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quinta-feira, 3 de maio de 2018

RETROSPETIVA: «SUPERGIRL»


  Primeira super-heroína adaptada ao cinema, à Rapariga de Aço exigiu-se que, de um fôlego, salvasse o último vestígio de Krypton e a decadente franquia herdada do primo. Apenas uma dessas hercúleas missões foi, porém, coroada de êxito num filme em que, pela sua frescura e talento, a protagonista foi a única aposta ganha.
  
Título original: Supergirl
Ano: 1984
País: Reino Unido
Duração: 105 minutos (versão norte-americana) / 124 minutos (versão internacional)
Género: Ação/Aventura/Ficção científica
Produção: Timothy Burrill e Ilya Salkind
Realização: Jeannot Szwarc 
Argumento: David Odell 
Distribuição: TriStar Pictures (Reino Unido) / Columbia-EMI-Warner (EUA)
Elenco: Helen Slater (Kara Zor-El/Linda Lee/Supergirl); Faye Dunaway (Selena); Peter O'Toole (Zaltar); Hart Bochner (Ethan); Mia Farrow (Alura In-Ze); Brenda Vaccaro (Bianca); Peter Cook (Nigel); Simon Ward (Zor-El); Marc McClure (Jimmy Olsen) e Maureen Teefy (Lucy Lane)
Orçamento: 35 milhões de dólares
Receitas (EUA): 14,3 milhões de dólares

Anatomia de um clássico fracassado

Quando, a meio da década de 1970, os produtores Alexander e Ilya Salkind negociaram a aquisição dos direitos de adaptação do Superman ao cinema, acharam prudente incluir os da Supergirl no pacote. Com a visão que fez deles marajás de Hollywood, os Salkinds acautelaram dessa forma a possibilidade de alguma sequela ou spin-off vir a ser realizado.
Em virtude das reações negativas da crítica e do dececionante desempenho comercial de Superman III em 1983, no ano seguinte os Salkinds resolveram apostar numa longa-metragem protagonizada pela prima do Homem de Aço. A ideia seria refrescar uma franquia que começava a evidenciar sinais de decadência.
Apesar da ligação familiar entre as duas personagens, os produtores consideravam que o novo projeto exploraria uma área totalmente diversa daquela que estivera na base da até aí bem-sucedida saga cinematográfica do Último Filho de Krypton.

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Ilya (esq.) e Alexander Salkind.
Os produtores da Super-franquia são pai e filho.
Richard Lester, que dirigira Superman III e fora chamado a completar Superman II após a demissão de Richard Donner, foi o primeiro realizador a ser sondado pelos Salkinds. Perante o desinteresse de Lester em associar-se ao projeto, os produtores estudaram várias alternativas, acabando a escolha final por recair em Jeannot Szwark.
Com uma carreira construída essencialmente no pequeno ecrã, o cineasta gaulês fora recomendado pelo próprio Christopher Reeve que, em 1980, trabalhara às suas ordens no filme Somewhere in Time (Algures no Tempo).
A banda sonora, essa, teve a assinatura do veterano Jerry Goldsmith, que fez questão de homenagear algumas das memoráveis partituras compostas por John Williams para os dois primeiros filmes do Superman.

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Jeannot Szwark foi o eleito para dirigir
 a primeira longa-metragem
 protagonizada por uma super-heroína.
Assim, dentre um lote de oito anónimas finalistas, a eleita seria a novata Helen Slater. À data com 19 anos, Slater participara apenas num episódio especial da série televisiva ABC Afterschool e nunca antes fizera cinema. O seu papel como Supergirl marcaria, portanto, a sua estreia absoluta no grande ecrã.
Centenas de atrizes foram, entretanto, testadas para o papel principal, com destaque para Brooke Shields (a ninfeta de Lagoa Azul) e Melanie Griffith que, aos 26 anos, contava já com vários filmes de sucesso no currículo. Apesar de a primeira ser a favorita de Alexander Salkind, Ilya e Szwark preferiram apostar numa ilustre desconhecida, mantendo-se fiéis à mesma política que levara à descoberta de Christopher Reeve durante as audições para Superman.
Nos primeiros testes de ecrã que realizou, Helen Slater usou um figurino em tudo semelhante ao uniforme que, por aqueles dias, a Supergirl usava na banda desenhada. Refletindo o estilo dos anos 80, o modelo em causa incluía, por exemplo, uma fita de cabelo vermelha.
Dada a natureza datada desse visual, os produtores acabaram por descartá-lo, optando antes por um  de linhas mais modernas. E, sem o saberem, forneceram a inspiração para a indumentária de Matriz, a Supergirl genérica inserida em 1988 na continuidade da DC após a morte da original em Crise nas Infinitas Terras.

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De cima para  baixo:
O uniforme da Supergirl na BD no início dos anos 80.
Helen Slater testa um protótipo nele baseado.
O figurino oficial.
O visual de Matriz.

Como beleza e talento na representação não bastam quando toca a emprestar corpo a um super-herói (ou, no caso, a uma super-heroína), Helen Slater teve de submeter-se a um rigoroso programa de treino ministrado por Alf Joint, o mesmo preparador físico que, meia dúzia de anos antes, transformara o franzino Christopher Reeve no Homem de Aço.
Christopher Reeve que, de resto, declinou o convite para participar no filme da Supergirl. Presença que, segundo admitiria o próprio Jeannot Szwark, teria contribuído para uma maior visibilidade e credibilidade da produção.
Definido o restante elenco (no qual pontificavam a oscarizada Faye Dunaway e outros astros de primeira grandeza como Peter O'Toole), as filmagens decorreram quase exclusivamente nos londrinos Pinewood Studios, prolongando-se por todo o verão de 1983.
Ainda que a película tenha sido financiada na íntegra pelos Salkinds, a Warner Bros, detentora dos respetivos direitos de distribuição, teve uma palavra a dizer. Com efeito, da rodagem à edição tudo foi feito sob a apertada supervisão da gigante de entretenimento proprietária da DC Comics.

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Faye Dunaway e Helen Slater.: a diva e a debutante.
No entanto, apenas duas semanas antes da estreia de Supergirl (inicialmente programada para julho de 1984, o que só viria a acontecer no Reino Unido e Japão), a Warner Bros. desligou-se da produção devido à prestação insatisfatória de Superman III e ao diferendo com os Salkinds acerca da data de lançamento.
Nos meses seguintes o filme ficou a aboborar numa qualquer prateleira até que a TriStar Picutres se propôs lançá-lo em novembro. Por ser esse o mês em que se celebra o Dia de Ação de Graças, um dos mais importantes feriados do calendário litúrgico norte-americano, fora sempre essa a data preferida dos Salkinds.
A TriStar impôs, contudo, como condição uma nova edição do filme. Totalmente arbitrários, os cortes levados a cabo resultaram num encolhimento da respetiva duração (de 124 minutos passou para 105 minutos) em prejuízo das interpretações de Helen Slater e Faye Dunaway.
Algumas das cenas eliminadas - que, durante largos anos, permaneceram inéditas nos EUA -  continham momentos e diálogos importantes quer para a caracterização das protagonistas quer para o desenrolar da trama.
Um bom exemplo foi o da sequência conhecida como "O Ballet Voador", por sinal uma das mais magistralmente coreografadas de todo o filme.
Ao chegar ao nosso planeta, Kara fica surpreendida ao descobrir ser capaz de fazer praticamente qualquer coisa, incluindo voar. A cena em questão serviria para demonstrar que, além do legado nominal, os seus poderes eram similares aos do Superman. Ora nada disso foi visto pelos espectadores norte-americanos, originando alguma confusão entre os menos versados na mitologia do Homem de Aço.
Também as cenas ambientadas na Zona Fantasma eram originalmente mais longas e dramáticas. Numa delas, a heroína dava provas de grande altruísmo ao  expressar a sua vontade de imolar a própria vida para pôr fim ao reinado sombrio de Selena.
Antes de serem restauradas na primeira edição em DVD (2000), muitas das cenas cortadas haviam já sido incluídas na adaptação oficial de Supergirl aos quadradinhos lançada em 1985 pela DC Comics - e publicada nesse mesmo ano pela Abril em Terras Tupiniquins .

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A adaptação oficial de Supergirl
aos quadradinhos
 incluía a versão estendida do filme.
Foi, no entanto, uma versão amputada(para não dizer vandalizada) da película aquela que chegou aos cinemas americanos em novembro de 1984. Apesar de Supergirl ter liderado o box office no seu fim de semana de estreia, (arrecadando uns razoáveis 8,4 milhões de dólares), as receitas de bilheteira cairiam a pique nas semanas seguintes, convertendo-o no capítulo menos rentável de toda a Super-franquia.
Somadas ao fraco desempenho comercial, as críticas soezes que, de forma desapiedada, fustigaram o filme durante as nove semanas em que se manteve em cartaz, surtiram efeito idêntico ao da exposição prolongada à kryptonita, ditando a morte prematura de Supergirl.
Mercê de todas as vicissitudes acima descritas, a primeira aventura da Rapariga de Aço no cinema seria também a última. Caindo assim por terra o sonho dos Salkinds de iniciarem uma nova franquia que se queria tão lucrativa como havia sido a do Homem de Aço.

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Um dos mais icónicos  posteres promocionais do filme.
Sinopse

A fruir dos últimos dias de uma adolescência despreocupada, Kara Zor-El vive com os pais, Zor-El e Alura, em Argo City, uma colónia perdida que sobreviveu à destruição de Krypton.
Encravada num recesso do espaço inter-dimensional, Argo City tem como principal fonte de energia o Omegahedron. Essa pequena esfera pulsante, fruto da mais avançada tecnologia kryptoniana, consegue, entre outras coisas, manipular matéria a nível molecular e gerar energia ilimitada.
Um belo dia, Zaltar, o precetor de Kara, mostra-lhe o Omegahedron, que havia requisitado sem o consentimento do conselho governativo da cidade. Quando um pequeno construto voador criado por Kara se descontrola e abre um buraco na redoma que protege Argo City, o Omegahedron é sugado pelo vácuo espacial.
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Zaltar mostra a Kara o potencial do Omegahedron.
Ciente de que, sem o Omegahedron, Argo City estará sentenciada a uma morte agonizante, Kara, para grande aflição dos seus pais, voluntaria-se para recuperá-lo. Para isso, terá de viajar através do espaço inter-dimensional a bordo do paraquedas binário projetado por Zaltar.
Durante a sua vertiginosa jornada até à Terra, Kara transforma-se na Supergirl e fica maravilhada com os formidáveis poderes que lhe são concedidos pelo nosso sol amarelo.
O Omegahedron foi, entretanto, encontrado por Selena, uma bruxa sedenta de poder e ansiosa por libertar-se da influência de Nigel, um feiticeiro dos tempos modernos de quem é, simultaneamente, discípula e concubina.
Mesmo sem saber do que se trata, ou qual a origem do Omegahedron, Selena intui o seu imenso poder e depressa descobre que ele lhe permite conjurar feitiços verdadeiramente eficazes.
Longe dali, a Supergirl segue no encalço do Omegahedron. Após ter escapado a uma tentativa de violação por parte de dois camionistas, a jovem toma consciência dos perigos de um mundo que não é o seu e resolve agir disfarçada.
Apresentando-se como prima de Clark Kent (alter ego do Superman), Kara assume a identidade de Linda Lee e matricula-se no colégio feminino de Midvale. É lá que trava amizade com Lucy Lane, a irmã mais nova de Lois Lane, de quem herdou o espírito irrequieto e aventureiro.
Enquanto se tenta integrar com a ajuda de Lucy e do seu namorado, Jimmy Olsen, Linda conhece também Ethan, o apolíneo zelador da escola por quem de pronto se enamora.

