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quarta-feira, 22 de agosto de 2018

GALERIA DE VILÕES: LEX LUTHOR


  Era o Rei Sol da Cidade do Amanhã até ser eclipsado por um forasteiro de sorriso caloroso e poderes divinos que arrebatou os corações dos seus súbditos. Recusando viver à sombra do falso deus, jurou destruí-lo em prol da Humanidade que só a ele deveria venerar.

Licenciadora: Detective Comics (DC)
Criadores: Jerry Siegel (história) e Joe Shuster (arte conceitual)
Estreia: Superman nº4 (março de 1940)
Identidade civil: Alexei Luthor (Idade da Prata); Alexis Luthor (Idade da Prata e do Bronze); Alexander Joseph Luthor (versão moderna)
Espécie: Humano
Local de nascimento: Smallville, Kansas (Idade da Prata e versão moderna);  Beco do Suicídio, Metrópolis (versão pós-Crise nas Infinitas Terras)
Parentes conhecidos: Lionel e Leticia Luthor (pais, falecidos); Casey e Elaine Griggs (pais adotivos, falecidos); Lena Luthor (irmã, falecida); Lori Luthor (sobrinha); Ardora (ex-esposa, falecida); Condessa Erica Alexandra del Portenza (ex-esposa, presumivelmente falecida); Lex Luthor Jr. (filho, falecido); Lena Luthor (filha); Perry White Jr. (filho ilegítimo, falecido); Kon-El / Superboy ("filho" parcialmente clonado a partir do seu ADN)
Ocupação: Cientista, empresário, filantropo, aventureiro e ex-Presidente dos EUA
Base operacional: Uma pequena cidade flutuante não identificada (Idade do Ouro); Smallville (Idade da Prata); planeta Lexor (Idade do Bronze); Metrópolis (versão moderna)
Afiliações: Presidente executivo da LexCorp; ex-agente da A.R.G.U.S.; ex-líder da Legião do Mal, do Sexteto Secreto, da Liga da Injustiça e da Sociedade Secreta de Supervilões 
Armas, poderes e habilidades: Lex Luthor dispõe das capacidades físicas normais de um homem da sua idade e compleição. Com o rolar das décadas foi, contudo, invariavelmente descrito como um génio científico, senhor de uma das mais prodigiosas mentes da Terra. Alguns não hesitam mesmo em classificá-lo como o humano mais inteligente de todo o Universo DC.
Além de memória eidética (vulgo memória fotográfica), Luthor é proficiente em áreas tão diversificadas como robótica, computação, bioengenharia, nanotecnologia e até viagens temporais e extradimensionais.
Não admira, por isso, que, com a imodéstia que o caracteriza, Luthor se considere intelectualmente superior aos demais. Exceção feita a Brainiac, o vilão coluano que é outro dos oponentes clássicos do Homem de Aço, e com o qual Luthor forjou já várias alianças.
Associando o seu formidável intelecto a uma desarmante amoralidade e falta de ética, Luthor encontrou a receita infalível para o sucesso no mundo dos negócios. Desde a sua reformulação às mãos de John Byrne no período pós-Crise nas Infinitas Terras, Luthor despiu a pele de cientista insano para vestir a de um poderoso magnata, cuja colossal fortuna o coloca no pódio dos homens mais ricos do planeta.
Metódico e carismático, Luthor é um líder inato, seja no submundo do crime organizado, no meio empresarial ou na arena política. Foram, aliás, esses predicados que, aliados às suas propostas demagógicas, lhe valeram em tempos a eleição para Presidente dos EUA (ver Origem e evolução).
Depois de décadas a usar várias formas de kryptonita para causar dano ao Super-Homem, desde a Idade do Bronze que Luthor se apetrechou com um traje blindado equipado com um vasto arsenal e que, entre outras coisas, lhe permite voar e gerar campos de força. A versão atual da sua armadura incorpora tecnologia de Apokolips, sendo presumivelmente energizada por uma Caixa Materna, o que aumenta consideravelmente o seu poderio.
Embora, por norma, evite o confronto físico com os seus adversários, Luthor está longe de ser indefeso em cenários de combate corpo a corpo. Ou não tivesse ele sido treinado por alguns dos melhores mestres de artes marciais que o dinheiro pode comprar - sem mencionar que é um trapaceiro sem emenda, incapaz de jogar limpo.
A arma mais letal de Luthor é, no entanto, a sua mente. Que, como ele gosta de se vangloriar, supera o músculo e prisão alguma poderá manter cativa.

A armadura de Luthor permite-lhe equilibrar
os combates com o Homem de Aço.

Fraquezas: Às naturais limitações decorrentes da sua condição de simples humano, Luthor acrescenta ao seu rol de pontos fracos uma proverbial soberba intelectual e uma profunda incapacidade de compreender a psicologia dos seus adversários.
Esse défice de empatia é ainda mais evidente no que aos heróis concerne. Motivações altruístas e atos abnegados afiguram-se-lhe meras abstrações e, por isso, falha sistematicamente em compreendê-los ou antecipá-los.
Apesar de apetrechado com uma mente analítica, Luthor recusa, por exemplo a possibilidade de um ser tão poderoso como o Super-Homem ser completamente benévolo, ou ter a necessidade de se disfarçar como um humano. Pois isso é algo que Luthor - que, no fundo, aspira à divindade e despreza os seus semelhantes - jamais faria.
Daí Luthor ter ridicularizado as evidências que em tempos lhe foram apresentadas de que o Homem de Aço e Clark Kent eram uma só pessoa. Ao fazê-lo, desbaratou uma importantíssima vantagem estratégica sobre o seu némesis, abdicando voluntariamente de qualquer possibilidade de vitória sobre ele.

Origem e evolução

Também ele saído da imaginação de Jerry Siegel e Joe Shuster, que menos de dois antes haviam apresentado o Super-Homem ao mundo, Lex Luthor fez a sua estreia oficial em Superman nº4 (março de 1940). Identificado apenas pelo apelido que se tornaria sinónimo de velhacaria, começou por ser retratado como um génio diabólico animado pela ganância.
Com uma cidade suspensa por um dirigível a servir-lhe de base de operações móvel, Luthor procurava, nessa sua primeira aparição, desencadear um conflito entre duas nações europeias. Os seus planos seriam, contudo, frustrados pela intervenção do Super-Homem. Algo que, com o passar do tempo, se tornaria uma tradição.

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Erroneamente atribuída por algumas fontes a Action Comics nº23 (abril de 1940),
a estreia de Luthor deu-se de facto um mês antes em Superman nº4.
Nestas primeiras histórias dadas à estampa nos alvores da Idade do Ouro, os esquemas de Luthor centravam-se, invariavelmente, na obtenção de riqueza ou em desígnios megalómanos. Ao contrário da quase totalidade das suas versões posteriores, o vilão não demonstrava então qualquer animosidade pessoal contra o Super-Homem além, claro está, do natural ressentimento derivado das constantes interferências do herói nos seus planos.
Originalmente, Luthor era retratado como um homem de meia-idade, anafado e com uma guedelha ruiva a ornar-lhe a cabeça. Facto pouco conhecido, a sua icónica calvície foi fruto de um lapso artístico.
Numa tira de jornal publicada no início de 1941, o ilustrador Leo Nowak terá confundido Luthor com o Ultra-Humanoide, o primeiro supervilão das histórias do Super-Homem cuja aparência invocava a de um idoso careca. Esta perda abrupta de cabelo seria profusamente referenciada na próxima aparição da personagem, em Superman nº10 (maio de 1941).

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O visual original de Luthor antes de ser confundido com o Ultra-Humanoide (baixo).

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Quando, já na Idade da Prata, o Multiverso DC começou a ganhar forma, a versão ruiva do vilão foi batizada como Alexei Luthor e apresentada como a sua contraparte da Terra-2.
Foi também nesse período que, após uma longa ausência, Luthor regressou para atormentar a versão juvenil do Homem de Aço. Numa história publicada em Superboy nº59 (setembro de 1957), um misterioso homem calvo usava as suas geniais invenções para ajudar o povo de Smallville.
Quando o Superboy percebe que tudo não passa de um embuste para desviar as atenções do assalto a um banco que o forasteiro pretende executar, apressa-se a deitar por terra os seu planos. Colocado atrás das grades, Luthor revela por fim o seu nome e jura vingar a afronta.
Em abril de 1960, numa história inclusa em Adventure Comics nº271 e escrita pelo próprio Jerry Siegel, foi finalmente revelada a origem e o primeiro nome de Luthor. Cuja família, no início da sua adolescência, se mudara para Smallville.
Lex, que já então dava mostras de grande talento científico, passou a idolatrar o Superboy. Os dois chegaram a trabalhar juntos em prol da comunidade e Lex chegou mesmo a estudar um meio de tornar o Rapaz de Aço imune aos efeitos nocivos da kryptonita.
Essa breve amizade terminaria de forma dramática quando, na sequência de um acidente laboratorial causado pelo Superboy, Luthor perdeu o seu cabelo. Nunca perdoando o sucedido, Luthor jurou matar o Rapaz de Aço a fim de provar ao mundo a sua superioridade.

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Luthor culpa Superboy pela sua calvície.
Durante a década de 1970, na chamada Idade do Bronze, Luthor, embora um infame criminoso na Terra, seria aclamado como um salvador em Lexor. Planeta assim batizado em sua honra depois de Lex ter ajudado os nativos a reconstruir a sua civilização.
Após sofrer uma humilhante derrota às mãos do Homem de Aço, Luthor trocou a Terra por Lexor, passando a usar o seu mundo adotivo como plataforma para o lançamento de incessantes ofensivas contra o seu arqui-inimigo.
Foi durante essa fase que Luthor projetou a sua icónica armadura verde e roxa, da qual se tornaria inseparável. Foi também em Lexor que Luthor conheceu Ardora, uma adorável nativa  que ele desposaria e que lhe daria o seu primeiro descendente biológico, Lex Luthor Jr.
Quando um dos planos de Luthor resultou na destruição de Lexor, o vilão, embora consternado pela perda dos seus entes queridos, culpa uma vez mais o Super-Homem pelo sucedido.

