Mostrar mensagens com a etiqueta robin. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta robin. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 1 de julho de 2019

CLÁSSICOS REVISITADOS: «PARA O HOMEM QUE TEM TUDO»


  No dia do seu aniversário, o Último Filho de Krypton recebe um presente envenenado de um velho inimigo. Preso num transe fatal, Kal-El vive aquele que é o seu mais íntimo desejo. Apenas para descobrir que a fantasia pode ser ainda mais cruel do que a realidade.

Título original: For the Man Who Has Everything...
Editora: Detective Comics (DC)
País: EUA
Autores: Alan Moore (argumento) e Dave Gibbons (arte)
Publicado em: Superman Annual Vol.1 nº11 (agosto de 1985)*
Protagonistas: Super-Homem / Kal-El
Coadjuvantes: Batman, Robin (Jason Todd), Mulher-Maravilha, Mongul, Jor-El, Lyra Ler-Rol, Allura In-Ze, Kara Zor-El, Van-El e Orna Kal-El
Cenários: Fortaleza da Solidão e Krypton (na fantasia do Super-Homem)

*Sucessivamente reeditada ao longo dos anos, em 2006 a história foi selecionada para integrar o volume antológico DC Universe: The Stories of Alan Moore, que compilava alguns dos melhores trabalhos do escritor britânico ao serviço da Editora das Lendas.

Edições em Português 

Sob o título "O Homem que Tinha Tudo", a história foi pela primeira vez apresentada ao público lusófono em maio de 1991, nas páginas de Super Powers nº21, cuja capa era um fac-símile da original. Ainda por terras de Vera Cruz, desde o início deste século vem sendo sucessivamente republicada sob a chancela de diferentes editoras.
A primeira a fazê-lo, logo em 2002, foi a Opera Graphica, numa controversa edição em formato americano mas a preto e branco. Seguiu-se a Panini Comics que, entre 2006 e 2013, a incluiu em três antologias, entre as quais DC 75 anos, coleção lançada no âmbito das comemorações das bodas de diamante da Editora das Lendas e que reunia algumas das suas histórias mais emblemáticas. Por fim, em 2018, a história foi inserta no 63º volume da Coleção DC Comics Graphic Novels, da Eaglemoss.


A edição original (cima) e a controversa republicação
 a preto branco da brasileira Opera Graphica.

Irreverência britânica

Coincidindo com o aumento de popularidade dos super-heróis em terras de Sua Majestade, desde a viragem da década de 1980 que Alan Moore era uma estrela em ascensão na indústria de quadradinhos britânica. Tanto a divisão local da Marvel Comics como a Quality Communications e a Fleetway requisitavam regularmente os seus serviços de argumentista para alguns dos seus principais títulos. Para esta última, por exemplo, Moore escreveu durante essa fase mais de meia centena de histórias publicadas em 2000 A.D., magazine de ficção científica no qual, em 1977, o Juiz Dredd fizera a sua estreia.
Em várias dessas ocasiões, as tramas de Moore haviam sido ilustradas pelo seu compatriota David Gibbons. Ambos faziam uma avaliação deveras positiva dessas colaborações, mas o talento de Gibbons foi o primeiro a chamar a atenção do outro lado do Atlântico. Logo em 1982, a DC Comics, na pessoa de Len Wein (à data, editor e argumentista de Green Lantern) contratou-o para desenhar a série mensal do Gladiador Esmeralda.
No ano seguinte, seria a vez de Moore, novamente por intermédio de Len Wein, ser cooptado para assumir os argumentos de Swamp Thing, cujas vendas vinham afundando a pique. Recebendo carta de alforria para levar a cabo as alterações que julgasse necessárias para reverter a situação, Moore não só fez disparar as vendas da série do Monstro do Pântano como, a par de artistas como Rick Veitch, reinventou a personagem, introduzindo temáticas inéditas nas suas tramas. Ao abordar, de forma experimental, questões sociais e ecológicas, Swamp Thing depressa concitou a atenção do público e da crítica, transformando o que parecia ser um caso perdido na nova coqueluche da Editora das Lendas.
Resultado de imagem para alan moore and dave gibbons
Alan Moore (esq.) e Dave Gibbons celebrando
 o lançamento de Watchmen,a obra que os imortalizou na história da Nona Arte.
Mesmo durante a fase em que assinava as histórias do Monstro do Pântano, Moore submeteu aos seus editores diversas propostas envolvendo personagens como o Caçador de Marte (consta que seria ele o protagonista original de For the Man Who Has Everything...) e os Desafiadores do Desconhecido (conceito desenvolvido por Jack Kirby após a sua zanga com a Marvel). Propostas essas que, invariavelmente, acabaram rejeitadas dada a circunstância de outros escritores estarem já a desenvolver projetos com as personagens cobiçadas por Moore.
Quando, no início de 1985, o Editor-Executivo e Vice-Presidente da DC, Dick Giordano, aprovou por fim o projeto que viria a ser consubstanciado na ovacionada minissérie Watchmen, Moore e Gibbons (autores da ideia) começaram de pronto a trabalhar na planificação das histórias.
Pouco depois, Julius Schwartz, o então todo-poderoso editor dos títulos do Homem de Aço, sondou Gibbons sobre a sua disponibilidade para desenhar uma história do herói. Gibbons declarou-se disponível, mas quis saber qual o escritor com quem iria trabalhar. Quando Schwartz lhe disse que poderia escolher o seu parceiro criativo, Gibbons imediatamente sugeriu Alan Moore.
Sem delongas, a Dupla Dinâmica da Velha Albion deitou mãos à obra e For the Man Who Has Everything... começou a ganhar forma. Levando em consideração duas importantes mudanças ocorridas na continuidade então estabelecida: 1) Em agosto de 1979, mais de duas décadas após a sua inclusão na mitologia do Super-Homem, Kandor - cidade kryptoniana miniaturizada por Brainiac antes da implosão do planeta- havia finalmente revertido ao tamanho normal, em Superman nº338; 2) Em março de 1983, Jason Todd, um órfão com passado de delinquência juvenil, sucedera a Dick Grayson como Robin, sendo agora ele quem acolitava o Cavaleiro das Trevas.
De referir ainda que os sucessivos êxitos de Moore e Gibbons impeliram a DC a contratar outros escribas britânicos para produzirem histórias de apelo similar. Grant Morrison, Neil Gaiman e Peter Milligan fizeram parte dessa armada britânica que, nos anos imediatos, aportaria na ex-colónia para revolucionar a forma de escrever banda desenhada. E que, no início dos anos 90, constituiriam o núcleo duro de Vertigo, a linha adulta da Editora das Lendas entretanto encerrada.

Enredo

No exterior da Fortaleza da Solidão, algures no Círculo Polar Ártico, a Mulher-Maravilha reúne-se à Dupla Dinâmica. É o aniversário do Super-Homem e os seus amigos trouxeram-lhe presentes especiais. Ao adentrar na estrutura kryptoniana, o trio depara-se, porém, com o anfitrião em estado catatónico e envolvido pelos tentáculos de uma grande planta alienígena presa ao seu peito.
Batman analisa rapidamente a situação e deduz que o presente envenenado terá chegado pelo canal de teletransporte, enviado por um dos muitos mundos agradecidos pela ajuda do Super-Homem, e que ignorava os efeitos nocivos da planta. Nesse instante, Mongul entra em cena e revela ter sido ele o responsável pelo envio da Clemência Negra. Assim se chama a misteriosa planta que, na realidade, é um organismo simbiótico. Uma vez acoplada ao seu hospedeiro, a Clemência Negra consome-lhe a força vital ao mesmo tempo que o infunde num sonho vívido baseado no seu desejo mais íntimo.
Durante a sua breve explanação, e perante a estupefação dos seus interlocutores, Mongul usa um par de gigantescas manoplas para tocar na Clemência Negra sem ser afetado por ela.

Os amigos do Super-Homem deparam-se com uma cena perturbadora
antes de serem surpreendidos por Mongul (baixo).
Imagem relacionada

Paralelamente, é mostrado o que se desenrola no subconsciente do Homem de Aço: um simples homem de família, Kal-El vive feliz em Krypton, que nunca foi destruído. Casado com a ex-atriz Lyla Ler-Rol e pai de dois filhos, Van e Orna, Kal trabalha no Instituto de Geologia de Kryptonopolis, a capital do planeta e sua cidade natal.
De volta à Fortaleza da Solidão, a Mulher-Maravilha investe sobre Mongul - cujo poder excede o seu - enquanto Batman e Robin procuram desesperadamente libertar o Homem de Aço. Devido a essa interferência, a sua fantasia começa a adquirir tons mais sombrios.
Ao regressar a casa no dia do seu aniversário, Kal-El tem um festa-surpresa à sua espera. Nela estão presentes quase todos os seus entes queridos. Todos menos um: o seu pai, Jor-El.
Depois de as suas previsões catastrofistas acerca da iminente destruição de Krypton se terem revelado infundadas, Jor-El fora expulso do Conselho Científico e caíra em desgraça junto da opinião pública. E ainda mais isolado e amargurado ficara após a morte da sua esposa, Lara (mãe de Kal), vítima de uma moléstia incurável. Nem mesmo o recente falecimento do seu irmão, Zor-El, tinha servido para reconciliar Jor-El com a sua cunhada, Allura, e com a sua sobrinha, Kara.
No dia seguinte, Kal desloca-se ao laboratório do pai e encontra-o reunido com duas eminências pardas de Krypton: Lor-Em, líder de uma seita religiosa autodenominada Espada de Rao, e Dax-Ar, oficial de elevada patente do exército kryptoniano. Os três conspiram com vista à instauração de uma teocracia em Krypton, encabeçada por Lor-Em.

