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segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

ETERNOS: GARDNER FOX (1911-1986)


  Arquiteto de duas eras, construiu as bases do Multiverso DC, (re)criou e reuniu pela primeira vez alguns dos maiores símbolos da Editora das Lendas. A despeito da importância e grandiosidade do seu legado, permanece um ilustre desconhecido para muitos aficionados da 9ª Arte.

Num belo dia de 1967, a Universidade do Oregon recebeu uma inusitada oferenda: 14 caixas a abarrotar de livros, bandas desenhadas, argumentos, correspondência e documentação diversa pertença de um tal Gardner Fox. A conselho do seu agente literário, aquele que foi um dos mais prolixos e versáteis escribas de sempre, doou à centenária instituição parte do seu acervo cultural, por forma a obter benefícios fiscais. Meio século volvido, o sobredito material permanece com a sua fiel depositária e constitui parcela significativa do espólio desse grande vulto da 9ª Arte. Cuja riquíssima obra, conquanto reverenciada pelos seus pares, continua a ser ignorada por muitos fãs de super-heróis, mormente entre aqueles que elegem a DC como predileta.
Nova-iorquino de gema, Gardner Francis Cooper Fox nasceu a 20 de maio de 1911 no Brooklyn, um dos mais pitorescos bairros da cidade insone. Criado no seio de uma família de burgueses conservadores, mal aprendeu a juntar as primeiras letras deu mostras de uma insaciável volúpia literária.
Por volta dos 11 anos de idade, o pequeno Gardner Fox leu, de um fôlego, duas histórias que, segundo o próprio, lhe apresentaram um mundo completamente novo. Ambas saídas da virtuosa pena de Edgar Rice Burroughs (criador de Tarzan e John Carter, e uma das principais influências literárias de Fox), The Gods of Mars e The Warlord of Mars incutiram-lhe o fascínio pela ficção científica, um dos géneros em que, futuramente, mais se notabilizaria.

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Uma das histórias que mais marcou
 Gardner Fox nos seus verdes anos.
Depois de cursar Direito no St. John's College, seleta universidade católica que lhe serviu de alma mater, entre 1935 e 1937 Gardner Fox foi advogado de barra em diferentes tribunais nova-iorquinos. Em plena Grande Depressão, depressa percebeu, porém, que teria melhores perspetivas de carreira naquela que era uma das poucas indústrias promissoras numa economia convalescente após a terapia de choque do New Deal: os comic books.
Pela mão de Vic Sullivan, à época editor-chefe da National Allied Publications (uma das antecessoras da DC Comics), em meados de 1937 Gardner Fox ingressou na casa onde o Super-Homem haveria de pendurar a capa. Apesar de a sua estreia como argumentista ter ocorrido em Detective Comics nº4, nos anos seguintes Fox assinaria centenas de histórias nos principais títulos que compunham o catálogo da editora. Nada que obstasse à intensa colaboração que desenvolvia, em paralelo, com vários magazines pulp que davam à estampa os seus contos de ficção científica.

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Edição onde Gardner Fox fez a sua estreia como argumentista.
Senhor de um saber enciclopédico, Gardner Fox (para quem o acúmulo de conhecimento era, nas suas próprias palavras, uma espécie de passatempo) salpicava as suas narrativas com um pot-pourri de referências históricas, mitológicas e científicas.
Em 1971, numa missiva endereçada a Jeff Bails, o fundador da comunidade de fãs de super-heróis, Gardner Fox revelava possuir dois gabinetes e um sótão atulhados de livros, revistas e toda a sorte de material relacionado com Ciência, Natureza e factos invulgares, que amiúde consultava para escrever as suas histórias. E foram muitas. Estima-se que tenham sido 4 mil no total, 1500 das quais para a DC. Cifras impressionantes que, em conjunto com a centena de novelas publicadas (a uma média anual de três), testificam bem a monumentalidade da sua obra literária.
Ao cabo de alguns meses a relatar as proezas detetivescas de personagens como Speed Saunders ou Steve Malone em Detective Comics, em meados de 1938 Gardner Fox teve a sua primeira experiência narrativa com super-heróis, ao assumir, em Action Comics, as histórias do mago Zatara - pai de Zatanna e pastiche de Mandrake, o Mágico. Em janeiro do ano seguinte daria o seu primeiro contributo para  a expansão do incipiente panteão da Editora das Lendas ao criar Sandman, um misterioso vigilante urbano equipado com uma máscara de gás e uma pistola especial que usava para gasear os malfeitores.

