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sexta-feira, 4 de março de 2016

HEROÍNAS EM AÇÃO: ESTELAR




   Fez parte do fabuloso naipe de personagens propositadamente criadas pela dupla Wolfman/Pérez para impulsionar os Novos Titãs, em cujas fileiras conheceu o amor da sua vida. Princesa de um mundo paradisíaco, escolheu a Terra como lar adotivo, assim poupando o seu povo a um fatídico destino.

Nome original: Starfire
Licenciadora: DC Comics
Criadores: Marv Wolfman (história) e George Pérez (arte conceitual)
Primeira aparição: DC Comics Presents nº26 (outubro de 1980)
Identidade civil: Koriander (também conhecida, na Terra, como Kory Anders)
Espécie: Alienígena humanoide
Local de nascimento: Planeta Tamaran
Parentes conhecidos: Rei Myander (pai), Rainha Luander (mãe), Komander (irmã), Ryander (irmão), Príncipe Karras (marido falecido) e General Ph'yzzon ( segundo marido, também falecido)
Afiliação: Ex-integrante dos Novos Titãs, dos Renegados e da Liga da Justiça da América
Base de operações: Ao serviço dos Novos Titãs, Estelar operou a partir da Torre Titã (Nova Iorque) e da Ilha Titã (ao largo da costa de São Francisco). Atualmente, não dispõe de uma base de operações fixa.
Armas, poderes e habilidades: Como todos os nativos de Tamaran, a fisiologia de Koriander foi concebida para absorver a radiação ultravioleta e convertê-la em pura energia, permitindo-lhe dessa forma voar a velocidades supersónicas. Originalmente, ela conseguia usar esse poder para deslocar-se no espaço sideral. No entanto, a sua versão moderna, saída de Os Novos 52, é incapaz de fazê-lo sem os efeitos da gravidade.
   Além da capacidade de voo, o seu poder atávico confere-lhe igualmente força e resistência sobre-humanas que a habilitam a rivalizar com pesos-pesados do Universo DC, como a Mulher-Maravilha.
   Depois de ter sido submetida a experiências de bioengenharia conduzidas pelos Psions, Estelar adquiriu a capacidade de canalizar a radiação ultravioleta absorvida pelo seu organismo sob a forma de poderosas rajadas energéticas. Recentemente, já demonstrou, também, ser capaz de libertar de uma só vez toda a energia acumulada numa espécie de pequena explosão solar que a deixa completamente exaurida.
  Treinada pelos mestres guerreiros de Okaara, Estelar é uma exímia combatente, proficiente em diversas artes marciais. Dispõe ainda de outro talento inato na sua espécie: o de assimilar instantaneamente outros idiomas por via do contacto físico com os respetivos falantes. Tratando-se de representantes do sexo masculino, ela prefere desencadear o processo através de um beijo - por ser mais divertido.
Fraquezas: Emocionalmente instável, Estelar, habitualmente dócil e altruísta, tende a reagir violentamente quando se sente de alguma forma ameaçada. Na época em que fazia parte dos Novos Titãs, esses ocasionais acessos de fúria deixavam um rasto de destruição à sua volta e só eram aplacados por Dick Grayson.


Após a sua estreia em DC Comics Presents Nº26 (1980),
Estelar teve a sua origem revelada em Tales of  the New Teen Titans nº4 (1982).

