966).

  Algures nas encostas geladas dos Himalaias, esconde-se o Grande Refúgio dos Inumanos. Em segredo, Maximus, o insano irmão de Raio Negro, projeta utilizar a sua nova arma - a que deu o nome de atomizador - para erradicar a humanidade. No entanto, por motivos inexplicados, o seu plano fracassa. À parte alguns terramotos à volta do globo, a humanidade permanece sã e salva.
 Maximus é, porém, fustigado por uma dantesca visão mostrando o perecimento de milhões de inocentes. Antes de ser capturado por Karnak e Gorgon, o irmão de Raio Negro logra reverter a polaridade do seu atomizador. Usando-o de seguida para gerar um campo de antimatéria que encapsula o Grande Refúgio, isolando-o do resto do mundo. Apenas instantes antes de o Quarteto Fantástico (velho aliado dos Inumanos) conseguir deixar o local, regressando a toda mecha para Nova Iorque.
   Entrementes, um ser de pele argentina cruza elegantemente os rincões do Cosmos montado na sua prancha metálica. Ao atingir a orla da galáxia Andrómeda, o Surfista Prateado chama a atenção dos Skrulls. A exemplo de muitas outras civilizações alienígenas, eles sabem que a aparição da criatura reluzente é um mau presságio, pois ele serve Galactus, o Devorador de Mundos.
  Apavorados com a possibilidade de o seu planeta ser consumido pela voracidade de Galactus, os Skrulls tudo fazem para se manterem ocultos aos olhos do solitário arauto que percorre o Universo em busca de alimento para o seu mestre.
   A milhões de anos-luz dali, em Nova Iorque, o Quarteto Fantástico e os demais habitantes da metrópole testemunham um fenómeno com tanto de assombroso como de intrigante. De um momento para o outro, o céu parece ser engolido por gigantescas labaredas. Cenário que leva, de pronto, o Quarteto Fantástico a sair para investigar.
   Para tentar ver o fenómeno mais de perto, o Tocha Humana voa o mais alto que pode pelos céus da cidade. Acabando, contudo, por gerar o pânico entre os nova-iorquinos, que o julgam responsável pela situação.
  De volta ao Edifício Baxter, o Senhor Fantástico enfurna-se no seu laboratório a fim de estudar o bizarro fenómeno. Antes que consiga, porém, obter uma explicação científica para ele, as labaredas dissipam-se no céu, dando lugar a uma espécie de redoma formada por detritos espaciais.
 Quase ao mesmo tempo, o majestoso ser conhecido como Vigia materializa-se no interior do laboratório do Senhor Fantástico. Perante a perplexidade do seu interlocutor humano, o gigante calvo explica-lhe ser ele o responsável pelas perturbações atmosféricas. Resultando estas da sua desesperada tentativa para tornar a terra indetetável ao Surfista Prateado.
   Pela voz do Vigia, o Senhor Fantástico fica a saber que o Surfista Prateado é o arauto de Galactus, um poderoso ser cósmico que extrai o seu sustento da energia vital dos planetas, reduzindo-os a cascas secas e sem vida. Estando agora a Terra na mira do servo do Devorador de Mundos.
  Enquanto isso, o Surfista Prateado investiga de perto o campo de detritos espaciais criado pelo Vigia, encontrando a Terra escondida sob ele. Sem hesitar, ele voa até ao topo do Edifício Baxter e emite um sinal cósmico para o seu amo.
  O Quarteto Fantástico acorre ao local para tentar impedir o Surfista de alertar Galactus. Um golpe desferido pelo Coisa derruba o alienígena, mas é já tarde demais. Nos céus acima de Manhattan, emerge a colossal nave do Devorador de Mundos. Perante o olhar estarrecido dos heróis, o gigante anuncia a sua intenção de se banquetear com o nosso mundo.

Capítulo II: «Dia do Juízo Final» (If This Be Doomsday!)

Fantastic Fout nº49 (abril de 1966).