O modelo original do traje blindado de Luthor
surgiu na Idade do Bronze.
Após Crise nas Infinitas Terras, Luthor, assim como várias outras personagens-chave da mitologia do Homem de Aço, foi reformulado por John Byrne. De cientista louco passou a empresário sem escrúpulos nascido no Beco do Suicídio (uma das zonas mais degradadas de Metrópolis), onde passou uma infância marcada pela pobreza e pelos maus-tratos infligidos por um pai alcoólico que zombava dos seus sonhos de uma vida melhor.
Uma biografia não-autorizada sugere que, ainda adolescente, Luthor terá sido o responsável pelo acidente de automóvel que vitimou os seus pais. Certo é que a choruda apólice de seguro recebida foi o primeiro passo para acumular uma apreciável fortuna.
Lex usou a sua riqueza e genialidade para fundar a LexCorp, uma gigantesca multinacional atuante em áreas bastante diversificadas, mas que sobressai na pesquisa científica e no desenvolvimento de tecnologia de ponta.  À medida que a empresa crescia, tornando-se parte vital da economia de Metrópolis, crescia também o prestígio e influência de Luthor, que não tardaria a tornar-se o homem mais poderoso da Cidade do Amanhã*.
Tudo isso mudaria com o advento do Super-Homem. De um dia para o outro, Luthor viu-se ofuscado por um bom samaritano com poderes semidivinos. O facto de o novo ídolo das multidões ter nascido com os seus poderes sem, por contraste com Luthor, ter conquistado coisa alguma, despertou no magnata uma profunda inveja.
Sentimento que evoluiria para o mais visceral dos ódios quando Luthor percebeu que o Homem de Aço não podia ser corrompido ou sequer manipulado. Em virtude disso, Luthor não olhou a meios para destruir o herói.  E quase o conseguiu em várias ocasiões, especialmente depois de ter deitado a mão à única amostra de kryptonita existente na Terra.
Da sua prolongada exposição à radiação do mineral alienígena resultaria, no entanto, um cancro em fase terminal. Mas até a morte Luthor conseguiu fintar ao transferir a sua mente para um clone que, num primeiro momento, se fez passar por seu filho ilegítimo nascido na Austrália.

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O Luthor pós-Crise
 e o seu filho bastardo
que era, afinal, um clone (baixo).

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Ao cabo de vários anos a cultivar uma imagem de filantropo, Luthor empregaria a sua tecnologia na reconstrução de Gotham City - arrasada por um terramoto e transformada numa terra de ninguém**.
Beneficiando da forma inábil como a anterior Administração gerira os efeitos da catástrofe, Luthor foi eleito Presidente dos EUA na viragem do século XX para o século XXI.
Um enorme escândalo envolvendo uma transação de armas com Apokolips ditaria, porém, a sua destituição a meio do mandato presidencial. Ironicamente, numa altura em que os seus índices de popularidade estavam em alta.
Na esteira desses acontecimentos Luthor perdeu também o controlo do seu conglomerado e, caído em desgraça, desapareceu do radar durante uma longa temporada.

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Um milionário controverso na Casa Branca 
(ou quando a ficção antecipa a realidade).
Na continuidade dos Novos 52, Luthor começou por ser um agente governamental ao serviço da A.R.G.U.S., organização encarregue de monitorizar atividades meta-humanas. Foi, de resto, com esse estatuto que capturou e torturou um jovem Clark Kent que ainda não tinha desenvolvido o seu pleno potencial.
Empenhado em expor o Super-Homem como uma ameaça à Humanidade, Luthor seria no entanto surpreendido pela morte do herói.
Para perplexidade geral, após esse trágico evento, Luthor adornou o seu novo traje de combate com o símbolo do seu velho inimigo e ocupou a sua vaga como novo defensor de Metrópolis. Perante as suspeitas do Super-Homem clássico - entretanto regressado em Renascimento - Luthor tem-se esforçado por provar a nobreza das suas intenções e até já foi membro temporário da Liga da Justiça.
O tempo dirá se o velho Lex se regenerou de facto ou se tudo se resume a uma das suas costumeiras maquinações para levar o Homem de Aço a baixar a guarda.

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Super Luthor: herói ou vilão?

Personalidade

Desde sempre retratado como um indivíduo frio, calculista e megalómano, Lex Luthor era já azedo e antissocial nos seus verdes anos. Por conta dos abusos sofridos na infância por parte dos seus progenitores, Luthor desenvolveu uma personalidade implacável com requintes de sadismo e passou a encarar as pessoas como meros instrumentos ao seu dispor ou obstáculos a serem removidos do seu caminho.
Essa sua natureza retorcida permitiu-lhe, todavia, escalar até ao topo da pirâmide social. Algo que só foi possível graças a todo o tipo de jogadas sujas, de que Luthor logrou sempre sair impune, agindo nos bastidores ou delegando-as em subordinados descartáveis.
Construindo uma imagem de self-made man, Luthor acaba por ser uma representação enviesada do sonho americano. Contudo, o  seu poder e influência fizeram dele uma inspiração para muitos cidadãos comuns, cuja adulação nutria o obeso ego de Luthor antes do advento do Super-Homem à Cidade do Amanhã. A Maravilha de Metrópolis deu aos seus habitantes um novo ideal  ao qual aspirar, ofuscando Luthor.
Contrariamente à generalidade dos seus concidadãos, Luthor não vê no Homem de Aço uma bênção ou um salvador, mas antes uma ameaça extraterrestre - ou, na melhor das hipóteses, um indesejável entrave ao progresso humano.

Luthor sonha ter o mundo a seus pés.
Em linha com esse raciocínio,  em inúmeras ocasiões Luthor proclamou a sua intenção de, após destruir o Super-Homem, trabalhar para o aprimoramento da Humanidade. Que, sob a sua sábia orientação, poderia aspirar à divindade. Embora, em boa verdade, Luthor se veja a si mesmo como o único deus digno de ser reverenciado pelos seus semelhantes.
Movido por um mesquinho sentimento de inveja mascarado de xenofobia humanista, Luthor persegue obstinadamente o seu principal desígnio: matar o Super-Homem, por forma a tornar-se o maior campeão da Humanidade - título que julga seu por direito.
Não obstante, já deu ocasionalmente provas de ser capaz de praticar atos heroicos. Durante a saga Noite Final, por exemplo, ajudou a Liga da Justiça a "recarregar" o Sol, evitando dessa forma a extinção da vida na Terra.

Trivialidades 

*Um cientista louco não identificado - mas com notórias semelhanças fisionómicas com Lex Luthor - marcou presença numa história publicada em More Fun Comics nº23. Facto que nada teria de assinalável se a edição em causa não tivesse precedido em três anos a criação do arqui-inimigo do Super-Homem. Igualmente inegáveis são as parecenças físicas entre Luthor e o protótipo do Super-Homem (um vilão calvo com poderes telepáticos) apresentado em 1934 por Jerry Siegel e Joe Shuster***;
*Em Smallville (ver texto seguinte), um jovem Lex Luthor torna-se próximo de Clark Kent. Essa amizade (e subsequente rutura) é em tudo idêntica à relação mantida entre ambos durante a Idade da Prata. Com a diferença de que, na versão televisiva, foi a radiação de uma chuva de meteoritos a causar a calvície de Luthor. Em ambos os casos, porém, Clark foi indiretamente responsável pelo sucedido, motivando dessa forma o ressentimento de Lex;
*Embora fossem ambos adolescentes quando os seus caminhos se cruzaram pela primeira vez, em Adventure Comics nº271 (abril de 1960), existe uma discrepância nunca explicada entre a idade de Clark Kent e Lex Luthor. Dois anos antes, em Adventure Comics nº253, Luthor era já adulto (e ainda dono de uma farta cabeleira ruiva) quando encontrou o Superboy pela primeira vez;
*Após uma viagem no tempo com o Homem de Aço, Luthor causou inadvertidamente o catastrófico terramoto que, em 1906, arrasou uma parcela significativa da cidade californiana de São Francisco;
*Em 1944, cerca de um ano antes dessa arma ser vista em ação pela primeira vez, Luthor foi a primeira personagem da banda desenhada (e um dos primeiros na ficção) a usar uma bomba atómica. Motivando, assim, um pedido por parte do Departamento de Guerra dos EUA para que a publicação da história fosse adiada, por forma a manter secreto o Projeto Manhattan. Em resultado disso, a história em questão só seria apresentada aos leitores um par de anos mais tarde, em 1946;
*Lex Luthor foi, também, o primeiro carrasco do Super-Homem. Numa história não-canónica publicada em Superman nº149 (novembro de 1961), o vilão conseguia finalmente matar o seu arqui-inimigo, expondo-o a uma dose maciça de kryptonita. Dando largas ao seu sadismo, Luthor obrigou Lois Lane e outros dos entes queridos do Homem de Aço a testemunharem a lenta agonia do herói;

A primeira morte do Homem de Aço
 foi às mãos do seu inimigo de sempre.
*Apesar dos muitos embaraços que as investigações jornalísticas de Lois Lane lhe causaram ao longo dos anos, Lex Luthor nutre uma paixão secreta -e não correspondida - pela repórter do Daily Planet;
*Colecionador de aventuras galantes, Luthor foi casado oito vezes (ou nove, consoante a biografia consultada), a última das quais com a condessa Erica Alexandra del Portenzo, aristocrata italiana que com ele partilhava as mesmas deficiências de caráter e que lhe deu a sua única filha, Lena Luthor (assim batizada em homenagem à finada irmã de Lex);
*Lex Luthor ocupa o quarto lugar no Top 100 dos Maiores Vilões da BD de Todos os Tempos organizado pelo site IGN e surge classificado na oitava posição de uma lista idêntica elaborada pela revista Wizard;
*Na Terra-3, Alexander Luthor Sr. é o único super-herói desse mundo paralelo subjugado pelas contrapartes corrompidas da Liga da Justiça. Tal como a sua versão canónica, compensa a ausência de superpoderes com uma boa dose de audácia e um arsenal de alta tecnologia desenvolvido graças à sua genialidade científica.

O Luthor heroico da Terra-3.


Noutros media

Reflexo da apreciável popularidade de que sempre gozou nos quadradinhos e reforçando desse modo o seu estatuto de ícone da cultura pop, Lex Luthor tem sido um habitué nas produções audiovisuais baseadas no Universo DC.
A sua estreia nesse segmento verificou-se em Atom Man versus Superman (1950). Nesse que foi o segundo folhetim cinematográfico protagonizado pelo Homem de Aço, coube a Lyle Talbot a honra de interpretar pela primeira vez o vilão. Cujo modus operandi correspondia, então, ao do típico cientista louco sempre a arquitetar os mais mirabolantes planos para destruir o seu arqui-inimigo.

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Lyle Talbot como Lex Luthor em Atom Man versus Superman.
Quase três décadas volvidas, Luthor regressaria em 1978 ao grande ecrã. Desta feita interpretado por Gene Hackman em Superman, the Movie. Papel que o ator repetiria em três dos filmes que compõem a tetralogia - apenas falhou o terceiro.
Por contraste com a sua versão canónica, o segundo Luthor cinematográfico não alimentava qualquer tipo de animosidade pessoal em relação ao Último Filho de Krypton, sendo, em vez disso, movido pela ganância e pela vaidade.
Apesar de conservar alguma da comicidade do seu antecessor, o Lex Luthor de Kevin Spacey em Superman Returns (2006) não fazia segredo do seu rancor em relação ao herói que o colocara atrás das grades. Tem, de resto, alguns traços de personalidade comuns com a versão da personagem introduzida dez anos depois em Batman versus Superman: Dawn of Justice.
Agora encarnado por Jesse Eisenberg, este Luthor em início de carreira é retratado como um jovem prodígio com tendências sociopáticas que vê no Super-Homem uma espada de Dâmocles a pender sobre a Humanidade, da qual se arvora defensor.

