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sexta-feira, 6 de março de 2020

ETERNOS: STEVE DITKO (1927-2018)


   Foi um dos virtuosos arquitetos da Casa das Ideias, mas bateu com a porta quando esta se provou acanhada para as suas convicções. Esquivo como uma sombra de vidro, esculpia totens da cultura popular com o implacável cinzel do Objetivismo. 

Quando, em 2007, o popular apresentador televisivo britânico Jonathan Ross se propôs realizar um documentário sobre Steve Ditko para a BBC Four, sabia que teria de perseguir um fantasma arisco. Avesso a entrevistas (a última remontava a 1968) e aparições públicas, o lendário cocriador do Homem-Aranha e do Doutor Estranho vivia há anos em reclusão voluntária. Qualquer jornalista, fã ou simples curioso que pisasse a soleira da sua porta era, ademais, prontamente enxotado. Nada disso desencorajou, porém, Ross de tentar a sua sorte, confiante que esta tende a bafejar os audazes.
Ao cabo de meses de aturada investigação, Ross localizou finalmente o seu alvo num anónimo edifício de escritórios nova-iorquino. Escoltado pelo seu compatriota Neil Gaiman (outro assumido admirador da obra de Ditko), conseguiu um breve, porém cordial, tête-à-tête com o velho mestre da Arte Sequencial, no seu modesto estúdio.
O que nesse encontro foi discutido permanece até hoje no segredo dos deuses. Fiel aos seus rígidos princípios, Ditko não autorizou a gravação do mesmo e tudo indica que terá exigido máxima discrição aos seus visitantes. Mas nem por isso Ross voltou para casa de mãos vazias. Do ex-parceiro criativo de Stan Lee e Jack Kirby recebeu uma seleção de histórias da sua autoria. Resumindo-se a essa inesperada oferenda o contributo de Ditko para um projeto que, à semelhança de tantos outros, o teria como protagonista omisso.
Uma vez mais, era por meio da sua exuberante obra que Steve Ditko, o eremita, comunicava com o mundo. O homem por trás do artista genial e do filósofo espontâneo, esse, permaneceria um enigma.
Apontado como uma referência no género, o documentário de Ross - apropriadamente intitulado In Search of Steve Ditko (À procura de Steve Ditko) - falhou, previsivelmente, em decifrar o biografado.

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Jonathan Ross, autor do documentário À Procura de Steve Ditko.
A despeito de ter colocado um pouco de si em todas as suas criações - mesmo aquelas alcandoradas a ícones globais - Ditko será para sempre um livro proibido trancado a sete chaves numa biblioteca secreta a que quase ninguém teve acesso. Passagens avulsas, quase sempre encriptadas, foi tudo o que ele alguma vez nos permitiu ler.
Aqui ficam algumas delas, na certeza de que, tal como o próprio Ditko, personagem desconcertante,  suscitarão numerosas interpretações.
Stephen John Ditko Jr. nasceu a 2 de novembro de 1927 em Johnstown, pequena cidade industrial no estado da Pensilvânia martirizada ao longo da sua história por violentas cheias. Segundo filho de uma ninhada de quatro de um humilde casal de imigrantes originários da antiga Checoslováquia - ele mestre carpinteiro numa fábrica de aço local, ela dona de casa - do pai herdou o nome e a paixão pelas histórias aos quadradinhos. Às quais foi apresentado através das tiras do Príncipe Valente à época publicadas nos jornais. Batman e The Spirit seriam, no entanto, os verdadeiros catalisadores do fascínio do pequeno Steve Ditko em relação à 9ª Arte.
A passagem de Ditko pelo liceu coincidiu com a entrada dos EUA na II Guerra Mundial. No auge do conflito, participava no Clube de Ciências e num outro que fabricava modelos em madeira de aviões alemães para serem utilizados nos treinos de observadores aéreos.
Concluído o secundário, em 1945 Ditko alistou-se no Exército, sendo destacado no ano seguinte para a Alemanha sob ocupação aliada, onde o seu talento artístico lhe rendeu o posto de ilustrador num jornal castrense. Durante essa temporada longe de casa, produziu também uma banda desenhada que enviava todos os meses para um dos seus irmãos.

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Postal ilustrado da cidade natal de Steve Ditko e o mestre nos seus tempos de juventude.
De regresso à vida civil e aos EUA, em 1950 Steve Ditko matriculou-se na Cartoonists and Illustrators School (atualmente conhecida como School of Visual Arts), em Nova Iorque. Jerry Robinson, pupilo de Bob Kane e cocriador do Menino-Prodígio, foi o professor que mais influenciou o seu estilo e a sua vontade de abraçar uma carreira como desenhador profissional.
Com Eric Stanton, seu colega de turma e futuro artista e fotógrafo fetichista, Ditko cunharia amizade para a vida. Entre 1958 e 1968, os dois partilharam um estúdio em Manhattan e, ao que consta, ter-se-ão assistido mutuamente nos seus trabalhos (algo que ambos sempre negaram). Stanton terá sido, de resto, uma das raras pessoas que terão conhecido o homem por trás da lenda. Mas também ele levou esse segredo para o túmulo.
Em finais de 1953, então com 26 anos, Steve Ditko conseguiu o seu primeiro trabalho profissional ao ser contratado pela Key Publications para ilustrar um conto de terror intitulado Stretching Things. A história em questão seria, contudo, vendida à Ajax-Farrell, que a publicou em Fantastic Fears nº5.´

