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quinta-feira, 11 de maio de 2017

ETERNOS NICK CARDY (1920-2013)


   As raízes plebeias não o impediram de ser um príncipe da 9ª Arte, cuja magnífica obra continua a ser reverenciada pelos seus pares. Versátil e perfecionista, gostava de chamar a si todo o processo de criação artística, fazendo dele um caso ímpar na sua época. Tão glamorosas como as capas que produziu em série para a DC eram as musas e ninfetas esculpidas pelo seu lápis.

Biografia: Nova-iorquino de gema, Nick Cardy nasceu Nicholas Viscanti a 20 de outubro de 1920, no Lower East Side, pitoresco bairro de Manhattan que, antes da especulação imobiliária dos últimos anos, acolhia tradicionalmente as classes menos endinheiradas. Filho de um casal de modestos imigrantes italianos - o pai operário, a mãe costureira, nenhum deles falando mais do que algumas palavras de inglês - cedo começou a dar sinais de ser um talento precoce e um predestinado das artes.
Para embevecimento dos seus progenitores, com apenas 6 anos de idade o pequeno Nick já desenhava, esculpia e fazia entalhes em madeira. Aos 14, alguns dos murais que pintara para embelezar a comunidade onde cresceu foram fotografados pelo New York Herald Tribune e pela Literacy Digest, o que lhe valeu os seus primeiros minutos de fama.
Nada que, no entanto, lhe subisse à cabeça. Apesar de todo o prestígio que granjearia ao longo da sua exemplar carreira como ilustrador e arte-finalista, a humildade seria um traço indelével da sua personalidade.
Chegado ao secundário, foi pois sem surpresa que, em vez de um liceu convencional, Nick optou por matricular-se na recém-fundada School of Industrial Art. Instituição que, como o próprio nome sugere, se propunha a desenvolver as aptidões artísticas dos seus alunos com vista ao seu ingresso no mercado de trabalho.
Ao longo dos anos que por lá andou, o talento de Nick não passou despercebido nem a colegas nem a professores. Tendo mesmo o seu trabalho artístico sido distinguido com vários prémios e honrarias. Não obstante todo esse reconhecimento, sabia que tinha ainda uma longa aprendizagem pela frente. Passando por isso a frequentar em simultâneo aulas de arte nas filiais nova-iorquinas do Boys Club of America e da Art Students League, duas organizações filantrópicas que, a troco de propinas quase simbólicas, proporcionavam essas e outras atividades extracurriculares a jovens carenciados.
Depois de dizer adeus aos bancos da escola - e sem se poder dar ao luxo de os trocar por os de uma qualquer universidade -, Nick trabalhou durante um curto período de tempo como aprendiz numa agência publicitária antes de ser contratado para o Eisner & Iger.
Corria o ano de 1939, o espectro negro da guerra pairava sobre a Europa, e foi nesse lendário estúdio fundado por Will Eisner e Jerry Iger, dois iconoclastas, que ele deu os primeiros passos na turbulenta indústria dos comics. Que, por esses dias, em contraste com os tempos de chumbo que se aproximavam, vivia a sua época áurea.
Ao mesmo tempo que, na sua qualidade de avençado, desenhava títulos como Fight Comics ou Jungle Comics para a Fiction House (editora extinta nos anos 50 que teve em Sheena, a Rainha das Selvas o seu maior êxito), Nick assinava com o pseudónimo Ford Davis as tiras de Lady Luck publicadas no suplemento dominical do mesmo jornal em que eram também apresentadas as aventuras de The Spirit.

Fight Comics foi um dos títulos da Fiction House
desenhados por Nick Cardy.
Ambas as personagens haviam saído da imaginação de Will Eisner em 1940, motivando meses antes a dissolução da sua sociedade com Jerry Iger. Para o qual Nick continuou no entanto a trabalhar durante mais algum tempo.
Reconhecendo as enormes potencialidades de Nick, Eisner tornou-se seu mentor e confiou-lhe a arte de Lady Luck, para assim se poder dedicar por inteiro àquela que seria a sua criação suprema: The Spirit. Ao que consta, apesar do pseudónimo Ford Davis, o jovem pupilo de Eisner encontrava sempre maneira de inscrever subtilmente as suas verdadeiras iniciais (NV) em pontos estratégicos dos painéis por si ilustrados.
Em qualquer caso, a experiência foi-lhe de grande valia na medida em que, além do próprio Eisner, ela permitiu-lhe trabalhar de perto com outros grandes vultos da 9ª Arte, como Lou Fine, Bob Powell ou George Tuska. Unânimes em reputar Nick como um virtuoso da ilustração cuja humildade só encontrava paralelo na pertinácia que patenteava na constante sublimação do seu traço, caracterizado pela abordagem clássica à anatomia humana aliada a uma inesgotável criatividade.

Will Eisner confiou a sua Lady Luck a Nick Cardy.
Foi também apadrinhado por Eisner que, a partir de finais de 1940, Nick teve oportunidade de trabalhar na Quality Comics (outra das mais proeminentes editoras da Idade do Ouro de onde saiu, entre outros, Plastic Man). Ao serviço da qual foi autorizado pela primeira vez a usar o seu nome de batismo. Optou, todavia, por abreviá-lo - ou americanizá-lo, diriam alguns - como Cardy, apelido com que ficaria imortalizado na história da banda desenhada.
Ao cabo de um par de anos a perfumar com o seu talento alguns dos títulos mais emblemáticos da Quality, Nick Cardy foi contratado pela Fiction House, cujo contingente de artistas residentes reforçaria até ser chamado a vestir a farda do Exército norte-americano em 1943.

Ao serviço da Quality Comics, Nick Cardy pôde usar pela primeira vez
  o seu nome verdadeiro.
Crack Comics foi um dos títulos por onde passou.
Poucos saberão, de resto, que Nick Cardy foi um herói de guerra, condecorado não com um mas com dois Corações Púrpura* correspondentes a outros tantos ferimentos sofridos em combate. É difícil imaginar algo assim com alguém mais habituado a ter lápis e pincéis como armas. E, com efeito, Cardy documentou minuciosamente a sua epopeia de G.I. Joe através de dezenas de esboços e aguarelas.
Nada fazia prever, de facto, grandes atos de bravura por parte do soldado raso Nick Cardy. Inicialmente incorporado na 66ª Divisão de Infantaria dos EUA, passaria a trabalhar como mecânico nas oficinas do quartel-general da unidade após ter vencido um concurso para a conceção da respetiva insígnia. Era essa a única vaga disponível quando um general admirador do seu trabalho resolveu puxar uns cordelinhos para manter Cardy o mais afastado possível da linha da frente. Aonde acabaria mesmo por ir parar quando, nos primeiros meses de 1944, recebeu ordem para se juntar à 3ª Divisão Blindada, então estacionada na Velha Albion.


