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terça-feira, 6 de dezembro de 2016

CLÁSSICOS REVISITADOS: «GUERRA CIVIL»




   Heróis contra heróis. Liberdade versus segurança. Antigos camaradas de armas atirados para lados opostos da barricada num conflito fratricida de proporções épicas. Entrincheirados nas suas convicções, os dois homens que os comandam estão dispostos ao sacrifício supremo em prol do que acreditam ser um futuro melhor. Por quem dobrarão os sinos?

Título original: Civil War
Data de publicação: Julho de 2006 a fevereiro de 2007
Categoria: Minissérie em sete edições mensais
Licenciador: Marvel Comics
Autores: Mark Millar (enredo), Steve McNiven (ilustrações) e Dexter Vines (cores)
Personagens principais: Capitão América (Captain America), Homem de Ferro (Iron Man), SHIELD, Quarteto Fantástico (Fantastic Four), Pantera Negra (Black Panther), Tempestade (Storm), Homem-Aranha (Spider-Man), Vingadores Secretos (Secret Avengers) e Atlantes (Atlanteans)
Coadjuvantes: Novos Guerreiros (New Warriors), X-Men, Inumanos (Inhumans) e O Vigia (The Watcher)
Vilões: Nitro e Ragnarok
Cenários: Stamford (Connecticut), Zona Negativa e vários pontos da cidade de Nova Iorque
Guia de leitura: http://www.howtolovecomics.com/2014/11/30/marvel-civil-war-reading-order-guide/



O alfa e o ómega de uma guerra perdida.

                                    
Edições em Português: No Brasil, a primeira edição de Guerra Civil na língua de Camões remonta a 2007/08, tendo sido publicada sob os auspícios da Panini Comics. Além dos sete fascículos mensais que a compunham, foram igualmente lançados no mesmo período vários volumes correlatos, designadamente Rumo à Guerra Civil e Guerra Civil Especial. Ainda com a chancela da mesma editora, nos anos imediatos a saga teria direito a diversas republicações em diferentes formatos.
Também por Terras Tupiniquins, em 2014 seria a vez de a Salvat dedicar a esta obra capital um volume encadernado na sua Coleção Oficial de Graphic Novels da Marvel.
Do outro lado do Atlântico, em Portugal, as honras de edição couberam à Levoir que, em 2012, incluiria Guerra Civil na sua coletânea de histórias essenciais da Casa das Ideias.

A edição portuguesa da saga lançada pela Levoir.

Antecedentes:
 Em retrospeto, podemos afirmar que em, certa medida, as sementes da Guerra Civil começaram a ser plantadas em 1981. Nesse já longínquo ano, Chris Claremont e John Byrne exploraram pela primeira vez a ideia de os mutantes e demais superseres terem as suas atividades controladas pelo Governo dos EUA em X-Men: Days of Future Past (X-Men: Dias de um Futuro Esquecido).
Noutra história dos Filhos do Átomo, publicada em 1984 nas páginas de Uncanny X-Men nº181, era discutida no Congresso uma proposta de lei que contemplava a obrigatoriedade do registo de todos os Homo Superior residentes em território norte-americano.
Aprovada em tempo recorde, a medida requeria o registo junto das autoridades federais de qualquer indivíduo nascido com habilidades mutantes, tão-logo as mesmas se manifestassem. Para supervisionar a aplicação da nova legislação, foi criado o controverso Comité de Atividades Meta-Humanas. Com o qual, ao longo dos anos, heróis como o Capitão América, os Vingadores e o X-Factor se incompatibilizariam.
Desdobramento da Lei do Registo de Mutantes, em 1990 entraria em vigor a Lei do Registo de Superseres. Com um escopo mais lato do que a sua antecessora, abrangia todos os indivíduos que, mesmo tendo nascido sem o gene X no seu ADN, haviam adquirido capacidades sobre-humanas por outros meios. Ironicamente, na eventualidade de ter sido aprovada nesses moldes, a lei deixaria de fora vigilantes como o Justiceiro ou a Viúva Negra, conhecidos pela letalidade dos seus métodos no combate à criminalidade, porém ambos simples humanos.

O primeiro ensaio de cadastramento de superseres
 ocorreu em X-Men: Days of Future Past (1981).

Face à celeuma instalada, Reed Richards foi convidado a depor perante um comité especial do Congresso. Numa análise clarividente, como é seu timbre, o líder do Quarteto Fantástico denunciou as incoerências da lei, bem como a sua futilidade. Desde logo porque a supervisão governamental serviria tão-somente para dificultar a ação dos super.heróis, Mas, também, por causa da flagrante subjetividade que presidia à definição de "superseres" vertida no respetivo texto. E que, conforme ficou comprovado, daria azo a toda a sorte de arbitrariedades.
Sensíveis à argumentação de Richards, os membros do comité deliberaram a revogação imediata da Lei do Registo de Superseres. Uma pequena vitória que, contudo, não encerrou o debate em torno da necessidade de monitorização das atividades dos meta-humanos. De facto, em 1993, seria a vez de o Canadá promulgar um pacote legislativo decalcado do americano. Com a diferença de, apesar de se manter em vigor desde essa data, nunca ter espoletado qualquer conflito no seio da comunidade meta-humana do grande vizinho do Norte.
Porventura encorajados por esse precedente, em 2006 um grupo de congressistas norte-americanos entendeu por bem ressuscitar a Lei do Registo de Superseres. Cuja versão revista ia mais longe do que qualquer uma das anteriores ao abranger igualmente indivíduos desprovidos de superpoderes mas detentores de tecnologia avançada e/ou exótica (leia-se: de origem alienígena, mística ou outra). Categoria onde se encaixava, por exemplo, a armadura do Homem de Ferro. Precisamente a primeira voz a alertar para os enormes perigos que uma medida dessa natureza comportaria.
Perante o Senado, Tony Stark, tal como antes dele fizera Reed Richards, apontou o dedo ao caráter subjetivo dos conceitos contemplados pela lei. Advertindo de caminho para as eventuais consequências nefastas de os heróis e vigilantes virem a ter a sua liberdade de ação coartada pelas autoridades oficiais.
Determinado em fazer valer o seu ponto de vista, Stark contratou em segredo um supervilão para atentar contra a sua própria vida e resolveu usar o Homem-Aranha como peão. Ignorando que tudo não passava de uma encenação, o herói aracnídeo foi em socorro do magnata em apuros. Enquanto confrontava o agressor de Stark, este, seguindo à risca o guião predefinido, confidenciou-lhe que várias potências estrangeiras inimigas dos EUA contavam com a nova lei para deixar o país desguarnecido, já que ela levaria ao encarceramento de alguns dos seus mais poderosos defensores.
Munido de um vídeo do atentado de que presumivelmente fora alvo, Tony Stark persuadiu o Senado de que, a ser aprovada, a Lei do Registo de Superseres faria mais mal do que bem. Por seu lado, o Homem-Aranha sustentou que a existência de super-heróis se justifica pela necessidade de responder a situações às quais as autoridades oficiais não estão em condições de dar resposta.
À luz desses desenvolvimentos, a lei seria novamente sujeita a discussão no Congresso. Confiante na renitência dos políticos em tomarem decisões impopulares, Tony Stark tranquilizou o Homem-Aranha, asseverando-lhe que, salvo alguma mudança drástica na forma como a opinião pública percecionava os super-heróis, a medida acabaria por ser metida na gaveta.
Claro que o impensável acabaria mesmo por acontecer e logo as nuvens negras se começariam a acumular no horizonte, num funesto prenúncio dos dias de chumbo que estavam por vir...

Quem nos protege dos nossos protetores?
Conceção: Conforme explanado no texto anterior, a introdução de legislação a requerer o cadastro de todos os meta-humanos radicados nos EUA serviu de premissa ao arco de histórias genericamente intitulado Civil War. Ideia que, contudo, nada tinha de inovadora, considerando que havia já sido glosada nos universos de outras editoras. Astro City (Image Comics) e Watchmen* (DC Comics) representam apenas os exemplos mais sonantes de sagas com idêntico ponto de partida.
A esta aparente falta de originalidade, Mark Millar, o escriba de Civil War, contrapôs o seguinte: «Ao lerem a história, as pessoas certamente perceberão que a minha abordagem ao dilema super-heroico é ligeiramente diferente das fórmulas já antes testadas. Cujo denominador comum consistia na exigência por parte do público da ilegalização das atividades vigilantistas. Algo que não se verifica em Civil War. Mesmo conscientes dos perigos que lhes estão associados, as pessoas não reclamam o banimento dos super-heróis, mas, sim, a sua reconversão em funcionários públicos. À semelhança dos bombeiros ou dos agentes policiais, os super-heróis, vigilantes e afins deveriam ser remunerados pelo Estado e sujeitar-se ao mesmo escrutínio das forças de proteção civil. Em teoria, seria a solução perfeita para o problema. E, tanto quanto sei, nunca ninguém a equacionara.»

Mark Millar, o homem que pôs heróis contra heróis.
Ao registo obrigatório de todos os superseres a operar dentro das fronteiras estadunidenses, somava-se a exigência legal de que eles revelassem as suas verdadeiras identidades às autoridades. Classificados como armas de destruição massiva, os meta-humanos teriam ainda de submeter-se a um programa de treino específico ministrado pelo Governo. Terminado o mesmo, àqueles que optassem por juntar-se às fileiras da SHIELD ficaria reservado o estatuto de agente federal, passando a obedecer a uma cadeia de comando e a auferir um vencimento.
Embora aliciante aos olhos de muitos dos seus membros, a proposta cindiu a comunidade super-heroica. De um lado, a fação presidida pelo Homem de Ferro que encarava o registo obrigatório como um dever cívico e um garante de segurança. Do outro, o setor que, sob a liderança do Capitão América, contestava a medida por considerar que ela violava direitos constitucionalmente consignados ao mesmo tempo que comprometia a proteção conferida pelo anonimato.
À medida que se assistia a um extremar de posições, muitos supervilões acabariam também por tomar partido. Alguns aliaram-se ao Capitão América, outros aderiram à causa do Homem de Ferro. Houve ainda um pequeno grupo, constituído tanto por heróis como por malfeitores, a optar pela neutralidade. Poucos foram, no entanto, aqueles que escaparam aos ricochetes da Guerra Civil.