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Fantastic Fears nº5  (1954) apadrinhou
 a estreia profissional de Steve Ditko.
Ansioso por fazer parte da indústria dos comics, poucos meses depois Ditko reforçaria o staff do estúdio Crestwood dirigido por Joe Simon e Jack Kirby, a ex-dupla maravilha da Timely. A principal função de Ditko consistia em arte-finalizar os esboços de Mort Meskin, um dos mais talentosos e respeitados artistas da Idade de Ouro.
Quase sem tempo para aquecer o lugar, no trimestre seguinte Ditko migrou para a Charlton Comics. O ano de 1954 marcou, assim, o início da sua longa, porém intermitente, ligação à editora sediada no Connecticut. Que compensava as modestas remunerações com as amplas liberdades criativas concedidas aos seus colaboradores. Prerrogativa que contribuiu sobremodo para o florescimento artístico de Ditko, que por lá viveu uma das suas fases mais prolíficas.
Em menos de um ano, Ditko desenhou 170 páginas e 19 capas para a Charlton. Feito ainda mais notável se levarmos em conta que essa produção frenética coincidiu com um diagnóstico de tuberculose.
Sob os cuidados da mãe, Ditko restabeleceu-se em tempo recorde e, logo no início de 1955, estava pronto para voltar à liça. Contudo, durante a sua convalescença um furacão arrasara as instalações da Charlton. Novamente saudável mas sem emprego, no ano seguinte Ditko bateu à porta da Atlas Comics (sucessora da Timely e antecessora da Marvel), para a qual começou então a desenhar contos de terror publicados em títulos emblemáticos da editora, como Journey into Mystery ou World of Suspense. Dada a sua experiência prévia em histórias desse género, Ditko sentiu-se como peixe na água e depressa se tornou um dos artistas mais requisitados da companhia.
Em 1957, com a crise instalada na indústria dos comics, a Atlas foi forçada a dispensar a maior parte dos seus colaboradores. Ditko não escapou à razia mas teve a ventura de encontrar abrigo na rediviva Charlton. Nessa sua segunda passagem por uma casa que tão bem conhecia, dividiu com o escritor Joe Gill os créditos da criação do Capitão Átomo, herói espacial apresentado ao mundo em março de 1960, no 33º número de Space Adventures.
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Capitão Átomo, o primeiro super-herói criado por Steve Ditko.
Durante essa fase, Ditko desdobrava-se incansavelmente entre a Charlton e a Marvel, à qual aceitara regressar logo em 1958 e onde tinha agora como parceiro criativo Stan Lee. As sofisticadas histórias de suspense da autoria de ambos eram extremamente apreciadas pelos leitores e tinham dado novo elã a títulos clássicos como Strange Tales, Tales to Astonish ou Amazing Fantasy. Incidindo sobre este último a escolha do presidente executivo da Casa das Ideias, Martin Goodman, para acolher um novo super-herói.
Assistia-se, desde meados da década de 50, ao renascimento do género super-heroico e a Marvel teria uma palavra a dizer.  Com Stan Lee e Jack Kirby, Steve Ditko seria o terceiro vértice do triângulo de visionários que reinventaram os super-heróis. Revolução posta em marcha com o Quarteto Fantástico, em 1961, e que prosseguiria agora com a irreverência de um certo Escalador de Paredes.
O Sensacional Homem-Aranha fez a sua vibrante estreia em agosto de 1962, nas páginas de Amazing Fantasy nº15, e logo prendeu os leitores na sua teia. A ideia de apresentar o primeiro super-herói adolescente emancipado da tutela de um adulto partiu de Stan Lee. Tanto a conceção visual da personagem como boa parte da sua caracterização psicológica ficaram, todavia, por conta de Steve Ditko. Que projetou vários traços da sua personalidade no alter ego do herói.
Da aparência franzina ao isolamento social decorrente de uma timidez superlativa, Peter Parker era praticamente um autorretrato de Ditko. A identificação do público nerd com o Homem-Aranha foi instantânea fazendo-o atingir níveis estratosféricos de popularidade apenas comparáveis aos do Super-Homem e Batman.
Diversos dos elementos que compõem o imaginário do Escalador de Paredes, como os lançadores de teias ou o sentido de aranha, tiveram igualmente assinatura de Ditko. O mesmo se podendo dizer acerca dos principais antagonistas do herói, com o Duende Verde à cabeça.
Tudo isto só foi possível graças à aplicação extrema do famoso Método Marvel. A partir de uma sinopse de Stan Lee, Ditko narrava as histórias visualmente cabendo depois ao seu parceiro escrever os respetivos diálogos. Donde a dificuldade em atribuir a cada um deles uma quota-parte na criação do Homem-Aranha.

