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quinta-feira, 28 de setembro de 2017

FÁBRICA DE MITOS: FAWCETT COMICS



  Antes de ter a sua luz roubada pelas manigâncias de uma rival ofuscada, foi astro-rei na constelação de editoras cuja cintilação dourou os primórdios da indústria dos quadradinhos. Vítima do próprio sucesso e da cobiça alheia, a monumentalidade do seu espólio continua a fascinar os aficionados da 9ª Arte.

Preâmbulo

Por contraste com o panorama atual do mercado norte-americano de quadradinhos, sufocado pela hegemonia da Marvel e da DC, no excitante período que os historiadores da 9ª Arte convencionaram designar Idade de Ouro da banda desenhada (1938-1950), uma pletora de editoras disputavam entre si as preferências dos leitores. De igual modo, conquanto fosse o mais popular à época, o género super-heroico era tão-somente um dos muitos que, mês após mês, faziam as delícias de miúdos e graúdos.
Fiction House, Quality Comics*, Timely Comics e National Comics (estas últimas, antepassadas da Marvel e da DC, respetivamente) foram alguns dos expoentes criativos que, em contraciclo com a Grande Depressão, mais contribuíram para o desenvolvimento da incipiente indústria dos comics.
Nesse firmamento reluzente havia, no entanto, uma estrela a brilhar com maior intensidade do que as restantes, ao ponto de ofuscá-las. Se muitas das suas congéneres acabariam, eventualmente, por soçobrar nas borrascas de um mercado volátil, a Fawcett Comics foi, ironicamente, vítima do próprio sucesso.


Super-heróis, contos policiais e romances adolescentes
 eram três dos  géneros mais apreciados
 na Idade de Ouro da banda desenhada.
Como mais adiante se perceberá, essa não seria, porém, a única ironia a marcar a fulgurante trajetória dessa lendária companhia que conquistou uma legião de fãs e deu ao mundo um dos seus mais formidáveis e carismáticos heróis: o Capitão Marvel (vulgo Shazam).
Acusado de ser um plágio do Superman, o Mortal Mais Poderoso da Terra estaria no epicentro de uma longa e rocambolesca batalha jurídica cujo desfecho macularia indelevelmente essa página debruada a ouro da história da 9ª Arte. Uma página que encerra ainda inúmeros segredos e mistérios por desvelar. Sobre os quais, na minha qualidade de arqueólogo amador, aqui vou procurando derramar alguma luz.
Aperte o cinto, caro leitor, pois este artigo será o seu passaporte para mais uma emocionante jornada ao passado. Prepare-se para revisitar uma época de maior inocência e glamour em que as fábricas de mitos, alimentadas apenas pela imaginação dos seus obreiros, laboravam a todo o vapor, trucidando por vezes sonhos e sonhadores.

Reveses da fortuna

A fascinante história da Fawcett Comics começou a ser escrita quase um século atrás. Mais precisamente, em 1919. Nesse ano, um oficial veterano da I Guerra Mundial chamado Wilford Hamilton Fawcett (carinhosamente apodado de "Capitão Billy" pelos seus antigos camaradas de armas) regressou ao seu Minnesota natal para trabalhar como repórter policial num tabloide de Minneapolis. Biscate temporário que exerceu apenas até reunir as condições necessárias à abertura do próprio negócio.
Ambicioso, Wilford pretendia tirar proveito da sua experiência prévia com o boletim militar Stars and Stripes, no qual colaborara como redator durante os anos em que fora um G.I. Joe. Usando essa publicação como modelo, em outubro de 1919 o futuro patriarca do poderoso clã Fawcett lançou o icónico Captain Billy's Whiz Bang. Um almanaque humorístico recheado de anedotas e cartunes satíricos, cujo título combinava a alcunha castrense do seu autor com a designação informal de um projétil de artilharia de pequeno calibre muito utilizado pelo Exército estadunidense durante a Grande Guerra.
Destinado sobretudo a ex-combatentes e viajantes, Captain Billy's Whiz Bang depressa se converteria num fenómeno de sucesso a nível mundial. Chegando a ter, no seu auge, uma circulação mensal de 425 mil exemplares.


Wilford Fawcett (cima)
e o seu Captain Billy's Whiz Bang.
Estava assim colocada a primeira pedra de um vasto império editorial que abrangia revistas, magazines e livros de bolso. Ao longo das duas décadas subsequentes, a Fawcett Publications prosperaria,  fazendo do seu líder uma das personalidades mais abastadas e influentes da sociedade norte-americana.
O bom e velho Capitão Billy não viveria, contudo, tempo suficiente para testemunhar os reveses da fortuna da sua companhia.
Subsidiária da Fawcett Publications, a Fawcett Comics foi fundada em finais de 1940, escassos meses após o falecimento de Wilford, em fevereiro desse mesmo ano. Empenhados em honrar o legado paterno, os quatro filhos do fundador prosseguiram a estratégia de expansão por ele iniciada na década anterior, que, logo em 1934, motivara a transferência da sede do conglomerada do Minnesota para Nova Iorque.
Atento à onda de euforia em redor dos super-heróis que, por aqueles dias, varria os EUA de costa a costa, ainda em 1939, Roscoe Kent Fawcett confiara a dois dos seus colaboradores a missão de conceberem uma personagem com esse perfil. "Deem-me um Superman! Mas façam dele um garoto de 10 ou 12 anos!", exigiu o benjamim do clã, dando assim o mote para o ingresso da Fawcett Comics no fervilhante mercados dos quadradinhos.
Seguindo à risca as orientações fornecidas pelo patrão, o escritor Bill Parker e o ilustrador Charles Clarence Beck criaram um pastiche do Superman (lançado cerca de um ano antes pela National Comics), com essa notável originalidade que se revelaria crucial para o seu êxito: em vez de um adulto, o herói tinha como alter-ego um pré-adolescente chamado Billy Batson.
Surtindo o efeito desejado, esse elemento inovador fomentaria um sentimento de identificação entre os leitores desse segmento etário - que os estudos de mercado apontavam como predominante na audiência das histórias com super-heróis - e a novel personagem.

