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quinta-feira, 12 de julho de 2018

RETROSPETIVA: «JUSTICEIRO - ZONA DE GUERRA»



  Nesta sua terceira ofensiva  cinematográfica -  a primeira sob o estandarte Marvel Knights - o mais implacável dos anti-heróis venceu a batalha contra um dos seus arqui-inimigos mas perdeu a guerra das bilheteiras. Polémico e violento como o seu protagonista, o filme pagou o preço de ter sido feito a pensar nos fãs.

Título original: Punisher: War Zone 
Ano: 2008
País: EUA e Canadá
Duração: 103 minutos
Género: Ação
Produção: Lionsgate e Valhalla Motion Pictures
Realização: Lexi Alexander
Argumento: Art Marcum, Matt Holloway e Nick Santora
Distribuição: Lionsgate Films e Marvel Studios
Elenco: Ray Stevenson (Frank Castle / Justiceiro), Dominic West (Billy Russotti / Retalho), Julie Benz (Angela Donatelli), Colin Salmon (Paul Budiansky), Doug Hutchison ( James Russotti), Dash Mihok (Martin Soap) e Wayne Knight (Linus Lieberman  / Microship)
Orçamento: 35 milhões de dólares
Receitas: 10,1 milhões de dólares

A sequela que virou reboot

Em fevereiro de 2004, dois meses antes da chegada aos cinemas de The Punisher, a Lions Gate Entertainment  surpreendeu meio mundo ao anunciar a sua intenção de produzir uma sequela. Avi Arad, presidente-executivo dos Estúdios Marvel, chegou mesmo a vangloriar-se de que essa seria a quinta franquia cinematográfica baseada na mitologia da Casa das Ideias.
Também o realizador Jonathan Hensleigh sinalizou o seu interesse em dirigir o segundo capítulo da saga do Justiceiro no grande ecrã. Personagem que Thomas Jane se mostrara entretanto disponível para voltar a encarnar. Numa entrevista concedida, por aqueles dias, a uma publicação especializada, o ator chegou mesmo a confidenciar que The Punisher 2 teria o Retalho como vilão principal.
Contudo, por conta da dececionante prestação de The Punisher, o projeto para a realização de uma sequência direta seria deixado em banho-maria nos três anos seguintes. Período durante o qual Jonathan Hensleigh escreveu um primeiro rascunho do guião, que deixou para trás quando resolveu bater com a porta, em meados de 2006.
Nesse mesmo ano, John Dahl foi sondado para ocupar a vaga deixada por Hensleigh, mas as negociações não chegaram a bom porto. Ao que consta, o realizador terá ficado desagradado com a fraca qualidade do enredo, e mais ainda com a recusa dos produtores em abrirem os cordões à bolsa.
Meses depois, em maio de 2007, Thomas Jane seguiria as pisadas de Dahl, invocando os mesmíssimos motivos. Com efeito, após ler o novo guião, da autoria de Kurt Sutter, o ator teve o seguinte desabafo no decorrer de uma entrevista radiofónica: "Aquilo que eu nunca farei é desperdiçar meses da minha vida a dar o litro por um filme em que não acredito. Adoro os tipos da Marvel e desejo-lhes as maiores felicidades. Entretanto, continuarei à procura de projetos que não me venham a causar embaraços no futuro." 
Poucas semanas volvidas sobre estas declarações de Jane, os Estúdios Marvel anunciaram os nomes do novo realizador e do novo ator principal: respetivamente, Lexi Alexander (uma jovem cineasta germânica) e Ray Stevenson (ator nascido na Irlanda do Norte que, até aí, apenas numa ocasião fora cabeça de cartaz). De caminho foi ainda anunciado que o filme não seria afinal uma sequela, mas sim um relançamento da franquia do Justiceiro.

