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terça-feira, 20 de dezembro de 2016

GALERIA DE VILÕES: DUENDE MACABRO

   

  Emergiu, por entre risadas maníacas, das ruínas do legado do Duende Verde para levar o medo mesmo aos corações mais empedernidos. Deslindando enfim o mistério da sua identidade, muitas perguntas ficaram, porém, sem resposta. Fruto das inúmeras peripécias que marcaram a conceção deste que é um dos mais carismáticos e perigosos inimigos do Homem-Aranha.

Denominação original: Hobgoblin
Licenciador: Marvel Comics
Primeira aparição (como Roderick Kingsley): Peter Parker, The Spectacular Spider-Man nº43 (junho de 1980)
Primeira aparição como Duende Macabro: Amazing Spider-Man nº238 (março de 1983)
Criadores: Roger Stern (história) e John Romita Jr. (arte conceitual)
Identidade civil: Roderick Kingsley
Local de nascimento: Belize
Parentes conhecidos: Daniel Kingsley (irmão gémeo falecido)
Afiliação: Presidente-executivo da Kingsley Ltd e ex-membro da Legião Amaldiçoada (Accursed Legion) durante as segundas Guerras Secretas
Base de operações: Nova Iorque, Paris e Caraíbas
Armas, poderes e habilidades: Dada a sua fonte comum, as valências especiais do Duende Macabro são em tudo semelhantes às do Duende Verde. Ambos tiveram a sua fisiologia incrementada pelo chamado Soro do Duende. Composto químico com propriedades mutagénicas, foi uma invenção de Norman Osborn aprimorada por Roderick Kingsley. Esse aprimoramento objetivou a supressão dos efeitos secundários da fórmula original, o principal dos quais era a demência.
Quando ingerido ou inoculado, o Soro do Duende capacita o seu usuário de força, resistência e velocidade sobre-humanas, acrescendo ainda um fator de cura acelerado. Os seus efeitos fazem sentir-se também a nível intelectual, potenciando as capacidades cognitivas de quem o toma.
Este aumento de inteligência é, no entanto, normalmente acompanhado por psicoses, alucinações e outros distúrbios do foro psíquico. Apesar de menos afetado por estas contraindicações devido às melhorias que introduziu na fórmula original, Roderick Kingsley não lhes ficou totalmente imune. Instabilidade mental que, em maior ou menor grau, caracterizou igualmente todos aqueles que, depois dele, portaram o manto do Duende Macabro. E que, em última análise, representa a principal fraqueza do vilão, estando frequentemente na base das suas derrotas.
Estrategista brilhante, o Duende Macabro é também um exímio lutador. Não se furtando, por isso, à confrontação direta com os seus adversários, nomeadamente com o Homem-Aranha. Nesses combates mano a mano conta com a proteção adicional conferida pela sua armadura, cuja cota de metal absorve eficazmente o impacto dos golpes que lhe são desferidos. O traje é uma declinação do modelo usado pelo Duende Verde, inicialmente projetado pela Oscorp para fins militares.
Equipadas com micro-circuitos e filamentos, as luvas da sua vestimenta habilitam o Duende Macabro a disparar rajadas elétricas. Em função da respetiva potência, elas podem atordoar ou eletrocutar os seus adversários de circunstância. Já as botas possuem minijatos propulsores incorporados que lhe permitem voar curtas distâncias.
Sem embargo, é no seu planador (também ele uma réplica do utilizado pelo Duende Verde) que o vilão tem o seu meio de transporte de eleição. Aparato que, devido às suas rebarbas pontiagudas e cortantes, pode igualmente ser usado em manobras ofensivas, ou até mesmo como arma de arremesso. São, todavia, as bombas-abóbora (outra patente do Duende Verde) as armais mais icónicas e mortíferas do arsenal do Duende Macabro. Que inclui ainda granadas de gás e de fumaça.

A morte risonha que vem do céu.
Histórico de publicação: Nos primeiros anos da década de 1980, as histórias do Homem-Aranha ressentiam-se ainda da morte do Duende Verde. Como tantos outros escritores antes dele, Roger Stern sentiu-se pressionado a ressuscitar o vilão para preencher esse vazio na vida do herói aracnídeo, há largos anos privado do seu némesis.
Stern resistiu, porém, a carimbar a passagem de Norman Osborn para o mundo dos vivos, a repassar o testemunho ao seu filho, Harry, e até mesmo a criar um novo alter ego para o Duende Verde. Em alternativa, decidiu-se pela inserção de uma personagem inédita, uma espécie de herdeiro para o funesto legado do arqui-inimigo do Escalador de Paredes.
Ao som de risadas maníacas capazes de gelar mesmo a mais valente das almas, em março de 1983, nas páginas de The Amazing Spider-Man nº238, entrava em cena o Duende Macabro. À primeira vista um mero pastiche do Duende Verde, o novo vilão logo provou ser muito mais do que isso. No entanto, o processo criativo a montante da sua primeira aparição é recordado de maneiras distintas pelos seus dois intervenientes.

Amazing Spider-Man Vol 1 238 Direct
O Duende Macabro mostra ao que vem
na sua estreia em Amazing Spider-Man nº238 (1983).
Roger Stern sustenta que instruiu John Romita Jr. a basear-se no uniforme do Duende Verde para conceber o figurino do Duende Macabro, embora dando-lhe um toque mais medieval. Romita, por seu turno, nega que Stern lhe tenha sugerido essa cambiante. Malgrado estas pequenas discrepâncias nos seus relatos, ambos concordam que a aparência do mais recente inimigo do Homem-Aranha teve a assinatura de Romita.
Naquele que viria a ser um dos mais intrincados e duradouros enigmas das histórias do Escalador de Paredes, a verdadeira identidade do Duende Macabro seria mantida no segredo dos deuses durante largos meses. Tantos que, como veremos mais adiante, se transformaria numa rábula com mais buracos do que um queijo suíço. Culpa, em primeiro lugar, de Roger Stern. Conforme o próprio admitiria anos mais tarde, houve precipitação da sua parte ao lançar a personagem sem lhe ter definido previamente um alter ego.
Numa entrevista datada de 2009, Stern explicou como se deu esse momento eureca: "Enquanto escrevia aquelas magníficas páginas ilustradas pelo John Romita Jr., e ia estabelecendo os padrões discursivos do Duende Macabro, ocorreu-me que ele só poderia ser uma pessoa. Nenhum outro que Roderick Kingsley, o estilista amoral que eu introduzira logo na primeira edição que escrevera de The Spectacular Spider-Man."



