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quarta-feira, 27 de março de 2019

CLÁSSICOS REVISITADOS: «SUPER-HOMEM VERSUS HOMEM-ARANHA»


  Convocada para deleite dos fãs, a mais titânica batalha do século XX opôs os campeões da Marvel e da DC, inaugurando uma nova era nas relações entre as duas editoras. Um sonho impossível tornado realidade e a pedra angular de um admirável legado comum que importa celebrar em tempos de rivalidades exacerbadas.

Título original: Superman versus  The Amazing Spider-Man
Licenciadoras: Marvel Comics / DC Comics
País: EUA
Autores: Gerry Conway (argumento), Ross Andru (ilustrações) e Dick Giordano (arte-final) 
Data de publicação: Janeiro de 1976
Categoria: Crossover
Protagonistas: Super-Homem, Homem-Aranha, Lex Luthor e Doutor Octopus
Coadjuvantes: Lois Lane, Mary Jane Watson, J. Jonah Jameson, Morgan Edge, Ned Leeds, Jimmy Olsen, Betty Brant e Steve Lombard 
Cenários: Metrópolis, Nova Iorque, Tanzânia e satélite do Gangue da Injustiça

Edições em português

Ainda inédito no retângulo lusitano, aquele que foi o "pai" de todos os crossovers teve a sua primeira versão em língua portuguesa a cargo da brasileira EBAL. Inserto na coleção Almanaque dos Heróis, de periodicidade anual, em 1977 Super-Homem contra o Incrível Homem-Aranha foi lançado em formato gigante idêntico ao original.
Em janeiro de 1986 (data em que se assinalava o 10º aniversário do primeiro lançamento em terras do Tio Sam), foi a vez da Abril republicar este volume histórico. Que, em março de 1993, seria reeditado pela última vez sob os auspícios da mesma editora. Desta feita no número inaugural da série trimestral Grandes Encontros Marvel & DC, na qual eram revisitadas outras iniciativas editoriais conjuntas das duas arquirrivais. Ambas as edições da Abril foram lançadas no chamado formatinho económico e distribuídas em Portugal.

A edição da EBAL era praticamente um fac-símile da original.

Crónica de um sonho (im)possível

Quando se reuniram em 1975 para produzir uma adaptação do clássico O Feiticeiro de Oz, a Marvel e a DC abriram um precedente e criaram a expectativa da iminente realização de um sonho que povoava a mente de 99,99% dos fãs de super-heróis: ver as personagens das duas gigantes dos quadradinhos juntas numa mesma história.
Curiosamente, nos anos que antecederam este primeiro empreendimento conjunto das duas companhias alguns dos seus assalariados trataram de oferecer ao leitores um aperitivo daquilo que se tornaria corriqueiro na cultura nerd: os crossovers. Para os menos versados neste tipo de jargão,  trata-se de uma técnica literária (traduzível como "intersecção") que consiste em inserir num mesmo evento fictício personagens provenientes de núcleos diversos, desprovidas de qualquer relação anterior entre si.
Um desses tímidos ensaios ocorreu em dezembro de 1972, nas páginas de Justice League of America nº103. Escrita por Len Wein, a história em causa mostrava como, após dominar as mentes de um grupo de foliões fantasiados na noite de Halloween, o vilão Félix Fausto lhes concedida superpoderes. Por conta disso, a Liga da Justiça teve de medir forças com sósias do Capitão América, Homem-Aranha e outros heróis da Marvel.
Apesar desta e de outras brincadeiras inócuas, apenas em 1975 começou a ganhar forma aquele que era um sonho tido como impossível. Nesse ano, David Obst, agente literário da privança de Stan Lee, resolveu levar a sério as exigências dos leitores por um crossover Marvel / DC.


A primeira coprodução oficial Marvel/DC (cima)
e o cameo do Capitão América numa história da Liga da Justiça.
Depois de sondar à porfia Stan Lee e Carmine Infantino - presidente da Marvel e editor-chefe da DC, respetivamente - Obst convenceu-os a apostar na ideia que batizou de "A batalha do século". Contudo, não era uma simples banda desenhada que ele tinha em mente. Com conhecidas aspirações a produtor cinematográfico, Obst pretendia, ao invés, que as duas editoras patrocinassem um filme protagonizado pelos seus dois maiores ícones: Super-Homem e Homem-Aranha.
Perante a descrença dos mandachuvas da Marvel e da DC no que à exequibilidade de tal ideia dizia respeito, Obst não desanimou e continuou a tentar levar água ao seu moinho. Até que, por fim, lá conseguiu arrancar a ferros um princípio de acordo entre as duas editoras com vista à realização de uma joint venture perspetivada como uma dádiva para os leitores.
Importa ressalvar, porém, que o referido acordo só foi possível graças à amizade que unia Stan Lee e Carmine Infantino desde os tempos em que,  durante a Idade de Ouro, ambos haviam colaborado na mesma tira diária.

Imagem relacionada
David Obst foi o piloto da mudança
nas relações entre Marvel e DC.
Entretanto, na sede da DC estava instalada uma enorme azáfama. Decorriam por aqueles dias as negociações referentes ao elenco e ao enredo do vindouro filme do Homem de Aço que a Warner Bros. aceitara produzir a contragosto. Escusado será dizer que seus executivos nem queriam ouvir falar numa coprodução megalómana com a sua mais direta concorrente.
Por outro lado, desde que, em 1971, assumira a liderança da Editora das Lendas, Carmine Infantino levara a cabo uma série de profundas mudanças. E também assegurara algumas contratações tão vultuosas quanto controversas. Além de ter garantido os préstimos de Neal Adams, um dos mais promissores artistas da sua geração, e de Denny O'Neill, escriba virtuoso, Infantino conseguira desfalcar a Casa das Ideias de dois dos seus maiores talentos: Jack Kirby e Gerry Conway. Proeza que, naturalmente, em nada contribuiu para a melhoria das relações entre as duas concorrentes.
Descartada a produção de uma longa-metragem, a alternativa natural foi o lançamento de uma história aos quadradinhos que pusesse frente a frente os campeões da Marvel e da DC. Concordando ambas com a paridade das suas participações no projeto.
Foi, pois, ao abrigo desse acordo de cavalheiros que a DC indicou Gerry Conway para escrever a história. Uma escolha que, diga-se de passagem, nada teve de inocente. Além de já ter sido argumentista tanto do Super-Homem como do Homem-Aranha, Conway era também uma espécie de broche na lapela de Carmine Infantino, conhecido pela sua feroz competitividade em relação à Casa das Ideias (ainda que a recíproca não fosse verdadeira).
A arte ficaria a cargo de Ross Andru - então ao serviço da Marvel após uma longa temporada na DC - e que, tal como Conway, tinha a particularidade de já ter trabalhado nas histórias dos dois heróis que iriam protagonizar o crossover.
Ficou igualmente estipulado que Stan Lee e Carmine Infantino supervisionariam todo o projeto, com este último a ficar também responsável pela conceção da respetiva capa, a qual seria arte-finalizada por Ross Andru.
Um dos segredos de bastidores mais bem guardados prende-se, de resto, com o trabalho desenvolvido por Ross Andru. Por respeito ao seu colega de ofício, só muitos anos mais tarde Neal Adams revelaria ter sido secretamente incumbido de retocar o rosto do Super-Homem em várias sequências da história. Processo idêntico aplicou John Romita Sr. às expressões faciais de Peter Parker. Por contraste, Gerry Conway dispôs de ampla liberdade na estruturação da narrativa, que poucos ajustes sofreu.

Superman Vs. Spider-Man (Written by Gerry Conway, Art by Ross Andru)
Os comentários de Stan Lee e Carmine Infantino
 ao primeiro crossover das editoras que lideravam.
Lançado em formato gigante, Superman versus The Amazing Spider-Man chegou às mãos dos leitores norte-americanos em janeiro de 1976. Coincidência ou talvez não, nesse ano os EUA celebravam o seu bicentenário em meio a profundas divisões internas e incertezas quanto ao futuro, na ressaca da derrota militar no Vietname e da renúncia do Presidente Nixon motivada pelo escândalo Watergate.
Ao colocarem de lado as suas diferenças, a Marvel e a DC transmitiram à sociedade estadunidense um importante sinal de união em tempos conturbados. Um gesto difícil de reproduzir no atual ambiente de animosidade entre os fãs das duas editoras. Que não se assumindo como inimigas mortais, voltaram a estar de costas voltadas após três décadas de cooperação. Sendo Superman versus The Amazing Spider-Man pedra angular desse legado comum que, agora mais do que nunca, importa evocar.

Superman Vs. Spider-Man (Written by Gerry Conway, Art by Ross Andru)



A conceção da icónica capa de Superman versus The Amazing Spider-Man (cima)
e a página de abertura com a respetiva ficha técnica.