Conceção: Admitindo ter empregado elementos de personagens preexistentes na conceção do visual de Estelar, George Pérez (perfil já publicado neste blogue) recorda como tudo se processou: "Baseando-me na descrição de Estelar que me foi fornecida por Marv Wolfman, deduzi que ele teria em mente uma espécie de versão espacial de Red Sonja (personagem detida pela Marvel Comics). Usei, por isso, a guerreira ruiva como principal modelo. Certo dia, porém, enquanto trabalhava nos esboços da Estelar, Joe Orlando (outro ilustrador ao serviço da DC), espreitou por cima do meu ombro e comentou que ela deveria ter o cabelo mais comprido. Achei uma excelente ideia e tratei logo de desenhá-la com uma farta juba, cujo efeito em voo foi inspirado no rasto colorido deixado pelo Mighty Mouse (personagem animada também conhecida como Super Mouse). Desta curiosa miscelânea de influências resultou uma das mais carismáticas heroínas da nona arte. .
  Importa ainda sublinhar que Estelar foi uma das três personagens propositadamente criadas pela dupla Wolfman/Pérez para lançar a nova geração de Titãs. Cyborg e Ravena foram as outras duas, ao passo que Mutano (Changeling, no original) transitou da Patrulha do Destino (Doom Patrol) para os Novos Titãs, completando assim o contingente de debutantes na rediviva série.


Red Sonja (em cima) e Mighty Mouse foram
 as duas principais inspirações para o visual de Estelar

Biografia: Localizado no longínquo sistema estelar Vegan, Tamaran é um idílico planeta governado pelas emoções. Todos os seus habitantes nascem com a capacidade de voar graças à absorção de energia solar.
  Filha do meio dos monarcas Myander e Luander, a princesa Koriander cresceu feliz e despreocupada. Tudo mudou, porém, quando foi chamada a substituir a sua irmã mais velha na linha de sucessão ao trono. Por causa de uma rara deficiência contraída na infância, Komander (vulgo Estrela Negra) perdeu a capacidade de voar, sendo, por isso, preterida no seu direito dinástico. Contrariedade que acirrou nela um profundo rancor em relação a Koriander.
   Quando as duas irmãs foram enviadas para treinar técnicas de combate corpo a corpo sob os auspícios dos mestres guerreiros de Okaara, Komander aproveitou um dos exercícios para tentar matar Koriander. Infâmia que teve como consequência a sua expulsão de Tamaran. Antes, porém, da sua partida para o exílio, Komander jurou vingança.

Komander, a malévola irmã de Koriander, 
também conhecida como Estrela Negra.

    Promessa que ganharia expressão pouco tempo depois, quando Komander forneceu informações detalhadas acerca do sistema de defesa de Tamaran aos seus arqui-inimigos da Cidadela.
   Após a capitulação de Tamaran, a princesa Koriander foi entregue pela sua irmã mais velha como escrava, servindo assim de moeda de troca para impedir a destruição do planeta. No armistício que o Rei Myander foi obrigado a celebrar com a Cidadela, incluía-se uma cláusula que proibia o regresso de Koriander a Tamaran, sob pena de desencadear novo conflito entre os dois mundos.
   Tratada como uma mercadoria, Koriander passou por vários pontos da galáxia ao longo dos anos seguintes. Anos marcados pela servidão e por todo o tipo de abusos que a mudariam para sempre.
   Quando Koriander tirou a vida a um dos seus algozes, Komander resolveu executá-la pessoalmente. No entanto, ambas foram atacadas e sequestradas pelos Psions, uma raça alienígena de cientistas sádicos, especializados em bioengenharia.
  Submetidas a sinistros experimentos científicos, as duas irmãs conseguiram escapar devido à distração causada pelo ataque das forças de Komander à base dos Psions. Usando a sua recém-adquirida capacidade de disparar rajadas energéticas, Koriander libertou Komander, que ainda estava a absorver energia. Gesto compassivo que a vilã retribuiu usando as suas novas habilidades (idênticas às de Koriander, porém mais potentes) para subjugar a irmã.
   O calvário da princesa só chegaria ao fim quando conseguiu escapar do seu cativeiro a bordo de uma espaçonave roubada. Perseguida por caças da Cidadela, Koriander entrou na órbita da Terra, onde foi recapturada. Sendo, porém, prontamente libertada graças à intervenção dos Titãs, equipa de jovens super-heróis liderada por Robin (Dick Grayson). Por quem Koriander se enamorou desde o primeiro momento em que o viu, embora essa paixão assolapada tenha demorado a ser correspondida pelo antigo Menino-Prodígio.