*Resenha disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2013/04/do-fundo-do-bau.html

Histórico de publicação: Em consequência de outros compromissos profissionais do artista Steve McNiven, em agosto de 2006, a Marvel anunciou o adiamento em alguns meses de vários capítulos de Civil War. Decisão que implicou atrasos voluntários no lançamento dos títulos periódicos cujas histórias entroncavam na saga. Outra vítima das circunstâncias seria a minissérie Civil War: Front Line, que teve a sua chegada às bancas retardada em várias semanas.
Todas estas alterações ao cronograma editorial visavam evitar que desenvolvimentos importantes do enredo de Civil War fossem precocemente revelados. Por conta dos sucessivos atrasos, o seu epílogo só seria conhecido em meados de fevereiro de 2007, dois meses após o inicialmente previsto.

Uma das vítimas das
 alterações de calendário da Marvel.
Enredo: Já depois de, numa das suas proverbiais erupções de fúria irracional, o Hulk ter causado acidentalmente a morte a 26 pessoas em Las Vegas, e de 99% da população mutante ter sido dizimada por uma mentalmente perturbada Feiticeira Escarlate, um outro infausto acontecimento protagonizado por meta-humanos suscita a histeria coletiva.
Em Stamford, pequena e pacata cidade do Connecticut, os Novos Guerreiros, acompanhados de perto pelas câmaras de televisão devido à sua participação num reality show, invadem uma casa que serve de esconderijo a um bando de supercriminosos evadidos de uma prisão de alta segurança. Um deles, Nitro, usa os seus poderes explosivos para arrasar vários quarteirões numa tentativa desesperada de escapar ao cerco montado pelos heróis.
Quando a poeira assenta, mais de seis centenas de cadáveres jazem entre os escombros fumegantes. Entre eles, os de 60 crianças que se encontravam numa escola primária nas redondezas. Ao desastre, transmitido em direto em rede nacional, sobrevivem apenas Speedball, dos Novos Guerreiros, e o próprio Nitro.
No rescaldo da tragédia são vários os super-heróis que participam nas operações de socorro e que procuram transmitir algum alento às famílias das vítimas. Gestos solidários insuficientes, ainda assim, para calar a profunda revolta que toma conta de muitos cidadãos anónimos, indignados por mais esta carnificina causada por meta-humanos. Nos dias seguintes, essa revolta e indignação dão mesmo lugar a ataques violentos contra superseres. Um dos primeiros alvos é o Tocha Humana do Quarteto Fantástico, quase linchado por uma multidão enfurecida.


Entre as ruínas de Stamford germinaram as sementes da guerra.
Sob forte pressão da opinião pública, o Governo Federal apressa-se a retirar da gaveta a Lei do Registo de Superseres. Nesta sua nova versão, além da obrigatoriedade do registo de todos os indivíduos dotados de habilidades meta-humanas residentes no interior das fronteiras estadunidenses, é-lhes exigido que revelem as suas verdadeiras identidades às autoridades.
Perante a perspetiva de uma medida deste cariz ser aprovada pelo Congresso, a comunidade super-heroica divide-se. Apesar de a ela se ter oposto no passado, o Homem de Ferro assume-se agora como seu principal defensor. Justificando a sua mudança de posição com a necessidade de garantir a segurança dos civis em futuras ações levadas a cabo por meta-humanos. O que, no seu entender, só será possível com treino e monitorização governamentais. Tese subscrita, entre outros, por Hank Pym e Reed Richards, dois dos mais respeitados cientistas mundiais e eles próprios meta-humanos. Mas prontamente rejeitada pelo Capitão América, para quem a Lei do Registo de Superseres retiraria liberdade de movimentos aos heróis e colocaria em risco as suas vidas privadas, assim como os seus entes queridos.
Enquanto o debate sobe de tom, numa reunião secreta com o Presidente dos EUA, o Homem de Ferro exorta-o a avançar o quanto antes com a Lei do Registo de Superseres. Aprovada poucos dias depois, a supervisão da sua aplicação fica a cargo da SHIELD, sob o comando interino de Maria Hill.
Empurrados para a clandestinidade, vários heróis antirregisto aderem ao movimento de resistência fundado pelo Capitão América. A despeito da tensão crescente entre as duas fações, as primeiras batalhas são meramente propagandísticas. Ao passo que o Sentinela de Liberdade e seus aliados continuam a enfrentar supervilões, deixando-os à mercê das mesmas autoridades que os acossam, o grupo liderado pelo Homem de Ferro lança-se numa frenética caça aos refratários sem fazer distinção entre vigilantes e malfeitores.
O primeiro momento de viragem no curso dos acontecimentos ocorre quando o Homem de Ferro persuade o Homem-Aranha a expor publicamente a sua identidade. Decisão que teria repercussões extremamente negativas no porvir do herói e dos que o rodeavam.

Uma decisão de que Peter Parker se arrependeria amargamente.
Ainda com os ecos dessa revelação bombástica a fazerem-se sentir um pouco por toda a parte, o Homem de Ferro faz uma visita à Mansão X, lar dos X-Men. Num tête-à-tête com Emma Frost, o Vingador Dourado procura apurar qual o posicionamento da comunidade mutante face à nova legislação. Pela voz da antiga Rainha Branca do Clube do Inferno, o herói blindado fica a saber que os X-Men nunca aceitariam submeter-se a uma lei que vai contra tudo aquilo em que Charles Xavier acreditava. No entanto, a população Homo Superior, manter-se-á neutral, contanto que deixada em paz.
O segundo episódio que conduz a uma escalada no conflito ocorre quando os Vingadores Secretos (coletivo heroico às ordens do Capitão América) é atraído para uma cilada montada pelas forças pró-registo numa petroquímica. Ao convite do Homem de Ferro para um debate pacífico, o Capitão América responde com uma agressão, usando um dispositivo oculto nas luvas para desativar momentaneamente a armadura do seu antigo amigo e colega Vingador.
No final da escaramuça que se segue entre os dois grupos, o Homem de Ferro espanca selvaticamente o Capitão América. Já os Vingadores Secretos são sumariamente derrotados por Ragnarok, um clone de Thor ao serviço da SHIELD. Trespassado por um relâmpago invocado pelo falso Deus do Trovão, Golias é a primeira baixa na Guerra Civil.

Baixas de guerra: a morte de Golias às mãos de Ragnarok.
A morte de Golias tem, no entanto, o condão de colocar as coisas em perspetiva, levando vários heróis a passarem para o outro lado da barricada. Devido ao elevado número de deserções, a fação pró-registo vê-se obrigada a acelerar o seu plano de operações.
Sem tempo a perder, o Homem de Ferro e o Senhor Fantástico concebem uma prisão na Zona Negativa (dimensão paralela da nossa composta exclusivamente por antimatéria) para confinar todos os insurgentes capturados. Por corresponder à 42ª iniciativa que ambos tomaram desde o desastre de Stamford, o presídio é batizado de Projeto 42.
O movimento pró-registo sofre entretanto outro revés inesperado. Ao tomar consciência que quem não aceitar registar-se será encarcerado por tempo indeterminado, o Homem-Aranha troca de lado, juntando-se à resistência chefiada pelo Capitão América. Não sem antes aplicar uma valente tareia no Homem de Ferro. O que o Escalador de Paredes não sabia é que o seu novo traje blindado (um presente de Tony Stark) servira para este lhe analisar secretamente os poderes em busca de uma forma de anulá-los.
Entretanto, o Justiceiro, que conseguira infiltrar-se no quartel-general do Quarteto Fantástico, apodera-se dos planos do Projeto 42. Na posse dessa informação preciosa, o Capitão América e seus aliados tomam de assalto a prisão na Zona Negativa, com o propósito de libertarem todos os reclusos. São, no entanto, traídos por Tigra que tinha em segredo alertado o Homem de Ferro para o ataque. Acolitado por um grupo de supervilões recrutados à força para as suas fileiras, o Vingador Dourado procura desesperadamente impedir a fuga em massa. No calor da batalha, todos os beligerantes são misteriosamente transportados para Time Square, bem no coração de Nova Iorque.
Perante uma plateia horrorizada, o Capitão América, com a ajuda do Visão, derrota o Homem de Ferro e prepara-se para lhe desferir um golpe potencialmente fatal. É, no entanto, detido no último momento por elementos das equipas de socorro que haviam entretanto acorrido ao local.
Tomando consciência do absurdo de uma guerra fratricida que, em última análise, ele desencadeara, o Capitão América remove a máscara e rende-se.
Chegava assim ao fim, sem um vencedor declarado, a trágica Guerra Civil. E nada voltaria a ser como dantes no Universo Marvel.


"Coragem alimenta as guerras, mas é o medo que as faz nascer"
(Émile-Auguste Chartier, ensaísta e filósofo francês do século XX)
Repercussões:

* Já depois de cessadas as hostilidades entre as duas fações conflitantes, o Capitão América seria, aparentemente, assassinado por Ossos Cruzados quando subia a escadaria do tribunal onde seria julgado. O vilão agia às ordens do Caveira Vermelha e de Sharon Carter, agente da SHIELD e ex-namorada do herói a quem o Doutor Fausto fizera uma lavagem cerebral. Seria entretanto revelado que o disparo supostamente fatal fora efetuado pela jovem;

Ecos do pós-guerra: a morte do supersoldado.
* Quase todos os Vingadores Secretos foram amnistiados pelo Governo. Alguns optaram, ainda assim, por manter-se na clandestinidade e outros houve que emigraram para o Canadá;
* Nomeado diretor da SHIELD, o Homem de Ferro reuniria a sua própria equipa de superseres, os Poderosos Vingadores;
* Os Novos Vingadores, por seu turno, passariam à clandestinidade. Punho de Ferro, Doutor Estranho e Ronin (vulgo Clint Barton, anteriormente conhecido como Gavião Arqueiro) juntar-se-iam logo depois ao grupo;
* Entre as ruínas do desastre de Stamford, seria construído Camp Hammond, o novo centro de treino de meta-humanos da SHIELD, assim batizado em homenagem ao primeiro Tocha Humana (ver post anterior);
* Sob a tutela férrea de Norman Osborn, os Thunderbolts seriam convertidos numa agência federal;
* Ainda abalados pelos eventos dramáticos da Guerra Civil, o Senhor Fantástico e a Mulher Invisível abandonariam temporariamente o Quarteto Fantástico, sendo substituídos pelo Casal Real de Wakanda: Pantera Negra e Tempestade.