Enredo

Em Metrópolis, o Super-Homem trava o rasto de caos e destruição deixado por um robô gigante controlado por Lex Luthor. Apesar de capturado pelo Homem de Aço, o vilão consegue enviar um pequeno dispositivo roubado dos Laboratórios S.T.A.R. para uma das suas bases secretas.
Simultaneamente, o Homem-Aranha derrota a quadrilha do Doutor Octopus após uma gorada tentativa de assalto a um banco nova-iorquino.
Transferido para uma prisão federal de segurança máxima projetada para acomodar supervilões, Octopus tem Luthor como companheiro de cela. Da admiração mútua e do desejo comum de destruírem os homens responsáveis pelos seus recorrentes fiascos nasce então uma aliança entre os dois malfeitores. Combinando a sua genialidade científica, Luthor e Octopus rapidamente engendram um plano de fuga que os devolve à liberdade.
No dia seguinte, Peter Parker, fotógrafo freelancer do Daily Bugle, acompanhado da sua namorada, Mary Jane Watson, comparece a uma conferência de imprensa que antecede o lançamento do ComSat, um sofisticado satélite meteorológico capaz de alterar os padrões climatéricos. No evento marcam também presença os repórteres do Daily Planet e da rede WGBS, Clark Kent e Lois Lane, vindos expressamente de Metrópolis para fazer a respetiva cobertura noticiosa.
Afoita como sempre, Lois Lane trepa ao cimo de um andaime para melhor poder observar o satélite, mas escorrega e cai de uma altura de vários metros antes de ter a queda amparada por Peter Parker. Perante o olhar desconfiado de Mary Jane, Lois agradece ao jovem fotógrafo por lhe ter salvado a vida.
Subitamente, porém, Luthor entra em cena disfarçado de Super-Homem e dispara uma rajada ótica sobre as duas mulheres, teletransportando-as para local desconhecido.

Superman Vs. Spider-Man (Written by Gerry Conway, Art by Ross Andru)
O momento em que Luthor, disfarçado de Super-Homem, sequestra Lois e MJ.
Enquanto o falso Homem de Aço voa para longe, Peter e Clark, incrédulos com o que acabaram de presenciar, correm a trocar as suas roupas civis pelos seus vistosos uniformes.
Culpando-se mutuamente pela abdução das suas caras-metades, o Super-Homem e o Homem-Aranha envolvem-se numa acesa discussão, observada de longe por Luthor e Octopus.
Ciente da enorme desproporção de poderes entre os dois heróis, Luthor usa uma pistola de raios para infundir o Escalador de Paredes com radiação similar à de um sol vermelho. Deixando desse modo o Homem de Aço vulnerável aos golpes de um furioso Cabeça de Teia.
Quando a radiação se dissipa e o Super-Homem recupera a sua invulnerabilidade, os dois heróis percebem ter sido ludibriados e deduzem que Luthor e Octopus estão por detrás do ardil. Ambos concordam então em unir esforços para recapturarem os seus inimigos e resgatarem as suas namoradas. Acordo selado com um vigoroso aperto de mão que deixa o Cabeça de Teia a ver estrelas.

Superman Vs. Spider-Man (Written by Gerry Conway, Art by Ross Andru)
Depois do confronto, a reconciliação selada com um vigoroso passou bem.
Seguindo o rasto dos vilões até à Tanzânia, na África Oriental, o Super-Homem e o Homem-Aranha veem-se obrigados a defrontar um robusto guerreiro indígena que Luthor dotou de força ampliada e de uma espada irradiada com energia de um sol vermelho.
Vencido o oponente com a preciosa ajuda de elementos da tribo Masai, os dois heróis voam para a órbita terrestre - com o Homem-Aranha a fazê-lo aos comandos de uma nave roubada da base africana de Luthor. É lá que se encontra estacionado o satélite abandonado do Gangue da Injustiça onde Luthor e Octopus estão aboletados.
Graças ao dispositivo programador furtado por Luthor dos Laboratórios S.T.A.R., ele e Octopus assumiram o controlo do ComSat, que pretendem usar para interferir com a atmosfera terrestre e chantagear os governos mundiais. Numa singela demonstração do potencial destrutivo da máquina, Luthor dispara uma combinação de raios laser e de ondas sónicas sobre a superfície terrestre. Ato contínuo, violentos terramotos e furacões irrompem um pouco por todo o globo.
Enquanto o Super-Homem fica aturdido depois de ser atingido em cheio por uma rajada sónica de alta intensidade, o Homem-Aranha tomba inanimado quando o sistema de suporte vital do satélite é comprometido.
Tão logo recobra a consciência, o Homem de Aço investe sobre o Doutor Octopus, arrancando-lhe dois dos seus tentáculos mecânicos. Já o Escalador de Paredes prefere recorrer à psicologia para semear a discórdia entre os dois vilões.
Superman Vs. Spider-Man (Written by Gerry Conway, Art by Ross Andru)
Os heróis contra-atacam.
Ao escutar o discurso do herói aracnídeo, Octopus compreende enfim que, se consumado, o diabólico plano de Luthor resultará na ruína da civilização humana, não restando nada para governar. Perante o desespero de Luthor, Octopus usa então um dos seus tentáculos remanescentes para inutilizar o painel de controlo do ComSat, impedindo dessa forma uma calamidade de proporções bíblicas.
Enquanto o Homem-Aranha se encarrega de neutralizar os dois vilões, o Super-Homem voa a supervelocidade para a Terra a fim de impedir que um gigantesco maremoto arrase a Costa Leste dos EUA.
De regresso a Nova Iorque, os dois heróis congratulam-se mutuamente pelo êxito da sua parceria antes de levarem os respetivos némesis sob custódia.
No epílogo, Clark Kent e Lois Lane participam num animado encontro duplo com Peter Parker e Mary Jane Watson.


Segundo Round

Ao abrigo do memorando de alternância entre as duas editoras, em julho de 1981, cinco anos após o lançamento da história original, coube à Marvel assumir a produção do segundo encontro entre o Super-Homem e o Homem-Aranha. Descrita como a "sequência espiritual" da batalha do século, Superman and Spider-Man foi escrita por Jim Shooter (com base numa premissa de Marv Wolfman) e desenhada por John Buscema, contando ainda com uma luxuosa equipa de arte-finalistas onde pontificavam, entre outros nomes sonantes, Joe Sinnott, Terry Austin e Bob Layton.
Em vez de um volume especial, a história foi publicada em Marvel Treasury Edition nº28 e surpreendeu pela escolha dos antagonistas: Doutor Destino (tradicionalmente associado ao Quarteto Fantástico) e Parasita, vilão clássico do Homem de Aço, porém menos afamado do que Brainiac ou Zod, que se perfilavam como candidatos mais óbvios. Previsivelmente menos impactante do que a sua antecessora, a história contava ainda, à laia de bónus, com as participações especiais da Mulher-Maravilha e do Incrível Hulk.
A primeira edição em português ficaria por conta da brasileira RGE, em 1982. Seguindo-se, sete anos mais tarde, a inevitável republicação com a chancela da Abril. Sendo que apenas esta última desembarcou na ocidental praia lusitana.

O reencontro do Homem de Aço e do Escalador de Paredes
 em Marvel Treasury Edition nº28 (1981).

Apontamentos

*Ausente do cânone das duas editoras que o produziram, este primeiro encontro entre o Homem de Aço e o Escalador de Paredes tem sido, contudo, referenciado em vários títulos da Marvel no curso dos anos. A primeira vez que tal aconteceu foi em What If? nº1 (fevereiro de 1977), quando o alienígena conhecido como Vigia agraciou os leitores com pequenos vislumbres de universos paralelos. Num deles, era possível ver o Homem-Aranha prestes a ser atingido na face pelo punho cerrado do Super-Homem (identificado apenas pela manga azul do seu uniforme). Levando inclusivamente o Vigia a interrogar-se se aquele duelo teria tido lugar na realidade primordial ou numa qualquer realidade alternativa. Também Avengers Forever nº8 (julho de 1999) inclui um flashback que mostra a fuga de Lex Luthor e do Doutor Octopus da prisão. Mais recentemente, em Mosaic nº4 (janeiro de 2017), uma das memórias do Homem-Aranha mostra-o a golpear repetidamente o torso do Super-Homem camuflado nas sombras;

image
Entre as memórias do Homem-Aranha esmiuçadas por Mosaico
 figura o seu duelo com o Super-Homem (2ª imagem a contar de cima).