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Linda Lee e Lucy Lane tornam-se amigas inseparáveis.
Sem o saber, Ethan captou também a atenção de Selena, a agora autoproclamada "Princesa da Terra". Resoluta em fazer dele seu consorte, a vilã droga Ethan com uma poção do amor que o fará apaixonar-se pela primeira pessoa que vir quando voltar a si.
Para azar de Selena, Ethan recobra a consciência quando ela está ausente e, após escapulir-se do covil da bruxa, vagueia sem rumo pelas ruas da cidade.
Furiosa, Selena faz uso dos seus recém-adquiridos poderes mágicos para animar uma escavadora com a qual pretende recapturar o seu objeto de desejo. À sua passagem o veículo desgovernado deixa um rasto de destruição obrigando à intervenção da Supergirl.
Quando a ameaça é por fim debelada, a Rapariga de Aço, já sob o disfarce de Linda Lee, resgata Ethan que, assim, se perde de amores por ela, passando a cortejá-la de todas as formas possíveis e imagináveis.
Culminado uma série de ferozes recontros entre ambas, Selena usa o Omegahedron para lançar a Supergirl na Zona Fantasma, o purgatório onde, outrora, eram aprisionados os piores criminosos de Krypton. Privada dos seus poderes, a heroína perambula pela paisagem desolada e quase se afoga num pântano. É, no entanto, salva no último instante por Zaltar, que ali se exilara para expiar os seus pecados.
Graças ao sacrifício supremo do seu antigo precetor, a Supergirl consegue escapar da Zona Fantasma e regressar à Terra através de um espelho. Com o seus poderes restaurados, a heroína confronta uma vez mais Selena. Que, por sua vez, usa o Omegahedron para invocar um gigantesco demónio das sombras.

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Kara chora a morte do seu mentor.
Prestes a ser subjugada pelo monstro, a Rapariga de Aço ouve a voz etérea de Zaltar exortando-a a lutar. Nigel, por seu turno, revela-lhe que a única maneira de derrotar Selena será virando contra ela o demónio das sombras.
Agindo com rapidez e precisão, Supergirl usa a sua supervelocidade para gerar um enorme redemoinho, cuja força centrípeta suga a bruxa e o demónio para a Zona Fantasma.
Finalmente livre do feitiço de Selena, Ethan declara o seu amor por Linda Lee, mesmo sabendo que ela e Supergirl são uma só pessoa, e que os dois nunca poderão ficar juntos.
A cena final do filme mostra a Supergirl a voar em direção a uma Argo City escurecida que prontamente se ilumina graças à energia emanada pelo Omegahedron.

Trailer



Curiosidades

*À semelhança do que se verificara no primeiro filme do Superman com Christopher Reeve, em Supergirl o cachê pago à atriz que interpretou a vilã (Faye Dunaway) foi consideravelmente superior ao recebido pela protagonista. A atuação de Dunaway seria, contudo, arrasada pela crítica, valendo-lhe mesmo uma nomeação para a Framboesa de Ouro de Pior Atriz. Por contraste, a novata Helen Slater ficou muito perto de conquistar um Saturn Award na categoria de melhor atriz;
*O primeiro poster promocional do filme mostrava. erradamente, a Estátua da Liberdade a segurar a tocha na mão esquerda;

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A Estátua da Liberdade virou canhota
num dos cartazes oficiais de Supergirl.


*Na gravação da cena em que a Supergirl sai a voar do lago foi utilizada uma fotografia de Helen Slater colada num recorte de madeira. Já a produção do genérico de abertura cifrou-se em um milhão de dólares;
*Único filme baseado no Universo DC a não ser distribuído pela Warner Bros, Supergirl nunca foi incluído em qualquer antologia da saga cinematográfica do Superman, apesar de dela ser oficialmente parte integrante;
*Criação de Otto Binder e Al Plastino, Supergirl fez a sua primeira aparição em maio de 1959, nas páginas de Action Comics nº252 (fiquem a saber mais em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2014/02/heroinas-em-acao-supergirl.html). Um quarto de século após a sua estreia na banda desenhada, tornar-se-ia a primeira super-heroína de língua inglesa a protagonizar o seu próprio filme;
*Nos quadradinhos, Argo City escapa à destruição de Krypton graças à genialidade científica de Zor-El (pai de Kara), que prepara antecipadamente a cidade para sobreviver à iminente implosão do planeta. Nessa versão clássica da sua origem, Kara nasce vários anos após o seu primo, Kal-El, ter sido enviado para a Terra;
*Em 2017, 33 anos após o advento da Rapariga de Aço aos cinemas, a personagem Selena ganhou estatuto canónico ao ser introduzida em Supergirl nº10. Uma ironia considerando que, apenas dois meses antes do lançamento do filme, a DC Comics havia inopinadamente cancelado a série mensal da heroína. Como se isso não bastasse, em 1985 removeria a Supergirl da sua continuidade após  sua morte às mãos do Antimonitor num dos capítulos mais dramáticos da saga Crise nas Infinitas Terras;
*Dada a ausência do Superman no filme, coube a Jimmy Olsen fazer a ponte com a saga original. Marc McClure foi, aliás, o único ator a fazer o pleno de participações nas cinco produções que compõem a franquia;

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Marc McClure marcou presença em todos os filmes da Super-família.
*Num dos rascunhos iniciais do enredo estava prevista a participação do Superman. O herói marcaria presença em duas cenas: na primeira daria as boas-vindas à prima no momento da sua chegada ao nosso mundo; na segunda seria salvo por ela depois de ter perdido os seus poderes e de ter envelhecido precocemente por causa da magia de Selena. Apesar de nada disto se ter concretizado, o Homem de Aço é duplamente referenciado na película. Através de um noticiário escutado atentamente por Selena, ficamos a saber que o herói se encontra temporariamente ausente da Terra em missão de paz numa galáxia distante. Na parede do quarto partilhado por Linda Lee e Lucy Lane, está também colado um poster do Superman;
*Superman e Supergirl encontraram-se no mundo real. Helen Slater e Christopher Reeve combinaram encontrar-se certa noite em Nova Iorque para discutirem o significado de interpretar um super-herói. Enquanto conversavam sentados num banco do Central Park foram surpreendidos pelas sirenes dos bombeiros que acorriam a um incêndio nas redondezas. Percebendo a ironia da situação, Reeve, segundo relatou a própria Helen Slater, terá gracejado: "Parece que é a nossa noite de folga";
*Atualmente com 56 anos de idade, em 2001 Helen Slater retomou contacto com o Universo DC ao interpretar Lara - a mãe kryptoniana do Superman - em três episódios de Smallville. Já na série televisiva da Supergirl no ar desde 2015, coube-lhe o papel de Eliza Danvers, mãe adotiva de Kara;

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Helen Slater no papel de mãe adotiva
 da atual Supergirl (Melissa Benoist).
*Tanto na adaptação oficial de Supergirl aos quadradinhos como na novela posteriormente editada, fica claro que decorreram vários anos entre o momento da partida de Kara de Argo City e a sua chegada à Terra. Devido ao desejo dos produtores de usarem Helen Slater desde o início, esse elemento foi omitido do filme;
*Quando Linda Lee e Lucy Lane se encontram pela primeira vez, a irmã mais nova de Lois Lane estava ler uma revista do Hulk, propriedade da rival Marvel Comics. Este é, de resto, um dos muitos easter eggs plantados ao longo do filme que convido os meus sagazes leitores a descobrirem.

Veredito: 62%

Logo a seguir à Mulher-Maravilha, Supergirl ocupa o segundo lugar no meu pódio de super-heroínas favoritas. Dada a minha elevada estima pela prima do Homem de Aço, seria o primeiro a zurzir o seu filme se este fosse realmente tão mau como o pintaram.
Mais frustrante do que o fraco apuro de bilheteira, foi o linchamento de que Supergirl foi sendo vítima ao longo dos anos quer por parte da crítica dita especializada quer por parte de pretensos fãs. Acredito até que, neste como em tantos outros casos, esses ataques virulentos terão partido de quem nunca viu o filme ou prefira os da concorrência.
Infelizmente, essa é uma prática consagrada que tem vindo a ganhar maior expressão nos últimos anos, mercê da rivalidade entre os Universos Estendidos da Marvel e da DC. E que, em última instância, serve, essencialmente, para condicionar o julgamento dos mais desavisados. Tendo como efeito colateral a morte prematura de franquias em favor da prosperidade de outras.
Em todo o caso, não há como negar certos aspetos negativos de Supergirl. Trama incoerente, interpretações sofríveis e vilões insípidos são alguns dos problemas mais frequentemente apontados a um filme que, não obstante, possui também pontos positivos que importa realçar.
O maior trunfo de Supergirl é, sem sombra de dúvida, a sua protagonista. Tal como Christopher Reeve foi O Superman sem, contudo, deixar de ser convincente no papel de Clark Kent, Helen Slater também teve o condão de ser duplamente competente na sua interpretação. Sem prejuízo da graciosidade da Rapariga de Aço, a jovem atriz transmitiu na perfeição a ingenuidade de Linda Lee.
Helen Slater partilha, de resto, com Christopher Reeve o dom de usar uma roupa espampanante sem parecer ridícula. Isto apesar de ter disposto de menos tempo para aprimorar esse talento do que a sua contraparte masculina.