Sandman, o primeiro super-herói
 com assinatura de Gardner Fox.
Em julho de 1939, Gardner Fox regressaria a Detective Comics (onde Batman fizera a sua estreia apenas dois meses antes), desta feita para assessorar Bob Kane e Bill Finger nas histórias do Cruzado Encapuzado. Para cuja evolução visual Fox contribuiu ao apetrechá-lo com o seu icónico cinto de utilidades e uma versão rudimentar do Batcóptero. Doutor Morte (Doctor Death), o que de mais próximo de um supervilão o Batman enfrentou antes de um certo Palhaço do Crime lhe cruzar o caminho, teve também a assinatura de Gardner Fox.
Logo a abrir 1940, o número inaugural de Flash Comics incluía dois novos produtos da prodigiosa imaginação de Gardner Fox: Flash e Gavião Negro (vide texto anterior). Enquanto o primeiro era descrito como "um novo Mercúrio", numa alusão ao mensageiro dos deuses romanos, o segundo invocava os Homens-Falcão das aventuras de Flash Gordon no planeta Mongo. Gardner Fox indicava, contudo, outra fonte de inspiração: "Max Gaines (editor-chefe da All-American Publications, outra das antepassadas da DC), pedira-me que criasse duas personagens para preencher um novo título mensal que planeava lançar em breve. Certa tarde, enquanto me encontrava sentado à janela do meu escritório, reparei num pássaro que recolhia galhos para construir o seu ninho. O pássaro pousava, pegava no galho com o bico e voltava a alçar voo. E foi assim que dei comigo a pensar em como seria fantástico se o pássaro fosse um justiceiro alado e o galho um criminoso."
Sucessos instantâneos, Flash e Gavião Negro seriam pouco depois membros fundadores da Sociedade da Justiça da América . Aquele que é o mais antigo grupo de super-heróis (e outra das criações de Gardner Fox), debutou em dezembro de 1940, nas páginas de All-Star Comics nº3 e reunia, pela primeira vez, as figuras de proa da All-American Publications e da National Allied Publications. Do seu elenco fazia também parte o Senhor Destino ( Doctor Fate), o mestre das artes arcanas idealizado por - quem mais? - Gardner Fox.

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Metade do elenco original da Sociedade da Justiça da América
 era composto por criações de Gardner Fox.
Escrevendo a um ritmo alucinante, durante a Segunda Guerra Mundial Gardner Fox foi chamado a render vários dos seus colegas de profissão mobilizados para o conflito. Foi também durante esse período histórico que teve os seus serviços contratados por outras editoras que não a DC. Chegando mesmo a colaborar com a antepassada da Marvel - a Timely Comics -  antes de ocupar brevemente o posto de redator principal da Eclipse Comics.
As crescentes solicitações em nada afetaram, porém, a criatividade de Gardner Fox que continuava a aumentar o seu rol de personagens. Uma das mais bem-sucedidas fora da DC foi Skyman, um aventureiro fantasiado que pilotava um avião superveloz, criado para a Columbia Comics em 1940.

A mais bem-sucedida criação de Gardner Fox fora da DC.
À medida que, nos anos iniciais da década de 1950, o fulgor da Idade de Ouro se desvanecia e os super-heróis entravam em decadência, outros géneros narrativos se afirmavam no panorama cultural norte-americano. Com uma resiliência que parecia soltar-se-lhe dos genes, Gardner Fox abraçou-os a todos, conferindo, desse modo, à sua obra uma extraordinária amplitude de registos. De histórias do Velho Oeste a contos de terror, passando por aventuras de espionagem, de tudo um pouco saiu da sua incansável pena. A mesma que, durante essa fase, usou para escrever - não raro, sob pseudónimos masculinos e femininos -  contos, novelas e ensaios em número suficiente para preencher uma biblioteca de média dimensão.