Kal-El não aprova as novas companhias do pai.

Após a saída dos comparsas de Jor-El, Kal tem uma acesa discussão com o pai. Que se insurge contra o que considera ser a deterioração dos valores da sociedade kryptoniana, a braços com a xenofobia e o tráfico de estupefacientes em larga escala. De nada adiantando Kal fazer notar ao pai que a sua associação com extremistas servirá somente para desbaratar o pouco prestígio que ainda lhe resta.
A altercação entre ambos metaforiza, aliás, a polarização da sociedade kryptoniana cujas bases vêm sendo sacudidas pela crescente convulsão política e social. Vive-se um clima de pré-guerra civil e um dos pomos da discórdia é a Zona Fantasma, a prisão extradimensional projetada por Jor-El para acomodar, a título perpétuo, criminosos irrecuperáveis.
Considerada um sistema desumano, a Zona Fantasma enfrentava uma onda de contestação, contribuindo sobremaneira para a impopularidade da Casa de El. Em consequência dessa animosidade para com os seus representantes, Kara Zor-El é brutalmente agredida por um grupo de manifestantes que usam Jax-Ur, um dos mais perigosos prisioneiros da Zona Fantasma, como mártir e símbolo.
Com a prima a lutar pela vida numa cama de hospital, Kal. temendo pela segurança da sua família, decide abandonar Kryptonopolis. Antes de partir, tem ainda tempo para testemunhar as escaramuças entre membros da Espada de Rao e manifestantes anti-Zona Fantasma nas ruas da cidade.
De visita à cratera de Kandor, Kal, cada vez mais consciente de que algo está errado, expressa o seu amor ao filho momentos antes de este se desvanecer como uma miragem nos seus braços. Esta dolorosa revelação coincide com o momento em que Batman consegue, por fim, arrancar a Clemência Negra do torso do Super-Homem. Ato contínuo, a planta atraca-se ao Homem-Morcego, submergindo-o num devaneio que dá forma ao seu mais profundo desejo.
Imagem relacionada
Kal-El despede-se do filho que nunca teve..
Imagem relacionada
Batman vive também o seu maior desejo.
Na fantasia de Batman, Thomas Wayne consegue desarmar o assaltante que cortara o caminho à sua família no Beco do Crime naquela fatídica noite em que o pequeno Bruce ficara órfão. Graças ao afeto e orientação dos pais, Bruce leva uma vida normal, chegando mesmo a casar e a ter uma filha.
Entretanto, dá-se o violento despertar do Super-Homem. Enfurecido pelo ataque da Clemência Negra e pela perda da sua família imaginária, ataca selvaticamente Mongul, que estava prestes a matar a Mulher-Maravilha tombada a seus pés.
Enquanto Super-Homem e Mongul se digladiam, destruindo secções inteiras da Fortaleza da Solidão e interferindo com os sismógrafos, Robin enfia as manoplas esquecidas pelo vilão e remove, a custo, a Clemência Negra do peito de Batman.

O violento despertar do Homem de Aço.
Prestes a desferir um golpe fatal no seu oponente, o Homem de Aço distrai-se momentaneamente ao entrever as estátuas dos seus pais kryptonianos. Mongul aproveita o ensejo para contra-atacar com ferocidade, deixando o herói à sua mercê. Antes que possa, no entanto, assestar a estocada final, o vilão é surpreendido pela presença de Robin.
Através de um buraco no teto, o Menino-Prodígio deixa cair a Clemência Negra sobre Mongul. Imediatamente capturado pela planta, o vilão extasia-se com o seu maior sonho: após assassinar o Super-Homem e vários outros heróis, conquista a Terra e, em seguida, todo o Universo.
Com os seus aliados ainda a recomporem-se, o Super-Homem informa-os do seu plano para se desenvencilhar de Mongul. Um plano que consiste em soltar a criatura no âmago de um buraco negro do outro lado da galáxia.
Chegado o momento de desembrulhar os presentes, o Homem de Aço agradece gentilmente a réplica de Kandor fabricada pelas joalheiras da Ilha Paraíso e ofertada pela Mulher-Maravilha. Sem que ninguém se aperceba, o herói voa a supervelocidade para esconder a sua própria réplica da Cidade Engarrafada guardada numa divisão adjacente, poupando assim a amiga ao embaraço.
Batman, por sua vez, pretendia presenteá-lo com uma nova espécie de rosa criada em laboratório e batizada de Krypton. A flor havia sido, porém, destruída durante a refrega com Mongul. Fleumático, o Super-Homem reconhece que talvez tenha sido melhor assim, antes de pedir que alguém prepare café enquanto ele arruma a casa.

Super-Homem usa a sua supervelocidade para esconder a sua réplica de Kandor
antes de receber a oferenda da Princesa Amazona.

Apontamentos 

*Superman Annual nº11 foi o penúltimo fascículo da primeira série desse título icónico do Homem de Aço, publicado de forma interpolada entre 1960 e 1986. Ao contrário do que o título sugere, a série teve periodicidade variável: de quadrimestral em 1961 passou a semestral em 1962 e novamente a anual no ano seguinte;
*Aclamada pelos leitores e pela crítica, em 1986 For the Man Who Has Everything... foi nomeada para o Kirby Award na categoria de Melhor História Individual e ocupa a 4ª posição na lista das cem melhores histórias de todos os tempos elaborada pela revista Wizard;
*Apesar de ser um dos melhores contos do Super-Homem e uma obra representativa da chamada Idade de Bronze (1970-1986), For the Man Who Has Everything... foi desconsiderada na continuidade pós-Crise nas Infinitas Terras. O que não impediu o escritor Geoff Johns de, já este século, recuperar a Clemência Negra para as histórias do Lanterna Verde;
*A par de Reign of the Supermen (O Regresso do Super-Homem, arco de histórias já aqui esmiuçado), For the Man Who Has Everything... alcandorou Mongul a arqui-inimigo do Homem de Aço; um dos poucos a conseguirem bater-se de igual para igual com o kryptoniano. Até então, Mongul (prontuário disponível neste blogue) era apenas mais um vilão intergaláctico com sonhos de conquista;

Imagem relacionada
Mongul é um dos mais formidáveis inimigos do Super-Homem.
*A história inclui também aquela que, com elevada quota de probabilidade, terá sido a primeira referência explícita à data de aniversário do Homem de Aço. Especula-se que a escolha de 29 de fevereiro terá sido uma brincadeira de Alan Moore para explicar a jovialidade do herói, que apenas celebraria o seu aniversário a cada quatro anos. Certo é que essa data seria consagrada pela DC, por altura das comemorações dos 50 anos do Super-Homem;
*Uma das mais belas e famosas atrizes de Krypton, Lyla Ler-Rol fizera a sua única aparição em Superman nº141 (novembro de 1960). Numa história típica da Idade de Prata (1956-1970), o Homem de Aço, com recurso à viagem no tempo, revisitava o seu planeta natal semanas antes da sua destruição. Tempo suficiente para Kal-El se enamorar e ficar noivo de Lyla. O casamento acabaria, contudo, por não se consumar. Lyla é também uma das várias coadjuvantes do Homem de Aço com as inicias LL;

Imagem relacionada
Super-Homem e Lyla Ler-Rol no primeiro encontro de ambos.
*Asa Noturna e Pássaro Flamejante (Nightwing e Flamebird no original) são outros dos elementos da Idade de Prata referenciados na trama. Tratam-se das identidades heroicas assumidas, respetivamente, por Super-Homem e Jimmy Olsen aquando das suas regulares visitas à cidade engarrafada de Kandor durante esse período editorial; 
*No seu ensaio Alan Moore´s Writing for Comics (Avatar Press, 2003), o polémico escriba britânico revelou que pretendia incluir a Supergirl na história, mas teve de substituí-la pela Mulher-Maravilha após ter sido informado da morte iminente da Última Prima de Krypton em Crise nas Infinitas Terras;
*O beijo trocado por Super-Homem e Mulher-Maravilha na ponta final da história sugere que, mesmo antes do romance vivido por ambos em Os Novos 52, a sua relação exorbitava a amizade platónica;
*Em 2004, quase vinte anos após a sua primeira publicação, For the Man Who Has Everything... serviu de mote a um episódio homónimo da primeira temporada de Justice League Unlimited, série animada da Liga da Justiça. A despeito das muitas licenças poéticas (como a omissão de Robin e de alguns trechos mais sombrios), Alan Moore, contrariamente ao que vem sendo seu apanágio, aprovou a adaptação. Mais recentemente, em 2016, um episódio da temporada inaugural de Supergirl (For the Girl Who Has Everything) foi também vagamente inspirado na história saída da pena de Moore.
Imagem relacionada
Kal-El à mercê de Mongul e da Clemência Negra em Justice League Unlimited.
Vale a pena ler?