As muitas faces de Lex Luthor no cinema e na TV.
Na coluna da esquerda (de cima para baixo): Gene Hackman (Superman I, II e IV),
John Shea (Lois and Clark: The New Adventures of  Superman)
e a versão do vilão em Super Friends.
Na coluna da direita (pela mesma ordem):
O Luthor de Superman: The Animated Series,
Michael Rosenbaum (Smallville)
e Kevin Spacey (Superman Returns).
Ao centro: Jesse Eisenberg (Batman vs Superman: Dawn of Justice).

Curiosamente ausente de Adventures of Superman, a primeira série televisiva do Homem de Aço, no ar ao longo de praticamente toda a década de 1950, a estreia de Luthor no pequeno ecrã ocorreria apenas em Superboy (1988-1992). Interpretado por Scott James na primeira temporada e por Sherman Howard nas restantes três, nesta sua encarnação Luthor era um adolescente rico e mimado que se entretinha a infernizar a vida ao Rapaz de Aço.
Cinco anos depois, em 1993, agora com John Shea a dar-lhe corpo, Luthor seria coprotagonista em Lois and Clark: The New Adventures of Superman. Fortemente influenciados pela sua contraparte dos quadradinhos com a assinatura de John Byrne, Luthor surgia agora como um poderoso magnata que, a coberto da sua filantropia. geria uma miríade de negócios escusos e não perdoava ao Homem de Aço por o ter destronado no coração dos habitantes de Metrópolis.
Ainda pela TV, mas já neste século, Smallville (2001-2011) apresentou uma versão renovada de Lex Luthor. Com Michael Rosenbaum a vestir-lhe a pele, Luthor não se assumiu desde o início como um velhaco, sendo, ao invés, a sua corrupção moral um processo gradual resultante de uma complexa conjuntura.
Também no campo da animação, desde meados da década de 1960 (altura em que se estreou em The New Adventures of Superman), que Luthor vem tendo participações de relevo em diversas produções da DC. Destaque para Super Friends (1973-74), Superman: The Animated Series (1996-2000) e, mais recentemente, The Death of Superman, longa-metragem lançada já este ano.
Além de surgir como personagem jogável em todos os jogos de vídeo do Super-Homem produzidos até à data, Lex Luthor tem também já presença confirmada em Metropolis, série televisiva com estreia prevista para o próximo ano e que pretende ser uma prequela de Man of Steel (curiosamente, uma das poucas películas do Super-Homem de que esteve ausente). Até ao momento não foi ainda divulgado o nome do ator que lhe dará vida nesse projeto.


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Superman contra Luthor:
o deus que quer ser homem e o homem que quer ser deus.


 * https://bdmarveldc.blogspot.com/2018/01/classicos-revisitados-o-homem-de-aco.html
** https://bdmarveldc.blogspot.com/2017/08/classicos-revisitados-batman-terra-de.html
*** https://bdmarveldc.blogspot.com/2018/06/eternos-jerry-siegel-joe-shuster.html





quinta-feira, 28 de junho de 2018

HERÓIS EM AÇÃO: SUPER-HOMEM


  Ao fazer da Terra o seu lar, um órfão das estrelas tornou-se filho de dois mundos sem realmente pertencer a qualquer um deles. A par da sua incessante luta pela Verdade e pela Justiça, aprender o significado de ser humano foi desde sempre o maior desafio deste estranho visitante, que apenas quer ser um de nós. 


Nota prévia: É altamente recomendável a leitura do artigo precedente, por forma a obter uma melhor compreensão da génese do Super-Homem, da sua importância enquanto precursor da Idade de Ouro da banda desenhada e do contencioso judicial desencadeado pelos respetivos direitos autorais.

Denominação original: Superman 
Licenciadora: Detective Comics (DC)
Criadores: Jerry Siegel (história) e Joe Shuster (arte conceitual)
Estreia: Action Comics nº1 (junho de 1938)
Nome verdadeiro: Kal-El (originalmente Kal-L)
Identidade civil: Clark Joseph Kent
Espécie: Alienígena 
Local de nascimento: Kryptonopolis ( cidade elevada a capital do planeta Krypton na sequência da abdução de Kandor perpetrada por Brainiac) 
Parentes conhecidos: Jor-El e Lara Lor-Van (pais biológicos, falecidos); Jonathan e Martha Kent (pais adotivos, falecidos); Zor-El e Alura In-Ze (tios, falecidos); Kara Zor-El/Supergirl (prima); Lois Lane (esposa) e Jonathan Samuel Kent (filho)
Profissão: Ex-agricultor, repórter e aventureiro
Afiliações: Membro fundador da Liga da Justiça e líder da Super-Família 
Base operacional: Metrópolis, Torre de Vigilância (satélite da Liga em órbita geoestacionária) e Fortaleza da Solidão (localizada algures no Ártico) 
Armas, poderes e habilidades: "Mais rápido do que uma bala! Mais forte do que uma locomotiva! Capaz de galgar prédios altos de um só salto!". Empregue pela primeira vez na série animada produzida pelos Irmãos Fleischer nos anos 1940 (ver Noutros media), esta descrição tradicional dos poderes do Super-Homem tornar-se-ia icónica mitologia do herói e na cultura popular do último século.
Contudo, o catálogo de poderes e habilidades do Último Filho de Krypton, bem como a respetiva magnitude, variou consideravelmente ao longo dos anos.
Na sua conceção original, e tal como descrito nas suas primeiras histórias, os poderes do Super-Homem eram limitados. Consistindo os mesmos em força sobre-humana - que lhe permitia, por exemplo, erguer um automóvel sobre a cabeça - correr a velocidades incríveis e pular grandes distâncias. A sua relativa invulnerabilidade era explicada pelo facto de possuir uma pele muito resistente, que nem balas ou outros projéteis conseguiam trespassar.
Quando os Irmãos Fleischer criaram aquela que seria a primeira série animada do Super-Homem, os constantes saltos do herói revelaram-se inconvenientes para o projeto, pelo que foi pedido à DC que os substituísse pela capacidade de voar.
Durante a Idade da Prata, os escritores que passaram pelas histórias do Homem de Aço incrementaram gradualmente os seus poderes para níveis cada vez mais elevados. Do seu arsenal clássico de poderes faziam parte, então, o voo, a superforça, a invulnerabilidade, os super-sentidos, a supervelocidade, o sopro congelante e uma gama de poderes óticos onde pontificava a visão de raios-X, térmica, microscópica e telescópica.
A este verdadeiro índice de superpoderes, foram ainda acrescentadas algumas habilidades insólitas. A saber, o super-ventriloquismo, o super-hipnotismo, gritos sónicos com mais de um milhão de decibéis e um super-beijo indutor de amnésia - o mesmo que, no filme Superman II, o herói usou para apagar as memórias de Lois Lane acerca da sua identidade secreta.
Era também comum, nesse mesmo período histórico, o Super-Homem voar através de galáxias ou deslocar planetas das suas órbitas. Como resultado, era tarefa cada vez mais complicada para os escritores das suas histórias desencantarem desafios credíveis para um herói que resvalava alegremente para a omnipotência.
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Não havia limites para as proezas do Super-Homem da Idade da Prata.
Até mesmo rebocar planetas  era uma tarefa corriqueira.
Houve então a necessidade de diminuir o poderio do Super-Homem, Várias tentativas foram ensaiadas ao longo dos anos, mas seria John Byrne a solucionar o problema em 1986. Na aclamada saga Man of Steel (já aqui esmiuçada), o escriba canadiano estabeleceu uma série de obstáculos intransponíveis para as habilidades do Super-Homem.
De há uns anos a esta parte, os níveis de poder do Homem de Aço têm vindo, porém, a aumentar novamente. Nas suas encarnações mais recentes, o herói consegue sobreviver a detonações nucleares ou viajar no espaço sideral sem oxigénio.
A fonte dos poderes do Super-Homem também nem sempre foi a mesma. Aquando do seu debute em Action Comics nº1, foi explicado que as suas capacidades sobre-humanas advinham da sua herança kryptoniana, que o tornava fisicamente mais evoluído do que os humanos. Mais tarde seria, contudo, estabelecido que a sua fisiologia kryptoniana lhe permitia, afinal, absorver a energia de estrelas amarelas como o nosso Sol. De acordo com esta explicação - tornada canónica- o organismo do Super-Homem funciona como uma espécie de bateria solar que absorve e armazena constantemente a energia emanada pelo Astro-Rei.
Não são, no entanto, apenas os seus assombrosos poderes que fazem do Super-Homem primus inter pares. O seu carisma e idealismo inspiram muitas vezes aqueles que o rodeiam e a sua vontade inquebrantável impele-o sempre a lutar por aquilo em que acredita. Além disso, o Homem de Aço é também um exímio lutador corpo a corpo e possui um quociente de inteligência difícil de quantificar numa escala humana. Dispondo, ademais, do acesso à mais sofisticada tecnologia kryptoniana na sua Fortaleza da Solidão.

Super-Homem desenhado por Joe Shuster, seu cocriador.

Vulnerabilidades: A despeito do seu enorme poderio e da sua virtual indestrutibilidade, o Homem de Aço é mortal e pode ser ferido. Desde logo por qualquer forma de magia ou feitiçaria, às quais é tão suscetível como qualquer pessoa comum.
O chumbo, por outro, lado bloqueia a sua visão de raios-X e demais poderes óticos. Ironicamente, esse é também o único material na Terra capaz de proteger o Super-Homem dos devastadores efeitos que a kryptonita surte no seu organismo.
Na sua variante mais comum - a verde, embora exista kryptonita de cores e efeitos diversos - esses detritos radioativos do seu planeta natal enfraquecem o Homem de Aço, causando-lhe náuseas e dores lancinantes. Uma exposição prolongada à kryptonita poderá mesmo ser-lhe fatal ou, no caso da sua variante dourada, resultar na perda definitiva dos seus poderes.
Sendo, como vimos, o sol amarelo da Terra a fonte dos poderes do Super-Homem, o herói é enfraquecido quando privado de luz solar durante longos períodos de tempo. O mesmo sucede quando é exposto à radiação - natural ou artificial - de um sol vermelho igual ao que aquecia e alumiava Krypton.

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Kryptonita, um presente envenenado para o Homem de Aço. 

Origem

Apesar de, ao longo dos anos, ter sido objeto de sucessivas revisitações, a origem do Super-Homem manteve-se, na sua essência, inalterada. Sendo, também por isso, do conhecimento geral, mesmo entre aqueles para quem o conceito de super-heróis é pouco ou nada apelativo.
Filho de Jor-El e Lara, o bebé Kal-El foi enviado para a Terra a bordo de uma nave construída pelo seu pai, instantes antes da explosão de Krypton. Chegado ao nosso planeta, foi adotado por Jonathan e Martha Kent, um simpático casal de agricultores do Kansas que o batizaram de Clark Kent.
Após passar a infância e a adolescência em Smallville - como Superboy, em algumas versões da história - , já adulto Clark mudou-se de armas e bagagens para Metrópolis. Na Cidade do Amanhã arranjou emprego como repórter do Daily Planet, onde travou amizade com o fotógrafo Jimmy Olsen e se perdeu de amores por Lois Lane, sua colega de profissão.
Secretamente, porém, Clark Kent usava os seus fabulosos poderes para lutar pela Verdade e Justiça ao melhor estilo americano como Super-Homem.
Clara alegoria dos imigrantes em busca do Sonho Americano, na origem do Super-Homem é possível identificar também diversos elementos religiosos. Desde logo o paralelismo existente entre a jornada do pequeno Kal-El e a de Moisés, o principal profeta do Judaísmo. Ambos foram salvos pelos seus progenitores de uma morte certa e ambos adotaram como sua uma cultura estrangeira que ajudaram a prosperar.