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Helen Slater foi uma aposta ganha como Supergirl.
Mesmo à luz dos padrões técnicos atuais, os efeitos especiais de Supergirl - numa época que não existia CGI - são bastante aceitáveis. Ao contrário, por exemplo, de Superman IV, a produção não olhou a despesas nesse capítulo, possibilitando dessa forma sequências de rara beleza como o "ballet voador" de Kara aquando da sua chegada ao nosso planeta.
Outro dos pontos positivos do filme é o desenvolvimento de alguns conceitos herdados da saga original. Caso, por exemplo, da Zona Fantasma cuja representação consistira até esse momento num espelho rodopiante.
Em Supergirl conseguimos finalmente espreitar o que se esconde por trás do espelho. Contudo, a estética da Zona Fantasma poderia ter sido ainda mais fascinante se o realizador não tivesse desistido da ideia de filmar as respetivas cenas a preto em branco, o que teria reforçado a natureza etérea desse território povoado pelos mais perigosos malfeitores de Krypton.
Também o recurso à magia foi uma jogada de mestre. A par da kryptonita, essa é outra das vulnerabilidades dos kryptonianos. Como os argumentistas já tinham usado e abusado das pedras verdes nos filmes do Homem de Aço, desta feita deitaram mão às artes arcanas para dificultar a vida à heroína.
O único problema desta opção foi não ter sido devidamente explanada na trama. Por conseguinte, não deverá ter faltado quem tenha achado patético ver uma heroína capaz de dobrar barras de aço com as mãos a ser afetada por bruxarias de uma aprendiz de feiticeira.
Estranho foi também que, para salvar uma franquia em declínio, os produtores tenham laborado nos mesmos erros que ditaram o fracasso de Superman III. Embora mais doseado, o histrionismo está presente em Supergirl, sobretudo em cenas envolvendo os vilões - já de si caricaturais.
Por mais que essa vertente cómica seja apreciada pelo público em geral, os verdadeiros fãs de super-heróis não vão ao cinema para ver os seus ídolos fazerem umas palhaçadas. Fazem-no para recapturar alguma da inocência perdida da infância e em busca de um salutar escapismo à amoralidade do mundo real, onde é cada vez mais difusa a fronteira entre o certo e o errado.
Duas raridades nos filmes de super-heróis mais recentes mas que podem ser encontradas em Supergirl, esse clássico injustiçado que merece ser visto com um olhar menos cínico.

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De certo modo, a Supergirl continua cativa na Zona Fantasma
 para onde os críticos a atiraram.








domingo, 23 de julho de 2017

ETERNOS: OTTO BINDER (1911-1974)


  Escreveu alguns dos títulos mais populares da Idade do Ouro e da Prata ao mesmo tempo que ajudava a criar um magote de personagens inesquecíveis. Apesar desses admiráveis pergaminhos, continua a ser um dos mais menosprezados autores da 9ª Arte. Apaixonado pela ficção científica, perfilhou teorias exóticas sobre as origens da Humanidade antes de sucumbir a uma tragédia familiar.

O mais novo dos seis filhos de um casal de imigrantes austríacos recém-chegados a terras do Tio Sam, Oscar Otto Binder nasceu a 26 de agosto de 1911 em Bessemer, pequena cidade do Michigan assim batizada em homenagem a Sir Henry Bessemer, engenheiro britânico do século XIX inventor do processo de fabrico do aço.
Devido às suas raízes familiares centro-europeias, Otto, tal como os irmãos, foi educado de acordo como os preceitos morais e religiosos do Luteranismo. Em 1922, quando se despedia da infância para embarcar na odisseia da puberdade, a sua família resolveu trocar a modorra de Bessemer pela azáfama de Chicago. Foi na grande metrópole do Illinois que Otto e o seu irmão favorito, Earl, se deixaram seduzir pelo charme kitsch das historietas de ficção científica. Género que, naquela época e sobretudo entre os mais jovens, gozava de uma crescente popularidade.
Em vez de, como seria de esperar, contribuir para o esmorecimento da paixão assolapada dos manos Binder pela ficção científica, a passagem do tempo teve o condão de espevitá-la ainda mais. Levando-os mesmo a aventurarem-se na escrita de narrativas desse jaez. Sob o pseudónimo Eando Binder (acrónimo de "E and O", composto pelas respetivas iniciais),  Earl e Otto conseguiram vender a sua primeira produção literária conjunta em 1930. Intitulada The First Martian (O Primeiro Marciano), seria dada à estampa dois anos depois em Amazing Stories, o primeiro - e, provavelmente, o mais duradouro - magazine exclusivamente dedicado à ficção científica, que vinha sendo editado desde a primavera de 1926.

A história I, Robot, de Eando Binder, em destaque na capa desta edição de 1939
do magazine de ficção científica Amazing Stories.
Cientes de que essa atividade, por si só, não lhes garantiria a sobrevivência económica, os irmãos Binder exerceram paralelamente vários outros ofícios. Enquanto Earl calejava as mãos numa fundição na periferia de Chicago, Otto rumou a Nova Iorque. Fê-lo na qualidade de agente literário ao serviço de Otis Kline, afamado autor de novelas de ficção científica - conhecido, também, pela sua amizade (e pretensa parceria literária) com Edgar Rice Burroughs, o criador de Tarzan - , recentemente convertido em editor e empresário.
Durante o curto período como agente literário, Otto ficou essencialmente encarregue da divulgação das obras do então desconhecido Robert E. Howard, "pai" de Conan, o Bárbaro e do subgénero conhecido como Espada & Feitiçaria.
A partida do benjamim do clã Binder para a Cidade Que Nunca Dorme fora precedida pela dissolução da sua sociedade com Earl. Mesmo sendo agora o único autor das estórias de ficção científica que ia vendendo a magazines e outras publicações especializadas, como a Thrilling Wonder Stories e a Amazing (para a qual desenvolveu a cultuada série de Adam Link, o robô senciente criado à imagem e semelhança dos humanos), continuou a assiná-las com o velho pseudónimo que incluía a inicial do irmão.

Em Adam Link Otto Binder teve a sua
  piéce de résistance no campo da ficção científica.
Sopravam ventos benfazejos na vida de Otto Binder até que os nefastos efeitos da Grande Depressão que devorava o coração da economia estadunidense obrigaram Otis Kline a cerrar as portas da sua editora, apenas um ano e meio decorrido sobre a sua fundação.
Vendo-se repentinamente privado da sua principal fonte de rendimento, em 1939, por sugestão de outro dos seus irmãos, Jack Binder (autor do Daredevil original), Otto resolveu tentar a sua sorte na fervilhante indústria dos comics. Pela mão de Jack, que há um par de anos lá vinha trabalhando como ilustrador, Otto juntou-se, assim, ao staff do estúdio Harry Chesler, um dos muitos que, no dealbar da Idade do Ouro, supriam as necessidades das cada vez mais numerosas editoras de banda desenhada.
Seria, no entanto, meteórica a passagem de Otto Binder pelo estúdio de Harry Chesler. Cerca de um ano depois de lá ter entrado pela primeira vez, estava já de malas aviadas para a Fawcett Comics, a recém-fundada subsidiária da Fawcett Publications.
Num primeiro momento, Otto Binder assumiu as histórias de personagens secundárias da Fawcett, como Bulletman, El Carim ou Golden Arrow. A sua criatividade e desenvoltura não passaram, porém, despercebidas ao editor Ed Herron que, em meados de 1941, lhe confiou os destinos da estrela da companhia: Captain Marvel (vulgo Shazam; não confundir, portanto, com o seu homónimo da Casa das Ideias).
Capitalizando o sucesso da série de ação real do Mortal Mais Poderoso da Terra (a primeira adaptação ao grande ecrã de um super-herói) que, por esses dias, atraía milhares de espectadores de todas as idades aos cinemas, a novela pulp The Return of the Scorpion foi, ainda em 1941, a primeira história do Capitão Marvel com o cunho de Otto Binder. Registando-se no ano seguinte o seu debute oficial como argumentista da série periódica do herói, em Captain Marvel Adventures nº9.

A edição que marcou a estreia de Otto Binder
como argumentista do Mortal Mais Poderoso da Terra.
Por conta da pródiga imaginação de Otto Binder, o título mensal do Capitão Marvel ganharia novo elã, destronando mesmo o Superman no pódio das vendas. Enquanto a coqueluche da DC Comics era assim inapelavelmente ofuscada (embora inconfessado, seria esse um dos verdadeiros motivos que, anos depois, levariam a Editora das Lendas a processar a Fawcett por um alegado plágio), o brilho de Otto Binder era mais intenso a cada dia que passava. E não tardou a irradiar um conjunto de spin-offs estrelados pelos igualmente icónicos Captain Marvel Jr. e Mary Marvel, esta última criada a meias por Otto Binder e o artista Marc Swayze, em dezembro de 1942.
Aqui ficam alguns números impressionantes que ilustram bem a envergadura da obra de Otto Binder ao serviço da Fawcett Comics: entre 1941 e 1953, ele escreveu 986 das 1743 histórias do Capitão Marvel, correspondendo, grosso modo, a 60% do total das que foram publicadas durante esse período. Ao longo do qual Otto concebeu, em articulação com C.C, Beck (o lendário criador do Mortal Mais Poderoso da Terra) e Marc Swayze, um magote de personagens que se tornariam emblemáticas.
Além da já citada Mary Marvel, Black Adam (Adão Negro), Uncle Dudley (Tio Marvel), Tawky Tawny (o tigre falante conhecido entre o público lusófono como Senhor Malhado) e os pérfidos filhos adolescentes do Doutor Sivana - Sivana Jr. e Georgia Sivana - completavam esse rol de coadjuvantes de luxo. Refira-se, a este propósito, que, em 1953, quando já se adivinhava o canto do cisne da Fawcett Comics, Otto Binder e C.C. Beck viram frustrada a sua intenção de produzir uma tira de jornal protagonizada pelo Senhor Malhado.



Mary Marvel (cima) e Adão Negro foram duas das mais icónicas criações
 de Otto Binder para a Fawcett Comics.
Ao imprimir nos enredos da Família Marvel a lógica dos sonhos, Otto Binder cumpria na perfeição os desejos de qualquer criança sem, contudo, infantilizar em demasia as suas narrativas. Exorbitando frequentemente as fronteiras da imaginação, as aventuras dos discípulos do mago Shazam tanto podiam transportar os leitores para um conto de fadas como para um plano surreal. Foi, pois, essa dimensão onírica que fez de Captain Marvel Adventures um caso sério de popularidade, mobilizando, mês após mês, o interesse e a imaginação de milhares de leitores.



