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terça-feira, 10 de abril de 2018

ETERNOS: ROY THOMAS (1940 - ...)


Stan Lee confiou-lhe a chave da Casa das Ideias e ele, não mais despindo a pele de guardião do templo, salvou-a da ruína iminente. Da sua incansável pena saíram histórias e personagens emblemáticas, pelas quais nem sempre foi reconhecido. Fascinado pela mitologia da Idade do Ouro, na DC - onde deu os primeiros passos e que quis rebatizar - cumpriu o sonho de trabalhar com os seus ídolos de infância.

De seu nome completo Roy William Thomas, Jr., aquele que, aos ombros de um gigante da 9ª Arte, entraria para os anais da Marvel Comics como seu segundo editor-chefe veio ao mundo a 22 de novembro de 1940 em Jackson, pitoresca cidade impregnada do charme sulista do Missouri.
Leitor voraz de banda desenhada desde que aprendera a juntar as primeiras letras, era ainda pessoa de palmo e meio quando começou a produzir as suas próprias historietas aos quadradinhos. Entre esses projetos editoriais dos seus verdes anos, recorda com especial carinho All-Giant Comics, título totalmente da sua autoria que tinha Elephant Giant (Elefante Gigante) como cabeça de cartaz.
Coincidindo com a (re)fundação da Marvel Comics, em 1961 Roy Thomas diplomou-se em Ciências Educativas (com dupla especialização em História e Literatura Americana) através da Southeast Missouri University, instituição pública com extensos pergaminhos na área da formação pedagógica.
Nesses idos de 60 era ainda intenso o fulgor da Idade da Prata, período em que se assistiu ao recrudescimento do género super-heroico após o declínio registado no pós-guerra. Fiel à sua paixão de sempre, Roy Thomas, recém-chegado à idade adulta, era, por aqueles dias, um dos mais dinâmicos membros da comunidade de fãs. Que tinha em Jerry Bails o seu fundador e mais venerado guru.
Doutorado em Física, Bails foi pioneiro no estudo do impacto cultural dos super-heróis, tendo sido também o primeiro a reconhecer-lhes valor académico. Instado pelo à época editor-chefe da DC, Julius Schwartz, em 1961 o bom doutor lançaria  Alter Ego, um fanzine que, malgrado o seu grafismo tosco, depressa se converteria no evangelho dos seus cada vez mais numerosos apóstolos.

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O primeiro número de Alter Ego foi lançado em 1961.
Entre aqueles que, com fervor religioso, alimentavam essa borbulhante subcultura ia sobressaindo um jovem professor de Inglês do Missouri chamado Roy Thomas. Em comum, ele e Bails possuíam ainda um profundo fascínio pela Idade do Ouro, mormente pelo respetivo panteão heroico.
Por meio de doutas análises e dissertações, Roy Thomas colaborou em Alter Ego desde o primeiro número, tornando-se dessa forma o braço-direito de Jerry Bails. Isto ao mesmo tempo que via serem publicadas várias cartas da sua lavra nas secções de correspondência da Marvel e da DC, onde granjeara o estatuto de habitué. Afirmando-se, sem embargo, como uma das vozes mais respeitadas no fandom norte-americano.
Quando, em 1964, Jerry Bails abandonou o fanzine para se dedicar a outros projetos, foi com naturalidade que passou o testemunho a Roy Thomas. Facto que poderá por alguns ser percecionado como um curioso prenúncio do seu percurso ascendente na Casa das Ideias ao longo da segunda metade desse decénio.
A despeito da sua determinação em não deixar Alter Ego definhar, privando desse modo os fãs de uma inestimável fonte de informação numa época em que a Internet pertencia ao domínio da mais delirante ficção científica, em 1965 Roy Thomas recebeu uma proposta irrecusável. A convite de Mort Weisinger, o temperamental editor das séries periódicas do Superman, Thomas abalou para Nova Iorque, para trabalhar como seu assistente.
Segundo contaria o próprio Roy Thomas, em entrevista datada de 2005, o surpreendente convite de Weisinger (com quem trocara apenas uma ou duas cartas) surgiu poucos dias depois de lhe ter sido concedida uma bolsa académica para financiar os seus estudos em Relações Internacionais na George Washington University, na capital federal dos EUA.
A esta escolha não deverá, contudo, ter sido alheia a circunstância de, poucos meses antes, Roy Thomas ter assinado uma história de Jimmy Olsen. Tal como Lois Lane, o fotógrafo do Daily Planet amigo do Homem de Aço dispunha na altura de série mensal em nome próprio.

Cover
A história de Roy Thomas
 publicada neste número da Superman's Pal Jimmy Olsen
rendeu-lhe um convite para trabalhar na DC.
Radiante com o se lhe prefigurava um emprego de sonho, Roy Thomas não pensou duas vezes antes de aceitar o convite de Weisinger. Este não era, no entanto, conhecido pelo seu trato fácil e logo despontaram as primeiras fricções entre ambos.
Ao fim de um dia de trabalho particularmente tenso, Roy Thomas, prestes a desmoronar emocionalmente, sentiu uma premente necessidade de extravasar as suas frustrações. Ocorreu-lhe fazê-lo através da escrita. A partir do seu minúsculo quarto de hotel em Manhattan, redigiu uma carta endereçada a ninguém menos do que Stan Lee. Essas singelas linhas mudariam para sempre a sua vida.
Thomas era um profundo admirador do trabalho que Lee vinha desenvolvendo no posto de editor-chefe da Marvel, e disso mesmo lhe deu conta na missiva que lhe enviou. Na esperança de que o mestre-de-cerimónias da Casa das Ideias se lembrasse dele do tempo em que colaborara no fanzine Alter Ego, Thomas convidou o seu ilustre interlocutor para uma bebida e dois dedos de prosa.
Tratou-se, todavia, de um gesto de simples cortesia. Conforme Roy Thomas reiterou em diversas ocasiões, apesar da sua insatisfação laboral, não tinha em mente candidatar-se a um emprego na concorrente que mordia os calcanhares à companhia para a qual trabalhava na altura.
A resposta de Stan Lee surgiu logo no dia seguinte sob a forma de um telefonema. O Papa da Marvel lembrava-se bem de Roy Thomas e desafiou-o a realizar o teste de escrita a que a editora submetia os aspirantes a roteiristas.
Embora constrangido, Roy Thomas resolveu de todo o modo juntar o útil ao agradável. Com o referido teste a consistir, tão-somente, na inserção de diálogos em quatro páginas a preto e branco de Fantastic Four Annual nº2 desenhadas por Jack Kirby. Seria, de resto, uma das últimas vezes em que esse método de seleção de candidatos foi aplicado na Casa das Ideias.
No dia seguinte, quando trabalhava no seu cubículo no quartel-general da DC, Roy Thomas recebeu o telefonema de um funcionário da Marvel que lhe transmitiu o convite de Stan Lee para que almoçassem juntos naquele mesmo dia.
Durante o repasto partilhado num modesto restaurante na baixa de Manhattan, Stan Lee propôs a Thomas que trocasse a DC pela Marvel. Proposta que o segundo, embora aturdido, aceitou de bom grado.
Regressado à Editora das Lendas, Roy Thomas logo cuidou de informar Mort Weisinger da sua decisão de ir trabalhar em breve para a arquirrival. Com a rispidez que o caracterizava, Weisinger ordenou-lhe, porém, que limpasse de pronto a sua secretária.
Apenas oito dias após ter sido contratado pela DC - e menos de uma hora depois de ter aceitado o convite de Stan Lee -, Roy Thomas mudou-se de armas e bagagens para a Casa das Ideias. Onde tinha já à sua espera a sua primeira empreitada literária: uma história para Modeling With Millie (decana das séries humorísticas da Marvel) que, em virtude do prazo apertado, escreveu contrarrelógio. E pela qual, devido a um alegado lapso editorial, não chegaria a ser creditado.

Modeling with Millie #52
A primeira história de Roy Thomas para a Marvel
 foi publicada nesta série humorística.
Roy Thomas recorda assim esses seus frenéticos primeiros dias na Casa das Ideias: «A minha primeira categoria profissional na Marvel Comics foi "escritor de apoio". O meu trabalho consistia em datilografar manuscritos 40 horas por semana com o gerente de produção Sol Brodsky e a sua secretária. Toda a gente que aparecia no escritório passava por mim e os telefones não paravam de tocar. Como se isso não perturbasse suficientemente a minha concentração, Stan Lee, seguindo uma prática consagrada, verificava pessoalmente cada uma das histórias finalizadas, trocando impressões com Brodsky a pouco passos da minha secretária. Era também comum Stan pedir-me para fazer outras coisas, ou perguntar-me em que edição tivera lugar determinada história, dado o meu sólido conhecimento da continuidade da Marvel naquela altura. Depressa, porém, ficou claro para todos que aquilo não estava a funcionar e Stan promoveu-me a redator assistente.»
Naqueles dias de glória em que das suas paredes a imaginação escorria em cascata, a Casa das Ideias tinha em Stan Lee e no seu irmão, Larry Lieber, os seus principais escribas. Recolhendo, numa primeira fase, as sobras das tramas planeadas por Lee, Roy Thomas, para despeito de alguns escritores veteranos ao serviço da editora,  logrou tornar-se presença assídua.

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Da esq. para a dir.: Stan Lee, Jack Kirby e Larry Lieber,
os Três Mosqueteiros da Casa das Ideias.  

Roy Thomas seria o seu D'Artagnan. 

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Em janeiro de 1966, uma história do Homem de Ferro saída da pena de Roy Thomas foi publicada em Tales of Suspense nº73, marcando assim a sua estreia com aqueles que eram os maiores astros da companhia: os super-heróis.
Nesse mesmo mês, duas outras histórias da sua lavra foram também dadas à estampa pela Charlton Comics*, editora com a qual colaborara brevemente como autor freelancer. Apesar de não ter ficado particularmente impressionado com esses trabalhos de Thomas para a rival, em abril de 1966 Stan Lee confiou-lhe o seu primeiro título.
Durante exatamente um ano, Sgt. Fury and his Howling Commandos teve as suas histórias ambientadas na II Guerra Mundial escritas por Roy Thomas. Que, logo depois, assumiria Uncanny X-Men e The Avengers, duas das séries mais emblemáticas da Marvel.
A uma forte noção de continuidade, Roy Thomas aliava uma notável versatilidade narrativa que lhe permitia abordar com idêntico à-vontade histórias de caráter intimista ou epopeias cósmicas, como a guerra Kree-Skrull.
A este propósito declarou Thomas numa entrevista dada em 1981: «Uma das razões pelas quais Stan Lee apreciava o meu trabalho era porque sentia que podia confiar em mim ao ponto de não ter que ler nada do que eu escrevia. Quanto muito, leria uma ou duas páginas apenas para garantir que eu permanecia no caminho certo.»