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Jor-El prestes a enviar o seu único filho para o nosso mundo.
Com uma sonoridade tipicamente hebraica, invocando outros dos grandes profetas do Judaísmo como Daniel ou Samuel, Kal-El - o nome kryptoniano do Super-Homem - pode ser traduzido como "A Voz de Deus". O sufixo El significa de facto "deus", ao passo que a grafia de Kal é muito semelhante à da palavra hebraica para "voz" ou "vaso". A despeito de terem dado à sua criação uma identidade eminentemente cristã, por forma a tornar o Homem de Aço mais apelativo ao público em geral, importa recordar que Jerry Siegel e Joe Shuster possuíam raízes judaicas.
Contudo, temáticas retiradas da mitologia cristã estão também ocasionalmente presentes na origem do Último Filho de Krypton. Um bom exemplo disso é a forma como ela foi apresentada em Superman, the Movie (ver Noutros media). No filme, a jornada de Kal-El  paraboliza o advento de Jesus Cristo à Terra, não faltando sequer uma nave a fazer lembrar a Estrela de Belém. Também a missão messiânica de liderar a Humanidade para um futuro radioso que lhe é confiada pelo pai não deixa grande margem para dúvidas.

Super-Homem sob o traço de Wayne Boring, o sucessor de Joe Shuster.

.Influências visuais

Conforme referido no artigo anterior dedicado aos autores do Super-Homem, nos seus verdes anos Jerry Siegel e Joe Shuster nutriam um grande fascínio por heróis viris e eram leitores vorazes de estórias de ficção científica. Muitas das quais apresentavam personagens dotadas de poderes extraordinários, como telepatia, invisibilidade ou força sobre-humana.
Assim, uma das principais influências na conceção do Homem de Aço foi John Carter de Marte, herói saído em 1917 da imaginação de Edgar Rice Burroughs - o criador de Tarzan, outro dos ídolos de juventude da dupla Siegel/Shuster.
Enviado acidentalmente para o Planeta Vermelho, John Carter, apesar da sua condição de simples humano, adquiria superforça e a capacidade de saltar grandes distâncias graças aos efeitos da baixa gravidade marciana. Qualquer semelhança com a versão primitiva do Super-Homem será, pois, mais do que uma singela coincidência.
Apesar de ser comummente aceite que a novela Gladiator (escrita em 1930 por Philip Wylie, e cujo protagonista detinha habilidades similares às do Super-Homem) terá influenciado sobremaneira o processo criativo de Siegel e Shuster, esse tese foi perentoriamente refutada pelo primeiro.
Certo é que Jerry Siegel e Joe Shuster eram grandes apreciadores de filmes, sendo notória a influência cinematográfica nas aventuras iniciais do Super-Homem. Shuster, em particular, era fã incondicional de Douglas Fairbanks - ator que interpretou Zorro e Robin Hood no grande ecrã - e foi na sua postura desafiante que se inspirou para desenhar a pose heroica do Homem de Aço.
Já a Clark Kent serviu como modelo o comediante Harold Lloyd, cuja principal personagem era um homem gentil que era acossado por rufias até ao dia em que perdia por fim as estribeiras e revidava com violência. Por ele próprio usar óculos e se rever na pacatez da personagem de Lloyd, Joe Shuster considerava-a passível de gerar identificação com muitos leitores.


Douglas Fairbanks (cima) e Harold Lloyd
 influenciaram, respetivamente, o visual do Super-Homem
 e de Clark Kent.
Shuster era também um grande fã daquilo a que hoje chamamos cultura fitness. Colecionava várias publicações a ela dedicadas e usavas as respetivas fotografias como referências visuais para a sua arte.
A conceção visual do Super-Homem foi, com efeito, fortemente influenciada pela temática desportiva. Começando pelo seu uniforme, que emulava as fatiotas justas e de cores garridas que recobriam os corpos musculados de halterofilistas e homens fortes circenses. A bem do pundonor imposto pelos rígidos padrões morais da época, era comum uns e outros usarem uma espécie de calção para resguardarem a respetiva genitália de olhares indiscretos. Explicando-se, assim, a inclusão desse adereço nos paramentos do Super-Homem. Ou seja, o Homem de Aço nunca usou a roupa interior por fora, como alguns brincalhões gostam de sugerir...
Não foi também por acaso que Shuster começou por desenhar o Super-Homem com sandálias entrelaçadas em vez das icónicas botas vermelhas. Tratava-se do tipo de calçado habitualmente usado tanto pelos halterofilistas do início do século XX como por heróis mitológicos como Sansão.
Por sua vez, a insígnia peitoral do Super-Homem (cujo S estilizado se tornaria com o tempo um símbolo mundialmente reconhecível) poderá muito bem ter sido inspirada nos emblemas costurados nos uniformes dos atletas de alta competição.

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Halterofilista do início do século XX.

Outros dos seus elementos mais distintivos, a capa do Super-Homem foi uma ideia retirada da literatura pulp onde era comum os espadachins usarem esse adereço. Uma opção estética que ficaria para sempre associada ao arquétipo super-heroico, conquanto as capas sejam hoje consideradas demodé.
Quanto à fisionomia apolínea do Homem de Aço, foi decalcada de John Weissmuller, o ex-nadador olímpico celebrizado pelo papel de Tarzan nos anos 30 e 40 do último século. Misturada, também, com os traços cartunescos de Dick Tracy, o famoso detetive de gabardina amarela.
Shuster definiu a estética do Super-Homem e durante várias décadas os artistas que lhe sucederam eram obrigados a conformar o seu traço a esse estilo predefinido. O que não obstou a uma constante evolução visual da personagem ao sabor tanto das tendências da época como do talento dos seus ilustradores. São também eles os homenageados neste artigo.

Super-Homem por Curt Swan,
 o artista que mais tempo desenhou
as histórias do herói kryptoniano.


Personalidade

Contrastando com a bonomia que hoje caracteriza o Super-Homem, nas suas primeiras histórias assinadas por Jerry Siegel e Joe Shuster, o herói era rude e agressivo. Sempre que interferia em algum crime, fazia-o com recurso a métodos extremamente violentos, mercê de um código de conduta menos estrito do que aquele que segue atualmente.
Ainda que não fosse tão desapiedado como o Batman era por aqueles dias, nos seus alvores o Homem de Aço não se preocupava com os danos que o seu uso desproporcionado da força poderia causar.  Vale a pena lembrar, a este propósito, que, no início da sua carreira, o Super-Homem enfrentava quase exclusivamente bandidos comuns. Pessoas de carne e osso a quem, com perturbadora frequência, o herói não hesitava em tirar a vida. Embora, por norma, essas mortes não fossem mostradas de forma explícita, de modo a evitar ferir a sensibilidade dos jovens leitores.

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Impensável nos dias de hoje, nos seus primórdios o Super-Homem não tinha pejo em matar os seus adversários.
 Se preciso fosse, com recurso a armas de fogo.

Esta vaga de violência desmedida terminaria em 1940, quando Whitney Ellsworth, o novo editor das histórias do Super-Homem, instituiu um código de conduta obrigatório para as suas personagens. Ficando, o Super-Homem, a partir desse momento, proibido de matar.
Alguns dos escribas que renderam Jerry Siegel cuidaram de vincar ainda mais esse traço no caráter do Super-Homem, incutindo-lhe um senso de idealismo e uma moral inabalável. Donde resultou o juramento solene do herói de nunca tomar uma vida humana. Juramento que seria, contudo, violado por mais do que uma vez, em diferentes segmentos culturais. Quem não se lembra, por exemplo, do pescoço partido do General Zod, no filme Homem de Aço?
Muitas vezes atribuído aos valores tradicionais do Centro-Oeste americano que lhe foram transmitidos pelos seus pais adotivos, o compromisso do Super-Homem em operar em estrita obediência da lei, tem constituído um exemplo para muitos heróis. Mas também criou ressentimentos noutros. São esses que se lhe referem pejorativamente como "o grande escuteiro azul". 
Com efeito, a intransigência moral do Homem de Aço tem suscitado ocasionalmente atritos no seio da comunidade super-heroica, visto que nem todos os seus pares se reveem nesse ethos.
Devido à destruição do seu planeta natal e consequente perda da sua família biológica, o Super-Homem denota uma natureza superprotetora em relação à Terra, especialmente no que aos seus entes queridos diz respeito.
Essa perda, combinada com a pressão para fazer um uso responsável dos seus poderes, provoca no Super-Homem um profundo sentimento de solidão, que nem a sua esposa e amigos conseguem por vezes aplacar. Momentos que servem como um doloroso lembrete da sua origem extraterrestre, e nos quais Kal-El compreende o real significado do sábio ensinamento do seu pai biológico: "Parecer-te-ás com eles, mas nunca serás um deles."

No período pós-Crise nas Infinitas Terras, 
John Byrne humanizou o Super-Homem.

Um rosto na multidão

Ridículo aos olhos de alguns e genial aos olhos de outros, o disfarce de Clark Kent usado pelo Super-Homem para se camuflar na paisagem humana de uma grande cidade como Metrópolis é mais elaborado do que à primeira vista parece.
Ao passo que muitos dos seus congéneres usam máscaras ou sofrem algum tipo de transformação física quando assumem as respetivas identidades heroicas, o Super-Homem exibe constantemente o seu rosto sorridente à luz do dia.
Por mais paradoxal que isso possa soar, reside precisamente neste facto o segredo para o anonimato do herói. Que, ao expor publicamente a sua face, transmite a ideia de nada ter a esconder.
Afinal de contas, por que motivo haveria um ser tão poderoso como o Super-Homem querer levar uma vida normal entre aqueles que protege?
Existe, assim, entre as pessoas comuns a crença de que o Homem de Aço é apenas um estranho visitante de outro mundo que dispensa mundanidades como ter um emprego ou uma identidade secreta. Poucos são aqueles que imaginam ser possível cruzarem-se com ele no elevador ou numa rua apinhada. Mais a mais porque o seu disfarce corresponde, de facto, a uma minuciosa encenação.

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Clark Kent serve de disfarce ao Homem de Aço ou vice.-versa?