*Paralelamente ao confronto dos protagonistas, Superman versus The Amazing Spider-Man proporcionou também o encontro de vários coadjuvantes. Num deles, ambientado num bar, Morgan Edge e J. Jonah Jameson (respetivamente, presidente executivo da rede WGBS e diretor do Daily Bugle), queixam-se da estranha propensão de Clark Kent e de Peter Parker para desaparecerem em situações de crise. Recorde-se que, à época, Clark trabalhava como pivô no principal telejornal da WGBS (celebrizada como Rede Galáxia, no Brasil), ao passo que Peter colaborava como fotógrafo freelancer daquele que é um dos mais influentes jornais nova-iorquinos;
*Dirigindo-se aos puristas, no prefácio de Crossover Classics - série antológica que compila alguns dos encontros Marvel / DC realizados ao longo dos anos - Gerry Conway esclarece que a ausência de explicação para a presença do Super-Homem e do Homem-Aranha no mesmo universo fora deliberada por não ser esse o objetivo da história. A despeito disso, o The Official Crisis on Infinite Earths Crossover Index, publicado em março de 1986, situa os eventos na Terra Crossover, realidade divergente onde as personagens de ambas as editoras coexistem. Posteriormente, a Marvel designaria essa mesma realidade de Terra - 7642;
*O satélite devoluto que, na história, serve de esconderijo à dupla Luthor / Octopus pertencera outrora ao Gangue da Injustiça. Conceito desenvolvido em 1974 por Len Wein e Dick Dillin, tratava-se de uma organização criminosa muito ativa durante a Idade de Bronze, e que tinha na Liga da Justiça a sua principal adversária. Sucessivamente desmantelada e reconfigurada, dela fizeram parte arquiduques do crime, como o Joker ou próprio Luthor, além de um apreciável rol de vilões menores, nomeadamente o Ladrão das Sombras ou o Capitão Bumerangue;
*À boleia do sucesso de Superman versus The Amazing Spider-Man, a Marvel e DC promoveram múltiplas sinergias até ao início deste século. Um longo e prolífico ciclo de cooperação editorial encerrado com chave de ouro, em 2003, com o magnífico JLA/Avengers. E que teve o seu ponto mais alto em 1996, com o lançamento da Amalgam Comics. Sob o selo desta editora gerida conjuntamente pela Marvel e pela DC foram publicados vários volumes especiais estrelados por personagens amalgamadas, como o Super-Soldado (mescla do Super-Homem com o Capitão América) ou o Garra das Trevas (resultado da fusão de Batman e Wolverine).

Cover
JLA/Avengers, o último crossover Marvel /DC.

Vale a pena ler?

Obra capital na história da 9ª Arte, Super-Homem versus Homem-Aranha temperou com a sua mística o imaginário de toda uma geração e ocupa um lugar muito especial na memória afetiva dos leitores da velha guarda. Em particular daqueles que tiveram o privilégio de lê-la no formato original, dada a sua abordagem cinematográfica.
A despeito das suas especificidades, "A batalha do século" é uma típica narrativa da Idade de Bronze: simples, eficaz e um pungente apelo à suspensão da descrença. Com a dinâmica dos seus protagonistas a ser alimentada pela nobreza ostensiva do Homem de Aço e pelo sentido de humor do Cabeça de Teia. Os dois representam também duas eras diferentes. O primeiro dos super-heróis, o Super-Homem é um símbolo da Idade de Ouro da banda desenhada, ao passo que o Homem-Aranha, surgido na Idade de Prata, é o maior ícone desse período histórico. O confronto entre ambos metaforiza, no fundo, o sempre latente conflito entre o velho e o novo.
Ver Luthor e o Dr. Octopus nos seus uniformes clássicos e isentos dos enfadonhos psicodramas que marcam as histórias atuais  - as mais das vezes, eivadas de relativismo moral - é um salutar lembrete de tempos menos insalubres, em que heróis e vilões não se confundiam.
Além de um divertido exercício de escapismo, Superman versus Homem-Aranha definiu ainda os preceitos para futuros crossovers. Cuja fórmula, salvo honrosas exceções, consiste ainda hoje em fazer os heróis medirem forças entre si antes de as unirem para enfrentar um inimigo comum. Exemplo que deveria ser presentemente seguido pelas editoras que produziram este clássico e que têm no cancerígeno sectarismo dos seus fãs uma das maiores ameaças ao seu futuro. Mas talvez as respostas aos problemas atuais possam ser encontradas no passado. Afinal, este não tem de ser apenas o refúgio espiritual de nostálgicos desencantados com o desvirtuamento dos seus ídolos de infância.




sexta-feira, 17 de junho de 2016

EM CARTAZ: «HOMEM DE AÇO»




   Fazendo um corte radical com o passado, Zack Snyder apresentou ao mundo a sua arrojada visão do Super-Homem, num filme, onde, pela primeira vez em muito tempo, a principal ameaça não era Lex Luthor nem os cristais de kryptonita. Polarizador de opiniões, o novo conceito continua a ser tão amado quanto odiado. Serviu, ainda assim, o duplo propósito de transpor para o cinema a versão moderna do herói, lançando de caminho as bases para o Universo Estendido DC.

Título original: Man of Steel
Ano: 2013
País: Estados Unidos da América/Reino Unido
Género: Ação/Aventura/Fantasia
Duração: 143 minutos
Realização: Zack Snyder
Argumento: David S. Goyer
Elenco: Henry Cavill (Kal-El/Clark Kent/Super-Homem); Amy Adams (Lois Lane); Michael Shannon (General Zod); Antje Traue (Faora); Russell Crowe (Jor-El); Ayelet Zurer (Lara Lor-Van);Kevin Costner (Jonathan Kent); Diane Lane (Martha Kent) e Laurence Fishburne (Perry White)
Companhias produtoras: Legendary Pictures, Syncopy Films e DC Entertainment
Orçamento: 225 milhões de dólares
Receitas: 668 milhões de dólares
Distribuição: Warner Bros.

Tal como o filme de 1978,
 Man of Steel fez-nos crer que um homem pode voar.

Produção e desenvolvimento: Tomada a decisão de reiniciar a franquia cinematográfica do Super-Homem, em junho de 2008 a Warner Bros. começou a receber propostas de realizadores, argumentistas e de escritores de banda desenhada. Dentre estes últimos, Grant Morrison, Mark Waid e Geoff Jonhs foram os nomes mais sonantes a manifestar vontade de colaborar  no projeto.
Na origem dessa decisão por parte da Warner estivera a fraca prestação de Superman Returns dois anos antes. No entanto, à parte alguns contactos exploratórios com realizadores, o projeto pouco ou nada evoluiu ao longo do ano seguinte.
Até que, em agosto de 2009, uma decisão judicial restituiu 50% dos direitos da origem do Super-Homem à família de Jerry Siegel (que, com Joe Shuster, criara o herói em 1938). Esta deliberação não se revestiu, porém, de efeitos retroativos. Por conseguinte, o tribunal decretou que a Warner Bros. não devia royalties aos familiares de Siegel referentes às películas anteriormente produzidas. Em contrapartida, caso não fosse iniciada até 2011 a rodagem de um filme baseado no Homem de Aço, o clã Siegel poderia processar a Warner pela perda de receitas financeiras decorrente dessa não produção. Cláusula que teve o condão de acelerar o cronograma de um projeto que até aí não atava nem desatava.
Assim, em outubro de 2010, Zack Snyder (Watchmen) foi anunciado como o realizador de uma película que pretendia demarcar-se da franquia iniciada em 1978 com Superman, The Movie e que chegara ao fim em 2006 com Superman Returns. Snyder não foi, contudo, o único cineasta a ser sondado pela Warner, tampouco foi a primeira escolha dos produtores. Antes dele, Darren Aronofsky (Cisne Negro), Matt Reeves (Projeto Cloverfield) e até Ben Affleck (que nesse mesmo ano dirigira The Town) foram outras das hipóteses em cima da mesa.

Zack Snyder, o controverso realizador de Man of Steel.

Já a escolha do argumentista foi mais consensual. Recomendado por Chris Nolan pelo seu estupendo trabalho na trilogia do Cavaleiro das Trevas (2005-12), David S. Goyer assumiu as despesas do enredo. Privilegiando uma narrativa não linear, a história idealizada por Goyer está igualmente impregnada de elementos religiosos que remetem para a mitologia cristã. Muitos críticos viram nela uma alegoria para a Paixão de Cristo. O Super-Homem assume-se, de facto, com um salvador vindo dos céus disposto ao sacrifício supremo em prol da Humanidade. Ademais, no seu diálogo com o Professor Hamilton, o herói revela estar na Terra há 33 anos. Idade que Jesus Cristo teria aquando da sua crucificação.
Escolhido o realizador e a restante equipa, as filmagens arrancaram em agosto de 2011 em Chicago, transferindo-se depois para a Califórnia e, por fim, para Vancouver, no Canadá. Com uma duração inicialmente prevista de dois meses, a rodagem do filme só terminaria, contudo, em fevereiro do ano seguinte. Facto para o qual terá contribuído a recusa de Zack Snyder em filmar em 3D ( por conta das limitações técnicas desse formato), obrigando a uma posterior reconversão do filme.
Numa entrevista concedida à Entertainment Weekly em abril de 2013 (dois meses antes da estreia de Man of Steel), o presidente executivo da Warner, Jeff Robinov, levantou um pouco do véu acerca do filme e da sua importância para o futuro do Universo Estendido DC: "Haverá referências a outros super-heróis que não o Super-Homem porque o filme servirá de precursor de uma franquia mais abrangente. O seu tom obscuro servirá de bitola a futuras produções". Com efeito, quando Zod destrói um satélite em órbita geossincrónica, é possível ler a inscrição Wayne Enterprises, indicando a presença do Batman naquele contexto (ver Sequela).

Duas das referências a Batman em Man of Steel.

Figurino: Man of Steel apresenta um traje do Super-Homem redesenhado por James Acheson e Michael Wilkinson. Notoriamente inspirada no visual contemporâneo do herói, saído de Os Novos 52 (mas também com óbvias influências de Kingdom Come), a vestimenta preserva o esquema cromático e a icónica insígnia peitoral com um S estilizado. Adotando, no entanto, tons menos garridos  do que os tradicionalmente usados na banda desenhada e em anteriores adaptações ao pequeno e ao grande ecrã. Estética moderna que dispensa igualmente o clássico calção encarnado sobre as calças que, até 2011, fora uma das imagens de marca do herói, dentro e fora dos quadradinhos.
Por outro lado, devido ao peso excessivo que um traje real acarretaria, a armadura de combate kryptoniana envergada pelo General Zod no filme foi totalmente gerada com recurso a tecnologia digital. Garantindo dessa forma que a prestação de Michael Shannon não seria prejudicada pela  sua reduzida liberdade de movimentos.