66th Infantry Division shoulder sleeve insignia.jpg
Em cima: Nick Cardy em pose de galã de cinema;
Em baixo: o logótipo por ele concebido para a 66ª Divisão de Infantaria dos EUA.
Aos comandos de um tanque, Cardy acabaria dessa forma por participar ativamente na invasão da Normandia, operação militar que ditaria em larga medida a vitória aliada na 2ª Guerra Mundial.
Ferido duas vezes em combate, terminaria a sua comissão de serviço em França, num confortável gabinete do Departamento de Informação e Educação do Exército dos EUA.
De regresso à vida civil e à Grande Maçã, o primeiro emprego que Nick Cardy conseguiu foi como freelancer da Fiction House e ilustrador de revistas de palavras cruzadas. Era esse o seu ganha-pão quando, em 1946, conheceu e desposou Ruth Houghty, mãe do seu único filho (falecido em 2001), e com quem se manteria casado até 1969.
Após uma fugaz passagem pelas tiras a preto e branco de Tarzan, em 1950 Nick Cardy iniciou a sua longa colaboração de mais de um quarto de século com a DC. Na Editora das Lendas começou por desenhar duas séries de curta duração - The Legends of Daniel Boone e Congo Bill -, bem como historietas avulsas para House of Mystery e Gang Busters.
Numa época em que era comum os artistas desdobrarem-se entre diferentes géneros, Cardy emprestou também o seu traço a uma panóplia de séries de terror e romance da Standard Comics. Menos comum era um desenhador arte-finalizar o próprio trabalho. Algo que fazia de Nick Cardy se não caso único, pelo menos, uma das poucas exceções à regra.
Em resposta ao novo impulso dado pela Marvel Comics aos super-heróis no princípio dos anos 1960, a DC investiu fortemente nas suas publicações estreladas por essas figuras coloridas que haviam entrado em decadência no pós-guerra. A títulos consagrados como Action Comics, Showcase ou Detective Comics somaram-se assim alguns inéditos, incluindo Aquaman. Que, muito por conta da soberba arte de Nick Cardy, se revelaria uma aposta ganha. Exímio a desenhar criaturas marinhas e correntes marítimas, a fluidez do seu traço criava uma atmosfera subaquática visualmente cativante para dentro da qual os leitores se sentiam transportados.
Vale a pena lembrar que desde a sua estreia, em 1941, nunca o Soberano dos Mares dispusera de uma série própria. Sendo, portanto, justo reconhecer a Nick Cardy o mérito de tê-lo convertido numa das personagens de charneira do Universo DC, após década a viver na sombra de Superman e companhia.

Uma das mais glamorosas capas de Aquaman desenhadas por Nick Cardy.
Beneficiando de uma dinâmica particularmente favorável - especialmente quando Carmine Infantino** foi nomeado editor-chefe da DC - Nick Cardy iniciou uma fase seminal que se prolongaria até ao início da década seguinte. Entre 1962 e 1968 desenhou mais de 40 edições de Aquaman, continuando no entanto como seu capista até ao cancelamento da série em 1971.
Com cada trabalho seu a superar o anterior, algumas das capas que produziu durante esse período tornar-se-iam icónicas. Adjetivo que também se poderia aplicar a Mera, a curvilínea namorada de Aquaman que Cardy ajudara a criar logo em 1963. E que, à imagem e semelhança de tantas outras figuras femininas esculpidas pelo seu lápis, se tornaria uma musa cujas formas voluptuosas pareciam quase tridimensionais. Cardy notabilizou-se de facto por desenhar algumas das mais belas mulheres dos quadradinhos, dotando-as de curvas e não de ângulos.
Além de Mera, Nick Cardy foi também cocriador do Mestre dos Oceanos (Ocean Master, no original), ainda hoje um dos principais antagonistas do Soberano dos Mares.

Mera, a cara-metade de Aquaman, pelo traço de Nick Cardy.
A segunda série da Editora da Lendas para cujo sucesso Nick Cardy deu um importante contributo foi Teen Titans. Ficando a sua passagem por ela marcada por uma estreia e por uma polémica. Esta última suscitada pelo veto de Carmine Infantino a uma história dos Novos Titãs ilustrada por Cardy e que, se não fosse por essa interferência, teria introduzido o primeiro herói negro da história da DC. Já a estreia referia-se ao novo visual da Moça-Maravilha (Wonder Girl).
Objetivando sinalizar a maturidade da antiga adjunta juvenil da Mulher-Maravilha, Cardy substituiu-lhe o velho uniforme - essencialmente um pastiche do da sua precetora - por um modelo mais moderno e arrojado, que se tornaria a imagem de marca da personagem ao longo de mais de duas décadas.