Senão vejamos: para se fazer passar por um de nós, o Super-Homem cria um alter ego que, de tão medíocre, se torna invisível mesmo aos olhos dos que com ele convivem. Basta atentar na forma como a própria Lois Lane costumava suspirar pelo Homem de Aço ao mesmo tempo que desprezava Clark Kent. E se a frase anterior está conjugada no pretérito imperfeito do modo indicativo é porque, hoje em dia, Lois e Clark são marido e mulher, não havendo, por isso, lugar para segredos entre eles.
De todo o modo não são os óculos o adereço principal do disfarce do Super-Homem, contrariamente ao que muitos, erradamente, sustentam. Há toda uma complexa composição por detrás da personagem Clark Kent. Consistindo a mesma na simulação de gaguez, na postura atrofiada e no comportamento desastrado. Características que, somadas, fazem do repórter do Daily Planet a perfeita antítese do Super-Homem. Que, dessa forma, logra a proeza de se esconder à vista de todos. Apenas mais um rosto entre a multidão anónima que diariamente circula pelas ruas de Metrópolis.



De cima para baixo:
Dan Jurgens matou o Super-Homem,
Jim Lee modernizou-o
García-López iconizou-o.

Trivialidades

*Além de Homem de Aço e Último Filho de Krypton, Maravilha de Metrópolis, Grande Escuteiro Azul e Homem do Amanhã são outras das alcunhas normalmente associadas ao Super-Homem;
*Lois Lane, Lana Lang, Lara Lor-Van e Lex Luthor são apenas alguns dos muitos nomes com as iniciais LL inscritos na mitologia do Homem de Aço. Apesar da multitude de teses aventadas ao longo dos anos, permanece por clarificar o verdadeiro motivo por detrás desta profusão aliterativa;
*Embora tenha tido desde sempre em Lois Lane o seu principal interesse amoroso, ao longo dos anos o Super-Homem manteve romances com outras mulheres. Lana Lang, Loris Lemaris (uma sereia descendente de atlantes surgida durante a Idade da Prata) e mais recentemente, nos Novos 52, a Mulher-Maravilha foram, em algum momento, donas do coração do herói;

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O estranho amor entre um kryptoniano e uma sereia.
*Os kryptonianos prestavam culto religioso a Rao, o sol vermelho orbitado pelo seu planeta. Na versão clássica da origem do Super-Homem foi a implosão de Rao a provocar a destruição de Krypton;
*Clark Kent resulta da combinação dos nomes próprios dos atores Clark Gable e Kent Taylor;
*Toronto, cidade natal de Joe Shuster, serviu de modelo arquitetónico a Metrópolis, cujo nome, por sua vez, foi retirado do filme homónimo realizado em 1927 pelo germânico Fritz Lang;
*Em novembro de 2011, um exemplar de Action Comics nº1 foi vendido online por mais de 2 milhões dólares. Especula-se que poderá tratar-se de uma das edições roubadas da coleção privada do ator Nicholas Cage onze anos antes;
*O famoso mantra "pela Verdade e Justiça ao estilo americano" é na verdade uma declinação daquele que servia de introdução a cada episódio do primeiro folhetim radiofónico baseado no Super-Homem. A sua versão original estabelecia que o herói lutava pela "Verdade, Honestidade e Justiça". A substituição de "honestidade" por "ao estilo americano" visava apaziguar o sentimento anticomunista fortemente arraigado na cultura popular dos EUA durante os anos do macarthismo; 
*A opção de transformar Clark Kent num repórter sobreveio do facto de, na sua juventude, Jerry Siegel ter ambicionado uma carreira jornalística. Essa foi também a forma encontrada pelo Super-Homem de estar sempre em cima do acontecimento, possibilitando-lhe uma atuação mais eficiente. Apesar de tradicionalmente ligado à imprensa escrita, nos anos 1970 Clark Kent trocou o Daily Planet (originalmente trabalhava no Daily Star) pela Rede Galáxia, onde se tornaria pivô de telejornal;
*Em tempos, ao Super-Homem foi concedido o estatuto de cidadão honorário de todos os países membros das Nações Unidas. Já este século, numa história controversa, o herói renunciou à nacionalidade estadunidense;
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Super-Homem torna-se cidadão honorário das Nações Unidas.
*O Super-Homem ocupa o primeiro lugar no Top 100 dos super-heróis organizado pelo IGN e foi eleito pela revista Empire como a melhor personagem de banda desenhada de todos os tempos;
*Muitos fãs acreditam na existência da chamada "Maldição do Super-Homem". Na origem desta macabra superstição, a tragédia e o infortúnio que se abateram sobre vários dos atores que deram vida ao herói (vide texto seguinte): George Reeves morreu em circunstâncias nebulosas, Christopher Reeve (falecido em 2004) ficou tetraplégico ao cair de um cavalo, ao passo que Kirk Alyn, Dean Cain e Brandon Routh tiveram as suas carreiras estagnadas. Será Henry Cavill a próxima vítima dessa suposta malapata?
*Clark Kent não fuma, não ingere bebidas alcoólicas e, num passado recente, assumiu-se temporariamente como vegetariano; 
*A primeira aparição do Homem de Aço em Terras Tupiniquins remonta a dezembro de 1938, no número 445 de A Gazetinha, suplemento infanto-juvenil distribuído à época com o jornal A Gazeta. O seu advento a Portugal seria mais tardio, tendo ocorrido em meados de 1952 num fascículo não especificado de Mundo de Aventuras, almanaque de banda desenhada publicado entre 1949 e 1987 sob os auspícios da extinta Agência Portuguesa de Revistas.

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Em Portugal, as aventuras do Homem de Aço
 começaram por ser publicadas em Mundo de Aventuras.

Noutros media

Há muito consagrado como um portento mediático e um ídolo de multidões, foi à boleia da sua popularidades nos comics que o Super-Homem partiu à conquista de outros segmentos culturais. Logo em 1940, foi para o ar The Adventures of Superman, um folhetim radiofónico que só abandonaria as ondas hertzianas 11 anos depois, e que sinalizou a estreia do herói kryptoniano noutro meio de comunicação.
No ano seguinte, ao mesmo tempo que da pena de George Lowther saíam várias novelas dedicadas ao Homem de Aço ilustradas por Joe Shuster, o herói chegava pela primeira vez ao cinema por intermédio de uma série animada produzida pelos Irmãos Fleischer, e simplesmente intitulada Superman.

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O Homem de Aço salva uma donzela em apuro
s na sua primeira série animada.

Ainda nessa década, seguiu-se, em 1948, o lançamento de Superman, a primeira série cinematográfica em ação real estrelada por Kirk Alyn. Aquele que foi o primeiro ator a dar vida ao Homem de Aço, repetiria o papel dois anos depois em Atom Man versus Superman, espécie de segunda temporada da série original.
Em 1951, o Super-Homem teve direito à sua primeira longa-metragem. Em Superman and the Mole Men, George Reeves surgiu como o herdeiro do manto sagrado que Kirk Alyn recusara continuar a ostentar. O filme serviu, na prática, como episódio-piloto de Adventures of Superman, a primeira série televisiva baseada no Super-Homem, exibida sem interrupções entre 1952 e 1958. O seu cancelamento seria, de resto, precipitado pelo aparente suicídio de Reeves - não faltando, todavia, quem acredite que o ator tenha sido vítima de homícidio.
Ao longo da década de 1960, o Super-Homem foi cabeça de cartaz de um par de séries animadas da DC e até de um musical da Broadway sugestivamente intitulado It's a bird... It's a plane... It's Superman.
Seria, contudo, em 1978, com a estreia de Superman, The Movie, no qual coube a Christopher Reeve representar o Último Filho de Krypton, que o herói conquistou toda uma nova audiência. Ovacionado pelo público e pela crítica, o filme foi um verdadeiro divisor de águas e inspirou quatro sequelas. A última das quais, Superman Returns,  aterrou nos cinemas de todo o mundo em 2006, com Brandon Routh a fazer as vezes do saudoso Christopher Reeve.

De Kirk Alyn a Henry Cavill:
os muitos rostos do Super-Homem no cinema e na TV.

Em 2013, o polémico Man of Steel inaugurou uma nova franquia cinematográfica da DC e teve a particularidade de, pela primeira vez, vermos um ator não-americano - Henry Cavill é britânico - a interpretar o Super-Homem.
No pequeno ecrã, Lois and Clark: The New Adventures of Superman (1993-97) e Smallville (2001-2011) foram as duas últimas séries de ação real do Homem de Aço a serem produzidas e estreladas, respetivamente, por Dean Cain e Tom Welling.
Além de personagem de jogos de vídeo e de ter inspirado vários parques temáticos nos EUA, o Homem de Aço foi também retratado em dois quadros da autoria de Andy Warhol. Confirmando,dessa forma, o seu estatuto de ícone da cultura mundial.


O Homem de Aço sob o traço do meu bom amigo Emerson Andrade,
 a quem agradeço mais este generoso contributo para o meu blogue.






sábado, 13 de janeiro de 2018

CLÁSSICOS REVISITADOS: «O HOMEM DE AÇO»


  Nesta aclamada reinterpretação da sua origem com o cunho de John Byrne, o Último Filho de Krypton surgiu mais humanizado do que nunca. Uma visão dessacralizadora  de um mito intemporal que aliciou toda uma nova safra de leitores. Mas que, mesmo expurgada das propostas mais arrojadas do seu autor, não escapou à controvérsia.

Título original: The Man of Steel
Licenciadora: Detective Comics (DC)
País: EUA
Data de publicação: Outubro a dezembro de 1986
Argumento e arte: John Byrne
Categoria: Minissérie em 6 edições quinzenais
Protagonistas: Clark Kent/Superman, Lana Lang, Lois Lane e Lex Luthor 
Coadjuvantes: Jor-El, Lara Lor-Van, Jonathan Kent, Martha Kent, Batman, Bizarro, Perry White, Jimmy Olsen, Lucy Lane, Magpie, Kelex e Kelor
Cenários: Krypton, Smallville, Metrópolis, Gotham City e Hong Kong


Nos EUA, The Man of Steel nº1 foi lançado
 com duas capas variantes com rácios de distribuição equivalentes.

Edições em Português

A primeira versão traduzida para a língua de Camões (embora com sotaque tropical) de The Man of Steel foi lançada pela brasileira Abril. Entre agosto de 1987 e janeiro de 1988, as seis partes da minissérie foram publicadas mensalmente nos números 38 a 43 da primeira série de Super-Homem. Volvidos quatro anos, em maio de 1992, a mesma editora republicaria a saga num único volume em Clássicos DC nº1, usando pela primeira vez uma das capas variantes de Man of Steel nº1.
Ainda por terras de Vera Cruz, desde o início deste século, contabilizam-se já quatro reedições da saga sob os auspícios de três editoras diferentes. A saber: Super-Homem - O Homem de Aço (Mythos, dezembro de 2006); Coleção DC 70 Anos nº1 e Coleção DC 75 Anos nº4 (ambas editadas pela Panini Comics em 2008 e 2011, respetivamente); por fim, em dezembro de 2015, seria a vez da Eaglemoss republicar a versão integral de The Man of Steel no oitavo volume de DC Comics - Coleção de Graphic Novels .
Deste lado do Atlântico, The Man of Steel foi compilada pela primeira vez no início de 2013, inserta na segunda série de Super-Heróis DC lançada nesse ano pela Levoir. Com a originalidade de a capa escolhida ter sido desenhada não por John Byrne, mas por Jerry Ordway.