Sgt Fury Vol 1 30


Avengers Vol 1 58

X-Men Vol 1 39
Três dos títulos Marvel em que Roy Thomas imprimiu o seu cunho.
Cada vez mais requisitado, em julho de 1968 Roy Thomas escapuliu-se durante alguns dias para casar com Jean Maxey, a sua primeira mulher. Mas nem durante a lua-de-mel do casal Thomas deu descanso à pena. Durante as suas férias caribenhas escreveu o casamento de Hank Pym e Janet Van Dyne ( o Homem-Formiga e a Vespa), aquele que se tornaria um dos capítulos mais memoráveis da história dos Vingadores.
O ano de 1969 teve um travo agridoce para Roy Thomas. Investido da espinhosa missão de contrariar a morte anunciada de Uncanny X-Men - título que se havia transformado num cemitério de roteiristas - Roy Thomas mais não conseguiu do que adiar o inevitável. Meses depois seria, porém, agraciado com o primeiro prémio de relevo da sua carreira pejada deles: o Alley Award para melhor escritor.
No que alguns consideram ter sido uma jogada de alto risco, em 1970 Roy Thomas introduziu o género Espada e Feitiçaria no Universo Marvel. Fê-lo através de Conan the Barbarian, título baseado na personagem homónima idealizada por Robert E. Howard em 1932, e que fora um dos maiores expoentes da literatura pulp.
Combinando o texto ágil de Thomas com as belíssimas ilustrações de Barry Windsor-Smith, a série do errático gigante cimério redundou num estrepitoso sucesso, abrindo caminho para a sua transposição ao cinema. A meias com Gerry Conway**, em 1984 Roy Thomas assinou o enredo de Conan the Destroyer, sequela de Conan the Barbarian. Filme que, recorde-se, um par de anos antes, apresentara ao mundo o ex-Mister Olímpia Arnold Schwarzenegger.

Conan the Barbarian 1


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Primeiro na BD e depois no cinema,
Conan foi um sucesso com o dedo de Roy Thomas.
Mesmo depois de, em 1972, Stan Lee lhe ter confiado as chaves do reino dourado, Roy Thomas, assim alcandorado a editor-chefe da Marvel, continuou a produzir histórias a uma cadência estonteante. Dedicando-se de alma e coração à sua nova missão, lançaria também séries inéditas que se revelariam apostas ganhas. Casos, por exemplo, de The Defenders e What If?, esta última introduzindo o conceito de realidades alternativas.
Ao mesmo tempo que, animado pelo seu imorredouro fascínio pela Idade do Ouro, criava os Invasores (coletivo que agrupava alguns dos ícones dessa era, como Capitão América e o Príncipe Submarino), a sua prodigiosa imaginação gerou uma nova safra de personagens icónicas. Punho de Ferro, Motoqueiro Fantasma e Miss Marvel seriam adições de peso ao panteão da Casa das Ideias.
Ainda hoje um acérrimo defensor dos direitos autorais, Roy Thomas teve um amargo de boca ao não ser creditado como cocriador de Wolverine. Nome que, na sua qualidade de editor-chefe, havia sugerido a Len Wein e John Romita, em alternativa a The Badger. Curiosamente, anos depois, seria essa a alcunha dada por Mike Baron ao seu anti-herói celebrizado pela First Comics***.
Levando em conta esses e outros precedentes, Roy Thomas preferiu amiúde a reciclagem de conceitos preexistentes à criação de personagens inéditas. Entre os que por ele foram resgatados das brumas da memória destacam-se Adam Warlock, Visão e Cavaleiro Negro, cujas versões modernas se tornaram casos sérios de popularidade.

Foto de Ricardo Cardoso.


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Miss Marvel, Punho de Ferro e Motoqueiro Fantasma:
três criações icónicas de Roy Thomas para a Casa das Ideias.
Apesar de ter abandonado as funções de editor-chefe da Marvel em 1974, Roy Thomas não mais despiu a pele de guardião do templo. Tendo a sua intervenção sido providencial para, volvidos três anos, salvar a editora da bancarrota iminente.
Graças à sua perseverança e capacidade negocial, a adaptação oficial do primeiro filme da saga Star Wars foi lançada sob a chancela da Marvel. Projeto que antecedeu uma lucrativa série mensal baseada no universo imaginado por George Lucas, e cujas histórias ficaram inicialmente a cargo do próprio Roy Thomas.

Marvel Special Edition Featuring Star Wars Vol 1 1
A adaptação aos quadradinhos de Star Wars
 foi o deus ex machina da crise financeira que afetava a Marvel.
Após um longo braço-de-ferro com Jim Shooter (o novo editor-chefe da Marvel), motivado por disputas criativas, em 1981 Roy Thomas assinou um contrato de exclusividade com a DC válido por três anos. Nesse mesmo ano casou, em segundas núpcias, com Danette Couto, que se tornaria sua parceira criativa nessa nova fase seminal da sua carreira. Pela mão do marido, Danette (celebrizada como Dan Thomas) seria, aliás, a primeira mulher a escrever as histórias da Princesa Amazona.
Numa altura em que a Editora das Lendas fora já destronada pela Marvel na preferência dos leitores, Roy Thomas conseguiu dar novo impulso a vários dos seus títulos de charneira. Graças ao seu toque de Midas, Wonder Woman, DC Comics Presents e Legion of the Super-Heroes recuperaram a vitalidade de outrora.
Embalado por estes sucessos - e tendo em mente projetar uma imagem de maior dinamismo -, Roy Thomas propôs rebatizar a DC. Iniciais que, no seu entendimento, deveriam doravante corresponder a Dynamic Comics.
Apesar desta sua ideia ter sido liminarmente rejeitada pela direção da empresa, Roy Thomas cumpriria entretanto um sonho de infância: escrever as histórias da Sociedade da Justiça da América.  Grupo que reunia alguns dos maiores heróis da Idade do Ouro e que, graças à sua mestria e dedicação, foi devolvido à ribalta nas páginas de All-Star Squadron.
Já com mais de uma dúzia de comendas a adornar-lhe o currículo, em 1985 Roy Thomas foi uma das 50 personalidades homenageadas pela DC, no âmbito das comemorações do 50º aniversário da editora. Outras honrarias se seguiriam, invariavelmente recebidas com a humildade que sempre caracterizou aquele que é, sombra de dúvidas, um dos maiores vultos da 9ª Arte.

Sociedade da Justiça da América em All-Star Squadron:
o regresso de um clássico com a assinatura de Roy Thomas.
 A partir da década seguinte, começaram no entanto a rarear as colaborações de Roy Thomas com as grandes editoras, preteridas em relação às companhias independentes. 
Numa espécie de regresso às origens, em 1999 relançou Alter Ego, agora como uma revista formal editada pela TwoMorrows Publishing.A residir desde 2006 na Carolina do Sul, em anos mais recentes Roy Thomas tem-se desdobrado entre a atividade literária e as suas funções de dirigente da Hero Initiative. Organização solidária sem fins lucrativos que presta assistência aos deserdados da indústria dos quadradinhos. Pelo meio, em 2014, escreveu 75 Years of Marvel: From  the Golden Agen to the Silver Screen, um imponente volume de 700 páginas que compila a história da Casa das Ideias desde a sua fundação até à atualidade.
Ontem como hoje, Roy Thomas possui o condão de ser o homem certo no lugar certo e no tempo certo. Ter crescido à sombra de titãs da  9ª Arte, serviu apenas para o transformar num deles.

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A rediviva Alter Ego.

Roy Thomas com Stan Lee na apresentação de
 75 Years of Marvel: from the Golden Age to the Silver Screen.
Uma obra para a eternidade.


*http://bdmarveldc.blogspot.pt/2018/03/fabricas-de-mitos-charlton-comics.html
**http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/03/eternos-gerry-conway-1952.html
***http://bdmarveldc.blogspot.pt/2017/03/fabrica-de-mitos-first-comics.html



















































quarta-feira, 6 de setembro de 2017

GALERIA DE VILÕES: BARÃO ZEMO


  Último representante de uma infame linhagem de aristocratas germânicos, do pai herdou o título nobiliárquico e o ódio visceral pelo Capitão América. O seu altruísmo distorcido levou-o, porém, a fundar os Thuderbolts, coletivo heroico com um segredo tão sórdido como o passado do seu líder. 