Em articulação com o escritor Bill Parker,
C.C. Beck foi um dos "pais" do Mortal Mais Poderoso da Terra.
Não obstante a sua estreia oficial remontar a fevereiro de 1940, nas páginas de Whiz Comics nº2, o Capitão Marvel (Captain Marvel, no original) protagonizara, poucos meses antes, o único volume produzido de Thrill Comics. Ainda um protótipo, nessa sua primeira aparição oficiosa, o herói atendia pelo nome de Captain Thunder - nomenclatura que seria fugazmente recuperada em 1974, aquando da sua incorporação no Universo DC.
Humor e fantasia foram os dois principais ingredientes inclusos na receita para o sucesso quase instantâneo do Capitão Marvel. Divertidas, as suas historietas - mormente quando passaram a sair da genial pena de Otto Binder**- tinham o condão de cativar leitores de todas as idades. À medida que crescia a sua popularidade, um só título deixou de ser suficiente para acomodá-las. Assim, ao longo de toda a Idade do Ouro, o Mortal Mais Poderoso da Terra desdobrou-se por Captain Marvel Adventures, Master Comics, America's Greatest Comics e, claro, pela clássica Whiz Comics.


A estreia do Capitão Marvel deu-se em Whiz Comics nº2 (1940).
A reboque do retumbante êxito da sua personagem de charneira, a Fawcett Comics não demorou a lançar uma igualmente bem-sucedida franquia. Reunindo todos os heróis detentores dos poderes concedidos pelo Mago Shazam, a Família Marvel era composta por Capitão Marvel Jr. (que teve em Elvis Presley o seu fã nº1), Mary Marvel, Tio Marvel, Tenentes Marvel e até um patusco Coelho Marvel de sua graça Hoppy (batizado de Juca, no Brasil).

Família Marvel, um clã sob o signo do sucesso.
Pese embora tivesse no Capitão Marvel o seu indisputado campeão de vendas - em meados da década de 1940, Adventures of Captain Marvel tinha uma circulação média mensal de 1,4 milhões de exemplares - o contingente super-heroico da Fawcett Comics não se restringia à Família Marvel. Personagens como Captain Midnight, Bulletman, Nyoka, the Jungle Girl e Ibis, the Invincible granjearam também apreciável sucesso e notoriedade durante o mesmo período.
Era de, facto, no ecletismo do seu cardápio editorial que a Fawcett Comics tinha a sua pedra angular. Contrariamente ao que se verificou em algumas das suas concorrentes, a forte aposta nos super-heróis em momento algum foi feita em prejuízo de outros géneros igualmente populares à época.
Histórias de guerra, Westerns e contos de terror ajudaram também a alavancar as vendas da editora para patamares invejáveis. Proeza a que não foi decerto alheia a superior qualidade do seu capital humano.





Três outros títulos emblemáticos
da Fawcett Comics.
Até à extinção da Fawcett Comics em 1953 - ditada, em idêntica medida, pela sua derrota na batalha judicial que a vinha opondo à National Comics e pelo acentuado declínio do género super-heroico no pós-guerra - por lá desfilaram nomes que se tornariam lendas vivas da 9ª Arte. Além dos já citados Otto Binder e C.C. Beck, também Jack Kirby, Joe Simon e George Tuska fizeram parte do escol de escritores e artistas cujo virtuosismo ajudou a fazer da Fawcett Comics uma referência incontornável na história da banda desenhada.
Apesar da glória efémera da Fawcett Comics, o tempo e os fãs, esses juízes supremos, encarregaram-se de lhe fazer a justiça que os tribunais lhe sonegaram. O que não impediu, ainda assim, que algumas das suas criações mais admiráveis caíssem num imerecido esquecimento, ou que fossem parar às mãos de quem sempre as cobiçara.
Através da leitura do texto seguinte, ficarão a conhecer os meandros de um intrincado processo jurídico que ainda hoje suscita controvérsia. E que, pelas suas repercussões, se reveste de suma importância no estudo da Idade de Ouro dos quadradinhos.

«J'accuse!»

Menos de dois anos decorridos sobre o seu debute, o Capitão Marvel era, como já vimos, a coqueluche da Fawcett Comics. Estatuto tanto mais robustecido pelo facto de, logo em 1941, se ter tornado o primeiro super-herói a ser adaptado ao grande ecrã.
Protagonizado por Tom Tyler (que, anos mais tarde, interpretaria também o Fantasma) e produzido pela Republic Pictures, o folhetim de 12 episódios a preto branco Adventures of Captain Marvel atraiu milhões de espectadores às salas de cinema. Objeto de culto até aos dias de hoje, constitui também uma peça essencial na memorabilia da Idade do Ouro.
Mercê das suas cifras astronómicas, a meio da década de 1940, o Capitão Marvel era não apenas o Mortal Mais Poderoso da Terra mas também o super-herói mais popular em terras do Tio Sam. Façanha que fazia dele o epítome da pujança de uma indústria que parecia adejar sobre a conjuntura económica adversa decorrente da Grande Depressão.
De facto, à medida que a sombra do Capitão Marvel se agigantava, eram muitos os seus rivais que se eclipsavam. Entre eles, a pièce de résistance da National Comics. Mais forte do que uma locomotiva e mais rápido do que uma bala, nem o Superman conseguia travar a meteórica ascensão do Mortal Mais Poderoso da Terra. Acabando mesmo destronado por ele no pódio da popularidade.
O futuro adivinhava-se risonho
 para o Capitão Marvel e o pequeno Billy Batson.
Pondo em prática o velho aforismo de que o ataque é a melhor defesa, a National Comics intentou judicialmente contra a Fawcett Comics, acusando-a de ter plagiado o seu campeão de vendas.
Importa clarificar, a este propósito, que o Capitão Marvel não foi o primeiro super-herói (tão-pouco a primeira personagem da Fawcett Comics) a ser visado por uma acusação desse cariz por parte da National Comics.
Com efeito, em 1939 a Detective Comics e a sua associada Superman Inc. (de cuja fusão resultaria mais tarde a National Comics) haviam processado a Fox Publications por plágio. Em causa esteve Wonder Man, criação de Will Eisner nesse mesmo ano que, alegadamente, emulava o conceito desenvolvido por Jerry Siegel e Joe Shuster. Essa seria, aliás, a primeira infração de copyright documentada na história da 9ª Arte. À luz desse precedente, a National Comics levaria a cabo, daí em diante, uma vigorosa defesa das suas propriedades intelectuais.