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Ray Stevenson e Lexi Alexander foram os eleitos
 para dar um novo elã ao Justiceiro.
Esta seria, de facto, a segunda tentativa nesse sentido, na medida em que The Punisher fora, também ele, um reboot da longa-metragem homónima de 1989, protagonizada por Dolph Lundgren.
Provisoriamente intitulado Punisher: Welcome Back, Frank, o projeto seria entretanto renomeado de Punisher: War Zone. Com a respetiva rodagem a ter lugar na cidade canadiana de Montreal, entre outubro e dezembro de 2007.
A estreia, essa, ficou agendada para 12 de setembro de 2008. O filme acabaria, no entanto, por chegar aos cinemas norte-americanos apenas três meses depois, em dezembro desse mesmo ano. Somada a esse inopinado adiamento, a ausência de Lexi Alexander na ComicCon de San Diego aquando da divulgação do primeiro trailer oficial de Punisher: War Zone deu azo a rumores acerca de uma eventual demissão da realizadora, o que a própria se apressaria a desmentir.
Numa entrevista concedida em 2015, Lexi Alexander reconheceu terem havido, no entanto, conflitos criativos com a Lionsgate e que não foi da sua responsabilidade a edição final da película. Não obstante, a realizadora declarou-se muito feliz com a sua obra e desvalorizou as reações adversas que a mesma suscitou por parte do público e da crítica. "Foi o preço a pagar por ter honrado o meu compromisso de fazer um filme a pensar nos fãs", atalhou Alexander.
Punisher: War Zone teve ainda a particularidade de ser o primeiro filme a ostentar o selo Marvel Knights. À semelhança do que já acontecia na banda desenhada, a ideia era apostar em personagens menos conhecidas e em temáticas vocacionadas para uma audiência madura. Em 2012, Ghost Rider 2 seria a segunda - e, até à data, última - produção emanada desse projeto.


Retalho, as cicatrizes do ódio

Um dos mais antigos e perigosos inimigos do Justiceiro, Retalho fez a sua estreia em outubro de 1976, nas páginas de Amazing Spider-Man nº161. Len Wein e Ross Andru foram os seus criadores e crismaram-no originalmente de Jigsaw por ser esse o nome dado em inglês aos quebra-cabeças cujas peças, quando corretamente encaixadas, formam uma imagem. Processo em tudo semelhante àquele que os cirurgiões levaram a cabo para reconstruir a face estraçalhada do vilão após o seu dramático confronto com Frank Castle.
Antes da sua transformação em Retalho, Billy Russo era um brutal assassino ao serviço do sindicato internacional do crime conhecido como Maggia. Devido à sua boa aparência, Billy fora alcunhado pelos seus pares de O Belo, sendo também um dos sicários de eleição do poderoso clã Costa. Foi precisamente nessa sua qualidade que Billy teve participação indireta no massacre da família de Frank Castle, que testemunhara acidentalmente a execução sumária de membros de um clã rival dos Costas.

Billy Russo (Earth-616) from Punisher Year One Vol 1 4 001

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Em cima: Billy Russo antes
 da sua horrivel transformação no Retalho.

Após uma tentativa falhada de liquidar o Justiceiro, Billy foi por ele confrontado num clube noturno e acabou por atravessar de cabeça um enorme painel de vidro. Apesar de ter sobrevivido aos graves ferimentos infligidos, Billy teve o seu rosto horrivelmente desfigurado.
Mais sádico do que nunca, Billy passou a responder apenas por Retalho e a usar a sua hedionda aparência para aterrorizar as suas vítimas. Jurou também vingar-se do Justiceiro e em diversas ocasiões ficou muito perto de consumar esse desejo.
Além de ser um atirador exímio e um assassino de sangue-frio, Retalho possui também uma extraordinária tolerância à dor, que faz dele um osso duro de roer em combates mano a mano.