  Violando o seu juramento de não-interferência, o Vigia tenta demover Galacuts dos seus funestos intentos. Quando a diplomacia falha, o Coisa e o Tocha Humana investem sobre o gigante, que se limita a enxotá-los como se de insetos se tratassem.
  Relutantemente, o Quarteto Fantástico acede ao pedido do Vigia para que cessem as hostilidades contra Galactus. Enquanto este procede à meticulosa montagem do colossal aparato que lhe permitirá drenar a força vital da Terra, o Vigia informa o Sr. Fantástico sobre a existência de uma poderosa arma no planeta natal do Devorador de Mundos que será capaz de detê-lo. A missão de ir buscá-la é então confiada ao Tocha Humana.
  Noutro ponto da cidade, o Surfista Prateado recobra os sentidos no apartamento de Alicia Masters, a escultora cega namorada do Coisa. Inteirada do desígnio do ser cósmico, a jovem suplica-lhe que ele se rebele contra o seu mestre para salvar a humanidade do extermínio iminente.
   Já com o seu aparato quase montado, Galactus é alvo de novo ataque por parte do Quarteto Fantástico. Imperturbável, o gigante ordena a um serviçal robótico que afaste os importunos. Aproveitando a distração, o Vigia amplifica os poderes incandescentes do Tocha Humana para que ele possa viajar até ao planeta natal do Devorador de Mundos e de lá trazer a única arma capaz de o intimidar: o Nulificador Definitivo.
  Comovido pela sensibilidade e nobreza de caráter de Alicia Masters, o Surfista Prateado prontifica-se, entretanto, a tentar evitar que a Terra sirva de acepipe ao seu amo.


Capítulo III: «A Fantástica Saga do Surfista Prateado (The Startling Saga of the Silver Surfer!)

Fantastic Four  nº50 (maio de 1966).

   No coração de Manhattan, o Surfista Prateado distrai Galactus, tentando desesperadamente ganhar tempo até ao regresso do Tocha Humana trazendo consigo o Nulificador Definitivo. Quando o Sr. Fantástico ameaça usá-lo, o Devorador de Mundos aquiesce em poupar a Terra, exigindo em troca que lhe seja entregue a arma.
   Honrando a sua palavra, Galactus abandona logo depois o nosso planeta. Não sem antes punir o Surfista Prateado pela sua insolência, erguendo uma barreira invisível que o impedirá de deixar a Terra.
 Alicia Masters procura consolar o angustiado Surfista Prateado, expressando-lhe a sua gratidão por ter tomado o partido da humanidade. Consumido pelo ciúme, o Coisa afasta-se cabisbaixo antes que a jovem tenha oportunidade de lhe dizer quão orgulhosa ele a deixou.
   À medida que a vida volta à normalidade, os tabloides insinuam que a ameaça de Galactus não terá passado de um embuste.

"Até quando durará o meu exílio?"- interroga-se o ex-arauto de Galactus.

Apontamentos:

* Referenciado como Grande Refúgio em The Coming of Galactus, o lar secreto dos Inumanos seria renomeado Attilan em Thor nº146 (1967);
* De igual modo, o aparente mutismo de Raio Negro também só seria explicitado meses depois, nas páginas de Fantastic Four nº59. Edição em que os leitores ficaram a saber que a voz do silente monarca dos Inumanos tem um enorme potencial destrutivo, ao ponto de conseguir elevar uma montanha com um simples murmúrio;
* A barreira de zona negativa erguida por Maximus ao redor do Grande Refúgio não tem qualquer relação com a Zona Negativa, dimensão paralela composta por antimatéria e governada pelo temível  Aniquilador;
* A insensibilidade evidenciada pelo Surfista Prateado no início da história é explicada pelas manipulações de Galactus, que havia suprimido as memórias e emoções do seu arauto;
* Conquanto Tarnax IV seja referido na narrativa como sendo o planeta natal dos Skrulls, esse dado seria posteriormente desmentido. Na verdade, a raça transmorfa abandonara o seu mundo primordial milhões de anos antes dos eventos mostrados na saga;
* Tarnax IV serviria, contudo, de repasto a Galactus, alguns anos depois. Sobrevindo essa hecatombe de uma falha na tecnologia de camuflagem que permitira durante largo tempo ocultar o planeta-metrópole dos Skrulls do olhar guloso do Devorador de Mundos e das ocasionais prospeções galácticas levadas a cabo pelos seus arautos;
*Pela primeira vez desde que assumira as funções de Vigia da Terra, Uatu violou conscientemente o seu voto solene de não-interferência na História humana. Regra sacramental da sua espécie desde que, milénios atrás, ela causara acidentalmente a extinção em massa de uma raça alienígena ao providenciar-lhe tecnologia nuclear.
* No Brasil, esta saga foi publicada, em abril e maio de 1984, nos números 58 e 59 da segunda série de Heróis da TV.