Jogos mortais entre irmãs nas páginas de The New Teen Titans nº23 (1982).

  Verdadeira refugiada das estrelas, impedida de regressar ao seu mundo natal, Koriander fez da Terra o seu lar adotivo e, sob o codinome Estelar, juntou-se aos Novos Titãs. Ao lado dos quais viveu inúmeras aventuras e desventuras, encontrando em Donna Troy (a Moça-Maravilha) uma irmã afetiva.
  Por conta dos seus impressionantes atributos físicos, Koriander chegou a trabalhar algum tempo como modelo fotográfico, usando o pseudónimo Kory Anders, ao mesmo tempo que dividia um apartamento com Ravena e Donna Troy.

Com os Novos Titãs, Estelar viveu dias felizes na Terra.

   À semelhança da maioria das personagens que compõem o Universo DC, Estelar teve a sua história reescrita em Os Novos 52. Na nova versão da sua origem, as manas Koriander e Komander eram inseparáveis até ao dia em que viram os seus pais serem mortos e o seu planeta devastado pela Cidadela. Entronizada com apenas 14 anos, Komander teve de vender Koriander como escrava para manter a paz com os seus inimigos.
   Após vários anos de escravidão, Koriander conseguiu escapar e regressou a Tamaran. Com a ajuda de alguns antigos companheiros de cativeiro, libertou o seu mundo natal do jugo da Cidadela. Incapaz de perdoar a irmã pelas agruras sofridas, Koriander ofereceu-se para ser embaixadora do seu povo. Missão que serviu apenas de pretexto para uma solitária peregrinação sua pelos rincões da galáxia. Jornada interrompida quando a nave em que seguia se despenhou na Terra.
  Agora conhecida como Estelar (e com um visual remodelado), Koriander envolveu-se romanticamente com Dick Grayson. Quando, por motivos ainda por explicar, o casal se separou, Estelar isolou-se numa ilha tropical. Foi lá que conheceu Jason Todd (o Capuz Vermelho), com quem fundaria os Renegados. Aparentemente, as suas memórias dos Novos Titãs foram totalmente apagadas.

O novo figurino de Estelar em Os Novos 52.
 

Relacionamentos amorosos: Enquanto membro dos Novos Titãs, Koriander viveu um tórrido romance com o líder da equipa (Dick Grayson, o Asa Noturna), de quem chegou a ficar noiva. Quando os dois pombinhos resolveram dar o nó, tiveram a cerimónia de casamento arruinada por Ravena, que matou o padre antes que este pudesse declará-los marido e mulher.
   No entanto, Koriander já foi casada duas vezes, ambas em Tamaran. O primeiro enlace (com o Príncipe Karras) precedeu a sua vinda para a Terra e serviu para selar um tratado de paz. Karras morreria pouco tempo depois em combate, deixando Koriander precocemente viúva.
   Anos depois, após a sua separação de Dick Grayson, a heroína alienígena foi obrigada a desposar o impiedoso General Phy'zzon. União sem amor que terminou abruptamente com a morte de Phy'zzon às mãos do Devorador de Sóis.
   Em tempos mais recentes, Estelar teve um affair inconsequente com o Capitão Cometa, cujos  fortes sentimentos por ela nunca foram correspondidos.

Asa Noturna e Estelar: amor interespécies.

Nota adicional: Pese embora a inclusão de Estelar nos cânones da DC remonte ao período que precedeu Crise nas Infinitas Terras, a sua existência permaneceu intacta na nova continuidade da editora. Não obstante, alguns elementos da história da personagem foram alterados ou removidos, devendo, por isso, ser considerados apócrifos.

Estelar, princesa e guerreira de um mundo distante.