Um dos melhores contos do Super-Homem alguma vez escritos, For the Man Who Has Everything... é, outrossim, uma obra-prima da 9ª Arte. O facto de ter sido produzida no período pré-Crise nas Infinitas Terras comprova ainda que as boas ideias não estavam esgotadas; eram os autores que tinham perdido o arrojo de outros tempos. Nesse sentido, a pirotecnia verbal de Alan Moore, polemista consagrado que continua a polarizar opiniões, foi uma pedrada no charco em que o Homem de Aço chapinhava há já um bom tempo.
De todas as histórias já escritas do Último Filho de Krypton, esta será, porventura, aquela que melhor aborda o conflito interno que o atormenta. Se o seu planeta natal não tivesse sido destruído e ele não tivesse sido enviado ainda bebé para um lugar aonde nunca iria, a sua vida teria sido totalmente diferente. Não teria assumido o papel de maior campeão do seu mundo adotivo e, por conseguinte, não teria enfrentado tantos e tão poderosos inimigos. Dito de outro modo, sobre os seus ombros não recairia o destino da Humanidade.
Escrita com mestria, a história conta com personagens bem definidas e maravilhosas referências à Idade de Prata, da qual Moore é um confesso nostálgico. Com a arte de Gibbons a torná-la ainda mais impactante ao retratar eficazmente a raiva do protagonista (algo raramente conseguido até então). Uma das sequências mais memoráveis é, precisamente, aquela em que o Super-Homem tenta incinerar Mongul com a sua visão de calor. Não por acaso, é ainda hoje considerada uma das mais intensas na história da banda desenhada.
For the Man Who Has Everything... é também um bom exemplo de como uma equipa criativa competente pode impor um registo adulto a uma história de super-heróis sem diminuir o glamour e a grandeza das personagens.
Com um final surpreendente, desenhos de excelente caracterização e expressionismo, ação e detalhismo em cada quadro, esta é, inquestionavelmente, uma obra capital no vastíssimo repertório do Homem de Aço. E que encerra uma pungente lição de humanismo: até o homem que tem tudo precisa de amigos, porquanto são eles o seu maior tesouro.

A fúria do último escuteiro.




sexta-feira, 24 de maio de 2019

ETERNOS: BILL FINGER (1914-1974)


  Sem o seu contributo o Batman seria muito diferente ou poderia nem existir. Sempre na sombra de Bob Kane, foi arquiteto e obreiro da mitologia daquele que é um dos mais icónicos super-heróis de todos os tempos. Nem a morte lhe escancarou, porém, os portões do Olimpo da 9ª Arte.

Enquanto o Sol se punha devagar numa praia deserta do Oregon, na Costa Oeste dos EUA, uma figura solitária executava um estranho ritual. Na areia molhada onde momentos antes espalhara cuidadosamente o montículo de cinzas transportado numa simples caixa de sapatos, desenhava agora, com dedos trémulos, a forma de um morcego. Em seguida, envolta num silêncio solene e de olhos fixos no horizonte incandescente, aguardou que o oceano reclamasse aquela pequena oferenda. Estava cumprida a derradeira vontade de Bill Finger, o autor secreto do Batman.
Quem naquele frio final de tarde por ali passasse, jamais imaginaria serem os restos mortais de um gigante da banda desenhada que as fortes correntes do Pacífico levavam para longe. Ou que a criação do Cavaleiro das Trevas configura uma das maiores traições à verdade inscritas na história da 9ª Arte.
Quando, há precisamente 80 anos, em maio de 1939, o Batman fez a sua primeira aparição em Detective Comics nº27, Bob Kane foi o único autor creditado, apesar de não o ser.
De fora ficou Bill Finger, velho amigo e fiel colaborador de Bob Kane desde os alvores da Idade de Ouro dos quadradinhos. E cujos contributos foram fundamentais para fazer do Cavaleiro das Trevas (cognome também cunhado por Finger) aquilo que ele é hoje: um dos três pilares do Universo DC (juntamente com o Super-Homem e a Mulher-Maravilha), um ícone cultural à escala planetária e, por inerência, um filão virtualmente inesgotável para os detentores dos seus direitos. Como, de resto, testifica a miríade de bandas desenhadas, filmes, séries televisivas e videojogos nele baseados.

Imagem relacionada
Detective Comics nº27 (1939) apresentou Batman ao mundo
 e Bob Kane (em baixo) como seu único autor.

Imagem relacionada

A despeito de o verdadeiro papel de Bill Finger na conceção do Batman e no desenvolvimento da sua mitologia ser um dos maiores segredos de Polichinelo da indústria dos quadradinhos, a verdade só este século começou a ser reposta. Finger continua, ainda assim, a ser um ilustre desconhecido para muitos fãs do taciturno guardião de Gotham City, que ignoram por completo a dimensão e a importância da sua obra.
Como se perceberá, Finger, conquanto inextrincavelmente ligado ao imaginário do Homem-Morcego, enriqueceu de diferentes formas o panteão da Editora das Lendas. No qual tem também lugar cativo desde que, em 1985, o seu nome foi incluído em Fifty Who Made DC Great, o livro de ouro lançado pela DC por ocasião do seu 50º aniversário, e que imortalizava as cinquenta personalidades que mais contribuíram para o sucesso da companhia.
Mas quem era, afinal, esse segundo homem por detrás da criação do Batman? E como foi possível ter permanecido na obscuridade durante tanto tempo? Era Bob Kane um oportunista sem ética ou limitou-se, ao invés, a tirar partido das regras viciadas de uma indústria particularmente iníqua?
No mês em que o Batman, fenómeno de popularidade e de longevidade (vem sendo ininterruptamente publicado desde 1939), ingressa no restrito escol de super-heróis octogenários, importa verter alguma luz sobre os segredos da sua criação e assegurar um módico de justiça ao seu criador secreto.
Um dos mais prolíficos - e menosprezados - escribas da sua geração, Milton "Bill" Finger nasceu a 8 de fevereiro de 1914, em Denver (Colorado), a jovem casal judaico de raízes humildes. Louis Finger, o pai, trocara, ainda adolescente, a sua Áustria natal pelos EUA, na senda do Sonho Americano que a Grande Depressão haveria de reduzir a pó. Foi, pois, em terras do Tio Sam que conheceu Tessie, a discreta nova-iorquina que haveria de desposar logo depois. Do enlace resultaram, além de Bill, duas filhas, Emily e Gilda. Em 1933, a família rumaria a Nova Iorque, depois de a míngua de fregueses ter ditado o encerramento da alfaiataria de que Louis retirava o sustento de todos.
Na Grande Maçã, o clã Finger assentou arraiais no Bronx. Foi nas ruas desse pitoresco bairro nova-iorquino que Bill Finger se fez homem enquanto frequentava o DeWitt Clinton, o mesmo liceu onde, num daqueles obséquios do acaso, Bob Kane estudava também. Kane era apenas um ano mais velho do que Finger e os passos de ambos acabaram inevitavelmente por cruzar-se nos corredores da escola. Apesar das personalidades dissonantes (Kane era conhecido pela sua lábia; Finger pela sua timidez), floresceu uma amizade entre ambos. Terminados os estudos, os dois seguiram, porém, caminhos muito diferentes.

Bill Finger na juventude.
Enquanto Bill Finger, um aspirante a escritor, trabalhava a tempo parcial numa sapataria, Bob Kane optou por ganhar dinheiro a fazer aquilo de que mais gostava: desenhar. Os dois mantiveram contacto e, em 1938, Bob Kane convidou o amigo a trocar a sapataria pelo seu recém-fundado estúdio. Cansado de um emprego que mal lhe permitia pagar as contas, Finger aceitou de bom grado o convite e a sua primeira colaboração consistiu em escrever Clip Carson e Rusty and his pals, tiras vendidas por Bob Kane à National Comics (uma das antecessoras da DC). Apesar de Kane não ter escrito uma só palavra das que acompanhavam as suas ilustrações, apenas a sua assinatura surgia nas tiras. Finger tornava-se assim o primeiro de uma legião de escritores-fantasma que no rolar das décadas coadjuvariam secretamente Kane.

Imagem relacionada
Bill Finger foi o escritor-fantasma de Bob Kane em Rusty and his pals.
Após o estrepitoso sucesso do Super-Homem no ano anterior, em 1939 a National Comics, na pessoa do seu editor-chefe Vin Sullivan, incumbiu Bob Kane de criar um novo herói fantasiado capaz de fazer disparar ainda mais as vendas da companhia. Era véspera de fim de semana e Kane comprometeu-se a apresentar o seu protótipo na segunda-feira seguinte. Essa seria, aliás, uma das poucas promessas que honraria em toda a sua vida.
Durante o fim de semana, Kane afadigou-se na criação da nova personagem, que batizou de Bat-Man (era esta a grafia original) antes de submetê-la à apreciação de Bill Finger. Este ficou agradado com o nome mas propôs várias modificações ao visual, conforme recordaria em diferentes entrevistas concedidas em vida: "Bob mostrou-me alguns esboços do seu Bat-Man. Gostei do conceito, mas a aparência fazia lembrar demasiado a do Super-Homem. Recordo-me que vestia um uniforme vermelho, sem luvas e com um par de asas rígidas acopladas nas costas. Tinha a face parcialmente coberta por uma mascarilha e baloiçava-se numa corda suspensa. Sugeri a Bob que fizesse algumas alterações e ele acolheu as minhas ideias."
As alterações propostas por Bill Finger deixaram quase irreconhecível o conceito original. Num ápice, o uniforme do Batman adquiriu tonalidades escuras, as asas deram lugar a uma capa e a mascarilha foi substituída por um capuz. A influência de Finger repercutiu-se igualmente na têmpera do herói.
Kane não tinha ainda definido a identidade secreta do Batman, e partiu de Finger a ideia de lhe atribuir um insuspeito playboy milionário como alter ego. Foi também ele quem o crismou de Bruce Wayne, combinação dos nomes de duas figuras históricas: Robert the Bruce (rei dos escoceses que, no século XIV, liderou o seu povo na primeira guerra pela independência face a Inglaterra) e Anthony Wayne, general notabilizado pelas suas façanhas militares durante a Revolução Americana. Anos mais tarde, o próprio Kane reconheceria ter concebido o Batman para ser um vigilante mascarado, tendo sido Finger a transformá-lo numa espécie de detetive científico notoriamente inspirado em Sherlock Holmes.