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Duas das novelas de ficção científica editadas por Gardner Fox.
Quando a década de 1950 ia a meio, Gardner Fox fez a sua segunda passagem pela DC, notabilizando-se como um dos arquitetos da nova era a que se convencionou chamar Idade de Prata da banda desenhada.
Em resposta ao Comics Code Authority e a outros mecanismos censórios aplicados às histórias aos quadradinhos em consequência dos espasmos de moralidade mesquinha do Congresso dos EUA e das torpes acusações plasmadas no livro Sedução de Inocentes (1954), a Editora das Lendas, agora capitaneada pelo lendário Julius Schwartz, tomou a decisão de reformar o seu panteão heroico. Perfilando-se, desde logo, Gardner Fox, figura grada da Idade de Ouro, como a escolha natural para coliderar tão exigente empreitada. Que teve o seu ponto de partida em Showcase nº4, edição histórica de outubro de 1956, na qual a dupla criativa Robert Kanigher (o único escritor a superar Fox no que ao número de histórias produzidas para a DC diz respeito) e John Broome introduziram uma versão do Flash radicalmente diferente da original.
Agora um traquejado escritor de ficção científica, em 1958 Gardner Fox começou por aplicar o seu toque de Midas a Adam Strange. Criado no ano anterior por Julius Schwartz, o aventureiro espacial que era uma mescla de Flash Gordon e Buck Rogers, passaria, num ápice, de personagem descartável a nova coqueluche da DC graças à pirotecnia verbal de Fox.
Em março de 1960, Gardner Fox atualizou um conceito que ele próprio desenvolvera na Idade de Ouro em parceria com o desenhista Sheldon Mayer: a Sociedade da Justiça da América, agora renomeada Liga da Justiça da América. Em linha com a ideia original, a nova organização, cuja estreia oficial teve lugar em Brave and the Bold nº28, agrupava os principais heróis da DC. No entanto, por contraponto à sua antecessora, depressa ganharia título próprio.

Cover
A Liga da Justiça ganhou série própria em novembro de 1960.
Retomando a sua profícua sinergia com Joe Kubert, no ano seguinte Gardner Fox reformularia outra das suas criações da Idade de Ouro: o Gavião Negro. Sustentado na qualidade narrativa, o sucesso da nova versão suplantaria, uma vez mais, o conceito primordial. A prová-lo, o facto de, a exemplo da recém-criada Liga da Justiça, também a Maravilha Alada de Thanagar não ter demorado a ser contemplada com uma série periódica em nome próprio.
Embora sem influência direta na reformulação do Flash, em setembro de 1961, Gardner Fox assinou uma história do Velocista Escarlate que mudaria para sempre o Universo DC. A partir de uma ideia de Julius Schwartz e com arte a cargo de Carmine Infantino, Flash of Two Worlds (Flash de Dois Mundos) mostrava o surpreendente encontro, com lugar numa dimensão paralela, entre o Flash da Idade de Prata e a sua contraparte da Idade de Ouro.
Além de revelar o destino que haviam levado as personagens da Idade de Ouro - hospedadas na chamada Terra 2 - a história em causa lançou as bases do que seria o complexo Multiverso DC. O mais curioso acerca desta narrativa era que Barry Allen (o novo Flash) conhecia Jay Garrick (o Flash original) porque, no seu mundo, ele era um herói de banda desenhada criado por um tal... Gardner Fox. Com o tempo surgiria a rebuscada explicação de que os eventos da Terra 2 haviam, de algum modo, invadido os sonhos do escriba e que este os transpusera para o papel.