Noutros media: Na lista dos 25 maiores heróis do Universo DC, elaborada em 2013 pelo IGN, Estelar ocupava a 21ª posição. Nesse mesmo ano, a curvilínea princesa de Tamaran foi eleita pelo Comics Buyer's Guide como a vigésima mulher mais sensual dos quadradinhos, num universo de cem candidatas.
  Ainda com reduzida expressão no panorama audiovisual, a estreia televisiva de Estelar verificou-se em 2003, ano em que foi para o ar a primeira de cinco temporadas da série animada Teen Titans. Sempre com papel de relevo, a heroína marcaria depois presença em New Teen Titans (2011-14) e em Teen Titans Go! (2013-15).
  Após várias participações irrisórias em filmes de animação baseados na mitologia da DC, Estelar estará finalmente em primeiro plano em Justice League versus Teen Titans, com data de lançamento prevista para 29 deste mês. Segundo consta, Koriander será retratada como o membro mais velho dos Novos Titãs e líder do grupo.

Longe da sensualidade que sempre foi a sua imagem de marca,
 Estelar surgiu assim retratada em Teen Titans.



sexta-feira, 15 de maio de 2015

DO FUNDO DO BAÚ: "O CONTRATO DE JUDAS"




   Caçados um a um por um novo e implacável inimigo, os Titãs perdem a inocência depois de provarem o fruto amargo da insídia. Coincidindo com fase áurea da equipa de jovens heróis, a saga, tectónica e polémica, continua a ser considerada uma das melhores de sempre.

Título original: The New Teen Titans: The Judas Contract
Ano: 1984
Licenciadora: DC Comics
Argumento: Marv Wolfman e George Pérez
Arte: George Pérez, Dick Giordano, Romeo Thangal, Mike DeCarlo e Adrienne Roy
Personagens principais: Titãs (Estelar, Ravena, Asa Noturna, Mutano, Cyborg e Moça-Maravilha); Exterminador, Terra, Jericó e C.O.L.M.E.I.A.
Coadjuvantes: Adeline Kane; Sarah Simms; Terry Long; W.R. Wintergreen; Renegados (Batman, Raio Negro, Halo, Metamorfo, Katana e Geoforça) 
Títulos abrangidos nos EUA: Tales of the Teen Titans nº42 a 44 (maio a julho de 1984) e Tales of the Teen Titans Annual nº3 (julho do mesmo ano)

Os quatro capítulos da saga.

VERSÃO EM PORTUGUÊS

Editora: Abril 
Títulos abrangidos no Brasil: Os Novos Titãs nº 18 a 20 (outubro a novembro de 1987) e Clássicos DC (reedição da saga lançada em 1992 pela mesma editora)
Na minha coleção desde: 1988


Reedição da saga com a chancela da Abril em 1992.

Histórico: Saga composta por quatro partes, O Contrato de Judas foi originalmente publicada nos EUA nos números 42 a 44 da série regular dos Titãs - Tales of the New Teen Titans -, de maio a julho de 1984. Com o respetivo epílogo a ser narrado, nesse mesmo mês, nas páginas de Tales of the Teen Titans Annual nº3.
  Escrita e editada por Marv Wolfman e George Pérez (ver texto anterior), foi também este último a presidir à equipa de ilustradores responsáveis pela arte da saga. Nesse naipe de desenhadores de primeira grandeza, pontificavam, além de Pérez, Dick Giordano, Romeo Thangal, Mike DeCarlo e Adrienne Roy.

 Pérez & Wolfman:  Duo Dinâmico.

   Quatro anos decorridos, em 1988, a saga seria compilada no volume encadernado New Teen Titans: The Judas Contract. Entre os leitores, este arco de histórias é quase unanimamente citado como o clímax do trabalho desenvolvido por Wolfman e Pérez com os Titãs. O Contrato de Judas é, com efeito, o corolário de uma complexa filigrana narrativa que começou a ser trabalhada com a precisão de um ourives, logo no segundo número da primeira série de New Teen Titans. Nessa edição, datada de dezembro de 1980, foram introduzidas duas das personagens-chave da trama: o mercenário conhecido como Exterminador e a organização terrorista com projetos de dominação mundial autodenominada C.O.L.M.E.I.A.