Figurino de Man of Steel versus uniforme de Os Novos 52:
descubram as diferenças.

Enredo: Com o seu núcleo planetário altamente instável em consequência de décadas de mineração intensiva motivada pelo exaurimento dos seus recursos naturais, Krypton enfrenta um cenário de destruição iminente. Indiferente aos dramáticos avisos de Jor-El, um dos maiores cientistas kryptonianos, o Conselho Regente menospreza a ameaça e prima pela inércia.
Quando a situação se torna insustentável, Jor-El sugere uma evacuação em larga escala, a fim de salvar o maior número possível de vidas. Antes, porém, que o plano possa ser posto em marcha, o General Zod, chefe supremo da guilda militar e velho amigo de Jor-El, lidera um golpe de Estado para depor o Conselho antes que seja tarde de mais.
Pressentindo o fatídico destino de Krypton, Jor-El rouba o Códice (dispositivo que armazena o genoma kryptoniano) e infunde-o nas células do seu filho recém-nascido. Kal-El é, de resto, o primeiro bebé em séculos a ser concebido através do método tradicional de procriação, uma vez que os kryptonianos há muito se vinham reproduzindo artificialmente com recurso a câmaras de gestação que também pré-programavam a função social de cada ser nelas gerado.
Após celebrarem brevemente o nascimento do seu único filho, Jor-El e a sua esposa, Lara Lor-Van, concordam em enviá-lo para a Terra a bordo do protótipo da nave espacial projetada em segredo pelo cientista.


Jor-El e Lara: os pais biológicos do Super-Homem.
Ao descobrir o plano de Jor-El, Zod mata o seu velho amigo mas não consegue reaver o Códice. Ordena então a destruição da pequena nave que se eleva nos céus de Krypton, mas as suas forças são entretanto subjugadas pelos militares fiéis ao Conselho.
Levados a tribunal marcial, Zod e o seus subordinados são condenados por sedição e sentenciados ao exílio perpétuo na Zona Fantasma. Para estarrecimento de Lara, Zod tem ainda tempo de jurar que encontrará o filho dela, aonde quer que Jor-El o tenha enviado.
Horas depois, o núcleo de Krypton entra em convulsão, provocando a implosão do planeta. Com as gigantescas ondas de choque a libertarem acidentalmente os prisioneiros da Zona Fantasma que, assim, se convertem nos últimos sobreviventes de uma civilização extinta.
Seguindo as coordenadas programadas por Jor-El, a nave transportando Kal-El aterra nas redondezas de Smallville, uma pequena e pachorrenta cidade do Kansas. Encontrado por Jonathan e Martha Kent, um casal de modestos agricultores sem filhos, o bebé é perfilhado por eles e batizado como Clark Kent.

Jonathan e Martha Kent adotam
 o pequeno órfão vindo das estrelas.
À medida que vai crescendo e as suas extraordinárias habilidades se vão desenvolvendo, Clark é visto como uma aberração pelos seus colegas de escola. Quando a situação ameaça ficar fora de controlo, Jonathan Kent revela ao filho as suas verdadeiras origens, mostrando-lhe em seguida o local onde escondera durante todos aqueles anos o foguete espacial que o trouxera ao nosso mundo.
A pedido de Jonathan, Clark promete manter em segredo a sua origem e poderes. Promessa que cumpre mesmo quando, anos depois, vê o pai ser estraçalhado por um tornado diante dos seus olhos. Consumido pela culpa, Clark embarca numa solitária jornada que o leva a vários pontos do globo. Sempre em busca de um propósito para a sua existência, ele usa identidades falsas para conservar o anonimato mas as suas ações não passam totalmente despercebidas.
Lois Lane, uma veterana jornalista do Daily Planet, é escalada pelo seu editor, Perry White, para investigar a descoberta de uma pretensa nave extraterrestre no Ártico. Fazendo-se passar por um dos operários destacados para o local das escavações, Clark infiltra-se na nave e aciona o computador de bordo, utilizando uma chave deixada por Jor-El no seu foguete. Isso permite-lhe interagir com o holograma que serve de avatar à consciência preservada do seu pai biológico. É, pois, pela voz dele que Clark fica a saber que o seu nome verdadeiro é Kal-El e que é o Último Filho de Krypton, enviado para a Terra para servir de farol à Humanidade e evitar que o nosso planeta sofra destino idêntico ao do seu mundo natal. Sendo, para isso, presenteado com um traje cerimonial kryptoniano ostentando no peito o brasão familiar da Casa de El. Um símbolo de esperança em Krypton.

O reencontro (virtual) de pai e filho na Fortaleza da Solidão.

De repente, porém, o sistema de segurança automatizado da nave é acidentalmente acionado por Lois Lane que seguira furtivamente Clark até ao seu interior. Atingida pelos lasers de uma das sentinelas robóticas, a repórter é salva pelo filho adotivo dos Kents que usa a sua visão de calor para lhe cauterizar o ferimento. Após a partida da jovem, Clark veste pela primeira vez o uniforme de Super-Homem, ensaiando de seguida os primeiros voos no exterior da Fortaleza da Solidão.
Regressada a Metrópolis, Lois procura convencer Perry White a autorizar a publicação do seu artigo expondo a presença na Terra de um alienígena com poderes semidivinos. Em virtude da inconsistência das provas apresentadas, Perry recusa, porém, fazê-lo. Obstinada, Lois decide então rastrear os movimentos do seu misterioso salvador, acabando por localizá-lo em Smallville.
Após um breve encontro junto ao túmulo de Jonathan Kent, durante o qual Clark lhe relata a sua história, Lois compromete-se a guardar segredo sobre a sua existência.

Lois Lane, a intrépida repórter foi
 a primeira a descobrir o segredo de Clark Kent.

À deriva no espaço sideral, Zod e a sua tripulação buscam antigas colónias kryptonianas. Mas depressa concluem que nenhuma delas terá sobrevivido. Depois de terem intercetado uma transmissão de emergência feita a partir da nave encontrada por Clark no Ártico, eles deduzem que o filho de Jor-El deverá estar perto dela e traçam rota para o nosso planeta.
Chegados à órbita terrestre, os renegados kryptonianos emitem uma comunicação à escala global exigindo que Kal-El se renda, sob a ameaça de uma guerra sem quartel contra o mundo que o acolheu.
Determinado em evitar a morte de milhares de vidas inocentes, o Super-Homem resolve entregar-se ao Exército estadunidense que, por sua vez, o entrega a Faora, a lugar-tenente de Zod. Inesperadamente, Lois é também levada para bordo da espaçonave kryptoniana.
Cara a cara com o filho de Jor-El, Zod revela enfim o seu tenebroso plano: transformar a Terra num novo Krypton. Perante a recusa de Kal-El em juntar-se a ele, Zod ordena a Jax-Ur, seu consultor científico, que lhe extraia o Códice. Com o qual o vilão pretende produzir uma nova gesta de colonizadores geneticamente modificados para repovoar a Terra após o extermínio dos humanos.
No último momento, porém, o Super-Homem e Lois Lane conseguem escapar da nave graças à ajuda do holograma de Jor-El. Sem perder tempo, os dois regressam à Terra para avisar o Exército americano das reais  intenções de Zod. Este envia Faora e outro dos seus soldados para recapturar Kal-El. Seguindo-se uma violenta refrega entre o trio de kryptonianos que transformam Smallville num campo de batalha. Com a ajuda dos militares, o Super-Homem consegue levar a melhor, embora saiba estar iminente uma ameaça muito pior.
Furioso, Zod ordena o processo de terraformação. Acionados os gigantesco engenhos estrategicamente posicionados sobre Metrópolis e ao sul do Oceano Índico, a destruição assume proporções bíblicas.
Zod e seus comparsas.

Disposto a imolar-se para salvar o seu mundo adotivo, o Super-Homem consegue, a muito custo, destruir um dos engenhos, sendo o outro devolvido à Zona Fantasma por Lois Lane, graças à chave e às instruções de Jor-El.
Agora o único sobrevivente da armada kryptoniana, Zod jura vingar a morte da sua tripulação, matando o maior número possível de terráqueos. Tentando desesperadamente aplacar a fúria destruidora do seu compatriota, o Super-Homem trava com ele um combate épico nos céus de Metrópolis.
Encurralado numa estação de comboios, Zod recusa render-se e usa a sua visão de calor para tentar incinerar um pequeno grupo de passageiros. Indiferente às súplicas do Super-Homem para que poupe a vida daquelas pessoas, o vilão continua a tentar atingi-las com os seus lasers oculares, obrigando o herói a matá-lo, partindo-lhe o pescoço. Enquanto o cadáver de Zod jaz no chão, o Homem de Aço solta um lancinante grito de angústia que gela a alma de Lois Lane.
Assumindo-se publicamente como o defensor da Humanidade, o Super-Homem inutiliza um satélite usado pelos militares para monitorizá-lo e convence-os a deixarem-no operar de forma independente. Para ter acesso a informação privilegiada, Clark Kent começa, paralelamente, a trabalhar como repórter no Daily Planet. Contando com a cumplicidade de Lois Lane para manter a sua identidade secreta.