Imagem relacionada
O Bat-Man de Bob Kane.
Alheio a tudo isto, Vin Sullivan, o mandachuva da National, apressou-se a adquirir os direitos da personagem que Bob Kane, como prometido, lhe apresentou em tempo recorde. Sem nunca mencionar Bill Finger, Kane, entre outras contrapartidas, exigiu ser creditado como o único autor de Batman em todas as histórias e adaptações vindouras. Cláusula contratual inédita que destoava daquela que era então a prática consagrada na incipiente indústria dos comics. Raramente os criadores eram creditados ou conservavam os direitos das sua criações. Sendo o caso mais dramático o de Jerry Siegel e Joe Shuster, os desafortunados autores do Super-Homem cujos perfis se encontram disponíveis neste blogue.
Porquanto era o nome de Bob Kane o único que figurava no contrato celebrado com a National, somente ele receberia os futuros proventos do negócio. Apesar de Kane se ter comprometido informalmente a dividi-los com Finger, a verdade é que este nunca recebeu um cêntimo dos milhões de dólares gerados pelo Homem-Morcego nos diferentes segmentos culturais.
Não obstante, foi da pena de Finger que saiu a primeira história do Batman publicada em Detective Comics nº27, ficando a arte a cargo de Bob Kane. Mas apenas este foi creditado nessa edição e em todas as que foram dadas à estampa nas duas décadas subsequentes. Coincidindo esse período com a expansão da mitologia do Homem-Morcego.
Sempre na sombra de Kane, da imaginação de Finger saíram personagens-chave, como o mordomo Alfred Pennyworth, o Comissário James Gordon, a Mulher-Gato ou o Charada. Finger participou ainda na criação de Joker e Robin (respetivamente, némesis mortal e fiel escudeiro do Cavaleiro das Trevas), e deu nome à opressiva metrópole (Gotham City) que servia de habitat a toda esta exótica fauna. A Bat-Caverna e o Bat-Móvel foram outros dos conceitos icónicos introduzidos por Finger, normalizando dessa forma a aplicação do prefixo "Bat" a todo e qualquer acessório utilizado pelo herói que escolheu o morcego como símbolo.
Outra das marcas distintivas de Finger enquanto argumentista do Batman era a utilização recorrente de adereços gigantes - por norma, objetos do quotidiano como máquinas de costura ou de escrever. Um bom exemplo dessa tendência é a moeda gigante guardada na sala de troféus da Bat-Caverna, e que reporta originalmente a uma história da Idade de Ouro da autoria de Finger.

Imagem relacionada

Resultado de imagem para batman giant penny
Mulher-Gato e a moeda gigante com a efígie de Abraham Lincoln:
duas criações icónicas de Bill Finger na Idade de Ouro.
Arte-finalista das primeiras histórias do Batman, o saudoso George Roussos assinalava a minúcia de Finger como uma das suas características mais ambivalentes. Segundo ele, Finger facilitava consideravelmente o trabalho dos desenhistas ao fornecer-lhes referências fotográficas (normalmente retiradas da National Geographic) de prédios ou infraestruturas, como fábricas ou estações ferroviárias. Essas pesquisas exaustivas atrasavam, porém, o processo de escrita. Finger sentia sempre grande dificuldade em cumprir prazos, contingência que, em meados dos anos 1940, ditou a sua substituição temporária por Gardner Fox. Não sem antes ter assinado a história de origem do Homem-Morcego que, a despeito das múltiplas revisitações, se mantém praticamente inalterada até hoje.
Com o tempo Bill Finger começou a trabalhar diretamente para a DC. Superman e Superboy foram dois títulos em que deixou marca. Foi ele quem, por exemplo, incorporou a kryptonita (conceito apresentado anos antes num folhetim radiofónico) no cânone do Homem de Aço. Já o Superboy foi presenteado com um interesse amoroso: ninguém menos do que Lana Lang. Pelo meio, Finger foi creditado como coautor do primeiro Lanterna Verde e do Pantera (Wildcat, no original). No caso do Gladiador Esmeralda esse reconhecimento decorreu do simples facto de ter escrito a primeira história do herói, para cuja conceção em nada contribuiu.
Numa época marcada pela itinerância dos profissionais da 9ª Arte, Bill Finger colaborou igualmente com editoras concorrentes da DC. Quality Comics, Fawcett Comics e Timely Comics foram algumas das que requisitaram os seus préstimos. Para esta última, em 1946, ajudou a criar, em resposta ao êxito da Sociedade da Justiça da América (DC), o Esquadrão Vitorioso (All-Winners Squad), a primeira equipa de super-heróis dessa antepassada da Marvel.

Imagem relacionada
Resultado de imagem para dc comics classic lana lang
Alan Scott, o primeiro Lanterna Verde, e Lana Lang.
Outras das criações emblemáticas de Bill Finger.
Em 1961, numa conjuntura de renascimento dos super-heróis, Bill Finger abandonou quase por completo a indústria dos quadradinhos para abraçar uma nova carreira como argumentista no cinema e na TV. Foi nessa qualidade que, cinco anos depois, escreveu dois episódios da série televisiva do Batman estrelada por Adam West. Tendo sido essa a primeira vez que recebeu crédito por uma história do herói que ajudara a criar. Algo que certamente não terá agradado a Bob Kane.
Por essa altura a relação entre ambos já se deteriora em consequência de uma controvérsia relacionada, precisamente, com a criação do Homem-Morcego. Em 1965, na edição inaugural da Comic Con de Nova Iorque, Bill Finger participou num painel composto por autores de banda desenhada. Questionado sobre o seu papel na criação do Batman, Finger revelou a verdadeira dimensão do seu contributo para a definição do herói.
A resposta de Bob Kane não se fez esperar e foi tudo menos polida. Numa contundente missiva publicada no fanzine Batmania, apelidou de fraude o seu ex-associado, sonegando-lhe uma vez mais o direito a ser reconhecido como coautor do Cavaleiro das Trevas.
No que poderá ser interpretado como uma expressão de atroz cinismo ou um tardio rebate de consciência, na sua autobiografia lançada em 1989 (na verdade, um panegírico escrito a meias com Tom Andrea), Bob Kane escreveu: "Agora que o meu velho amigo Bill Finger nos deixou, devo admitir que ele nunca obteve a fama e o reconhecimento merecidos. Ele foi a força motriz do desenvolvimento do Batman. Foi um herói anónimo." Diga-se, no entanto, que Kane tudo fez para garantir esse anonimato.
Traído pelo seu coração, Bill Finger foi encontrado morto no seu apartamento num condomínio de Manhattan a poucos dias de completar 60 anos, e quando o movimento pela defesa dos direitos autorais ainda gatinhava. Corria o ano de 1974 e durante muito tempo especulou-se que o seu corpo teria sido sepultado numa campa anónima. A verdade, porém, é que foi cremado e as suas cinzas espalhadas pelo seu único filho, Frederick (era ele a misteriosa figura no início do texto), numa praia do Oregon. E esse poderia ter sido o epílogo desta apaixonante história se, em 2012, Marc Tyler Nobleman, um estudioso da 9ª Arte, não tivesse lançado Bill the Boy Wonder (Bill, o Menino-Prodígio), uma biografia ilustrada que exumou verdades incómodas.

Resultado de imagem para bill the boy wonder
Em 2012, a biografia ilustrada de Bill Finger
 abriu caminho para o seu reconhecimento público.
A aturada investigação levada a cabo por Nobleman possibilitou a descoberta da única herdeira viva de Bill Finger: a sua neta Athena, nascida dois anos após a morte do avô. No corolário de uma árdua disputa judicial travada por Athena, em 2015 a DC consagrou por fim Bill Finger como cocriador do Batman. Mesmo a tempo da estreia do filme Batman versus Superman: O Despertar da Justiça. Pela primeira vez surgiu no grande ecrã a inscrição "Batman criado por Bob Kane com Bill Finger".
Num mundo perfeito, ler-se-ia "Batman criado por Bob Kane e Bill Finger". Num mundo perfeito, Bill Finger, há muito reconhecido pelos seus pares que até criaram um prémio com o seu nome, teria reclamado em vida o lugar no Olimpo da 9º Arte que é seu por direito. Mas este não é um mundo perfeito e nem sempre a amizade prevalece.
Desde dezembro de 2017 que uma esquina do Bronx tem o nome de Bill Finger. Uma homenagem toponímica que nada teve de aleatória. A esquina em questão dista poucos metros do Poe Park, local onde tantas vezes dois jovens amigos se encontraram para trocar ideias sobre a personagem que os haveria de imortalizar, mas também separar.

moviescreen-grab.jpg
Em Batman vs Superman, Bill Finger foi creditado
 pela primeira vez como coautor do Cavaleiro das Trevas.
Athena Finger na inauguração da esquina com o nome do avô:
 uma via para a eternidade.


Um grande bem-haja ao meu bom amigo Emerson Andrade que, com a sua proverbial solicitude, efetuou a montagem que serve de ilustração principal a este artigo. A ele deixo aqui um abraço do tamanho do oceano que nos separa.


sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

GALERIA DE VILÕES: PINGUIM


  Antagonista clássico do Homem-Morcego, mantém com ele uma relação singular devido à sua poderosa influência no submundo de Gotham. Mais do que a sua figura esdrúxula, é a racionalidade das suas ações que faz dele uma ave rara entre a exótica fauna criminosa que aterroriza a cidade.