De cima para baixo:
dois dos volumes antológicos editados no Brasil
 com os selos da Abril e da Mythos
e a antologia lançada pela Levoir portuguesa (com capa de Jerry Ordway).

Antecedentes e contexto

Produto da imaginação de dois jovens estudantes do secundário residentes em Cleveland - Jerry Siegel e Joe Shuster - o Superman foi criado em meados de 1933 para ser o protagonista de uma tira de banda desenhada a ser publicada diariamente num jornal. Em vez disso, porém, o herói só seria apresentado ao mundo cinco anos depois, em junho de 1938, nas páginas de Action Comics nº1.
Nessa edição histórica com a chancela da National Allied Publications - antepassada da DC -, os leitores ficaram a conhecer de forma pouco detalhada a origem do Último Filho de Krypton, resumida numa só página.
Apesar dessa abordagem de raspão às suas raízes kryptonianas, o Homem de Aço (assim alcunhado devido à sua invulnerabilidade) granjeou de imediato enorme popularidade. No verão de 1939 tornar-se-ia mesmo a primeira personagem a sustentar dois títulos em simultâneo - a Action Comics somou-se entretanto Superman.
Ao longo das décadas seguintes, a história do Superman foi sendo expandida de molde a acomodar novas tramas e personagens. Após a saída dos seus criadores, outros autores foram adicionando sucessivamente novos elementos à mitologia daquele que é considerado o primeiro dos super-heróis, e cujo debute sinalizou o dealbar da chamada Idade de Ouro da banda desenhada (1938-1950).

A estreia de Superman em Action Comics nº1 sinalizou também
 o início da chamada Idade de Ouro da banda desenhada.
No início de 1945, por exemplo, foram introduzidas as aventuras de Superboy em Smallville, apresentando assim uma versão adolescente do  Homem de Aço com as suas capacidades totalmente desenvolvidas. Com o surgimento da Supergirl, em 1959, o Superman deixou, objetivamente, de ser o último dos kryptonianos.
Inevitavelmente, estes elementos inovadores não tardaram a tornar-se conflituantes com outros que haviam sido explorados em histórias anteriores, sobretudo naquelas que coincidiram com a transição da Idade do Ouro para a Idade da Prata.
Nessa fase surgiram novos heróis e versões modernizadas de outros preexistentes (casos, por exemplo, de Jay Garrick e Barry Allen, os dois homens a adotar a persona do Flash no período citado), aos quais o Homem de Aço se associou para fundar a Liga da Justiça da América.
Sucede que, a par do Batman e da Mulher-Maravilha, o Superman era uma das três personagens da DC cuja publicação permanecia ininterrupta desde a Idade do Ouro. Por conseguinte, a sua participação nas histórias da Sociedade da Justiça da América ambientadas nessa época expunham uma série de incoerências. Para as quais os editores da DC encontrariam uma solução engenhosa mas que, a médio prazo, se revelaria um autêntico quebra-cabeças.
Em setembro de 1961, o número 123 de The Flash incluía no seu alinhamento uma história que, além de emblemática nos anais da 9ª Arte, mudaria para sempre a continuidade da Editora das Lendas. Sugestivamente intitulada Flash of Two Worlds (Flash de Dois Mundos), mostrava o primeiro encontro entre o Flash da Idade do Ouro e a sua contraparte da Idade da Prata.
A narrativa protagonizada pelos Velocistas Escarlates de duas eras distintas mais não era, no fundo, do que a representação ficcional do postulado da mecânica quântica que propõe a existência de universos paralelos. Com base nessa premissa, estabeleceu-se que as personagens surgidas durante a Idade do Ouro habitariam, de ora em diante, uma segunda Terra em tudo idêntica àquela que servia de lar às suas versões modernas.

A história protagonizada pelos Velocistas Escarlates de duas eras
 que esteve na origem do intrincado Multiverso DC.
Estavam assim lançadas as bases do Multiverso DC que, além de ilimitados exercícios de imaginação, possibilitaria a coexistência editorial e cronológica de personagens de épocas diferentes. Era, no entanto, imperativo esclarecer quais as histórias que pertenciam ao cânone estabelecido para cada uma delas. A título exemplificativo, em 1969 os leitores ficaram a saber que o Superman surgido em Action Comics nº1 era na verdade Kal-L, uma personagem distinta do Kal-El da Terra 1.
Embora inicialmente bem recebido pelos leitores, com o tempo o Multiverso tornar-se-ia demasiado confuso, a ponto de afastá-los das publicações da Editora das Lendas.
Perante este impacto negativo nas suas tiragens, a DC entendeu por bem tomar medidas drásticas para reverter a situação. Medidas que, grosso modo, se resumiram à concentração de todos os seus títulos e conceitos num único universo coeso e compartilhado. Para que isso fosse possível, seria no entanto necessário encerrar tudo o que vinha sendo publicado e voltar ao ponto de partida.
No encalço desse objetivo, em 1985 - ano em que a DC comemorava meio século de existência - foi lançada Crisis on Infinite Earths (Crise nas Infinitas Terras)*, evento de amplas e duradouras repercussões que culminou com a obliteração do Multiverso, abrindo assim espaço para a emergência de uma nova continuidade.

Um dos dramáticos  capítulos da saga que revolucionou
 a continuidade da Editora das Lendas.
Em vez de múltiplas Terras paralelas habitadas, não raro, por declinações do mesmo conceito, passaria doravante a existir somente uma Nova Terra e uma versão unívoca de cada personagem.
Na esteira dessa ambiciosa iniciativa, as figuras de proa da Editora das Lendas tiveram as suas origens recontadas à luz dos tempos modernos. Foi, pois, nesse contexto de revitalização que, em concomitância com outras obras análogas como Batman: Year One ou Green Lantern: Emerald Dawn, foi lançado The Man of Steel. Projeto igualmente ambicioso que vinha, contudo, sendo cogitado há vários anos, e cuja produção encerra até hoje alguns segredos sobre os quais procurarei derramar alguma luz no texto seguinte.

*http://bdmarveldc.blogspot.pt/2014/10/do-fundo-do-bau-crise-nas-infinitas.html

Produção

A acentuar-se, de mês para mês, a curva descendente no gráfico de vendas dos títulos estrelados pelo Homem de Aço, nos anos que precederam Crise nas Infinitas Terras os editores da DC começaram a discutir entre si a possibilidade de levar a cabo uma profunda reformulação da personagem. Convidando, para esse efeito, vários escritores consagrados a apresentarem as suas propostas com vista à revitalização daquele que era o maior ativo da companhia. Alan Moore, Frank Miller e Marv Wolfman* foram alguns dos pesos-pesados que aceitaram o repto.

Evolução das vendas da revista Superman entre 1965 e 1987.

A despeito dos diferentes ângulos de abordagem, todos eles concordavam na necessidade de uma reestruturação da continuidade do Superman. A única voz dissonante era a de Cary Bates. Aquele que era na altura o principal argumentista do Último Filho de Krypton preconizava, ao invés, uma evolução na continuidade.
A revolução de veludo sugerida por Bates colidia, no entanto, com as teses radicais perfilhadas por Marv Wolfman. Habituado a sacudir o status quo, o arquiteto de Crise nas Infinitas Terras considerava premente eliminar Superboy, reclicar Lex Luthor, diminuir os poderes do Superman e fazer dele o último dos kryptonianos.
Ao inteirar-se da saída iminente de John Byrne** da arquirrival Marvel Comics, Marv Wolfman tê-lo-á incentivado a apresentar a sua visão do Superman. Contudo, o envolvimento do versátil autor britânico naturalizado canadiano no projeto não é totalmente claro.
Anos mais tarde - já depois de se ter incompatibilizado com Wolfman - Byrne afirmou ter partido de Dick Giordano - um dos editores da DC e arte-finalista de The Man of Steel - o convite para a sua participação no processo de revitalização do Homem de Aço.
Certo é que, num primeiro momento, a sintonia de ideias e objetivos entre Byrne e Wolfman era quase total. Divergindo ambos apenas na redefinição de Lex Luthor, com a visão do primeiro a prevalecer sobre a do segundo (ver Mitologia Retocada).

Recém-saído da Marvel,
 John Byrne foi o eleito para reformular o maior ícone da DC.
Com a irreverência que sempre o caracterizou, Byrne apresentou à DC aquilo a que chamou "Lista de Exigências Indispensáveis", espécie de caderno de encargos onde elencava quais as idiossincrasias do Superman que ele entendia carecerem de revisão. A saber: desconsiderar a existência de outros sobreviventes de Krypton - Supergirl, Krypto, etc. - e de elementos excessivamente fantásticos, como a Fortaleza da Solidão ou a cidade engarrafada de Kandor.
Apesar de arrojadas, as propostas de Byrne foram quase integralmente avalizadas pela cúpula da Editora das Lendas. Segundo consta, apenas uma delas terá sido deixada de fora.
Numa entrevista realizada em 2002, o autor de The Man of Steel revelou qual foi a única exceção: «Um dos problemas que percebi que a minha versão do "único sobrevivente de Krypton" suscitaria era como ficaríamos a saber que a kryptonita poderia matar o Superman? Quero dizer, claro que todos nós sabemos que  a kryptonita pode matá-lo, mas como tornar isso uma evidência naquele contexto específico? A minha solução passaria por colocar Lara, grávida de Kal-El, na nave em direção à Terra. Ao chegar, ela daria à luz e o seu bebé ganharia gradualmente os seus poderes. Então, Lara encontraria o único pedaço de kryptonita que chegou ao nosso planeta e, em consequência da sua exposição a ele, morreria vítima de envenenamento radioativo.»
Jenette Khan, à época presidente-executiva da DC, vetaria essa ideia por considerá-la excessivamente afastada do conceito primordial. Em alternativa, Khan propôs que a kryptonita fosse descrita como sendo um elemento radioativo responsável pela morte de kryptonianos antes mesmo da explosão do planeta. Byrne acabaria por reconhecer que essa sugestão era melhor do que sua ideia original e implementá-la-ia na minissérie.
A acreditar no relato de Jim Shooter, antigo editor da Marvel e uma das primeiras pessoas a quem Byrne deu a conhecer as linhas-mestras do seu plano de revitalização do Superman, esta não terá sido, porém, a única proposta controversa rejeitada pela DC. Segundo Shooter, Byrne pretendia igualmente retratar Lois Lane como a concubina de Lex Luthor a quem trocaria pelo Homem de Aço.
Ademais, a caracterização de Krypton como um planeta frio e estéril fora sugerida por Dick Giordano (muito provavelmente influenciado pela estética de Superman, The Movie), por forma  a que os leitores percebessem desde a primeira página que tudo seria diferente.

Em The Man of Steel, Krypton surge como um mundo inóspito
 onde pontifica uma sociedade intelectualizada e estéril.