Wonder Man foi o primeiro plágio reconhecido do Superman.
No ano seguinte seria a vez de Master Man - recém-licenciado pela Fawcett Comics - ter as suas aventuras prematuramente interrompidas por ordem judicial.  Num caso como no outro, os tribunais deram provimento às acusações de plágio apresentadas pela National Comics, obrigando desse modo as referidas editoras a suspenderem de imediato a publicação das personagens transgressoras.
Para isso muito contribuiu a circunstância de, em bom rigor, ninguém saber definir com precisão o conceito de super-herói. No limite, qualquer justiceiro fantasiado poderia ser considerado uma cópia deliberada do Superman, considerado, para todos os efeitos, o arquétipo super-heroico. Isto apesar de algumas das suas idiossincrasias definidoras serem preexistentes em diversas personagens emanadas da cultura pulp. À guisa de exemplo, tal como o Homem de Aço, também o Fantasma ou o Besouro Verde possuíam identidades secretas e usavam trajes coloridos para combater o crime e salvar inocentes.
Face à ausência de melhor critério, a aferição do original e da presumível contrafação consistiu simplesmente na comparação básica. Entre as similaridades detetadas entre o Superman e o Capitão Marvel destacava-se, por exemplo, o poder de voo comum a ambos.
Sucede que, na verdade, o Homem de Aço adquirira essa capacidade já após o início do processo - até aí, limitava-se a pular bem alto. Verificando-se o mesmo no que tangia à existência de um cientista careca como seu arqui-inimigo (o Doutor Sivana precedeu Lex Luthor), assim como à introdução do Superboy - contraparte juvenil do Superman surgida em resposta ao Capitão Marvel Jr.
A origem mágica dos poderes do Capitão Marvel e a ausência de um interesse amoroso nas suas histórias serviu, em contrapartida, para diferenciá-lo do Último Filho de Krypton. Que já por essa altura namoriscava com Lois Lane, a mais afoita das repórteres. Profissão comum, de resto, a Clark Kent e Billy Batson - identidades civis, respetivamente, do Superman e do Capitão Marvel.

Plágio ou mera semelhança?
Conforme se percebe, eram, pois, quase tantas as semelhanças quanto as diferenças entre as duas personagens. O que, num primeiro momento, motivaria uma sentença surpreendente.
Malgrado o zelo demonstrado relativamente à sua propriedade intelectual, a National Comics seria, ironicamente, vítima do seu descaso. Ficou comprovado em tribunal que várias publicações do Superman tinham sido lançadas sem acautelar os respetivos direitos de licenciamento.
Numa sentença da qual nem o próprio Rei Salomão desdenharia, o juiz considerou que o Capitão Marvel era, efetivamente, um plágio do Superman, mas que a National Comics também havia sido negligente na salvaguarda da sua personagem.
Ao não ser obrigada a cessar de imediato a publicação da sua personagem, a Fawcett Comics saiu, para todos os efeitos, vencedora da primeira batalha de uma guerra jurídica que se prolongaria por doze anos.
Inconformada com o veredito desfavorável, a National Comics recorreu para um tribunal de segunda instância. Após consecutivas reviravoltas, estipulou-se por fim que cada uma das editoras deveria proceder a uma meticulosa comparação.
No entendimento do juiz, só assim se poderia averiguar objetivamente o escopo do suposto plágio. Significando isto que, na prática, haveria necessidade de comparar e justapor cada quadradinho passível de corroborá-lo ou refutá-lo.

Capitão Marvel versus Superman:
um confronto titânico iniciado na barra dos tribunais
e que continua sem vencedor definido.
Antevendo uma longa e dispendiosa litigância - que, no melhor dos cenários, resultaria numa vitória pírrica para qualquer uma das partes envolvidas - a Fawcett Comics preferiu negociar um acordo extrajudicial com a National Comics. Na base dessa decisão esteve o significativo decréscimo de vendas dos títulos estrelados pelo Capitão Marvel. Consequência, essencialmente, da fracassada tentativa de conciliar as suas histórias com elementos retirados dos contos de terror, subtraindo dessa forma a diversão que as haviam tornado tão populares.
Fechados os termos do acordo entre as duas licenciadoras, a Fawcett Comics comprometeu-se a pagar uma choruda indemnização à rival - 400 mil dólares - e a extinguir a sua linha de super-heróis com efeitos imediatos. Ficando, contudo, desobrigada de assumir publicamente o plágio que de que era acusada.
Salvo pelo Coelho Marvel, cujos direitos de publicação haviam sido entretanto adquiridos pela Charlton Comics, as restantes personagens da Fawcett Comics ficaram presas num limbo. Situação da qual a Marvel Comics tiraria proveito em 1967 ao registar o seu próprio Capitão Marvel.
Quando, em 1972, a DC Comics adquiriu os direitos sobre as personagens outrora propriedade da Fawcett Comics, viu-se desse modo obrigada a renomear o Mortal Mais Poderoso da Terra. Após várias propostas que não colheram, em 1987 o herói passaria a ser oficialmente denominado Shazam. Sem, contudo, jamais conseguir recuperar o seu fulgor de outrora que fizera dele um ídolo de multidões e um ícone da cultura popular.
Mas isso são contas de outro rosário a serem desfiadas num próximo artigo da minha lavra...