Denominação original: The Penguin 
Licenciadora: Detective Comics (DC)
Criadores: Bill Finger (história) e Bob Kane (arte conceptual)
Estreia: Detective Comics nº58 (dezembro de 1941)
Identidade civil: Oswald Chesterfield Cobblepot 
Local de nascimento: Gotham City
Parentes conhecidos: Sir Nigel Cobblepot (antepassado, falecido); Theodore Cobblepot (bisavô, falecido); Tucker e Miranda Cobblepot (pais, falecidos); Jason, William e Robert Cobblepot (irmãos, falecidos) e Ethan Cobblepot (filho)
Ocupação: Empresário e barão do crime 
Base operacional: Atuando tradicionalmente a partir de um sem-número de covis disseminados por Gotham City, o Pinguim tem hoje no Casino Icebergue (do qual é proprietário e que serve de fachada às suas atividade ilícitas) o seu glamoroso quartel-general.
Afiliações: Crime organizado de Gotham City, Liga da Injustiça, Esquadrão Suicida, Sociedade Secreta de Supervilões. Além das organizações citadas, manteve também uma duradoura parceria com o Joker, iniciada no final da Idade do Ouro e que se prolongou por praticamente toda a Idade da Prata (ver  Duo Terrífico)
Armas, poderes e habilidades: Inquestionavelmente um dos mais inteligentes adversários do Batman, o Pinguim é um génio criminal com poderosas conexões no submundo de Gotham, que nele tem um dos seus mais proeminentes e temidos membros. É, aliás, essa sua influência nesses meandros obscuros que está na base da relação especial que mantém com o Homem-Morcego. A troco de informações acerca dos delinquentes que parasitam a cidade, o herói tolera as negociatas do seu velho inimigo, mesmo quando estas se revestem de dúbia legalidade.
Sob o disfarce de um próspero e respeitável homem de negócios, o Pinguim movimenta-se também com grande à-vontade entre a elite gothamita, a quem não perde oportunidade de impressionar com o seu faustoso estilo de vida.
Em virtude da sua baixa estatura e da sua aparência caricatural, o Pinguim tende a ser subestimado pelos seus oponentes. Que ignoram, todavia, ser ele um exímio combatente corpo a corpo, dada a sua proficiência em diversas artes marciais e técnicas de autodefesa. Ainda assim, o Cavalheiro do Crime prefere quase sempre delegar o trabalho sujo nos seus asseclas.
Possuindo uma ligação quase sobrenatural com os pássaros - em especial com aquele que lhe dá nome - o Pinguim consegue adestrá-los com invulgar facilidade, usando-os também frequentemente como instrumentos para os seus crimes. Extorsão, fraude, roubo, chantagem e, claro, homicídios são as suas principais especialidades.

O Morcego e o Pinguim.
Quem será, afinal, a presa?
Se há muito o Pinguim reformou a sua extravagante frota de veículos de inspiração aviária, o mesmo não se poderá dizer da sua impressionante coleção de guarda-chuvas. Fazendo jus ao epíteto de Homem dos Mil Guarda-chuvas, Oswald Cobblepot tem neste acessório a principal arma do seu arsenal, sendo um indefetível dos guarda-chuvas búlgaros.
Muito apreciados pelos Serviços Secretos da Bulgária para eliminar dissidentes durante a Guerra Fria, tratam-se de guarda-chuvas modificados com um mecanismo pneumático embutido que injeta minúsculos projéteis contendo rícino ou outros venenos.
Mais versáteis, os modelos usados pelo Pinguim podem conter metralhadoras, lâminas afiadas, lança-chamas e até lasers, proporcionando-lhe desse modo um impressionante poder de fogo. Por vezes são também convertíveis em mini-helicópteros, sendo os seus toldos quase sempre à prova de bala. Sobretudo nas histórias da Idade da Prata, era comum os guarda-chuvas do Pinguim possuírem padrões coloridos que ele usava para hipnotizar os seus adversários, o que motivou inclusivamente algumas paródias de cariz político (ver Trivialidades).
Mesmo não se tratando de uma habilidade meta-humana, a elevada tolerância do Pinguim às temperaturas negativas concede-lhe ocasionalmente uma vantagem estratégica sobre os seus oponentes em ambientes gelados.
Recursos a justificar plenamente o meritório 51º lugar que ocupa na lista dos cem melhores vilões da banda desenhada, organizada pelo site IGN. Paradoxalmente, aos olhos de muitos fãs do Batman o Pinguim afigura-se também como um dos seus inimigos menos convincentes.

Conceção e caracterização 

Conceito desenvolvido por Bill Finger e Bob Kane (criadores do Batman), o Pinguim fez a sua primeira aparição em dezembro de 1941, na histórica edição Detective Comics nº58.
Segundo Kane, o visual da personagem foi inspirado naquela que era, à época, a mascote da marca de cigarros Kool - um pinguim de bengala e cartola. Finger. por seu turno, considerava a imagem dos cavalheiros da alta sociedade aprumados nos seus elegantes fraques como reminiscências dos pinguins-imperadores, os espécimes de maior porte entre a  família dos pinguins.

Datada de dezembro de 1941,  Detective Comics nº58 marcou a estreia do Pinguim.
Em baixo, a mascote dos cigarros Kool que inspirou a sua criação.

Embora goste de autointitular-se um "cavalheiro do crime", o Pinguim não tem pruridos em empregar métodos violentos - não raro, com requintes de crueldade - para se afirmar tanto no mundo dos negócios como no submundo do crime organizado. Característica que vem, aliás, sendo acentuada nas suas versões mais recentes - em especial naquela que foi apresentada em Os Novos 52 -, e que em grande medida contribuiu para consolidar a sua reputação como um dos mais implacáveis gângsteres gothamitas.
A fazer lembrar o da ave que o alcunhou, o andar bamboleante do Pinguim deve-se à sua obesidade e à sua baixa estatura. Apesar de ter no seu nariz adunco - parecido com o bico de uma ave - outra das suas imagens de marca, é no entanto na sua (relativa) sanidade mental que Oswald Cobblepot tem a sua maior peculiaridade. Isto porque a racionalidade das suas ações o faz destoar na galeria de vilões do Homem-Morcego, essa verdadeira montra de maníacos.
A par da sua obsessão avícola (que, no passado, o levava frequentemente a roubar itens valiosos relacionados com aves), é na ambição desmedida que o Pinguim tem outro dos seus mais distintos traços de personalidade. Por mais fortuna que acumule, inveja sempre os outros magnatas que considera serem mais ricos do que ele. Essa ambição desenfreada estendeu-se também à política. Por diversas vezes Oswald Cobblepot concorreu a cargos públicos, chegando mesmo a fazer-se eleger mayor de Gotham City - proeza, de resto, recentemente reeditada na série Gotham (ver Noutros media).

Origem 

Nascido no seio de uma família aristocrática com raízes britânicas, em criança Oswald Cobblepot foi vítima de bullying por parte dos seus colegas de escola por causa da sua figura atarracada e desengonçada.
São muitas as histórias que relatam também como a sua superprotetora mãe o obrigava a andar sempre munido de um guarda-chuva - mesmo em dias ensolarados - após uma pneumonia lhe ter matado o marido.
À medida que crescia isolado na mansão da sua família, o pequeno Oswald tinha nos pássaros de estimação da sua progenitora os seus únicos amigos. Circunstância que despertou a sua paixão por aves e que, anos mais tarde, o levaria a estudar ornitologia na universidade.

Pássaros e guarda-chuvas são
 as duas grandes obsessões do Pinguim.
Em algumas versões da sua história, Oswald envereda por uma vida à margem da Lei após a morte da sua mãe e da consequente penhora das suas aves para liquidar as muitas dívidas que ela contraíra em vida. Noutras, ele é retratado como um aleijão que, devido às suas deformidades físicas, se vê rejeitado pela própria família. Estando essa rejeição familiar na origem do criminoso de sangue frio em que viria a transformar-se.
Apesar destas leves discrepâncias em torno do seu passado, o Pinguim, fiel às suas raízes aristocráticas, cultivou sempre uma imagem de classe e requinte. Daí a sua preferência por um guarda-roupa formal em que, além do fraque, a cartola, a bengala e o monóculo são acessórios indispensáveis.

Evolução

Identificado apenas pelo seu pseudónimo criminal, o Pinguim começou por ser apresentado na Idade do Ouro como um astuto ladrão de obras de arte. Logo na sua primeira aparição em Gotham City, conseguiu, para assombro geral, roubar uma pintura valiosa de um museu. Proeza que lhe valeria a admissão na máfia local, organização que pouco tempo depois passaria a chefiar e cujos recursos usou para executar uma série de engenhosas golpadas antes de ser detido pelo Duo Dinâmico.
Depressa transformado num dos antagonistas mais recorrentes do Cruzado Encapuzado e do Menino-Prodígio, o Pinguim ora agia por conta própria ora associado a outros vilões, como o Joker.
Entre 1956 e 1963, o Pinguim esteve inexplicavelmente ausente das histórias do Duo Dinâmico. Assim sentenciado ao ostracismo durante quase toda a Idade da Prata, o vilão recuperou parte da sua popularidade junto dos leitores graças à sua contraparte televisiva interpretada por Burgess Meredith (ver Noutros media). Não obstante, seria a intermitência a caracterizar as suas participações no Universo DC até meados dos anos 1980.