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A multicitada história dos Velocistas Escarlates de duas eras
 que foi a pedra angular do Multiverso DC.
Incentivado por Julius Schwartz, radiante com as vendas das novas personagens, Gardner Fox prosseguiu a sua onda de reinterpretações de antigos conceitos, sem contudo deixar de inovar. Já depois de ter apresentado um Átomo com novas roupagens e habilidades, em 1962 Fox introduziu o Doutor Luz como novo antagonista da Liga da Justiça.
Num ano que ficaria igualmente marcado pela criação de Zatanna (filha do mago Zatara, da Idade de Ouro), em 1964 Gardner Fox regressou às histórias do Batman. No entanto, ao invés de uma releitura do taciturno defensor de Gotham City, Fox preferiu enriquecer-lhe o imaginário resgatando do limbo dois dos seus arqui-inimigos - Charada e Espantalho - e transformando a filha do Comissário Gordon, Barbara, na nova Batgirl.
Esta segunda fase seminal de Gardner Fox seria, contudo, bruscamente interrompida em 1968. Em resultado da recusa por parte da DC em conceder seguro de saúde e outros benefícios aos seus colaboradores mais antigos, Fox bateu com a porta para não mais voltar. Desfalcando, assim, a DC numa altura em que esta disputava com a Marvel a liderança do mercado de quadradinhos.
Nos anos imediatos à sua saída da Editora das Lendas, Gardner Fox dedicou-se quase exclusivamente à literatura. Abrindo apenas um curto parêntesis, no início dos anos 70, para escrever umas dezenas de histórias publicadas em Tomb of Dracula, coletânea de contos de terror publicada pela Marvel. Essa seria, de resto a sua penúltima, passagem pelos quadradinhos antecedendo a sua fugaz colaboração, em 1985, com a Eclipse Comics, cujo produto final se resumiu à produção de uma antologia de ficção científica intitulada Alien Encounters.

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A antologia de ficção científica que marcou
 a derradeira passagem de Gardner Fox pelos quadradinhos.
Vítima de pneumonia, Gardner Fox despedir-se-ia do mundo na véspera de Natal de 1986 (coincidentemente, o ano da implosão do Multiverso DC que ajudara a criar). Contava então 75 anos de idade e sobreviveram-lhe esposa, dois filhos e quatro netos. Mas também um candente legado a que nenhuma homenagem ou honraria póstumas fará a devida justiça.
Entre outros méritos reconhecidos, Gardner Fox mostrou ser possível harmonizar quantidade e qualidade. A prová-lo, o apreciável número de prémios e louvores averbados ao longo da sua carreira. Ao conquistar, em anos intercalados, quatro Alley Awards (o primeiro, em 1962, para melhor escritor), Fox atravessou a década de 60 coberto por um reluzente manto de glória.
Ainda em vida Gardner Fox alcançaria a imortalidade ao ser uma das 50 personalidades referenciadas em Fifty Who Made DC Great, edição comemorativa lançada em 1985 para assinalar o meio século de existência da Editora das Lendas. Membro de diversos grémios literários, como o Science Fiction Writers o America, Fox seria também por eles distinguido repetidas vezes. Postumamente, o seu nome foi inserido, em 2007, no Jack Kirby Hall of Fame e, no ano seguinte, no Eisner Award Hall of Fame (equivalentes bedéfilos do Passeio da Fama cinematográfico).
Menos solenes, porém igualmente repletas de significado foram as homenagens que no decurso dos anos lhe foram sendo rendidas por oficiais do mesmo ofício. Como John Broome, ex-colega de Fox na DC e outro dos saudosos arquitetos da Idade de Prata, que ao criar o mais rebelde dos lanternas verdes o batizou de Guy Gardner.
Malgrado esta deferência dos seus pares, que continuam a celebrar a monumental obra de Gardner Fox, importa, nestes tempos sem espaço para memórias, divulgá-la junto das gerações mais recentes de leitores, por forma a evitar que acabe dissolvida como as neves de antanho. Este é o meu singelo contributo para a sua preservação.

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O insolente Guy Gardner e o homem
 que lhe deu nome retratado por Gil Kane.



Agradecimento muito especial ao meu bom e mui talentoso amigo Emerson Andrade que, com a bonomia com que sempre acede aos meus pedidos, restaurou digitalmente a imagem que serve de ilustração principal a este artigo.










sábado, 6 de setembro de 2014

EM CARTAZ: HOMEM-ARANHA 3

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   Para levar de vencida as sinistras ameaças que impendem sobre si e os que lhe são queridos, o herói aracnídeo terá primeiro de travar uma batalha interior. Menos consensual do que os seus antecessores, o último capítulo da trilogia dirigida por Sam Raimi continua, ainda assim, a ser um dos filmes mais lucrativos de sempre da Marvel.