Denominação original: Baron Zemo
Licenciadora: Marvel Comics
Criadores: Tony Isabella/Roy Thomas (história) e Sal Buscema (arte conceptual)
Estreia (como Fénix): Captain America Vol.1 nº168 (Dezembro de 1973)
Estreia (como Barão Zemo): Captain America Vol.1 nº275 (Novembro de 1982)
Identidade civil: Helmut J. Zemo
Local de nascimento: Leipzig, Alemanha
Nacionalidade: Alemã
Parentes conhecidos: Heirinch e Hilda Zemo (pais, falecidos); Heike Zemo/Baronesa (esposa presumivelmente falecida) e demais antepassados da linhagem Zemo (ver Dinastia Maldita)
Ocupação: Engenheiro, aventureiro e terrorista internacional
Base operacional: Seguindo uma tradição fundada pelo avô paterno, Helmut Zemo operava, inicialmente, a partir do seu centenário castelo familiar, no leste da Alemanha. Seguiram-se, contudo, anos de itinerância que o levaram a diferentes latitudes do hemisfério setentrional, designadamente México e Nova Iorque. Até se fixar por fim na capital da Bagália (nação insular fictícia cuja população é, quase exclusivamente, composta por malfeitores), usando desde então a imponente Torre Zemo como centro nevrálgico das suas atividades subversivas.
Afiliações: Atual membro do Conselho Superior da HIDRA e financiador do Império Secreto, Zemo liderou outrora os Mestres do Terror e os Thunderbolts (vide respetivos prontuários infra)
Armas, poderes e habilidades: Zemo compensa a ausência de capacidades sobre-humanas com uma apreciável gama de recursos que, embora mais comezinhos, são quanto basta para fazer dele um dos supervilões mais cotados do Universo Marvel.
Menos genial e inventivo do que o seu defunto progenitor - que, ao longo da vida, colecionou patentes científicas - o atual Barão Zemo é ainda assim dono de um intelecto superior. Especialista em engenharia reversa, é também um exímio estratega e um manipulador nato. Se o primeiro atributo lhe permite tirar proveito de tecnologia alheia, este último é uma das suas imagens de marca.
Sob a influência de Zemo numerosos indivíduos bem intencionados foram já induzidos por ele a cometer toda a espécie de atrocidades. Carismático, é sempre fortíssimo o ascendente que o vilão exerce sobre aqueles que o rodeiam. Algo que ficou, aliás, bem patente no filme Capitão América: Guerra Civil (ver Noutros Media).
No ápice da forma física, Helmut Zemo possui uma compleição equivalente à de um atleta olímpico. É, no entanto, muito mais velho do que aparenta. Sobrevindo da toma regular do chamado Composto X - soro milagroso desenvolvido pelo seu pai - a extraordinária vitalidade por si exibida.
Esgrimista de classe mundial, Zemo tem na sua espada de adamantium uma extensão natural do seu corpo em cenários de combate mano a mano, conquanto seja igualmente destro no manuseamento de armas de fogo. Além do famigerado Adesivo X - outra das criações paternas - , de vários raios desintegradores e dispositivos de controlo mental, na sofisticada parafernália tecnológica de Zemo avulta ainda uma tiara psíquica que o vilão costuma acoplar no seu capuz a fim de se proteger de ataques telepáticos.
Nas gemas alienígenas de que espoliou Rocha Lunar- sua ex-subordinada e concubina - o Barão Zemo tem, incontestavelmente, as armas mais poderosas do seu arsenal. Graças a elas, o vilão consegue levitar, ampliar a sua força, desmaterializar-se e até viajar através do hiperespaço. Justificando-se assim plenamente o honroso 40º lugar que o Barão Zemo ocupa na lista dos 100 Maiores Vilões dos Quadradinhos organizada pela plataforma digital de entretenimento IGN.

Zemo preparado para a guerra com a sua espada de adamantium
 e as gemas surripiadas a Rocha Lunar.

Histórico de publicação

A despeito dos seus pergaminhos familiares, o debute de Helmut Zemo foi pouco promissor. Ou não tivesse ele encetado a sua carreira criminal como um vilão genérico e potencialmente descartável chamado Fénix (Phoenix, no original).
Facto pouco conhecido, foi, com efeito, sob esta persona que, em dezembro de 1973, Helmut Zemo se deu a conhecer aos leitores de Captain America nº168. Saído meses antes da imaginação de Tony Isabella, Roy Thomas e Sal Buscema, o seu processo de afirmação dentro do Universo Marvel foi particularmente moroso. Tendo o momento de viragem ocorrido quase uma década depois quando, em Capitain America nº275 (novembro de 1982), Helmut assumiu por fim o título de Barão Zemo, dando dessa forma continuidade ao sinistro legado paterno.

Fénix foi a primeira persona criminosa
 de Helmut Zemo.
Foi nesta edição de Captain America
que o Barão Zemo moderno (em baixo)
 fez a sua estreia oficial.


Consolidado o seu estatuto de vilão de referência ao longo da década de 1980, no início da seguinte o Barão Zemo demonstrou a sua multidimensionalidade ao fundar o coletivo heroico Thunderbolts. À semelhança do que sucedera com Magneto poucos anos antes, Zemo, mercê da sua ambivalência moral e de um certo altruísmo distorcido, passou de vilão a herói apenas para voltar a fazer o percurso inverso.
Vale a pena lembrar que, durante a sua fase heroica (que se prolongou mesmo após o desmantelamento dos Thunderbolts), Zemo procurou genuinamente retratar-se de alguns dos atos ignóbeis que havia cometido no passado. Contudo, a descoberta de que Bucky Barnes - o antigo sidekick do Capitão América presumivelmente morto pelo seu pai nos últimos dias da 2ª Guerra Mundial - se encontrava, afinal, vivo e de boa saúde, fez com que a faceta maligna de Zemo prevalecesse uma vez mais. Realidade aparentemente irreversível, conforme atestam as suas participações em algumas das sagas mais recentes da Casa das Ideias, designadamente no polémico Secret Empire (lançado este ano nos EUA e ainda inédito no universo lusófono).

Dinastia maldita

Com raízes na época medieval, a árvore genealógica de Helmut Zemo conta uma história de poder e ganância, mas também de coragem e patriotismo.
Tudo começou no longínquo ano de 1480 em Zeulniz, uma pequena vila alemã. Assediado por uma horda de saqueadores eslavos, o povoado foi salvo pela valentia de Harbin Zemo. Munido apenas de uma espada, este modesto funcionário público responsável pela proteção do celeiro comunitário desbaratou sozinho os invasores
Os ecos da façanha chegaram à sala do trono e o Imperador nomeou Harbin Zemo Barão de Zeulniz. Título nobiliárquico que seria daí em diante transmitido de pai para filho, fazendo perdurar até aos nossos dias a infame dinastia Zemo. Cuja linha sucessória, assente na primogenitura masculina, é a seguinte:

*Harbin Zemo: o 1º Barão Zemo e fundador da dinastia. Apesar do ato de bravura que lhe valeu a condição aristocrática, depressa se tornaria um déspota sanguinário. Morreu de velhice em 1503;
*Hademar Zemo: o 2º Barão Zemo, filho de Harbin, e o mais pusilânime  de toda a linhagem. A sua fraqueza ditaria que fosse morto às mãos da sua guarda pessoal, numa conjura encabeçada por Heller Zemo, o seu filho de apenas 12 anos de idade;
*Heller Zemo: o 3º Barão Zemo, filho de Hademar, e o mais progressista dos Zemos;
*Herbert Zemo: o 4º Barão Zemo, filho de Heller, e um orgulhoso guerreiro colecionador de glórias e inimigos. Assassinado pelos próprios generais;
*Helmuth Zemo: o 5º Barão Zemo, filho de Heller. Assassinado pelo Barão Zemo moderno durante uma das suas viagens no tempo;
*Hackett Zemo: o 6º Barão Zemo, filho de Helmuth. Quase matou o atual Barão Zemo quando este monitorizava a sua atividade por volta de 1710;
*Hartwig Zemo: o 7º Barão Zemo, filho de Hackett. Morto em combate quando participava na Guerra dos Sete Anos (1756-1763);
*Hilliard Zemo: o 8º Barão Zemo, filho de Hartwig;
*Hoffman Zemo: o 9º Barão Zemo, filho de Hilliard;
*Hobart Zemo: o 10º Barão Zemo, filho de Hoffman. Morto às mãos de camponeses amotinados durante as revoltas que se seguiram à proibição do socialismo em terras germânicas decretada pelo Imperador Guilherme I;
*Herman Zemo: o 11º Barão Zemo, filho de Hobart e avô do atual Barão Zemo. Combateu os Aliados durante a I Guerra Mundial, causando-lhes numerosas baixas com a sua própria fórmula do terrível gás mostarda;
*Heinrich Zemo: o 12º Barão Zemo, filho de Herman e pai do atual detentor do título. Um dos maiores cientistas ao serviço de Hitler durante a II Guerra Mundial, tornou-se arqui-inimigo do Capitão América, tendo sido responsável, na ponta final do conflito, pela presumível morte do herói e de Bucky Barnes, seu adjunto juvenil;
*Helmut J. Zemo: o 13º e atual Barão Zemo, filho de Heinrich. A sua dramática história é resumida no texto seguinte.

Helmut Zemo descende de uma longa linhagem varonil.

Origem

Único descendente conhecido de um aristocrata germânico que era também uma das mais prodigiosas mentes científicas ao serviço do 3º Reich, Helmut Zemo soube-se desde muito cedo predestinado à grandeza e à perversidade.
Nascido em meados da década de 1930 em Leipzig, no leste da Alemanha. Helmut passou parte da sua juventude em Berlim. Enquanto o pai, Heinrich Zemo, inventava armas de destruição em massa para os nazis, Helmut desenvolveu, durante esse período, uma paixão secreta por comics, filmes e outros produtos culturais norte-americanos.
Embora venerado pela família e pelos seus correligionários, Heinrich Zemo era profundamente odiado pelas potências aliadas. Sentimento que se estenderia ao seus próprios compatriotas após a vexatória derrota que lhe foi imposta pelo Capitão América e pelo Comando Selvagem*.
Temendo pela sua segurança e dos seus entes queridos, Heinrich, entretanto celebrizado como Barão Zemo, começou a usar um capuz que lhe cobria integralmente o rosto.
Pouco tempo depois de ter criado o famigerado Adesivo X (uma supercola impossível de remover por qualquer processo conhecido na época), o Barão Zemo enfrentou pela primeira vez o Capitão América, empenhado em impedir que a substância fosse usada contra as tropas aliadas.
Atingido pelo escudo do herói no calor da refrega, Zemo caiu dentro de uma vasilha contendo Adesivo X. Apesar de ter sobrevivido ao incidente, o vilão não mais conseguiria remover o capuz e a roupa que usava naquele dia. Consequentemente, passaria a ser alimentado por via intravenosa até ao fim da vida.

O Barão Zemo clássico
 foi uma criação de Stan Lee e Jack Kirby,
 cuja estreia ocorreu em The Avengers nº6 (1964).
Cada vez mais demencial, Heinrich fez da mulher e do filho os seus bodes expiatórios, molestando-os constantemente. Por contraste com a mãe - que ajudaria o Capitão América a travar um dos sórdidos planos do marido - Helmut manteve-se sempre leal ao pai. Lealdade que não seria de todo recompensada.
Procurado por crimes de guerra, em 1945 (pouco depois de ter, aparentemente, causado a morte do Capitão América e Bucky), o Barão Zemo fugiu da Alemanha e buscou refúgio nas profundezas da floresta amazónica. Deixando para trás o filho e a pátria reduzida a escombros fumegantes.
Na prolongada ausência paterna, Helmut, determinado em levar uma vida normal, viajou pelo mundo e formou-se em engenharia. Incapaz de escapar à sua herança familiar, o jovem Zemo seria, no entanto, convocado pelo pai ao seu reino amazónico. Onde testemunharia a forma brutal como o seu progenitor chacinou os indígenas sublevados e o ouviu gabar-se pela morte do Cidadão V, um agente especial britânico durante a 2ª Guerra Mundial.
Entretanto, o ressurgimento do Capitão América motivaria uma série de confrontos entre o Barão Zemo (agora coadjuvado pelos seus Mestres do Terror) e os Vingadores (liderados pelo Sentinela da Liberdade).
Após a morte acidental do pai durante um desses recontros, Helmut culpou o Capitão América pela destruição da sua família. Replicando alguns dos aparatos mais mortíferos do arsenal paterno, Helmut adotou a identidade de Fénix para se vingar do herói.
Horrivelmente desfigurado após mergulhar, tal como o pai, numa tina de Adesivo X, Helmut reapareceria pouco tempo depois como o novo Barão Zemo.
Sem que o seu ódio figadal pelo Capitão América desse sinais de apaziguamento, o vilão reuniu aquela que foi, até à data, a maior e mais poderosa formação dos Mestres do Terror.