A partir de uma ideia de Stan Lee,
Ditko criou um dos mais icónicos super-heróis de todos os tempos.
Mesmo depois de ter visto reconhecido o seu estatuto de coautor do Escalador de Paredes, Ditko nunca escondeu o seu desconforto com o facto de, durante demasiado tempo, Stan Lee ter reclamado sozinho os louros pela criação daquele que se tornaria o maior símbolo da Marvel e um totem da cultura popular. Vicissitudes que não se repetiriam aquando da criação do Doutor Estranho, conceito totalmente desenvolvido por Ditko para a Casa das Ideias.
Em julho de 1963, o Mago Supremo debutou em Tales of Suspense nº110 e desde logo ficou claro que as suas histórias transbordantes de visões abstratas e espirais de ectoplasma seriam um desafio à imaginação dos leitores. Outrora um brilhante cirurgião com ego obeso, Stephen Strange tivera as suas mãos incapacitadas após um violento acidente rodoviário. Na demanda por uma cura milagrosa, viajou para o Tibete onde encontrou o misterioso Ancião. Sob os auspícios deste, foi iniciado nas artes arcanas e, de regresso a Nova Iorque, assumiu a missão de defender a Terra de ameaças místicas e extradimensionais.
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As aventuras psicadélicas do Doutor Estranho.
O psicadelismo das histórias do Doutor Estranho atraiu a atenção de muitos estudantes universitários e da comunidade hippie que, por aqueles dias, formavam a vanguarda da revolução cultural em curso. Instalando-se entre esses grupos sociais a crença de que as viagens extradimensionais do herói eram uma alegoria para os efeitos do LSD ou de qualquer outro potente alucinogénio. Ditko foi, assim, tomado por um expoente da contracultura que procurava implantar-se. Ledo engano.
Steve Ditko não só não era consumidor de substâncias psicoativas como desprezava profundamente qualquer movimento de massas. Enformado pelos austeros preceitos do Objetivismo - corrente de pensamento que teve a filósofa russa Ayn Rand (1905-1982) como principal impulsionadora - Ditko acreditava que cada indivíduo deve travar apenas a sua própria guerra; uma guerra contra o relativismo moral e outros venenos das sociedade modernas.
À luz dos ensinamentos objetivistas, Ditko via o mundo a preto e branco, sem espaço para áreas cinzentas. Perante o seu olhar, era nítida a fronteira entre Bem e Mal. E poderá muito bem ter sido essa ortodoxia moral a precipitar a sua saída da Casa das Ideias, que assim ficou desfalcada de um dos seus virtuosos arquitetos.
Donos de personalidades contrastantes, Steve Ditko e Stan Lee concordavam apenas em discordar uma do outro. Se "conservador" era um termo lisonjeiro para descrever o primeiro, "liberal" era um adjetivo que assentava ao segundo como um fato feito por medida.
Ditko passara a imbuir os seus valores morais nas histórias do Homem-Aranha e do Doutor Estranho, e as diferenças criativas e ideológicas com Lee aprofundaram-se ao ponto dos dois deixarem de se falar.  Finalmente, em 1966, Ditko abandonou, sem motivo aparente, a Casa das Ideias.
Alguns oficiais do mesmo ofício da privança de ambos apontam, no entanto, uma razão mais prosaica para a zanga. Segundo eles, as divergências de Lee e Ditko acerca da identidade secreta do Duende Verde (revelada após longos meses de suspense) teria sido o verdadeiro pomo da discórdia. Lee escolheu Norman Osborn - pai do melhor amigo de Peter Parker - ao passo que Ditko preferia que o vilão fosse uma personagem aleatória. A visão de Lee acabaria por prevalecer e, em resposta, Ditko terá batido com a porta. Versão nunca confirmada ou desmentida por nenhum dos intervenientes.

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Terá sido a identidade secreta do Duende Verde
 a ditar a saída de Ditko da Casa das Ideias?
Certo é que os anos passados na Marvel corresponderam ao auge da carreira de Steve Ditko, como bem atestam os oito Alley Awards conquistados entre 1962 e 1965. Mas o mestre da Arte Sequencial tinha ainda muito para oferecer a uma panóplia de editoras. As décadas seguintes seriam, com efeito, pautadas pelo seu nomadismo ao mesmo tempo que reforçaria a sua reputação de libertário.
Novamente ao serviço da Charlton, Ditko reencontrou o "seu" Capitão Átomo e reabilitou o Besouro Azul (originalmente detido pela Fox Comics) antes de criar um avatar do Objetivismo. Introduzido em Blue Beetle nº1 (julho de 1967), o Questão era um anti-herói que servia de alter ego a Vic Sage, um obstinado jornalista especializado em expor casos de corrupção. Tal como seu criador, o Questão obedecia a um rígido código moral e era implacável para com os transgressores. Assumindo com frequência o papel de juiz, júri e executor para impor a sua justiça sem rosto.

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Justiça ou vingança?
Eis a Questão.
Malgrado o radicalismo dos seus métodos, o Questão provou ser uma versão amenizada do impiedoso Mr. A. Assim crismado em referência a um dos axiomas de Ayn Rand - "Um A é só um A." - era um cruel vigilante que aterrorizava criminosos nas páginas (a preto e branco, como o mundo em que se movia) do fanzine Witzend, com o qual Ditko aceitara colaborar.
Em comum com a sua contraparte da Charlton, o facto de Mr. A levar a cabo a sua cruzada no duplo papel de jornalista e campeão mascarado da Justiça. Ao mesmo tempo que expressava sem filtros as convicções filosóficas de Ditko, visto que as suas histórias semiclandestinas escapavam ao escrutínio prévio da Comic Code Authority. Da fusão das duas personagens nasceria, duas décadas mais tarde, o insano Rorschach, de Watchmen.