Visual clássico do Pinguim
durante as Idades da Prata e do Bronze.
Situação que persistiu mesmo no período pós-Crise. Com efeito, até ser definitivamente regatado do oblívio pelo escritor Alan Grant (que já antes revisitara a sua origem) e pelo artista Norm Breyfogle, o Pinguim havia sido relegado a aparições esporádicas, quase sempre nas histórias do Batman. Pelas mãos da citada dupla criativa, o Cavalheiro do Crime regressaria, porém, mais ambicioso e mortífero do que nunca. Sem olhar a meios, rapidamente impôs o seu ascendente sobre o submundo de Gotham. Altura em que refinou também o seu modus operandi ao assumir-se como um respeitável homem de negócios, que tinha como joia da coroa o seu Casino Icebergue.
Um dos pontos altos da carreira do Pinguim durante esse período - demonstrativo do seu elevado quociente de inteligência.- aconteceu quando, durante a ausência de Bruce Wayne após os eventos de A Queda do Morcego, foi um dos poucos a deduzir que era outro homem a portar o manto do Cavaleiro das Trevas.
O vilão voltaria a estar em evidência em Terra de Ninguém (saga já aqui esmiuçada) ao contrabandear bens de primeira necessidade em falta numa Gotham City isolada do mundo depois de ter sido devastada por um terramoto de proporções bíblicas. Em adição a isso, ajudou Lex Luthor a apropriar-se dos registos de propriedade de muitos terrenos e imóveis cujos legítimos proprietários haviam perecido durante a catástrofe.
Entronizado Rei de Gotham em Os Novos 52, o Pinguim teve, contudo, de lidar  com a traição do seu antigo braço-direito, Ignatius Ogilvy (vulgo Pinguim-Imperador), que lhe usurpou temporariamente o trono.
Durante a saga Vilania Eterna, foi um dos malfeitores recrutados pelo Sindicato do Crime. Com boa parte dos heróis derrotados ou desaparecidos, Oswald Cobblepot teve finalmente oportunidade de realizar o seu velho sonho de ser mayor de Gotham City.
Já em Renascimento - a mais recente reestruturação cronológica da DC - o Pinguim, agora mancomunado com o Máscara Negra e o Grande Tubarão Branco, tem vindo a afirmar-se como um dos mais poderosos chefes do crime organizado de Gotham City. Certas coisas porém nunca mudam e, por isso, o Batman continua a ser a sua pedra no sapato.

A noite de Gotham é disputada
 por um rato alado e um pássaro desasado. 
Duo Terrífico 

Por oposição ao Duo Dinâmico, o Joker e o Pinguim  formaram, durante um significativo período de tempo, uma espécie de Duo Terrífico. A primeira vez que aqueles que são, indubitavelmente, os dois inimigos mais famosos do Homem-Morcego uniram forças para tentar levar a melhor sobre os heróis, aconteceu ainda nos alvores da Idade do Ouro. Mais precisamente, em outubro de 1944, numa história inclusa em Batman nº25.

Dou Dinâmico versus Duo Terrífico.
Essa aliança funesta seria reeditada vezes sem conta ao longo das décadas subsequentes, tendo sido transposta também ao pequeno ecrã. Na série televisiva do Batman exibida entre 1966 e 1968, era frequente o Pinguim e o Joker (interpretados por Burgess Meredith e César Romero, respetivamente) agirem em conjunto para porem Gotham City em polvorosa. 
Na BD como na TV, a relação entre ambos exorbitava, no entanto, a esfera criminal. Com os dois a demonstrarem, em diversas ocasiões, a sua afeição mútua. Numa antiga história do Batman, por exemplo, o Palhaço do Crime chegou mesmo a chorar a aparente morte do Pinguim. 

Trivialidades:

*A verdadeira identidade do Pinguim - que se tornaria canónica - foi revelada pela primeira vez numa tira de jornal publicada em 1946, cinco anos após a sua estreia nos quadradinhos. A tira em questão revelava ainda a existência de uma tia de Oswald Cobblepot chamada Miranda Cobblepot. Nome que, na continuidade pós-Crise da DC, seria atribuído à mãe do vilão;
*Oswald Cobblepot assassinou os seus três irmãos depois destes o terem atacado e aos seus pássaros de estimação. Crimes dos quais escapou impune uma vez que que foram cometidos sob a aparência de trágicos acidentes: Jason foi envenenado, William atropelado e Robert afogado;
*Em Super Friends (título epónimo da série animada exibida nos EUA a partir de 1973), o Pinguim liderava os Super Foes (Super-Inimigos, em tradução literal), equipa de vilões análoga à Legião do Mal (Legion of Doom) que, na TV, antagonizava os Superamigos. Recrutou também um comparsa juvenil, conhecido apenas como Chick, que trabalhou durante algum tempo como agente infiltrado no Hall da Justiça, o icónico edifício que, na série em causa, servia de quartel-general aos heróis;

Comandados pelo Pinguim, os Super-Inimigos
 eram presença assídua em Super Friends.
*O Cavalheiro do Crime, o Rei de Gotham, o Pássaro Negro do Banditismo e o Homem dos Mil Guarda-chuvas são alguns dos pomposos cognomes do Pinguim, também conhecido entre os seus rivais pela alcunha menos simpática de Hálito de Sardinha;
*À grotesca versão do Pinguim apresentada em Batman Returns (1992) foi acrescentada sindactilia  nos dedos das mãos ao seu catálogo de deformidades físicas. Trata-se de uma anomalia genética caracterizada pela existência de uma espécie de membrana interdigital que, quando afeta apenas os tecidos moles, pode ser cirurgicamente corrigida. Esta alteração anatómica da personagem seria reproduzida na primeira temporada de Batman: The Animated Series, lançada pouco tempo após a estreia do filme dirigido por Tim Burton. A dada altura, todos os protagonistas da série tiveram contudo os seus visuais reformulados e, sem qualquer explicação, o Pinguim recuperou a sua aparência clássica;
*Em maio de 2006, a DCI Group, uma empresa de Relações Públicas associada ao Partido Republicano, realizou um vídeo no YouTube a satirizar Uma Verdade Inconveniente, o polémico documentário do ex-Vice-Presidente dos EUA, Al Gore, lançado pouco tempo antes. Numa notória referência àquele que era um dos habituais expedientes do Pinguim durante a Idade da Prata, o vídeo em causa mostrava um pinguim a usar um guarda-chuva para hipnotizar os seus companheiros, induzindo-os dessa forma a acreditar no aquecimento global e nas alterações climáticas.

Noutros media

Em exibição na Fox desde 2014, Gotham tem num jovem Pinguim em início de carreira um dos seus protagonistas. A série vem acompanhando a sangrenta ascensão do vilão (interpretado por Robin Lord Taylor) na hierarquia do submundo gothamita. Graças à sua astúcia e ausência de escrúpulos, em pouco tempo Oswald Cobblepot passou de simples subordinado a um dos mais poderosos chefes do crime organizado de Gotham City. Estatuto que lhe permite reproduzir com o Tenente James Gordon, do Departamento de Polícia, a mesma relação que, na banda desenhada, mantém com o Batman. Ou seja, Gordon recorre frequentemente ao Pinguim para obter informações sobre as atividades clandestinas em curso na cidade e, em troca, faz vista grossa às obscuras negociatas de Cobblepot.
Foi, porém, em 1966 que o Pinguim saltou pela primeira vez dos quadradinhos para o pequeno ecrã, ganhando dessa forma notoriedade junto do grande público, depois de uma prolongada ausência das histórias do Homem-Morcego. Coube a Burgess Meredith (ator que, uma década depois, daria vida ao austero treinador de Rocky Balboa) emprestar classe e carisma a uma personagem cujo visual havia sido decalcado da BD. Notável, a interpretação de Meredith teve na sua gargalhada a imitar o grasnado de um pinguim o seu elemento mais memorável. O que poucos saberão é que o som da sua risada era, na verdade, resultante da irritação dos pulmões do ator (que era não fumador) causada pelos cigarros que era obrigado a manter acesos em todas as cenas em que participava.
Muito diferente desta versão janota e histriónica do Pinguim foi aquela que foi apresentada em 1992, no filme Batman Returns. Agora interpretado por Danny DeVito, o vilão teve a sua origem e aparência radicalmente modificadas, surgindo como um aleijão rejeitado pelos seus aristocráticos progenitores, e cujo corpo era tão deformado como a sua alma.



De cima para baixo:
 Burgess Meredith, Danny DeVito e Robin Lord Taylor,
  os 3 atores que representaram o Pinguim em outras tantas épocas.
Além destas encarnações televisivas e cinematográficas, há muito que o Pinguim é também um habitué nas animações da DC, designadamente naquelas que têm o Batman como astro principal. Nesse campo, a estreia do Cavalheiro do Crime remonta a 1968 através da sua participação em The Adventures of Batman, série produzida pela Filmation e que, ainda hoje, é cultuada pelos fãs do Cavaleiro das Trevas.
O Pinguim surge também como personagem jogável em diversos jogos de vídeo baseados no Universo DC. Em 1988, por exemplo, teve honras de capa em Batman: The Caped Crusader, jogo de computador desenvolvido pela Special FX Software que teve na qualidade dos seus gráficos o seu ponto forte.
Confirmada a existência do Pinguim no atual Universo Estendido da DC, depois de ter sido subtilmente referenciado num diálogo mantido entre Bruce Wayne e Alfred Pennyworth em Justice League, é possível que o vilão venha a marcar presença num dos próximos filmes da franquia.

As atuais gerações nunca compreenderão
 o charme deste tipo de jogos.





quinta-feira, 24 de agosto de 2017

CLÁSSICOS REVISITADOS: «BATMAN - TERRA DE NINGUÉM»


 Ainda em choque após a passagem do cortejo de horrores que a estropiou, Gotham City vê-se transformada numa imensa Terra de Ninguém retalhada por malfeitores. Em meio à anarquia e ao desespero, Batman e seu aliados lutam, numa frente desunida, para manter vivo o espírito da cidade mártir.
 Última grande saga do Homem-Morcego no século XX, inseriu personagens icónicas e influenciou a trama de O Cavaleiro das Trevas Renasce.