Roger Stern (cima) e John Romita Jr.
dividem a "paternidade" do Duende Macabro.
De facto, uns quantos leitores com costela detetivesca depressa deduziram que seria o rosto insolente de Kingsley a esconder-se sob a máscara do Duende Macabro. A fim de despistá-los ao mesmo tempo que providenciava uma explicação retroativa para a caracterização inconsistente de Kingsley nas suas aparições pregressas, Stern atribuiu-lhe um irmão gémeo, criado propositadamente para o efeito.
Daniel Kingsley, assim foi crismado o sósia de Roderick, encarnaria por vezes o Duende Macabro. Com essa pirueta narrativa, os leitores seriam mantidos em suspense durante mais algum tempo até à grande revelação. Para que o logro fosse crível, Stern tratou de mostrar a presença simultânea de Roderick Kingsley e do Duende Macabro em Amazing Spider-Man nº249.
Determinado em bater o recorde de longevidade do mistério em redor da identidade do Duende Verde, Roger Stern pretendia expor a verdadeira face do Duende Macabro em The Amazing Spider-Man nº264. Superando desse modo o número de edições ao longo das quais, uma vintena de anos antes, os leitores haviam tentado adivinhar quem era o homem por detrás do duende que infernizava a vida do Cabeça de Teia.
O plano de Stern iria, contudo, por água abaixo quando ele foi inesperadamente afastado das histórias do herói aracnídeo em The Amazing Spider-Man nº252. Até então editor dos títulos periódicos do Homem-Aranha, Tom DeFalco assumiria logo depois o lugar deixado vago por Stern. E foi aí que a maré mudou, arrastando o Duende Macabro para águas ainda mais turvas.
Apostado em solucionar rapidamente o mistério acerca da verdadeira identidade do Duende Macabro sem desvirtuar o trabalho desenvolvido pelo seu antecessor, DeFalco perguntou a Stern quem se escondia afinal atrás da máscara. Quando este lhe revelou que se tratava de Roderick Kingsley, DeFalco rejeitou prontamente essa hipótese. No seu entender, além de desonesto para com os leitores, o ardil de um irmão gémeo era um beco sem saída do ponto de vista narrativo, pois em momento algum a sua existência fora sequer sugerida.
Mesmo discordando do parecer do seu interlocutor, Stern deu-lhe carta branca para escolher outra persona civil para a sua criação. Confiante de que, fosse qual fosse a escolha de DeFalco, ela seria a mais acertada.
Após uma revisão exaustiva das pistas que Stern fora plantando desde o surgimento do Duende Macabro, DeFalco concluiu que ele deveria ser Richard Fisk, o filho pródigo do Rei do Crime*. Entendeu igualmente por bem manter o segredo pelo máximo tempo possível, por ser esse o elemento que tornava a personagem tão interessante aos olhos dos leitores. Com o intuito de lhes espicaçar ainda mais a curiosidade, várias capas de The Amazing Spider-Man mostravam o Homem-Aranha a desmascarar o Duende Macabro sem que, contudo, a verdade viesse ao de cima.

Uma das capas de Amazing Spider-Man
que serviram de chamariz aos leitores mais curiosos.
Tudo parecia bem encaminhado até James Owsley ser designado editor da linha de títulos do Escalador de Paredes. Tensa seria um eufemismo para caracterizar a sua relação com DeFalco. Por isso, quando, numa conferência de autores, Owsley o questionou sobre a verdadeira identidade do Duende Macabro, DeFalco mentiu despudoradamente, indicando Ned Leeds (ver lista de alter egos) como sendo o homem por detrás da máscara.
Na posse dessa informação privilegiada, Owsley escreveria num ápice Spider-Man versus Wolverine, crossover que incluía a presumível morte de Ned Leeds. De seguida, Owsley propôs a Peter David**, escriba responsável pelas estórias do aranhiço em The Spectacular Spider-Man, a apresentação do Estrangeiro (The Foreigner, no original) como o alter ego do Duende Macabro.
Conceito desenvolvido pouco tempo antes por David, o Estrangeiro era um assassino de gabarito mundial que tivera um breve recontro com o Homem-Aranha. Apesar de lisonjeado por a escolha de Owsley para tão importante papel contemplar uma personagem da sua autoria, David declinou a proposta.
A exemplo dos demais participantes na conferência de autores, Peter David estava firmemente convencido de que Ned Leeds seria, de facto, o Duende Macabro e sabia bem quão pouco amistosa era a relação entre Owsley e DeFalco. Razões de sobra para ele não se querer envolver na polémica que antevia.
A revelação de que Ned Leeds era o Duende Macabro
foi apenas o começo de um mistério maior.
Descartada a possibilidade de utilização do Estrangeiro, e uma vez que a história de Owsley já fora desenhada, era demasiado tarde para reverter a morte de Ned Leeds. A solução encontrada para o imbróglio passou, assim, por uma revelação póstuma, nas páginas de The Amazing Spider-Man nº289.
Ficando desse modo os leitores a conhecer a verdade, quando era já Jason Macendale o portador do capuz do Duende Macabro. Escusado será dizer que esta foi uma opção deveras impopular.
Ciente desse facto,  Peter David continua, ainda assim, a dizer-se orgulhoso da história que atamancou. Argumentando que, apesar de ser um lugar-comum, é sempre emocionante ver um vilão odioso ser desmascarado no clímax de uma batalha épica contra o herói de quem é inimigo.
Quem nunca se conformou com a decisão de transformar Ned Leeds no primeiro Duende Macabro foi Roger Stern. E, à primeira oportunidade, tratou de emendar isso. Em 1997, Stern escreveu Spider-Man: Hobgoblin Lives, minissérie em três volumes que serviu para recontar a origem do vilão.
Entre outros ajustamentos retroativos, a história mostrava a criação do Duende Macabro por parte de Roderick Kingsley e a lavagem cerebral a que ele submeteu Ned Leeds para que este lhe servisse de bode expiatório.
Após matar Macendale, Kingsley reassumiu a sua antiga persona criminosa. Solução proposta pelo editor de Roger Stern enquanto este se debatia com o problema da existência de dois Duendes Macabros. Mas, como veremos em seguida, a procissão de duendes ainda ia no adro...

* Biografia não autorizada do Rei do Crime em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2015/09/galeria-de-viloes-rei-do-crime.html
** Perfil disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2015/12/eternos-peter-david-1956.html

Um vilão capaz de causar calafrios
 a quem lhe cruza o caminho.

Revoada de duendes

Conheçamos, então, um pouco melhor os homens que, ao longo dos anos, mantiveram vivo o legado do Duende Macabro. Note-se que a ordem pela qual eles figuram na lista abaixo é cronológica, não editorial.
Feito este esclarecimento prévio, passemos, sem mais delongas, às apresentações sumárias de cada um deles.