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O crime é uma doença, Mr. A a cura.
Em concomitância com o trabalho desenvolvido sob a égide da Charlton, Ditko colaborava à época com várias editoras menores, transitando por uma multitude de géneros. Warren Publishing, Dell Comics e Tower Comics foram algumas das beneficiárias do seu génio antes da sua surpreendente mudança para a DC, em 1968.
A meteórica passagem de Ditko pela arquirrival da Marvel ficou marcada pela criação de um dos mais bizarros super-heróis de sempre.  Ao visual garrido, o Rastejante (Creeper, no original) somava um insólito poder: uma risada capaz de infligir dor física. Tal como o questão e Mr. A, tinha como identidade civil um destemido repórter chamado Jack Ryder. Destoava, contudo, das anteriores criações de Ditko pela sua personalidade irracional com laivos psicóticos. Alguns historiadores da 9ª Arte identificam a influência do Joker na conceção do Rastejante. Que, apesar do apelo inicial, veria a sua série mensal cancelada ao fim de apenas meia dúzia de números.
Coincidindo com o pico da contestação social à guerra no Vietname, Steve Ditko criou pouco depois uma parelha de heróis com posições assimétricas relativamente ao conflito. Rapina e Columba (Hawk and Dove, em inglês) tinham ainda a particularidade de serem irmãos. Mas enquanto o primeiro se caracterizava pela belicosidade, o segundo era assumidamente pacifista. Dicotomia que refletia na perfeição as profundas divisões que a intervenção militar dos EUA naquele longínquo país asiático suscitavam na sociedade americana. Sendo, ademais, facilmente reconhecíveis as influências objetivistas de Rapina, com cujas posições Ditko claramente se identificava.
Ditko seria no entanto obrigado a abandonar Rapina e Columba ao fim de apenas dois números, por motivos de saúde. A tuberculose que, na década anterior, lhe refreara o ímpeto criativo voltava a tolher-lhe o corpo e o espírito.

The Creeper by Steve Ditko

Duas séries da DC com a assinatura de Steve Ditko
 tiveram existência efémera.
Ditko recuperaria a saúde mas não o fulgor profissional de outrora. Ao longo das décadas seguintes, à medida que principiava a sua quarentena social autoimposta, deambularia por dezenas de editoras abraçando quase sempre projetos experimentais e de curta duração.
Ao serviço da DC, por exemplo, criou, em 1977 (ano do seu regresso), o Homem Mutável (Shade, The Changing Man), um herói alienígena com uma veste especial que lhe distorcia a aparência em função das emoções circundantes. Ditko tinha grandes planos para o néofito mas as dificuldades financeiras que a Editora das Lendas enfrentou a partir de 1978 obrigou ao cancelamento precoce da respetiva série.
Seria, porém, aquando da sua passagem pela defunta Pacific Comics que Ditko conceberia uma das suas mais desconcertantes e obscuras personagens. Com o improvável poder de desaparecer em pleno ar deixando para trás esboços cartunescos de si próprio, Missing Man é geralmente percecionado como uma representação caricatural do próprio Ditko. Cuja obra nimbada pela cintilante luz da genialidade encerra os únicos vestígios da sua passagem pelo mundo.

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Shade, o Homem Mutável.

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Missing Man. Uma caricatura de Ditko?
Solteiro inveterado e sem descendência biológica conhecida, não existe qualquer indício de uma ligação íntima de Ditko a qualquer outro ser humano. Will Eisner, seu velho compincha, declarou certa vez ter conhecido o filho de Ditko mas é quase certo que o terá confundido com um sobrinho.
De permeio, Ditko ensaiou repetidos regressos à Marvel. A cada um deles sentindo-se mais um fantasma que assombrava a Casa das Ideias que ajudara a pôr de pé e onde vivera alguns dos seus dias mais felizes.
Cada vez mais entrincheirado no seu fundamentalismo objetivista, sepultou velhas amizades (como aquela que o unia a Dick Giordano, que levara consigo para a DC) e recusou todo e qualquer projeto que colidisse com as suas ideias.
Cidadão mental de uma época distante, o presente afigurava-se a Ditko como uma distopia futurista. E por isso rejeitava o mundo moderno e tudo aquilo que ele tinha para oferecer. Nas suas histórias abundavam ainda personagens de chapéu e gabardina que pareciam saídas diretamente dos anos 1950.
Mesmo quando os trabalhos começaram a rarear e a subsistência era uma luta diária, Ditko recusou vender a arte original que lhe teria rendido boa maquia. Do mesmo modo que nunca reclamou um cêntimo dos lucros astronómicos gerados pelas adaptações do Homem-Aranha e do Doutor Estranho ao cinema. Fama e fortuna nada significavam para ele. A prová-lo, o facto de, em 1987, ter recusado o Comic-Con Inkpot Award com o qual fora distinguido à revelia.
No fatídico dia 29 de junho de 2018, em vésperas de cumprir o seu 91º aniversário, Steve Ditko foi encontrado sem vida pela Polícia no interior do seu modesto apartamento, em Nova Iorque. Curiosamente, poucos meses antes de também Stan Lee se despedir do mundo terreno.
No entanto, por contraste com a celeuma mediática em torno do óbito de Lee, a morte de Ditko pouco mais foi do que uma nota de rodapé na generalidade da imprensa.
Para a posteridade ficam as palavras pronunciadas numa das suas últimas entrevistas, concedida algures na década de 1960: "Steve Ditko é uma marca comercial. O meu trabalho é tudo o precisam conhecer sobre mim. É por ele que quero ser lembrado." O mundo fez-lhe a vontade.