Título original: No Man's Land
Licenciadora: Detective Comics (DC)
País: EUA
Data de publicação: Janeiro a dezembro de 1999
Argumento: Greg Rucka, Jordan B. Gorfinkel, Chuck Dixon, Scott Beatty, Paul Dini, Bob Gale, Devin K. Grayson, Kelley Puckett, Larry Hama e Bronwyn Carlton
Arte: Greg Land, Andy Kuhn, Alex Maleev, Dale Eaglesham, Frank Teran, Phil Winslade, Damion Scott, Dan Jurgens, Mike Deodato, Tom Morgan, Mat Broome e Sergio Cariello
Categoria: Crossover
Séries mensais abrangidas: Azrael, Batman, Batman Chronicles, Batman: Shadow of the Bat, Catwoman, Detective Comics, Legends of the Dark Knight, Nightwing e Robin
Guia de leitura: http://batmanytb.com/comics/storyarcs/nomansland.php
Heróis: Batman, Robin, Asa Noturna, Batgirl, Oráculo, Azrael, Caçadora, Comissário Gordon, Harvey Bullock e Renee Montoya
Vilões: Joker, Pinguim, Duas-Caras, Espantalho, Bane, Máscara Negra, Ventríloquo, Crocodilo, Chapeleiro Louco, Lince, Talião, Senhor Frio, Cara de Barro, Senhor Zsasz, Arlequina e Lex Luthor
Coadjuvantes: Leslie Thompkins, Sarah Essen, David Cain, Hera Venenosa, Mulher-Gato e Superman
Cenários: Gotham City

Batman impotente perante o martírio da sua cidade.

Histórico de publicação

Obra de grande envergadura e alcance, Batman: No Man's Land foi a última saga do Cavaleiro das Trevas produzida no século passado. Estendeu-se por todo o ano de 1999 e abarcou por completo o catálogo de títulos mensais do herói, incluindo alguns spin-offs e edições especiais.
No total, a saga e respetivas ramificações abrangeram 80 edições mensais, 4 volumes especiais e uma graphic novel (Batman: Harley Quinn, que introduziu Arlequina no universo canónico da DC). Tudo somado, foram mais de 400 páginas e um vastíssimo rol de personagens. Números deveras apreciáveis a refletir a monumentalidade de uma história com lugar de destaque na memorabilia recente do Cavaleiro das Trevas.
Devido à sua considerável extensão, a trama primária de No Man's Land foi segmentada em vários arcos autónomos que nela entroncavam. Seguindo a estratégia editorial aplicada aos crossovers envolvendo as séries periódicas do Superman, a coerência narrativa da saga foi possibilitada através da interligação dos diversos títulos estrelados pelo Batman. Desse modo, cada capítulo da história apresentado num deles tinha sequência direta noutro. Com a vantagem adicional de assim se reduzir o tempo de espera dos leitores que, em vez de um mês, teriam de aguardar apenas uma semana pelos desenvolvimentos da intriga.

O primeiro dos 5 volumes antológicos de No Man's Land.
Contudo, por oposição ao que era prática comum em iniciativas editoriais análogas centradas no Homem de Aço, em que cada equipa criativa era responsável apenas por um título, em No Man´s Land, os seus autores (capitaneados por Greg Rucka, o principal artífice da saga) mantiveram-se envolvidos do princípio ao fim.
À publicação avulsa de No Man's Land seguiu-se, entre 1999 e 2001, o lançamento de uma antologia composta por 5 volumes de capa dura, que compilava o núcleo da saga. Levando em atenção o elevado número de edições não coligidas, em 2011 a DC lançaria nova compilação, desta feita contendo a versão integral da história. Que, logo em 2000, tivera direito, também, a adaptação literária no formato de uma novela da autoria de Greg Rucka (ver Noutros Segmentos Culturais).
Ainda inédita em terras lusas, a primeira edição na língua de Camões de No Man's Land ficou a cargo da brasileira Abril que, entre 2000 e 2001, a publicou, sob o título Terra de Ninguém, nas páginas de Batman e Batman: Vigilantes de Gotham.
No ano passado seria a vez da Eaglemoss reeditar Terra de Ninguém no Brasil, numa coleção especial de 6 volumes encadernados que apenas podiam ser encomendados online. Como bónus, a compilação incluía Cataclismo (Cataclysm, em inglês). Recorde-se que essa, a par de Contagion e Legacy, foi uma das sagas a montante dos eventos originalmente narrados em No Man's Land.
A coletânea da Eaglemoss incluía Cataclismo,
 a saga que preludiou Terra de Ninguém.

Prelúdio

Devastada por um sismo de magnitude 7.6 na escala de Richter depois de ter enfrentado uma violenta epidemia de Ébola lançada pela Ordem de São Dumas, Gotham City anseia pela reabilitação. Em vez disso, suportado por uma controversa deliberação do Congresso, o Governo federal ordena que a cidade seja colocada sob quarentena por tempo indeterminado.
Uma vez evacuada parte da população, as pontes que ligam Gotham ao continente são dinamitadas e os militares erguem barricadas nas restantes vias de acesso com o intuito de impedir a entrada ou saída de pessoas.
Isolada do mundo, Gotham converte-se numa imensa Terra de Ninguém disputada por diversas fações criminosas. Entregues a si próprios, os sobreviventes que se recusaram a abandonar a cidade podem apenas contar com a proteção da Bat-Família e de um pequeno contingente policial chefiado pelo Comissário Gordon.

A destruição da Bat-caverna após o terramoto que arrasou Gotham.
Enredo

Ao tomar conhecimento do protocolo de evacuação e quarentena prestes a ser implementado em Gotham City, Bruce Wayne apressa-se a viajar para Washington com o propósito de usar a sua influência para tentar reverter a medida e assegurar que a cidade continuará a receber assistência por parte das autoridades. Estas mantêm-se, porém, irredutíveis, e os esforços do milionário acabam por redundar em fracasso.
Perante a prolongada ausência do Batman, o Comissário Gordon conclui que também o herói terá virado costas a Gotham. Amargurado pela presumida deserção do seu velho aliado, Gordon recusa-se a pronunciar sequer o nome do Cavaleiro das Trevas e chama a si a missão de proteger os cidadãos de bem que, por motivos diversos, desobedeceram à ordem de evacuação.

Gordon e os seus homens levam a sério o lema "Proteger e servir".

Disfarçada de Batgirl e apoiada por Oráculo, também a Caçadora patrulha as ruas da cidade procurando restaurar alguma ordem. Cedo percebe que os meliantes a  temem mais agora que ostenta o símbolo do morcego. Tirando proveito dessa vantagem, a heroína reclama uma parcela de território para si, colocando os respetivos habitantes sob sua proteção.
Ao regressar por fim a Gotham, Batman autoriza a Caçadora a continuar a portar o manto da Batgirl e pede-lhe ajuda para expulsar alguns dos bandos criminosos que vêm aterrorizando a população. À medida que aumenta o número de zonas da cidade sob o controlo da Bat-Família cresce também a esperança no coração dos cidadãos. Contudo, quando o Duas-Caras e seus asseclas invadem os domínios do Homem-Morcego, a Caçadora falha em repeli-los. Envergonhada, a heroína considera-se indigna do legado da Batgirl e reassume a sua identidade original.

Batman, Caçadora e Oráculo:
o Morcego e as Aves de Rapina unidos na defesa do que resta do seu habitat.
Ainda desavindos, Batman e o Comissário Gordon prosseguem, em paralelo, as suas lutas pela libertação de Gotham. Cada território reconquistado aos malfeitores com a ajuda das milícias populares formadas entretanto é assinalado com grafítis. A mensagem é clara e eficaz: criminosos não são bem-vindos.
Esse ímpeto libertador acaba, contudo, refreado por uma cisão nas fileiras policiais. Em protesto contra a suposta maciez dos métodos de Gordon, William Petit, um belicoso tenente da SWAT, decide comandar o seu próprio esquadrão. Cujas ações brutais, inspiradas pelo militarismo do seu líder, repugnam Gordon profundamente.
Gotham recebe entretanto a inesperada visita do Superman. Determinado a contrariar a anarquia que por lá grassa, o Homem de Aço logo percebe que essa seria uma missão mais espinhosa do que ele previra e bate em retirada. Regressando, todavia, mais tarde como Clark Kent para visitar Batman e ensinar os gothamitas a tirarem o melhor proveito possível da agricultura que lhes vai garantindo o sustento numa cidade cuja economia colapsou.

Inspirado pelo seu patrono, o povo de Gotham luta pela sua cidade.
O pai de Tim Drake (Robin) descobre que o filho se encontra em Gotham. Julgando que o rapaz lá terá permanecido por causa de algum tipo de aposta ou desafio, solicita uma operação de resgate junto das autoridades. Ao fazê-lo, atrai a atenção mediática, o que faz crescer entre a opinião pública o apoio à revitalização da cidade condenada.
Alheio a esta guinada no curso dos acontecimentos, o Comissário Gordon forja uma aliança provisória com o Duas-Caras a fim de recuperar um setor vital da cidade. Traído pelo vilão, Gordon fica sob a mira de David Cain, o assassino profissional contratado pelo Duas-Caras para liquidar o antigo comandante do DPGC.
Gordon é, no entanto, salvo in extremis por Cassandra Cain, a filha de David Cain, por ele treinada para ser uma arma humana. Recrutada por Oráculo, a jovem, que tem no mutismo a sua marca distintiva, torna-se a nova portadora do manto da Batgirl e junta-se à Bat-Família na defesa de Gotham.
Capturado pelo Duas-Caras, Gordon é novamente salvo da morte certa por uma mulher. Graças à astúcia e persuasão da detetive Renee Montoya, sua antiga subordinada, o Comissário sobrevive a mais um dia.
Dá-se então o reencontro de Gordon com o Batman. Após uma longa e tensa conversa entre ambos, o Cavaleiro das Trevas, apostado em restaurar a confiança do seu velho aliado, remove a máscara. Gordon, porém, recusa-se a olhar para a face exposta do herói. Sanadas as divergências, os dois concordam em unir forças para reconquistar Gotham.