In Memoriam: Fawcett Comics (1940-1953).


*http://bdmarveldc.blogspot.pt/2017/06/fabrica-de-mitos-quality-comics.html
**http://bdmarveldc.blogspot.pt/2017/07/eternos-otto-binder-1911-1974.html


Agradecimento muito especial ao meu bom amigo Emerson Andrade que, com a sua costumeira bonomia, executou a belíssima composição gráfica que serve de ilustração principal ao presente artigo. Para ele, um abraço do tamanho do oceano que nos aparta.


































domingo, 23 de julho de 2017

ETERNOS: OTTO BINDER (1911-1974)


  Escreveu alguns dos títulos mais populares da Idade do Ouro e da Prata ao mesmo tempo que ajudava a criar um magote de personagens inesquecíveis. Apesar desses admiráveis pergaminhos, continua a ser um dos mais menosprezados autores da 9ª Arte. Apaixonado pela ficção científica, perfilhou teorias exóticas sobre as origens da Humanidade antes de sucumbir a uma tragédia familiar.

O mais novo dos seis filhos de um casal de imigrantes austríacos recém-chegados a terras do Tio Sam, Oscar Otto Binder nasceu a 26 de agosto de 1911 em Bessemer, pequena cidade do Michigan assim batizada em homenagem a Sir Henry Bessemer, engenheiro britânico do século XIX inventor do processo de fabrico do aço.
Devido às suas raízes familiares centro-europeias, Otto, tal como os irmãos, foi educado de acordo como os preceitos morais e religiosos do Luteranismo. Em 1922, quando se despedia da infância para embarcar na odisseia da puberdade, a sua família resolveu trocar a modorra de Bessemer pela azáfama de Chicago. Foi na grande metrópole do Illinois que Otto e o seu irmão favorito, Earl, se deixaram seduzir pelo charme kitsch das historietas de ficção científica. Género que, naquela época e sobretudo entre os mais jovens, gozava de uma crescente popularidade.
Em vez de, como seria de esperar, contribuir para o esmorecimento da paixão assolapada dos manos Binder pela ficção científica, a passagem do tempo teve o condão de espevitá-la ainda mais. Levando-os mesmo a aventurarem-se na escrita de narrativas desse jaez. Sob o pseudónimo Eando Binder (acrónimo de "E and O", composto pelas respetivas iniciais),  Earl e Otto conseguiram vender a sua primeira produção literária conjunta em 1930. Intitulada The First Martian (O Primeiro Marciano), seria dada à estampa dois anos depois em Amazing Stories, o primeiro - e, provavelmente, o mais duradouro - magazine exclusivamente dedicado à ficção científica, que vinha sendo editado desde a primavera de 1926.

A história I, Robot, de Eando Binder, em destaque na capa desta edição de 1939
do magazine de ficção científica Amazing Stories.
Cientes de que essa atividade, por si só, não lhes garantiria a sobrevivência económica, os irmãos Binder exerceram paralelamente vários outros ofícios. Enquanto Earl calejava as mãos numa fundição na periferia de Chicago, Otto rumou a Nova Iorque. Fê-lo na qualidade de agente literário ao serviço de Otis Kline, afamado autor de novelas de ficção científica - conhecido, também, pela sua amizade (e pretensa parceria literária) com Edgar Rice Burroughs, o criador de Tarzan - , recentemente convertido em editor e empresário.
Durante o curto período como agente literário, Otto ficou essencialmente encarregue da divulgação das obras do então desconhecido Robert E. Howard, "pai" de Conan, o Bárbaro e do subgénero conhecido como Espada & Feitiçaria.
A partida do benjamim do clã Binder para a Cidade Que Nunca Dorme fora precedida pela dissolução da sua sociedade com Earl. Mesmo sendo agora o único autor das estórias de ficção científica que ia vendendo a magazines e outras publicações especializadas, como a Thrilling Wonder Stories e a Amazing (para a qual desenvolveu a cultuada série de Adam Link, o robô senciente criado à imagem e semelhança dos humanos), continuou a assiná-las com o velho pseudónimo que incluía a inicial do irmão.

Em Adam Link Otto Binder teve a sua
  piéce de résistance no campo da ficção científica.
Sopravam ventos benfazejos na vida de Otto Binder até que os nefastos efeitos da Grande Depressão que devorava o coração da economia estadunidense obrigaram Otis Kline a cerrar as portas da sua editora, apenas um ano e meio decorrido sobre a sua fundação.
Vendo-se repentinamente privado da sua principal fonte de rendimento, em 1939, por sugestão de outro dos seus irmãos, Jack Binder (autor do Daredevil original), Otto resolveu tentar a sua sorte na fervilhante indústria dos comics. Pela mão de Jack, que há um par de anos lá vinha trabalhando como ilustrador, Otto juntou-se, assim, ao staff do estúdio Harry Chesler, um dos muitos que, no dealbar da Idade do Ouro, supriam as necessidades das cada vez mais numerosas editoras de banda desenhada.
Seria, no entanto, meteórica a passagem de Otto Binder pelo estúdio de Harry Chesler. Cerca de um ano depois de lá ter entrado pela primeira vez, estava já de malas aviadas para a Fawcett Comics, a recém-fundada subsidiária da Fawcett Publications.
Num primeiro momento, Otto Binder assumiu as histórias de personagens secundárias da Fawcett, como Bulletman, El Carim ou Golden Arrow. A sua criatividade e desenvoltura não passaram, porém, despercebidas ao editor Ed Herron que, em meados de 1941, lhe confiou os destinos da estrela da companhia: Captain Marvel (vulgo Shazam; não confundir, portanto, com o seu homónimo da Casa das Ideias).
Capitalizando o sucesso da série de ação real do Mortal Mais Poderoso da Terra (a primeira adaptação ao grande ecrã de um super-herói) que, por esses dias, atraía milhares de espectadores de todas as idades aos cinemas, a novela pulp The Return of the Scorpion foi, ainda em 1941, a primeira história do Capitão Marvel com o cunho de Otto Binder. Registando-se no ano seguinte o seu debute oficial como argumentista da série periódica do herói, em Captain Marvel Adventures nº9.