*Roderick Kingsley: Notório pela sua visão e práticas empresariais antiéticas, Roderick Kingsley era um bem-sucedido criador de alta costura que administrava um vasto império financeiro. Após descobrir a localização de alguns dos esconderijos secretos de Norman Osborn - o Duende Verde original - Kingsley tornou-se obcecado com o legado do malogrado vilão e decidiu dar-lhe continuidade. Sempre com esse objetivo em mente, apropriou-se da parafernália tecnológica projetada por Osborn e aplicou em si mesmo uma versão melhorada do Soro do Duende, adquirindo habilidades sobre-humanas similares às do seu antecessor.

Roderick Kingsley,
o fundador de uma macabra dinastia.
Operando como Duende Macabro, Kingsley começou por usar o seu novo alter ego para chantagear alguns dos seus rivais na indústria da moda. Rapidamente se tornaria, no entanto, uma das figuras mais temidas do submundo nova-iorquino, o que fez tilintar o sentido de aranha de um certo Escalador de Paredes.
Para acobertar os seus incontáveis crimes, Kingsley raptou Ned Leeds e sujeitou-o a uma lavagem cerebral, induzindo-o a acreditar que era ele o verdadeiro Duende Macabro. Quando teve a sua identidade comprometida pelo Homem-Aranha e por Betty Brant, a viúva de Ned Leeds, Kingsley fugiu para as Caraíbas, onde pretendia gozar a sua reforma dourada.

*Ned Leeds: Edward "Ned" Leeds era um promissor repórter do Clarim Diário casado com Betty Brant, também ela secretária pessoal de J. Jonah Jameson, o temperamental editor do jornal. Usado como bode expiatório por Roderick Kingsley, julgava-se o verdadeiro Duende Macabro. Acabaria executado pelo Estrangeiro na ex-RDA quando deixou de ter utilidade para Kingsley.

Ned Leeds, o bode expiatório.

*Jason Philip Macendale Jr.:
O mais veterano dos Duendes Macabros (envergou o uniforme durante exatamente uma década, de 1987 a 1997), Jason Macendale era um mercenário de sangue frio treinado pela CIA e que se notabilizara como Halloween, um criminoso fantasiado que enfrentou o Homem-Aranha em diversas ocasiões.
Macendale entraria em cena quando, empenhado em arranjar novo testa-de-ferro, Roderick Kingsley incriminou Flash Thompson, velho amigo de Peter Parker. Julgando estar a fazer um favor ao Duende Macabro que o faria cair nas boas graças do vilão, Macendale ajudou Thompson a fugir da prisão. Ao perceber o logro, decidiu ele próprio tornar-se o Duende Macabro.

Jason Macendale, o mercenário de sangue frio.
Durante os eventos de Inferno (saga já dissecada neste blogue), Macendale foi imbuído de poderes sobrenaturais e sofreu uma horrível transformação física que o dotou de uma aparência monstruosa. Período durante o qual o Duende Macabro deu lugar ao ainda mais sinistro Duende Demoníaco (Demogoblin).
Tal como o seu antecessor, Macendale acabaria assassinado. Desta feita, pelo próprio Roderick Kingsley, regressado ao ativo para reclamar o seu legado.

*Daniel Kingsley: Quando o seu irmão gémeo foi forçado a abandonar a identidade de Duende Macabro e a procurar novamente santuário nas Caraíbas em consequência da sua derrota às mãos do Duende Verde, coube a Daniel Kingsley manter vivo o seu legado. Seria, porém, assassinado por Phil Urich, sobrinho de Ben Urich, o veterano jornalista do Clarim Diário e amigo de longa data de Peter Parker.

Daniel Kingsley, o sósia.
*Phil Urich: Depois de matar, em legítima defesa, Daniel Kingsley e de assumir o manto do Duende Macabro, Urich tornar-se-ia um agente do Rei do Crime. Quando o império criminoso de Wilson Fisk foi desmantelado pelo Homem-Aranha Superior (combinação da mente de Otto Octavius com o corpo de Peter Parker), Urich foi preso e teve a sua identidade exposta. Libertado pelo Duende Verde, jurou-lhe lealdade e adjuvou-o na sua campanha para reconquistar o submundo de Nova Iorque. Na esteira da presumível morte do seu benfeitor, Urich autoproclamou-se Rei Duende.

Phil Urich, o príncipe degenerado.
*Claude: Mordomo de Roderick Kingsley, por ordem do patrão fez-se passar pelo Duende Macabro numa tentativa de derrubar o Rei Duende. Não sobreviveu à batalha com o vilão e teve o seu corpo destruído. Após estes eventos, Roderick Kingsley viajou para Paris. De onde passou a administrar discretamente o seu império pessoal, dedicando-se, em paralelo, ao lucrativo negócio da venda de patentes a aspirantes a supervilões.

Guerra de Duendes.

Trivialidades:

*Senhor de uma mente maquiavélica e de uma psicologia sui generis, Roderick Kingsley integra o restrito lote dos que lograram trapacear génios criminosos como Norman Osborn ou Wilson Fisk;
* Arnold "Lefty" Donovan, um patife de meia-tigela, serviu de cobaia humana a Kingsley quando este necessitou testar a nova fórmula do Soro do Duende. Apesar dos resultados satisfatórios do ensaio, Lefty acabaria assassinado pelo seu "benfeitor";
* Durante a sua segunda estada nas Caraíbas, Roderick Kingsley criou a persona Devil-Spider, para prosseguir a sua atividade criminosa. Tudo apontando para que o figurino do Tarântula, outro dos inimigos clássicos do Homem-Aranha, lhe tenha servido de inspiração na hora de definir o novo visual;

Devil-Spider, a outra faceta criminosa de Roderick Kingsley.
* Certa vez, após ter escapado do hospício onde fora internado, Deadpool usou o disfarce de Duende Macabro para fazer explodir um hangar a mando de um empregador. No entanto, o Mercenário Tagarela não gostou de vestir a fatiota e, depois de ter mandado pelos ares o hangar errado, não mais voltou a enfiar-se dentro dela;
* O Duende Macabro tem papel de destaque em The Amazing Adventures of Spider-Man, uma das atrações mais populares do Islands Adventures, parque temático aberto ao público desde 1999 em Orlando (Florida).

A aranha e o duende: inimigos naturais.
Noutros segmentos culturais: Quedando-se num mui digno 57º lugar no Top 100 dos melhores vilões da banda desenhada elaborado em 2009 pela plataforma IGN, a popularidade do Duende Macabro nos quadradinhos não teve, até ao momento, correspondência fora deles.
Ainda sem espaço no Universo Expandido da Marvel, a única incursão do vilão no panorama audiovisual reporta a meados dos anos 1990, quando participou em diversos episódios de Spider-Man: The Animated Series (1994-98). Com a particularidade de surgir retratado como um dos primeiros inimigos do Homem-Aranha, precedendo mesmo a sua aparição a do Duende Verde.