Muito longe, portanto, do local aprazível descrito no passado.
Inicialmente, Byrne não pretendia reconfigurar tanto a morfologia de Krypton e a têmpera dos pais biológicos do Superman; apenas retratá-los de forma mais futurista. Mas, ao questionar-se acerca dos elementos kryptonianos que mais o incomodavam, percebeu que aquilo que lhe parecia mais prejudicial à história era o carinho (se não mesmo um exacerbado patriotismo) com o que o Superman se referia ao seu planeta natal. Razão pela qual Byrne se empenhou em retratar Krypton como um local pouco acolhedor. Nas suas palavras, "um sítio que, no final das contas, o Superman ficaria feliz em deixar."
O estatuto de imigrante de Byrne e a sua identificação com a cultura do respetivo país de acolhimento foi determinante para a sua reinterpretação da origem do Superman. O escritor defendia que esta deveria ser contada como uma típica história americana de sucesso; a do imigrante que triunfou numa terra que não era a sua, contribuindo dessa forma para o seu engrandecimento.
Em linha com esta abordagem, Byrne percebeu que teria de rever também a relação de Clark Kent com Smallville. O que implicaria uma nova dinâmica com Lana Lang, a primeira namorada do herói. Byrne tinha a intenção de manter Lana como interesse romântico do Homem de Aço, mesmo após o seu estabelecimento em Metrópolis. Porém, o "triângulo amoroso" entre Clark, Lois e o Superman era tido como inviolável pela DC.
Assim, para justificar a posição de maior destaque que Lana assumia na vida e na mitologia do herói, Byrne tornou-a conhecedora dos superpoderes de Clark antes da sua transformação em Superman (vide texto seguinte).

Primeiro amor de Clark Kent, em The Man of Steel Lana Lang
 foi também uma das poucas pessoas conhecedoras do seu segredo.
*http://bdmarveldc.blogspot.pt/2014/09/eternos-marv-wolfman-1946.html
**http://bdmarveldc.blogspot.pt/2015/01/eternos-john-byrne-1950.html

Enredo

A milhares de anos-luz da Terra, Krypton - um planeta tecnologicamente evoluído mas emocionalmente estéril onde a reprodução por métodos naturais faz parte de um passado remoto -enfrenta uma ameaça existencial. Jor-El, um dos seus mais proeminentes cientistas, descobriu enfim a origem de uma misteriosa moléstia que dizimara já milhares dos seus compatriotas.
Devido à enorme pressão exercida sobre o núcleo do planeta, vários elementos químicos preexistentes tinham-se fundido num novo metal altamente radioativo. A exposição à kryptonita era, pois,  potencialmente fatal para os kryptonianos.
Havia, contudo, uma maior fonte de angústia para Jor-El: o aumento exponencial da pressão tornara o núcleo de Krypton instável ao ponto de poder a qualquer momento desencadear uma reação geológica em cadeia que resultaria na implosão do planeta.
Os desesperados alertas de Jor-El junto do Conselho Científico haviam sido no entanto acolhidos com ceticismo e desdém.
Ciente de que a contagem decrescente para o desastre era imparável, Jor-El pesquisara durante meses um planeta que pudesse abrigar o seu filho ainda em gestação. De entre as várias opções estudadas, a Terra prefigurava-se como a mais viável. Opinião que não era partilhada pela sua esposa, Lara Lor-Van, para quem a Terra era um mundo primitivo e hostil.
No entanto, seria mesmo para o nosso mundo que, minutos após a destruição de Krypton, Kal-El foi enviado a bordo de uma pequena espaçonave que o seu pai construíra em segredo.

Jor-El e Lara, os pais biológicos de Kal-El.
Dezoito anos mais tarde, em Smallville, pequena comunidade rural do Kansas, o jovem Clark Kent é o astro da equipa de futebol americano da sua escola. No final de mais um jogo ganho graças à sua extraordinária prestação dentro de campo, Clark é levado pelo seu pai de volta à quinta da família.
Lá chegados, Jonathan Kent revela ao filho o foguete espacial onde ele e a sua esposa, Martha, o haviam encontrado ainda bebé, e que permanecera escondido durante todo aquele tempo no celeiro da quinta.
Perante a incredulidade do filho, Jonathan explica também como, graças a um feliz acaso, naquele mesmo dia toda a região fora fustigada por uma violenta nevasca que isolou os três na quinta durante meses. Contingência que, uma vez dissipada a intempérie, permitiu que Clark fosse anunciado como o filho recém-nascido do casal.

Jonathan e Martha Kent, o casal de agricultores do Kansas
 que perfilharam um bebé vindo das estrelas.
À medida que, com o passar dos anos, Clark vai desenvolvendo poderes e habilidades sobre-humanos, a revelação da sua verdadeira origem fá-lo questionar o seu papel num mundo que, afinal, não é o dele.
Clark decide então abandonar Smallville para viajar ao redor do globo ao longo de sete anos. Período durante o qual interfere discretamente para prevenir vários crimes e catástrofes. Apesar dos relatos que começam a circular dando conta dos avistamentos de uma misteriosa figura voadora, Clark consegue preservar  o seu anonimato.
Tudo muda quando, durante as comemorações do 250º aniversário de Metrópolis, o vaivém espacial Constitution é abalroado em pleno voo por um pequeno avião. Perante a iminência do desastre, Clark  - misturado com a multidão que assistia ao pouso do vaivém - vê-se obrigado a alçar voo e a fazer uso da sua superforça para evitar o pior.
Assustado com a reação emotiva da multidão, Clark apressa-se a regressar à quinta da sua família. Onde, com a ajuda da mãe, elabora um vistoso traje que lhe servirá de disfarce sempre que precisar ajudar alguém. Escolhendo para pseudónimo a alcunha que lhe havia sido dada pela imprensa após a sua primeira aparição pública: Superman.

A confeção do traje e a escolha do símbolo do Superman.

Nas semanas seguintes o Superman realiza diversas intervenções espetaculares em Metrópolis, deixando os seus habitantes boquiabertos com as suas proezas.
Após "conseguir" a primeira entrevista exclusiva com o herói, Clark Kent é contratado como jornalista do Daily Planet. Aquela que é considerada a notícia do século rende-lhe a admiração dos colegas de redação e a rivalidade de Lois Lane, uma das mais respeitadas repórteres a nível nacional.
De visita a Gotham com a intenção de capturar o vigilante mascarado conhecido como Batman, o Superman acaba, todavia, surpreendido pela astúcia do Homem-Morcego. Após um tenso frente a frente, os dois concordam em deixar temporariamente de lado as suas divergências para deter Magpie, uma ladra excêntrica cujas ações haviam colocado dezenas de inocentes em perigo. Debelada a ameaça, o Homem de Aço e o Cavaleiro das Trevas seguem rumos diferentes.
Certa noite, Clark e Lois comparecem a uma festa a bordo do iate de Lex Luthor, o empresário mais poderoso de Metrópolis e um dos três homens mais ricos do mundo. Durante o evento um grupo de terroristas toma de assalto a embarcação fazendo reféns todos os convivas.
Apesar do conhecimento prévio que tinha do ataque, Luthor, interessado em aferir as capacidades do Superman, ordenara à sua equipa de segurança que nada fizesse, a menos que o herói não aparecesse.
Como Luthor previra, o Superman surge no local e neutraliza rapidamente os terroristas. Quando o magnata, impressionado pela eficiência do herói, faz menção de entregar-lhe um cheque de 25 mil dólares, revela perante todos os presentes que sabia do ataque mas que nada fizera para impedi-lo por forma a poder testemunhar a ação da nova maravilha de Metrópolis.
Indignado com tamanha prepotência, o mayor da cidade - um dos convidados de honra da festa - nomeia o Superman "agente especial da Polícia" e ordena-lhe que prenda Luthor.
Libertado da prisão poucas horas volvidas, Luthor, humilhado e ressentido, confronta o Homem de Aço declarando-lhe a sua inimizade e jurando tudo fazer para o desacreditar e destruir. Promessa que quase consegue materializar quando, a seu pedido, um dos seus cientistas logra produzir um clone aparentemente perfeito do Superman a parti de uma amostra do ADN do herói.

Luthor jura vingança pela humilhação
 sofrida às mãos do Homem de Aço.
O plano só fracassa porque o processo de clonagem não levou em consideração a biologia extraterrestre do Superman. Em consequência dessa falha, a sua cópia genética é vítima de degeneração celular acelerada, convertendo-se numa monstruosidade irracional com um nível de poder equivalente ao do original.
Segue-se uma acirrada peleja entre o Superman e o seu bizarro oponente, que termina com este último reduzido a uma nuvem de partículas. Miraculosamente, essa chuva de partículas cura a cegueira de Lucy Lane, a irmã mais nova de Lois por quem o monstro se enamorara.

Superman surpreendido pela força de Bizarro.
Clark regressa uma vez mais a Smallville após uma longa temporada em Metrópolis. Certa noite, é assombrado pelo "fantasma" de Jor-El (na verdade, um sofisticado holograma) que com ele tenta comunicar num idioma desconhecido. É através dessa perturbadora experiência que Clark toma finalmente consciência da sua origem kryptoniana. Revelação que deixa igualmente aturdidos os seus pais adotivos.
Esse não é, porém, o único choque a marcar o regresso de Clark à cidade onde cresceu. Lana Lang, a sua namorada dos tempos do liceu a quem revelara os seus poderes na véspera de partir para Metrópolis, exprime-lhe a sua mágoa por esse abandono e pelo fardo que carrega desde então.
Ambos os episódios levam Clark a abraçar ainda mais a sua humanidade sem, contudo, desvalorizar o seu legado kryptoniano. Carregando desse modo o peso de dois mundos sem que sinta verdadeiramente pertencer a qualquer um deles.

Filho de dois mundos,
 o Superman procura honrar ambos os legados que carrega.

.Mitologia retocada

O Homem de Aço não foi o único a ter a sua origem e personalidade retocadas por Byrne. O mesmo sucedeu com algumas das personagens clássicas das suas histórias. Esses novos elementos seriam, por sua vez, objeto de sucessivos revisionismos até perderem o seu estatuto canónico.
Recordemos, por isso, aquelas que foram as principais alterações inicialmente introduzidas à mitologia do Superman.

Clark Kent: No início da história é apresentado como um estudante do secundário totalmente alheado da sua origem extraterrestre e cuja popularidade resulta das suas proezas desportivas, em especial no futebol americano. Byrne inverteu desse modo a caracterização da personagem, fazendo com que Clark deixasse de ser o disfarce adotado pelo Superman aquando da sua mudança para Metrópolis. Significando isto que é agora o Superman quem serve de disfarce a Clark Kent para que este possa usar os seus poderes em público sem ser reconhecido. Poderes esses que foram consideravelmente diminuídos por Byrne, em especial a sua invulnerabilidade agora explicada pelo campo bioelétrico que envolve o corpo do herói. Byrne detalhou também a forma como o Sol amarelo da Terra lhe proporcionava superpoderes e como Clark recorria a um espelho e à sua visão de calor para se barbear;

Graças à minúcia de Byrne, ficámos pela primeira vez a conhecer
 o método usado pelo Superman para escanhoar o rosto.