A 1ª parte da saga foi publicada em Heróis da TV nº58 (1984).

Legado:

* The Coming of Galactus! foi a principal inspiração para a trama do filme de 2007 Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado (já aqui esmiuçado);
* Foi através desta saga que o Surfista Prateado foi guindado para o estrelato, tornando-se presença assídua em Fantastic Four antes de servir como veículo filosófico a Stan Lee no título próprio a que o herói cósmico teria direito pouco tempo depois;
* Em 2009, uma votação promovida entre os leitores pela plataforma Comic Book Resources elegeu The Coming of Galactus! como a 19ª melhor história aos quadradinhos de todos os tempos;
* Logo no ano seguinte à sua publicação, a saga foi adaptada ao pequeno ecrã por via de alguns episódios da série animada Fantastic Four (1967). Facto que se repetiria em 1994 em nova produção do género baseada na Família Fundamental da Marvel;
* No terceiro volume de Marvels (ovacionada minissérie em quatro capítulos da autoria de Kurt Busiek e Alex Ross, datada de 1994), os segmentos da narrativa protagonizados por Galactus são recontados sob o ponto de vista do vilão;
* Marco incontornável na História da 9ª arte,  The Coming of Galactus! foi objeto de múltiplas reedições ao longo dos anos, entre as quais avultam Marvel Masterworks nº25 (1993), The 100 Greatest Marvels of All Time e Essential Fantastic Four Volume 3 (estas últimas lançadas em 2001);

Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado (2007).


Vale a pena ler?

    Com certeza que sim! Esta é, aliás, uma daquelas sagas que devia ser leitura obrigatória para qualquer genuíno aficionado da 9ª arte (e não apenas para os "maluquinhos" por super-heróis como este vosso humilde escriba).
   No meu caso, tive o prazer e o privilégio de lê-la pela primeira vez nas páginas dos números 58 e 59 de Heróis da TV, quando ainda era uma pessoa de palmo e meio recém-alfabetizada. Mesmo não possuindo então a maturidade intelectual para refletir sobre os dilemas morais e as questões teológicas nela vertidos, a história tocou-me o coração.
   Quase fui levado às lágrimas (era um miúdo do tipo emotivo, mas não tanto) pelo degredo a que o pobre Surfista Prateado foi sentenciado pelo seu desapiedado amo depois de ter ajudado a evitar o extermínio de uma espécie cujo comportamento, já naquela altura, era tudo menos exemplar. Interrogo-me, de resto, se o bom Norrin Radd teria tomado idêntica posição se tivesse travado conhecimento com a humanidade dos dias de hoje...
  Quando, anos mais tarde, me senti intelectual e emocionalmente capacitado para reler A Chegada de Galactus percebi que a trama não se restringia aos melodramáticos solilóquios de uma espécie de Hamlet extraterrestre. Havia todo um sortido de personagens cativantes e ação em quantidade suficiente para evitar o enfado de leitores menos propensos a divagações filosóficas.
   Ao passo que a generalidade dos escritores modernos de banda desenhada preferem ater-se às convenções do género, Lee e Kirby estiveram-se a marimbar para elas. Mais importante do que a sofisticação narrativa, para essa dupla de iconoclastas que revolucionou o conceito de super-heróis o fundamental era a vertente humana. E essa assenta sempre nas emoções. Aquelas que as personagens expressam no desenrolar da história e aquelas que despertam nos leitores. Era esse o grande segredo de Lee e Kirby: sabiam como ninguém captar a essência humana, falando diretamente ao coração dos fãs.
  Atrevo-me, não obstante, a fazer dois pequenos reparos a esta obra-prima (ouvi alguém gritar "herege"?): em primeiro lugar, a excessivamente rápida mudança de lado do Surfista Prateado e, depois, a insólita opção de situar o grosso da narrativa nas imediações do Edifício Baxter. Pormenores de somenos importância atendendo à excelência daquela que é, sem dúvida, a melhor história do Quarteto Fantástico alguma vez produzida (aqui entre nós, é por causa dela que ainda hoje sou fã do grupo).
  Contudo, apesar de toda as suas façanhas e glórias, a Família Fundamental da Marvel foi recentemente desalojada da Casa Sem Ideias. Ao fim de mais de meio século de aventuras e desventuras, o Quarteto Fantástico teve a sua série cancelada. Oxalá não seja um adeus, mas apenas um até breve. Quero por isso dedicar este meu singelo artigo aos quatro heróis cujas estórias me transportaram ao Infinito e mais além.