Tigres falantes e planetas vivos?
Nas histórias do Capitão Marvel saídas da pena de Otto Binder tudo era possível.
Mesmo após a extinção da Fawcett Comics, Otto Binder agora um escriba consagrado, continuou sem mãos a medir. Até finais de 1954 (ano em que assentou arraiais na DC Comics, com a qual vinha colaborando pontualmente desde 1948), desdobrou-se entre a Timely Comics e a Quality Comics*.
Para a primeira, Otto escreveu histórias do Capitão América, Príncipe Submarino e do Tocha Humana original**, ícones da Idade do Ouro e personagens de charneira daquela que seria a precursora da Marvel Comics. Sobrando-lhe ainda tempo e imaginação para participar na criação de The Whizzer (Ciclone) e All-Wiinners Squad (Esquadrão Vitorioso).
Já para  segunda, o seu trabalho consistiu em escrever algumas das suas séries periódicas mais bem-sucedidas, nomeadamente Blackhawk, Doll Man e Uncle Sam. Para não fugir à regra, foi ainda cocriador de Kid Eternity (Kid Eternidade) que, sem embargo, se converteria numa das figuras de proa da Quality Comics.
Há ainda a registar, durante esse ínterim que preludiou a sua transferência para a DC, algumas colaborações episódicas com a MLJ Comics (antecessora da Archie Comics), a Gold Key Comics (para qual criou Mighty Samson, um das personagens mais icónicas da editora) e com a EC Comics (onde voltou a escrever histórias de ficção científica).
Na DC, Otto Binder reencontrou um velho conhecido dos seus tempos na Thrilling Wonder Stories: o editor Mort Weisinger. Sob a sábia batuta de Weisinger, Otto, que nunca foi homem de ficar arrimado às glórias pretéritas, empreendeu nova fase seminal, que mudaria para sempre a mitologia do Superman.
Assim, ao longo de década e meia, de 1954 a 1969, Otto Binder assumiu sozinho o catálogo de títulos do Homem de Aço (no qual pontificavam os históricos Superman, Superboy e Action Comics), introduzindo neles um lote de personagens inéditas que logo se tornariam presença assídua nas aventuras do campeão de Metrópolis.

Otto Binder era um mestre do burlesco
que caracterizou a Idade da Prata dos comics.
Entre os conceitos que ajudou a desenvolver nesse contexto, avultavam - citando somente os mais emblemáticos - Supergirl, Brainiac, Bizarro e a Legião dos Super-Heróis. Se a participação de Otto Binder na conceção de Bizarro é por vezes contestada, é consensual que a versão mais conhecida do vilão é da sua autoria. Assim como outros elementos que, no decurso da Idade da Prata. se tornaram recorrentes nas aventuras do Superman. A saber: a Zona Fantasma, o relógio-sinalizador de Jimmy Olsen e a cidade engarrafada de Kandor, essa fascinante reminiscência da civilização kryptoniana.

Supergirl, uma das mais acarinhadas cocriações de Binder
 ao serviço da Editora das Lendas.
O estilo narrativo de Otto Binder correspondia, com efeito, ao epítome da Idade da Prata dos quadradinhos. Caracterizada, entre outros aspetos, pelos conflitos derivados da ansiedade das personagens e pelas tramas rocambolescas com reviravoltas a condizer. Não admira, portanto, que o trabalho de Otto Binder tenha feito escola, sendo emulado por muitos argumentistas da sua geração.
Mesmo depois de ter abandonado a DC por razões pessoais que mais adiante explanarei, Otto Binder não foi esquecido pelos seus pares. Quando, em 1972, foi publicada a primeira história do Capitão Marvel (entretanto renomeado de Shazam) com a chancela da Editora das Lendas, foi-lhe rendida uma singela homenagem. Desenhado pelo próprio C.C. Beck, Otto Binder surgia como um dos coadjuvantes do Mortal Mais Poderoso da Terra naquela edição histórica.
Ironicamente, a referida homenagem coincidiu com um dos períodos mais infaustos da vida de Otto Binder. Se na indústria dos comics trazia o sucesso e o prestígio à ilharga, fora dela a desdita fez-lhe marcação cerrada, sombreando-lhe os dias com as cores negras do fracasso e da tragédia.
No início dos anos 1960 - sem que daí adviesse prejuízo para o fenomenal trabalho que continuava a executar na DC - ,  Otto Binder foi cofundador e editor-chefe de Space World, um magazine de Astronomia. Vítima das fracas vendas, o projeto seria, porém , cancelado após 16 números, deixando Otto Binder em grandes apuros financeiros.
Apesar de ter hipotecado a própria casa e de ter desbaratado todas as suas poupanças, Otto continuava endividado até ao tutano. Não tendo, portanto, outro remédio se não adiar a sua reforma e o seu sonho  de se tornar escritor de ficção científica a tempo inteiro. O que não o impediu de dar largas à sua veia literária.

O falhanço de Space World deixou Otto Binder em maus lençóis.
Indefetível da controversa Teoria dos Astronautas Ancestrais, cujos postulados pseudocientíficos foram apresentados pela primeira vez em 1919 pelo escritor americano Charles Fort, Otto Binder foi o autor de dois livros dedicados ao assunto: Flying Saucers Are Watching Us (Os Discos Voadores Observam-nos, de 1968) e, em coautoria com Max Flindt, Mankind Child of Stars (Humanidade Filha das Estrelas, 1974). Ambas as obras serviram para Otto Binder sustentar a hipótese de a Humanidade ser uma espécie híbrida, resultado de experimentos de bioengenharia realizados por extraterrestres que visitaram o nosso planeta milénios atrás.

O primeiro dos dois livros de Otto Binder
dedicados à controversa Teoria dos Astronautas Ancestrais.
Crenças que nem a tragédia familiar sofrida anos antes conseguira abalar. Em 1967, a única filha do casal Binder (Mary, de apenas 14 anos) fora colhida mortalmente por um automóvel desgovernado à entrada da escola onde estudava.
Devastados, Otto e a esposa nunca recuperaram do desgosto. Enquanto ele afogava as mágoas na bebida, ela sufocava lentamente no abraço viscoso da depressão. Na viragem da década, já depois de Otto ter abandonado definitivamente a DC, o casal ainda ensaiou um novo começo fora de Nova Iorque. Uma fuga para a frente precocemente interrompida pelo falecimento da mulher.
Até ser fulminado por um ataque cardíaco em outubro de 1974 (escassos meses após o seu regresso a Nova Iorque), Otto Binder, apesar do espírito esmagado, devotou os últimos dias da sua vida à mais imorredoura das suas paixões: as histórias de ficção científica. Agora ao serviço da Pendulum Press, ganhava a vida a escrever adaptações aos quadradinhos de clássicos da literatura fantástica como Frankenstein e 20.000 Léguas Submarinas.
O reconhecimento, esse, seria tardio mas condigno. Em 2004, cumpridos trinta anos sobre o seu desaparecimento, o nome de Otto Binder seria inscrito no Will Eisner Hall of Fame. Seis anos antes de ser contemplado com um Bill Finger Award, galardão que, desde 2005, laureia (quase sempre a título póstumo) a nata dos escritores de banda desenhada.
Com menos pompa e circunstância, também os produtores de Supergirl não deixaram de homenagear o cocriador da Última Prima de Krypton. Otto Binder era o nome da ponte que, no episódio-piloto da série, a heroína de aço evita que seja destruída por um avião em queda.
Acredito, no entanto, que o maior tributo que poderá ser prestado a este gigante da Nona Arte consistirá na (re)descoberta da vastíssima obra que nos legou, e que merece ser reverenciada. Faço, por isso, votos para que esta minha modesta evocação de Otto Binder sirva esse propósito. A ele, o meu muito obrigado pelos momentos inesquecíveis que as suas histórias me proporcionaram. Sem elas,a minha infância teria sido decerto menos divertida e empolgante.

Otto Binder (1911-1974).
«O mérito é como os rios: quanto mais profundo, menos ruído faz.»
(George Halifax, estadista inglês do século XVII)

* http://bdmarveldc.blogspot.pt/2017/06/fabrica-de-mitos-quality-comics.html
** http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/11/herois-em-acao-tocha-humana.html


































sábado, 5 de dezembro de 2015

ETERNOS: PETER DAVID (1956 - ...)




   Cedo se deixou fascinar pelas historietas com super-heróis que lia às escondidas devido à censura paterna. Homem feito, tornou-se um dos mais requisitados escritores da indústria dos quadradinhos, da qual sempre foi muito crítico. Versátil como poucos, a sua influência criativa estende-se à literatura, ao cinema, à televisão e até aos videojogos.

Biografia: Peter Allen David (PAD, para os amigos) nasceu há 59 anos em Fort Meade, no estado norte-americano do Maryland. De ascendência judaica, em meados da década de 1930, o seu pai e avós paternos procuraram refúgio nos EUA, para escaparem ao antissemitismo que alastrava então na sua Alemanha natal dominada pelos nazis.
   O mais velho de três irmãos, Peter começou a interessar-se por banda desenhada por volta dos cinco anos de idade. Tinha por hábito ler títulos da Harvey Comics, principalmente Casper e Wendy, aquando das suas visitas ocasionais ao barbeiro. Mais ao menos por essa altura, através da popular série televisiva Adventures of Superman (protagonizada por George Reeves), descobriu o fabuloso mundo dos super-heróis. Elegeria, de resto, o Homem de Aço como sua personagem favorita.
  Fascinado, o pequeno Peter enfrentou, porém, a desaprovação paterna relativamente a esse tipo de publicações. Personagens com aparências monstruosas, como o Hulk ou o Coisa, eram consideradas más influências pelo seu genitor. Consequentemente, a Peter não restou outro remédio senão ler à socapa os comics que tanto adorava.
  Antes ainda de obter autorização parental para ler estórias com super-heróis, Peter tornou-se admirador incondicional da arte de John Buscema. Seria, contudo, de outro desenhador lendário que conseguiria um autógrafo. Aconteceu em Nova Iorque, em meados de 1971, quando visitou pela primeira vez uma convenção de quadradinhos. Naquele que foi o seu primeiro encontro com um profissional da 9ª arte, Peter teve o privilégio de estar cara a cara com ninguém menos do que Jack Kirby.
  Outra das paixões precoces de Peter, herdada do seu pai (jornalista e crítico de cinema), foi a escrita. Por volta dos doze anos, ele começou a acalentar o sonho de vir a ser repórter ou escritor profissional. Objetivo que, ao longo do seu percurso de vida, nunca perdeu de vista.
  Na adolescência, enquanto frequentava o liceu de Verona (uma pacata cidade de Nova Jérsia), Peter foi perdendo aos poucos o interesse pelas histórias aos quadradinhos, que lhe pareciam agora demasiado pueris.
  Redescobriria, porém, a sua paixão por esse material em meados de 1975, quando lhe chegou às mãos um exemplar de Giant-Size X-Men nº1. Edição histórica onde era apresentada a nova fase da equipa mutante, da autoria de Len Wein (perfil já publicado neste blogue) e Dave Cockrum. Peter era por esses dias caloiro do curso de Jornalismo da Universidade de Nova Iorque, o qual concluiria anos depois e que seria preponderante para as suas aspirações literárias.