O novo Barão Zemo
 exibe o símbolo do seu némesis.
Naquele que foi um dos pontos mais altos da sua carreira criminosa, o Barão Zemo e os seus apaniguados invadiram a Mansão dos Vingadores, de onde só a muito custo seriam desalojados pelos heróis.
A uma tentativa gorada de ressuscitar o seu pai com recurso às Pedras de Sangue, seguiu-se o enlace do Barão Zemo com a terrorista internacional conhecida como Baronesa. O casal acabaria, contudo, capturado pelo Capitão América depois de ter raptado várias crianças negligenciadas para formar uma família instantânea.
Quando, no final da épica batalha que os opôs à entidade conhecida como Devastador (Massacre, no Brasil), os Vingadores e o Quarteto Fantástico foram dados como mortos, Zemo, assim privado dos seus arqui-inimigos, interiorizou finalmente que o pai se tinha autodestruído.
Mudando o foco da vingança para a busca do poder, Zemo converteu o núcleo duro dos Mestres do Terror num coletivo heroico apresentado ao mundo como Thunderbolts. Num ato de mórbida ironia, Zemo escolheu para si o título de Cidadão V, o herói britânico assassinado pelo seu pai durante a 2ª Guerra Mundial.
Desmascarado o embuste dos Thunderbolts, o Barão Zemo retomou a sua carreira a solo. Atualmente, governa com mão de ferro Bagália, um pequeno Estado-pária de localização desconhecida que serve de santuário a delinquentes de todo o mundo.

*Howling Commandos, brigada especial de soldados aliados que, durante a 2ª Guerra Mundial, atuava atrás das linhas inimigas.

Zemo (disfarçado de Cidadão V) à frente dos Thunderbolts originais.

Quem são os Mestres do Terror?

Inimigos clássicos dos Vingadores, os Mestres do Terror (Masters of Evil, no original) são uma das mais antigas organizações criminosas do Universo Marvel. Criada por Stan Lee e Jack Kirby, a equipa fez a sua primeira aparição em The Avengers Vol.1 nº6, edição histórica datada de julho de 1964.
Sob o comando do penúltimo Barão Zemo, os Mestres do Terror agrupavam inicialmente Cavaleiro Negro, Derretedor e Homem-Radioativo. Cada um destes elementos fora criteriosamente selecionado por Zemo para antagonizar um Vingador específico. Assim, ao Cavaleiro Negro competiria neutralizar o casal Vespa e Gigante, o Derretedor teria como alvo o Homem de Ferro, e o Homem-Radioativo deveria medir forças com Thor. Zemo, por seu turno, tentaria ajustar velhas contas com o Capitão América. A este elenco primordial juntar-se-iam posteriormente alguns pesos-pesados. A saber: Encantor, Executor, Magnum e Destruidor.
Das diversas encarnações da equipa ao longo dos anos, a mais eficiente foi, sem sombra de dúvida, aquela que contava nas suas fileiras com Mr. Hyde, Blackout, Rocha Lunar, Armador, Jaqueta Amarela II, Tubarão-Tigre, Titânia, Homem Absorvente, Gangue da Demolição (Aríete, Destruidor, Massa e Bate-Estacas) e Golias. Agora liderados pelo filho do Barão Zemo, os Mestres do Terror fizeram jus ao título ao tomarem de assalto a Mansão dos Vingadores, fazendo reféns alguns dos seus membros. Cuja libertação só foi possível na sequência de uma feroz batalha que culminaria com a morte de Hércules.
Seria precisamente esta formação dos Mestres do Terror que, anos mais tarde, serviria de base aos Thunderbolts (vide texto seguinte).

O primeiro confronto entre os Vingadores e os Mestres do Terror
 em The Avengers nº6 (1964).


A formação dos Mestres do Terror que quase vergaram os Vingadores.

Thunderbolts: heróis ou vilões?

Aproveitando o vazio deixado pelo desaparecimento dos Vingadores e do Quarteto Fantástico no final da saga Onslaught (Devastação em Portugal; Massacre no Brasil), o Barão Zemo reciclou os seus Mestres do Terror num novo coletivo super-heróico a que deu o nome de Thunderbolts. Além do próprio Zemo (que atendia agora por Cidadão V), o elenco primitivo da equipa por ele convocada reunia Atlas, Meteorita, Soprano, MACH-1 e Tecno. Sob estas identidades falsas escondiam-se, respetivamente, os ex-criminosos Golias (em tempos conhecido também como Contrabandista), Besouro, Rocha Lunar, Colombina e Armador. A estes membros fundadores logo se juntou Choque, uma jovem heroína que ignorava os verdadeiros desígnios dos seus companheiros, e cujo idealismo os contagiou.
Depois de ter conquistado a confiança do público, Zemo empreendeu a sua campanha de dominação mundial. Seria, no entanto, detido pela ação conjunta dos Vingadores e do Quarteto Fantástico (entretanto regressados do degredo extradimensional), bem como pelos próprios Thunderbolts. Em busca de redenção para os seus pecados, os antigos subordinados de Zemo haviam encarnado de forma inesperada o papel de defensores dos fracos e oprimidos.
Zemo logrou escapar graças à ajuda de Tecno - o único membro do grupo que se lhe manteve leal - enquanto os demais Thunderbolts, cujas verdadeiras identidades haviam sido entretanto expostas, passaram a operar na clandestinidade, praticando o heroísmo a que tinham tomado o gosto.
Conceito desenvolvido por Mark Waid e Mark Bagley, os Thunderbolts fizeram a sua estreia em janeiro de 1997, nas páginas de The Incredible Hulk nº449, e mantêm-se no ativo até aos dias de hoje. Após sucessivas reconfigurações e lideranças, a sua formação mais recente, capitaneada pelo Soldado Invernal, é composta por Atlas, Armador, Rocha Lunar, MACH-X e Kobik.

Thunderbolts: Lobos em peles de cordeiros.

Trivialidades:

*Situada na ex-RDA, Leipzig, a cidade natal de Helmut Zemo, possui uma prestigiada Universidade onde, entre outros expoentes da elite dirigente teutónica, se diplomou Angela Merkel, atual chanceler federal da Alemanha;
*No jogo de vídeo Iron Man and X-0 Manowar in Heavy Metal (1996), o Barão Zemo surgia como uma das personagens jogáveis;
*Dois anos depois, em maio de 1998, Zemo e os seus Thunderbolts participaram em Star Trek: The Next Generation / X-Men: Second Contact, um crossover entre a tripulação da nave USS Enterprise e os pupilos do Professor Xavier.


Terão Merkel e Zemo estudado a mesma cartilha?

Noutros media: Antes do seu advento ao grande ecrã por via da sua participação em Captain America: Civil War (2016), o Barão Zemo (pai e filho) era já um habitué nas séries animadas da Marvel. Remontando a 1966 a sua estreia televisiva, no segmento reservado ao Sentinela da Liberdade em The Marvel Super Heroes. Essa foi, de resto, a única ocasião em que o Barão Zemo sénior não interagiu com o júnior. Em produções mais recentes, como Avengers: Ultron Revolution (em exibição desde 2013), os dois têm coabitado e, não raro, unido forças contra os Heróis Mais Poderosos da Terra.

O Barão Zemo tem sido presença assídua
em Avengers: Ultron Revolution.
Embora irreconhecível, o atual Barão Zemo, interpretado pelo ator hispano-germânico Daniel Bruhl, foi o vilão de serviço no terceiro capítulo da saga cinematográfica do Capitão América. À parte o nome e a sanha que nutre pelos Vingadores, pouco tem, de facto, em comum com a sua contraparte da banda desenhada. No filme,  Helmut Zemo é apresentado como um obstinado oficial do Exército de Sokóvia desejoso de vingança depois de ter perdido a sua família na batalha que arrasou a capital do seu país em Avengers: Age of Ultron (2015)

A versão cinematográfica de Zemo (rebaixado a plebeu)
deixou um travo amargo na boca dos Vingadores, mas também de muitos fãs.

sábado, 22 de outubro de 2016

ETERNOS: DENNIS O'NEIL (1939 - ...)




   No que poderá ser visto como um sinal premonitório, o seu nascimento coincidiu com a estreia de Batman, a personagem que mais lhe marcaria a admirável carreira de escritor e editor. Foi, contudo, pela mão de Stan Lee que primeiro se aventurou no género super-heroico. Para cujo amadurecimento contribuiu ao privilegiar temáticas sociais sintonizadas com o espírito da época.