A edição que marcou a estreia de Otto Binder
como argumentista do Mortal Mais Poderoso da Terra.
Por conta da pródiga imaginação de Otto Binder, o título mensal do Capitão Marvel ganharia novo elã, destronando mesmo o Superman no pódio das vendas. Enquanto a coqueluche da DC Comics era assim inapelavelmente ofuscada (embora inconfessado, seria esse um dos verdadeiros motivos que, anos depois, levariam a Editora das Lendas a processar a Fawcett por um alegado plágio), o brilho de Otto Binder era mais intenso a cada dia que passava. E não tardou a irradiar um conjunto de spin-offs estrelados pelos igualmente icónicos Captain Marvel Jr. e Mary Marvel, esta última criada a meias por Otto Binder e o artista Marc Swayze, em dezembro de 1942.
Aqui ficam alguns números impressionantes que ilustram bem a envergadura da obra de Otto Binder ao serviço da Fawcett Comics: entre 1941 e 1953, ele escreveu 986 das 1743 histórias do Capitão Marvel, correspondendo, grosso modo, a 60% do total das que foram publicadas durante esse período. Ao longo do qual Otto concebeu, em articulação com C.C, Beck (o lendário criador do Mortal Mais Poderoso da Terra) e Marc Swayze, um magote de personagens que se tornariam emblemáticas.
Além da já citada Mary Marvel, Black Adam (Adão Negro), Uncle Dudley (Tio Marvel), Tawky Tawny (o tigre falante conhecido entre o público lusófono como Senhor Malhado) e os pérfidos filhos adolescentes do Doutor Sivana - Sivana Jr. e Georgia Sivana - completavam esse rol de coadjuvantes de luxo. Refira-se, a este propósito, que, em 1953, quando já se adivinhava o canto do cisne da Fawcett Comics, Otto Binder e C.C. Beck viram frustrada a sua intenção de produzir uma tira de jornal protagonizada pelo Senhor Malhado.



Mary Marvel (cima) e Adão Negro foram duas das mais icónicas criações
 de Otto Binder para a Fawcett Comics.
Ao imprimir nos enredos da Família Marvel a lógica dos sonhos, Otto Binder cumpria na perfeição os desejos de qualquer criança sem, contudo, infantilizar em demasia as suas narrativas. Exorbitando frequentemente as fronteiras da imaginação, as aventuras dos discípulos do mago Shazam tanto podiam transportar os leitores para um conto de fadas como para um plano surreal. Foi, pois, essa dimensão onírica que fez de Captain Marvel Adventures um caso sério de popularidade, mobilizando, mês após mês, o interesse e a imaginação de milhares de leitores.



Tigres falantes e planetas vivos?
Nas histórias do Capitão Marvel saídas da pena de Otto Binder tudo era possível.
Mesmo após a extinção da Fawcett Comics, Otto Binder agora um escriba consagrado, continuou sem mãos a medir. Até finais de 1954 (ano em que assentou arraiais na DC Comics, com a qual vinha colaborando pontualmente desde 1948), desdobrou-se entre a Timely Comics e a Quality Comics*.
Para a primeira, Otto escreveu histórias do Capitão América, Príncipe Submarino e do Tocha Humana original**, ícones da Idade do Ouro e personagens de charneira daquela que seria a precursora da Marvel Comics. Sobrando-lhe ainda tempo e imaginação para participar na criação de The Whizzer (Ciclone) e All-Wiinners Squad (Esquadrão Vitorioso).
Já para  segunda, o seu trabalho consistiu em escrever algumas das suas séries periódicas mais bem-sucedidas, nomeadamente Blackhawk, Doll Man e Uncle Sam. Para não fugir à regra, foi ainda cocriador de Kid Eternity (Kid Eternidade) que, sem embargo, se converteria numa das figuras de proa da Quality Comics.
Há ainda a registar, durante esse ínterim que preludiou a sua transferência para a DC, algumas colaborações episódicas com a MLJ Comics (antecessora da Archie Comics), a Gold Key Comics (para qual criou Mighty Samson, um das personagens mais icónicas da editora) e com a EC Comics (onde voltou a escrever histórias de ficção científica).
Na DC, Otto Binder reencontrou um velho conhecido dos seus tempos na Thrilling Wonder Stories: o editor Mort Weisinger. Sob a sábia batuta de Weisinger, Otto, que nunca foi homem de ficar arrimado às glórias pretéritas, empreendeu nova fase seminal, que mudaria para sempre a mitologia do Superman.
Assim, ao longo de década e meia, de 1954 a 1969, Otto Binder assumiu sozinho o catálogo de títulos do Homem de Aço (no qual pontificavam os históricos Superman, Superboy e Action Comics), introduzindo neles um lote de personagens inéditas que logo se tornariam presença assídua nas aventuras do campeão de Metrópolis.

Otto Binder era um mestre do burlesco
que caracterizou a Idade da Prata dos comics.
Entre os conceitos que ajudou a desenvolver nesse contexto, avultavam - citando somente os mais emblemáticos - Supergirl, Brainiac, Bizarro e a Legião dos Super-Heróis. Se a participação de Otto Binder na conceção de Bizarro é por vezes contestada, é consensual que a versão mais conhecida do vilão é da sua autoria. Assim como outros elementos que, no decurso da Idade da Prata. se tornaram recorrentes nas aventuras do Superman. A saber: a Zona Fantasma, o relógio-sinalizador de Jimmy Olsen e a cidade engarrafada de Kandor, essa fascinante reminiscência da civilização kryptoniana.