Titulo original: Spider-Man 3
Ano: 2007
País: EUA
Género: Ação/Aventura/Fantasia
Duração: 139 minutos
Distribuição: Columbia Pictures
Realização: Sam Raimi
Argumento: Sam e Ivan Raimi
Elenco: Tobey Maguire (Peter Parker/Homem-Aranha); Kirsten Dunst (Mary Jane Watson); James Franco (Harry Osborn/ Duende Verde II); Thomas Haden Church (Flint Marko/Homem-Areia); Topher Grace (Eddie Brock/Venom); Bryce Dallas Howard (Gwen Stacy); Rosemary Harris (May Parker) e J.K. Simmons (J.Jonah Jameson)
Orçamento: 258 milhões de dólares
Receitas: 891 milhões de dólares (a terceira produção cinematográfica mais lucrativa da Marvel, superada apenas por Os Vingadores e Homem de Ferro 3)
Prémios e nomeações: Nomeado, entre 2007 e 2008, para vários prémios e galardões, Homem-Aranha 3 apenas conseguiu sair vencedor na categoria de Melhor Filme de Verão nos Golden Trailer Awards.

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Uma das cenas mais icónicas de toda a trilogia original do herói aracnídeo.
 
Produção e desenvolvimento: A produção de um terceiro filme do Escalador de Paredes arrancou em março de 2004, três meses antes da chegada às salas de cinema de todo o mundo de Homem-Aranha 2. Antevendo o sucesso comercial da sequela, os estúdios da Marvel definiram 2 de maio de 2007 ( data posteriormente alterada para 4 do mesmo mês) para a estreia do próximo capítulo de uma franquia comprovadamente rentável.
    Imediatamente após a chegada aos cinemas de Homem-Aranha 2, Sam Raimi escreveu (a meias com o seu irmão Ivan) uma primeira versão do argumento para o filme seguinte. O realizador pretendia explorar a faceta menos luminosa do herói por contraponto ao lado mais humano dos criminosos. Nesse sentido, Harry Osborn foi repescado porque Sam Raimi acreditava que ele não seguiria o legado maligno do pai, sendo antes retratado como uma personagem de moral ambígua.
    Couberam, assim, ao Homem-Areia as honras de antagonista principal, tendo Raimi ficado fascinado com o potencial visual da personagem. Apesar de, nos quadradinhos, se tratar de um criminoso de segunda linha, os argumentistas criaram-lhe um background em que era ele o verdadeiro assassino de Ben Parker, potenciando dessa forma o sentimento de culpa de Peter relativamente à morte do tio. Em última análise, Raimi descreveu a sua história como sendo uma jornada de expiação dos pecados dos protagonistas.
    Raimi desejava incluir outro vilão na trama, indo a sua preferência para o Abutre. No entanto, o produtor Avi Arad convenceu-o a optar por Venom, por forma a agradar aos muitos fãs da personagem. Na sua versão cinematográfica, Eddie Brock serve, pois, de reflexo distorcido de Peter Parker, já que ambos têm a mesma profissão e interesses românticos em comum. Por outro lado, a conduta antiética de Brock permitia explorar temas contemporâneos como os paparazzi e as perversidades do jornalismo tabloide.

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Sam Raimi relutou em incluir Venom no argumento.
  
   Os produtores sugeriram ainda que fosse acrescentada ao enredo uma disputa amorosa entre Eddie e Peter por Gwen Stacy. Com tantas alterações a adensarem a complexidade da história, a dado momento foi equacionada a hipótese de dividir o filme em duas partes. Ideia que só não vingou porque nenhum dos argumentistas conseguiu conceber um clímax intermédio.
    Entretanto, a 5 de novembro de 2005, arrancaram as gravações de cenas envolvendo grande quantidade de efeitos especiais. Processo que levou dez dias a concluir e que permitia à Sony, a exemplo do que já sucedera com Homem-Aranha 2, ir trabalhando nesses segmentos enquanto decorria a produção do resto da película.
   Entre janeiro e julho de 2006, decorreram as filmagens, tendo como cenários Los Angeles, Cleveland e Nova Iorque. Em agosto, porém, as mesmas foram retomadas dada a necessidade de incluir cenas de ação adicionais. Só no início de 2007 a produção ficaria finalmente concluída. Para esta demora contribuiu a indecisão quanto a qual das quatro versões da origem do Homem-Areia seria utilizada no filme.