New Teen Titans nº2 (1980), marcou a estreia do Exterminador e plantou as sementes para O Contrato de Judas.

   Esta narrativa é significativa por várias razões. Em primeiro lugar, porque dá a conhecer a origem secreta do Exterminador, muito provavelmente o mais notório némesis dos Titãs. Depois, porque explana os termos do contrato que vincula o mercenário à C.O.L.M.E.I.A. Com a destruição desta última a ser revelada pouco tempo após o desfecho da saga, em Tales of the Teen Titans nº45 a 47.
   Terra, a comparsa do Exterminador na ignomínia que visa subjugar os Titãs, fora, por sua vez, introduzida em New Teen Titans nº26. Depois de se ter tornado assídua nas aventuras da equipa, a irmã caçula de Geoforça acabaria por ser admitida nas suas fileiras.Apenas para se revelar um cavalo de Troia  plantado por Slade Wilson, com quem mantinha um relacionamento íntimo. Residindo, aliás, neste elemento transgressor um dos aspetos mais controversos da história: o envolvimento sexual entre um homem de meia-idade e uma adolescente de apenas 16 anos. Inevitavelmente, algumas mentes mais puritanas (ou poluídas) viram aqui um despudorado incentivo à pedofilia.

Terra Markov, a maçã podre.


  Adeline Kane (ex-mulher de Slade Wilson) e Joey Wilson (o segundo filho do casal) são outras duas adições importantes na trama e na própria continuidade dos Titãs. Na sequência dos eventos narrados na saga, Joey assume a identidade de Jericó e torna-se membro de pleno direito da equipa. À sua mãe ficaria, por outro lado, reservado o papel de coadjuvante regular nas histórias vindouras dos Titãs.
  Outro marco histórico apresentado no decurso da saga consiste na primeira aparição de Dick Grayson como Asa Noturna (vide prontuário da personagem já publicado neste blogue).
  Com tão suculentos ingredientes, estava, assim, encontrada a receita para um épico dos tempos modernos. Nada voltaria a ser como antes na vida dos Titãs após a conclusão desta tectónica saga, com a assinatura daquela que foi, sem sombra de dúvida, uma das mais formidáveis duplas criativas da história da nona arte: Marv Wolfman e George Pérez.

Asa Noturna, Exterminador e Jericó: três personagens nucleares da trama.
    
Enredo: A história começa pouco tempo depois de Dick Grayson (Robin) e Wally West (Kid Flash) abandonarem as respetivas identidades heroicas com que se haviam notabilizado ao lado dos seus precetores, afastando-se também ambos da equipa de que haviam sido cofundadores. Entretanto, a mais recente aliada dos Titãs, Terra Markov, não tendo ainda obtido o estatuto de membro de pleno direito do grupo, conquistara já o coração e a mente de Mutano. Nenhum dos seus colegas suspeitava, porém, que ela os estivesse a espiar a mando do Exterminador, seu comparsa e amante. Entre a diversificada informação que a jovem vinha transmitindo ao vilão, incluíam-se as identidades secretas dos Titãs.
  O primeiro sinal de alerta em relação a Terra surgiu durante a realização de um treino de campo da equipa. Após ter sido alvo de várias brincadeiras de Mutano, a jovem lançou sobre ele um violento ataque que só por milagre não o deixou incapacitado para o resto da vida. Semelhante demonstração de instabilidade emocional deixa os restantes membros inquietos. É, no entanto, Ravena quem, graças aos seus poderes empáticos, diagnostica o real grau de perigosidade da rapariga.