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A criatura chora a morte do criador.

Agradecimento muito especial ao meu bom amigo Emerson Andrade, autor da montagem que abre este artigo, que espero estar à altura do seu talento e expectativas.

Nota 1: Este blogue tem como Guia de Estilo o Acordo Ortográfico de 1990 aplicado à norma europeia da Língua Portuguesa.
Nota 2: Artigos sobre a Timely Comics, Charlton Comics e Homem-Aranha disponíveis para leitura complementar.































sábado, 3 de março de 2018

FÁBRICAS DE MITOS: CHARLTON COMICS


 Fundada atrás das grades, foi uma incubadora de talentos ímpar na sua autossuficiência. Alcançou glória efémera na Idade da Prata graças ao seus "heróis de ação"que inspirariam os Watchmen, de Alan Moore.

Reis da Sucata

Menos glamorosa e com contornos mais invulgares do que as de outras editoras surgidas em plena Idade do Ouro, a história da Charlton Comics começou a escrever-se em 1923. Nesse ano, seguindo as pisadas de tantos outros dos seus conterrâneos, um jovem italiano chamado John Santangelo cruzou o Atlântico à conquista do Sonho Americano.
Desembarcado em Nova Iorque com a sua mala de cartão, Santangelo começou por garantir o sustento a trabalhar como pedreiro antes de se estabelecer como empresário da construção. Estávamos em 1931 e, por esses dias, o rádio era ainda uma vibrante novidade. Mercê desse facto, em muitos lares continuava a ouvir-se música através de gira-discos, grafonolas e outros aparelhos similares. Cuja deficiente acústica nem sempre permitia aos ouvintes acompanharem as letras das suas melodias favoritas.

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Apesar do apregoado
 em anúncios publicitários como este,
 o som das grafonolas e afins 

deixava muito a desejar.
Ocorreu então ao ladino Santangelo, dono de um apurado faro para o negócio, que não faltariam porventura interessados em comprar as letras impressas das canções mais populares. E, se bem o pensou, melhor o fez: pouco tempo depois do seu momento eureca, Santangelo arrecadava já bom dinheiro com a venda de brochuras contendo esse tipo de material.
Havia apenas um pequeno senão: Santangelo não pagava direitos de autor pelas letras que disponibilizava ao público. Processado pela Sociedade Americana de Compositores, Autores e Produtores, de nada lhe valeram em tribunal as suas alegações de que ignorava em absoluto ter cometido uma infração.
Apesar dessas proclamações de inocência, em 1934 Santangelo seria mesmo sentenciado a um ano de prisão efetiva. Pena que cumpriria integralmente na Penitenciária Estadual de New Haven, no estado vizinho do Connecticut; não muito longe de Derby, a pequena cidade para onde ele e a sua cara-metade se haviam mudado tempos atrás, e que viria a acolher a sede da Charlton Publications.
Durante essa sua curta estadia atrás das grades, Santangelo travou amizade com Edward Levy, um ex-advogado a cumprir pena ligeira por crimes de colarinho branco, e que sabia reconhecer uma boa ideia quando lha apresentavam.
Visto que ambos seriam em breve restituídos à liberdade, Santangelo e Levy tornaram-se sócios no que viria a ser um negócio legal de divulgação de letras de canções e das novas tendências musicais. Ambos tinham filhos chamados Charles e, por isso, concordaram em batizar a futura editora de T.W.O. Charles Company.
Numa opção estratégica que se revelaria decisiva para o êxito do empreendimento, Santangelo e Levy adquiriram uma gráfica industrial e uma robusta frota de camiões. A primeira asseguraria a impressão das publicações, a segunda a sua distribuição um pouco por todo o país. Fazendo assim da T.W.O. Charles Company um caso único de autossuficiência no panorama editorial norte-americano.
Da edição à distribuição passando pela impressão, a empresa controlava toda a cadeia de produção a partir do seu quartel-general em Derby. Se por um lado isso lhe conferia uma importante vantagem sobre a concorrência, por outro encorajava uma menor exigência no que à qualidade do material produzido dizia respeito, já que a T.W.O. Charles Company não tinha de prestar contas a quem quer que fosse.

Panorâmica aérea da antiga sede da Charlton Publications, em Derby.
Demolida em 1999, no seu lugar existe hoje um centro comercial.
Quando tudo ficou finalmente a postos, no início de 1942 a T.W.O. Charles Company lançou Hit Pareder, um dos primeiros e mais duradouros magazines musicais publicado ininterruptamente ao longo de meio século. Embora especializada nesse tipo de material, o catálogo da nova editora incluía originalmente livros e revistas de palavras cruzadas.