O novo começo dos X-Men levou Peter David a reencontrar a magia dos super-heróis.

  Outro episódio capital na sua vida ocorreria pouco tempo depois. Numa sessão de autógrafos com Stephen King, Peter confidenciou ao aclamado mestre do suspense a sua ambição de vir a ser um profissional da escrita. Em troca, recebeu de King a seguinte dedicatória assinada : "Boa sorte para a tua carreira de escritor". Palavras de encorajamento que Peter ainda hoje faz questão de inscrever nos livros de fãs que acalentam o mesmo sonho.
  Além de Stephen King, Peter David cita como suas principais referências literárias Arthur Conan Doyle, Neil Gaiman, Edgar Rice Burroughs e Harlan Ellison. Reconhecendo ser este último cujo estilo de escrita procura mimetizar nas suas obras. A despeito destas influências, a prosa de Peter possui algumas especificidades. Regra geral, o seu tecido narrativo é alinhavado com elementos da vida real, costurado com referências da cultura popular e arrematado com humor mordaz.
  Árduo foi, no entanto, o caminho que Peter David teve de calcorrear antes de consumar as suas veleidades de literato. Com efeito, os primeiros passos no movediço terreno das letras foram dados na qualidade de repórter. Ao serviço do Philadelphia Bulletin, em 1974 fez a cobertura jornalística da Convenção Mundial de Ficção Científica que nesse ano teve como palco a cidade de Washington.
   Sentindo-se pouco realizado profissionalmente, em paralelo à sua incipiente carreira como jornalista, Peter arriscou aventurar-se nos meandros da ficção literária. Muitos dos seus trabalhos acabaram, porém, rejeitados. Contrariedades que o levaram a colocar temporariamente na prateleira o seu projeto de vir a ganhar a vida como escritor.
  Durante esse parêntesis de quase uma década, Peter trabalhou numa pequena editora livreira, passou pela revista Playboy e quis o Destino que acabasse como assistente de vendas da Marvel Comics. Funções para as quais foi contratado por Carol B. Kalish, sob cujas ordens trabalharia ao longo de aproximadamente cinco anos. Seria, de resto, pela mão da sua chefe que, em 1985, Peter se estrearia como escritor de banda desenhada. Estreia particularmente auspiciosa, atendendo ao fragoroso sucesso da saga A Morte de Jean DeWolff (ver texto anterior).

A obra de estreia de Peter David como profissional da 9ª arte.
 
   Antes disso, Peter tentara já a sua sorte, submetendo algumas histórias da sua autoria - nomeadamente, do Cavaleiro da Lua - à apreciação de Dennis  O´Neil (à época, escritor de Iron Man e Daredevil). Tentativas que resultaram, porém, infrutíferas.
   Mesmo o seu primeiro êxito como argumentista não foi isento de dissabores. Acusado de usar o seu cargo no Departamento de Vendas para promover a saga da sua autoria, Peter pôs fim ao presumível conflito de interesses, recusando-se a discutir assuntos editoriais durante o horário de expediente. Atribuindo a esta sua decisão a débil prestação comercial de A Morte de Jean DeWolff, apesar da reação positiva dos leitores e da crítica.
   Meses após a sua demissão de Peter Parker, The Spectacular Spider-Man, Peter David foi convidado a assumir The Incredible Hulk. Título mensal que lutava então pela sobrevivência e que, por esse motivo, mais ninguém aceitaria escrever. No entanto, onde outros veriam um degredo, Peter viu uma segunda oportunidade para mostrar o seu valor. Não hesitando, por isso, em agarrá-la com ambas as mãos. Tanto mais que, devido ao declínio da personagem, ele beneficiaria de total liberdade para fazer o que bem entendesse com ela. Devido à densidade dos seus enredos, foi algures nesta fase que Peter deixou de usar o famoso Método Marvel (que consiste, essencialmente, numa sinopse alargada) para produzi-los.
  Assim, durante a dúzia de anos em que escreveu as histórias do Hulk, Peter explorou com mestria os distúrbios de personalidade que caracterizavam o amargurado Golias Esmeralda. Em linha com essa abordagem psicanalítica - e numa homenagem aos primórdios da personagem -, criou também uma versão cinzenta do Hulk - menos poderosa, porém mais inteligente do que a tradicional. Revisitando o passado familiar de Bruce Banner, Peter estabeleceu que o alter ego do Gigante Verde fora vítima de um pai abusivo na infância. Premissa já anteriormente aflorada por Bill Mantlo, numa história publicada em The Incredible Hulk nº312 (outubro de 1985) e recuperada em 2003, na longa-metragem dirigida por Ang Lee.
  Peter David teve, portanto, o condão de transformar um título decadente num best-seller da Casa das Ideias. A cereja no cimo do bolo surgiria em 1992, sob a forma de um Eisner Award pelo seu trabalho em The Incredible Hulk. Entretanto, o seu currículo foi sendo enriquecido com outros projetos bem-sucedidos, como Wolverine, X-Factor e Spider-Man 2009 (conceito de que foi coautor).

Pela pena de David, o Incrível Hulk viveu uma das suas melhores fases

  Tamanho sucesso despertou a cobiça da concorrência. Aliciado pela DC Comics, acabaria por aceitar mudar-se para a Editora das Lendas em meados dos anos 90, já depois de ter abandonado Spider-Man 2099 em protesto pela demissão do editor Joey Cavalieri.
   Esta não foi, aliás, a única vez em que Peter assumiu posições de rutura. Em diversas ocasiões expressou opiniões críticas relativamente à indústria dos comics. Reagindo, por outro lado, com veemência às pressões editoriais a que foi sujeito. Cansado de lhe ser exigido que reescrevesse as suas histórias de molde a que estas acomodassem eventos de outros títulos, por mais que uma vez Peter bateu com a porta. Um bom exemplo foi quando abandonou abruptamente X-Factor devido a esse tipo de exigências por parte dos seus editores. Ou quando, em resultado de alegadas divergências criativas, interrompeu o seu trabalho em Aquaman.
  Na sua mira esteve também a forma, por ele considerada pouco digna, como os escritores são tratados pelas editoras. Cujas estratégias de marketing, baseadas essencialmente no lançamento de trade paperbacks em prejuízo dos títulos mensais, ele também questionou publicamente.
 Houve ainda mais dois aspetos que lhe mereceram duras críticas: o frequente desrespeito pela continuidade das personagens, por um lado; e a forma leviana como estas são mortas e posteriormente ressuscitadas, por outro. Tudo circunstâncias que o tornaram uma figura incómoda aos olhos de alguns.

X-Factor: o grupo de heróis mutantes a quem Peter David deu um novo fôlego.

  Entre as várias controvérsias em que Peter David se foi envolvendo ao longo dos anos, sobressai aquela que o opôs em 1993 a Todd McFarlane (com quem trabalhara em Hulk). E que teve o seu clímax num debate organizado no âmbito da Comic Con de Filadélfia em outubro desse ano. Numa altura em que a Image Comics se tentava afirmar no competitivo mercado editorial norte-americano, McFarlane acusava os meios de comunicação social e o próprio Peter David de discriminarem a empresa de que fora cofundador. Após uma acalorada troca de argumentos, o júri acabou por dar razão a Peter David.
  Visceralmente adverso a qualquer forma de censura, o escritor entrou várias vezes em rota de colisão com instâncias ligadas à indústria dos quadradinhos. O seu alvo predileto parece ser, no entanto, a Comics Code Authority. A entidade que regula a ética das licenciadoras foi por ele várias vezes acusada de práticas censórias. Complementarmente, Peter David é um dos promotores do Comic Book Legal Defense Fund. Trata-se de um fundo criado com o objetivo de prestar auxílio financeiro a autores e distribuidores em dificuldades.
  No campo político, a Peter David (liberal assumido) são também conhecidas posições bem vincadas. Adepto de causas sociais fraturantes preconiza, por exemplo, a admissão de homossexuais nas Forças Armadas estadunidenses, a abolição da pena capital e um controlo mais restrito ao porte de armas por parte de civis. Foi ainda um feroz opositor da Guerra do Iraque e da administração Bush.
   De volta aos quadradinhos, ao serviço da DC, Peter teve em Supergirl o seu trabalho mais notável. Ao reinventar a origem e os poderes da prima do Homem de Aço, transformou a sua série mensal num fenómeno de popularidade. Proeza posteriormente repetida com  Aquaman, Star Trek e Young Justice. De facto, à medida que ia dando novo elã a títulos moribundos ou com pouca expressão no respetivo universo editorial, Peter ganhava a fama de "milagreiro" e um lugar cativo no altar da 9ª arte.


A personalidade fragmentada da Supergirl de Peter David...


...e a sua conversão num avatar angélico de asas flamejantes.

  Além das gigantes Marvel e DC, Peter David colaborou também com editoras de menor dimensão. Entre 1999 e 2004, por exemplo, escreveu diversos números de The Spy, série de espionagem dedicada ao público juvenil editada pela Dark Horse Comics. Pelo meio, teve ainda tempo para, a meias com a segunda mulher, escrever os quatro volumes da minissérie Negima para a Del Rey Manga.
 Pela primeira vez em quase duas décadas,  Peter David volta a ser  responsável pelos enredos de dois títulos em simultâneo: X-Factor e Spider-Man 2099 (escritos por si desde julho de 2014). Nada que tire o sono a um dos mais versáteis e prolíficos autores de banda desenhada da atualidade, cuja influência se estende a outras áreas de entretenimento.
  No campo literário, Peter David soma mais de meia centena de obras publicadas, algumas das quais figuraram na conceituada lista de best-sellers do New  York Times. Apesar da sua preferência pela ficção científica, o seu repertório abrange uma grande variedade de géneros. Onde não faltam as novelizações de filmes com super-heróis. Nesta categoria, destacam-se The Rocketeer, Batman Forever e Hulk.
  Na TV, Peter foi cocriador de Space Cases, uma popular série de ficção científica cujas duas temporadas - antes do cancelamento ditado por cortes orçamentais -  foram transmitidas pelo canal Nickelodeon, entre 1996 e 1997. Outros trabalhos de relevo para o pequeno ecrã incluem os enredos de alguns episódios de Babylon 5 e da sua sucessora, Crusade.