Trivialidades:

* No prelúdio de Siege, (arco de histórias lançado nos EUA em 2009/10), Loki e Norman Osborn discutem a possibilidade de engendrar uma tragédia semelhante à que serviu de catalisador à Guerra Civil para justificar um ataque contra Asgard;
* Os eventos da Guerra Civil foram igualmente referenciados no decurso da minissérie Avengers versus X-Men (2012), quando o Homem de Ferro relembrou o Capitão América do período em que ele agiu na orla da legalidade;
* Combinação do intelecto de Otto Octavius com o corpo de Peter Parker, o Homem-Aranha Superior descreveu a Guerra Civil como um conflito declarado pelo Capitão América em prol do direito à privacidade. Do seu ponto de vista, tudo se resumiu à necessidade de uma boa parte dos vigilantes mascarados preservarem o seu anonimato como forma de salvaguardarem os seus entes queridos de eventuais represálias por parte dos seus inimigos.


As feridas sararam, as cicatrizes ficaram.
Versões alternativas: Em What if? Civil War nº1 (edição dada à estampa em fevereiro de 2008), foram apresentados dois desfechos diferentes para a Guerra Civil. Ao visitar o túmulo do Capitão América no Cemitério Nacional de Arlington, Tony Stark é abordado por um estranho. Da boca deste ouve a descrição detalhada de duas linhas de tempo divergentes, nas quais o curso dos acontecimentos foi substancialmente alterado por circunstâncias de vária ordem.
Na primeira narrativa, é-lhe mostrado o que teria acontecido se o Capitão América tivesse liderado toda a comunidade super-heroica contra a Lei do Registo Obrigatório. Nesta realidade paralela, o cisma seria evitado pela morte prematura de Tony Stark, infetado pelo tecnovírus Extremis. Em consequência disso, o Governo norte-americano elegeria o Sentinela da Liberdade como porta-voz oficial dos meta-humanos.
Contestatário da medida que contemplava a exposição das identidades civis dos registados, o velho soldado conseguiria, a custo, postergar a sua aprovação no Congresso. No entanto, a exemplo do que se verificou no universo canónico, o desastre de Stamford precipitaria uma dramática cadeia de eventos que, sem a intercessão do Homem de Ferro junto das autoridades, as levaria a retaliar de forma desproporcionada. Sob o comando do agente especial Henry Peter Gyrich, as forças governamentais levariam a cabo operações militares que desbaratariam a resistência. Entre as muitas vítimas da carnificina que daí adviria, contar-se-ia um número assinalável de heróis.

Um olhar diferente sobre os eventos da Guerra Civil.
A segunda realidade seria bastante mais auspiciosa: em vez de optar por uma estratégia de intimidação, o Homem de Ferro pediria ajuda ao Capitão América. Admitindo as suas dúvidas quanto às virtualidades da Lei de Registo Obrigatório e à sua própria conduta no respetivo processo de implementação, o Vingador Dourado evitaria assim que o seu antigo colega de equipa usasse a arma escondida na luva para lhe desabilitar a armadura.
De seguida, os dois heróis uniriam forças para deter Ragnarok, o furioso clone do Deus do Trovão, entretanto libertado pela SHIELD. Convencido da boa vontade do Homem de Ferro, o Capitão América acederia ao seu pedido de ajuda para aplicar o programa de registo, sendo o único a quem os outros heróis se disporiam a confiar as suas identidades. Evitado o conflito entre apoiantes e opositores da Lei do Registo Obrigatório, centenas de vidas seriam poupadas e abrir-se-ia uma nova era de paz e segurança.
Quanto ao estranho, era, afinal, Uatu, o Vigia responsável pela monitorização da atividade humana. Ao consciencializar-se do futuro radioso que boicotou com as suas ações, Tony Stark fica devastado e chora junto à última morada do amigo tombado.

Sequela: Anunciada com pompa e circunstância pela Marvel em dezembro de 2015, Civil War II vem sendo publicada em terras do Tio Sam desde junho último. Brian Michael Bendis (história) e David Marquez (arte) repartem os créditos na produção desta sequência direta da saga original, no ano em que se assinala o seu décimo aniversário.
Agora do mesmo lado da barricada, o Homem de Ferro e o Capitão América têm a Capitã Marvel como adversária num conflito em larga escala que volta a pôr heróis contra heróis e que promete abalar os alicerces da Casa das Ideias.
Desta feita o rastilho é aceso pelo surgimento de uma personagem agraciada com poderes precognitivos que lhe fornecem visões nítidas de futuros prováveis. Um talento extraordinário que, no entendimento da Capitã Marvel, deverá servir como instrumento de prevenção de delitos. Tese conflitante com a do Homem de Ferro (e, a bem dizer, com os princípios basilares de qualquer Estado de Direito) para quem, em circunstância alguma, o castigo deverá preceder o crime.
Em resultado dessas divergências aparentemente insanáveis, assiste-se a um progressivo extremar de posições no seio da comunidade super-heroica que culmina num novo cisma. Do cisma à guerra fratricida é um pequeno passo e poucos são os que se conseguirão manter à margem dela.

Dez anos depois, nova guerra fratricida abala o Universo Marvel.
Noutros media: Data de julho de 2012 a primeira adaptação de Civil War a outros segmentos culturais. Quatro anos antes da sua chegada ao cinema, a saga teve direito a uma novelização da autoria de Stuart Moore, escritor celebrizado pelo seu trabalho com o Príncipe Submarino. O livro inaugurou, de resto, uma série literária baseada em quatro histórias fundamentais na memorabilia da Marvel.
Tomando diversas licenças poéticas relativamente ao material original, Moore ambientou a sua história no primeiro mandato presidencial de Barack Obama, e não na ponta final do consulado de George W. Bush. Para que não restassem dúvidas quanto ao contexto político, logo no capítulo de abertura do livro, Tony Stark menciona o polémico Obamacare.
Essa não é, no entanto, a única diferença assinalável em relação à banda desenhada. Nela, após expor publicamente a sua identidade, o Homem-Aranha vê-se forçado a celebrar um pacto com Mefisto para reverter essa situação. Processo que, para infortúnio do herói, incluiu o apagamento das memórias que Peter Parker e Mary Jane Watson tinham um do outro, inclusive do casamento de ambos. Já na versão saída da pena de Moore, Peter nunca chegou a dar o nó com MJ. Premissa retirada de One More Day, realidade alternativa que explora precisamente essa possibilidade.
Da novelização de Civil War nasceria um audiolivro. Lançado em março de 2013, era composto por seis CDs e, além do elenco que emprestava as vozes à multitude de personagens, incluía ainda efeitos sonoros nas cenas mais dramáticas.
Tanto o jogo de vídeo Marvel Ultimate Alliance 2 (2009) como o filme Captain America: Civil War (2016) são igualmente baseados na saga. No entanto, por oposição ao primeiro, o segundo contém apenas alguns dos elementos-chave da história original. Exemplos: a chacina de civis numa explosão provocada por meta-humanos e o facto de a mãe de um deles, Miriam Sharpe, culpar diretamente Tony Stark pela morte do filho.
Uma vez que as identidades secretas são um conceito estranho ao Universo Cinemático Marvel, o enfoque da película incide essencialmente na necessidade de supervisão das atividades meta-humanas por parte do Governo americano.

Capitão América: Guerra Civil foi um campeão de bilheteira.

Vale a pena ler?