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Mesmo os heróis mais nobres possuem um lado lunar.
 
Enredo: Enquanto desfruta da sua enorme popularidade como Homem-Aranha, Peter Parker planeia pedir Mary Jane (que acaba de se estrear como atriz na Broadway) em casamento. Durante um passeio noturno do casal no Central Park, um meteorito despenha-se a pouca distância deles e um simbionte alienígena atraca-se a Peter sem que este se aperceba.
    Longe dali, enquanto tenta escapar da Polícia, o criminoso evadido Flint Marko cai acidentalmente dentro de um acelerador de partículas e tem o seu ADN combinado com a areia que havia no local. Em consequência disso, adquire a capacidade de moldar a sua forma e de transformar o seu corpo em areia.
   Harry Osborn, que culpa Peter pela morte do seu pai (Norman Osborn, o Duende Verde), usa um sofisticado arsenal herdado do seu genitor para atacar o ex-amigo. Na refrega entre os dois, Harry sofre uma contusão na cabeça que o deixa parcialmente amnésico ao ponto de se esquecer que Peter e o Homem-Aranha são uma só pessoa, ficando assim suprimido o seu desejo de vingança em relação a ambos.
    Durante um festival em homenagem ao herói aracnídeo, Flint Marko rouba um carro blindado carregado de dinheiro. O capitão George Stacy, do Departamento de Polícia de Nova Iorque, informa Peter e a sua tia May que Marko foi o verdadeiro assassino de Ben Parker, sendo Dennis Carradine um simples cúmplice.
    Nessa noite, enquanto Peter tem o seu sono povoado por pesadelos, o simbionte alienígena funde-se com ele. Peter desperta pendurado no cimo de um arranha-céus envergando um uniforme negro, logo constatando que os seus poderes foram amplificados.

O célebre uniforme negro que fez furor nos quadradinhos e fora deles.

    A sua ligação com o simbionte traz, porém, à tona o seu lado mais sombrio. Assim, quando localiza o Homem-Areia num túnel do metro, o Escalador de Paredes espanca-o com violência e usa água para reduzir o vilão a uma poça de lama.
   Mary Jane, cuja carreira artística se encontra estagnada, sente-se humilhada pela súbita mudança de comportamento de Peter e busca consolo em Harry Osborn. Influenciado por uma alucinação do seu pai, Harry recupera a memória e chantageia Mary Jane para levá-la romper o seu noivado com Peter. Coagida por Harry, MJ declara-se apaixonada por outro homem, deixando Peter devastado.
    Numa atitude provocatória, Harry procura Peter para se assumir como o novo dono do coração de Mary Jane. Mais tarde, usando o seu novo traje, Peter confronta Harry. Este lança uma abóbora explosiva na direção do ex-amigo, que a rebate em pleno ar. A bomba rebenta desfigurando o rosto de Harry.
    Manipulado pelo simbionte, Peter denuncia as fotografias forjadas retratando o Homem-Aranha como um criminoso, tiradas por Eddie Brock, um fotógrafo rival do Clarim Diário. Furioso por ter de publicar um desmentido, o diretor do jornal, J. Jonah Jameson, demite Brock.
    Numa tentativa de causar ciúmes a Mary Jane, Peter faz-se acompanhar de Gwen Stacy (uma jovem que Brock acreditava ser sua namorada) à discoteca onde a sua ex-noiva trabalha atualmente. No entanto, nem tudo corre conforme desejado: ao vê-los juntos, Brock assume que Peter e Gwen namoram; apercebendo-se de que foi usada por Peter, Gwen bate em retirada; Peter, por sua vez, envolve-se numa zaragata com os seguranças do estabelecimento acabando acidentalmente por atingir Mary Jane. É nesse momento que toma enfim consciência da influência perniciosa que o simbionte vem exercendo sobre ele.