Graças a Nick Cardy, Moça-Maravilha surgiu
de look renovado em Teen Titans #23 (1969).
Fazendo jus à sua reputação de trabalhador incansável, em paralelo a Teen Titans (de que desenhou os 42 primeiros números e outras tantas capas), entre os últimos meses de 1968 e os primeiros de 1969, Nick Cardy assumiu também a arte de Bat Lash. Ambientada no Velho Oeste e protagonizada por um carismático anti-herói muito diferente dos truculentos cowboys, esta série de curtíssimo prazo de validade (expirou ao fim de apenas 7 volumes) procurava reinventar o western, obliterando muitos dos seus clichés ao mesmo tempo que piscava o olho à contracultura que parecia ganhar mais adeptos a cada dia que passava. A combinação de tramas inteligentes, mulheres bonitas e vilões caricaturais tornou-a objeto de culto até aos dias de hoje.
Mesmo tendo fracassado na sua missão primordial de reviver um género moribundo, Bat Lash é por muitos considerada a piéce de résistance de Nick Cardy. Então com 48 anos, o artista viu cimentada a sua posição de importante intérprete da arte sequencial ao escrever também o seu segundo número.
Bat Lash #7 p. 3 (2)
A arte de Nick Cardy atingiu o seu ápice em Bat Lash.
Quando deixou finalmente as histórias dos Novos Titãs, em meados de 1973, Nick Cardy encontrou guarida na Casa das Ideias, onde fez parte da equipa criativa de Marvel Comics' Crazy Magazine, publicação humorística que satirizava elementos da cultura pop, incluindo os super-heróis. Manteve no entanto o seu estatuto de capista de referência da DC, assinando dezenas de capas de Superman, Batman, The Brave and the Bold, entre outros.
No final de 1974, Nick Cardy deixou os fãs em choque ao anunciar a sua retirada dos quadradinhos. Na origem desta inesperada decisão terão estado, dependendo das fontes consultadas, disputas relacionadas com direitos autorais ou a simples necessidade de mudar de ares ao fim de mais de três décadas ao serviço da indústria dos comics.
Certo é que quando trocou os quadradinhos pela arte comercial, passou a assinar como Nick Cardi as suas novas empreitadas. Que, além de ilustrações publicitárias, incluíam também cartazes promocionais de filmes. Sendo o mais icónico do seu portefólio aquele que concebeu para Apocalipse Now, a odisseia bélica dirigida em 1979 por Francis Ford Coppola.
1996 marcaria o regresso, ainda que interino, de Nick Cardy aos quadradinhos e à DC, casa que tão bem conhecia. Nesse ano foi um dos desenhadores convidados a participarem em Superman: Wedding Album, volume especial lançado para assinalar o casamento do Homem de Aço com o seu amor de sempre, Lois Lane. A sua despedida definitiva aconteceria em março de 2001, quando desenhou duas páginas de Titans #25, herdeiro do título que, quatro décadas antes, Cardy ajudara a catapultar para a ribalta.

A última capa desenhada por Nick Cardy para a DC, em 2000,
homenageava os Titãs originais,
Apesar das alterações de estilo ao longo dos anos, a arte de Nick Cardy primou sempre pela elevada qualidade. Dotando-o de um incomparável dom narrativo que lhe permitia contar histórias quase sem necessidade de suporte textual E se ele é menos conhecido entre os fãs atuais do que alguns dos seus contemporâneos isso deve-se ao facto de ele não ter tido oportunidade de desenhar com maior regularidade os principais ícones da DC, começando pela Trindade (Batman, Superman e Mulher-Maravilha). O que não obstou a que sua obra continue a ser admirada pelos seus pares, aos quais ainda hoje serve de referência.
Falecido em novembro de 2013, aos 93 anos, em resultado de problemas cardíacos, Nick Cardy viveu tempo suficiente para ver o seu trabalho reconhecido. Depois de, em 1998, ter sido galardoado com um Inkpot Award (prémio anual que, desde 1974, distingue os melhores profissionais do entretenimento), em 2005 foi um dos quatro nomes indicados pela indústria dos quadradinhos para o Will Eisner Comic Book Hall of Fame. Sendo também, a partir de hoje, um dos Eternos da 9ª Arte a abrilhantar este blogue com a sua solene presença. Dado o desconhecimento geral das novas safras de leitores relativamente à obra de Nick Cardy, penso que divulgá-la será a melhor das homenagens a prestar-lhe.

Uma das últimas fotografias de Nick Cardy, tirada em sua casa
pouco tempo antes de o artista se despedir do mundo dos vivos.

*Purple Heart (ou Coração Púrpura) é uma comenda militar atribuída pelo Presidente dos EUA aos veteranos de guerra feridos no campo de batalha;
** Perfil disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2013/06/eternos-carmine-infantino-1925-2013.html

Galeria de capas: 


The Brave and the Bold #94 (DC Comics, março de 1971)


Bat Lash #1 (DC Comics, novembro de 1968)

Aquaman #1 (DC Comics, fevereiro de 1962)

Congo Bill #1 (DC Comics, setembro de 1954)

DC Special #3 (DC Comics, Abril de 1969)
Falling in Love #119 (DC Comics, novembro de 1970)

Crazy Magazine #15 (Marvel Comics, janeiro de 1976)

The Deadly Hands of Kung Fu #18 (Marvel Comics, novembro de 1975)


















terça-feira, 5 de maio de 2015

ETERNOS: GEORGE PÉREZ (1954 - ...)



    Um dos mais talentosos e idolatrados artistas ainda no ativo, atingiu o apogeu ao serviço da DC, ficando o seu nome associado à mãe de todas as sagas produzidas pela Editora das Lendas. No entanto, os primeiros passos na indústria dos quadradinhos foram dados na eterna rival.

Biografia e carreira: Primogénito de um modesto casal de imigrantes porto-riquenhos que se conheceu em terras do Tio Sam, George Pérez nasceu a 9 de junho de 1954 no Bronx, Nova Iorque. Menos de um ano depois, nasceria David, o seu irmão mais novo. Aspirando ambos a uma carreira artística, foi contudo George a revelar um talento precoce para a ilustração. Com apenas cinco anos, começou a desenhar, para assombro dos pais (ele operário numa fábrica de embalamento de carne; ela dona de casa a tempo inteiro).
   Corria o ano de 1973 quando George Pérez teve o seu primeiro contacto com a indústria dos comics, na qualidade de assistente do artista Rich Buckler (celebrizado pelo seu trabalho com o Pantera Negra). Em agosto do ano seguinte, George estreou-se como profissional ao serviço da Marvel Comics, para a qual desenhou uma sátira de duas páginas de Deathlok (personagem  cuja paternidade pertencia justamente a Buckler), publicada em Astonishing Tales nº25.
   O talento do jovem artista não passou despercebido aos mandachuvas da Casa das Ideias. Em pouco tempo, George assumiria a arte de Sons of the Tiger, série de artes marciais escrita por Bill Mantlo e há muito publicada no magazine pulp Deadly Hands of Kung Fu, inserido na linha de títulos a preto e branco da Marvel.
   Aproveitando a enorme popularidade nessa época das histórias envolvendo artes marciais, George e Bill criaram em conjunto o Tigre Branco. Embora se tenha estreado nas páginas de Deadly Hands of Kung Fu, aquele que foi o primeiro super-herói porto-riquenho logo migraria para os títulos coloridos da editora, fazendo várias aparições nas histórias do Homem-Aranha.