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Fenómeno de longevidade, o magazine musical Hit Parader
 seria publicado pela Charlton até 1991.
Renomeada Charlton Publications em 1945, no ano seguinte a editora decidiu lançar a sua própria linha de histórias aos quadradinhos. Contrariamente a outras fábricas de mitos que continuavam a laborar a toda a brida, fê-lo no entanto com o exclusivo propósito de manter as suas gigantescas rotativas a funcionarem em contínuo, dado que qualquer pausa acarretaria custos proibitivos.
Assim nasceu a Charlton Comics, com a mediocridade inscrita no seu código genético. Salvo por uma outra pequena pepita, ao longo da sua história notabilizar-se-ia por vender pechisbeque e outras bugigangas de reduzido valor. Dito de outro modo, a Charlton Comics nunca foi uma editora de topo porque nunca aspirou a tal.
Preferindo seguir tendências a criá-las, a Charlton Comics navegou sempre ao sabor das caprichosas correntes do mercado: quando, na viragem da década de 50, os contos de terror estiveram na berlinda, a editora prosperou por conta deles; quando, a meio da década seguinte, as histórias de guerra perderam o seu apelo devido à impopularidade do conflito no Vietname, as suas vendas ressentiram-se.
Há, ainda assim, que lhe reconhecer o mérito de, por contraponto a muitas das suas concorrentes, ter conseguido manter-se à tona entre as cíclicas borrascas que fustigaram a indústria dos comics. Chegando mesmo a crescer em contraciclo. Quando, no final da II Guerra Mundial, as histórias aos quadradinhos entraram em declínio levando à falência de muitas editoras, a Charlton, escorada na sua autossuficiência e no ecletismo das suas publicações, não só resistiu à crise como aumentou a sua lucratividade.
Importa por outro lado ressalvar que, apesar do ecletismo do catálogo da Charlton Comics (no qual cabia uma impressionante variedade de géneros abrangendo desde romance adolescente a façanhas do Velho Oeste passando pela ficção científica), os super-heróis estiveram durante muito tempo subrepresentados nele. Sobrevindo este facto de a editora os ter encarado sempre como um subproduto, logo ainda mais descartável do que os restantes.


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Quatro dos títulos mais emblemáticos
 da Charlton Publications.
Apesar desse seu diminuto apreço pelo género super-heroico, a Charlton já antes se aventurara na publicação de material dessa natureza. Em setembro de 1944, tinha chegado às bancas Yellowjacket, uma antologia de historietas de terror e de super-heróis com o selo da Frank Comunale Publishing Company.
Era comum nos primórdios da indústria dos quadradinhos as editoras mudarem frequentemente de nome, por forma a contornarem o racionamento de papel imposto pelo esforço de guerra e/ou para ludibriarem o Fisco. Escusado será dizer que a Charlton Comics não fugiu à regra tendo criado, além da já mencionada Frank Comunale Publishing Company, várias outras subsidiárias. Casos da Children Comics Publishing (vocacionada para o público infantil, publicou Zoo Funnies, um dos títulos de charneira da editora), da Charles Company Publishing ou ainda da Frank Publications.

Yellowjacket nº1 (1944) incluía as primeiras histórias
 de super-heróis publicadas pela Charlton.
Mantendo-se fiel ao seu perfil low cost - e sempre sob a liderança bicéfala de Levy (diretor executivo) e Santangelo (diretor financeiro) - ao longo dos anos seguintes a Charlton Comics compraria ao desbarato personagens detidas por editoras moribundas ou a braços com graves problemas de tesouraria. Entre as vítimas da sua necrofagia contam-se a Superior Comics e a Mainline Publications (fundada em tempos por Joe Simon e Jack Kirby, criadores do Capitão América), tendo ainda reclamado para si parte dos despojos mortais da Fawcett Comics*. A sua aquisição de maior monta seria, contudo, o Besouro Azul, antigo porta-estandarte do Fox Features Syndicate.
Outra das práticas pelas quais a Charlton Comics se tornou tristemente notória foi a dos baixos salários pagos aos seus colaboradores. O que não a impediu de conseguir arregimentar, na primeira metade da década de 50,  talentosos artistas e escritores aliciados pelo maior controlo criativo que a editora lhes proporcionava. Entre eles pontificavam algumas futuras lendas da Nona Arte, como Steve Ditko (cocriador do Homem-Aranha). Joe Gill (escriba prolífico) e Dick Giordano (ilustrador virtuoso e futuro editor-chefe da DC Comics). Vindo este último, como mais adiante se perceberá, a ficar inextricavelmente ligado ao curto apogeu da Charlton Comics.
Sinalizando o despontar do que se convencionou designar como a Idade de Prata da banda desenhada, em 1956 a DC Comics reformulou alguns dos seus ícones clássicos, como o Flash e o Lanterna Verde. Influenciada pelo renovado vigor assim infundido ao género super-heroico, logo em 1960 (antecipando-se à revolução trazida pela Marvel Comics a partir do ano imediato) a Charlton criou de raiz o seu primeiro super-herói: o Capitão Átomo.

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O visual original do Capitão Átomo.
Já com Dick Giordano a ocupar o posto de seu editor-chefe, entre 1965 e 1968 a Charlton Comics viveu aquele que a generalidade dos fãs e dos historiadores da Nona Arte consideram ter sido o ponto mais alto da sua carreira. Muito por conta, note-se, dos seus "heróis de ação" (action heroes, no original), designação atribuída por Giordano à nova safra de justiceiros fantasiados da editora. Além do Capitão Átomo e de uma versão recauchetada do Besouro Azul, dele faziam parte também Pacificador, Questão, Thunderbolt e Mestre Judoca, citando apenas os mais populares.
Reflexo dessa inédita aposta num género que até então sempre menosprezara, a Charlton Comics adquiriu, em paralelo, os direitos de licenciamento de Flash Gordon e do Fantasma ao King Features Syndicate. Duas personagens consagradas que, naquela época, eram sinónimo de boas vendas.
Pela mão de Dick Giordano, chegaram ainda à Charlton Comics Jim Aparo**, Dennis O'Neill (que escrevia sob o pseudónimo Sergius O’Shaughnessy) e todo um contingente de novos talentos dos quadradinhos que tiveram na editora a rampa de lançamento para as suas meteóricas carreiras. Transformada num alfobre de estrelas em ascensão, por lá passariam anos mais tarde os "galácticos" John Byrne e Jim Starlin.