"De que lado ficarás?". Foi sob este lema enganador que, há precisamente uma década, Civil War foi lançada entre enorme alarido. Enganador porque, contrariamente ao que sugere a estafada frase de efeito, a história (também ela, à primeira vista, um cliché) não se resume à escolha de um lado num conflito que, pela sua natureza fratricida, nunca poderia ter um vencedor inequívoco.
À imagem e semelhança das guerras civis do mundo real que dividem nações e famílias e transformam em adversários amigos de ontem, fosse qual fosse o resultado desta rixa entre heróis, todos sairiam a perder. Mais ainda quando ambas as partes defendiam pontos de vista válidos e cometeram terríveis erros de julgamento no decurso da liça.
Convém lembrar que, dentro da armadura de alta tecnologia do Homem de Ferro ou atrás do escudo indestrutível do Capitão América, se escondem homens. E homens são falíveis. Sendo a magnitude das consequências das suas ações proporcional ao respetivo nível de poder e de responsabilidade.
Não faltará, ainda assim, quem tenha cedido à tentação de tomar partido num afrontamento clássico entre a liberdade e a segurança. Dois valores essenciais em qualquer sociedade democrática. Mas que, apesar de indissociáveis, nem sempre coabitam harmoniosamente.
Haverá verdadeira liberdade sem uma vigilância constante por parte das autoridades contra as múltiplas ameaças que impendem sobre os cidadãos? E que parcela da nossa liberdade individual estaremos dispostos a penhorar num regime securitário? Questões prementes que encapsulam um dos principais dilemas das sociedades atuais. E a que Civil War serve de alegoria quase perfeita, sem aventar respostas simplistas. É, pois, nesse busílis trágico do conflito entre as fações pró e antirregisto que repousa a beleza de uma narrativa consideravelmente menos superficial do que muitos a continuam a pintar.
Discordam? Façamos então o seguinte exercício de imaginação: e se os eventos descritos na saga ocorressem no mundo real? E se devido às constantes batalhas entre seres superpoderosos a operar fora da lei perdessem o vosso lar, o vosso emprego ou um ente querido? No entanto, como ninguém conhece as suas verdadeiras identidades, os causadores da vossa desgraça não poderiam ser responsabilizados pelas suas ações. Continuariam a tolerá-las e a defender a existência desses vigilantes anónimos? Continuariam a achar que a razão assiste ao Capitão América?
Vejamos agora as coisa sob um prisma diferente: imaginem que, um belo dia, acordam com capacidades muitos superiores às do comum dos mortais. Aceitariam de bom grado serem cooptados pelo Governo do vosso país para colocarem os vossos poderes ao serviço do bem maior? Aceitariam ter a vossa privacidade devassada pelas autoridades, pondo em risco as pessoas que mais amam? Ainda querem ir a correr juntar-se à equipa do Homem de Ferro?
Acredito que, quando colocadas desta forma, as coisas se tornam um pouco mais complexas. Os mais conscienciosos, pelo menos, pensarão duas vezes antes de escolher um lado da barricada. Os mais sábios talvez optem pela neutralidade. Haverá ainda os que continuarão a tomar partido apenas em função da sua preferência pessoal pelo Capitão América ou pelo Homem de Ferro. Em qualquer dos casos, conforme observei no preâmbulo deste comentário, Civil War nunca foi sobre escolher lados. Como seria isso possível se estão ambos certos e, ao mesmo tempo, errados?
Em temas fraturantes como aquele que serve de mote à saga, sabermos pôr-nos no lugar do outro, fazer um esforço efetivo para compreender as suas motivações e os seus receios é fundamental. Só assim será possível trabalhar em conjunto na busca por respostas a problemas comuns. Quando isso não acontece, quando diálogo fracassa ou sequer é ensaiado, dá-se rédea solta à intolerância. E esta é sempre um bom rastilho para toda a sorte de quezílias de maiores ou menores proporções.
Foi essa a amarga lição que dois Vingadores desavindos aprenderam numa história que é muito mais do que um pretexto para ver super-heróis a trocarem uns sopapos entre si. Mas que, por conta dessa análise redutora feita por muito boa gente, continua a ser polémica e mal-amada. Mesmo por aqueles que, curiosamente, não regateiam elogios ao filme epónimo. Apesar de este fazer uma abordagem muito mais rasa ao dilema que marca o compasso da saga original.
Escusam, porém, de desembainhar as vossas espadas, pois considero Capitão América: Guerra Civil um dos melhores filmes de super-heróis deste ano. Ainda que o título me soe um tanto quanto abusivo, já que, em bom rigor, ele é apenas vagamente inspirado em Civil War. Assunto para uma futura recensão...

Como escolher um lado numa guerra entre a liberdade e a justiça?









   

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

HERÓIS EM AÇÃO: TOCHA HUMANA



   
   Reminiscência incandescente da Idade de Ouro dos comics, foi um dos arautos da era de maravilhas que deixaram o mundo embasbacado. Sobreviveu às épicas batalhas contra o Príncipe Submarino e aos horrores de uma conflagração planetária, mas não ao desvanecimento do género super-heroico. Resgatado ao oblívio, a glória encalhada no passado, habituou-se a viver à sombra do seu sucessor.

Denominação original: The Human Torch
Criador: Carl Burgos
Licenciador: Timely Comics (1939-49). Atlas Comics (1953-54)  e Marvel Comics (de 1966 ao presente)
Primeira aparição: Marvel Comics nº1 (outubro de 1939)
Identidade civil: James "Jim" Hammond
Local de nascimento: Laboratório do Professor Phineas T. Horton, Brooklyn (Nova Iorque)
Categoria: Androide senciente 
Parentes conhecidos: Tratando-se de um androide, o Tocha Humana não possui verdadeiros vínculos familiares, na aceção biológica do conceito. Ao Professor Horton, seu criador, poderá contudo ser reconhecida a paternidade simbólica daquele que foi o primeiro homem sintético no Universo Marvel. Também Centelha (Toro, no original) foi a dada altura perfilhado pelo herói, que, assim, se tornou pai adotivo do seu adjunto juvenil.
Entre o Tocha Humana e outras formas de inteligência artificial a que a tecnologia do Professor Horton serviu de matriz existem igualmente fortes afinidades. Casos, por exemplo, de Adam II, Volton e, claro, do Visão*.
Afiliação: Agindo sob o disfarce de Jim Hammond nos primórdios da sua longeva carreira de combatente do crime, o Tocha Humana foi paralelamente um agente do Departamento de Polícia de Nova Iorque. Além da já citada parceria heroica com Centelha, ainda na Idade do Ouro, formou temporariamente parelha com Sun Girl, heroína que também lhe serviu de interesse romântico. Seguir-se-ia a fundação dos Invasores**, em conjunto com o Capitão América e o Príncipe Submarino, para travar as forças do Eixo durante a 2ª Guerra Mundial. Regressado ao ativo após longos anos em hibernação, passou pelas fileiras de diversas organizações, como os Vingadores da Costa Oeste ou os Novos Invasores. É atualmente um operacional da SHIELD.
Base de operações: Originalmente, o Tocha Humana tinha em Nova Iorque a sua base operacional. Nos dias que correm está aquartelado em Camp Hammond, o centro de treino da SHIELD para meta-humanos assim batizado em sua homenagem e sediado em Stamford (Connecticut).
Armas, poderes e habilidades: Sem que daí advenha qualquer dano para o seu corpo sintético, o Tocha Humana consegue envolver-se num manto de plasma incandescente. Habilidade que decorre do facto de ele ter cada milímetro de pele recoberto pelas chamadas células Horton. As quais, em contacto com o oxigénio, entram em combustão espontânea. Processo que, inicialmente, o herói não controlava, o que trouxe alguns amargos de boca ao seu criador.
Quando transformado num braseiro ambulante, a energia térmica gerada pelo Mestre do Fogo pode ser canalizada para diversos efeitos, incluindo voar ou disparar rajadas flamejantes que também podem ser concussivas. Importa notar que, no caso das primeiras, a respetiva intensidade oscila entre um simples fogacho e uma irrupção energética equivalente à implosão de uma pequena nova.
Mesmo quando as labaredas provêm de uma fonte externa, o Tocha Humana consegue manipulá-las a seu bel-prazer graças ao seu controlo telecinético sobre a energia térmica ambiental. Antes de sublimar esse talento, nas suas primeiras aparições o herói costumava gritar (!) ordens ao lume. Que, como se de um animal amestrado se tratasse, obedecia aos seus comandos vocais.
Como qualquer ignição, as labaredas geradas pelo Mestre do Fogo alimentam-se de oxigénio, podendo ser extintas com recurso a água, areia, espuma supressora de fogo ou a qualquer outro material clássico de combate a incêndios. Exceto quando as mesmas atingem temperaturas de tal forma elevadas que vaporizam instantaneamente qualquer coisa que entre em contacto com elas.
Durante a Idade do Ouro era comum o Tocha Humana usar o seu corpo incandescente para atravessar paredes, cofres e outros objetos sólidos. Qual míssil humano, conseguia penetrar profundamente no solo ou no casco dos vasos de guerra inimigos na 2ª Guerra Mundial.
Continua, contudo, por aferir a verdadeira extensão dos poderes do herói. Se em determinada ocasião saiu fortalecido de uma explosão termonuclear, noutra quase foi destruído por uma. Certo é que o Tocha Humana, por oposição às suas chamas, consegue sobreviver sem oxigénio. Bastando, para isso, entrar em estase.
Dotado de níveis de força e resistência ligeiramente superiores à média humana por conta da sua fisiologia inorgânica (vide texto seguinte), o Tocha Humana é também um hábil combatente corpo a corpo. Competências de defesa pessoal adquiridas quer pelo treino recebido na Academia de Polícia, quer pelo que lhe foi em tempos ministrado pelo Capitão América.

* Anatomia do Fantasma de Pedra disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/08/herois-em-acao-visao.html
** Prontuário sobre os Invasores em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2015/02/herois-em-acao-invasores.htm

Nem paredes de aço travavam o Tocha Humana.
Fisiologia: Ao ser apresentado ao mundo, no virar da década de 1930, como o primeiro homem sintético da História, o Tocha Humana configurou um caso ímpar no panorama ficcional da época. Não só na banda desenhada mas também na literatura e no cinema. Segmentos culturais onde, até aí, o conceito mais glosado fora o do tradicional robô metálico.
Fazendo amiúde lembrar  um homem de lata, o aspeto dessa figura icónica da ficção científica podia ser mais ou menos antropomorfizado sem, contudo, lograr disfarçar a sua natureza mecânica aos olhos dos leitores e/ou dos espectadores.
Ora. embora composto por materiais inorgânicos, o Tocha Humana é anatomicamente idêntico a um ser humano do sexo masculino. Toda a sua fisiologia reproduz, aliás, até ao mais ínfimo pormenor, a de um homem de carne e osso.
Além de todo um conjunto de órgãos internos artificiais, o androide dispõe igualmente de um sistema circulatório. O sangue sintético do Tocha Humana corresponde, de resto, a uma das suas características fisiológicas mais admiráveis. Não só porque é compatível com todos os fenótipos catalogados (incluindo mutantes) mas, sobretudo, pelas suas reconhecidas propriedades regenerativas. Servindo igualmente de veículo transmissor de habilidades meta-humanas.
Recorde-se que foi depois de receber uma transfusão sanguínea do Tocha Humana que a heroína britânica Spitfire adquiriu a sua supervelocidade. Já uma segunda transfusão, recebida décadas mais tarde, salvou-lhe a vida e restaurou-lhe a juventude.