Deadly hands of kung fu 1975.jpg

Primeira cocriação de Pérez, o Tigre Branco debutou nas páginas de Deadly Hands of Kung-Fu (em cima).

   Na segunda metade da década de 70, George Pérez ganhou maior projeção por via do seu trabalho em The Avengers (série mensal que desenharia entre 1975 e 1980). Durante esse período emprestou o seu traço a várias outros títulos regulares da Marvel, designadamente The Inhumans, Creatures on the Loose (revista dedicada ao sobrenatural, na qual pontificava o Homem-Lobo) e Fantastic Four. Foi, de resto, numa edição anual do Quarteto que George colaboraria pela primeira vez com o escritor Marv Wolfman (ver biografia já publicada neste blogue). Anos depois, a dupla, conforme veremos adiante, seria responsável por algumas das mais bem-sucedidas sagas da DC.
Os Vingadores pelo traço de George Pérez.
   Em 1980, enquanto continuava a desenhar as histórias dos Vingadores - e já depois de ter cocriado com David Michelinie o vilão conhecido como Treinador (Taskmaster em inglês) - George Pérez começou a trabalhar simultaneamente para a DC. Sondado para assumir a arte de The New Teen Titans - a mais recente aposta da editora para recuperar algum do terreno perdido para a concorrência -, aquilo que verdadeiramente o aliciou foi a perspetiva de poder vir a desenhar a Liga da Justiça, algo que ele considerava ser uma extensão natural do seu duradouro trabalho com os Vingadores.
   Num golpe de asa do Destino, o veterano artista de JLA, Dick Dillin, faleceu pouco depois da mudança de Pérez para a DC.Chamado a substituir o malogrado colega, Pérez logo encantou os fãs com o seu traço límpido e dinâmico.

Depois dos Vingadores, a Liga da Justiça. Poucos artistas tiveram o privilégio de desenhar duas das mais emblemáticas equipas de super-heróis da 9ª arte..

  Naquilo que pretendia ser a resposta da DC ao estrondoso sucesso dos X-Men à época, em 1980 foi lançada uma nova encarnação dos Titãs. Projeto que marcaria o auspicioso reencontro de George Pérez com Marv Wolfman. Em agosto de 1984, o surpreendente êxito de The New Teen Titans abriu caminho para uma segunda série, também ela produzida pela dupla-maravilha.
  Com o tempo, Pérez foi aprimorando a sua arte, evidenciando uma crescente facilidade em desenhar cenários, rostos e outros detalhes que faziam as delícias dos leitores, e que o elevaram ao estrelato. Ao longo da sua longa e próspera carreira, Pérez revelou, com efeito, uma especial predileção por desenhar coletivos super-heroicos. Com alguns desses trabalhos a serem premiados e a servirem de referência a outros artistas.

A icónica capa de The New Teen Titans nº1(1980) com arte de Pérez.
  Em finais de 1984, Pérez abandonou as histórias dos Titãs para se juntar a Marv Wolfman no ambicioso projeto editorial que a  DC tinha na calha para assinalar o seu cinquentenário: a monumental saga Crise Nas Infinitas Terras. Trabalho que, na opinião de muitos, foi a obra-prima do artista de ascendência porto-riquenha.
  No período pós-Crise, George Pérez voltaria a formar equipa com Marv Wolfman para, em novembro de 1986, produzir The History of the DC Universe, compêndio ilustrado que sumariava a nova continuidade da Editora das Lendas.
Crise nas Infinitas Terras deixou a indústria e os fãs de comics definitivamente rendidos ao  talento de George Pérez.
   Escolhido em 1987 para assumir a arte do novo título da Mulher-Maravilha, George Pérez inspirou-se nos trabalhos de John Byrne e Frank Miller - em Superman e Batman, respetivamente -, para dar um novo alento às histórias da Princesa Amazona Numa fase inicial, teve como parceiros criativos os escritores Greg Potter e Len Wein, acabando no entanto Pérez por assumir também o argumento. Sob a sua batuta, foram reforçados os laços da Mulher-Maravilha com os deuses gregos, com as histórias da heroína a serem igualmente depuradas de corpos estranhos introduzidos no pré-Crise.
  Ainda que não tão impactante como The New Teen Titans ou Crisis on Infinite Earths, a nova série da Mulher-Maravilha foi bem-sucedida no seu propósito de revitalizar aquela que, a par do Super-Homem e do Batman, é uma das figuras de proa da DC. A ligação de Pérez a Wonder Woman prolongar-se-ia por cinco anos (1987-1992), embora em metade desse tempo apenas na qualidade de argumentista.

Wonder Woman foi o segundo trabalho produzido por Pérez na ressaca da Crise.

   Em dezembro de 1988 - e já depois da série ter sido renomeada The New Titans -George Pérez voltou às histórias dos Titãs, na dupla qualidade de desenhador e coargumentista. Esta sua segunda passagem pelo título ficaria marcada pela nova origem da Moça-Maravilha (atando assim uma das pontas soltas de Crise nas Infinitas Terras) e pela introdução de Tim Drake como o terceiro Menino-Prodígio.
   Seguir-se-ia, em meados de 1989, uma meteórica passagem de Pérez por Action Comics e Adventures of Superman (aqui como argumentista). Não tendo, porém, sido este o seu primeiro contacto com as histórias do Homem de Aço. A ligação de Pérez ao herói kryptoniano começara, com efeito, meia dúzia de anos antes, em junho de 1983, quando concebeu a icónica armadura de combate de Lex Luthor em Action Comics nº544.

O traje blindado de Luthor ( idealizado por George Pérez e, nesta imagem, com arte de Gil Kane e Dick Giordano) permitia ao vilão equilibrar um pouco as coisas com o Homem de  Aço.