Gordon recusa-se a conhecer
a verdadeira face do Cavaleiro das Trevas.
Com o auxílio de Lucius Fox, o diretor-executivo das Indústrias Wayne, Batman consegue captar a atenção de Lex Luthor. Pouco tempo depois, o magnata de Metrópolis chega a Gotham para apresentar o seu megalómano plano de requalificação urbana.
Quando o Joker tenta sabotar as obras em curso, é rechaçado por Bane, cujos préstimos Luthor garantira a troco da promessa de lhe pagar o suficiente para comprar a sua ilha natal. Apesar do seu desejo de vingança em relação ao Batman, Bane é convencido pelo seu némesis a abandonar Gotham antes de ser atraiçoado por Luthor.
Cedendo à pressão mediática e popular, o Governo federal anuncia o levantamento da quarentena imposta a Gotham, ordenando, em simultâneo, a imediata reabertura das vias de acesso à cidade. Que, assim, volta a fazer oficialmente parte dos EUA.
Findo o pesadelo, Gordon e os seus homens são condecorados mas, no dia de Natal, a base do tenente Petit é atacada pela quadrilha do Joker. Petit sucumbe ao ataque e a Caçadora, que tentara impedir a carnificina, sobrevive por um triz.

Luthor chega a Gotham com muitas promessas na bagagem.
O Palhaço do Crime ordena então o rapto de todos os bebés de Gotham. Ao descobrir por acaso que as crianças estavam escondidas numa estação de polícia devoluta, Sarah Essen, a esposa de Gordon, aventura-se a resgatá-las, mas acaba assassinada pelo Joker.
Destroçado pela morte da sua cara-metade, Gordon só a muito custo resiste ao impulso de fazer justiça pelas próprias mãos. Batman persuade-o a poupar a vida do Palhaço do Crime, pois só assim o espírito de Gotham poderá perdurar.
Apesar disso, Gordon não hesita em premir o gatilho quando o Joker lhe pergunta, de forma trocista, se ele tem um filho. O disparo atinge o joelho do vilão que, indiferente à dor, solta gargalhadas histéricas ao perceber a ironia da situação. Por causa dele, Barbara Gordon (filha do Comissário, primeira Batgirl  e atual Oráculo), estava há anos presa a uma cadeira de rodas(1).


Depois da filha, a mãe:
o clã Gordon continua a ser vítima da crueldade do Joker.
Intuindo a dor que dilacera a alma de Gordon naquele momento, Batman reconforta o seu velho amigo. Ambos sabem que, mais do que nunca, Gotham precisará que se eles mantenham fortes e unidos.
Luthor, por sua vez, vê expostas as suas verdadeiras intenções: destruir os registos prediais de modo a poder depois reclamar a propriedade de boa parte de Gotham com recurso a nomes falsos e a testas de ferro.
Seguindo uma pista anónima, Lucius Fox localiza os documentos originais e, ingenuamente, notifica Luthor do achado. Fingindo-se surpreendido, Luthor tenta matar o diretor-executivo das Indústrias Wayne, mas é impedido por Batman (a verdadeira fonte de Fox). Depois de dizer a Luthor que Gotham não está à venda,  o Cruzado da Capa intima o magnata a abandonar a cidade.
Enquanto, um pouco por toda a cidade, multidões eufóricas celebram o Ano Novo, Gordon despede-se da sua malograda esposa. Noutro ponto do cemitério, Batman deposita um ramo de rosas sobre o túmulo dos seus pais antes de partir para nova patrulha noturna na cidade que jurou defender das trevas que constantemente a assediam.

O renascimento da esperança numa cidade
que resiste teimosamente ao contínuo assédio das forças das trevas.
Apontamentos

*Terra de Ninguém serviu para estabelecer as bases da complexa relação entre Renee Montoya e o Duas-Caras. Um (quase) romance proibido entre uma agente da Lei e um senhor do crime, cuja evolução os leitores puderam acompanhar em Gotham Central, série mensal lançada em fevereiro de 2003 e centrada no conturbado quotidiano da força policial gothamita;
*Outra detetive do DPGC, Deborah Tiegel, foi uma das duas benfeitoras que ficaram para trás para poderem tratar dos animais deixados à sua sorte no zoológico de Gotham;
*Por questões éticas, a Liga da Justiça não interveio em Gotham, apesar de o ter feito para impedir que forças externas conquistassem a cidade. Importa esclarecer, a este propósito, que Batman é extremamente zeloso do seu território. Ao ponto, por exemplo, de o próprio Hal Jordan, um dos Lanternas Verdes responsáveis pelo Setor Espacial 2814, ter de requerer autorização prévia para entrar em Gotham;
*Arlequina, a histriónica compagnon de route do Joker, e Cassandra Cain, a enigmática adolescente que viria a ser a terceira Batgirl(2), foram introduzidas em Terra de Ninguém. Apesar de ambas se terem tornado icónicas, apenas no caso da segunda se tratou verdadeiramente de uma estreia, visto que a primeira fizera o seu debute em 1992, num episódio de Batman: The Animated Series. Além de consagrar Arlequina como personagem canónica no Universo DC, a saga serviu também para apresentá-la a Hera Venenosa, de quem se tornaria íntima;


Terra de Ninguém assinalou a estreia
 de Arlequina e Cassandra Cain no universo DC.
*Em consequência do brutal assassínio da suas esposa às mãos do Joker no epílogo da saga, o Comissário Gordon antecipou a sua reforma, abandonando, ainda que temporariamente, o DPGC;
*Apesar das suas ações pouco filantrópicas, a forma como Lex Luthor ajudou a resolver a crise em Gotham City granjeou-lhe o apoio popular necessário para impulsionar a sua candidatura à Casa Branca no ano seguinte. Eleição que, recorde-se, o magnata venceria com confortável margem.

Noutros segmentos culturais: À boleia do sucesso comercial de No Man's Land, a DC lançou, em 2000, uma novela epónima da autoria de Greg Rucka. A despeito da sua fidelidade à narrativa original, a versão literária suprimiu no entanto duas personagens importantes: Azrael e Superman. Em 2011, sob a chancela da GraphicAudio, a obra seria republicada em formato de audiolivro. Além de um elenco criteriosamente escolhido, esta nova edição incluía também efeitos sonoros e temas musicais.
Ao longo da primeira década deste século, registaram-se duas tentativas frustradas de adaptação televisiva de No Man's Land, ambas remetendo para séries animadas do Batman. Chegou a ser produzida alguma arte conceptual mas os projetos acabaram por nunca receber luz verde por parte da Warner Bros. Motivo: os seus executivos consideraram a história demasiado violenta e sombria para uma audiência maioritariamente composta por crianças e adolescentes.

A adaptação literária de No Man's Land.
Seria, pois, preciso esperar até 2012 para ver alguns elementos de No Man's Land transpostos ao cinema. Nesse ano, a saga seria uma das três a influenciar a trama de The Dark Knight Rises, o capítulo final da trilogia do Cavaleiro das Trevas com a assinatura de Christopher Nolan (ver texto anterior). Apesar da ausência de catástrofes naturais, o isolamento de Gotham no filme é resultado do sequestro levado a cabo por Bane e a Liga dos Assassinos.
A influência de No Man's Land no enredo de The Dark Knigh Rises é notória também noutros aspetos. Ambas as histórias são ambientadas no inverno e em ambas Batman regressa a Gotham após uma ausência involuntária.
No entanto, por contraponto ao que sucede na saga original, no filme a cidade fica consideravelmente mais despovoada após a evacuação. E, chegado o momento de retomá-la, os civis mantêm-se à margem, ficando implícito que Gotham é uma cidade pela qual não vale a pena lutar. Por outro lado, a agenda de John Daggett - que, na película, faz as vezes de Lex Luthor - é menos ambiciosa, na medida em que objetiva apenas a tomada das Indústrias Wayne, em vez da aquisição pura e simples da cidade. Outra diferença crucial reside no facto de Daggett acabar morto por Bane.Que, por sua vez, também não sobrevive aos eventos por ele desencadeados.

Vale a pena ler?

Mesmo não sendo uma das minhas sagas preferidas do Batman, admito que a premissa de Terra de Ninguém é interessante.
Vários anos antes de o furacão Katrina ter arrasado Nova Orleães, expondo a incapacidade do Governo americano em prestar auxílio aos sobreviventes, esta fábula do Cavaleiro das Trevas assumiu um tom sinistramente profético.
Seja qual for o contexto - real ou ficcional - o colapso da lei e da ordem que antecede a irrupção da anarquia possibilita sempre leituras díspares sobre a moralidade das ações humanas perante a ausência de autoridade. É, pois, esse o grande apelo da intriga porfiada por Greg Rucka e companhia. O que não impede que, por conta da sua extensão, a história se torne a espaços maçadora.
Nota negativa também para a variedade de estilos artísticos, que oscilam entre a excelência e a mediocridade. A fazer lembrar, de resto, o que acontecera em sagas anteriores da Editora das Lendas, nomeadamente em A Morte do Super-Homem (serei o único a detestar o traço de Jon Bogdanove?).
Apesar da ambição (alguns dirão "megalomania") que lhe subjaz, Terra de Ninguém não é uma obra incontornável. É essencialmente recomendada para iniciantes que, de uma assentada, terão oportunidade de ficar a conhecer as figuras-chave da mitologia do Homem-Morcego.

Uma Terra de Ninguém demasiado pequena
 para acomodar tantas personagens.

Referências:

1)http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/09/classicos-revisitados-piada-mortal.html
2)http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/09/heroinas-em-acao-batgirl.html