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Homem-Areia, Novo Duende e Venom: um triunvirato vilanesco de respeito.

    No campanário de uma catedral, Peter procura desesperadamente desenvencilhar-se do uniforme, que é afinal um ser vivo.Quando, acidentalmente, faz tocar o sino da catedral, as vibrações sónicas por ele emitidas enfraquecem o simbionte, e Peter consegui removê-lo de si. Em agonia, o simbionte cai no interior da edifício onde, naquele momento, Eddie Brock rezava pela morte de Peter. Encontrando em Brock um novo hospedeiro, o simbionte transforma-o em Venom. Ainda que inicialmente horrorizado com a metamorfose, logo Brock aceita a sua nova forma. Sem perder tempo, Venom vai ao encontro do Homem-Areia a fim de lhe propor uma aliança contra o Escalador de Paredes.
    Mary Jane viaja a bordo de um táxi que é sequestrado por Venom, pendurando-o de seguida numa teia sobre um enorme monte de areia num estaleiro de obras.  Perante o sucedido, Peter procura a ajuda de Harry, mas é rejeitado.
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Na BD , Gwen Stacy foi o primeiro grande amor de Peter Parker. No cinema, esse papel coube a Mary Jane Watson.

   Ao mesmo tempo que o Homem-Aranha combate sozinho os poderes combinados de Venom e do Homem-Areia, Harry descobre, através do seu velho mordomo, a verdade sobre a natureza maléfica do seu falecido pai e resolve ir em auxílio de Peter.
    Prestes a ser subjugado pelos vilões, o Homem-Aranha é salvo no último momento pela chegada de Harry usando um uniforme inspirado no primeiro Duende Verde. Unindo forças, os dois amigos conseguem levar a melhor sobre Venom e o seu comparsa.
   Venom ainda tenta usar o planador do novo Duende para empalar o Homem-Aranha, mas Harry interpõe-se e é ferido mortalmente.
   O Homem-Aranha constrói então um círculo de guizos com as suas teias, criando dessa forma uma muralha de vibrações sónicas. O simbionte liberta Brock, o qual é prontamente resgatado pelo herói aracnídeo. No entanto, quando o Escalador de Paredes atira uma das bombas-abóbora de Harry na direção do simbionte, Brock salta para junto da criatura, sendo colhido pela violenta explosão. Dela resultando a aparente morte de ambos.
    Flint Marko confessa a Peter nunca ter tido intenção de assassinar o seu tio tio. Apenas queria o seu carro para escapar à Polícia, tendo o disparo fatal ocorrido quando o seu cúmplice lhe agarrou o braço.Uma morte que o assombra desde então. Peter perdoa Marko, que se dissolve em areia e desaparece.
    Peter e Harry fazem as pazes antes deste último soltar o seu derradeiro suspiro, sendo o momento testemunhado por Mary Jane.
    Algumas noites depois, Peter visita o club de jazz onde Mary Jane agora atua como cantora e ambos começam a remendar o seu relacionamento. 
Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=8X6W2VG_MaA

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Duelo ao espelho.