Os 4 eternamente Fantásticos.


quarta-feira, 19 de agosto de 2015

EM CARTAZ: « QUARTETO FANTÁSTICO» (2005)





  Reunindo no elenco astros de primeira grandeza, como Jessica Alba e Chris Evans, esta produção milionária da Fox teria à partida tudo para encher as medidas aos fãs. No entanto, a maioria deles saiu do cinema com um amargo de boca e o filme foi sentenciado ao Purgatório. Volvida uma década, o recém-estreado reboot  da franquia teve o condão de o resgatar de lá.

Título original: Fantastic Four
Ano: 2005
Género: Ação/Aventura/Ficção Científica
Duração: 106 minutos (123 minutos na versão em DVD)
País: EUA/Alemanha
Realização: Tim Story
Distribuição: 20th Century Fox
Argumento: Michael France e Mark Frost
Elenco: Ioan Gruffudd (Reed Richards/Sr. Fantástico), Jessica Alba (Sue Storm/Mulher Invisível), Chris Evans (Johnny Storm/Tocha Humana), Michael Chiklis (Ben Grimm/Coisa), Julian MacMahon (Victor Von Doom/Dr. Destino) e Kerry Washington (Alicia Masters)
Orçamento: 110 milhões de dólares
Receitas: 330,6 milhões de dólares

Os 4 Fantásticos (da esq. para a dir.): Ioan Gruffudd, Michael Chiklis, Jessica Alba e Chis Evans.

Produção e desenvolvimento: Corria o ano de 1983 quando o produtor germânico Bernd Eichinger se reuniu com Stan Lee na residência deste, em Los Angeles. O encontro tinha como objetivo avaliar as possibilidades de vir a ser produzido um filme baseado no Quarteto Fantástico. À época atravessando grandes dificuldades de tesouraria, a Marvel Comics necessitava urgentemente de um encaixe financeiro, pelo que a proposta de Eichinger foi acolhida com particular interesse.
  Seriam, no entanto, precisos mais três anos para Eichinger obter luz verde para o seu projeto. O que só aconteceria depois de a sua Constantin Film ter adquirido à Marvel os direitos de adaptação das personagens criadas em 1961 por Stan Lee e Jack Kirby. Em contrapartida, a produtora de Eichinger ficou contratualmente obrigada a desenvolver um filme do Quarteto Fantástico num prazo de seis anos. Se tal não se verificasse, os direitos das personagens reverteriam novamente para a Casa das Ideias.
 Apesar de os valores da transação nunca terem sido oficialmente confirmados, estima-se que terá rondado os 250 mil dólares. Preço que Eichinger terá decerto considerado uma pechincha. Para mais considerando o interesse logo demonstrado pela Warner Bros. e pela Columbia Pictures em  associarem-se ao projeto. Interesse entretanto esfumado face ao orçamento de 40 a 45 milhões de dólares apresentado pelo produtor alemão.
 Devido à falta de financiamento, o cronograma da produção foi sofrendo sucessivos adiamentos. Aproximando-se a passos largos do prazo para a expiração dos direitos adquiridos (31 de dezembro de 1992), numa manobra desesperada, Eichinger requereu uma moratória à Marvel. Indeferido o pedido, ele decidiu avançar, em último recurso, com a produção de uma película de baixo orçamento por forma a evitar um cenário de perda do investimento efetuado.