  Devido à sobrecarga de trabalho decorrente da sua colaboração simultânea com Wonder Woman e Action Comics, Pérez viu-se forçado a abandonar este último em abril de 1990. No ano seguinte, a relação do artista com a DC conheceu uma fase delicada. Na origem desse frisson estiveram essencialmente dois fatores: por um lado, Pérez considerava que a editora não estava tão empenhada como deveria em assinalar os 50 anos da Mulher-Maravilha; por outro, a decisão da DC em distribuir a saga War of the Gods (escrita por Pérez) usando apenas o circuito de lojas especializadas desagradou ao artista.
  As tensões foram-se acumulando e, quando os editores da DC resolveram substituir Pérez por William Messner-Loebs como argumentista de War of the Gods, foi a gota de água que fez transbordar o copo. Inconformado com a decisão, Pérez desistiu do projeto e divorciou-se da Editora das Lendas por vários anos. Na base desse ressentimento do artista, esteve também o facto de ter sido atribuída ao seu sucessor a missão de escrever a cena final da saga apresentando o casamento das personagens Steve Trevor e Etta Candy (ideia cujos créditos pertenciam a Pérez).
  Ainda em 1991, Pérez foi contratado pela Marvel para desenhar os seis capítulos da saga Infinity Gaunlet (Desafio Infinito, minissérie editada pela Abril em 1995) da autoria de Jim Starlin. As coisas não correram, porém, como esperado. Em consequência da turbulência ocorrida em War of the Gods, e coincidindo com um período atribulado da vida pessoal de Pérez, este apenas conseguiu finalizar quatro dos seis volumes previstos da saga. Cabendo, assim, a Ron Lim desenhar os outros dois. Apesar de Pérez se ter disponibilizado para assessorar o seu substituto, os editores da Casa das Ideias acharam por bem afastá-lo do projeto.
   Em virtude destes dois episódios, George Pérez ganhou a fama de ser um artista virtuoso, porém incapaz de levar os seus projetos até ao fim. Colocado na prateleira pelas duas principais licenciadoras, Pérez virou-se então para as editoras independentes.
   Na Malibu Comics desenhou Break-Thru e Ultraforce (títulos que integravam o chamado Ultraverso). Ao passo que na Tekno Comix foi responsável pelas ilustrações de I-Bots. Embora principescamente pago, Pérez não se sentia empolgado com as personagens que tinha em mãos e logo perderia o interesse em colaborar com os respetivos títulos.



Duas máculas no currículo de Pérez.
   Afastado dos holofotes ao longo dos primeiros anos da década de 1990 - ainda que tenha participado em diversos projetos nesse período - Pérez regressaria à Casa das Ideias em finais de 1992 para desenhar o arco de histórias Hulk: Future Imperfect (Hulk: Futuro Imperfeito) escrito por Peter David. Com este a eleger Pérez como seu ilustrador favorito, e um dos três cuja arte conseguia materializar na perfeição as suas ideias e conceitos.
   Feitas finalmente as pazes com a DC, Pérez regressou à Editora das Lendas, em outubro de 1996, para assumir a arte-final de Dan Jurgens nos primeiros 15 números de Teen Titans vol.2 (série que seria cancelada em setembro de 1998, ao cabo de 24 edições).
   A exemplo de muitos dos seus colegas de ofício nos anos 1990, Pérez também se aventurou na criação de material próprio. Com os resultados a ficarem, porém, aquém das expectativas. Publicada originalmente em 1997 pela defunta Event Comics, Crimson Plague era uma inacabada novela gráfica de ficção científica protagonizada por uma alienígena com sangue tóxico. Três anos volvidos, e já sob a égide da Gorilla Comics, o primeiro número da série seria reeditado sendo-lhe adicionadas algumas páginas inéditas.

Outro dos projetos inacabados de Pérez.
  Seria ainda lançado um segundo número de Crimson Plague antes de os elevados custos da autoedição levaram Pérez a desistir do projeto, desconhecendo-se até hoje se tencionaria fazer algo mais com esse material.
  No início deste século, a sua passagem pela CrossGen também não correu de feição, visto que a editora faliu poucos meses depois de Pérez ter sido contratado para desenhar o seu título de charneira, Solus.
  Encerrado esse parêntesis na sua carreira profissional, o regresso de Pérez à ribalta ocorreu na viragem do século ao serviço da Marvel. Em 1999, juntou-se ao escritor Kurt Busiek na muito ovacionada terceira série de The Avengers. Como nos bons velhos tempos, a arte de Pérez deixou os fãs extasiados, ao ponto de eles o absolverem dos seus pecadilhos passados.
  Quando, três anos depois, Pérez deixou o título, teve ainda tempo e energia para, em conjunto com Busiek, produzir o há muito aguardado crossover entre a Liga da Justiça e os Vingadores. Dado à estampa em 2003, as origens deste projeto comum da Marvel e da DC remontam ao princípio dos anos 1980. Cancelado devido a divergências entre as duas editoras, a sua versão original contava com 21 páginas desenhadas por Pérez, as quais seriam inclusas, em 2004, na edição encadernada da saga.

Pérez sentiu-se como peixe na água a desenhar o épico JLA/Avengers. 
   Em 2011, cinco anos após o seu mais recente regresso à DC (em efervescência devido aos Novos 52!), Pérez tornou-se argumentista de Superman, assegurando também a arte das capas. Paralelamente, num projeto que reuniu a equipa criativa responsável pelo êxito dos Novos Titãs em meados da década de 1980, ele e Marv Wolfman produziram a aclamada graphic novel New Teen Titans: Games.
  Pérez justificou, em julho de 2012, a sua saída extemporânea do título do Homem de Aço (do qual escreveu somente 6 números) com a enorme pressão editorial a que foi submetido. Uma das suas principais razões de queixa assentava na incapacidade dos seus editores em explicarem-lhe alguns aspetos básicos da nova continuidade do herói (como o facto de os seus pais adotivos estarem ainda vivos). Incoerências a que se somavam as dificuldades de articulação com o outro título do herói, Action Comics (escrito à época por Grant Morrison), ambientado cinco anos antes dos eventos narrados em Superman.


George Pérez foi um dos obreiros da reformulação do Super-Homem em Os Novos 52.

   Casado há mais de 30 anos com a ex-bailarina e atual professora de dança, Carol Flynn, George Pérez é diabético, tendo já sido submetido a uma operação à retina. Acumula as funções de diretor-adjunto da The Hero Initiative (projeto filantrópico patrocinado pela indústria dos comics) com o seu trabalho artístico. Aos 60 anos e com um currículo invejável, não pensa na reforma. Diz também não ter qualquer personagem favorita. Conhecida a sua preferência por desenhar magotes de heróis, talvez o bom e velho George acredite que, por vezes, quantidade é realmente sinónimo de qualidade.
  Independentemente do que o futuro lhe reserva, pelo seu extraordinário talento e pelo seu inestimável contributo à 9ª arte, George Pérez já garantiu há muito o seu lugar no Olimpo dos deuses da banda desenhada.