Trailer:




Curiosidades:
* Henry Cavill - o primeiro ator não americano a encarnar o Homem de Aço -  recusou recorrer ao consumo de esteroides anabolizantes ou a qualquer tipo de manipulação digital por forma a aumentar artificialmente a sua massa muscular para o papel. Optou, ao invés, por um exigente programa de preparação física nos meses que antecederam o arranque das filmagens. Programa esse que, além de um intenso trabalho de ginásio, incluiu também um rigoroso regime alimentar. Em poucas semanas, Cavill  obteve um teor de gordura corporal de apenas 7%, equivalente ao dos fisiculturistas profissionais durante as competições. O ator britânico recusou igualmente depilar o peito para as cenas em que exibia o seu tronco nu. Justificando essa recusa com a aparência viril dada por John Byrne ao Super-Homem em Man of Steel, arco de histórias que revisitou a origem do herói após Crise nas Infinitas Terras, e que serviu de inspiração ao título e a importantes segmentos da película;

O invejável porte físico
 de Henry Cavill em Man of Steel.

*No decorrer das audições para o protagonista, a equipa de produção pediu a Henry Cavill que vestisse o uniforme usado em tempos por Christopher Reeve. Apesar das cores mais vistosas e do calção vermelho por fora das calças, ninguém se riu ao vê-lo assim vestido. Segundo Zack Snyder, esse foi o momento em que teve a certeza de que Cavill era perfeito para o papel. Importa recordar que, anos antes, ele fora preterido em relação a Brandon Routh em Superman Returns (2006);
*Para enfatizar o virar de página que Man of Steel pretendeu representar na filmografia do Último Filho de Krypton, o icónico tema de abertura de John Williams foi substituído por uma partitura musical composta por Hans Zimmer. Foi a primeira vez, desde 1978, que isso aconteceu;
*Quando Jor-El escapa da sede do Conselho, é visível uma lua semidestruída no céu.Trata-se de Wegthor, um satélite natural de Krypton que, na BD original, foi destruído por uma detonação nuclear operada por Jax-Ur. Cientista renegado condenado à Zona Fantasma que, no filme, é interpretado por Mackenzie Gray (ator que, anos antes, encarnara um clone adulto de Lex Luthor num episódio de Smallville). Conforme também é explicado por Jor-El,a destruição parcial de Wegthor motivou o início da exploração espacial kryptoniana;
* Em Man of Steel, a Fortaleza da Solidão é uma astronave kryptoniana enterrada sob o  gelo do Ártico. Conceito que mistura elementos retirados de várias versões do refúgio do herói nos comics: se, por um lado, a sua localização remete para a Idade da Prata, a ideia de que se trataria de um artefacto abandonado séculos antes por exploradores kryptonianos baseia-se tanto em Adventures of Superman (1989) como em The New 52! (2011);
* O monólogo de Jonathan Kent que serve de pano de fundo ao teaser trailer do filme, é uma reprodução textual das palavras do pai adotivo de Kal-El em Superman: Secret Origin, história escrita em 2010 por Geoff Johns, sendo considerada a origem definitiva do Homem de Aço;
*Na banda desenhada World of Krypton, Zero Negro era o nome da organização terrorista responsável pela destruição de Kandor (antiga capital de Krypton) durante uma revolução pelos direitos dos clones escravizados. No filme, era esse o nome da nave do General Zod;
* Faora Ul, a lugar-tenente de Zod, fora rebatizada de Ursa em Superman (1978) e Superman II (1980), recuperando em Man of Steel o seu nome original. Ironicamente, devido ao sucesso de Ursa, a personagem seria posteriormente incorporada no Universo DC, desprovida de qualquer ligação com Faora. Papel  para o qual foi cogitada Gal Gadot, a atriz que emprestou o corpo à Mulher-Maravilha em Batman versus Superman: Dawn of  Justice (vide texto seguinte). Gadot seria, no entanto, descartada por causa da sua gravidez, recaindo a escolha sobre a germânica Antje Traue;

Ursa e Faora: separadas à nascença.
* Na versão primitiva do argumento, Zod era devolvido pelo Super-Homem à Zona Fantasma. Por insistência de Zack Snyder, a cena final entre ambos foi alterada, culminando com a morte do vilão, que teve o pescoço partido por Kal-El. Ao fazer tábua rasa do solene (e raras vezes violado) juramento do herói de nunca tirar vidas, o cineasta pretendia dessa forma que o episódio fosse um lembrete perpétuo para as ações vindouras do Homem de Aço. O resultado prático desta decisão foi, contudo, uma monumental controvérsia que reverbera até hoje nos recantos do ciberespaço, e que ameaça prologar-se até ao fim dos tempos. Com um sem número de fãs a acusarem Snyder de ter subvertido por completo a essência da personagem que é também um símbolo do que de melhor a Humanidade tem para oferecer;
* A data escolhida para a estreia de Man of Steel (junho de 2013) não foi fruto do acaso: foi nesse mês que, 75 anos antes, o Super-Homem debutara nas páginas de Action Comics nº1.
Super-Homem prestes a matar Zod
 na cena mais polémica de todo o filme.

Prémios e nomeações: Nomeado para diversos prémios nas mais variadas categorias, Man of Steel acabaria, no entanto, por arrebatar apenas três deles: um Golden Trailer Award (Melhor Póster Promocional), um MTV Award (Melhor Herói) e um New Now Next Award (Melhor Filme de Verão 2013).
Sequela: Mercê do estrepitoso sucesso de bilheteira de Homem de Aço, logo nas semanas seguintes à sua estreia mundial, Zack Snyder e David S. Goyer anunciaram os seus planos para a produção de uma sequência direta do filme, bem como de uma longa-metragem baseada na Liga da Justiça. Na edição de 2014 da Comic-Con de San Diego, Snyder confirmou que a sequela traria a inédita reunião de Batman e Super-Homem no grande ecrã.
Já depois de, em agosto de 2013, Ben Affleck  ter sido o escolhido para assumir o duplo papel de Bruce Wayne/Batman, em várias entrevistas Snyder avançou que parte substancial do enredo seria inspirada em The Dark Knight Returns (Batman, O Cavaleiro das Trevas), a aclamada saga saída da pena de Frank Miller em 1986. 
Devido ao compromisso de Goyer com outros projetos, em dezembro de 2013 Chris Terrio foi contratado para reescrever o guião do filme. Quase em simultâneo, foi oficializada a escolha da atriz e ex-Miss Israel Gal Gadot para interpretar a Mulher-Maravilha.
O título oficial da película, por outro lado, só seria revelado em maio de 2014: Batman versus Superman: Dawn of Justice (Batman versus Superman: A Origem da Justiça). Depois de várias alterações na data de estreia, esta foi confirmada para 25 de março de 2016 (EUA), em 2D, 3D e IMAX 3D.


Batman versus Superman: Dawn of Justice chegou este ano aos cinemas de todo o mundo.

Prequela: Após muitos rumores e especulações, em dezembro de 2014 foi confirmada a produção de uma série televisiva cuja trama terá lugar aproximadamente 200 anos antes dos eventos mostrados em Man of Steel. Escrita e coproduzida por David S. Goyer, Krypton deverá ir para o ar ainda este ano no canal SyFy.

Cartaz promocional de Krypton,
a série televisiva que servirá de prequela a Man of Steel.


Veredito: 73%


Precedo este meu parecer a Man of Steel com uma breve declaração de interesses (cuja obrigatoriedade deveria ser imposta aos críticos encartados): conforme certifica o título deste blogue, praticamente desde que deixei de gatinhar que elegi o Super-Homem como minha personagem favorita, cresci com os filmes do herói estrelados pelo insuperável Christopher Reeve, emocionei-me com Superman Returns e não perco uma produção dos Estúdios Marvel. Feita esta importante ressalva prévia, permitam-me então dizer de minha justiça.
Sei bem o que a crítica dita especializada (e de língua afiada) escreveu acerca deste magnífico filme: que é demasiado obscuro e violento, que lhe falta romance, que lhe falta humor e por aí fora. Curiosamente, ao seu predecessor - Superman Returns-  parecia faltar o contrário: cenas de ação e dinâmica narrativa.Sem mencionar o fastio que o romance meloso entre o herói e Lois Lane suscitou na generalidade do público. Circunstancialismos de uma película que, como é sabido, tentou fazer reviver no nosso século a versão clássica do Super-Homem saída diretamente da Idade da Prata dos comics. E que, à conta disso, se tornou num dos mais mal-amados filmes de super-heróis da história da 7ª Arte. Ou seja, muitos dos espíritos refinados que desdenham até hoje do registo realista de Man of Steel também não tinham morrido de amores pela versão romantizada do herói apresentada por Bryan Singer há precisamente uma década. Donde se conclui que, muito provavelmente, a sua implicância passará menos pelos filmes do que pelo herói em si. Fator que explica muito do que se tem dito e escrito sobre as mais recentes aventuras cinematográficas do Homem de Aço.
Quem conhece os meandros do chamado fandom super-heroístico, sabe bem quão menosprezado é o Super-Homem hoje em dia. Personagem à qual costumam ser colados adjetivos como "anacrónico", "chato" e "inútil" (citando apenas os mais lisonjeiros).
Obviamente que não foi a pensar na claque anti-Super-Homem (tampouco nos críticos que, não raro, ignoram os cânones dos super-heróis adaptados a outros meios de comunicação) que Zack Snyder pensou enquanto dirigia Man of Steel. Era nos verdadeiros fãs que ele pensava. Reforçando dessa forma o seu estatuto de filmador de histórias aos quadradinhos, granjeado com os igualmente fabulosos 300 e Watchmen.
Enquanto fã de super-heróis - e do Homem de Aço em particular - estou-lhe deveras grato por isso, visto que o resultado final me encheu as medidas. Desde logo porque se demarcou da estafada receita humorística usada pela concorrência em produções do género. Mas já lá irei.