Bernd Eichinger, o produtor germânico que teve a ideia de levar o Quarteto Fantástico ao grande ecrã.

  Na esteira dessa decisão, em finais de 1992 Eichinger encetou contactos exploratórios com Roger Corman, cineasta veterano especialista em filmes de série B. Corman concordou em dirigir a fita baseada no Quarteto Fantástico, cujo orçamento inicial de 5 milhões de dólares seria entretanto encolhido para um quinto desse valor. Embora essa circunstância nada augurasse de bom para o resultado final, a produção acabaria mesmo por avançar.
  Em 1994, o trailer de Fantastic Four começou a circular nos cinemas estadunidenses ao mesmo tempo que o seu realizador e elenco iniciavam uma digressão promocional. Ignorando todos eles que nunca fora suposto o filme ter honras de estreia. Tratando-se, ao invés, de um mero expediente para Eichinger conservar os direitos de adaptação das personagens. Em consequência disso, a película tornar-se-ia uma enorme fonte de embaraço para a Marvel, que se viu forçada a comprar os respetivos negativos. Com o tempo, porém, Fantastic Four foi sendo descoberto pelos fãs, tornando-se mesmo objeto de culto para alguns deles.

Quarteto Fantástico (1994), o filme-fantasma.

 Correndo atrás do prejuízo, no ano seguinte a Marvel apressou-se a encetar negociações com a 20th Century Fox com vista à produção de uma película "oficial" e de grande orçamento do Quarteto. No pacote negocial foi também incluído um  possível spin-off do Surfista Prateado com estreia prevista para o verão de 1998. Projeto que, no entanto, nunca sairia da gaveta de uma qualquer secretária instalada num obscuro gabinete dos estúdios Fox.
  Quando finalmente arrancou, a produção do reboot do Quarteto Fantástico fê-lo ao solavancos. Depois de, em meados de 1995, ter sido contratado pela Fox para escrever e dirigir a película, Chris Columbus abandonou essas funções, optando por produzi-la através da 1492 Pictures, empresa de que era proprietário. Peter Segal foi o senhor que seguiu em abril de 1997. Mas mal teve tempo de aquecer o lugar, dado que foi substituído por Sam Weisman ainda antes do final desse ano.
 Quanto ao enredo, este passaria para as competentes mãos de Sam Hamm (coargumentista de Batman) em abril de 1998. Com esta opção a Fox pretendia diminuir uma produção orçada em 165 milhões de dólares. Valor exorbitante que fizera entretanto soar as campainhas de alarme na cúpula da empresa.
  Com o desenvolvimento do projeto a demorar mais do que o previsto, em fevereiro de 1999 Eichinger e a Fox chegaram a acordo com a Marvel para prorrogarem por mais dois anos a validade dos direitos sobre aquela que é a mais antiga família de super-heróis na história da 9ª arte. A estreia do filme ficou assim agendada para o verão de 2001, já depois de ter havido nova troca na cadeira de realizador: Sam Weisman deu lugar a Raja Gosnell. Este, no entanto, preferiu dirigir a primeira aventura de Scooby-Doo no grande ecrã, desertando do projeto em outubro de 2000. Seguiu-se Peyton Reed em abril do ano seguinte, que trouxe com ele o argumentista Mark Frost, a quem foi incumbida a missão de reescrever, uma vez mais, o guião.
 Dando seguimento ao vaivém de realizadores, Peyton Reed arrepiaria caminho em julho de 2003. Já este ano, em vésperas da estreia mundial do segundo reboot da franquia, o cineasta revelou que na origem desta sua decisão teriam estado insanáveis divergências criativas com a Fox. Segundo Reed, o estúdio teria em mente um filme completamente diferente daquele que ele tencionava rodar. À guisa de exemplo, o realizador relembrou que, durante os cerca de dois anos em que esteve à frente do projeto, o enredo terá sido reescrito em três ocasiões por igual número de equipas de argumentistas.
 Desesperadamente tentado afugentar o espectro do fracasso que assombrava o projeto, a escolha final para a realização recairia sobre Tim Story, cooptado em abril de 2004. Impressionados com o seu trabalho em Taxi (remake americano de um filme de ação francês de 1998), os mandachuvas do estúdio resolveram avançar para a sua contratação. Após nova revisão do enredo efetuada por Simon Kinberg (cujo trabalho não seria, porém, creditado), Fantastic Four chegaria finalmente a bom porto, estreando-se nas salas de cinema de todo o mundo a 8 de junho de 2005.