O fim da inocência dos Titãs chegou com a traição de um dos seus.
  Uma vez recolhida toda a informação de que necessitava, Terra transmite-a ao Exterminador, que logo empreende uma meticulosa caçada aos Titãs. Na mira do mercenário começa por estar a cobertura onde residem Donna Troy (Moça-Maravilha) e Koriander (Estelar). A primeira é deixada inconsciente devido à exposição a uma mistura de gases tóxicos, ao passo que a segunda é neutralizada pela deflagração de uma bomba disruptora.
  Na lista de alvos a abater segue-se Cyborg. Victor Stone é deixado fora de combate depois de receber uma descarga elétrica de alta voltagem ao sentar-se numa cadeira no seu apartamento, previamente armadilhada pelo Exterminador. Mesmo sem causar danos de monta no herói cibernético, o ataque desativa-lhe os circuitos por tempo suficiente para o Exterminador o capturar.
  Único Titã sem superpoderes, Dick Grayson revela-se uma verdadeira dor de cabeça para o Exterminador. Surpreendido pela astúcia da sua presa, o mercenário não consegue evitar que ele escape.
  Frustrado, o Exterminador atravessa a cidade no encalço de Mutano. E nem precisa mexer um dedo para capturar o benjamim dos Titãs. Depois de lamber um selo embebido em veneno, o jovem ficara inconsciente e pronto a ser recolhido pelo vilão.

Fazendo uso dos ensinamentos de Batman, Dick Grayson logra escapar ao Exterminador.

 Com cinco dos seis Titãs capturados, o Exterminador viaja até à base secreta da C.O.L.M.E.I.A., localizada nas Montanhas Rochosas. Satisfeito por ter cumprido o contrato que fora celebrado pelo seu filho mais velho, Grant, o mercenário não evita ser repreendido pelos seus empregadores, agastados com a fuga do líder do grupo.
  Entretanto, após descobrir que todos os seus companheiro foram sequestrados, Dick Grayson regressa à Torre Titã. À sua espera tem Adeline Kane, a ex-esposa de Slade Wilson. Esta apresenta-o então ao filho mais novo do casal, Joey. De seguida, a mulher faz uma revelação bombástica: Terra é uma espia infiltrada nos Titãs pelo Exterminador.
  Incrédulo num primeiro instante, Dick acaba por acreditar nas palavras de Adeline, depois de esta lhe relatar as circunstâncias que estiveram por trás da transformação do ex-marido no Exterminador. Surdo-mudo de nascença, Joey é também um mutante com a habilidade de possuir outras pessoas. Ressentido com o  pai, o jovem está ansioso por ajudar Dick a derrotá-lo.
  Consciencializando-se de que não lhe será possível abandonar a sua carreira heroica a título definitivo, Dick assume uma nova identidade: Asa Noturna. Joey, por seu turno, está pronto para entrar em ação sob o codinome Jericó. Ambos partem para o resgate dos Titãs assim que recebem de Adeline as coordenadas do quartel-general da C.O.L.M.E.I.A.

Mutano apaixonou-se pela rapariga errada.
   Asa Noturna e Jericó infiltram-se na base secreta da organização e logo descobrem que os Titãs estão ligados a uma estranha máquina que lhes drena lentamente a energia vital. Confrontados por uma horda de agentes da C.O.L.M.E.I.A., os dois heróis acabam também capturados.
   Atónito por ver o seu filho aliado aos Titãs, o Exterminador procura negociar a sua libertação com a C.O.L.M.E.I.A. Perante a recusa desta e a hesitação do mercenário, Jericó aproveita o ensejo para possuir o próprio pai.
   Usando o corpo e o arsenal do Exterminador, Jericó consegue libertar os Titãs, liquidando de caminho diversos operacionais da C.O.L.M.E.I.A. Terra tem um acesso de fúria ao presenciar a cena, por considerar que a afeição de Slade ao filho o enfraquece. Completamente descontrolada, a jovem lança um ataque massivo com o objetivo de matar todos à sua volta. Apesar disso, Mutano, ainda enamorado dela, recusa-se a acreditar na malícia de Terra, sugerindo que o Exterminador lhe terá feito uma lavagem ao cérebro.
  Num crescendo de loucura e raiva, Terra provoca o desabamento do teto das instalações, ficando soterrada pelos destroços. Com os Titãs escaparem por um triz de idêntico destino.
   De volta a Nova Iorque, os Titãs realizam o funeral de Terra. À cerimónia fúnebre, além deles, apenas comparecem os Renegados. Geoforça, irmão mais velho da malograda jovem, é levado a acreditar que ela perdeu a vida de forma heroica.