 Microchip, o (in)fiel escudeiro tecnológico

Criação de Mike Baron e Klaus Janson, Microchip foi introduzido nas histórias do Justiceiro em The Punisher Vol.1 nº4 (novembro de 1987).
De seu nome verdadeiro David Linus Lieberman, Microchip foi em tempos engenheiro de armamento e é um prodígio da informática. Atributos que foram de grande valia para um Justiceiro em início de carreira, de quem Microchip se tornou uma espécie de escudeiro tecnológico na sua sangrenta cruzada contra o crime.
Originalmente, Microchip era apenas o sujeito a quem Frank Castle recorria sempre que necessitava de algum tipo de equipamento especial para executar uma missão. Após a morte do seu filho, David Lieberman assumiu, porém, um papel mais ativo na guerra privada do Justiceiro contra a Máfia nova-iorquina.

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Microchip foi o que de mais parecido
 com um amigo o Justiceiro alguma vez teve.
Sem nunca negligenciar a componente logística, Microship usava simultaneamente os seus talentos informáticos para, entre outras coisas, piratear os servidores da Máfia ou para branquear o dinheiro confiscado pelo Justiceiro a narcotraficantes.
Mesmo sem possuir o sangue-frio de Castle, foi Microchip quem, em vários momentos, impediu o colapso emocional do Justiceiro. Quando este ficou descontrolado e embarcou numa espiral mortífera, Microchip manteve-o em quarentena e arranjou um substituto para patrulhar as ruas de Nova Iorque.
Por mais bem-intencionadas que tenham sido as ações do seu aliado, aos olhos do Justiceiro tratou-se de uma traição imperdoável. Sentimento que nem a morte de Microchip  às mãos de um bandido amenizou.
Estava prevista a participação de Microchip no anterior filme do Justiceiro com Thomas Crane (já aqui esmiuçado), mas a antipatia visceral do realizador Jonathan Hensleigh pela personagem ditou a sua exclusão da versão final do enredo.

Sinopse

Há cinco anos que o Justiceiro vem travando uma guerra sem quartel contra as famílias mafiosas de Nova Iorque. E, como em qualquer guerra, os danos colaterais são inevitáveis.
Certa noite, depois de invadir o palacete do "padrinho" Gaitano Cesare e de chacinar todos os seus asseclas e convidados, o Justiceiro mata por engano um agente infiltrado do FBI chamado Nicky Donatelli.
No meio do caos instalado, Billy "O Belo" Russotti, um dos lugares-tenentes de Cesare, consegue escapar com vida. O Justiceiro parte de imediato no seu encalço, acabando por encurralá-lo numa fábrica de reciclagem.
Após um breve tiroteio, Billy cai numa gigantesca moedora de vidro. Sem pestanejar, o Justiceiro aciona o mecanismo e Billy, apesar de sobreviver, tem o seu rosto retalhado.

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A última ceia do clã Cesare.
Agora rebatizado de Retalho, Billy e os seus homens libertam o mais novo dos irmãos Russotti, que se encontrava trancafiado num hospício devido aos seus atos de canibalismo.
Enquanto isso, o agente Paul Budiansky, ex-parceiro de Nicky Donatelli, junta-se ao Destacamento Especial da Polícia de Nova-Iorque que tem como missão capturar o Justiceiro. Com a ajuda do detetive Martin Soap (o outro único membro do referido destacamento), Budiansky começa a investigar o passado de Frank Castle ficando atónito com as centenas de mortes com assinatura do Justiceiro.
Consternado com a morte de Donatelli, o Justiceiro procura, em vão, reparar a perda sofrida pela viúva e pela filha do agente. As trágicas consequências das suas falhas levam-no a querer colocar um ponto final na sua campanha contra o crime organizado, mas é demovido de fazê-lo por Microchip, o seu braço-direito.
Retalho e a sua trupe invadem a casa da família Donatelli e raptam a viúva e a filha do agente acidentalmente assassinado pelo Justiceiro. Quando este se prepara para resgatá-las é detido pelo agente Budiansky. É, contudo, ajudado a fugir pelo detetive Soap e consegue libertar as reféns. Os irmãos Russotti são, entretanto, presos por Budiansky.