Tim Story, o homem por trás das câmaras.

Prémios e nomeações: Malgrado a pouco calorosa receção por parte da generalidade da crítica e do público, Fantastic Four foi nomeado em diferentes categorias de importantes prémios ligados à 7ª arte. Nos Saturn Awards, por exemplo, foi um dos finalistas vencidos na eleição de Melhor Filme de Ficção Científica. Já na edição de 2006 dos MTV Movie Awards foi indicado nos segmentos de Melhor Heroína (Jessica Alba) e de Melhor Grupo (Ioan Gruffudd, Chris Evans, Jessica Alba e Michael Chiklis). Menos prestigiante foi a nomeação de Jessica Alba para o Razzie Award de Pior Atriz, tanto pela sua prestação em Fantastic Four como em Deep Blue.

Jessica Alba esteve em destaque pelos melhores e pelos piores motivos.

Enredo: Reed Richards, uma das mais fulgurantes mentes científicas da Terra, está convicto de que a evolução das espécies terá sido desencadeada milhões de anos atrás pela ação de nuvens de energia cósmica localizadas no espaço. De acordo com os seus cálculos, uma dessas nuvens passaria em breve perto do nosso planeta.
 Em conjunto com o seu velho amigo, o astronauta Ben Grimm, Reed persuade o Dr. Victor Von Doom, seu ex-colega no MIT e atual diretor-executivo das Indústrias Von Doom, a permitir-lhe o acesso à sua estação espacial privada de modo a poder testar em amostras biológicas os efeitos da nuvem cósmica. Von Doom concorda mediante duas condições: controlo total sobre a experiência e a maior percentagem dos lucros que dela possam advir.
 Determinado em levar por diante o seu projeto, Reed convida a sua ex-namorada e atual chefe de pesquisas genéticas das Indústrias Von Doom, Sue Storm, e  o seu irmão mais novo, Johnny (também ele um antigo astronauta) a juntarem-se às operações.
  A bordo de um sofisticado vaivém, o quinteto voa até à estação espacial de Von Doom com o objetivo de observar de perto a nuvem cósmica. Deitando por terra os cálculos de Reed, esta materializa-se antes do previsto, apanhando todos de surpresa.
 Com Ben no exterior da estação para plantar as amostras biológicas, Reed e Sue preparam-se para o resgatar quando a nuvem passa por eles. Totalmente exposto, Ben recebe uma dose de radiação cósmica superior à que atinge os seus amigos, protegidos pela fuselagem da estação espacial. Apesar desse incidente, todos sobrevivem, aparentemente, incólumes.
 Pouco tempo depois de voltarem à Terra, os quatro sofrem transformações físicas que lhes conferem incríveis habilidades. Reed torna-se uma espécie de elástico humano, Sue possui agora a capacidade de ficar invisível e de gerar campos de força, Johnny consegue voar quando o seu corpo fica envolto em labaredas e Ben assume a forma de uma criatura rochosa dotada de força e resistência sobre-humanas.
 Enquanto isso, Victor Von Doom, cujo rosto ficara desfigurado em consequência da explosão de uma consola a bordo da estação espacial, sofre um colossal revés financeiro, quando as ações da sua empresa caem a pique na bolsa devido à publicidade negativa em torno do fiasco da missão orbital.
  Já Ben Grimm tem o seu coração despedaçado quando a sua noiva, incapaz de lidar com a sua aparência disforme, põe fim ao relacionamento entre ambos. Perturbado, Ben perambula até à ponte sobre o rio Hudson onde provoca um gigantesco engarrafamento de trânsito enquanto evita o suicídio de um pedestre.
  A sua intervenção acaba, contudo, por dar origem a um choque em cadeia que lança o caos e a destruição no tabuleiro da ponte. Chegados ao local em busca do amigo, Reed e os manos Storm empregam as suas recém-adquiridas habilidades para conter os danos e salvar vidas. Televisionadas em direto, as façanhas do grupo deixam os nova-iorquinos boquiabertos e levam a imprensa a batizá-los de Quarteto Fantástico.
  Ainda mal refeitos da vertigem mediática, os quatro amigos regressam rapidamente ao Edifício Baxter para que Reed estude os seus respetivos superpoderes e procure uma forma de reverter Ben à sua forma humana.
  Ele próprio vítima de uma mutação genética, Victor Von Doom oferece auxílio a Reed, apesar de o culpar pelo fracasso da experiência no espaço que lhe custou a sua empresa e uma parte substancial da sua fortuna.