Mark Hamill (o eterno Luke Skywalker, de Star Wars) emprestou a sua voz
 ao Duende Macabro em Spider-Man. The Animated Series.
Mais ou menos na mesma altura, o Duende Macabro marcou presença em The Amazing Spider-Man, série de tiras diárias da autoria de Stan Lee e do seu irmão Larry Lieber, que vêm sendo publicadas desde 1977 em vários jornais de todo o mundo.
Também aí a personagem teve, no entanto, a sua história revista. Nesta versão, era Harry Osborn, filho de Norman Osborn, quem assumia a identidade do Duende Macabro para vingar a morte do pai. Em comum com o original, o ódio visceral em relação ao herói aracnídeo, a quem culpava pela sua tragédia familiar.

O legado do Mal.


sábado, 9 de abril de 2016

CLÁSSICOS REVISITADOS: «A MORTE DE GWEN STACY»





   Fustigado pelo Destino, Peter Parker perdeu para sempre o amor da sua vida numa malsinada noite em que batalhava o seu némesis. Desenlace trágico de um épico que mudaria para sempre a vida do herói, e que já foi transposto ao cinema.


Título original: The Night Gwen Stacy Died
Data: Junho-julho de 1973
Autores: Gerry Conway (história), Gil Kane (esboços) e John Romita, Sr. (arte-final)
Licenciadora: Marvel Comics
Publicado em: The Amazing Spider-Man nº121-122
Protagonistas: Peter Parker/Spider-Man (Homem-Aranha), Norman Osborn/Green Goblin (Duende Verde) e Gwen Stacy
Coadjuvantes: May Parker, Mary Jane Watson, Harry Osborn e J. Jonah Jameson
Cenários: Diferentes pontos da cidade de Nova Iorque, designadamente a ponte George Washington




Capas de The Amazing Spider-Man nº121 (acima) e 122.

 Gwen Stacy: de donzela a mártir





    Quem foi o grande amor de Peter Parker? Gwen Stacy ou Mary Jane Watson? Este é um tópico que ainda hoje motiva acaloradas discussões entre os fãs do Escalador de Paredes, sem que seja, contudo, possível chegar a um consenso.
   Controvérsias à parte, é inegável o papel fundamental que Gwen Stacy teve (e, em certa medida, continua a ter) na vida de Peter Parker. Mas o que, exatamente, sabemos sobre ela?
   De sua graça Gwendolyn Maxine "Gwen" Stacy, a loira delicodoce que arrebatou o coração de Peter começou a espalhar o seu encanto em dezembro de 1965, nas páginas de The Amazing Spider-Man nº31. Fruto da imaginação de Stan Lee* e Steve Ditko**, foi apresentada aos leitores como uma colega de Peter na Universidade Empire State. Perante a aparente indiferença do jovem aos seus subtis avanços, Gwen namorou brevemente com Flash Thompson e Harry Osborn.
   Peter, por sua vez, julgando Gwen fora do seu  alcance, viveu um romance de combustão rápida com a extrovertida Mary Jane. Conforme Peter depressa descobriu, as duas raparigas eram diferentes como a noite do dia: enquanto Gwen - uma brilhante aluna de Ciências - lhe admirava principalmente o intelecto, MJ pôs a nu a sua frivolidade e egocentrismo.
   Pouco tempo depois de Peter e Gwen deixarem os respetivos pares para começarem a namorar um com o outro, o capitão George Stacy (pai da jovem, entretanto introduzido nas histórias do Homem-Aranha, de quem era aliado) morreria atingido por destroços resultantes de uma rixa entre o herói e o Doutor Octopus.
   Recriminando o Escalador de Paredes pelo sucedido, Gwen anunciou a sua intenção de viajar para a Europa em busca de paz de espírito. Intimamente, porém, ela desejava que Peter a pedisse em casamento e a convencesse a ficar junto dele. Acabrunhado pelos remorsos, o jovem assistiu impávido à partida da sua amada para o Velho Continente.
   A separação foi, contudo, temporária. Impelida pelos fortes sentimentos que ainda nutria por Peter, Gwen regressou poucos meses depois a Nova Iorque, com o casal a logo reatar o namoro.
   De acordo com Stan Lee -  que até então escrevera todas as histórias envolvendo Gwen Stacy -, ele e os seus colaboradores sempre tiveram em mente fazer da personagem o principal interesse romântico de Peter Parker. Mas, fizessem o que fizessem, Mary Jane parecia sempre mais interessante...
    Importa ainda acrescentar que, até ao momento, foram duas as atrizes a encarnar Gwen Stacy no cinema: Bryce Dallas (Spider-Man 3) e Emma Stone (The Amazing Spider-Man 1 e 2). Contudo, apenas a segunda  protagonizou uma adaptação da história original (vide segmento Repercussões).

*/**Perfis disponíveis em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2011/09/eternos-stan-lee.html http://bdmarveldc.blogspot.pt/2012/03/eternos-steve-ditko.html

A morte de um anjo deixa sempre o mundo mais sombrio.
 
Conceção e desenvolvimento: Antes de selarem o destino de Gwen Stacy, Gerry Conway (ver texto anterior), Roy Thomas e John Romita, Sr. consultaram Stan Lee. Em entrevista concedida em 2011, o criador da namorada de Peter Parker recordou como tudo se passou: "Lembro-me que estava a preparar-me para uma viagem de negócios à Europa. Olhando para trás, julgo que não estaria a raciocinar com clareza porque quando os três estarolas me comunicaram a sua intenção de matar Gwen Stacy, eu não vi motivos para contrariá-los. Tudo o que eu queria naquele momento era enxotá-los para fora do meu escritório, para poder continuar a arrumar em paz a minha bagagem. Quando regressei a Nova Iorque e tomei conhecimento da morte de Gwen Stacy, interroguei-me por que raio é que eles o teriam feito? Nem queria acreditar que Gerry Conway tinha escrito algo assim. Tive de ser lembrado do aval que lhe dera durante a conversa no meu escritório antes de viajar."
   Dez anos antes destas declarações do desmemoriado Papa da Marvel, Gerry Conway apresentara a sua versão dos factos em The 100 Greatest Marvels of All Time: " Peter e Gwen  formavam o casal perfeito. Mas levar o relacionamento de ambos ao próximo nível (casamento ou, pelo menos, a revelação da vida dupla de Peter) seria trair tudo o que  o Homem-Aranha representa: tragédia pessoal e uma vida cheia de angústia. Eliminar Gwen Stacy permitiu, por assim dizer, matar dois coelhos com uma cajadada: pôr fim ao conto de fadas dos pombinhos e reforçar o elemento trágico que, na minha opinião, é a força motriz do Homem-Aranha".


Peter Parker: uma vida ensombrada pela tragédia.