Autorretrato do Mestre.
Prémios e distinções: Sem surpresa, ao longo da sua prolífica carreira, George Pérez viu vários dos seus trabalhos distinguidos tanto pelos seus pares como pelos fãs. O primeiro prémio por ele arrebatado data de 1979: um Eagle Award para o melhor arco de histórias (The Avengers nº167, 168 e 170 a 177). Feito reeditado no ano seguinte e em 1986, nas categorias de, respetivamente, melhor arte de capa (ainda com Avengers) e artista favorito do público. Pelo meio, em 1983, recebeu um Inkpot Award para melhor ilustrador.
  Verdadeiro ano de ouro para Pérez, 1985 marcou a sua consagração definitiva: ao mesmo tempo que o seu nome era incluído na lista das 50 personalidades homenageadas pela DC no seu cinquentenário, Crise nas Infinitas Terras conquistava o Jack Kirby Award para melhor saga (galardão dividido com Marv Wolfman e reconquistado em 1986).
  Por três anos consecutivos (1985, 1986 e 1987), Pérez foi eleito pelo Comics Buyer's Guide (espécie de boletim periódico que dá a conhecer as preferências dos fãs) como o melhor ilustrador de capas. Ainda a enriquecer o seu impressionante portfólio, outros três prémios para melhor artista atribuídos pelo mesmo CBG nos anos de 1983, 1985 e 1987. Aos quais se somam muitos outros que - a título individual ou coletivo - distinguem o seu trabalho artístico. Indiferente a esta glorificação, Pérez conserva a sua humildade,sendo conhecido pela sua simpatia militante. Virtudes que fazem dele um artista de tarimba e um homem de caráter.



   

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

HERÓIS EM AÇÃO: ASA NOTURNA




    Chegado o momento de se emancipar do seu taciturno mentor, Dick Grayson trocou a identidade de Robin pela de Asa Noturna. Não foi, porém, o primeiro a usar esse nome. Tão-pouco deixou de ser um dos principais aliados de Batman, a quem substituiu em algumas ocasiões.

Nome original da personagem: Nightwing
Primeira aparição (como Asa Noturna): Tales of the Teen Titans nº44 (julho de 1984)
Criadores: Marv Wolfman (história) e George Pérez (arte)
Licenciadora: DC Comics
Identidade civil: Richard John "Dick" Grayson
Parentes conhecidos: John e Mary Grayson (pais falecidos); Bruce Wayne (pai adotivo); Damian Wayne, Jason Todd, Tim Drake e Cassandra Cain (irmãos adotivos que, tal como ele, assumiram no passado o manto de Robin)
Afiliação: Ex-líder dos Novos Titãs; ex-membro dos Graysons Voadores, dos Renegados e da Liga da Justiça (como Batman); membro ativo da Corporação Batman
Base de operações: Gotham City e Chicago (onde passou a operar já depois do início de Os Novos 52!)
Armas, poderes e habilidades: Mesmo antes de ser treinado pelo Cavaleiro das Trevas, Dick Grayson era já um atleta e acrobata prodigioso ao serviço dos Graysons Voadores. Às suas extraordinárias aptidões físicas acresce o domínio de diversas artes marciais: boxe, capoeira, aikido, ninjitsu, esgrima, etc.
    Dono de um quociente de inteligência superior à média, Asa Noturna possui elevadas capacidades de análise e dedução, apenas superadas pelas do seu antigo precetor.  É também um mestre da estratégia, do disfarce e do escapismo, além de um líder nato e experimentado. Fascinado pela informática, com o tempo desenvolveu as suas competências nesse campo ao ponto de se tornar um  hacker genial. Decorrendo da refinada educação que lhe foi proporcionada por Bruce Wayne, Dick Grayson é fluente em vários idiomas: inglês, francês, espanhol, russo, mandarim, japonês, entre outros.
     Dentre o equipamento que habitualmente utiliza no combate ao crime, destaca-se o seu traje à prova de bala e de fogo. Confecionado com várias camadas de kevlar e nomex, o uniforme do Asa Noturna já teve três versões: originalmente era azul escuro com luvas e botas azuis claras, sobressaindo uns motivos dourados no peito e ombros; no segundo, mais elaborado, continuou a predominar o azul escuro, mas o azul claro das botas e das luvas foi substituído pelo dourado; na sua terceira variante, a cor predominante passou a ser o preto com uma asa estilizada em azul claro (cor que deu lugar ao vermelho em  Os Novos 52!) espraiando-se pelo peito, ombros e braços do herói.
     Shurikens em forma de asas e bastões de esgrima feitos de um polímero virtualmente inquebrável são as armas de eleição de Asa Noturna. Como meios de transporte, a preferência do ex-pupilo de Batman vai tanto para uma variante do célebre Batmóvel equipada com tecnologia ultrassofisticada como para o Wingcycle (motociclo com características especiais e sidecar acoplado).

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Tales of the Teen Titans #44 (1984) assinalou a estreia de Asa Noturna.

Predecessores: Em janeiro de 1963, nas páginas de Superman Vol.1 #158, numa história intitulada Superman in Kandor, foi introduzida uma nova personagem denominada Asa Noturna. Tratava-se, com efeito, de um alter ego usado pelo Homem de Aço nas suas ocasionais visitas à cidade engarrafada de Kandor (metrópole sobrevivente à destruição de Krypton). Despojado dos seus superpoderes sob o sol vermelho artificial de Kandor, o herói ( acompanhado por Jimmy Olsen) é confundido com um fora de lei. Inspirando-se nos seus encontros com o Duo Dinâmico, resolve então criar disfarces que lhe permitiriam a ele e ao seu parceiro manterem as suas identidades secretas enquanto atuavam como vigilantes mascarados. A escolha dos respetivos nomes - Asa Noturna e Pássaro Flamejante (Nightwing e Flamebird, na versão original) - derivou de duas espécies de aves kryptonianas.
     Com a ajuda do seu velho amigo Nor-Van, Kal-El converteu o laboratório subterrâneo e o veículo deste em réplicas, respetivamente, da Batcaverna e do Batmóvel.
   Anos depois, em Superman Family #183 (maio/junho de 1977), foi a vez de Van-Zee (um primo distante de Kal-El) e o seu amigo Ak-Var assumirem as identidades de Asa Noturna e Pássaro Flamejante, dando assim continuidade ao legado de Super-Homem e Jimmy Olsen.
     Antes, porém, fora publicada em World's Finest #143 (agosto de 1964), uma história que reunia ambos os Duos Dinâmicos, a qual marcou para sempre o Menino Prodígio. Quando este decidiu sair da sombra de Batman, adotou o nome Asa Noturna em homenagem à personagem original.