Supergirl, uma das mais acarinhadas cocriações de Binder
 ao serviço da Editora das Lendas.
O estilo narrativo de Otto Binder correspondia, com efeito, ao epítome da Idade da Prata dos quadradinhos. Caracterizada, entre outros aspetos, pelos conflitos derivados da ansiedade das personagens e pelas tramas rocambolescas com reviravoltas a condizer. Não admira, portanto, que o trabalho de Otto Binder tenha feito escola, sendo emulado por muitos argumentistas da sua geração.
Mesmo depois de ter abandonado a DC por razões pessoais que mais adiante explanarei, Otto Binder não foi esquecido pelos seus pares. Quando, em 1972, foi publicada a primeira história do Capitão Marvel (entretanto renomeado de Shazam) com a chancela da Editora das Lendas, foi-lhe rendida uma singela homenagem. Desenhado pelo próprio C.C. Beck, Otto Binder surgia como um dos coadjuvantes do Mortal Mais Poderoso da Terra naquela edição histórica.
Ironicamente, a referida homenagem coincidiu com um dos períodos mais infaustos da vida de Otto Binder. Se na indústria dos comics trazia o sucesso e o prestígio à ilharga, fora dela a desdita fez-lhe marcação cerrada, sombreando-lhe os dias com as cores negras do fracasso e da tragédia.
No início dos anos 1960 - sem que daí adviesse prejuízo para o fenomenal trabalho que continuava a executar na DC - ,  Otto Binder foi cofundador e editor-chefe de Space World, um magazine de Astronomia. Vítima das fracas vendas, o projeto seria, porém , cancelado após 16 números, deixando Otto Binder em grandes apuros financeiros.
Apesar de ter hipotecado a própria casa e de ter desbaratado todas as suas poupanças, Otto continuava endividado até ao tutano. Não tendo, portanto, outro remédio se não adiar a sua reforma e o seu sonho  de se tornar escritor de ficção científica a tempo inteiro. O que não o impediu de dar largas à sua veia literária.

O falhanço de Space World deixou Otto Binder em maus lençóis.
Indefetível da controversa Teoria dos Astronautas Ancestrais, cujos postulados pseudocientíficos foram apresentados pela primeira vez em 1919 pelo escritor americano Charles Fort, Otto Binder foi o autor de dois livros dedicados ao assunto: Flying Saucers Are Watching Us (Os Discos Voadores Observam-nos, de 1968) e, em coautoria com Max Flindt, Mankind Child of Stars (Humanidade Filha das Estrelas, 1974). Ambas as obras serviram para Otto Binder sustentar a hipótese de a Humanidade ser uma espécie híbrida, resultado de experimentos de bioengenharia realizados por extraterrestres que visitaram o nosso planeta milénios atrás.

O primeiro dos dois livros de Otto Binder
dedicados à controversa Teoria dos Astronautas Ancestrais.
Crenças que nem a tragédia familiar sofrida anos antes conseguira abalar. Em 1967, a única filha do casal Binder (Mary, de apenas 14 anos) fora colhida mortalmente por um automóvel desgovernado à entrada da escola onde estudava.
Devastados, Otto e a esposa nunca recuperaram do desgosto. Enquanto ele afogava as mágoas na bebida, ela sufocava lentamente no abraço viscoso da depressão. Na viragem da década, já depois de Otto ter abandonado definitivamente a DC, o casal ainda ensaiou um novo começo fora de Nova Iorque. Uma fuga para a frente precocemente interrompida pelo falecimento da mulher.
Até ser fulminado por um ataque cardíaco em outubro de 1974 (escassos meses após o seu regresso a Nova Iorque), Otto Binder, apesar do espírito esmagado, devotou os últimos dias da sua vida à mais imorredoura das suas paixões: as histórias de ficção científica. Agora ao serviço da Pendulum Press, ganhava a vida a escrever adaptações aos quadradinhos de clássicos da literatura fantástica como Frankenstein e 20.000 Léguas Submarinas.
O reconhecimento, esse, seria tardio mas condigno. Em 2004, cumpridos trinta anos sobre o seu desaparecimento, o nome de Otto Binder seria inscrito no Will Eisner Hall of Fame. Seis anos antes de ser contemplado com um Bill Finger Award, galardão que, desde 2005, laureia (quase sempre a título póstumo) a nata dos escritores de banda desenhada.
Com menos pompa e circunstância, também os produtores de Supergirl não deixaram de homenagear o cocriador da Última Prima de Krypton. Otto Binder era o nome da ponte que, no episódio-piloto da série, a heroína de aço evita que seja destruída por um avião em queda.
Acredito, no entanto, que o maior tributo que poderá ser prestado a este gigante da Nona Arte consistirá na (re)descoberta da vastíssima obra que nos legou, e que merece ser reverenciada. Faço, por isso, votos para que esta minha modesta evocação de Otto Binder sirva esse propósito. A ele, o meu muito obrigado pelos momentos inesquecíveis que as suas histórias me proporcionaram. Sem elas,a minha infância teria sido decerto menos divertida e empolgante.

Otto Binder (1911-1974).
«O mérito é como os rios: quanto mais profundo, menos ruído faz.»
(George Halifax, estadista inglês do século XVII)

* http://bdmarveldc.blogspot.pt/2017/06/fabrica-de-mitos-quality-comics.html
** http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/11/herois-em-acao-tocha-humana.html


































terça-feira, 22 de janeiro de 2013

ETERNOS: C.C. BECK (1910-1989)




      Advém da criação da Família Marvel a notoriedade de C.C. Beck - pseudónimo de Charles Clarence Beck - que, no entanto, só postumamente obteve o reconhecimento merecido.