Space Cases, a série televisiva de ficção científica de que Peter David foi coautor.

  Foram igualmente da sua autoria os guiões de dois jogos de vídeo que fizeram furor entre os fãs desse divertimento: Shadow Complex (2009) e Spider-Man: Edge of Time (2011).
 Finalmente, para o cinema, escreveu vários argumentos para filmes produzidos pela Full Moon Entertainment. Um dos quais, o western futurista Oblivion, foi eleito vencedor na categoria de Terror e Fantasia pelo júri do Festival Internacional de Houston, na sua edição de 1994.
  Sem surpresas, tão multifacetada obra rendeu-lhe ao longo  dos anos uma panóplia de prémios e outras distinções. Além do já mencionado Eisner Award, o seu currículo é abrilhantado, também, por galardões internacionais. Em 1995 viu ser-lhe atribuído um Haxtur Award (Espanha) e, no ano seguinte, arrebatou um OZCon (Austrália), ambos na categoria de Melhor Escritor. Sendo esses, porém, apenas alguns dos títulos mais prestigiosos que pontificam no seu impressionante palmarés.
   Escriba incansável, Peter David é também um homem de família. Casado em segundas núpcias desde 2001 com a também escritora Kathleen O'Shea, o casal reside atualmente em Suffolk County, um pitoresco subúrbio de Nova Iorque. Do seu primeiro matrimónio (com Myra Kasman, que conhecera em 1977 numa convenção de trekkies), Peter tem três filhas. A que se juntou uma quarta, fruto do seu enlace com Kathleen. E à qual deu nome de Caroline, em homenagem à sua velha amiga Carol Kalish a quem deve, recorde-se, a sua entrada no mundo dos quadradinhos.
   Peter fez saber em várias ocasiões que, quando trabalha num determinado projeto, tem sempre em mente uma pessoa ou um conjunto de pessoas a quem gostaria de dedicá-lo. Foi assim, por exemplo, com Supergirl, título escrito a pensar nas suas filhas. Já The Incredible Hulk foi  um tributo à sua primeira esposa, que o encorajara a aceitar esse desafio. Note-se, a este propósito, a ironia de a personagem que catapultou Peter David para o estrelato ter sido justamente uma daquelas que motivaram a interdição paterna nos seus tempos de menino. Acrescentando, à guisa de curiosidade, a mágoa que o escritor guarda devido ao facto de nunca ter tido oportunidade de trabalhar com Batman, Drácula ou Tarzan.
   Adivinhando-se-lhe ainda muitos anos de atividade literária  - apesar de alguns problemas de saúde diagnosticados - é bem possível que, num futuro próximo, Peter David venha a colmatar essas lacunas no seu repertório.Reforçando assim o seu estatuto de grande expoente da cultura pop.

Peter David é presença assídua nas Comic Cons. Para quando a sua vinda a Portugal?

    


    





quarta-feira, 8 de outubro de 2014

DO FUNDO DO BAÚ: «CRISE NAS INFINITAS TERRAS»



   No ano em que comemorou meio século de existência, a DC resolveu reunificar a sua cronologia. Sentenciando, assim, à morte um intrincado Multiverso em constante expansão. Nesse novo começo, algumas personagens emblemáticas tiveram a sua mitologia revista, ao passo que outras, pura e simplesmente, deixaram de existir. Nada, porém, voltaria a ser como dantes.

Título original da saga: Crisis on Infinite Earths
Licenciadora: DC Comics
Publicada originalmente em: Crisis on Infinite Earths #1 a 12 (abril de 1985 a março de 1986)*
Argumento: Marv Wolfman
Arte: George Pérez
País: EUA

* Mercê da envergadura e alcance da saga, a mesma teve ramificações em praticamente toda a linha de títulos, à data, publicados pela DC.


Edição brasileira:



Título: Crise nas Infinitas Terras
Data: Maio a julho de 1989 (1ª série)*
Editora: Abril Jovem
Categoria: Série especial em três edições mensais**
Formato: Formatinho económico (13,5 x 19 cm), colorido e com lombada quadrada
Número de páginas: 132 por cada edição
Na minha coleção desde: 2009

* Em 1996 a Abril lançaria uma 2ª série da saga. Em 2003 seria a vez de a Panini Comics publicar uma edição encadernada composta por dois volumes em formato americano.
** A exemplo do que se verificou aquando da publicação do material original nos EUA, também no Brasil as ondas de choque da saga propagaram-se pelos títulos regulares da DC publicados, à data, pela editora Abril: Os Novos Titãs, Superamigos, Super-Homem e Super Powers.


A mãe de todas as crises.

Antecedentes: No período que antecedeu Crisis on Infinite Earths, as publicações da DC enfermavam de incoerências decorrentes de problemas de continuidade. Nenhuma das mais proeminentes personagens da editora dispunha de uma origem consistente. Nem o Super-Homem, o mais antigo dos heróis, era exceção. Retratado como o derradeiro sobrevivente do planeta Krypton, aquando da sua estreia não conseguia voar, sendo as suas habilidades sobre-humanas explicadas pelo facto de ter crescido num mundo com uma gravidade mais fraca. Não tardou, porém, a que o Homem de Aço fosse agraciado com o poder de voo, e que o nosso sol amarelo fosse referenciado como a fonte das suas formidáveis habilidades. Concomitantemente, a sua origem tornou-se mais complexa. Entre as várias alterações introduzidas, ressaltava o facto de o Último Filho de Krypton ter desenvolvido as suas capacidades ainda durante a infância, encetando a sua carreira heroica no início da puberdade como Superboy. Outros sobreviventes da destruição de Krypton foram posteriormente integrados na sua mitologia: Supergirl, Krypto, o Supercão e os habitantes de Kandor, entre outros. Adulterando irremediavelmente o conceito primordial de que Kal-El seria o único kryptoniano em todo o  Universo.
     Também a idade de algumas personagens deu azo a problemas. Sendo Batman um caso paradigmático. Como podia um simples humano, desprovido de quaisquer superpoderes ou habilidades especiais, conservar a sua vitalidade nos anos 1980, estando ativo desde a 2ª Guerra Mundial? Mais paradoxal só mesmo o facto de Dick Grayson (o primeiro Robin) ter demorado o tempo correspondente a 30 anos(!) na vida real para concluir o liceu. Um caso extremo de insucesso escolar...
    Contrassensos como estes estendiam-se a outras personagens, nomeadamente a Flash, Lanterna Verde ou Átomo, cujos poderes e origens amiúde diferiam ao sabor dos caprichos de argumentistas e editores.
    Porém, durante décadas pouco ou nada foi feito por parte dos responsáveis da DC para atar estas pontas soltas. Quis o Destino que a solução para um problema que ganhava proporções preocupantes surgisse sob a forma de uma história do Flash, publicada em 1961. Em setembro desse ano, nas páginas de The Flash #123, numa história intitulada Flash of Two Worlds, o Velocista Escarlate da Idade da Prata (Barry Allen) deu de caras com o seu predecessor da Idade do Ouro (Jay Garrick, popularizado no Brasil como Joel Ciclone). Coexistindo no mesmo espaço e no mesmo tempo, os mundos paralelos eram separados apenas por vibrações moleculares diferentes. Graças à sua supervelocidade (que lhe permitia também atravessar objetos sólidos), Flash conseguia sintonizar-se com as ditas vibrações moleculares, rompendo dessa forma a membrana invisível que apartava ambas as realidades.
     Estava assim dado o primeiro passo para a criação de um Multiverso constituído por uma multitude de Terras paralelas habitadas por heróis diferentes ou por versões alternativas das principais personagens da Editora das Lendas. Uma criação que, todavia, não tardaria a escapar ao controlo dos seus criadores...

Cover for Flash #123 (1961)
Flashes de dois mundos na história que, em 1961, lançou as bases para o Multiverso.

     Dentre as centenas de dimensões gémeas catalogadas, destacavam-se as Terras Um, Dois e Três. Sendo a primeira habitada pelas versões da Idade da Prata dos principais heróis e heroínas da DC (Flash Barry Allen, Lanterna Verde Hal Jordan, Gavião Negro Katar Hol, etc). Já a segunda servia de lar às suas respetivas contrapartes com origem na Idade do Ouro (Flash Jay Garrick, Lanterna Verde Alan Scott e os restantes membro da Sociedade da Justiça da América). Despojada de heróis, a terceira era uma espécie de reflexo invertido da primeira, nela pontificando as versões malignas de Super-Homem e companhia, reunidas no Sindicato do Crime da América. Avultavam, além destas, as Terras 4 (criada com o propósito de albergar as personagens adquiridas à Charlton Comics); S (introduzida com idêntica finalidade, mas referente à Família Marvel e demais personagens outrora propriedade da Fawcett Comics); X (onde os Combatentes da Liberdade, oriundos da extinta Quality Comics,combatiam a Alemanha nazi, vencedora da 2ª Guerra Mundial nessa realidade alternativa); Prime (mundo natal da Legião dos Super-Heróis no período pré-Crise e do pérfido Superboy Primordial); Universo de Antimatéria (também designado de Universo do Mal, o único composto por energia negativa e  lar do omnipotente Anti-Monitor).

Universo DC pré-Crise: um somatório de paradoxos.
 
    Citando Bocage, "foi pior a emenda do que o soneto". Para resolver um problema de continuidade, a DC, ao introduzir o conceito de Multiverso, criou um problema cem vezes maior. A uma já de si intrincada tapeçaria, foram, pois, acrescentadas mais pontas soltas e mais nós cegos. À medida que os anos iam passando e as Terras paralelas se iam reproduzindo em progressão aritmética, os leitores ficavam mais e mais confusos. Daí ao seu êxodo foi um pequeno passo.
    Para pôr termo a uma situação que ameaçava tornar-se insustentável, em 1985 (ano em que a Editora das Lendas comemorava o seu 50º aniversário) os mandachuvas da DC resolveram tomar medidas drásticas. A principal das quais consistiu na  reunificação da cronologia da editora, depurando-a de todos os paradoxos e inconsistências que a vinham fazendo perder terreno para a concorrência (leia-se Marvel Comics). A solução estaria encapsulada numa saga épica que assinalaria um novo começo para o Universo DC. E que, se tudo corresse conforme planeado, de caminho serviria para atrair uma nova leva de leitores.
    Marv Wolfman (vide texto anterior) e George Pérez - dupla criativa responsável, um par de anos antes, pelo enorme êxito da série The New Teen Titans -  foram os eleitos para dar forma a esse ambicioso projeto. A eles juntaram-se ainda os ilustradores Jerry Ordway, Mike DeCarlo e Dick Giordano.