Spitfire ganhou supervelocidade graças
 ao sangue sintético do Tocha Humana.
De igual modo, os poderes latentes de Centelha, Homo Superior e antigo sidekick adolescente do herói, manifestaram-se apenas na sequência da sua exposição às células Horton. Nelas reside, com efeito, o segredo para estas milagrosas propriedades do sangue sintético do Tocha Humana. Ao cabo de uma investigação científica exaustiva, o Pensador Louco concluiu que a sua composição inclui plástico e polímeros de carbono que lhes possibilitam mimetizar as estruturas moleculares presentes nas células orgânicas. Mesmo em pequenas amostras, as células Horton conseguem produzir e acumular enormes quantidades de energia.
Não obstante tudo isto, o Mestre do Fogo possui, grosso modo, as mesmas necessidades e fraquezas de qualquer ser humano. Conforme atesta o facto de, em diversas ocasiões, ele ter sido mostrado a dormir ou a ingerir alimentos. Centelha chegou mesmo a sugerir humoristicamente que o seu mentor estaria apetrechado com um aparelho excretor. Brincadeiras à parte, tanto nas suas estórias clássicas como nas atuais, o Tocha Humana já demonstrou ser vulnerável, entre outras coisas, a gases tóxicos, à hipnose e a ataques telepáticos.
Curioso observar, no entanto, que a representação anatómica da personagem tem variado significativamente ao longo do tempo. Sobretudo desde que ele ganhou uma segunda vida no Universo Marvel, em meados dos anos 1960. Desde então, vários foram os cientistas que examinaram e modificaram o corpo robótico do Tocha Humana. Dentre eles, o Pensador Louco, responsável pela sua reativação, foi aquele que mais profundas transformações nele operou.

O Tocha Humana foi o primeiro homem sintético.
À boleia dessas reconfigurações tecnológicas, alguns dos escritores que passaram pelas histórias do Mestre do Fogo enfatizaram a sua origem mecânica. Por um lado, expondo sem pudor as suas entranhas cibernéticas (servomotores, circuitos elétricos, etc.); por outro, sugerindo que o androide obedece a uma programação predefinida e suscetível de ser alterada. Elementos inovadores que levaram a uma gradual desumanização da personagem, lembrando os leitores que estão em presença de uma máquina. E em prejuízo das características fisiológicas que tinham feito do Tocha Humana uma singularidade entre a constelação de inteligências artificiais que, após o seu surgimento, foram despontando nos quadradinhos e na ficção científica.

Tocha Humana: maravilha ou ameaça? 
Histórico de publicação: Com uma história assinada pelo próprio Carl Burgos, seu criador, o Tocha Humana estreou-se nas páginas de Marvel Comics nº1. Estávamos em novembro de 1939 e, em boa verdade, tratou-se de uma dupla estreia. De uma assentada, o neófito da Timely apadrinhava o lançamento do mais recente título periódico da editora. O mesmo que, mais de uma vintena de anos transcorridos, lhe daria o nome que a imortalizou nos pergaminhos da 9ª Arte.
Caído desde logo nas boas graças dos leitores, a quem incendiava a imaginação com as suas façanhas, a popularidade do Tocha Humana rendeu-lhe uma série própria. Seria, de resto, um dos primeiros super-heróis a beneficiar de tal privilégio, reforçando dessa forma o estatuto de coqueluche da Timely. Que, por esses dias, procurava conquistar o seu lugar ao sol no efervescente e competitivo mercado dos comics, alavancado pelo surgimento recente de personagens como Batman e Superman.



Em cima: Carl Burgos, o criador do Tocha Humana.
Em baixo: a sua estreia em Marvel Comics nº1 (1939).
Ao mesmo tempo que vivia trepidantes aventuras em The Human Torch (cujo número inaugural chegara às bancas norte-americanas no outono de 1940), o herói flamejante continuou a ser presença assídua noutros títulos da editora ao longo de todo o decénio. Captain America, Young Allies e Mystic Comics foram algumas das séries que, durante esse período áureo, acolheram tão distinto convidado.
Ainda em 1940, mais precisamente em maio e junho desse ano, o Tocha Humana coprotagonizaria com o Príncipe Submarino* aquele que é que considerado o primeiro crossover da história da banda desenhada. Entretanto renomeada de Marvel Mystery Comics, a série mensal que dera a conhecer ao mundo o primeiro homem sintético serviu de arena àqueles que eram, à época, os dois titãs da Timely. Uma batalha de contornos épicos que contemplava também um duelo elemental, visto que Namor e o Tocha Humana simbolizavam, respetivamente, a Água e o Fogo.
Narrada sob o ponto de vista dos dois contendores, a peleja espraiou-se por outras tantas edições de Marvel Mystery Comics, levando ao rubro as emoções dos leitores. Por exigência destes, assistir-se-ia, ao longo de toda a Idade do Ouro, a várias reedições desse confronto titânico.

Fogo versus Água.
Reprodução de um duelo clássico da Idade do Ouro.

Numa época em que os super-heróis prosperavam, parecia impossível os fãs cansarem-se das proezas da Primeira Maravilha. Exceção feita ao Capitão América, nenhuma outra personagem da Timely apareceu em tão grande número de histórias como o Tocha Humana. Já diz, no entanto, o velho adágio que "não há mal que sempre dure nem bem que não se acabe". E, de facto, tudo mudaria no pós-guerra. Período histórico que, além da paz e da esperança, trouxe também consigo o inexorável declínio do género super-heroico. À medida que a década de 1940 caminhava a passos largos para o seu epílogo, poucos foram os vigilantes fantasiados que escaparam ao oblívio.
Até então altas e pujantes, as labaredas do Tocha Humana começaram lentamente a esmorecer até se extinguirem. Em março de 1949, a sua série periódica foi cancelada em consequência da abrupta queda nas vendas. Apenas três meses depois seria a vez de à lendária Marvel Mystery Comics ser aplicada idêntica sentença de morte.
Ironicamente, a derradeira história do Tocha Humana publicada com a chancela da Timely Comics recontava a sua origem. Embarcando assim a personagem numa viagem ao passado sem bilhete de regresso ao futuro.
Numa tentativa de reabilitação do género super-heroico, em 1954 a Atlas Comics (herdeira da Timley Comics) lançou Young Men, série antológica que compilava algumas das histórias mais emblemáticas de Capitão América, Príncipe Submarino e Tocha Humana. A iniciativa redundaria, porém, num fiasco e duraria menos de um ano. Com os super-heróis a cambalearem pelas ruas da amargura, nem os mais otimistas se atreviam então a augurar-lhes um futuro risonho.

O Tocha Humana em destaque na capa de Young Men nº25 (1954).
Empurrado para a obscuridade, onde já definhavam muitos dos seus coevos da Idade do Ouro, o Tocha Humana por lá permaneceria durante doze longos anos. Sendo finalmente resgatado das catacumbas da memória coletiva em 1966. Apenas para ser morto em Fantastic Four Annual nº4. Não sem antes travar conhecimento com o seu jovem e irrequieto epónimo, Johnny Storm.
A morte nos quadradinhos é, no entanto, quase sempre um estágio temporário. Especialmente quando o suposto defunto é um androide. Foi, pois, sem grande surpresa que, alguns anos depois, os leitores reagiram à revelação de que o Tocha Humana original fora, afinal, reconfigurado e reprogramado para ser o Vingador robótico conhecido como Visão. Quando esta tese foi desmentida, os Vingadores não descansaram enquanto não recuperaram o verdadeiro corpo do Mestre do Fogo. Que, graças ao engenho científico de Hank Pym, seria revivido. O mesmo não acontecendo, porém, com a sua glória de outrora.
Mesmo sem o fulgor de outros tempos, o Tocha Humana clássico tem vindo gradualmente a recuperar notoriedade na mitologia da Marvel. Efeito direto da sua participação em The New Invaders. Título baseado na bem-sucedida série mensal dos Invasores editada nos anos 1970, e que vem sendo dado à estampa desde 2014.
O que quer que o futuro reserve à Primeira Maravilha, nada nem ninguém conseguirá alguma vez apagar o seu lastro incandescente na história da Casa das Ideias, em cujas paredes escreveu o seu nome com letras de fogo grego.


All New Invaders (cima) devolveu o Tocha Humana à ribalta.
Em baixo: o elenco original dos Invasores.
Origem: Pioneiro no campo da inteligência artificial e da robótica, o Professor Phineas T. Horton projetou um androide capaz de mimetizar praticamente todas as funções orgânicas de um ser humano, e também as cognitivas.
Usando exclusivamente materiais inorgânicos no processo de construção, o cientista criou dessa forma o primeiro homem sintético. Cuja epiderme estava totalmente recoberta pelas chamadas células Horton. De origem fotoelétrica, estas serviam-lhe de fonte de energia, constituindo simultaneamente a única deficiência da criatura. Devido à sua extrema volatilidade, as células Horton entravam em combustão espontânea em contacto com o oxigénio. Sem, contudo, danificar o corpo do androide.
Apesar dessa contrariedade, o Professor Horton resolveu anunciar a sua invenção ao mundo, convocando uma conferência de imprensa para o efeito, em novembro de 1939. Perante uma pequena multidão de repórteres céticos, o cientista mostrou como o androide irrompia em chamas ao permitir a entrada de oxigénio no interior do cilindro de vidro onde ele se encontrava confinado. Mas as coisas não correram exatamente como Horton planeara, com os jornalistas presentes a reagirem com um misto de escárnio e pavor.