Man of Steel representa uma nova alvorada
na história cinemática do Super-Homem.
Um dos pontos mais fortes de Man of Steel são, sem sombra de dúvida, as sequências de ação. Primorosamente coreografada e com efeitos visuais simplesmente espetaculares, a batalha final entre o Super-Homem e o General Zod fez vibrar qualquer um. Exceto, claro, os críticos e espectadores de sensibilidade delicada que viram nela um monumento à violência sem sentido. E, possivelmente, uma apologia subliminar da xenofobia, já que temos uma cidade norte-americana semidestruída pela ação de dois alienígenas.
Eu, por outro lado, além de me estar a marimbar para as patetices dos críticos, considero que, nesse quesito específico, Man of Steel bate aos pontos muitas das recentes produções da concorrência. Mas não apenas nesse. Também no que a referências ao material original concerne, este filme é muito mais rico do que algumas das mediocridades saídas dos Estúdios Marvel. Que, como fica mais evidente a cada filme lançado, se limitam a reciclar a mesma fórmula humorística, para gáudio de quem perspetiva os filmes de super-heróis como um subgénero cómico a ser consumido entre mãos-cheias de pipocas em salas de cinema a abarrotar de adolescentes.
Dito de outro modo, se não dispensam graçolas num filme de super-heróis, escusam de ver Man of Steel. Em vez de servir mais do mesmo, a DC tem-se esforçado em criar um estilo próprio, demarcando-se assim do da concorrência. O que não significa que para gostar de um terá de odiar-se o outro. Deixem isso para os pobres de espírito e para os haters (que, no fundo, são a mesmíssima coisa).
Claro que o filme não é perfeito. Nem seria de esperar que o fosse. Afinal, trata-se do primeiro capítulo de uma franquia totalmente nova. Assim, entre as principais falhas a assinalar, destaco o por vezes vertiginoso carrossel de flashbacks que, a espaços, deixam o espectador com a cabeça a andar à roda. Ligeiramente confusa e pouco inovadora, a trama de Man of Steel corresponde, bem vistas as coisas, à mescla dos enredos de Superman e Superman II, devidamente filtrada de dois clichés: Lex Luthor e kryptonita. É pois preciso recuar até 1951 (ano em que estreou Superman and the Mole Men) para encontrarmos um longa-metragem do Homem de Aço que não contasse com a presença de, pelo menos, um desses habitués nas aventuras cinematográficas do herói.
Outro aspeto negativo a salientar é a partitura musical composta por Hans Zimmer. Que, nem por sombras, possui o carisma do icónico tema de abertura que John Williams produziu para os filmes com Christopher Reeve (de quem considero Henry Cavill um digno sucessor). Aqueles que levaram toda uma geração a acreditar que um homem podia voar.Algo em que eu próprio também voltei a acreditar com Man of Steel. Prevendo, por isso, altos voos para o Universo Estendido DC.


    



    
    

sábado, 26 de dezembro de 2015

EM CARTAZ: «SUPER-HOMEM IV - EM BUSCA DA PAZ"





   Qual destes trabalhos parece ser mais difícil para o Super-Homem? Impor a paz mundial ou salvar uma franquia cinematográfica decadente? Apesar de todos os seus poderes e boa vontade, foi neste último que o herói falhou. Marcando assim a saída pouco airosa do ator que o imortalizou e o início de uma longa travessia do deserto que manteve o Homem de Aço arredado do grande ecrã por quase duas décadas.

Título original: Superman IV - The Quest for Peace
Ano: 1987
País: EUA
Género: Ação/Aventura/Fantasia
Duração: 90 minutos
Produção: Menahem Golan e Yoram Globus
Realização: Sidney J. Furie
Argumento: Lawrence Konner, Mark Rosenthal e Christopher Reeve
Distribuição: Warner Bros. e Cannon Films
Elenco: Christopher Reeve (Super-Homem/Clark Kent), Gene Hackman (Lex Luthor), Margot Kidder (Lois Lane), Jackie Cooper (Perry White), Marc McClure (Jimmy Olsen), Jon Cryer (Lenny Luthor),Sam Wanamaker (David Warfield), Mariel Hemingway (Lacy Warfield) e Mark Pillow (Homem-Nuclear)
Orçamento: 17 milhões de dólares
Receitas: 36,7 milhões de dólares

Herói global, sem deixar de ser um ícone americano.

Desenvolvimento: Em 1983, na esteira dos dececionantes resultados de crítica e de bilheteira obtidos por Superman III, Christopher Reeve e os produtores Alexander e Ilya Salkind concordaram não haver futuro para a franquia. Três anos depois - em consequência do fracasso de Supergirl (1984) - os Salkind venderam os direitos da saga à Cannon Films. 
    A braços na altura com graves problemas de tesouraria, os mandachuvas da Cannon viram nesse negócio a  tábua de salvação do estúdio. Convictos de que poderiam dar um novo impulso à franquia do Homem de Aço, avançaram para a produção de um quarto filme. Não concebiam, no entanto, o projeto sem a participação das principais estrelas do elenco dos seus predecessores. Que, com maior ou menor relutância, lá acederam a assinar contrato. Christopher Reeve foi mesmo o mais difícil de convencer. E só aceitou repetir o papel que o imortalizou junto do grande público a troco de financiamento da Cannon para Street Smart, película de que seria cabeça de cartaz um par de anos depois. Como bónus adicional, o ator foi convidado a acumular as funções de coargumentista da nova aventura cinematográfica do herói que tão bem conhecia.
  Dispondo de um orçamento que ascendia inicialmente a 36 milhões de dólares, a produção pareceu enguiçada desde o começo. Os primeiros problemas surgiram logo na hora de escolher o respetivo realizador. Richard Donner, que dirigira Superman  e parte  substancial de Superman II antes de ser descartado, foi o primeiro a ser sondado. Declinou, no entanto, o convite que lhe foi endereçado por Golan e Globus.
   Seguiu-se então uma abordagem a Richard Lester, o substituto de Donner que assumira a direção de Superman II e Superman III. Porém, a sua resposta foi tirada a papel químico daquela que fora dada pelo seu antecessor. Ou seja, uma rotunda nega.
  Após estas duas tentativas falhadas, a Cannon conseguiu assegurar os serviços de Wes Craven. No entanto, o mestre do cinema de terror, celebrizado por filmes como Pesadelo em Elm Street, mal teve tempo para aquecer a cadeira de realizador. Devido a divergências criativas com Christopher Reeve, Craven acabaria afastado do projeto sem apelo nem agravo.
  A escolha final recairia, assim, sobre o canadiano Sidney J. Furie. Veterano da 7ª arte com uma filmografia extensa e diversificada, tivera o ponto mais alto da sua carreira como realizador em 1966. Ano em que arrebatou um Bafta (homólogos britânicos dos Óscares) na categoria de melhor filme a cores.

Sidney J. Furie (esq.) e Christopher Reeve durante uma pausa nas filmagens.

  Consensualizado o nome do realizador, foi definido o cronograma da produção. No entanto, em vésperas do arranque das filmagens, novo balde de água fria lançado sobre a equipa. Enfrentando cada vez mais sérios problemas de liquidez, a Cannon anunciou a redução do orçamento do projeto para menos de metade (17 milhões de dólares). 
   Em virtude destas severas restrições orçamentais, à produção não restou outro remédio senão cortar nas despesas. Mesmo naquelas que, à partida, deveriam ser intocáveis num projeto do género. Com efeito, uma das medidas mais drásticas - e desastrosas para o resultado final - consistiu na reutilização de efeitos especiais. Sobrevindo ainda a falta de verba para custear filmagens em Nova Iorque, cidade escolhida nos anteriores capítulos da saga para fazer as vezes de Metrópolis.
 Na sua autobiografia publicada em 1999, Christopher Reeve descrevia assim os incontáveis constrangimentos colocados à produção de Superman IV - The Quest for Peace: "Fomos afetados por cortes orçamentais em todos os departamentos. A Cannon tinha na altura aproximadamente trinta projetos em carteira e não reservou qualquer tratamento especial ao nosso.Uma das situações mais caricatas de que me recordo foi quando tivemos de filmar a cena em que o Super-Homem aterra na rua adjacente à sede da ONU, em Nova Iorque. Se houvesse uma cena similar num dos primeiros filmes da saga, ela teria sido gravada no próprio local. Richard Donner teria coreografado centenas de transeuntes e de veículos a circularem, assim como curiosos que assomariam às janelas dos edifícios circundantes para observar o desfile triunfal do herói. Em vez disso, tivemos de rodar a cena em causa num parque industrial na Inglaterra, sob chuva intensa e dispondo apenas de um punhado de figurantes. Para recriar vagamente a atmosfera nova-iorquina, alguém se lembrou de postar um vendedor ambulante de cachorros-quentes com o seu pitoresco carrinho,emoldurados ambos por uns quantos pombos a cirandar pela calçada. Mesmo que a história tivesse sido brilhante, duvido que, dadas as circunstâncias que envolveram a produção, o filme tivesse correspondido às expectativas dos fãs.