   Embora o enredo escrito por Gerry Conway localizasse a tragédia na ponte George Washington, a que surge desenhada em The Amazing Spider-Man nº121 é a ponte de Brooklyn. Inconsistência que deu azo a conjeturas, mas que foi assim explicada por Stan Lee: "Fiz asneira. O artista desenhou a ponte do Brooklyn e eu, como editor, identifiquei-a como sendo a George Washington. Mas o erro seria emendado em futuras republicações da história."
  Na narrativa original, a sequência da morte de Gwen Stacy incluía a onomatopeia "snap" estrategicamente colocada  junto à cabeça da rapariga no painel em que o Homem-Aranha a apanhava com a sua teia. Em republicações vindouras, esse efeito sonoro seria, contudo, removido. Sobrevindo daí as dúvidas de muitos leitores quanto às reais causas da morte de Gwen. Com o intuito de as dissipar, Roy Thomas publicou a seguinte nota na secção de cartas de The Amazing Spider-Man nº125 (outubro de 1973): "É com enorme pesar que confirmamos que Gwen Stacy morreu em resultado do efeito de chicote provocado pela teia do Homem-Aranha. Era impossível ele tê-la salvado. Nunca a alcançaria a tempo se tivesse optado por saltar para apanhá-la no ar, a ação que tomou resultou na morte da rapariga e, mesmo que não tivesse feito nada, ela acabaria por não resistir a uma queda de tão grande altura. Não havia nada a fazer."
   Tese ratificada pelo professor de Física (e colecionador de comics) James Kakalios, no seu livro The Physichs of Superheroes (A Física dos Super-Heróis): "No mundo real, o efeito de chicote causado pela teia do Homem-Aranha quebraria o pescoço de Gwen como se de um galho seco se tratasse."


A sequência original da morte de Gwen Stacy.
     

Enredo: Amnésico, Norman Osborn esquece o seu alter ego de Duende Verde e também o facto de Peter Parker e o Homem-Aranha serem a mesma pessoa. Transtornado com a descoberta de que o seu filho, Harry, é um viciado em drogas, o empresário sequestra-o na mansão familiar para o submeter a uma desintoxicação radical.
   Aliada às severas pressões financeiras, a mágoa decorrente da condição do filho desencadeia o colapso emocional de Norman. Donde resulta a reemergência da sua persona maligna e de todas as memórias reprimidas. Voltando, assim, Peter Parker e os seus entes queridos a ficarem na mira do Duende Verde.
   Gwen Stacy, namorada de Peter e amiga de Harry, é raptada pelo Duende Verde. O vilão usa a rapariga como isco para atrair o Homem-Aranha até um dos pilares da ponte George Washington.
  Segue-se uma violenta refrega entre os dois inimigos jurados, que culmina com o Duende Verde a atirar Gwen do alto da estrutura. Agindo instintivamente, o Homem-Aranha dispara uma das suas teias para tentar suster a queda desamparada da jovem para as águas turvas do rio Hudson. A teia adere ao tornozelo de Gwen, deixando-a a baloiçar no ar. Convencido de que tinha salvado a vida da sua amada, o herói fica em choque quando, ao içá-la, percebe que ela está morta.
   Mesmo sem saber ao certo se fora o efeito de chicote causado pela sua teia a quebrar o pescoço da rapariga, ou se ela já estaria morta quando o Duende Verde a deixou cair, o Homem-Aranha recrimina-se pela tragédia.
   Tolhido por uma dor indizível, o herói chora sobre o corpo inerte de Gwen, enquanto o Duende Verde voa para longe dali. Mesmo à distância, porém, o vilão consegue ouvir as juras de vingança proferidas pelo Escalador de Paredes.

Angústia e desejo de vingança toldaram o espírito do herói.

  Na segunda parte da história, o Homem-Aranha persegue o Duende Verde até a um armazém devoluto e espanca-o com violência. Impede-se, contudo, de tirar a vida ao seu adversário. Aproveitando a hesitação do herói, o Duende Verde aciona remotamente o seu planador com a intenção de usá-lo para trespassar o herói pelas costas. Alertado pelo seu sentido de aranha, o Escalador de Paredes consegue esquivar-se do ataque, acabando o vilão empalado pelo próprio aparato.
   Com a aparente morte do Duende Verde, Peter Parker procura retomar a sua vida, apesar do enorme vazio que a preenche. No regresso a casa após mais um dia de aulas, tem à sua espera Mary Jane Watson, igualmente destroçada pela perda da sua melhor amiga. Unidos no luto, os dois procuram consolar-se mutuamente. Mas ambos sentem nos ossos que nada voltará a ser como dantes.

O feitiço virou-se contra o feiticeiro e o Duende Verde pagou pelos seus crimes.


Peter e Mary Jane (re)unidos pela tragédia.

Repercussões:

* A morte de Gwen Stacy deixou a comunidade de fãs do Escalador de Paredes em choque. Até pouco tempo antes da sua publicação, seria impensável que algo tão trágico pudesse suceder com uma personagem de tamanha relevância. Importa ressaltar que, por norma, os heróis não costumavam falhar tão miseravelmente, a menos que isso fizesse parte da sua origem. Razão que leva muitos especialistas a referenciarem esta história como aquela que assinalou o fim da chamada Idade da Prata, e o consequente advento da Idade do Bronze (trazendo consigo um registo mais sombrio aos comics);
*Gwen Stacy deu o nome a uma síndrome patenteada pelo Comics Buyer's Guide, e que serve ainda hoje para designar a tendência recorrente de dar fins trágicos aos interesses românticos dos super-heróis. Alguns exemplos célebres: Elektra Natchios (ex-namorada de Matt Murdock/Demolidor), Betty Ross (ex-esposa de Bruce Banner/Hulk) e Jean Grey (ex-esposa de Scott Summers/Ciclope);
* Numa votação promovida em 2001 pela Marvel, a fim de elaborar a lista das cem melhores histórias da editora, Spider-Man nº121 e nº122, quedaram-se, respetivamente, nos 6º e 19º lugares;
* Em julho de 2013, a escritora norte-americana Sarah Bruni deu à estampa o seu romance de estreia, intitulado precisamente The Night Gwen Stacy Died. A narrativa tem como protagonistas um casal que  se refere a si mesmo como Peter Parker e Gwen Stacy;

O romance homónimo de Sarah Bruni.