O Professor Horton apresenta a sua criação ao mundo.
Descrito pelos tabloides como uma potencial ameaça à segurança pública, o surgimento do Tocha Humana gerou, naturalmente, alarme social. Perante este quadro, o Presidente dos EUA emitiu um decreto intimando Horton a neutralizar de imediato a sua criação. Foi assim que a Primeira Maravilha acabou enterrada várias dezenas de metros abaixo do nível do solo dentro de um caixão de concreto.
Enquanto Horton retomava a sua pesquisa na esperança de encontrar uma forma de evitar que o androide se inflamasse em contacto com o ar - ou que, pelo menos, aprendesse a controlar as suas labaredas - o Tocha Humana logrou evadir-se da sua prisão subterrânea. Proeza só possível devido a uma pequena rachadura no seu caixão de cimento que permitiu a entrada de oxigénio em quantidade suficiente para ativar as células Horton que revestiam o seu corpo.
Uma vez em liberdade, o Tocha Humana provocou acidentalmente vários focos de incêndio dispersos pela cidade de Nova Iorque, gerando pânico à sua passagem. Por fim, a sua jornada caótica conduziu-o à propriedade de Anthony Sardo, um criminoso oportunista que, tirando proveito da desorientação do androide,  usaria durante algum tempo os seus formidáveis poderes  para cometer uma série de delitos.
Quando tomou consciência das más intenções de Sardo, o Tocha Humana rebelou-se, acabando por, inadvertidamente. desencadear uma explosão que tiraria a vida ao bandido. Em consequência desse trágico episódio, e já depois de ter aprendido finalmente a controlar os seus poderes, o androide jurou solenemente servir a Humanidade.
Para levar a cabo essa árdua missão, o Tocha Humana passaria a contar logo depois com o voluntarismo de Centelha. De seu nome verdadeiro Thomas Raymond, Centelha era o filho adolescente de um casal de cientistas nucleares nascido com o talento mutante de controlar o fogo devido aos níveis de radiação a que haviam sido expostos os seus progenitores.
Mais ou menos pela mesma altura, movido pelo mesmo espírito cívico que o levara a operar como vigilante, o Tocha Humana criou a persona de Jim Hammond para ingressar no Departamento de Polícia nova-iorquino. Identidade civil que abandonaria ao cabo de pouco tempo. Continuando, todavia, a colaborar oficialmente com as autoridades municipais como Tocha Humana.
Quando os EUA entraram na II Guerra Mundial, o Mestre do Fogo e o seu adjunto juvenil aliaram-se a outros super-heróis para, nos campos de batalha europeus ou na frente do Pacífico, combaterem as forças do Eixo que ameaçavam a liberdade mundial. Nas fileiras dos Invasores, lutou, entre outros, ao lado do Capitão América e do Príncipe Submarino, seu antigo némesis.

Auxiliado por Centelha, o Tocha Humana
frustra os sinistros planos de um comando nipónico.
Na continuidade da Marvel, o Tocha Humana foi, aliás, o verdugo de Adolf Hitler. Com o Exército Vermelho às portas de Berlim, ele e Centelha invadiram o bunker do Fuhrer momentos antes de este se suicidar. Apesar dos seus esforços, o herói flamejante não conseguiu convencer o tirano a entregar-se aos americanos em vez de se render aos soviéticos. Quando Hitler disparou sobre ele, o Tocha Humana incinerou-o vivo com uma rajada de plasma incandescente.
Findas as hostilidades, o Tocha Humana seria desativado e enterrado sob as areias escaldantes do Deserto de Mojave. A sua hibernação seria, contudo, interrompida pelo ensaio de uma bomba atómica. Ao tomar conhecimento de que Centelha fora capturado e lobotomizado pelos soviéticos, o Mestre do Fogo resgatou o seu antigo parceiro e filho adotivo. Descobrindo entretanto que os seus poderes, embora amplificados pela radiação da bomba atómica que o despertara, também se tinham tornado mais instáveis.
Temendo representar uma ameaça para a Humanidade, o Tocha Humana regressou ao Deserto de Mojave e libertou toda a energia acumulada no seu corpo sintético, induzindo assim a própria desativação. Permanecendo inerte e esquecido por vários anos até ser encontrado pelo Pensador Louco que o tentou usar para liquidar o Quarteto Fantástico. Episódio que assinalou a sua reintrodução na continuidade moderna da Casa das Ideias.

Origem e evolução do Príncipe Submarino em: http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/05/herois-em-acao-namor-o-principe.html

Fogo contra fogo. ´
O Tocha Humana original defronta o seu sucessor em Fantastic Four Annual nº4 (1966).

Trivialidades:

* São muitos os leitores que ignoram até hoje que Johnny Storm, o celebérrimo Tocha Humana do Quarteto Fantástico, herdou esse título do seu antepassado da Idade de Ouro dos quadradinhos. No princípio dos anos 1970, o benjamim da equipa capitaneada pelo Senhor Fantástico chegou mesmo a adotar brevemente um visual inspirado no do Tocha Humana original, apresentado nas páginas de Fantastic Four Vol.1 nº132 (edição datada de março de 1973);

A estreia do uniforme vermelho e dourado de Johnny Storm,
que teve como modelo o do Tocha Humana original.
* Muitos são aqueles também que desconhecem por completo que, na sua primeira aparição, o cabelo do herói era ruivo, passando a loiro na edição seguinte; ou, ainda, que ele costumava deixar pegadas de fogo por onde passava, as quais demoravam horas a extinguir-se naturalmente;
* Apesar de o Tocha Humana atuar frequentemente de cara descoberta, nem a imprensa nem o público alguma vez conseguiram identificá-lo como Jim Hammond;
*Em linha com uma multitude de publicações do género, The Human Torch serviu fins propagandísticos durante a II Guerra Mundial. Impregnadas de fervor patriótico, era comum as historietas do Mestre do Fogo incluírem referências a episódios reais do conflito em curso. Pretendia-se desse modo enaltecer o esforço de guerra americano e, por inerência, a causa aliada;
* Conforme foi referido anteriormente, Camp Hammond, o centro de treino da SHIELD para meta-humanos, foi assim nomeado em homenagem ao Tocha Humana. Que, em tempos, teve também direito a uma estátua no interior do recinto, em cuja base se podia ler a seguinte inscrição: "Jim Hammond, a primeira das maravilhas. Ele mostrou-nos que os heróis podem ser criados." O monumento seria, contudo, derrubado por uma turba enfurecida durante a saga Reinado Sombrio (Dark Reign, 2009), quando, após desmantelar a SHIELD, Norman Osborn ordenou o encerramento das suas instalações espalhadas pelo globo;

Jim Hammond, agente da SHIELD.
*Apesar de ter aprendido a voar muito precocemente, por algum motivo o Tocha Humana não fez uso dessa habilidade em algumas das suas primeiras aventuras. Era, porém, capaz de correr mais depressa do que qualquer automóvel da época e de saltar a grandes alturas;
* Incendiário (Firebug), Mestre do Fogo (Fire Master) e Primeira Maravilha (First of the Marvels) são os principais epítetos utilizados para cognominar o Tocha Humana. Devendo-se este último não ao facto de ele ter sido o primeiro super-herói da Casa das Ideias (a sua estreia foi precedida em alguns meses pela do Príncipe Submarino), mas por lhe terem cabido as honras de inaugurar Marvel Comics. Título mensal que, como explicado acima, daria nome à editora anteriormente conhecida como Timely Comics e Atlas Comics;
* No Brasil, as histórias do primeiro Tocha Humana foram publicadas sob os auspícios de diversas editoras. Foi, todavia, com a chancela da Bloch que, entre 1975 e 1976, ele granjeou maior notoriedade em Terras Tupiniquins, ao ter direito a uma série mensal em nome próprio. Esta, além de servir de repositório ao material antigo da personagem publicado pela Timely Comics na década de 40 do século transato, reproduzia igualmente capas e histórias de um título regular que o herói flamejante estrelara em 1974 nos EUA. Como bónus, O Tocha Humana incluía ainda aventuras a solo do seu epónimo, Johnny Storm.
Mais recentemente, em 2015, foi a vez da editora Salvat lançar uma antologia das histórias emblemáticas do Tocha Humana original, tomo integrado na coleção Os Heróis Mais Poderosos da Marvel.

Dilúvio de fogo.
Duelo de Tochas Humanas a abrir a série solo do herói editada pela Bloch.
Noutros media: Por contraponto à sua versão contemporânea, o Tocha Humana clássico é um ilustre desconhecido do grande público. Contam-se, de resto, pelos dedos de uma mão as suas incursões no panorama audiovisual. Facto que, sem sombra de dúvida, contribui para reforçar esse seu semianonimato. Somente em 1994, num episódio avulso da primeira temporada da série animada Fantastic Four, é que o Mestre do Fogo timidamente se aventurou fora da banda desenhada.
Nessa sua estreia televisiva, a personagem teve, porém, a sua origem retocada. Na nova versão da sua história, ele continuava a ser um androide, mas projetado por Reed Richards. O que aconteceu depois de o líder do Quarteto ter descoberto uma forma de replicar os poderes incandescentes de Johnny Storm. Com esta cambiante, inverteu-se a ordem cronológica da aparição dos dois Tochas. Corruptela histórica apenas percecionada por verdadeiros eruditos da 9ª Arte.
Desde esta sua discreta participação em Fantastic Four, o primeiro Tocha Humana fez apenas dois cameos, um na TV e outro no cinema. O primeiro ocorreu em 2010 num episódio de The Super Hero Squad Show, outra série de animação produzida pelos Estúdios Marvel.
No ano seguinte, a personagem marcou presença em Capitão América: O Primeiro Vingador ( filme já aqui esmiuçado). Numa clara piscadela de olho ao material original, na sequência ambientada na Expo Stark, é mostrado um vislumbre do corpo inerte do androide no interior de um cilindro de vidro estanque e transparente. Uma vez mais, essa deliciosa referência terá passado despercebida ao leigos em "heroilogia".

O Tocha Humana na Expo Stark
em Capitão América: O Primeiro Vingador.



sexta-feira, 31 de outubro de 2014

HEROÍNAS EM AÇÃO: CRISTAL




    Antiga X-Man e atual agente da S.H.I.E.L.D., a heroína mutante conhecida como Cristal foi fruto de uma iniciativa multimédia conjunta da Marvel Comics e de uma editora discográfica visando promover uma estrela do disco sound. Mesmo tratando-se de uma personagem datada, logrou resistir à passagem do tempo, conquistando lugar cativo na mitologia da Casa das Ideias e no coração dos fãs.