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Asa Noturna (Super-Homem) e Pássaro Flamejante (Jimmy Olsen) foram o Duo Dinâmico de Kandor na cronologia DC pré-Crise nas Infinitas Terras.
    No entanto, após Crise nas Infinitas Terras, foi convencionado que o Super-Homem não estaria ciente da existência de Kandor e, portanto, jamais teria operado como Asa Noturna. Este adquiriu o estatuto de personagem mitológica. Nesta nova versão, Asa Noturna teria sido um indivíduo que, num passado remoto, perdera a sua família e, em consequência desse facto, empreendera uma vida devotada à proteção dos fracos e oprimidos. Depois de ter ouvido esta narrativa da boca do Homem de Aço, Dick Grayson ficou fascinado por ela e decidiu tomar o nome para si quando saiu da sombra de Batman.

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Saindo de baixo da asa do morcego.

Biografia: Órfão na sequência de um ato de sabotagem ordenado por um mafioso que pretendia extorquir dinheiro ao proprietário do circo onde atuavam os Graysons Voadores, Dick Grayson foi perfilhado pelo multimilionário Bruce Wayne. Vendo no garoto um reflexo de si mesmo, Bruce revela-lhe o seu maior segredo (ele e Batman são a mesma pessoa) e convida-o a juntar-se a ele na sua cruzada contra o crime. Nascia assim Robin, o Menino Prodígio*.
    Aos 17 anos, Robin (num sinistro prenúncio para a tragédia envolvendo, anos depois, o seu sucessor) foi baleado no ombro pelo Joker. Temendo pela vida do seu pupilo, Batman afasta-o das suas atividades de combate ao crime, procurando dessa forma resguardá-lo dos perigos. Frustrado pela situação, ao fim de um único semestre, Dick abandona a faculdade. Decisão que merece forte reprovação por parte do seu tutor.
    Entretanto, a antiga Turma Titã (coletivo que reunia originalmente os parceiros juvenis de diversos heróis seniores) foi refundada e renomeada como Novos Titãs**. Robin assume a liderança do grupo sediado em Nova Iorque, sobrando assim ainda menos espaço e tempo para os seus compromissos para com o Cavaleiro das Trevas e Gotham City.
   Ao lado dos Titãs, Dick recuperou a sua autoestima, ao mesmo tempo que aumentava o fosso que o separava de Batman. Por fim, este comunicou-lhe que, caso não desejasse continuar a ser seu parceiro, teria  de renunciar ao uniforme de Robin.
    Perante esta exigência do seu mentor, Dick desiste de ser o Menino Prodígio e também da liderança dos Titãs (a qual transita para a Moça-Maravilha). Já depois de abandonar a Mansão Wayne, Dick equaciona a hipótese de pôr um ponto final na sua carreira super-heroica.
    Nesta fase conturbada da sua vida, Dick encontrou respaldo emocional em Estelar, à data sua namorada e uma das novas integrantes dos Titãs.
   Durante uma conversa com o Super-Homem, este dá-lhe a conhecer uma antiga lenda do seu mundo natal: um proscrito que se converteu num herói chamado Asa Noturna. Inspirado pela narrativa, Dick decide adotar o nome da personagem para o seu novo alter ego.
   Quando todos os outros Titãs são capturados pelo Exterminador e entregues à organização criminosa C.O.L.M.E.I.A. (eventos ocorridos na saga O Contrato de Judas), Dick debuta como Asa Noturna e, com a ajuda do seu novo aliado Jericó, consegue resgatá-los.
    Nem tudo, porém, foram rosas. Se, por um lado, Dick logrou emancipar-se de Batman, a sua liderança dos Titãs logo seria posta à prova quando ele foi submetido a uma lavagem cerebral pelo Irmão Sangue. Ficaria também em xeque a sua relação com Estelar, quando a princesa alienígena foi forçada a casar-se com um compatriota por motivos políticos. Seria, contudo, a trágica morte de Jason Todd (o segundo Robin) às mãos do Joker a deixá-lo profundamente abalado.

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O visual original de Asa Noturna...
...e a sua versão mais recente.
 
   Estando ainda por sanar antigas feridas na relação entre Dick Grayson e Bruce Wayne, a rutura entre ambos consumar-se-ia na sequência da descoberta por parte do primeiro de que o homem responsável pela morte dos seus pais, ao contrário do que o segundo o levara a crer, estava afinal vivo, embora em coma.
   Algum tempo depois, Dick foi abordado por Tim Drake, um adolescente que afirmava saber as identidades secretas dele e de Bruce Wayne.  Tim exortou Dick a reassumir o manto de Robin, porquanto a morte de Jason Todd mergulhara Batman numa vertiginosa espiral de vingança e autodestruição. Dick recusa-se a fazê-lo, mas convence Bruce a treinar Tim para ser o próximo Menino Prodígio.
    Seguiram-se tempos tumultuosos ao lado dos Titãs, marcados por um frenético vaivém de membros e pela quase capitulação da equipa perante a infame Sociedade Gnu.Uma vez mais, a liderança de Asa Noturna foi testada, tendo o herói demonstrado estar à altura dos desafios.
    No campo sentimental, num impulso para tentar salvar a sua fragilizada relação com Estelar, Dick pediu-a em casamento. A cerimónia seria, porém, interrompida por Ravena (outra Titã, dada como morta tempos atrás), agora renascida como um avatar do seu maligno pai, o demónio Trigon. Em resultado do ataque místico empreendido por Ravena, Estelar teve implantada nela uma semente demoníaca que a obrigou a abandonar a Terra para uma longa jornada espiritual. Ela e Dick foram-se distanciando progressivamente um do outro, culminando com o regresso da princesa alienígena a Tamaran (o seu mundo natal).

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Antes de se lançar numa carreira a solo, Asa Noturna viveu assombrosas aventuras ao lado dos Novos Titãs.