* Durante a Guerra Civil, tanto o Capitão América como o Homem de Ferro citaram a morte de Gwen Stacy como argumento para as suas posições díspares relativamente à Lei do Registo de Superseres (LRS). Enquanto o primeiro sustentava que tal só acontecera em virtude do Duende Verde conhecer a verdadeira identidade do Homem-Aranha (a LRS requeria que todos os heróis revelassem as suas identidades civis), o segundo contrapunha que, na origem da tragédia, estivera a falta de treino do Escalador de Paredes (o qual seria doravante ministrado a todos os heróis registados);
* Repleta de liberdades poéticas, a primeira adaptação de The Night Gwen Stacy Died ao grande ecrã foi feita em 2002. Em Spider-Man, Mary Jane Watson fez as vezes de Gwen Stacy. No entanto, ao contrário da sua malograda antecessora no coração de Peter Parker, a fogosa ruiva acabaria salva pelo herói aracnídeo de uma queda fatal no rio Hudson. Já a subsequente morte do Duende Verde foi coreografada no filme de uma forma muito similar à da história original;
* Igualmente com diversas nuances, a imolação de Gwen Stacy foi retratada em The Amazing Spider-Man 2 (2014). Com a principal diferença a residir no cenário escolhido: nesta versão, o Duende Verde preferiu a torre de um relógio à icónica ponte George Washington para lançar a jovem para a morte. Numa sequência muito semelhante à da banda desenhada, ao tentar salvar a sua amada, o Homem-Aranha acaba acidentalmente por matá-la;

Emma Stone como Gwen Stacy em The Amazing Spider-Man 2 (2014).

Realidade alternativa: Numa história não-canónica publicada em What If nº24 (dezembro de 1980), o Homem-Aranha consegue salvar Gwen Stacy do seu destino fatídico, saltando e amparando com o corpo a queda da rapariga do alto da ponte George Washington, em vez de tentar sustê-la em pleno ar
com a sua teia. Estratégia idêntica àquela que o herói utilizaria para salvar Mary Jane no filme Spider-Man (2002).
   No seguimento desse resgate bem-sucedido, Peter Parker pede Gwen em casamento, depois de lhe revelar a sua identidade secreta. Paralelamente, Norman Osborn sucumbe uma vez mais ao seu lado insano após o seu filho, Harry, ter saído de casa receando pela própria vida.
   Apesar do amor incondicional que nutrem um pelo outro, o destino de Peter e Gwen é tudo menos risonho. Para garantir a sua vitória final, o Duende Verde envia a J. Jonah Jamenson provas relacionadas com a verdadeira identidade do Homem-Aranha. Sem pensar duas vezes, o diretor do Clarim Diário publica o material. Usando-o, de seguida, para obter um mandado de captura para Peter Parker. Circunstância que obriga o jovem a fugir à polícia meros instantes depois de ter trocado alianças com Gwen.
  Com Peter em paradeiro incerto, a história termina com uma desolada Gwen a acolher a promessa feita por Joe Robertson (editor do Clarim Diário) de tudo fazer para ajudá-la a encontrar o marido.

Capa de What If? nº24 (história publicada no Brasil em Homem-Aranha nº10, da Abril).


Edições em Português

   No Brasil, o arco de histórias apresentando a morte de Gwen Stacy teve, no decorrer dos anos, direito a várias republicações sob os auspícios de diferentes editoras. Aqui fica uma retrospetiva das mesmas:

* O Homem-Aranha nº54 (Ebal, setembro de 1973);
* Homem-Aranha nº18 (RGE, junho de 1980);
* Marvel Especial nº2 (Abril, dezembro de 1986);
* A Teia do Aranha nº61 (agosto de 1991);
* Os Maiores Clássicos do Homem-Aranha nº3 (Panini, novembro de 2004);
* Homem-Aranha: Grandes Desafios (Panini, junho de 2007);
* Coleção Histórica Marvel: Homem-Aranha nº1 (Panini, setembro de 2013)


Homem-Aranha nº18 (RGE, junho de 1980).


A Teia do Aranha nº23 (Abril, agosto de 1991).
Coleção Histórica Marvel: O Homem-Aranha nº1 (Panini, setembro de 2013).

Vale a pena ler?

   Sim, mil vezes sim! Vale a pena ler e reler esta que é uma das mais notáveis histórias do Escalador de Paredes e, convenhamos, da Marvel.
    A par do assassinato do tio Ben, a morte de Gwen Stacy foi o episódio mais marcante na vida de Peter Parker. Tragédias que esculpiram o caráter do herói e que influenciaram para sempre o seu destino. Num caso como no outro, nunca saberemos em que tipo de homem Peter se teria transformado se qualquer um desses seus entes queridos tivesse sobrevivido.
    Aqui entre nós, a relação de Peter com Gwen Stacy sempre foi uma das minhas favoritas. Como devem imaginar, emocionei-me com a morte prematura daquela que considero ter sido o grande amor da vida de Peter Parker. Que me perdoem, pois, os fãs de Mary Jane Watson mas, da forma como vejo as coisas, esse monumento vivo à lascívia e à frivolidade jamais poderia dar uma boa esposa. Mais: não tivesse sido Gwen tirada de cena, e a MJ restaria assistir de camarote à felicidade amorosa do casal.
  Inteligente, generosa e - perdoem-me a expressão - linda de morrer, Gwen era um anjo de graciosidade e uma namorada modelar que sempre demonstrou ser uma influência positiva na vida de Peter. Ela tê-lo-ia certamente inspirado a cometer proezas ainda maiores do que aquelas que ele logrou alcançar. Tanto mais que, em variadíssimas ocasiões, ficou bem patente a profunda devoção que a rapariga tinha por Peter. Com uma mulher dessas ao lado, o céu é o limite para qualquer homem.
   Não fosse, pois, pelos cruéis desígnios editoriais, o casal estaria fadado a viver um daqueles amores capazes de fazer suspirar as almas românticas. Haverá, portanto, tragédia maior do que ver a pessoa com quem imaginávamos passar o resto da vida ser-nos arrancada num abrir e fechar de olhos?
    Essa é, de resto, a grande lição a tirar da morte de Gwen Stacy: estimem as pessoas que amam, expressem-lhes o vosso afeto e apreço antes que seja tarde demais. Lembrem-se que a vida é uma vela acesa ao vento...

   
Não há amor como o primeiro...


quinta-feira, 31 de março de 2016

ETERNOS: GERRY CONWAY (1952 - ...)




   Com apenas 19 anos foi investido da espinhosa missão de suceder a ninguém menos do que Stan Lee em The Amazing Spider-Man. Apesar da sua juventude e do peso desse legado, logrou afirmar-se ao escrever algumas das mais memoráveis histórias do Escalador de Paredes. Dele são também os créditos pela criação de personagens icónicas, como Justiceiro e Nuclear.