Biografia: Filho de um casal de católicos irlandeses de Saint Louis (Missouri), Dennis O'Neil veio ao mundo a 3 de maio de 1939. Por esses dias chegava também às bancas norte-americanas Detective Comics nº27, edição histórica que assinalou a estreia do Batman. Personagem com a qual o pequeno Denny. como era carinhosamente tratado no meio familiar, desde o primeiro momento parece ter entrelaçado o seu destino. Afinal de contas, décadas depois associaria o seu nome a várias obras capitais do Homem-Morcego.
O gosto pelas histórias aos quadradinhos, esse, tomou-o quando era ainda pessoa de palmo e meio. Nas tardes domingueiras, Denny tinha por hábito acompanhar o pai e o avô em peregrinação à mercearia do bairro onde o clã O'Neil assentara arraiais há largos anos. Além das provisões que serviriam para reabastecer a despensa lá de casa, a lista de compras incluía quase sempre uma banda desenhada que fazia as delícias do petiz dado a leituras.
Mal fora ainda dado o tiro de partida para essa viagem alucinante que foi a década de 1960 quando Dennis O'Neil saiu da Universidade de Saint Louis diplomado em Literatura Inglesa. Formação académica que incluíra, entre outras, a disciplina de Escrita Criativa, na qual ele se sentira como peixe na água.
Das salas de aulas, O'Neil seguiu, sem desvios nem paragens, para as casernas da Marinha dos EUA. Mesmo a tempo de participar no bloqueio naval a Cuba durante a crise dos mísseis soviéticos que, no opressivo outubro de 1962. obrigou o mundo a suster a respiração durante 13 longos dias.
Despida a farda de marinheiro, Dennis O'Neil arranjou emprego num pequeno tabloide do Missouri. Um par de vezes por semana escrevia uma coluna dedicada aos leitores mais jovens. Espaço que, durante os indolentes meses estivais, ele preenchia com revisitações da chamada Idade de Ouro dos quadradinhos. Foi através desses textos que captou a atenção de Roy Thomas, delfim de Stan Lee e seu futuro sucessor à frente dos destinos da Marvel Comics.
Por sugestão de Thomas, Stan Lee convidou Dennis O'Neil a realizar o teste a que se submetiam todos os candidatos a escritores na Casa das Ideias. Consistindo este na inserção de diálogos numa historieta do Quarteto Fantástico em quatro páginas. Tarefa aparentemente simples que servia, no entanto, para separar o trigo do joio numa época em que a Marvel dava cartas no mercado editorial dos super-heróis.

Roy Thomas (esq.) convenceu Stan Lee
a dar uma oportunidade a Dennis O'Neil.
O'Neil, a quem nunca passara pela cabeça ganhar a vida a escrever histórias aos quadradinhos, confessaria numa entrevista dada em 1986 que só aceitou fazer o teste porque tinha as tardes de terça-feira livres. Nas palavras do próprio, ficamos a saber como tudo se passou: «Em vez de, como era meu hábito, me entreter a resolver as palavras cruzadas, naquela tarde matei o tempo a escrever a história que Stan Lee me tinha proposto. Fi-lo, contudo, por brincadeira. Estava longe de imaginar que isso mudaria o curso da minha vida.»
Apesar da ligeireza com que encarou o desafio, a prestação de O'Neil deixou Stan Lee impressionado. Tanto que o então timoneiro da Marvel lhe ofereceu um emprego como argumentista. Convém salientar que, por esses dias, a Casa das Ideias andava em bolandas devido à impossibilidade de Lee continuar a escrever toda a linha de títulos da editora. Mesmo depois de ele ter passado o testemunho a Roy Thomas em alguns deles, era imperiosa a contratação de novos escribas.
Quando deu por si, O'Neil estava a escrever as histórias daquela que era então uma das personagens mais populares da Marvel: o Doutor Estranho, em Strange Tales. Seguir-se-iam passagens meteóricas por títulos secundários como Rawhide Kid e Millie the Model. Mais que não seja, essas experiências serviram para pôr à prova a sua versatilidade narrativa, uma vez que o primeiro era ambientado no Velho Oeste e o segundo possuía um cunho simultaneamente cómico e romântico.

Strange Tales nº148 (1966) trazia uma das primeiras histórias
 do Dr. Estranho da autoria de Dennis O'Neil.
Naquela que terá sido, provavelmente, a sua primeira colaboração com Neal Adams(1), Dennis O'Neil trouxe de volta à vida o Professor X, nas páginas de X-Men nº65. Cada vez mais requisitado, seria chamado de urgência a finalizar uma história do Demolidor deixada a meio por um Stan Lee ansioso por partir de férias.
Passada a euforia inicial, os trabalhos na Marvel começaram a rarear e a Dennis O'Neil não restou outra alternativa que não ir bater à porta da concorrência. Sob o imponente pseudónimo de Sergius O'Shaugnessy, durante cerca de ano e meio escreveu regularmente para a Charlton Comics, onde foi apadrinhado pelo lendário editor Dick Giordano. O mesmo que, quando, em 1968, se mudou de armas e bagagens para a DC Comics, levou consigo um grupo de promissores freelancers, entre os quais Dennis O'Neil.

Thunderbolt foi um dos títulos escritos por O'Neil
 durante a sua passagem pela Charlton Comics.
Ao entrar pela primeira vez na sede da DC, Dennis O'Neil e os seus antigos colegas da Charlton sentiram-se transportados para o passado. Mais precisamente para o interior de uma fotografia tirada em plena década de 50. O vestuário informal dos recém-chegados contrastava flagrantemente com o aprumo dos que lá trabalhavam. Enquanto estes usavam gravatas sobre camisas de um branco imaculado, os primeiros cultivavam um visual hippie, com cabelos compridos e roupas de cores berrantes. Apesar desse choque geracional, a convivência entre as duas tribos foi relativamente pacífica.
Com as vendas em declínio, a DC apostava em sangue novo para recuperar o terreno perdido para a concorrência capitaneada por Stan Lee. A palavra de ordem era "inovar": à criação de novas personagens, deveriam somar-se as abordagens ousadas às consagradas.
Em linha com essas diretrizes, O'Neil começou por assumir os enredos de Beware the Creeper.  Nessa nova série mensal os leitores travaram conhecimento com The Creeper, um bizarro herói acabadinho de sair da prodigiosa imaginação de Steve Ditko (2) e que, no Brasil, ficaria conhecido como Rastejante. A prova de fogo de O'Neil aconteceria, porém, nas páginas de Wonder Woman. E não se pode dizer que ele a tenha superado com distinção.
Em articulação com o artista Mike Sekowsky, O'Neil despojou a Mulher-Maravilha dos seus poderes e uniforme, tornando-a uma amazona proscrita no mundo dos homens. Sob a orientação de um guru cego chamado I Ching, Diana, qual James Bond de saltos altos, vestiria nessa controversa fase a pele de uma agente secreta constantemente enredada em intrigas internacionais. Alterações que não caíram bem junto dos fãs daquela que é a maior heroína do Universo DC, especialmente entre os da velha guarda e os que professavam o feminismo. Dito de outro modo, o tiro saiu pela culatra. Em vez de atrair novos leitores, a pouco ortodoxa abordagem de O'Neil à Princesa Amazona serviu apenas para enxotar mais uns quantos.


O início da polémica fase da Princesa Amazona
que trouxe amargos de boca a O'Neil.
Felizmente, as coisas correram-lhe um pouco mais de feição no outro título cujas histórias assumira em simultâneo. Ao introduzir temas políticos e sociais em Justice League, de uma penada O'Neil cativou um público mais maduro e testou uma fórmula que se revelaria de sucesso em Green Lantern/Green Arrow, a série que o consagraria. Causaria, porém, algum burburinho a sua decisão de desfalcar  a Liga da Justiça da Mulher-Maravilha e do Caçador de Marte, dois dos seus membros fundadores. Uma vez mais, nada voltaria a ser igual após a passagem de O'Neil. Como ficaria bem demonstrado no seu próximo projeto.
Tendo como ponto de partida a redefinição do visual do Arqueiro Verde levada a cabo, meses antes, por Neal Adams em The Brave and the Bold, Dennis O´Neil virou do avesso a vida do herói. De playboy milionário com síndrome de Robin dos Bosques, Oliver Queen passou a vigilante urbano falido e com tendências esquerdistas.
Sempre imbuídas de uma forte consciência social, as histórias do Arqueiro Verde depressa se tornaram a nova coqueluche da DC, vendendo como pãezinhos quentes. E culminando com a sua inclusão em Green Lantern/Green Arrow, título que, desde a Idade do Ouro, tinha como único cabeça de cartaz o Lanterna Verde, agora obrigado a dividir o palco com outro justiceiro em tons esmeralda.
Esta aclamada fase do Arqueiro Verde teria como ponto alto a história Snowbirds Don't Fly, publicada nos números 85 e 86 de Green Lantern/Green Arrow.
Numa altura em que o consumo de drogas ilícitas fora apontado como o inimigo nº1 dos EUA pelo presidente Nixon, os leitores foram surpreendidos pela revelação de que Roy Harper (vulgo Speedy/Ricardito), o jovem protegido e parceiro de Oliver Queen no combate ao crime era, afinal, um heroinómano. Provavelmente a melhor história de sempre do Arqueiro Verde, foi aplaudida de pé pela crítica e valeu uma mão cheia de prémios aos seus autores (ver texto seguinte).

A chocante revelação sobre a toxicodependência de Roy Harper
em Green Lantern/Green Arrow nº85 (1971).
Fama e glória que, como o próprio admitiria mais tarde, teve efeitos nocivos na vida de Dennis O'Neil: «Da noite para o dia, vi-me arrancado da total obscuridade e colocado debaixo dos holofotes mediáticos. O meu nome passou a aparecer em jornais como o The New York Times e choviam convites para participar em talk shows. Claro que toda essa exposição mexeu com a minha cabeça. Tornei-me uma pessoa diferente; uma pessoa que, olhando para trás, reconheço que nunca deveria existido. Por causa dela, deteriorei o meu casamento, perdi amizades e adquiri maus hábitos. Foram tempos complicados em que, a bem dizer, apenas me conseguia relacionar com a minha máquina de escrever.»
Ainda em 1971 deu-se outra importante mudança na carreira de Dennis O'Neil. Supervisionado por Julius Schwartz, assumiria nesse ano as histórias do Batman. A interpretação que fez do herói, retratando-o como um indivíduo obsessivo-compulsivo e ávido de vingança, devolveu-o às suas raízes e viria a influenciar todas as suas versões subsequentes. De The Dark Knight Returns a Batman: Year One, passando por Batman: The Killing Joke, a todas a obra de O'Neil serviu de matriz. Até porque foi ele o primeiro a estudar a fundo a psique da personagem. Concluindo, entre outras coisas, que era Bruce Wayne quem servia de disfarce ao Cavaleiro das Trevas, e não o inverso.
Além de um sortido memorável de sagas do Homem-Morcego, a dupla criativa composta por Dennis O'Neil e Neal Adams (entretanto reunida) introduziu novos vilões e revitalizou outros. Assim, ao mesmo tempo que surgiam R'as e Talia al Ghul (esta última criada a meias com o artista Bob Brown), o Joker e o Duas-Caras recuperavam protagonismo no microcosmos do Batman. Cuja popularidade entre os leitores disparou em flecha, após anos de estiolamento narrativo que o haviam descaracterizado.