Dick Giordano (1932-2010) capitaneou
 uma revolução de veludo na Charlton Comics.
Qual fogo-fátuo, o sucesso dos "heróis de ação" da Charlton Comics esfumou-se num abrir e fechar de olhos. Antes ainda da saída de Giordano para a DC no ano seguinte, em 1967 viram os seus títulos mensais serem cancelados sem apelo nem agravo. Chegava assim ao fim o curto estado de graça de uma editora que nunca foi provida dela.
Naquele que seria o seu derradeiro esforço para reviver o seu panteão super-heroico, em 1973 a Charlton Comics lançou E-Man, cujo tom humorístico das histórias captou inicialmente a atenção dos fãs. No entanto, o seu débil desempenho comercial ditaria o cancelamento da sua série ao fim de uma dezena de números publicados.
Em consequência desse revés, ao longo do resto da década de 1970 a Charlton Comics limitou-se a publicar histórias de terror (das quais os leitores pareciam não se cansar) e a reeditar material antigo do seu inventário. Especializou-se igualmente nas adaptações de séries televisivas que por aqueles dias faziam furor. Casos, por exemplo, de Bionic Woman e The Six Million Dollar Man. Prodigalizando sempre a costumeira mediocridade que, à parte o pequeno parêntesis acima descrito, foi sempre a imagem de marca da editora.

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Da TV para a BD. 
Quando se adivinhava já o seu canto do cisne, em 1983 a Charlton Comics aceitou vender à DC, por uns módicos 30 mil dólares acrescidos de royalties, os seus "heróis de ação" que vinham acumulando poeira numa qualquer gaveta. Segundo consta, ter-se-á tratado de um presente oferecido pelo então Vice-Presidente Executivo da DC, Paul Levitz, a Dick Giordano em reconhecimento pelo excelente trabalho que ele vinha desenvolvendo na Editora das Lendas.
Certamente mais do que uma infeliz coincidência, o cerrar definitivo de portas da Charlton ocorreria pouco tempo depois, em 1985. No ano seguinte,  Alan Moore expressou o seu desejo de usar os antigos "heróis de ação" da Charlton em Watchmen, aquela que seria a magnum opus do controverso escritor britânico, e uma das sagas mais memoráveis da história da Nona Arte. Intenção que esbarrou contudo na renitência dos mandachuvas da DC em alienarem a título definitivo ativos recém-adquiridos, e aos quais reconheciam potencialidades. 
Assim, não restou a Moore outro remédio senão criar pastiches descartáveis para a sua história. O Capitão Átomo transformou-se no Doutor Manhattan, o Besouro Azul no Coruja e por aí afora.

Duas faces da mesma moeda:
 os "heróis de ação" da Charlton e os Watchmen, de Alan Moore.
Quanto aos verdadeiros "heróis de ação" da Charlton, tiveram sortes diferentes. Ao passo que Capitão Átomo, Besouro Azul e Questão obtiveram lugar de destaque na mitologia da DC, de Mestre Judoca ou Pacificador restam apenas ténues reminiscências (vide texto seguinte).
Numa deliciosa ironia, seriam pois os mesmos super-heróis de que a Charlton Comics tanto desdenhou a salvá-la do ostracismo a que parecia irremediavelmente condenada.
Epitáfio inglório para uma editora cuja história é um compêndio de oportunidades desperdiçadas, mas cuja "mística" sobrevive ainda na memória afetiva de muitos fãs. E também de antigos colaboradores. Como Dick Giordano que, certa vez, resumiu de forma lapidar o legado da Charlton Comics: "Se assim o tivesse desejado, a Charlton poderia ter ombreado com a DC. Poderia ter produzido material de melhor qualidade por metade do preço. Poderia ter virado o jogo a seu favor e revolucionado a indústria dos quadradinhos. Mas os seus donos preferiram ser os reis da sucata."

*http://bdmarveldc.blogspot.pt/2017/09/fabrica-de-mitos-fawcett-comics.html
**http://bdmarveldc.blogspot.pt/2015/10/eternos-jim-aparo-1932-2005.html

Heróis de Ação

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Falar em panteão super-heroico da Charlton Comics poderá soar um tudo-nada exagerado. Quanto muito,  a editora dispôs brevemente de um lote de justiceiros fantasiados que, se não tivessem sido adquiridos pela DC, estariam muito provavelmente fadados ao oblívio. Sorte a que nem todos lograram, ainda assim, escapar.
Foi, no entanto, por intermédio dos seus "heróis de ação" que a Charlton conseguiu ser mais do que uma mera nota de rodapé na história da Nona Arte. Sendo por isso da mais elementar justiça corrigir alguns equívocos no que à propriedade original dessas personagens concerne. Isto porque, sendo verdade que nem todos correspondem a conceitos originais da editora, também não é menos verdade que alguns continuam a ser erroneamente creditados à DC, como se sempre tivessem sido sua pertença.
Importa por isso dar a conhecer um pouco melhor alguns dos lendários "heróis de ação" da Charlton Comics, mormente aqueles que serviram de modelo aos Watchmen, de Alan Moore.