     Charles Clarence Beck nasceu a 8 de junho de 1910 em Zumbrota, no estado norte-americano do Minnesotta. Na sua juventude estudou na Academia de Belas Artes da Universidade do Minnesota, tendo também tirado um curso de ilustração por correspondência. Pouco mais se sabe da sua vida pessoal.
      A sua carreira profissional principiou em 1933, quando Beck se juntou à editora Fawcett Comics, onde trabalhou como ilustrador em vários títulos pulp. Seis anos depois, quando a Fawcett decidiu apostar na publicação de banda desenhada com super-heróis, foi designado para desenhar uma personagem idealizada pelo escritor Bill Parker: Captain Thunder. Contudo, antes que o primeiro número da série Whiz Comics fosse lançado, a personagem em questão foi rebatizada de Captain Marvel. Além das aventuras do Mortal Mais Poderoso da Terra, Beck também ilustrava à época outros dois títulos publicados pela Fawcett: Spy Smasher e Ibis, The Invencible.
   O estilo que Beck imprimiu nas primeiras histórias do Capitão Marvel  serviria de bitola aos seus sucessores à frente da série. Beck privilegiava um traço mais próximo do habitualmente empregue em cartoons. Esse estilo límpido permitia, quer aos seus assistentes quer a outros ilustradores da casa, imitarem facilmente o seu trabalho.

A arte de C.C. Beck marcaria para sempre o visual das histórias do Capitão Marvel.

     Decorrente da crescente popularidade do Capitão Marvel, floresceram vários outros títulos relacionados com o universo do herói. Em consequência disso, Beck teve condições para criar o seu próprio estúdio em Nova York, corria o ano de 1941. Algum tempo depois abriria um segundo, em Nova Jérsia. Ambos os estúdios de Beck forneciam a maior parte do material artístico utilizado nas várias séries que tinham a Família Marvel (Capitão Marvel, Mary Marvel, Capitão Marvel Jr. e um lote de derivados) como protagonistas.
     Durante esse período áureo, Beck assumiu as funções de Diretor de Arte na Fawcett Comics. Cargo que lhe permitiu promover um visual coerente em todas as histórias do Capitão Marvel e restante Família Marvel, assegurando assim que estas se mantinham fiéis ao seu estilo original. Paralelamente à produção de comics, os estúdios dirigidos por Beck também fizeram sucesso na publicidade comercial.

Retrato oficial da Família Marvel pela mão do seu criador.

      Nos primeiros anos da década de 1950, porém, tudo mudaria. Após anos de litigância jurídica devido ao processo movido pela National Comics (antecessora da atual DC) contra a Fawcett, por alegado plágio do Capitão Marvel em relação ao Super-homem, esta última concordaria em cancelar a publicação da sua personagem de charneira. Não terá sido contudo alheia a esta decisão a acentuada quebra de vendas verificada nos títulos da Família Marvel.
      Com a falência da Fawcett, Beck abandonou a indústria dos quadradinhos, dedicando-se durante um curto período de tempo em exclusivo à publicidade. Não obstante, em parceria com o argumentista Otto Binder, Beck ainda apresentou alguns esboços para tiras diárias a serem publicadas num jornal, e que seriam estreladas por Tawky Tawny, um tigre falante com aspeto humanoide. O projeto foi, no entanto, sumariamente rejeitado pelos vários jornais a que a dupla o remeteu. Anos mais tarde, Tawky Tawny seria reabilitado e incorporado no renovado universo do Capitão Marvel, então já propriedade da DC.
Tawky Tawny foi crismado de Senhor Malhado no Brasil.

      Em meados de 1953, Beck mudou-se para Miami onde gerenciou um bar. Apesar de o negócio prosperar, nesse mesmo ano contactou Joe Simon (cocriador do Capitão América), expressando-lhe o seu desejo de regressar à indústria dos comics. Simon, por sua vez, procurava um ilustrador talentoso para desenhar os esboços da nova personagem que pretendia lançar. Dessa sinergia resultou The Silver Spider, com Beck a desenhar uma história escrita por Jack Oleck. Contudo, a personagem não vingaria, tendo sido rejeitada pela Harvey Comics.
      Na esteira de mais esse revés, só em meados da década seguinte Beck se aventuraria novamente a ilustrar banda desenhada. Da sua fugaz colaboração com a igualmente fugaz Milson Publications, resultou a criação de Fatman: the Human Flying Saucer, uma personagem que, em última análise, era o reverso do Capitão Marvel, embora dotada de poderes muito diferentes. Com a revitalização do Mortal Mais Poderoso da Terra operada pela DC, em 1973 Beck mudou-se de armas e bagagens para a antiga concorrente, tendo assumido a arte da neófita série SHAZAM!. Abandonaria, porém,  o projeto ao fim de seis edições, por alegadas divergências criativas com os argumentistas.
      A convite do escritor E. Nelson Bridwell, Beck ainda escreveu uma história intitulada Captain Marvel Battles Evil Incarnate. No entanto, as inúmeras alterações editoriais à mesma, deixaram Beck descontente ao ponto de desistir de desenhá-la.

Criador e criatura reunidos numa caricatura datada de 1975.