Nome original da personagem: Dazzler 
Licenciadora: Marvel Comics
Primeira aparição: The Uncanny X-Men #130 (fevereiro de 1980)
Criadores: Tom DeFalco/Roger Stern (história) e John Romita, Jr. (arte)
Identidade civil: Alison Blaire
Local de nascimento: Gardendale, Long Island (Nova Iorque)
Parentes conhecidos: Carter Blaire (pai falecido), Katherine Blaire (mãe, também conhecida como Barbara London), Lois London (meia-irmã) e  Longshot (ex-marido)
Afiliação: Ex-membro dos Gladiadores (grupo de lutadores mutantes que atuavam num teatro subterrâneo de Los Angeles) e dos X-Men. É atualmente uma operacional ao serviço da S.H.I.E.L.D.
Base de operações: Móvel
Armas, poderes e habilidades:  A habilidade mutante de Cristal consiste em converter vibrações sónicas captadas pelo seu organismo em vários tipos de luz. Esta habilidade parece operar numa vasta gama de frequências, incluindo o espectro audível. No entanto, a heroína prefere usar sons musicais como fonte de alimentação dos seus poderes. Não só por serem mais agradáveis aos seus ouvidos, mas também porque asseguram uma menor aleatoriedade. Donde resulta um maior controlo de Cristal sobre as suas habilidades, permitindo-lhe assim definir a cor, frequência, intensidade e duração dos feixes luminosos por si produzidos. Além, claro, de os conseguir direcionar com precisão para um determinado alvo.
  Originalmente, Cristal apresentava-se apetrechada com um leitor de cassetes customizado que lhe providenciava a música de que necessitava para ativar os seus poderes. Mais tarde, passou a envergar um traje especial - concebido pelo Professor Xavier - que lhe permitia armazenar os sons por ela absorvidos. Com o tempo, Alison desenvolveu a capacidade de acumular os sons captados no interior do seu corpo, libertando-os em pequenas porções sob a forma de luz ou de energia.
  Cristal consegue gerar um plêiade de efeitos luminosos: desde simples padrões multicoloridos para abrilhantar os seus concertos até à projeção de lasers ou de pulsos de luz estroboscópica que cegam e/ou afetam temporariamente o equilíbrio dos seus oponentes. Com algum esforço e concentração, Alison consegue ainda produzir hologramas tridimensionais de pessoas ou objetos, bem como erguer escudos defletores que a protegem de ataques com projéteis ou rajadas energéticas. Graças aos seus olhos polarizados, ela não é encandeada pela luz, própria ou alheia. Do mesmo modo, um sofisticado sistema natural de ecolocalização, permite-lhe detetar sons impercetíveis ao ouvido humano antes de os absorver e transformar em energia.
   Um fluxo ultraconcentrado de fotões sólidos é, todavia, a mais poderosa manifestação das suas habilidades mutantes. Devido à enorme quantidade de energia necessária à sua geração, no passado a heroína relutava em usar esse poder, sob pena de ficar exaurida. Aquando da sua passagem pelos X-Men aprendeu, contudo, a fazê-lo em segurança. Durante o mesmo período demonstrou ser capaz de manipular o espectro eletromagnético, por forma a criar radiação de micro-ondas com considerável potencial destrutivo.
    Alison é também uma atleta de topo que aperfeiçoou as suas técnicas de combate corpo a corpo em resultado do treino recebido no Instituto Xavier para Jovens Sobredotados. Hábil patinadora, nos primórdios da sua carreira era comum usar patins magnéticos acoplados às suas botas, os quais lhe permitiam mover-se a grande velocidade.
    Recentemente agraciada com um misterioso dom de ressurreição, tudo indica que Cristal não pode ser morta através dos métodos convencionais.

Rainha da pista de dança e justiceira nas horas vagas.

Histórico de publicação: Tendo como referência um projeto análogo envolvendo a banda de rock Kiss, na reta final da década de 1970 - numa altura em que o disco sound já vinha perdendo terreno para outros géneros musicais - a editora discográfica norte-americana Casablanca Records decidiu patrocinar uma iniciativa multimédia com o fito de lançar uma nova cantora. Com efeito, desde 1977 que os Kiss dispunham de duas séries próprias (e extremamente populares) de banda desenhada que ajudavam a promover o grupo. Um caso de sucesso que a Casablanca Records pretendia replicar para daí retirar proventos. Nesse sentido, firmou uma parceria com a Marvel Comics, incumbida de conceber uma super-heroína que seria uma espécie de Rainha do Disco Sound. Em paralelo, a Casablanca Records introduziria no mercado uma nova estrela musical. Esta plataforma multimédia ficaria completa com inclusão da Filmworks, sob cujos auspícios seria produzida uma longa-metragem protagonizada pela nova personagem.

Desde 1977 que os Kiss vivem aventuras aos quadradinhos.

   Definidos os moldes e objetivos do projeto, Jim Shooter, à época editor-chefe da Marvel, logo apresentou um primeiro esboço do conceito: na sua versão primitiva, a personagem (ainda sem nome atribuído) seria uma cantora com o poder de obrigar qualquer pessoa a dizer a verdade. No entanto, Shooter também logo se deparou com a primeira dificuldade à realização do projeto: nenhum dos principais argumentistas ou ilustradores da Marvel queria ter nada a ver com ele.
     A solução encontrada passou por contratar o ex-argumentista da Archie Comics, Tom DeFalco. O qual introduziu diversas alterações ao conceito original desenvolvido por Shooter: em alternativa à capacidade de levar as pessoas a dizerem a verdade, DeFalco sugeriu que a personagem tivesse poderes baseados na luz. Aprovada a ideia, coube a John Romita, Jr. desenhar o visual de Dazzler (assim crismada pelo argumentista Roger Stern e que, em tradução literal, é sinónimo de "deslumbrante" ou "estonteante").
    Como modelo para a conceção da aparência da nova personagem, Romita, Jr. usou inicialmente Grace Jones, uma exótica manequim, cantora e atriz afro-americana muito em voga na época. Contudo, a Filmworks pretendia aproveitar o projeto para promover a também modelo e atriz Bo Derek. Nesse sentido, impôs alterações ao visual de Dazzler, plasmando as características fisionómicas da curvilínea protagonista de Bolero (1984).

Bo Derek, a beldade que serviu de modelo aos criadores de Cristal.
   
  A Casablanca Records, por seu turno, insistiu para que Dazzler fosse promovida através de participações especiais nos principais títulos da Marvel: The Fantastic Four, The Amazing Spider-Man e The Uncanny X-Men. Tratando-se de uma mutante, foi, aliás, neste último que a heroína debutou, em fevereiro de 1980.

A estreia de Cristal em The Uncanny X-Men #130 (1980), título talismã para a personagem.

  Os responsáveis da editora discográfica continuaram, não obstante, a exigir sucessivas alterações conceptuais, designadamente no que à aparência e personalidade da personagem dizia respeito. Facto que motivou os diversos cancelamentos temporários do projeto que precederam o abandono definitivo do mesmo por parte da Casablanca Records, alegadamente por razões financeiras. Perante este revés, à Casa das Ideias não restou outro remédio se não apostar numa série mensal estrelada pela sua nova coqueluche.
    Fazendo no fé no testemunho de Tom DeFalco, o lançamento de um título próprio de Dazzler foi adiado cinco ou seis vezes, antes da sua materialização em março de 1981.Isto porque, nesse ínterim, a Marvel (já depois de a Filmworks ter desertado do projeto) afadigou-se na busca de produtores cinematográficos dispostos a investirem num filme baseado na personagem. Mesmo sem lograrem êxito nessa sua demanda, Jim Shooter e Stan Lee resolveram avançar com o lançamento da série mensal intuindo o sucesso da mesma.
    Assim, Dazzler #1 foi editado no sentido de espelhar as transformações operadas no Universo Marvel e para se enquadrar no novo formato de publicações compostas por 22 páginas. Outra das alterações introduzidas no conteúdo do número inaugural da série consistiu na exclusão de Ciclope (então líder dos X-Men) como convidado especial e na inserção da benjamim dos pupilos do Professor X, Kitty Pryde (futura Lince Negra). Como bónus, o referido volume continha igualmente a origem de Dazzler, entretanto estrategicamente distanciada do universo disco sound, numa altura em que era já evidente a sua decadência.
   Numa aposta de alto risco, Jim Shooter deliberou que Dazzler #1 fosse colocado à venda somente em lojas de comics especializadas, contornando dessa forma o tradicional circuito de distribuição comercial. Resolução com tanto de inédita como de audaciosa, considerando que à data a indústria dos quadradinhos atravessava uma fase conturbada.
    Com mais de 400 mil exemplares vendidos (correspondendo a mais do dobro da média de vendas desse tipo de material), Dazzler #1 saldou-se num estrondoso sucesso. Facto a que não foram decerto alheias as participações, ao longo dos seus cinco primeiros números, de algumas personagens de charneira da Marvel: Homem-Aranha, X-Men, Hulk, Doutor Destino e até mesmo Galactus abrilhantaram com a sua presença as histórias da neófita heroína. Que, por sua vez, retribuiu a cortesia levando ocasionalmente o seu glamour a títulos como The Avengers ou The Uncanny X-Men.

O primeiro número de Dazzler valeu um recorde de vendas à Marvel.

   Malgrado o seu sucesso comercial, Dazzler não escapou a críticas. Muitos eram os leitores que desaprovavam o enfoque dado nas histórias da personagem a aspetos da sua vida pessoal e familiar em detrimento de sequências de ação mais consentâneas com o género super-heroico. Também o facto de a heroína usar a mesma indumentária quando atuava em palco ou quando combatia malfeitores mereceu duras críticas por parte de alguns fãs.
     A esse propósito Tom DeFalco teceu, anos depois, as seguintes considerações: "Havia nessas críticas uma hipocrisia intrínseca por parte de alguns leitores: ao mesmo tempo que clamavam por conceitos inovadores, exigiam que Dazzler se conformasse aos esterótipos preexistentes no género".


Tom DeFalco.

   John Romita, Jr. abandonou o título ao fim de três edições, sendo substituído por Frank Springer. DeFalco, por sua vez, manteve-se como argumentista da série até ao seu sexto número. Continuou, porém, a supervisionar o trabalho desenvolvido pelo seu sucessor, Danny Fingeroth. Este e Springer formariam uma dupla criativa estável até Dazzler #27 -dois números depois de o título passar a bimestral em virtude da quebra de vendas registada. Esta nova periodicidade de publicação, aliada às muitas modificações sofridas pela personagem (Springer convertera-a numa aspirante a atriz em Los Angeles), tornaram-na ainda menos apelativa tanto para os seus atuais leitores como para os novos.