Uma das sequências reutilizadas em diversos momentos da película.

   Corroborando esta análise, Jon Cryer contou em entrevista um episódio ocorrido ainda durante a rodagem do filme. De acordo com o ator que representou o desmiolado sobrinho de Lex Luthor, certa vez Christopher Reeve puxou-o para um canto e disse-lhe: "Isto vai ser um desastre total!". Apesar de ter gostado de contracenar com Reeve e Gene Hackman, Cryer sustentava na referida entrevista que, em consequência da falta de verba do estúdio, foi uma película remendada e inacabada aquela que chegou às salas de cinema.
 Outras revelações surpreendentes foram feitas em 2006 por Mark Rosenthal, um dos autores da trama de Superman IV- The Quest for Peace. No seu comentário incluído no DVD do filme, chamou a atenção para a galeria de cenas cortadas. Segundo Rosenthal, esta continha sequências inéditas que, no total, perfariam aproximadamente 85 minutos. Material não utilizado que os responsáveis do projeto esperavam poder servir de base a um quinto capítulo da saga. 
  Numas dessas cenas cortadas, Clark Kent visitava os túmulos dos pais adotivos antes do seu encontro com o empreiteiro a quem tinha a esperança de vender ou arrendar a quinta da família. Noutra, o Super-Homem levava o pequeno Jeremy num passeio orbital, a fim de lhe mostrar que o mundo é realmente o lar de toda a Humanidade. À semelhança, porém, de uma sequência idêntica tendo como intervenientes Lacy Warfield e o Homem-Nuclear, Jeremy não usava qualquer fato protetor nesta sua excursão espacial. Apenas um dos muitos erros grosseiros detetados na montagem do filme. E que ilustram bem o amadorismo que ressumbrava de toda a produção.




Quem precisa de oxígénio para sobreviver no vácuo sideral quando se tem o Super-Homem por perto?

Enredo: Na órbita terrestre, uma equipa de cosmonautas soviéticos é salva pelo Super-Homem depois da sua nave ter sido atingida por detritos espaciais. Feito o resgate, Clark Kent visita Smallville, a pequena cidade do Kansas onde cresceu. Agora que os seus pais adotivos morreram, ele herdou a quinta da família outrora vibrante de vida.
  Num celeiro vazio, Clark esconde a cápsula que o trouxe para o nosso planeta, retirando do seu interior um módulo energético com a forma de um cristal luminescente de cor verde. Este contém uma gravação áudio com a voz de Lara. A mãe biológica do herói adverte-o de que o poder do artefacto apenas poderá ser utilizado uma vez. Renitente em vender a propriedade dos Kents a um empreiteiro com planos para convertê-la num centro comercial, Clark regressa a Metrópolis sem concluir o negócio.
 Chegado ao Planeta Diário, Clark e os restantes repórteres são convocados para uma reunião, na qual são informados da situação de insolvência em que se encontra o jornal. Que é agora propriedade do magnata David Warfield. Este, depois de demitir Perry White, nomeia a própria filha, Lacy, para o cargo de diretora interina. Mas as surpresas não se ficam por aí.
 Apesar da sua timidez superlativa, Clark cai nas boas graças da estonteante Lacy, que não se furta a esforços para seduzi-lo. Após muita insistência da parte da sua nova chefe - e com muito encorajamento de Lois Lane à mistura - o pacato jornalista lá concorda em participar num encontro a quatro com as duas mulheres e o seu alter ego heroico. Encontro esse marcado por todo o tipo de peripécias, com Clark e o Super-Homem a revezarem-se, sem que nenhuma das participantes femininas suspeite do que quer que seja.
   É anunciado entretanto o falhanço de uma cimeira ao mais alto nível entre os EUA e  a URSS. Resultando daí uma nova corrida armamentista e uma escalada de tensão entre as duas superpotências. Com o espectro de uma guerra nuclear a pairar sobre o mundo, Clark questiona-se sobre o papel que o Super-Homem deverá ter na crise.
  Dias depois, chega à redação do Planeta Diário uma angustiada missiva endereçada ao Homem de Aço. O remetente é  um menino chamado Jeremy que escolheu essa via para manifestar a sua preocupação relativamente ao destino da Humanidade. A mensagem termina com um pungente apelo à ajuda do Super-Homem para evitar que o pior aconteça. Sensibilizado pelas palavras da criança, Clark voa até à sua Fortaleza da Solidão, no Ártico, em busca de aconselhamento.
  Questionando Lara e os anciões kryptonianos sobre qual a melhor medida a tomar, Kal-El obtém como resposta um lembrete da sua interdição de interferir no curso da História humana. Sendo-lhe igualmente sugerido que, em derradeira instância, troque a Terra por um planeta onde a guerra faça parte de um passado longínquo.

A braços com um dilema, o Homem de Aço procura aconselhamento junto dos seus ancestrais.

  De volta a Metrópolis, o Homem de Aço procura Lois Lane, a quem também pede conselhos sobre qual a melhor decisão a tomar. Depois de ela lhe dizer que confiará no seu julgamento, o herói apresenta-se perante a Assembleia-Geral das Nações Unidas. Num discurso emotivo, anuncia a sua intenção de destruir todos os arsenais nucleares existentes, para assim evitar que a Terra sofra destino igual ao do seu mundo natal. Decisão entusiasticamente aplaudida pelos delegados e pelo público nas galerias, onde também se encontram  Lois e o pequeno Jeremy.
   Cumprindo a vontade do herói, nos dias seguintes vários países disparam ogivas nucleares para a órbita terrestre, sendo as mesmas prontamente recolhidas pelo Super-Homem. Depois de acondicioná-las numa gigantesca rede, O Último Filho de Krypton arremessa-as em direção ao Sol, garantindo dessa forma a sua destruição.
 Enquanto isso, Lenny Luthor, o desmiolado sobrinho de Lex Luthor, consegue libertar o tio do campo de trabalhos forçados onde este cumpria a sua longa pena. Reinstalado em Metrópolis, o arqui-inimigo do Super-Homem reúne-se na sua luxuosa cobertura com um triunvirato internacional de traficantes de armas. Exasperados com os prejuízos que a nova empreitada do Homem de Aço lhes está a causar, os homens contratam Luthor para liquidar o herói.
  Sem delongas, o diabólico plano de Luthor é posto em marcha. Disfarçados de turistas, ele e Lenny visitam o Museu do Super-Homem. Aproveitando o ensejo para surripiar um fio de cabelo do herói que estava em exposição. A ideia é usá-lo como matriz genética para a criação de uma duplicata superpoderosa do Homem de Aço. Precisando, para isso, de  lançar a amostra de ADN no Sol, já que é do astro-rei que ele extrai a sua força.
 Agora disfarçado de militar de alta patente, Luthor consegue infiltrar-se numa operação de lançamento de uma ogiva nuclear norte-americana. Quando o míssil disparado atinge a órbita da Terra, é prontamente intercetado pelo Super-Homem. Enquanto o arremessa em direção ao Sol, o herói nem imagina que no seu interior segue a matriz genética concebida por Luthor.
  Quando a detonação ocorre, dá-se um prodigioso fenómeno. Envolto numa pulsante bola de energia, um vulto ganha forma até se transformar no Homem-Nuclear. Voando ao encontro do "pai" em Metrópolis, o poderoso ser é instruído por Luthor a matar o Super-Homem.