Curiosidades: 
* Todos os gritos de Kristen Dunst ao longo da película foram reciclados de Homem-Aranha 2 (2004);
* Bryce Dallas Howard dispensou a utilização de uma dupla na sua cena mais arriscada, desconhecendo na altura estar grávida;
* Embora assumindo-se como um fã de super-heróis que leu as primeiras histórias de Venom na sua infância, Topher Grace viveu um verdadeiro calvário na pele do vilão. Além de muito desconfortável, o traje demorava uma hora a ser vestido (à qual se somavam outras quatro para a aplicação de próteses) e tinha de ser constantemente lambuzado com gosma por forma a conceder-lhe o seu característico aspeto viscoso. Como se isso não bastasse, o ator teve também de utilizar presas postiças que lhe feriram as gengivas;
* Um dos sons guturais emitidos por Venom no filme pertencia a um demónio da Tasmânia;
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Topher Grace teve de penar para dar vida a Venom no grande ecrã.
 * Sam Raimi foi o primeiro realizador a dirigir três filmes consecutivos de uma franquia super-heroica. Em 2012, ao concluir a sua trilogia do Cavaleiro das Trevas, Chris Nolan tornou-se o segundo cineasta a conseguir essa proeza. Raimi, de resto, na sequência do sucesso comercial de Homem-Aranha 3, foi convidado para dirigir nova sequela. Divergências entre o realizador e a Sony ditaram, porém, o seu afastamento do projeto, abrindo dessa forma caminho a um reboot  da franquia;
* Foram necessários três anos para criar os efeitos visuais que permitiram reproduzir os poderes do Homem-Areia. Por forma a compreender a dinâmica da areia, ao longo desse período foram conduzidas diversas experiências e consultados escultores habituados a trabalhar com esse material;
* Pode dizer-se que Homem-Aranha 3 foi um projeto familiar, uma vez que teve o condão de reunir os três irmãos Raimi: Sam assumiu a realização, Ivan foi coargumentista e Ted interpretou um pequeno papel como Hoffman;
* Com 139 minutos, este é o filme mais longo da trilogia original do Escalador de Paredes. É também o único em que o antagonista principal (Homem-Areia) sobrevive no final da história. Recorde-se que, nos dois capítulos anteriores, o Duende Verde e o Dr. Octopus tiveram fins trágicos;
* Segundo Grant Curtis (um dos produtores da trilogia), inicialmente estava prevista a participação do Abutre na película, tendo Ben Kingsley sido sondado para o papel. O vilão acabaria, contudo, por ser substituído por Venom, malgrado a renitência de Sam Raimi, que considerava a personagem repulsivamente desumana;
* Na BD, foi o Senhor Fantástico quem descobriu a verdadeira natureza alienígena e simbiótica do uniforme negro do herói aracnídeo. Devido aos direitos do Quarteto Fantástico pertencerem à 20th Century Fox - e não à Sony Entertainment como o Escalador de Paredes - esse mérito coube no filme ao Dr. Curt Connors (o Lagarto).

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Mary Jane e Peter: a bonança antes da tempestade.
 
Veredito:  58% 

   Depois de dois capítulos épicos que mereceram plenamente o seu sucesso, seguiu-se um terceiro menos equilibrado, balançando precariamente entre  arrebatadoras sequências de ação e monótonos intervalos dramáticos.
   Era sabido que Homem-Aranha 3 teria de superar os seus predecessores, sob pena de - como, de facto, aconteceu - a franquia perder gás. Desse imperativo decorreram, com efeito, os seus principais problemas.
   Conquanto seja maior(e mais lucrativa), a terceira aventura cinematográfica do herói aracnídeo não é, todavia, melhor do que as anteriores. Dada a profusão de personagens (no caso particular dos vilões, assenta como uma luva o velho axioma "dois é bom, três é demais") e uma intrincada tapeçaria de narrativas secundárias, o Escalador de Paredes parece ter de lutar por destaque no seu próprio filme. Facto que, por si só, justificaria a divisão do projeto em duas partes - hipótese, de resto, cogitada pelos produtores. Tal não aconteceu e, à imagem de um arranha-céus construído sobre frágeis alicerces, a película acabou por ceder ao próprio peso. Homem-Aranha 3 acaba, portanto, por ser vítima de alguma megalomania.
   Faltando-lhe em fluidez narrativa o que lhe sobra em melodrama e personagens, Homem-Aranha 3 é bem-sucedido no seu objetivo de conservar os fãs dos dois primeiros filmes (mesmo perdendo na comparação com eles), embora fracassando em arregimentar novos.
   No entanto, como vieram comprovar as duas mais recentes adaptações ao grande ecrã do Escalador de Paredes dirigidas por Marc Webb, Homem-Aranha 3 não é afinal assim tão mau como muitos sentenciaram. Não faltando por aí quem suspire já pelo regresso de Sam Raimi à cadeira de realizador...

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