O regresso do Joker foi um dos pontos altos fase do Batman
 produzida pela Dupla Dinâmica Dennis O'Neil/ Neal Adams
Apostado em dar um novo elã aos títulos do Super-Homem, Julius Schwartz, recém-nomeado seu editor, considerou Dennis O'Neil a escolha natural para escrever essa nova fase do herói. Entre as diversas alterações introduzidas nesse período à mitologia do Homem de Aço  - desenhado ainda pelo eterno Curt Swan(3) - , a mais surpreendente foi a  eliminação da kryptonita e, por inerência, da sua maior fraqueza.
Paralelamente, O'Neil teve ainda tempo e energia para revitalizar duas personagens da Idade do Ouro cuja propriedade intelectual fora entretanto adquirida pela DC: Capitão Marvel/Shazam e O Sombra. A sua maior extravagância seria, contudo, Superman versus Muhammad Ali, álbum gigante lançado em 1978, e  que contou uma vez mais com a arte de Neal Adams. Com este a elegê-lo como a sua colaboração favorita com O'Neil.

Super-Homem versus Muhammad Ali: o combate do século
 e uma das maiores excentricidades da história da DC.
Já não como um escritor novato mas com o rótulo de celebridade colado à pele, em 1980, após uma década ao serviço da DC, Dennis O'Neil regressou à Casa das Ideias. Fê-lo pela porta grande mas sem qualquer intenção de dormir à sombra dos louros. Ao longo dos cinco anos que por lá ficou, deixou a sua impressão digital nos diversos títulos cujas tramas lhe foram confiadas. Em Iron Man, por exemplo, ressuscitou o demónio na garrafa que tanto havia atormentado Tony Stark ao mesmo tempo que presenteava o herói com a icónica armadura de Centurião Prateado.
Seria, porém, enquanto editor de Daredevil que O'Neil alcançaria o seu maior mérito. Mal assumiu o cargo, tratou logo de se desenvencilhar do argumentista Roger McKenzie para que Frank Miller pudesse escrever e desenhar as aventuras do Homem Sem Medo. Decisão que o à época editor-chefe da Marvel, Jim Shooter, classificaria como determinante para evitar o mais do que expectável cancelamento de uma série que estrebuchava nas águas pantanosas em que caíra.
Apesar dessa sua intervenção providencial, Dennis O'Neil tinha uma visão muito própria do seu papel enquanto editor. Se dele dependesse, o seu trabalho seria invisível para os leitores e o seu nome não surgiria creditado nas histórias por ele editadas.
Até o Homem Sem Medo deve a sua sobrevivência a Dennis O'Neil.

De volta à DC em 1986, Dennis O'Neil passaria a acumular as funções de escritor e editor dos títulos do Batman até 2000. Sob a sua batuta, o Cavaleiro das Trevas voltaria a viver dias de glória. Seria nessa fase que despontariam obras capitais como Knightfall (A Queda do Morcego), Batman: Sword of Azrael (A Espada de Azrael) ou Batman: Birth of Demon (Batman: O Nascimento do Demónio). Todas elas saídas da pena de Dennis O'Neil, todas elas momentos definidores na vida do herói.
Embora sempre sob o signo do morcego, O'Neil seria igualmente responsável pelas histórias do Questão, que fizeram furor no início da década de 1990, e coautor da saga  Armageddon 2001 (4).

The Sword of Azrael foi um dos êxitos que marcou
 o regresso de Dennis O'Neil à Editora das Lendas.
Alquimista das letras, as proezas literárias de Dennis O'Neil não se circunscrevem à banda desenhada. Com uma extensa obra publicada, o seu repertório inclui vários romances, contos e guiões televisivos. São também da sua autoria as novelizações dos filmes Batman Begins e The Dark Knight.
Em finais dos anos 1990, O'Neil, sempre em busca de novos desafios, aventurou-se no ensino. Na prestigiada School of Visual Arts, sediada em Manhattan, ministrou um curso de escrita criativa direcionado para os comics. Como assistente teve John Ostrander, seu colega de ofício e velho conhecido da Editora das Lendas.
Casado com Marifran O'Neil, sua companheira desde os tempos de juventude, Dennis é pai do cineasta Lawrence O'Neil notabilizado pelo seu filme de 1997, Breast Men.
Afastado dos quadradinhos a que esteve ligado durante mais de quatro décadas, divide atualmente o seu tempo entra a vida familiar e as suas responsabilidades como diretor da The Hero's Initiative. Rede de beneficência que presta auxílio financeiro e cuidados médicos a antigos profissionais dos quadradinhos cujas vidas, por um motivo ou por outro, saíram dos eixos.
Julgando por este gesto de enorme generosidade e humanismo, o brilho da carreira deste grande senhor da 9ª Arte só empalidece perante o do seu coração de ouro.

Dennis O'Neil e Neal Adams (esq.) lado a lado
 num painel de conferências na Comic Con de San Diego.

1) Perfil de Neal Adams disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2014/06/eternos-neal-adams-1941.html

2) Perfil de Steve Ditko disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2012/03/eternos-steve-ditko.html

3) Perfil de Curt Swan disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2013/07/eternos-curt-swan-1920-1996.html

4) Leiam aqui a resenha de Armagedoon 2001 http://bdmarveldc.blogspot.pt/2013/05/do-fundo-do-bau.html

Prémios e distinções: Lenda viva da 9ª Arte, Dennis O'Neil desde cedo obteve o reconhecimento da indústria dos quadradinhos. Rendido à sua sofisticação narrativa, logo na edição inaugural do concurso, em 1970, o júri dos Shazam Awards distinguiu-o com três desses cobiçados galardões. Para quem não sabe, são o equivalente bedéfilo dos Óscares da Academia de Hollywood.
Pelo primoroso trabalho desenvolvido em Green Lantern/Green Arrow, O'Neil venceu nas categorias de melhor escritor, melhor história individual e melhor série regular. Dividindo o prémio nestas duas últimas com Neal Adams, seu parceiro criativo no título que basculou ambos ao estrelato. Cenário que se repetiria no ano seguinte quando a parelha arrecadou novo Shazam Award por conta de Snowbirds D'ont Fly, ainda hoje considerada uma das melhores histórias alguma vez produzidas com a chancela da DC.
Nesse memorável ano de 1971, Dennis O'Neil conquistou ainda dois Goethe Awards, novamente na categoria de melhor escritor e de melhor história individual e, uma vez mais, a meias com Neal Adams neste último segmento. Um par de anos volvidos, em 1973, O'Neil seria outra vez nomeado para melhor escritor, mas dessa feita não teve de arranjar espaço na prateleira lá de casa pois voltou de mãos a abanar. Algo que não aconteceria em 2014, quando viu a sua fulgurante carreira distinguida por um Eisner Award.
A maior honraria a adornar o seu invejável currículo foi-lhe, no entanto, concedida em 1985. Ano em que a DC incluiu o seu nome em Fifty Who Made DC Great, livro de ouro que pretendia render homenagem à meia centena de individualidades cujo contributo mais engrandeceu a Editora das Lendas.

Dennis O'Neil exibe o Eisner Award  que lhe foi atribuído em 2014.

Notas finais:

*Dennis O'Neil, Archie Goodwin e Mike Carlin foram três dos antigos editores da DC a serem parodiados em The Batman Adventures, título mensal baseado na série televisiva Batman: The Animated Series, cuja publicação se iniciou em 1992.
Nas histórias eles eram apresentados como um bando de supervilões desastrados liderados pelo imperturbável The Perfesser. Suposto génio do crime inseparável do seu cachimbo e propenso a engendrar as mais mirabolantes golpadas, a pitoresca personagem servia de avatar a Dennis O'Neil.
Sempre absorto em pensamentos, The Perfesser esquecia-se amiúde de transmitir informações vitais aos seus cúmplices para a execução dos golpes que ele próprio arquitetava. Mesmo sem a interferência do Cruzado Encapuzado, os planos da quadrilha iam muitas vezes por água abaixo devido à incompetência do seu líder. Foi o que aconteceu, por exemplo, quando após planeamento minucioso do assalto a um hotel, ao chegarem ao local os três patetas depararam-se com um edifício vazio e sem nada para roubar. Tudo porque The Perfesser, do alto da sua infinita sabedoria, se tinha esquecido que o mesmo fora abandonado há uma dúzia de anos...

The Perfesser, o génio do crime que parodiava
 Dennis O'Neil em The Batman Adventures.

No entanto, apesar da sua aparente inépcia, The Perfesser provou, em pelo menos uma ocasião, ser mais inteligente do que o próprio Batman. Desafiados a decifrar um intrincado enigma em três partes fornecido pelo Charada, levou a melhor sobre o pretenso melhor detetive do mundo;
* Num registo mais sério, em 2008 Dennis O'Neil emprestou a sua voz aos comentários incluídos na edição em DVD de Batman: Gotham Knight, antologia de seis curtas-metragens do Homem-Morcego produzidas ao estilo anime.
* Na sua segunda passagem pela Marvel, na primeira metade da década de 80 do século passado, Dennis O'Neil esteve diretamente envolvido na conceção dos Transformers. É-lhe, de resto, atribuída a escolha do nome Optimus Prime, líder dos Autobots;
*Sob o pseudónimo Jim Dennis, O'Neil escreveu várias novelas protagonizadas por Richard Dragon, um mestre das artes marciais, transformado em personagem de BD pela DC, a partir de 1974;
*Entre o extenso rol de personagens criadas por Dennis O'Neil ao longo da sua vetusta carreira, algumas tornaram-se proeminentes na mitologia das respetivas licenciadoras. Casos, por exemplo, do Lanterna Verde John Stewart e de Arzael na DC, ou Madame Teia e Obadiah Stane (vulgo Monge de Ferro) na Marvel.
*Foi também o "arquiteto" do famigerado Asilo Arkham, instituição psiquiátrica destinada a acolher criminosos demenciais, como o Joker, o Espantalho e tantos outros.


John Stewart (cima) e Monge de Ferro,
 duas das mais carismáticas personagens criadas por Dennis O'Neil.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

HERÓIS EM AÇÃO: VISÃO




  Encarnação moderna de uma personagem homónima da Idade do Ouro, serviu inicialmente de instrumento de vingança de Ultron contra Hank Pym e os Vingadores. Equipa que depois o acolheria de braços abertos, ajudando-o a desvendar parte dos segredos do seu passado. Com a Feiticeira Escarlate formou um dos mais poderosos e inusitados casais dos quadradinhos, com muito melodrama à mistura.