Biografia: De ascendência irlandesa, Gerard F. "Gerry" Conway nasceu há 63 anos no Brooklyn (Nova Iorque). Criado no seio de uma modesta família de imigrantes de segunda geração, o pequeno Gerry lia historietas de super-heróis com devoção religiosa. A mesma que lhe falta hoje em dia, apesar de ter recebido uma educação baseada nos preceitos do Catolicismo.
   No seu blogue pessoal, Gerry Conway descreve nestes termos os seus antecedentes familiares: "Os meus avós maternos nasceram na Irlanda. Como muitos outros,antes e depois deles, vieram à procura do sonho americano. Viveram no entanto uma vida em tudo parecida com aquela que a minha empregada de limpeza latina vive hoje em dia. O meu avô trabalhava de sol a sol como estivador nas docas. A minha avó lavava escadas na Hunter College (subsidiária da Universidade de Nova Iorque, sediada em Manhattan). Por força do seu baixo estatuto social, eram os hispânicos daquela época. Ou seja, eram tolerados mas não respeitados pelos estratos sociais mais elevados. Até o meu pai, nascido nos EUA, sentiu na pele esse preconceito em relação aos irlandeses. Raramente falava contudo do assunto. Mas, quando o fazia, era evidente o seu amargor."
  Naquilo que alguns poderão interpretar como um sinal da sua predestinação de vir a ser um expoente da 9ª arte, aos 14 anos Gerry Conway teve uma carta da sua lavra publicada em Fantastic Four nº50 (vide texto anterior). Destino que começou a desenhar-se três anos depois, em setembro de 1969, quando viu ser dado à estampa o seu primeiro trabalho profissional. Consistindo este num conto de terror, composto por seis páginas e meia, publicado em House of Secrets nº81 (título da DC Comics).

Edição de The House of Secrets que marcou
 a estreia profissional de Gerry Conway.

   Por conta desta estreia auspiciosa, da pena de Gerry Conway continuou a sair um manancial de histórias de cariz sobrenatural, publicadas nos meses subsequentes tanto em títulos da Marvel como da DC. Apesar de cada vez mais requisitado, Gerry suspirava por uma oportunidade para trabalhar com a sua verdadeira paixão: super-heróis. Graças à ajuda de amigos bem colocados, em finais de 1970, Gerry entrou em contacto com Roy Thomas    ( à época, editor da Marvel e braço-direito de Stan Lee), que concordou em testar as capacidades do jovem aspirante a escriba, dando-lhe um argumento para desenvolver.
   Oportunidade de ouro que nem passaria pela cabeça de Gerry desperdiçar. Ciente de que tinha na mão a chave para abrir de par em par as portas do seu emprego de sonho, arregaçou as mangas e trabalhou com afinco. Impressionado com a prestação do jovem,. Roy Thomas logo lhe atribuiu outras histórias, inclusive uma de Ka-Zar, publicada em Astonishing Tales nº3 (dezembro de 1970).

O primeiro trabalho de Conway para a Marvel
 foi publicado  neste volume de Astonishing Tales
  Conquistada a admiração dos seus pares, num piscar de olhos Gerry Conway tornou-se parte da mobília da Casa das Ideias. Sendo-lhe confiadas personagens cada vez mais proeminentes: a Ka-Zar seguir-se-iam Demolidor, Viúva Negra, Homem de Ferro, Inumanos e o Incrível Hulk. Sobejando-lhe, ainda assim, tempo e criatividade para escrever a história inaugural da série The Tomb of Dracula, e para participar na conceção de personagens como Lobisomem e Homem-Coisa (Werewolf e Man-Thing, nos respetivos originais).
  O batismo de fogo de Gerry Conway chegaria, contudo, em meados de 1972. Ano em que foi o escolhido para suceder a ninguém menos do que Stan Lee à frente de The Amazing Spider-Man. Ironia do destino, já que, ao contrário de Roy Thomas, o Papa da Marvel não ficara impressionado com a amostra do trabalho de Gerry Conway,  Este, do alto dos seus 19 anos, não se fez rogado na hora de aceitar aquilo que bem poderia ter sido um presente envenenado: assumir o legado de uma lenda viva num título de charneira da Casa das Ideias.
   Malgrado a sua juventude e o natural ceticismo de alguns leitores, Gerry Conway não demorou a afirmar-se, dando um novo elã ao microcosmos do Homem-Aranha. Ao longo do triénio (1972-75) que durou o seu consulado em The Amazing Spider-Man, o escritor revitalizou as histórias do Escalador de Paredes. Algumas das quais, pelo seu escopo na vida do herói, se tornariam antológicas. Foi o caso, desde logo, de The Night Gwen Stacy Died (A Noite em que Gwen Stacy Morreu), que chegou às bancas norte-americanas em junho de 1973.

A morte de Gwen Stacy continua a ser uma das histórias
 mais impactantes na vida do Escalador de Paredes.

  Oito meses depois, em parceria com Ross Andru, Gerry Conway introduziria dois novos e carismáticos antagonistas do herói aracnídeo: o Chacal (The Jackal) e o Justiceiro (The Punisher). Enquanto o primeiro estaria na origem da controversa Saga do Clone (já aqui esmiuçada), o segundo teria uma ascensão fulgurante no Universo Marvel, depressa trocando as roupagens de vilão pelas de um anti-herói cujos métodos radicais no combate à criminalidade o tornaram numa das mais populares personagens dos quadradinhos (e fora deles).

O Justiceiro (aqui pelo traço de Ross Andru, seu cocriador)
rapidamente passou de coadjuvante a protagonista.

  Paralelamente ao trabalho desenvolvido em The Amazing Spider-Man, Gerry Conway escreveu também, durante cerca de ano meio, outro dos títulos mais emblemáticos da Casa das Ideias: The Fantastic Four. 
    Factos que, em 2009, lhe motivariam as seguintes reflexões: "Qualquer pessoa com uma atividade criativa está ciente de que a precocidade é uma maldição. No meu caso, a maior parte da pressão que senti quando era um jovem escritor de super-heróis foi autoinfligida. Aquilo que eu mais queria era ser aceite como igual pelos meus colegas mais velhos. Circunstância que me levou muitas vezes a projetar uma maturidade emocional e profissional superior à que tinha na altura. 
   Posso dizer, no entanto, que era bastante convincente nesse papel. Dele decorrendo vantagens mas, obviamente, também algumas desvantagens. Olhando para trás, julgo que as pessoas se esqueciam frequentemente de quão novo eu era, esperando desse modo que eu atingisse um nível que claramente não estava ao meu alcance. 
  A principal consequência foi eu ter passado os primeiros anos da minha carreira profissional esmagado por uma gigantesca pressão, sem saber muito bem o que fazer. Escrevia muitas vezes por instinto. Quando essa forma de escrever se adequava ao material que tinha em mãos, o resultado final era estupendo. Mesmo passados todos estes anos, continuo a orgulhar-me do trabalho que fiz em The Amazing Spider-Man. Outras situações houve em que fui notoriamente prejudicado pela minha inexperiência."