Luthor radiante com o seu menino de ouro.
   A violenta refrega entre o Homem de Aço e a criatura levam-nos até aos céus de Nova Iorque. Enquanto tenta impedir que a Estátua da Liberdade esmague a multidão abaixo, o Super-Homem é arranhado pelas garras do seu adversário. Ficando dessa forma infetado pela radiação que emana do Homem-Nuclear. Este, tirando proveito da fraqueza e desnorte do herói, golpeia-o com tanta força que o projeta a grande distância. No final, tudo o que parece restar do Super-Homem é a sua capa drapejante que flutua vagarosamente até ao solo.
   Agora reciclado num tabloide sensacionalista, o Planeta Diário chega às bancas com a manchete Super-Homem Morto?. Revoltada com a abordagem mórbida do jornal ao desaparecimento do seu amado, Lois Lane apresenta o seu pedido de demissão após reclamar para si a posse da capa do herói. Determinada, ela visita de seguida um enfermo Clark Kent, refugiado há dias no seu apartamento. No decurso da conversa entre ambos, Lois proclama o seu amor incondicional ao Super-Homem. Ganhando renovado alento, após a saída de Lois Clark usa o cristal kryptoniano que removera da sua nave para se curar e restaurar os seus superpoderes.
   Enquanto isso, um enfurecido Homem-Nuclear provoca um pandemónio no coração da cidade enquanto exige que tragam à sua presença Lacy Warfield, por quem desenvolveu uma estranha obsessão, Completamente restabelecido, o Super-Homem entra em cena e convence o vilão a segui-lo até ao local onde supostamente a jovem se encontra à sua espera. Em vez disso, o Homem de Aço consegue empurrar o seu antagonista para dentro de um elevador, que se apressa a transportar até à face oculta da Lua.
 Privado da radiação solar, o Homem-Nuclear tem os seus poderes desativados. No entanto, à medida que a luz do astro-rei começa a varrer a superfície do satélite, penetra também no interior do elevador através de pequenas brechas na porta do mesmo. Recuperando a sua pujança, o Homem-Nuclear liberta-se da sua cela improvisada e ataca furiosamente o Super-Homem.

O Homem de Aço prestes a sentir o peso da derrota.
   Novamente sobrepujado, o herói krptoniano é enterrado vivo na superfície lunar pelo seu adversário. Que, sem perda de tempo, voa a supervelocidade até à redação do Planeta Diário para raptar uma apavorada Lacy Warfield.
    Na Lua, o Super-Homem consegue emergir da sua sepultura e usa toda a sua força para deslocar o corpo celeste para fora da sua órbita, objetivando causar um eclipse solar. Fenómeno que anula de imediato os poderes do Homem-Nuclear.
    Após resgatar Lacy, o herói deposita o corpo inerte do vilão no interior da chaminé de uma usina nuclear, pondo assim um ponto final à sua breve existência. Em consequência disso, a rede elétrica nacional regista um súbito pico energético.
   No Planeta Diário, Perry White anuncia a obtenção de um empréstimo que lhe permitiu reaver a sua posição de acionista maioritário, libertando assim o jornal do controlo dos Warfields.
  Numa conferência de imprensa, o Super-Homem declara que os seus desígnios foram apenas parcialmente bem-sucedidos. Encerrando a sua preleção com uma citação atribuída a Winston Churchill: "Haverá paz quando os povos do mundo a desejarem com tal ardor que os seus governantes não poderão negar-lha."
  Devolvendo Luthor à prisão, o Homem de Aço tem ainda tempo para deixar Lenny num reformatório antes de partir para o seu tradicional voo orbital.

Trailer:




Prémios e nomeações: Previsivelmente, este derradeiro capítulo da quadrilogia do Homem de Aço estrelada por Christopher Reeve foi arrasado sem dó nem piedade pela crítica. As duas únicas nomeações que recebeu foram para os Golden Raspberry Awards (prémios que distinguem o que de pior se faz em matéria de cinema), nas categorias de Pior Atriz Secundária (Mariel Hemingway, no papel de Lacy Warfield) e Piores Efeitos Especiais. Sem que, contudo, nenhuma dessas nomeações se traduzisse na atribuição do indesejado galardão. Daryl Hannah, pela sua prestação em Wall Street, e Tubarão IV- A Vingança foram os piores entre os piores nas categorias indicadas.

Mariel Hemingway como Lacy Warfield, papel de que a atriz decerto não se orgulhará.
Curiosidades:

* Segundo Margot Kidder, ela e Christopher Reeve não se falavam fora do set de filmagens. Ainda de acordo com a atriz, a relação pessoal e profissional entre ambos (recorde-se que o casal contracenou nos quatro filmes da saga), deteriorou-se devido ao ego insuflado de Reeve que, desta vez, acumulava as funções de coargumentista. Não obstante, Reeve arrepender-se-ia publicamente da sua participação no projeto, que considerava ter sido uma nódoa na sua filmografia;
*Mark Pillow teve em Homem-Nuclear o seu primeiro e único papel cinematográfico. O vilão - que originalmente estava previsto ter um gémeo - dispôs apenas de onze linhas em todo o filme. O Homem-Nuclear (Nuclear Man, em inglês) trata-se, com efeito, de uma versão moderna de Atom Man, personagem que apareceu pela primeira vez em 1950 no folhetim cinematográfico Atom Man versus Superman, estrelado por Kirk Alyn;

O visual primitivo do Homem-Nuclear.
*Em finais de 1987, a DC Comics lançou a quadrinização oficial de Superman IV-The Quest for Peace. A história, escrita por Bob Rozakis e com arte de Curt Swan, incorporava algumas das cenas cortadas do filme.Numa delas, era retratado o confronto do Super-Homem com um protótipo do Homem-Nuclear, cuja fisionomia fazia lembrar Bizarro (ver prontuário do vilão já publicado neste blogue). Também alguns dos diálogos originais foram alterados, assim como algumas das sequências. Exemplo disso foi a substituição da voz de Lara por uma projeção holográfica de Jor-El na cena em que Clark regressa à Fortaleza da Solidão em busca de um misterioso cristal;

Superman IV:  do cinema para os quadradinhos.
* No filme, o Super-Homem exibe poderes nunca vistos na BD. Manifestando supostas habilidades telecinéticas - já presentes em Superman II - o herói reconstrói parte da Grande Muralha da China com umas misteriosas rajadas óticas. Apesar das dúvidas e especulações suscitadas por esta circunstância, a explicação é do mais prosaico que há. Originalmente, o Homem de Aço reconstruiria manualmente a muralha usando a sua supervelocidade. Cena que obrigaria ao emprego de uma panóplia de efeitos especiais dispendiosos. Dada a falta de verba, a solução passou então pelo famoso "golpe de vista" do herói;
* Em momento algum do filme é feita qualquer referência a Supergirl (1984), spin-off produzido entre Superman III e Superman IV;
* Os 90 minutos de duração de Superman IV- The Quest for Peace fazem dele a segunda fita mais curta da filmografia do Homem de Aço. O primeiro lugar do pódio é ocupado por Superman and the Mole Man (1951), com apenas 58 minutos;
* Julgando ter um blockbuster entre mãos, a Cannon Films ordenou a redução da duração da película por forma a aumentar o número de exibições diárias nos cinemas. As receitas de bilheteira acabariam, contudo, por ficar muito abaixo do esperado;
* Superman IV - The Quest for Peace marcou a pouco airosa despedida de Christopher Reeve na interpretação do herói kryptoniano e o início de um longo exílio cinematográfico do Homem de Aço. Foi preciso esperar 19 anos para testemunhar o regresso do Super-Homem ao grande ecrã. Quinto e último capítulo da franquia, Superman Returns (2006) assumiu-se, porém, como uma sequela direta dos dois primeiros filmes. Fazendo, portanto, tábua rasa dos eventos narrados em Superman III e Superman IV.

Choque de titãs tendo o espectador como vencido antecipado.
Veredito: 30%


   Mesmo tendo sido este um dos filmes com super-heróis que mais marcou a minha infância e pré-adolescência (muito antes da industrialização do género empreendida pelos estúdios Marvel neste século), não há como fugir à inescapável verdade de que Super-Homem IV - Em Busca da Paz foi um fiasco a vários níveis.  
  Fracassou desde logo na intenção de reabilitar uma franquia deixada pelas ruas da amargura após a inusitada abordagem humorística levada a cabo por Richard Lester em Super-Homem III. Apesar da tentativa de restauração da idoneidade do herói, conferindo-lhe o estatuto de protetor global, o enredo, com mais buracos do que um queijo suíço,  acaba por ser inadvertidamente cómico. Surtindo, portanto, um efeito contrário ao desejado. 
  Bem vistas as coisas, a maior ameaça apresentada ao herói na história não é o Homem-Nuclear (que apesar de fazer lembrar um surfista viciado em esteroides, é, ainda assim, menos ridículo do que a sua versão primitiva), mas sim uma gripe(!). Risível, por isso, a cena em que um Clark Kent febril e fungoso recebe a visita de Lois Lane em sua casa, pejada de lenços de papel usados. Sem mencionar as muitas gafes que é possível sinalizar ao longo do filme, como o absurdo passeio orbital de Lacy Warfield, vestida como se de uma ida ao teatro se tratasse.
  Levando em conta os constrangimentos financeiros e de ordem técnica que marcaram a produção, dificilmente o resultado final poderia ter sido diferente. Pressentindo o desastre, o elenco evidencia pouco brio profissional e até Christopher Reeve (acometido de tiques de vedetismo) mal consegue disfarçar o seu cansaço em relação ao papel que, nove anos antes, o catapultara para o estrelato. Um verdadeiro frete para atores mal dirigidos por um realizador incompetente, cuja inépcia não é totalmente camuflada por uma trama inconsistente e por efeitos especiais de quinta categoria. Fatores que colocam Super-Homem IV- Em Busca da Paz no limiar da série B.
  Pouco de positivo haverá, de facto, a destacar neste filme tóxico, espécie de Batman & Robin da franquia do Homem de Aço. Exceção feita ao imortal tema musical de John Williams que o acompanha na despedida. Fim desonroso para uma saga cujos dois primeiros capítulos figuram ainda hoje entre o que de melhor já foi feito dentro do género super-heroico.