Victor Von Doom, o Doutor Destino.

  Consumido pelos remorsos, Reed anuncia aos seus companheiros que irá construir uma máquina que lhe permitirá recriar a nuvem cósmica para assim tentar reverter os efeitos por ela causados nas suas fisiologias. Alertando-nos, no entanto, para a possibilidade de, ao invés, o processo potenciar ainda mais esses efeitos.
 Longe dali, Von Doom, cujos braços se transformaram em metal orgânico permitindo-lhe dessa forma emitir rajadas bioelétricas, começa a engendrar um plano de vingança. Conhecendo os sentimentos que, no passado, ambos nutriram por Sue, Victor usa a atual condição de Ben para reacender o seu despeito relativamente a Reed, por este ter levado a melhor nessa antiga disputa amorosa.
 Seduzido pelas promessas de cura feitas por Von Doom, Ben aceita servir de cobaia na experiência de Reed. Que num primeiro momento parece ser bem-sucedida, na medida em que Ben tem a sua aparência humana restaurada. Surge, no entanto, um efeito colateral inesperado: Victor Von Doom tem a maior parte da sua superfície corporal recoberta por metal.
 Inebriado pelo poder que sente fluir-lhe nas veias, Von Doom captura Reed e deixa Ben inconsciente. Agora autodenominando-se Doutor Destino, oculta o rosto desfigurado com uma máscara metálica, tortura Reed e lança um míssil teleguiado com a mira fixada no Edifício Baxter, onde se encontram os restantes membros do Quarteto. Johnny usa o seu poder incandescente para despistar o míssil e Sue confronta sozinha o Dr. Destino. Apesar da sua valentia, acaba, porém, sobrepujada pelo vilão. Quando este se prepara para lhe desferir um golpe fatal, Ben ressurge em cena - novamente transformado em Coisa após ter voltado a usar a máquina de Reed, - e salva a amiga tombada.
  Transferida para as ruas de Nova Iorque, a batalha prossegue com os manos Storm a combinarem os seus poderes para gerarem um inferno pirocinético que sobreaquece a pele metálica do Dr. Destino. De seguida, Reed e Ben encharcam-no com água gelada, causando assim um violento choque térmico que transforma o vilão numa estátua de metal fundido.
  No epílogo, Ben informa Reed de que conseguiu por fim aceitar a sua nova condição graças à afeição de Alicia Masters, uma artista que, embora cega, consegue ver o homem por trás do monstro. Reunidos, os quatro membros do grupo concordam em usar os seus poderes ao serviço da comunidade, passando a operar como Quarteto Fantástico. Logo após, Reed pede Sue em casamento. Pedido que ela prontamente aceita, para alegria de todos.
  Entretanto, no porto de Nova Iorque, o corpo inerte do Dr. Destino é embarcado num cargueiro com destino à Latvéria, seu país natal. Uma pequena interferência eletromagnética manifesta-se no equipamento eletrónico usado no transporte do contentor onde repousa o vilão, sugerindo dessa forma que ele ainda viveria.