Denominação original: Vision
Licenciador: Marvel Comics
Criadores: Roy Thomas (história) e John Buscema (arte conceitual)
Primeira aparição: The Avengers nº57 (outubro de 1968)
Identidade civil: nenhuma
Local de nascimento: Brooklyn, Nova Iorque
Parentes conhecidos: Ultron ("pai"/criador), Jocasta ("irmã"/ "madrasta"), Simon Williams/Magnum ("irmão"), Wanda Maximoff/Feiticeira Escarlate (ex-mulher), Thomas e William Maximoff ("filhos" falecidos), Virginia ("esposa"), Viv ("filha") e Vin ("filho" falecido). Possui ainda numerosa prole com Eve, sua contraparte feminina criada pelo Alto Evolucionário.
Afiliação: Vingadores (além de já ter assumido a liderança da equipa, integrou várias das suas divisões especiais, como os Vingadores da Costa Oeste ou, mais recentemente, o Esquadrão Unidade dos Vingadores).
Base de operações: Atualmente a residir num pacato subúrbio de Arlington, ao longo dos anos foi inquilino dos vários quartéis-generais dos Heróis Mais Poderosos da Terra, o mais emblemático dos quais foi a Mansão dos Vingadores.
Armas, poderes e habilidades: Exceto pelo facto de que todos os seus órgãos, tecidos e fluidos são sintéticos, o corpo robótico do Visão é uma réplica exata do organismo humano. Num processo em tudo similar ao da fotossíntese levada a cabo pelas plantas, a Joia Solar incrustada na testa do androide absorve constantemente (até mesmo durante a noite, embora com menor eficácia), a energia ambiente do astro-rei que lhe serve de combustível. Permitindo-lhe igualmente converter esse acúmulo de energia em rajadas óticas de radiação infravermelha ou de micro-ondas. Processo que, em casos extremos, pode ser efetuado diretamente através da Joia Solar, amplificando desse modo a potência das descargas, ainda que comprometendo outras funções do sistema, inclusive as vitais.
Graças às suas células especiais ativadas ciberneticamente e que lhe permitem interagir com uma dimensão desconhecida, o Visão pode regular a seu bel-prazer a própria densidade corporal: da intangibilidade de um fantasma à  rigidez de um diamante num piscar de olhos. Quando opta pelo primeiro estado, consegue atravessar superfícies sólidas - como paredes, corpos ou objetos - e voar. Já o segundo dota-o de invulnerabilidade e de superforça proporcional ao aumento da sua massa. Quando esta atinge o seu pico máximo, a força do Visão ronda as 90 toneladas.
Equipado com uma mente computorizada, o Visão é um tecnopata por excelência. Por outras palavras, consegue conectar-se e interagir com sistemas informáticos, deles extraindo informação que processa velozmente antes de armazená-la na sua base de dados. Sendo uma inteligência artificial, possui um raciocínio analítico que faz dele um exímio estrategista dotado de uma apuradíssima cultura tática. Atributos que lhe valeram, em tempos, a liderança dos Vingadores.
Após a Era de Ultron, os protocolos latentes do Visão foram ativados, sendo o seu corpo agora formado por milhões de nanitas. Cada um deles carrega uma cópia da sua inteligência artificial, bastando portanto apenas uma dessas unidades microscópicas para recriar o corpo do androide caso este seja danificado ou mesmo destruído.
Treinado pelo Capitão América, o Visão é também proficiente no combate corpo a corpo, possuindo resistência, velocidade e reflexos sobre-humanos intrínsecos à sua natureza robótica.
Toda esta vasta gama de poderes e recursos fazem do Visão um dos mais formidáveis seres do Universo Marvel capaz de ombrear com outros titãs como Thor, Hulk ou o Príncipe Submarino. Facto que faz dele um aliado de peso ou um adversário de respeito.

Na sua forma espectral, o Visão consegue voar.


Fraquezas: No passado, a obsessão do Visão em tornar-se humano deixou-o profundamente transtornado ao ponto de lhe provocar uma crise existencial com funestas consequências tanto para ele como para aqueles que o rodeavam. Fase durante a qual usou a sua tecnopatia para assumir o controlo da rede mundial de computadores e dos sistemas de defesa com o objetivo de assegurar a paz na Terra.
Paradoxalmente, o androide tem na sua rigidez diamantina outra das suas fraquezas. A partir de determinado limiar, torna-se mais e mais difícil ao Fantasma de Pedra mover a sua densa massa corporal. Quando esta atinge o seu pico de densidade, ele torna-se literalmente inamovível como se de uma montanha se tratasse.

Quem disse que os androides não choram?

Histórico de publicação: Na senda das versões contemporâneas de outros ícones da 9ª Arte (casos do Lanterna Verde Hal Jordan ou do Tocha Humana Johnny Storm), o Visão que conhecemos é na verdade uma declinação de um conceito elaborado na chamada Idade do Ouro dos Quadradinhos (1938-1955). No entanto, além do nome, o primeiro Visão pouco mais tinha em comum com o atual (ver texto seguinte).
Em meados de 1968, Stan Lee (à data, editor-chefe da Marvel Comics) e o escritor Roy Thomas decidiram avançar com uma nova adição ao elenco dos Vingadores. Enquanto o segundo pretendia trazer de volta o Visão original, a preferência do primeiro recaía sobre um androide. A solução de compromisso encontrada consistiu na conceção de um novo Visão, personagem robótica apenas vagamente inspirada no seu antepassado da década de 1940.
O processo criativo não foi, todavia, isento de peripécias. De modo a realçar a natureza fantasmagórica da personagem, Thomas advogava que o Visão deveria ser totalmente branco. Pretensão que esbarrou nas limitações técnicas que, à época, caracterizavam a impressão gráfica, sobretudo no que às publicações coloridas dizia respeito. Se a ideia de Thomas tivesse sido implementada, a personagem surgiria com os contornos indefinidos nas páginas das revistas, assemelhando-se efetivamente a uma assombração ou a uma miragem. Opção estética que, conforme veremos mais adiante neste texto, seria duas décadas depois, recuperada por John Byrne.

Roy Thomas, um dos "pais" do Visão moderno.

Perante a impossibilidade de apresentar um Visão totalmente branco, Thomas optou pelo vermelho para dar cor à pele sintética do androide (embora, numa fase inicial, esta assumisse um tom alaranjado por conta dos citados problemas de impressão), já que não queria que ele fosse verde como o Hulk ou azul como os Atlantes.
Apesar de a sua criação ter sido muitas vezes comparada com o Mister Spock de Star Trek, Roy Thomas nega perentoriamente até hoje ter ido buscar inspiração a uma série televisiva com a qual estaria na altura pouco familiarizado. Admitiu, no entanto, ter sido influenciado pelas estórias de Adam Link. Personagem idealizada em 1939 por Otto Binder, foi um dos primeiros robôs benignos introduzidos na literatura baseada na ficção científica. Género onde, tradicionalmente, androides, robôs e outras inteligências artificiais surgiam retratados como escravos mecânicos ou como armas de destruição massiva. Outra comparação inevitável é com o Tornado Vermelho, androide da rival DC cuja estreia oficial precedeu num par de meses (em agosto de 1968) a do Visão. A despeito das evidentes parecenças entre ambos, continua por provar a existência de algum tipo de plágio.
Dados os retoques finais no visual e na personalidade, o novo Visão debutou em outubro de 1968 nas páginas de The Avengers nº57, sendo acolhido com grande entusiasmo pelos leitores. Mesmo tendo o androide sido apresentado nessa sua primeira aparição como um veículo para a vingança do terrorista cibernético chamado Ultron*.

A estreia do Visão  em The Avengers nº57 (1968).

Volvidos quase dois anos, em abril de 1970, o número 75 da série regular dos Vingadores assinalou o regresso da Feiticeira Escarlate** às fileiras da equipa. Num ápice, a filha de Magneto perdeu-se de amores pelo circunspeto Visão, assim nascendo um dos mais improváveis - e melodramáticos - romances da história dos quadradinhos, entrelaçando os destinos de um androide e de uma mutante.
Entrevistado em 2015 por Marcus Errico, autor do livro The Secret Origins of Vision and Ultron: An Oral History (As Origens Secretas do Visão e de Ultron: Uma História Oral), Roy Thomas explicava assim o que esteve na base dessa sua arrojada ideia: "Intuí que algum tipo de ligação sentimental ajudaria a desenvolver o potencial da Feiticeira Escarlate, aumentando dessa forma a sua preponderância no seio de uma equipa onde ela era muitas vezes incompreendida e até secretamente temida pelos seus companheiros. Em meu entender, o Visão seria o candidato ideal porque a sua racionalidade exacerbada serviria de contraponto à volatilidade emocional de Wanda. Um romance entre ambos teria igualmente o condão de colocar em evidência a faceta mais humana do Visão, que eu vinha já explorando com uma minúcia cada vez maior. Havia ainda a circunstância de ambos participarem apenas em The Avengers. Portanto, foi essencialmente por razões práticas que eu decidi juntá-los.".


Visão e Feiticeira Escarlate: o poder do amor.

Escassos meses antes de abandonar o título mensal dos Heróis Mais Poderosos da Terra, Roy Thomas deixou na ar a ideia de o Visão ter sido afinal construído a partir do corpo do Tocha Humana original (também ele um androide). Pista plantada em The Avengers nº93, mas que só seria seguida, vários anos depois, por Steve Englehart, nos números 134 e 135 da série. Com a bênção do antecessor, Englehart glosou com mestria o mote por ele lançado, vertendo desse modo alguma luz sobre o denso mistério que envolvia até então a origem do Fantasma de Pedra.
Atada esta ponta solta no passado de uma personagem que se tornara entretanto uma das arquitraves dos Vingadores, o casamento do Visão com a Feiticeira Escarlate ficou marcado para junho de 1975, com a cerimónia a ter lugar em Giant-Size Avengers nº4. Em consequência da sua crescente popularidade entre os leitores, entre 1982 e 1986, o casal teve direito a duas efémeras séries próprias. Na segunda das quais Wanda deu à luz dois gémeos - Thomas e William Maximoff - concebidos através de meios arcanos.
Agora ao serviço dos Vingadores da Costa Oeste (título escrito e ilustrado por John Byrne***), em 1989 o Visão sofreu uma profunda metamorfose cujas repercussões se fazem sentir até aos dias de hoje. Objetivando colocar em evidência a natureza robótica do herói, Byrne apagou-lhe a memória e eliminou-lhe os padrões cerebrais humanos, despojando-o assim de qualquer vestígio de emoção. Publicado em West Coast Avengers nº42 a 45, o arco de histórias Vision Quest mostrava como esta desumanização do androide prejudicava severamente o seu relacionamento com a Feiticeira Escarlate, revelando de uma penada que os filhos de ambos não passavam afinal de construtos imaginários gerados pelo poder mutante de Wanda.
O maior choque para o leitores ficaria no entanto reservado para uma sequência de duas páginas em que era mostrado o desmantelamento peça a peça do Visão. Imagens que alteraram radicalmente a perceção de uma personagem que, até aí, sempre fora mais perspetivada como um ser humano sintético do que como uma simples máquina.