Jonathan e Martha Kent: Por contraponto ao antigo cânone do herói, nesta nova versão os seus pais adotivos permanecem vivos quando ele atinge a idade adulta e principia a sua carreira como Superman, cujo uniforme é aliás costurado pela própria mãe;

Smallville: Byrne estabeleceu que a pequena cidade rural onde Clark passou a infância e juventude ficaria no estado do Kansas, e que Lana Lang - a sua primeira namorada - tinha conhecimento de que ele e o Superman eram a mesma pessoa;

Superboy: Em virtude de os poderes de Clark se terem desenvolvido por completo apenas no final da puberdade, a versão juvenil do Homem de Aço foi apagada da existência. Originando assim um paradoxo, uma vez que a formação da Legião dos Super-Heróis do século 30 fora inspirada pelas façanhas do Superboy (ver Impacto cultural);

Lois Lane: Definitivamente afastada do arquétipo de "donzela em apuros" (do qual se vinha, aliás, demarcando ainda durante o período pré-Crise nas Infinitas Terras), Lois é caracterizada como uma jornalista experiente e uma mulher independente dotada de grande carisma e inteligência;

Lois Lane,
uma mulher emancipada dos tempos modernos.

Lex Luthor: Despindo as roupagens de cientista louco que vinha usando há meio século, o eterno némesis do Homem de Aço foi redefinido como um poderoso e inescrupuloso magnata. Cujo enorme ascendente sobre o povo de Metrópolis é eclipsado pelo surgimento do Superman. Justificando-se desse modo a sua visceral animosidade em relação ao herói. Nas palavras de Byrne, este novo Luthor - cujo visual parece decalcado da sua contraparte cinematográfica interpretada, à época, por Gene Hackman - "é uma mistura de Ted Turner, Donald Trump e talvez até Satanás". Muito longe, portanto do vilão inconsequente da Idade da Prata e do Bronze que Byrne desprezava;

Batman: Uma das alterações mais significativas decorrentes de The Man of Steel consiste precisamente no relacionamento entre o guardião de Gotham e a maravilha de Metrópolis. Até então retratados como amigos, desde a Idade do Ouro que os dois heróis partilhavam uma revista mensal - World's Finest. No entanto, por conta dos seus métodos de trabalho distintos, passaram a encarar-se quase como adversários que se respeitavam mutuamente mas que se olhavam com desconfiança.

Impacto cultural

De 1986 a 2003 (ano em que foi lançado o arco Superman: Birthright), The Man of Steel foi a origem canónica do Homem de Aço. A reboque do seu apreciável sucesso, Byrne produziu três minisséries especiais que exploravam de forma mais aprofundada a nova mitologia do herói: The World of Krypton, The World of Smallville e The World of Metropolis foram originalmente publicadas entre dezembro de 1987 e novembro de 1988, assumindo-se como apêndices da narrativa original.
Paralelamente, a DC apostou em três títulos mensais protagonizadas pelo novo Homem de Aço: Superman, Action Comics e Adventures of Superman (este último com Marv Wolfman como argumentista). Neles, Byrne e Wolfman explanaram as alterações ao cânone do Superman decorrentes de The Man of Steel. As mais importantes das quais consistiam, nunca é demais recordar, no restabelecimento de Kal-El como único sobrevivente de Krypton e a supressão da sua carreira como Superboy.
Estas alterações tiveram, contudo, um forte impacto na Legião dos Super-Heróis, na medida em que fora o Superboy a inspirar a formação da equipa no século 30. Acrescia a isto o facto de, no período pré-Crise, a Supergirl ter sido também uma legionária. A eliminação das duas personagens tinha, por isso, originado um paradoxo que Byrne, de forma algo inábil, tentou corrigir.

No período pré-Crise, Superboy - e também Supergirl - eram
 membros de pleno direito da Legião dos Super-Heróis.
Para explicar o presumível desaparecimento do Superboy, Byrne escreveu uma história na qual introduziu o conceito de "universo compacto" (pocket universe, em inglês). Os leitores ficaram assim a saber que era, afinal, para essa espécie de realidade alternativa criada pelo Senhor do Tempo (um dos inimigos jurados da Legião dos Super-Heróis) que o grupo viajava sempre que regressava ao passado. O mesmo acontecendo quando o Superboy visitava o futuro. Servindo a existência desse "universo compacto" para explicar também a existência de uma variante da Supergirl. Que, em vez da prima kryptoniana do Superman, ressurgiu como uma criatura de protoplasma capaz de assumir diferentes formas.
Com a confusão instalada, em 1999, altura em que Eddie Berganza assumiu as funções de editor responsável pelas histórias do Superman, diversas personagens e conceitos que haviam sido suprimidos em The Man of Steel foram reincorporados na continuidade do herói, sem que contudo a obra de Byrne fosse desconsiderada. Entre as personagens resgatadas, incluía-se a verdadeira Supergirl.
Apesar destes imbróglios e controvérsias, o impacto de The Man of Steel fez-se sentir também noutros segmentos culturais. Em 1988, dois anos após a sua publicação, o estúdio Ruby-Spears produziu a série animada Superman aproveitando vários dos conceitos estabelecidos pela história de Byrne.
Também a série televisiva Lois and Clark: The New Adventures of Superman, estreada em 1993, incorporou no enredo muitos elementos emanados de The Man of Steel. A localização de Smallville no Kansas e o facto de os pais adotivos de Clark continuarem presentes na vida adulta do filho são alguns dos exemplos mais evidentes.

A série televisiva do Homem de Aço
 que fez furor nos anos 90
 foi fortemente influenciada por The Man of Steel.
Quase 30 anos após o seu lançamento, em 2013 os ecos de The Man of Steel também chegaram ao cinema. No filme epónimo dirigido por Zack Snyder, são detetáveis diversas influências da obra de Byrne, sobretudo no que ao legado kryptoniano do herói diz respeito.
Apesar da forte aclamação com que foi recebida, The Man of Steel arregimentou ferozes detratores. Os quais acusavam Byrne de não compreender a quinta-essência do Superman, desvirtuando-o ao ponto de deixá-lo irreconhecível.
Críticas que em nada beliscaram o valor de uma obra, cujo primeiro número vendeu meio milhão de exemplares (cifras que o Homem de Aço não alcançava desde a Idade do Ouro) e que, em 2012, os usuários da plataforma digital Comic Book Resources elegeram como uma das 25 melhores histórias do Superman de todos os tempos.

Apontamentos

*A mascote de Clark Kent na adolescência era um Cocker Spaniel chamado Rusty;
*Na equipa de futebol americano do liceu de Smallville, Clark alinhava com a camisola nº15;
*Apesar de ter sido concebido em Krypton através de métodos naturais, o nascimento de Kal-El coincidiu com a sua chegada à Terra. Este elemento, per si, constitui uma rutura com o cânone da personagem. Em todas as suas versões pregressas, o herói fora sempre enviado em bebé para o nosso planeta;
A chegada do bebé Kal-El à Terra
no interior de uma câmara de gestação kryptoniana.
*A data da destruição de Krypton pretendia coincidir com a da estreia do Superman em Action Comics nº1 (junho de 1938). Pormenor que só seria oficialmente estabelecido em Action Comics nº600 (maio de 1988);
*Em The Man of Steel nº1, Metrópolis celebra o seu 250º aniversário. Esta efeméride é, contudo, inconsistente com a informação providenciada por outras fontes. Algumas das quais apontam 1634 como o ano do estabelecimento dos primeiros colonos europeus no território indígena onde seriam lançados os alicerces da Cidade do Amanhã. Sugerindo, assim, que a sua fundação teria ocorrido um século antes da data indicada por Byrne;
*Antes do seu lançamento oficial, a minissérie recebera The Legend of Superman (A Lenda do Superman) como título provisório;
*O encontro do Homem de Aço com o Batman no terceiro volume da minissérie sugere um Cavaleiro das Trevas ainda em início de carreia e a operar à margem da Lei. O Homem-Morcego também não dispunha ainda do seu icónico Batmobile, conduzindo em vez dele um potente e sofisticado bólide desportivo equipado com um laboratório forense portátil. Ainda na mesma edição, Magpie mata um dos seus comparsas colocando-lhe uma barra de dinamite acesa na boca. A rábula Happy Birthday, dos Looney Tunes, serviu de inspiração a esta sequência;
*A capa de The Man of Steel nº 5 é a única a não apresentar uma personagem que parece fitar diretamente o leitor. Com efeito, Bizarro - que em momento algum é referenciado dessa forma na história - caminha de costas voltadas para quem tem a revista em mãos. Byrne recorreu a esse subterfúgio visual para metaforizar a natureza invertida da criatura, desde sempre descrita como uma duplicata assimétrica do Superman. A história em questão é, aliás, vagamente inspirada naquela que em Superboy nº68 (novembro de 1958) introduziu o vilão na mitologia do Homem de Aço. Com a diferença de que, na história original, o objeto da afeição de Bizarro não era Lucy Lane (a irmã mais nova de Lois Lane) mas uma mulher chamada apenas Melissa;
*Somente na ponta final da história os pais adotivos de Clark descobrem a origem alienígena do filho que, até esse momento, tinham assumido tratar-se de um humano aprimorado a fim de participar no programa espacial  secreto de uma qualquer potência estrangeira.

As seis capas originais da minissérie
 seguiam um padrão visual quebrado apenas pela do nº5.
Vale a pena ler?

Analisando The Man of Steel com a perspetiva concedida por mais de três décadas, é inegável o caráter datado de alguns dos elementos presentes na obra. Porém, como qualquer clássico, ela conserva intocado o seu apelo atemporal.
O grande mérito da história reside, a meu ver, na intenção dessacralizadora que lhe subjaz.  Quem leu algumas histórias do Superman dadas à estampa durante a Idade da Prata sabe quão próximo ele estava da omnipotência divina. Apesar de menos poderoso, este novo Superman nem por isso é menos heroico. Muito pelo contrário.
Ao vincar a humanidade do Último Filho de Krypton, Byrne colocou em evidência as suas fraquezas mas também a sua força moral. Aquela que possui alguém que, agraciado com poderes semidivinos, os coloca abnegadamente ao serviço da comunidade, devolvendo, de caminho, a esperança a um mundo que não é o seu. Isto ao mesmo tempo que aprende a lidar com o peso do legado que carrega enquanto último representante de uma civilização condenada. Sem mencionar o impacto negativo que o seu segredo causa em alguns dos seus entes mais queridos.
Diga-se o que se disser acerca desta reformulação do Homem de Aço, nunca antes a sua origem fora contada com tanta minúcia. Circunstância que, só por si, me leva a considerar The Man of Steel a versão definitiva de uma história tantas vezes revisitada. Atrevo-me mesmo a dizer que será a pièce de résitance de Byrne. Sobre a qual, malgrado a natureza testamentária da presente análise, muito mais haveria ainda para dizer.
A minha singela evocação desta obra incontornável na memorabilia do Homem de Aço configura, de resto, o primeiro de vários tributos que tenciono render ao herói dos heróis, no ano em que se comemora o seu 80º aniversário.
Mantenham-se sintonizados porque não vão certamente querer perder pitada do que está na calha...

A vitalidade de um octogenário
que continua a ser o ídolo de multidões.