Trailer: 



Curiosidades:

Jessica Alba padecia de uma infeção renal durante as filmagens e quase desfaleceu enquanto gravava a sua cena na estação espacial com Julian MacMahon;
* Único dos quatro protagonistas familiarizado com a mitologia do Quarteto Fantástico, Michael Chiklis fora um devoto fã do Coisa na sua infância. Motivo que o levou a bater-se pela inclusão no filme de uma versão real da personagem em vez de um avatar digital. O preço a pagar pelo ator pela satisfação desta sua reivindicação foi ter de usar um traje feito com 28 kg de látex e que demorava 3 horas a vestir;
* De origem galesa, Ioan Gruffudd teve de disfarçar o seu sotaque característico que não se coadunava com o papel de Reed Richards. Tarefa dificultada pelas sucessivas revisões do argumento. Empolgado pela sua participação numa megaprodução hollywoodesca, o ator convidou os pais a visitarem o set. Desafortunadamente, no dia em que isso se propiciou, Ioan rodava apenas uma sequência dentro de um elevador;
* Durante a conversa de Reed e Sue no cais, não só os atores não estavam a contracenar um com o outro (circunstância comum no cinema) como não estavam sequer no mesmo país. Jessica Alba foi filmada em Nova Iorque, ao passo que Ioan Gruffudd o foi na cidade canadiana de Vancouver;
* Foram precisos 4 meses para conceber a cena em que o Tocha Humana se converte numa bola de fogo e alça voo no céu nova iorquino. Ainda assim, um mês a menos do que aqueles que foram necessários para filmar a cena na ponte sobre o rio Hudson;
* Vários elementos  do filme foram inspirados na arte de Jack Kirby (cocriador do Quarteto Fantástico em 1961) na BD original. Exemplos: os raios cósmicos que atingem o vaivém que transporta ao espaço Reed e companhia têm a forma de balas e a face do Coisa é granulosa como era nas suas primeiras aparições, antes de adquirir o aspeto pedregoso que se tornaria a sua imagem de marca;
* Em sentido inverso, a origem do Doutor Destino tem cambiantes muito distintas daquela que foi mostrada nos quadradinhos. No filme, Victor Von Doom integra a expedição orbital de Reed Richards, ganhando, portanto, as suas habilidades em consequência da exposição à radiação cósmica. Na BD, isso aconteceu na sequência de um acidente de laboratório, que também o desfigurou para sempre;
* Na derradeira cena do filme, o corpo congelado do Dr. Destino é embarcado num cargueiro com a palavra "Latvéria" inscrita no casco. Trata-se da nação fictícia que, nos quadradinhos, tem como soberano absoluto, precisamente,Victor Von Doom;




Veredito: 41%

  Alinhavo esta minha singela crítica ao filme de 2005 do Quarteto Fantástico sem nunca me ter dado à maçada de assistir à inenarrável produção série Z de 1994 e de ter poupado tempo e dinheiro a ir ver ao cinema o recém-estreado reboot da franquia. Em bom rigor, nunca vi no grande ecrã qualquer uma das quatro películas que compõem a filmografia do Quarteto. 
  Tanto no caso deste Quarteto Fantástico como da sua atroz sequela de 2007 (sobre a qual já me pronunciei nesta rubrica), o bom senso aconselhou-me a aguardar pelo respetivo lançamento em DVD ou pela sua transmissão televisiva (de preferência, em canal aberto). Opção de que nada me arrependo.
   Apesar de, há dez anos, ter sido arrasada pela crítica e pelos fãs, a fita dirigida por Tim Story, comparada com o que estava para trás e com o que viria a seguir, é muito provavelmente a menos má dentro da filmografia do Quarteto. Mesmo levando na devida conta as suas inumeráveis fragilidades. Dentre elas, destaco desde logo a falta de solidez do argumento. Existem demasiados hiatos fastidiosos entre as escassas sequências de ação, convidando o espectador a fazer uma soneca. 
  Por outro lado, o vilão é uma autêntica nulidade. Quem minimamente conhece o Doutor Destino da BD sabe que se trata de um sujeito genialmente perverso, megalómano e prepotente. Esta sua versão cinemática seria incapaz de assustar uma criancinha. Mas, como é sabido, sobretudo desde a sua aquisição pela Disney, os estúdios Marvel esmeram-se em produzir filmes para toda a família. Opção que, no caso do Quarteto Fantástico, até nem é totalmente descabida. Escusavam era de tornar a película asséptica ao ponto de a tornar desinteressante. Esperava-se mais de uma produção multimilionária como esta. Que não sendo fantástica também não é intragável. 
   
Passeio em família.