Sem cor. Sem emoções.
Assim era o Visão de Byrne,

Desde o primeiro momento presença assídua nas histórias dos Vingadores e nas principais sagas da Casa das Ideias, em novembro do ano passado o Visão ganhou nova série a solo. Com histórias do estreante Tom King ilustradas pelo espanhol Gabriel Hernandez Walta, The Vision dá a conhecer a nova vida do herói, agora convertido num típico pai de família suburbano. Com a particularidade de a sua esposa e filhos serem na verdade androides por ele projetados.

Visão e a sua família imaginária.

*Prontuário de Ultron disponível em http://bdmarveldc.blogspot.de/2014/12/galeria-de-viloes-ultron.html;
**Prontuário da Feiticeira Escarlate disponível em http://bdmarveldc.blogspot.com/2014/05/heroinas-em-acao-feiticeira-escarlate.html
*** Perfil de John Byrne disponível em http://bdmarveldc.blogspot.com/2015/01/eternos-john-byrne-1950.html


Aarkus, o antepassado extradimensional




Criação de Joe Simon e Jack Kirby (a mesma dupla genial que, no ano seguinte, apresentaria ao mundo o Capitão América), o primeiro Visão estreou-se em novembro de 1940, numa história de apenas quatro páginas publicada em Marvel Mistery Comics nº13. Ao longos dos tês anos imediatos, ele seria, de resto, um habitué nesse título de charneira da Timely Comics. Tendo feito igualmente participações episódicas noutras séries regulares incorporadas no cardápio editorial daquela que foi a precursora da Marvel - especificamente, em Kid Comics.
Também conhecido como Aarkus, o Visão da Idade do Ouro era um agente policial oriundo de uma dimensão paralela chamada Mundo de Fumo (Smoke World, no original). Enquanto procurava um local apropriado para exilar um perigoso malfeitor sob sua custódia, Aarkus foi acidentalmente contactado por Markham Erickson, um cientista norte-americano obcecado em encontrar vida inteligente extraterrestre. A convite dele, Aarkus mudou-se de armas e bagagens para o nosso planeta, onde assumiu as funções de combatente do crime.

O Visão original teve as suas histórias
 publicadas pela Timely Comics.
O leque de poderes do Visão original era bastante distinto do da sua versão moderna: à capacidade de voar e de projetar ilusões de si mesmo, somava a habilidade de produzir gelo e de se teleportar para onde quer que houvesse fumaça.
Durante a II Guerra Mundial, Aarkus foi temporariamente induzido pelas Força do Eixo a afrontar os Aliados. Erro que no entanto remediaria com a ajuda dos Invasores. Após esses eventos, o bisonho alienígena pareceu ter-se esfumado da superfície da Terra. E, de facto, foi isso que aconteceu. Já este século, foi revelado que ele habitava os esgotos subterrâneos de Nova Iorque, servindo de guardião a um Cubo Cósmico extraviado.
Coadjuvante na saga X-Men: Legacy (2012), onde começou por opor-se ao mutante Legião antes de a ele se aliar, Aarkus acabou confinado no departamento médico da Escola Jean Grey para Estudos Superiores após ter mergulhado num desconcertante coma. Ao despertar dele, transcorridos largos meses, acedeu ao pedido do Soldado Invernal para que o ajudasse a transportar os restantes Invasores para o planeta Kree, onde se encontrava sequestrado o Príncipe Submarino.
Ficando então os leitores a saber que, durante a II Guerra Mundial  - e com o consentimento dos heróis -, Aarkus havia apagado as memórias que os Invasores dele conservavam, por forma a ocultar a localização de uma antiga e poderosíssima arma Kree.

Figurino do Visão nos anos 1990.

Origem:
Ultron, a monstruosidade cibernética projetada pelo Vingador fundador Henry Pym, rebelou-se contra o seu criador depois de, inadvertidamente, ter adquirido senciência. Em busca de um veículo para a sua vingança, o maléfico robô raptou o Professor Phineas T. Horton, inventor do androide que, nos anos 1940, ficara conhecido como Tocha Humana. O plano de Ultron consistia em usar o corpo do Tocha Humana como matriz para a construção de uma nova inteligência artificial.
Coagido pelo seu captor, o cientista reconfigurou as células Horton, responsáveis pelos poderes incandescentes da sua criação. Graças a essa modificação, o novo androide poderia regular a densidade da sua massa corporal.

Ultron rejubila com a sua criação.
Ao descobrir que Horton não eliminara por completo as memórias do Tocha Humana, Ultron puniu a traição do cientista com a morte. Encarregando-se ele próprio de reprogramar a mente computorizada do androide. No processo, as memórias originais da criatura foram substituídas pelos padrões cerebrais de Magnum (Wonder Man, no original), um recém-falecido supervilão que fizera parte dos Mestres do Terror.
Em seguida, Ultron ordenou ao seu novo servo que atraísse os Vingadores para uma armadilha mortal. A primeira a avistar a criatura, quando esta invadiu o seu apartamento, foi a Vespa. Que, horrorizada, a descreveu como uma "visão da própria morte" aos seus colegas de equipa. Foi pois desta forma que o androide obteve o nome com que se notabilizou na História da Nona Arte.
A Vespa foi a primeira a ser assombrada pelo Visão.
Tirando proveito do desnorte do Visão, os Vingadores conseguiram subjugá-lo, transportando-o de seguida para o laboratório científico de Hank Pym, para que este o examinasse. Desses exames resultou a descoberta de que estavam em presença de um construto de Ultron, investido da missão de destruí-los.
Persuadido pelos Vingadores a trair o seu amo, o Visão ajudou-os a derrotar Ultron. Altruísmo recompensado com sua admissão nas fileiras da equipa. Que, dessa forma, reforçou o seu contingente de vilões regenerados.
Algum tempo depois, o misterioso viajante temporal conhecido como Immortus revelaria aos Vingadores que usara o poder do seu Cristal da Eternidade para dividir o Tocha Humana original em duas entidades distintas. Significando isto que, contrariamente ao que se imaginava, Ultron não usara o verdadeiro corpo do Tocha Humana como matéria-prima para a construção do Visão. Fazendo tudo parte de um intrincado plano para induzir um relacionamento entre o androide e a Feiticeira Escarlate de molde a evitar que esta gerasse descendência biológica. Se tal se verificasse, o nível de poder dos filhos de Wanda faria perigar o próprio equilíbrio cósmico.
Anos mais tarde, o mesmo Immortus manipularia um punhado de agentes federais corruptos para que capturassem e desmantelassem o Visão. Depois de os Vingadores terem recuperado os destroços do seu companheiro, Hank Pym reconstruiu-o o melhor que pôde. Contudo, Magnum (agora um Vingador), não autorizou que os seus padrões cerebrais fossem novamente usados para dotar o androide de emoções. A par dos severos danos infligidos à sua pele sintética durante o processo de desmantelamento, deste facto sobreveio uma versão esbranquiçada e desumanizada do Visão. Personagem cujo passado continua a encerrar muitos enigmas por decifrar e que, a julgar pelo seu presente, reservará muitas surpresas no futuro.

Nos Vingadores, o Visão encontrou
 um lar, uma família e o amor da sua vida.
Apontamentos:

* Tratando-se de um androide, a nacionalidade do Visão permanece indeterminada. Isto apesar de poder ser considerado um nova-iorquino de gema, na medida em que foi construído num laboratório sediado no Brooklyn. Visando tornear complexas questões jurídicas e diplomáticas - e atendendo ao seu estatuto de Vingador - , o Governo dos EUA entendeu, no entanto, atribuir-lhe provisoriamente a cidadania americana;
* Em Avengers Forever (saga em 12 capítulos publicada originalmente entre dezembro de 1998 e novembro de 1999), os Vingadores reunidos por Immortus visitam um futuro possível onde os marcianos estão em guerra com o nosso mundo. Entre os poucos heróis remanescentes que formam a última linha defensiva da Terra, está a robô Jocasta (outra das criações de Ultron) cujo novo visual e poderes são muito semelhantes aos do Visão. Acrescendo o dado curioso de ela estar grávida do Homem-Máquina;
*The Vision é o título de um conto da autoria de Jonathan Lethem - parte integrante da sua coletânea Men and Cartoons -, no qual uma das personagens se veste e age como o Visão na infância, continuando a fazê-lo na idade adulta.

O Fantasma de Pedra.

Noutros mediaPouco conhecido ainda do grande público, por via da sua participação em duas das mais recentes megaproduções dos Estúdios Marvel (Avengers; Age of Ultron e Captain America: Civil War), o Visão começa a ganhar notoriedade fora dos quadradinhos. Interpretado em ambos os filmes pelo ator britânico Paul Bettany, a sua origem cinematográfica apresenta, contudo, algumas nuances.relativamente à história clássica.
Conforme é mostrado na sequela dos Vingadores, o androide foi criado para servir de recetáculo ao próprio Ultron. Outra diferença reside no facto de, em vez da Joia Solar, o Visão ser portador de uma das Joias do Infinito cobiçadas por Thanos. Facto que lhe deixa antever um papel importante em capítulos vindouros da saga.
Antes da sua estreia no grande ecrã, o Visão fizera apenas pequenas aparições em séries animadas da Marvel, quase todas tendo os Vingadores como cabeça de cartaz. E já lá vão três anos desde que isso aconteceu pela última vez, em Avengers: Ultron Revolution.
Não sendo, portanto, de admirar que o herói sintético continue a ser um ilustre desconhecido para quem não está suficientemente familiarizado com a mitologia da Casa das Ideias.Espero, por isso, que este artigo ajude à descoberta desta fascinante personagem.

Paul Bettany como Visão num cartaz promocional de
Avengers: Age of Ultron (2015).