John Romita, Jr.
   Perante este quadro precário, a Marvel procurou revitalizar a série interligando-a com uma graphic novel ( Dazzler, The Movie, a quadrinização do guião do filme nunca realizado da personagem) e uma minissérie estreladas pela heroína. Se a primeira foi aclamada pela crítica e pelos leitores, a segunda redundou num fiasco.
     Com as vendas em queda livre, a Marvel apostou as fichas todas na dupla composta pelo argumentista Archie Goodwin e pelo desenhista Paul Chadwick , que assumiram a produção de Dazzler a partir do seu 38º número. Eliminado o subtexto que caracterizava anteriormente as suas histórias, Dazzler aproximou-se mais do conceito genérico de super-heroína, ganhando de passagem um novo uniforme. Nada disso foi, porém, suficiente para salvar a série, que acabaria cancelada em 1985.
     Depois de ter sido equacionada a hipótese de conceder a Dazzler o estatuto de fundadora do X-Factor (equipa inicialmente formada pelos cinco X-Men originais), a ideia seria descartada devido à decisão de ressuscitar Jean Grey. A alternativa passou por integrá-la nos X-Men, ao lado dos quais atuou até aos primeiros anos da década de 1990, altura em que se eclipsou. Seguiu-se uma longa travessia do deserto, interrompida apenas por esporádicas aparições em histórias alheias. Seria, pois, preciso esperar até ao dealbar do presente século para assistirmos ao regresso triunfal de Dazzler. Com o lançamento de The New Excalibur, a heroína mutante voltou a assegurar presença regular no Universo Marvel. Quando a série foi cancelada, Dazzler tornou-se coadjuvante no título onde se estreou: The Uncanny X-Men.
    Em fevereiro de 2010, chegou às bancas norte-americanas uma edição especial estrelada por Dazzler, escrita por Jim McCann e com arte a cargo de Kalman Andrasofszky. Um par de anos volvidos, a personagem reapareceu, (agora na qualidade de operacional da S.H.I.E.L.D) novamente nas páginas de The Uncanny X-Men. É,pois, caso para dizer que a boa filha a casa torna...
   
A graphic novel que retrata o filme nunca feito de Cristal.
     
Biografia: Filha única do casal Carter e Katherine Blaire, Alison nasceu em Long Island, um subúrbio de Gardendale, Nova Iorque. Os seus progenitores tinham uma relação tensa, uma vez que o seu pai era um austero estudante de Direito, ao passo que a sua mãe se considerava um espírito livre tendo na música a sua grande paixão. Em consequência dessas diferenças de personalidade, Katherine acabou por abandonar o companheiro quando Alison ainda mal gatinhava. Foi, pois, com a ajuda da avó paterna de Alison que o seu pai a conseguiu criar e educar.
   O abandono de Katherine deixou profundas marcas emocionais em Carter, que optou durante muitos anos por guardar segredo do episódio junto da filha. Quando, já adolescente, ela começou a sonhar com uma carreira ligada à música, o pai - agora um respeitado juiz - opôs-se veementemente e tentou direcioná-la para uma trajetória de vida similar à sua. Alison interiorizou então a ideia de que, um dia, conseguiria conciliar ambas as carreiras. Para essa decisão contribuiu o encorajamento recebido por parte da sua avó paterna, mais benevolente relativamente às suas veleidades artísticas.
   Alison frequentava o liceu quando as suas habilidades mutantes se manifestaram pela primeira vez. Aspirante a cantora, tinha-se voluntariado para atuar num espetáculo musical organizado na sua escola, durante o qual descobriu que, a partir de sons, conseguia gerar variados efeitos luminosos. No entanto, a sua plateia em delírio julgou tratarem-se de efeitos especiais. Uma assunção comum antes de Alison, alguns anos volvidos, revelar a sua natureza mutante. Esse foi, de resto, um dos segredos mais bem guardados da sua vida: mesmo os que lhe eram mais próximos - incluindo o próprio pai -ignoravam que Alison era, na verdade, uma homo superior.
    Em vésperas de entrar para a universidade - e para desespero do pai- , Alison começou a explorar mais ativamente os seus poderes luminosos e os seus dotes musicais, relegando para plano secundário os estudos. Com efeito, em plena cerimónia de entrega dos diplomas do liceu, a jovem comunicou ao seu progenitor que não pretendia ingressar na faculdade de Direito que ele escolhera para ela. Mesmo sem a bênção e o apoio monetário paternos, Alison estava determinada em tentar a sua sorte no mundo da música.

Os poderes luminosos de Cristal proporcionavam experiências extáticas aos seus fãs que, contudo, desconheciam que a  diva do disco sound era uma mutante.

   Alison sabia que a sua habilidade mutante de converter som em luz seria uma mais-valia para as suas performances artísticas. De facto, os estonteantes efeitos visuais que abrilhantavam os seus espetáculos logo atraíram a atenção de diversas discotecas e clubes noturnos nova-iorquinos. Adotando o pseudónimo Cristal e confecionando o seu próprio guarda-roupa (que incluía um colar com um pendente em forma de bola de espelhos herdado da sua mãe), Alison tornou-se uma das cantoras mais badaladas da cidade. Contudo, quer o seu público quer os proprietários dos estabelecimentos onde atuava, desconheciam em absoluto a verdadeira origem dos seus poderes. Apesar de alguma especulação em torno do assunto, Alison conseguiu convencer todos que se tratava de uma sofisticada tecnologia de efeitos especiais.
     Foi precisamente num dos seus espetáculos que se cruzou pela primeira vez com os X-Men, sob ataque de elementos ligados ao Clube do Inferno. Furiosa com a inusitada interrupção da sua atuação, Cristal usou as suas habilidades para neutralizar os atacantes, deixando acidentalmente um deles em estado catatónico. De seguida ajudou os heróis mutantes a encontrarem a benjamim da equipa, Kitty Pryde.
    Apesar de ter considerado excitante essa experiência ao lado dos X-Men, Cristal declinou o convite dos pupilos do Professor Xavier para se juntar à equipa, receando que o preconceito em relação aos mutantes prejudicasse a sua fulgurante carreira musical ( o que viria efetivamente a acontecer anos mais tarde).

Ao lado dos X-Men, Cristal ganharia um novo visual e um maior controlo dos seus poderes.

    Nada que a impedisse, ainda assim, de desenvolver paralelamente uma carreira de combatente do crime, ao mesmo tempo que ia travando conhecimento (mais ou menos amistoso) com outros super-heróis. Numa época em que muitos ainda questionavam o seu posicionamento moral, Cristal manteve uma fugaz parceria com Escudo Azul e um ainda mais fugaz romance com o Anjo. Enfrentou também vários pesos pesados vilanescos: Doutor Destino, Encantor e Terrax (o brutal arauto de Galactus). Pelo meio foi coagida a juntar-se ao Clube do Inferno, cuja Rainha Branca (Emma Frost) cedo percebeu o potencial dos poderes da jovem.
    Num golpe do destino, Alison descobriu por acaso que a sua treinadora vocal era, afinal, a mãe que a abandonara ainda bebé. Com essa descoberta veio um conjunto de revelações bombásticas: depois de abandonar a filha e o companheiro, Katherine mudara-se para a Costa Oeste, assumira a identidade de Barbara London e constituíra nova família. Alison ficou também ao corrente do passado de toxicodependência da mãe, dos abusos por ela sofridos às mãos do seu novo companheiro e da existência de uma meia-irmã de seu nome Lois London. Ela e Alison logo se tornaram inseparáveis.
    Outro ponto de viragem na vida pessoal e profissional de Alison ocorreu quando ela revelou publicamente a sua condição de mutante. Contrariando as suas expectativas, a reação por parte dos fãs e da imprensa foi bastante adversa. Em consequência disso, Alison viu sucessivas portas fecharem-se-lhe em Nova Iorque levando-a a migrar para Los Angeles na esperança de aí poder encetar uma carreira como atriz. Acabaria, no entanto, por se juntar durante a sua estada na Cidade dos Anjos aos Gladiadores, um grupo de combatentes mutantes que lutavam entre si até à morte num teatro subterrâneo para diversão de humanos endinheirados. Uma experiência que também não terminou da melhor maneira: depois de ter sido drogada e obrigada a combater com o Fera, Alison abandonou os Gladiadores. Sob diversos nomes falsos, passou então a trabalhar como empregada de mesa em restaurantes da cidade.
    Algum tempo depois, Alison regressou a Nova Iorque e procurou a ajuda do Professor Xavier. Este forneceu-lhe um novo uniforme que lhe permitia não só armazenar sons como também amplificava as suas habilidades mutantes. Recebeu também de Wolverine treino intensivo em técnicas de sobrevivência e combate corpo a corpo.Findo o qual, uma revigorada Cristal se tornou membro de pleno direito dos X-Men.
    Ao lado dos pupilos de Xavier, Cristal conheceu Longshot, um herói mutante oriundo de um mundo extradimensional e seu futuro marido. Para ficar junto dele, a jovem abandonou a Terra e os X-Men durante alguns anos.

Cristal na sua segunda passagem pelos X-Men.

   Regressaria, no entanto, ao nosso planeta e aos X-Men após uma sucessão de contrariedades (incluindo uma gravidez interrompida) que haviam ditado o fim do seu casamento com Longshot. Apenas para ser arrastada para o épico conflito que opôs os seus companheiros de equipa aos Vingadores. Na sequência do cisma mutante daí resultante, Cristal foi recrutada pela S.H.I.E.L.D. com a missão de localizar e descobrir os desígnios da fação extremista liderada por Ciclope.
     
Alison Blaire, agente da S.H.I.E.L.D.
Noutros media: Na lista das 100 Mulheres Mais Sexys dos Quadradinhos divulgada pelo Comics Buyer's Guide, Cristal quedou-se pela 83ª posição. Embora, como vimos, tenha sido produto de uma fracassada iniciativa multimédia, a heroína mutante poucas oportunidades tem tido noutros meios de comunicação que não os quadradinhos. No seu currículo constam apenas algumas participações em séries de animação estreladas pelos Filhos do Átomo: X-Men: Pryde of The X-Men (1989), X-Men: The Animated Series (1992-1997) e Wolverine and the X-Men (2009). Exceto pelo episódio-piloto da primeira (no qual surgia integrada na equipa), nas restantes duas foi apenas coadjuvante.

Um estrela musical literalmente dotada de luz própria.