      Uma vez aposentado, Beck passou a escrever regularmente uma coluna de opinião para o The Comics Journal. Um dos tópicos recorrentemente abordados eram as suas objeções ao crescente realismo que caracterizava a arte dos quadradinhos, por contraponto ao estilo simples (e até pueril) que sempre cultivara.
      Nos anos que precederam a sua morte, Beck dedicou-se a recriar capas emblemáticas da Idade do Ouro, nas quais figuravam tanto super-heróis, como o Pato Donald e outras personagens da Disney.
      Em abril de 1980, Beck tornou-se o editor do boletim informativo da Fawcett Collectors of America (uma espécie de fanzine que pretendia dar a conhecer o universo da defunta editora). Problemas de saúde ditaram, no entanto, o afastamento de Beck do projeto ao cabo de 19 edições.
      Em resultado de uma insuficiência renal, Beck faleceria no dia 22 de novembro de 1989 em Gainesville, Flórida. Tinha 79 anos.
     No ano seguinte veria reconhecido o seu trabalho ao ser nomeado finalista para o Jack Kirby Hall of Fame, onde teria o seu nome inscrito em 1997. Antes, em 1993, venceu, a título póstumo, o conceituado Prémio Will Esiner (uma espécie de Óscar dos quadradinhos).
     Porquanto para os leigos e para as novas safras de leitores de comics, C.C. Beck permanece ainda um ilustre desconhecido, presto aqui o meu humilde tributo a um criador que, goste-se ou não do seu estilo, merece decerto figurar no panteão dos Eternos.
        
C.C. Beck numa sessão de autógrafos durante uma convenção de BD.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

NÉMESIS: ADÃO NEGRO




      Um heroi do Antigo Egito com poderes divinos é corrompido e passa a usar as suas habilidades para o Mal. Assim nasceu o Adão Negro (Black Adam), um dos mais temíveis supervilões do universo DC.

Criadores: C.C. Beck e Otto Binder
Primeira aparição:The Marvel Family nº1 (dezembro de 1945)
Licenciador: Fawcett Comics (1945-1973) e Detective Comics (atual detentora dos direitos da personagem)
Identidade civil: Teth-Adam
Origem: Egito
Família conhecida: Isis (esposa) e Osiris (cunhado)
Filiação: Sociedade da Justiça da América, Sociedade Secreta dos Supervilões, Esquadrão Suicida, etc.
Base de operações: móvel
Poderes e habilidades:  concedidos pelo mago Shazam os poderes do Adão Negro derivam de seis divindades do Antigo Egito: a resistência de Shu, a velocidade de Heru, a força de Amon, a sabedoria de Zehuit, o poder de Aton e a coragem de Mehen. Note-se que as iniciais dos seis deuses formam o acrónimo SHAZAM.

     Milhares de anos atrás, durante a 19ª dinastia do antigo Egito, um homem chamado Teth-Adam tornou-se o primeiro a ser agraciado com imensos poderes sobrenaturais pelo mago Shazam. Sempre que pronunciava o nome do mago, Teth-Adam transformava-se no mortal mais poderoso da Terra.
    Durante anos, Teth-Adam atuou como heroi por todo o Egito e depois veio a servir o Príncipe Khufu, com quem permaneceu até este ser assassinado. Logo após a morte de Khufu, morreram também  a sua esposa e os seus filhos. Revoltado, Teth-Adam começou a usar os seus poderes para objetivos egoístas.  Decidiu então tomar o trono deixado vago pelo faraó e  governar o mundo. Ganhou assim um novo nome, que era sussurrado com temor por todo o Egito: Khem-Adam (Adão Negro).
    Sentindo-se parcialmente culpado pela terrível corrupção de Teth-Adam, Shazam despojou-o dos seus poderes, colocando-os  num amuleto em forma de escaravelho. Não satisfeito, Shazam baniu o Adão Negro para a estrela mais longínqua do universo.
    O amuleto foi enterrado com o Faraó Ramsés II e permaneceu intacto até meados do século XX, quando o casal de arqueólogos C.C. e Marilyn Batson o descobriram. O casal foi brutalmente assassinado pelo seu sócio, Theo Adam, que pouco depois libertou os segredos do escaravelho, recebendo os poderes e memórias do Adão Negro. O filho dos Batson, Billy, foi escolhido pelo mago Shazam como o seu novo campeão. Nascia assim o Capitão Marvel, a contraparte benigna do Adão Negro e, por conseguinte, destinado a ser o seu oponente por excelência. Não obstante, ambos firmaram alianças pontuais para defrontar ameaças comuns.
     Com a ajuda dos outros dois membros da Família Marvel (Mary Marvel e Capitão Marvel Jr.),  o Capitão Marvel enfrentou Adão Negro diversas vezes. A antiga moralidade de Teth-Adam ressurgiu e Adão Negro ajudou a Sociedade da Justiça (SJA) a derrotar Johnny Pranto e a Sociedade da Injustiça. 
    Aclamado como o heroi que fora outrora, Teth-Adam foi aceite como membro da SJA, apesar de nem todos os membros da equipa acreditarem na sua regeneração.
   Com o passar do tempo, a paciência do Adão Negro para com os métodos da SJA foi diminuindo e as suas ações tornaram-se cada vez mais violentas. A situação atingiu um limite após o terrorista Kobra sair impune dos seus crimes. Adão Negro reuniu então um grupo de vigilantes que, logo na sua primeira missão, executa Kobra. Buscando honrar a memória da sua família, Adão Negro resolve libertar sua terra natal Kahndaq. Com a ajuda dos seus novos aliados ele consegue tomar o poder e libertar o seu povo. Porém, acaba tendo que enfrentar a Sociedade da Justiça. Depois de uma sangrenta batalha, é feito um pacto no qual a SJA aceita que Kahndaq fique sob a responsabilidade do Adão Negro, mas ,em troca, ele fica exilado no seu país.
     O visual do Adão Negro é muito semelhante ao do Capitão Marvel com a diferença de que não usa capa e o negro do seu traje substituiu o encarnado do uniforme do Mortal Mais Poderoso da Terra. É ainda curiosa a sua semelhança física com o ator Boris Karloff (que protagonizou "Nosferatu" no cinema), em especial as orelhas pontiagudas.
     Fora dos comics, o Adão Negro foi o vilão de serviço no filme de animação "Superman/Shazam: The Return  of  Black Adam" (2010) e no videojogo "DC Universe Online"(2011). Correm ainda rumores de que o ator Dwayne "The Rock" Johnson encarnará o vilão num futuro filme baseado nas histórias do Capitão Marvel.