Besouro Azul (Blue Beetle): Sem dúvida o mais acarinhado dos "heróis de ação" da Charlton, pertenceu originalmente à Fox Comics. Apesar da assinalável popularidade de que gozou durante a Idade do Ouro, não conseguiu reeditá-la sob o selo da nova editora. Joe Jill e Steve Ditko foram por isso incumbidos de desenvolver uma sua nova versão que debutou em Captain Atom nº83 (novembro de 1966). A nova velha personagem depressa conquistaria a simpatia dos fãs. Em Watchmen (saga e filmes já aqui esmiuçados) teve como contraparte o Coruja. Prontuário detalhado em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2015/09/herois-em-acao-besouro-azul.html ;

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Ted Kord,
o segundo Besouro Azul.

Capitão Átomo: O primeiro super-herói original da Charlton Comics e um dos poucos com superpoderes. Também ele saído da imaginação da dupla Joe Gill/Steve Ditko, na sua estreia em Space Adventures nº33 (março de 1960) surgia com um uniforme azul na capa e um dourado no interior da revista. Um erro de impressão que atesta bem o descaso com que este ramo da Charlton Publications tratava os seus produtos. Na DC, o Capitão Átomo teve a sua identidade civil e visual alterados.  Foi nele que Moore se inspirou para criar o Doutor Manhattan. Podem saber mais sobre este herói em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2013/05/herois-em-acao-capitao-atomo.html ;

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Os três uniformes do Capitão Átomo na Charlton.

Mestre Judoca (Judo Master): Mestre das artes marciais e ex-veterano da II Guerra Mundial, foi uma criação de Joe Jill e Frank McLaughlin. Estreou-se em Special War Series nº4 (novembro de 1965), ganhando pouco tempo depois um parceiro juvenil chamado Tigre. Após diversas modificações impostas pela DC, na sua versão mais recente é uma mulher chamada Sonia Sato;

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Lutador invencível.

Pacificador (Peacemaker): Dividia o seu tempo entre o trabalho diplomático como emissário dos EUA na Conferência de Genebra e o combate ao crime como um implacável vigilante urbano. Conceito desenvolvido por Joe Jill e Pat Boyette, fez a sua primeira aparição em Fightin'5 nº40 (novembro de 1966) antes de ganhar um título próprio que duraria apenas 5 números. Serviu de modelo ao cínico Comediante dos Watchmen;

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Paz armada.

Questão (Question): Mesmo sem nunca ter tido direito a uma série em nome próprio, esta criação de Steve Ditko (vista pela primeira vez em junho de 1967, nas páginas de Blue Beetle nº1) foi um dos mais bem-sucedidos "heróis de ação" da Charlton. Popularidade reforçada aquando da sua passagem para a DC, onde ganhou finalmente um título só para si. Teve o seu figurino e modus operandi replicados por Rorschach;

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Justiça sem rosto.

Sombra da Noite (Nightshade): Único elemento feminino do contingente original de "heróis de ação", conseguiu na DC (onde começou por ser integrada no Esquadrão Suicida) a notoriedade que lhe faltou na Charlton. Criação de David Kaler e Steve Ditko, esta teleportadora capaz de gerar sombras vivas estreou-se em Captain Atom nº82 (setembro de 1966). Foi uma das três heroínas clássicas que estiveram na origem da Espectral dos Watchmen (as outras duas foram Lady Fantasma e Canário Negro);

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Sombra viva.

Thunderbolt: Após atingir o ápice físico e mental, este órfão americano criado por monges tibetanos enveredou por uma carreira como combatente do crime. Tendo feito a sua primeira aparição em Peter Cannon, Thunderbolt nº1 (agosto de 1966), os créditos da sua criação pertencem a Peter Morisi. Ozymandias foi diretamente baseado nele, porém nunca conseguiu vingar na DC. É atualmente propriedade da Dynamite Entertainment;

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Ás de ação.

E-Man: Uma entidade alienígena composta por pura energia que podia assumir forma humana. Criado por Nicola Cuti e Joe Staton foi introduzido em E-Man nº1 (outubro de 1973). O registo humorístico das suas aventuras contribuiu em larga medida para o seu efémero sucesso. Apesar de não ser sido incluído no lote de personagens vendidas à DC, a First Comics tentaria revivê-lo nos anos 80;

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A ciência do humor.

Filho de Vulcano (Son of Vulcan): A resposta da Charlton Comics ao Poderoso Thor, da Marvel. Sempre que gritava "Vulcano, ajuda-me!", o repórter de guerra Johnny Mann transformava-se no formidável campeão dos Deuses Romanos. Estreou-se em Mysteries of Unexplored Worlds nº46 (maio de 1965) e teve em Pat Masulli e Bill Fraccio os seus autores. Adquirido pela DC, esteve em grande plano na saga Guerra dos Deuses (War of the Gods, 1991) antes de passar o manto a um Vulcano adolescente.

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Gladiador dos tempos modernos.

Um grande bem-haja ao meu bom e talentoso amigo Emerson Andrade. É da sua autoria a magnífica montagem que abre este artigo.