 George Pérez (esq.) e Marv Wolfman abraçaram novo desafio.

    Uma das mais grandiosas e impactantes sagas da DC, Crisis on Infinite Earths foi um título inspirado em histórias anteriores envolvendo o contacto entre Terras paralelas incorporadas no chamado Multiverso, como foi o caso de Crisis on Earth-Two e de Crisis on Earth Three. Com efeito, ontem como hoje, a palavra "crise" ocupava lugar de grande destaque no léxico da Editora das Lendas, subjacendo-lhe a ideia de um conflito interdimensional, como aquele que, anos atrás, envolvera a Liga da Justiça da América e a Sociedade de Justiça da América em Crisis on Earth One.

Universo DC pré-Crise: (quase) nada voltaria a ser como  dantes.
 
    De acordo com o plano editorial inicialmente delineado, foi elaborada uma listagem que claramente definia quais eram as personagens que continuariam a fazer parte do Universo DC, e aquelas que seriam eliminadas. Numa reunião ocorrida fora da sede da editora - e na qual participaram a sua presidente (Jenette Khan), os seus vice-presidentes/editores executivos (Paul Levitz e Dick Giordano) bem como os restantes editores-, foram estabelecidas as linhas-mestras do projeto.
   O caminho para a anunciada revolução começou a ser pavimentado um ano antes do lançamento de Crisis on Infinite Earths. Período ao longo do qual o misterioso Monitor foi sendo gradualmente introduzido nas páginas de vários títulos da DC, invariavelmente dissimulado nas sombras, sugerindo tratar-se de um vilão.
   Incapaz de conciliar o seu trabalho de arte-finalista da saga com as funções de vice-presidente e editor executivo, Dick Giordano, malgrado as suas objeções, foi afastado do projeto, sendo substituído por Jerry Ordway.
  Contrariamente ao que o seu escopo e magnitude fariam prever, a promoção de Crisis on Infinite Earths foi virtualmente nula. Não obstante, a saga viria a revelar-se um estrondoso sucesso a vários níveis, incluindo o do marketing. Ao ser bem sucedida no seu desiderato de produzir um interesse renovado no Universo DC, Crisis on Infinite Earths teve, pois, o mérito de angariar um número considerável de novos leitores. Contrariando dessa forma a posição dominante detida pela Marvel no mercado editorial de comics. Outro dos seus méritos consistiu em desbravar caminho para a revitalização da Editora das Lendas, por intermédio de outras sagas igualmente arrojadas, como Watchmen (de Alan Moore) ou Batman: The Dark Knight Returns (de Frank Miller).
  Crisis on Infinite Earths popularizou ainda o conceito de crossover em larga escala, já antes experimentado pela Marvel através de Contest of Champions (1983) e de Secret Wars (1984). Foi assim inaugurada a tendência de, a cada ano, as duas arquirrivais lançarem uma maxissérie, cujos eventos e consequências são transversais ao respetivo cardápio de títulos regulares.
  No entanto, apesar de todas as suas virtualidades, Crisis on Infinite Earths revelou-se (como se perceberá mais abaixo) uma espécie de paliativo para a doença crónica de que, volvidos todos estes anos, a DC continua a padecer. Significando isto que, aos poucos, o Multiverso seria ressuscitado e, com ele, os velhos problemas de continuidade. Havendo, portanto, a necessidade de, uma e outra vez, repetir a terapêutica, sob a forma de sagas similares.Sempre  com o objetivo último de  atualizar uma cronologia a que é estranho o conceito de linearidade. Exemplos: Zero Hour (1994), Infinite Crisis (2005-06) e Final Crisis (2008-09). Com estas duas últimas a serem apresentadas pela DC como o segundo e terceiro capítulos de uma trilogia inaugurada por Crisis on Infinite Earths. E que, em última análise, serviram de preâmbulo para o projeto The New 52! (2011). Matérias para um próximo post...

Nas suas primeiras aparições, o Monitor foi tomado por uma ameaça.

Enredo: Desde a Aurora dos Tempos que Maltus era habitado por uma raça pacífica e altamente evoluída. Entre ela pontificava Krona, reputado cientista que almejava descobrir os segredos da criação do Universo. Para esse efeito concebeu uma sofisticadíssima máquina capaz de gerar um portal no espaço-tempo. Através dele, Krona pôde assistir com os seus próprios olhos ao momento que antecedeu a Criação. Contudo, algo correu mal e a máquina de Krona explodiu. Dessa explosão nasceu o Universo de Antimatéria. A sua simples existência originou uma onda de Mal, responsável pela corrupção de milhares de mundos. Simultaneamente, o nosso Universo foi desdobrado em infinitas dimensões paralelas, dando assim lugar ao Multiverso.
   Sentindo-se responsáveis pela catástrofe, os Maltusianos procuraram meios para erradicar o Mal libertado pela imprudência do seu compatriota. Alguns deles migraram então para o planeta Oa, passando a proteger o Cosmos como os Guardiões do Universo. Entre os vários instrumentos que utilizaram para esse fim, destacam-se os Caçadores Cósmicos e a Tropa dos Lanternas Verdes.
    Entretanto, numa das luas de Oa, nasceu um omnipotente ser que atendia pelo nome de Monitor. Ao mesmo tempo, numa das luas de Qward (um dos planetas do Universo de Antimatéria) ganhava vida a sua antítese: o Anti-Monitor. Pressentindo a presença um do outro, os dois seres empreenderam um titânica batalha que durou um milhão de anos. Até que, após um devastador ataque simultâneo, ambos ficaram em estado catatónico.

Monitor e Anti-Monitor: duas faces da mesma moeda.
 
    Incontáveis eras depois, numa das múltiplas Terras, outro brilhante cientista, Pária, permitiu que a sua obsessão acerca da génese do Universo se sobrepusesse ao mais elementar bom senso. À imagem e semelhança de Krona, desenvolveu uma câmara que lhe permitiria viajar através do continuum espaço-temporal até ao momento da Criação. Ao fazê-lo desencadeou uma imparável reação em cadeia que destruiu tudo à sua passagem. Pária tornou-se, assim, o único sobrevivente do seu malogrado Universo.

Pária, um homem amaldiçoado.

    Como se isso não bastasse, a explosão reverberou por toda a Existência, despertando o Monitor e, claro, o seu émulo malvado. O primeiro, intuindo os insanos planos do segundo, construiu um satélite onde catalogou os heróis e vilões das múltiplas Terras que, chegada a hora, o poderiam ajudar a deter o Anti-Monitor.
    Condenado a marcar presença nos locais onde a destruição está prestes a ocorrer, Pária é acompanhado nessas excursões pelo Monitor. Numa delas, o poderoso ser depara-se com uma jovem chamada Lyla, única sobrevivente de um naufrágio que vitimou toda a sua família. Sensibilizado pela tragédia da rapariga, o Monitor acolhe-a e treina-a para que ela seja a sua Precursora (Harbinger, no original).

Precursora, uma das personagens-chave da saga.

     A fim de aumentar o seu poder por forma a tornar-se o senhor absoluto da Existência, o Anti-Monitor liberta uma gigantesca onda de antimatéria que avança inexoravelmente através do Multiverso. Um dos primeiros mundos a ser aniquilado pela sua ação é a Terra 3. Nessa realidade singular, uma versão alternativa de Lex Luthor era o seu único benfeitor. Nos momentos que antecedem a destruição da Terra 3, os supervilões do Sindicato do Crime lutam, em desespero, pela salvação de um mundo que vezes conta tentaram subjugar.
   Numa sequência parecidíssima com o envio de Kal-El para a Terra ante a iminente destruição de Krypton, Luthor coloca o seu filho bebé numa nave que o levará para um mundo onde poderá crescer em segurança. Ao cruzar o espaço interdimensional, a nave é resgatada pela Precursora que, de seguida, a leva para o satélite do Monitor. Durante a passagem pela fenda vibracional que separa os universos paralelos, a criança torna-se um misto de matéria e de antimatéria, daí resultando uma profunda alteração na sua estrutura molecular. Em consequência disso, o pequeno Alex Luthor passa da infância à idade adulta em poucos dias.
    De uma ponta à outra do Multiverso, as múltiplas Terras têm as suas paisagens redesenhadas pela ação de terramotos, maremotos, furacões, erupções vulcânicas e falhas temporais. Milhares perecem sob os céus escarlates que servem de redoma aos mundos em agonia e que prenunciam o crepúsculo do Multiverso.
A equação do Multiverso.

   Seguindo as diretivas do seu mentor, Precursora reúne o primeiro lote de heróis e vilões de diferentes mundos e épocas. A sua missão: defender a qualquer custo os cinco dispositivos colocados pelo Monitor em outras tantas realidades com vista a impedir o avanço da onda de antimatéria lançada pela sua contraparte maligna.
    Vários elementos do contingente ao serviço do Monitor são feridos nas escaramuças que os opõem às forças do Anti-Monitor. Enquanto isso, heróis de vários mundos esforçam-se por tentar acudir às populações em pânico. Imparável, a Crise chega às Terras 1 e 2, disseminando-se por todas as épocas. Os seus efeitos fazem-se sentir até mesmo no século XXX, com a Legião dos Super-Heróis a combater as hordas invasoras do Anti-Monitor.
    Enquanto Flash (Barry Allen) corre freneticamente através das várias linhas temporais tentando alertar para a catástrofe iminente, Precursora, dominada pelo Anti-Monitor, assassina o Monitor. Este, contudo, previra a sua morte às mãos da sua protegida. Razão pela qual, ao perecer, a criatura liberta a energia necessária à ativação dos dispositivos por ele implantados em cinco realidades distintas.
    Contida a onda de antimatéria, o Universo volta ser único e indivisível como era nos alvores da Existência. Forma-se então um limbo, espécie de sub-universo onde as Terras 1 e 2 estão separadas somente por uma vibração que diminui a cada instante que passa. Ditando a iminente fusão e consequente aniquilação de ambas.
    Todos os heróis das Terras 1 e 2 são convocados para tentar salvar também as outras três Terras remanescentes (S,X  e 4). Enfrentam, contudo, enormes dificuldades, pois, manipulados pelo Pirata Psíquico, os heróis desses mundos tudo fazem para impedi-los de serem bem-sucedidos nesse desígnio. 


Pirata Psíquico.