Houve um antes e um depois de Gerry Conway nas histórias do Homem-Aranha.
   Regressado à DC em meados de 1975, Gerry Conway assumiu de uma assentada três edições, todas datadas de novembro desse ano: Hercules Unbound nº1, Kong, The Untamed nº3 e Swamp Thing nº19. Carga de trabalho complementada pela revitalização por ele operada em All Star Comics. Foi, aliás, neste título histórico com origens na Idade do Ouro que Gerry deu a conhecer a Poderosa (Power Girl), uma das suas mais bem-sucedidas criações.
  Tal versatilidade valeu-lhe, pouco tempo depois, o convite para escrever Superman versus The Amazing Spider-Man, o primeiro crossover oficial Marvel/DC. Iniciativa editorial que associaria para sempre o nome de Gerry Conway à história das duas gigantes dos quadradinhos estadunidenses.
  Depois de mais alguns meses a trabalhar na Editora das Lendas, em março de 1976 Gerry Conway aceitou novo desafio de monta ao assumir o cargo de editor-chefe da Marvel. Funções que exerceria apenas durante pouco mais de um mês, logo renunciando a elas por motivos que permanecem até hoje obscuros.

Nos créditos da batalha do século XX figurava o nome de Gerry Conway.

  Novamente ao serviço da DC (agora em regime de exclusividade), na década seguinte Gerry Conway deixaria a sua marca em praticamente toda a linha de títulos da editora. De Superman a Detective Comics (onde Batman era cabeça de cartaz), passando por Justice League of America, poucas foram as personagens que não tiveram histórias escritas pela sua incansável pena. Fase seminal em que Gerry Ordway foi também cocriador de um lote de personagens emblemáticas. Citando apenas as mais afamadas: Nuclear (Firestorm), Vixen, Vibro (Vibe), Cigana (Gipsy) e Gládio (Steel, the Indestructible Man). Importa referir que, excetuando o herói atómico, os restantes formaram o contingente de neófitos da Liga da Justiça de Detroit.
   Durante esta sua segunda passagem pela DC, Gerry Conway reencontrou Roy Thomas, com quem teve ocasião de colaborar em diversos projetos. Dentre estes, o mais ambicioso - e, em certa medida, o mais frustrante - seria,muito provavelmente, JLA/Avengers, crossover cujo cancelamento foi ditado pelas disputas editoriais entre as duas licenciadoras.
   Constantemente em busca de novos desafios, em finais dos anos 80, Gerry Conway trocou uma vez mais a DC pela Marvel. Entre 1988 e 1990 escreveu em simultâneo The Spectacular Spider-Man e Web of Spider-Man, os dois títulos estrelados pelo Homem-Aranha. Sobre esta sua segunda experiência com o Escalador de Paredes, Conway declararia certa vez: "Entendia a personagem muito melhor nessa altura do que quando tinha 19 anos. Uma das vantagens deste trabalho é que podemos sempre refrescar conceitos consagrados por via de alterações subtis. Algo que me continua a dar gozo fazer."
   Convidado a produzir os guiões da série policial Father Dowling Mysteries, Gerry Conway trocaria entretanto a BD pela TV. Não tendo sido esta, contudo, a sua primeira incursão no panorama audiovisual. Em 1983, ele e Roy Thomas haviam sido os autores do enredo de Fire & Ice, película de animação baseada em personagens idealizadas por Ralph Bakshi e Frank Frazetta. No ano seguinte, a mesma dupla assinaria a trama do filme Conan. The Destroyer (sequela de Conan, The Barbarian ,ambos protagonizados por Arnold Schwarzenegger).

A série televisiva que levou Gerry Conway
a abandonar a indústria dos comics.

   No plano literário, Gerry Conway deu à estampa duas novelas de ficção científica: The Midnight Dancers (1971) e Mindship (1974). Nenhuma delas obteve, todavia, o estatuto de best-seller.
   Circunscrevendo atualmente a sua relação com os comics  a ocasionais colaborações com a Marvel e a DC, Gerry Conway continua, ainda assim, a expressar o seu afeto por esses produtos culturais através das múltiplas referências que lhes faz nas séries televisivas que escreve e produz. Num episódio de Law & Order, por exemplo, deu o nome de John Byrne a uma das personagens.Rendendo dessa forma tributo a outro grande vulto da 9ª arte, cujo perfil já aqui foi publicado.
  Casado em segundas núpcias com Karen Bitten - uma psicóloga especializada em autismo infantil -, Gerry Conway é pai de duas filhas. Sendo a mais velha fruto do seu matrimónio com Carla Conway. Além da parentalidade, o ex-casal divide os créditos pela criação de Miss Marvel.
    A residir desde 2009 em San Fernand Valley - subúrbio da buliçosa Los Angeles - Gerry Conway leva uma pacata vida familiar longe dos holofotes. Nada que impeça a sua legião de fãs de continuar a acalentar a esperança de o ver regressar em grande estilo à indústria dos quadradinhos, atravessando presentemente uma das mais amorfas fases da sua História.
   Mesmo que tal nunca venha a acontecer, pelo seu importante contributo para o prestígio da 9ª arte, o nome de Gerry Conway ficará para sempre entalhado com letras douradas no panteão dos seus mais preclaros autores.


Gerry Conway entrevistado durante a Comic Con de Seattle de 2013.

 Obras de referência:

* The Amazing Spider-Man (Marvel, 1972-75);
* Superman versus The Amazing Spider-Man (Marvel/DC, 1976);
* Superman versus Wonder Woman (DC, 1978);
* Superman versus Shazam (idem, ibidem)
.*The Spectacular Spider-Man (Marvel, 1988-90);
* Web of Spider-Man (idem, ibidem);
* DC Retroactive: Justice League- The '80s (DC, 2011);

Outro tesouro de papel com a assinatura de Gerry Conway.

Principais criações e cocriações:

* Justiceiro/Punisher (Marvel);
* Chacal/Jackal (Marvel);
* Poderosa/Power Girl (DC);
*Vibro/Vibe (DC);
*Cigana/Gipsy (DC);
*Gládio/Steel, The Indestructible Man (DC);
* Miss Marvel (Marvel);
*Homem-Coisa/Man-Thing (Marvel);
* Lobisomem/Werewolf (Marvel);
* Jason Todd*(DC);
* Nevasca/Killer Frost (DC);
* Nuclear/Firestorm (DC);
* Crocodilo/Killer Croc (DC);
*Ben Rilley** (Marvel);
* Halloween/Jack O'Lantern (Marvel)
*Drácula/Dracula (Marvel);
*Esquadrão Atari/Atari Force (DC)

* Identidade civil do segundo Robin (atual Capuz Vermelho);
** Identidade civil do Aranha Escarlate

Nuclear: umas das mais célebres criações de Gerry Conway.