Fúria telúrica.

Vale a pena ler?
   
   Atendendo ao facto de que estamos em presença de uma das melhores sagas da história da DC e da nona arte, a resposta à pergunta acima só poderá ser um rotundo "sim.". Devendo, portanto, ser considerada leitura obrigatória para qualquer fã dos Titãs e/ou do trabalho conjunto de Marv Wolfman e George Pérez.
  Dos variadíssimos pontos de interesse da narrativa, começo por destacar um em particular: a clareza desde o início das perversas intenções de Terra. Contrariamente ao que seria expectável, o leitor nunca duvida que ela irá trair os seus companheiros de equipa. Tornando-se, assim, uma testemunha ocular das maquinações em curso nos bastidores da intriga. Quem lê a história pela primeira vez é, ainda assim, induzido a acreditar num possível volte-face da personagem, abrindo desse modo caminho para um desfecho redentor. Esperanças, contudo, infundadas, pois a má índole da pequena Judas prevalece até ao fim.
  Outro ponto interessante, também relacionado com Terra, é a sua idade. Mesmo não sendo surpreendente que uma saga estrelada por heróis juvenis conte com uma personagem de apenas 16 anos, não deixa ser assinalável a sua erotização. Se à luz dos padrões morais da atualidade um romance entre uma adolescente e um homem com idade para ser seu avô é suscetível de reprovação social, imagine-se o impacto do mesmo três décadas atrás. Espanta-me, aliás, como terá esse e outros elementos da história (como o facto de Terra surgir várias vezes a fumar e a beber) passado no crivo da Comics Code Authority. 


Terra e Exterminador: farinha do mesmo saco.
  
  Creio que, ao invés do que fizeram com o Exterminador - apetrechando-o com um código de honra e um peculiar sentido de humor - Wolfman e Pérez nunca quiseram suavizar os traços do (mau) caráter de Terra, por forma a torná-la um pouco mais simpática aos olhos dos leitores.
  Fluida e dinâmica, a escrita de Marv Wolfman é igualmente competente na formulação dos diálogos e na caracterização das personagens. Conquanto se trate de uma história de super-heróis e supervilões, a cada um deles é atribuída uma personalidade consistente com a de pessoas de carne e osso. Wolfman tem ainda o mérito de evitar sucessivas recapitulações da história, quase inevitáveis quando a mesma é contada em capítulos interpolados por um mês.
  Focando-me agora na arte da saga, sou suspeito na minha apreciação da mesma, na medida em que George Pérez é um dos meus desenhadores preferidos. Dito isto, apenas posso classificar de esplêndido mais este seu trabalho. Realço particularmente o seu esmero em retratar de forma distinta a fisionomia e a personalidade de cada um dos protagonistas. Embora subtis, são percetíveis as diferenças nas suas expressões faciais e maneirismos. Notável também a capacidade de Pérez de acumular vários painéis numa só página sem, contudo, a deixar confusa. Sendo essa, de facto, uma das suas marcas registadas, como ficou comprovado em Crise nas Infinitas Terras.
  Um dos aspetos mais memoráveis da passagem de Wolfman e Pérez pelos Titãs, foi o sentimento e humanismo infundidos nas histórias do grupo. O Contrato de Judas pode muito bem ter sido o melhor exemplo disso, robustecendo por essa via o seu valor literário. Mesmo se perspetivada como uma clássica narrativa com super-heróis, a saga distingue-se pela sua profundidade e dramatismo.
  Motivos mais do que suficientes para me orgulhar de ter esta magnífica pérola da nona arte na minha coleção e para recomendar a sua leitura aos iniciados neste saudável vício de ler banda desenhada de qualidade.

Os Titãs sobreviveram à traição de Terra, mas nada voltaria a ser como dantes.