    Após a Queda do Morcego (quando Bane deixou Batman paralítico), Asa Noturna regressou a Gotham para assumir temporariamente o manto do seu antigo mentor. As muitas mágoas e divergências mútuas vieram, contudo, à superfície. Ambos conseguiram, não obstante, reconstruir a relação de quase pai e filho que os unira no passado. Paralelamente, a ausência do seu líder precipitou a dissolução dos Novos Titãs. Facto que abriria caminho a uma carreira a solo de Asa Noturna nos anos subsequentes.
   Nessa nova etapa da sua vida, Dick desenvolve um relacionamento sério com Barbara Gordon (ex-Batgirl). O casal chega a anunciar o noivado. O qual é, no entanto,desfeito quando Dick resolve acompanhar Bruce Wayne numa jornada de conhecimento (eventos ocorridos na minissérie 52).
    Na sequência da sua fugaz aliança com os Renegados, Asa Noturna refunda os Titãs, novamente como líder. Esta nova encarnação da equipa, congregando vários dos seus membros originais, não sobrevive contudo à morte de Donna Troy (ex-Moça-Maravilha). Em seu lugar surge uma nova formação de Titãs que inclui antigos elementos da Justiça Jovem. Asa Noturna escolhe, porém, não participar nela.
    Entretanto, Bruce Wayne decide adotar legalmente Richard Grayson como seu filho e herdeiro legítimo. Uma macabra coincidência considerando que, não muito tempo volvido, Batman seria dado como morto. Com a criminalidade em Gotham a disparar para níveis estratosféricos, Alfred e Robin (Tim Drake) pressionam Dick a assumir o manto do morcego. O que ele, inicialmente, se recusa a fazer. O ponto de viragem ocorre quando Dick descobre que o novo e sanguinário vigilante a operar nas ruas da cidade é, na verdade, Jason Todd. Ultrajado pela mácula que o antigo Robin está a verter sobre o legado de Batman, Dick põe de lado as suas hesitações e transforma-se no novo Cavaleiro das Trevas. Substituindo Tim Drake por Damian Wayne (filho biológico de Bruce) no papel de Robin, Dick devolve alguma paz e segurança a Gotham City.
    Regressado ao presente após uma longa deriva pelo fluxo temporal, Bruce Wayne canaliza os seus vastos recursos financeiros para a criação de um projeto global denominado Corporação Batman. O objetivo consiste em recrutar outros Homens-Morcegos por todo o planeta, que poderiam dar continuidade ao legado do Cavaleiro das Trevas caso este morresse. Dick, entretanto, continua a atuar como Batman em Gotham City e passa a fazer parte da Liga da Justiça.
    No âmbito das alterações introduzidas no Universo DC por Os Novos 52!, os eventos que levaram Dick Grayson a tornar-se o Robin foram exatamente os mesmos, com a diferença de que isso aconteceu quando ele tinha quinze anos de idade, envergando agora uma versão mais moderna do seu icónico uniforme. A transformação em Asa Noturna ocorreria um pouco mais tarde do que na versão primitiva: aos vinte anos, Dick resolve tentar uma carreira independente, muda-se para um modesto apartamento num bairro problemático de Gotham e passa a operar sob o codinome Asa Noturna. O seu uniforme é agora preto e vermelho, denotando o seu comportamento uma maior agressividade.

* Informação detalhada sobre Robin em  http://bdmarveldc.blogspot.pt/2013/12/herois-em-acao-robin.html
** Mais pormenores sobre os Novos Titãs em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2013/03/herois-em-acao-novos-titas_30.html

Longe vão os tempos do traje colorido de Menino Prodígio.

Notas:
* Em fevereiro de 1984, Dick Grayson fez a sua derradeira aparição como Robin em The New Teen Titans #39 (o mesmo sucedendo com Wally West como Kid Flash);
* No arco de histórias Year 3, os leitores ficaram a saber que Dick conheceu Tim Drake (o terceiro Robin) quando ainda fazia parte dos Graysons Voadores. O pequeno Tim era um grande fã da malograda família de acrobatas circenses e idolatrava Dick (com quem, de resto, fez questão de ser fotografado). Esse facto levaria Tim, anos mais tarde, a deduzir as verdadeiras identidades do Duo Dinâmico;
* Dick Grayson herdou um fundo de investimento após a morte dos pais. Graças às aplicações financeiras feitas por Lucius Fox (associado de Bruce Wayne), o referido fundo converteu-se numa pequena fortuna. Embora esta seja incomparavelmente inferior à do seus antigo tutor, permite-lhe financiar não só as suas atividades como Asa Noturna como também lhe possibilitou a aquisição dos direitos do Circo Haly (onde cresceu), que enfrentava o risco de penhora devido ao acúmulo de dívidas, além do prédio de apartamentos onde reside, em Gotham City;
* Aparentemente, Dick tem um fraquinho por ruivas, tendo em conta que as suas duas grandes paixões (Estelar e Barbara Gordon) tinham essa cor de cabelo.

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O fim de uma era em The New Teen Titans #39 (1984).
 
Noutros media: Em 2013, Asa Noturna quedou-se num notável quinto lugar no Top 25 Heroes of DC Comics elaborado pelo site IGN. Um episódio da série animada The New Batman Adventures (1997-99), intitulado Sins of the Father, assinalou a estreia da personagem no pequeno ecrã. Com maior ou menor preponderância, participou em anos recentes em diversas outras produções do género, entre as quais se destacam Young Justice: Invasion (2012) e no filme de animação com lançamento direto em DVD Batman: Under the Red Hood (2010).
    São feitas referências a Asa Noturna em três filmes do Homem-Morcego:  em Batman Para Sempre (1995),  Dick Grayson (Chris O'Donnell) sugere esse nome no momento de escolher uma identidade secreta para adjuvar o Homem-Morcego no combate ao crime. Já em Batman & Robin (1997), saltam à vista as semelhanças entre o uniforme usado por Robin (ainda interpretado por O'Donnell) e o de Asa Noturna nos comics.
   Por fim, em O Cavaleiro das Trevas Renasce (2012), o detetive John Blake (encarnado por Joseph Gordon-Levitt) exibe um distintivo policial onde é claramente visível a asa estilizada que serve de símbolo ao Asa Noturna.
   Circulam atualmente rumores acerca de planos para a produção de uma série televisiva baseada no ex-líder dos Titãs.

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Asa Noturna em The New Batman Adventures.