     Longe dali, o Anti-Monitor ataca o satélite do seu falecido némesis. Num gesto de bravura, a Precursora faz-se explodir no interior da estrutura, sobrevivendo por um triz. Salvas da destruição, as Terras S, X e 4 juntam-se às Terras 1 e 2 no limbo.

Anti-Monitor, o artífice do ocaso do Multiverso.    
 
    Inspirados pela coragem da Precursora, diversos heróis de outras tantas realidades convergem, através de um túnel gerado por Alex Luthor, para o Universo de Antimatéria. Objetivo: tomar de assalto a fortaleza do Anti-Monitor e destruir as máquinas que estão a causar a desaceleração da vibração que separa as Terras. Um a um, porém, os heróis tombam. Apenas a Doutora Luz e o Super-Homem logram alcançar as máquinas. Quando este último se prepara para as destruir, o Anti-Monitor emerge das trevas e derruba-o. A Doutora Luz tenta em vão travar a criatura. Uma enfurecida Supergirl ataca então o Anti-Monitor. Mesmo sabendo que isso lhe custará a vida, ela abre brechas no traje de contenção do vilão, fazendo com que a sua energia se comece a dispersar.
   Num breve momento de desatenção em que ordena à Doutora Luz que leve o primo para um lugar seguro, a heroína kryptoniana é ceifada por uma rajada de antimatéria emitida pelo Anti-Monitor, que, de seguida, se põe em fuga. Num dos momentos mais emocionantes da saga, Supergirl morre nos braços  do Super-Homem. Não sem antes lhe pedir que não chore, pois foi ele quem lhe ensinou o valor da coragem.

A morte da Supergirl é um dos capítulos mais trágicos da saga.
   
    A fusão das Terras é travada, mas foi alto o preço a pagar. Aproveitando a comoção em torno da morte da Supergirl, o Anti-Monitor, já recuperado, inicia a construção de um canhão de antimatéria. Quando a arma está pronta a ser disparada, Flash (Barry Allen) usa a sua supervelocidade para desligar a sua fonte de energia, provocando dessa forma uma retroalimentação que destrói o canhão. No entanto, na sua corrida desenfreada o Velocista Escarlate começa a viajar no tempo e o seu corpo começa a desintegrar-se, até nada mais restar do que pó.

Flash fez o sacrifício supremo em prol da sobrevivência do que restava do Multiverso.

    Tudo parece encaminhar-se para um desfecho feliz. A fusão das Terras está controlada, mas subsistem ainda algumas ameaças. Sendo a maior aquela que é representada pelos supervilões. Kid Flash é convocado pela Precursora e pelo Flash original (Jay Garrick), porque a sua supervelocidade é necessária para ativar a Esteira Cósmica, dispositivo que permite o trânsito entre as várias dimensões paralelas. A ideia era cooptar heróis de diferentes mundos para enfrentarem as forças malignas.
   Chegados aos planetas sitiados pelos supervilões, os heróis combatem-nos em todas a frentes. O enigmático Espectro materializa-se nos campos de batalha e anuncia que o Anti-Monitor ainda vive.Segundo ele, está iminente a destruição do que resta do Multiverso. Para impedi-la, será necessário mudar o curso da História. O que só será possível através da cooperação entre heróis e vilões.

Vilões ao ataque.

    Selada essa aliança espúria, os primeiros são enviados para a Aurora dos Tempos, ao passo que os segundos seguem para o exato momento em que Krona ativa o seu equipamento para observar o nascimento do Universo. Os vilões, contudo, são malsucedidos na sua missão de impedir Krona. Já a força combinada dos heróis e do Espectro consegue derrotar o Anti-Monitor. É, no entanto, operada uma dramática mudança: o que outrora nasceu sob a forma de múltiplos universos, ressurge agora como um só Universo.Nele existindo uma única Terra.
    Nessa Terra renascida estão reunidos elementos das restantes cinco Terras que haviam sobrevivido à Crise. Ninguém se recorda da versão envelhecida do Super-Homem oriunda da Terra 2. Este Homem de Aço de uma realidade alternativa encontra-se com o Super-Homem da Terra 1, Flash (Jay Garrick) e Kid Flash e pede-lhes ajuda para ativar a Esteira Cósmica, na esperança de poder regressar a casa. Tudo o que encontram, porém, é o Nada absoluto. Para evitar que caia em mãos erradas, o dispositivo é destruído.
    Algum tempo depois, os heróis da nova Terra são convocados pela Precursora, que lhes explica os contornos da nova realidade: nela, só existiu uma versão de cada um deles (um só Batman, um só Super-Homem e por aí fora). Também o facto de apenas os heróis terem memória dos eventos ocorridos durante a Crise é esclarecido: só eles estiveram presentes na Aurora dos Tempos.

Anti-Monitor versus Espectro: choque de titãs.

      De repente, a Terra é envolvida por trevas. É o Anti-Monitor que leva o planeta para o seu Universo de Antimatéria. Convocados pela Precursora, os mais poderosos heróis são enviados para os domínios do vilão através de um portal gerado por Alex Luthor. A muito custo, eles conseguem levar de vencida a criatura. Cujo fim definitivo só é possível graças à intervenção de Darkseid, que usa Alex Luthor como um catalisador para os seus formidáveis raios ómega. Sem o poder do seu soberano, o Universo de Antimatéria começa a autodestruir-se. Antes, porém, que isso aconteça, Alex Luthor abre um portal para outra dimensão, partindo para parte incerta na companhia do Super-Homem da Terra 2 e do Superboy Primordial. Facto que só seria cabalmente esclarecido, duas década depois, nas páginas da sequela Infinite Crisis (Crise Infinita, maxissérie publicada no Brasil pela Panini Comics em 2006/07, e sobre qual a seu tempo escreverei).
    No epílogo da saga, Wally West abandona a identidade de Kid Flash para se tornar o novo Flash, sucedendo assim ao seu mentor Barry Allen. Numa cela acolchoada no Asilo Arkham, as palavras balbuciadas pelo Pirata Psíquico ecoam pela eternidade: "Sou o único a lembrar-me das Terras infinitas. Sou o único a conhecer a verdade e nunca a esquecerei. Mundos morreram; mundos nasceram. E nada será como dantes...".


       
Repercussões: Crisis on Infinite Earths dividiu a história da DC em pré-Crise e pós-Crise. Com o primeiro período a ser ignorado em favor do segundo. Exceção feita a um punhado de personagens (e aos leitores mais antigos, como eu) ninguém se recorda dos eventos ocorridos durante a saga. Todavia, as alterações por ela introduzidas não foram implementadas de forma consistente. Diversas personagens viram, com efeito, as suas origens tornarem-se incongruentes em resultado dessas alterações ou da revitalização de outras personagens. Um bom exemplo é a história da Poderosa (Power Girl, no original). Na cronologia pré-Crise, ela era prima do Super-Homem. Com a reformulação da mitologia do Homem de Aço a ter como pedra angular o facto de ele ser o Último Filho de Krypton, como explicar a existência da Poderosa que, ao contrário da Supergirl, sobrevivera à Crise? A solução encontrada foi retratá-la como uma descendente de um antigo mago atlante, que, pela similitude de poderes, acreditava ter um grau de parentesco com o herói kryptoniano. Outro caso bicudo foi o de Donna Troy (a primeira Moça-Maravilha). Originalmente, tratava-se de uma órfã que fora adotada pela Mulher-Maravilha. Porém, com a eliminação desta da nova cronologia da Editora das Lendas, a primeira só ressurgiria um ano depois do final da Crise. Com direito a uma nova e rebuscada origem. E estes são apenas alguns exemplos dos paradoxos que perduraram durante os anos subsequentes à Crise.
      Recapitulemos, pois, de forma resumida, o antes e o depois da Crise nas Infinitas Terras:

Pré-Crise

* Existência de múltiplas Terras paralelas, mundos que ocupavam o mesmo lugar na realidade, mas vibrando em diferentes frequências;
*Alguns destes mundos dispunham das suas próprias versões de heróis, como Super-Homem, Batman ou a Mulher-Maravilha;
* Super-Homem era extremamente poderoso quando comparado com as suas versões mais recentes. Não era o único sobrevivente de Krypton e os seus poderes atingiram a maturidade ainda na infância, empreendendo a sua carreira heroica como Superboy (cujos feitos inspiraram a fundação da Legião dos Super-Heróis, mil anos no futuro);

Deixou de haver lugar para o Superboy no Universo DC pós-Crise. Mas por pouco tempo...

* Entre os membros fundadores da Liga da Justiça estavam Super-Homem, Batman e Mulher-Maravilha;
* O Robin Jason Todd era menos impulsivo do que a sua versão posterior morta às mãos do Joker, tendo a sua origem muitos pontos em comum com a do seu antecessor (Dick Grayson);
* Na Terra S, a Família Marvel incluía também os Tenentes Marvel;
* O Capitão Átomo não possuía pele metálica;
*Existia uma grande diversidade de kryptonitas, a cada uma delas correspondendo um efeito diferente sobre os kryptonianos a elas expostos;
* Na Terra 2 a Mulher-Maravilha tinha uma filha chamada Fúria, ao passo que a Caçadora era fruto do amor entre Batman e a Mulher-Gato ( conceitos reciclados no âmbito de The New 52!).

Pós-Crise

*Passaram a existir somente dois universos: um positivo, outro negativo (este último um legado do Anti-Monitor);
* Foram eliminadas as versões alternativas das personagens;
* O Super-Homem, além de ter visto os seus poderes substancialmente reduzidos, nunca foi Superboy. Este é atualmente Conner Kent, um clone do Homem de Aço;
*Batman, Mulher-Maravilha e Super-Homem não fizeram parte da formação original da Liga da Justiça;
* A Caçadora é filha de um patrão da Máfia italiana;
* A Canário Negro dos nossos dias é filha da Canário Negro original;
* Batman, Robin, Caçadora, Mulher-Maravilha e Super-Homem foram apagados da cronologia da Sociedade da Justiça da América;
* Ultraman (contraparte maligna do Super-Homem na antiga Terra 3) é agora o tenente Clark Kent, do Universo Negativo (onde reina o Sindicato do Crime);

Poderosa (em 1º plano) e Caçadora tiveram as suas origens revistas.

     Não obstante todas as alterações e correções introduzidas pela saga, o conceito de universos paralelos continua, ainda hoje, a despertar um enorme fascínio nos argumentistas e editores da DC. Prova disso é o renascimento da Terra 2, já no âmbito de The New 52!. Não sendo,pois, de estranhar que, ciclicamente, a Editora das Lendas sinta  necessidade de reestruturar a sua cronologia. Com cada uma dessas atualizações a serem sucessivamente apresentadas como definitivas...