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Habituado a rir-se da Justiça,
Retalho aprendeu a não se rir do Justiceiro.
Depois de negociarem com o FBI a sua imunidade total em troca de informações acerca de um carregamento biológico encomendado pela Máfia russa, os irmãos Russotti saem em liberdade e não perdem tempo em vingar-se do Justiceiro.
Os dois invadem o esconderijo do Justiceiro onde se encontravam refugiadas a mulher e a filha do agente Donatelli e voltam a sequestrá-las, assim como a Microchip. O grupo serve de engodo para atrair o Justiceiro para uma cilada montada com a ajuda de várias quadrilhas com contas a ajustar com Castle.
Por entre uma intensa chuva de balas, o Justiceiro consegue tomar de assalto um dos pisos do hotel onde Retalho e seus aliados se encontram acantonados, deixando uma pilha de cadáveres à sua passagem.
Após um violentíssimo combate corpo a corpo com o irmão de Retalho, o Justiceiro vê-se perante um dilema: salvar a vida de Microchip ou das reféns.
Quando Retalho mata Microchip com um tiro na cabeça, o Justiceiro investe furiosamente sobre o vilão, acabando por trespassá-lo com uma vara metálica antes de atirar o seu corpo moribundo para o meio das labaredas que consumiam o vestíbulo do hotel.
Perdoado pela viúva de Donatelli, o Justiceiro arrepia caminho acompanhado pelo detetive Soap que o tenta convencer a pôr fim à sua carreira como vigilante urbano. Soap muda, no entanto, rapidamente de ideias ao ser abordado por um assaltante armado, o qual é prontamente ceifado por um tiro certeiro do Justiceiro.

Trailer



Curiosidades

*Para estar à altura de um papel tão exigente no capítulo físico, Ray Stevenson submeteu-se a um rigoroso programa de treino militar ministrado pelos Fuzileiros Navais dos EUA;
*Da boca de Ray Stevenson não sai uma única palavra nos primeiros 25 minutos do filme. No restante tempo, o ator improvisou várias falas graças ao seu profundo conhecimento das histórias originais do Justiceiro que serviram de base ao enredo;
*Martin Soap, o detetive da polícia nova-iorquina aliado de Castle, é uma personagem retirada de Welcome Back, Frank, série que em abril de 2000, após um longo hiato, marcou o regresso do Justiceiro aos quadradinhos pela mão da dupla criativa Garth Ennis e Steve Dillon, Já Paul Budiansky, o agente do FBI apostado em capturar o Justiceiro, fora introduzido em 2007 na saga Widowmaker inclusa no sétimo volume de The Punisher;
*Palco do confronto final entre o Justiceiro e Retalho, o Hotel Bradstreet é uma homenagem a Timothy Bradstreet, um dos mais aclamados capistas de The Punisher;

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Justiceiro sob o traço de Tim Bradstreet.
*Dominic West despendia diariamente três horas na sala da caracterização: duas para colocar as próteses faciais do Retalho, e outra para removê-las. Experiência que, em entrevistas posteriores, o ator jurou não mais querer repetir;
*À semelhança do Joker em Batman (1989), Billy Russotti é um gângster psicótico que, depois de ficar desfigurado, assume o comando do clã mafioso para o qual trabalhava. A par de Sin City (2005), especula-se que o filme do Cavaleiro das Trevas dirigido por Tim Burton poderá ter sido uma das principais referências para Punisher: War Zone;
*Ex-campeã de karaté e ex-dupla de cinema, a realizadora Lexi Alexander participou, lado a lado com Ray Stevenson, nos treinos de tiro ao alvo sob a orientação de um ex-instrutor das Forças Especiais norte-americanas;
*Mais de 120 armas de diferentes tipos foram utilizadas na rodagem do filme, ao longo do qual o Justiceiro é responsável por 81 mortes;
*Por considerá-lo pueril, Lexi Alexander pretendia descartar o símbolo da caveira na indumentária do Justiceiro. Enfrentou. contudo, a feroz oposição dos fãs que, ao invés, exigiam que o símbolo fosse mais percetível do que no filme anterior. O resultado final foi uma caveira esbatida, em tudo semelhante àquela que, quatro anos antes, Thomas Jane ostentara em The Punisher;
*A par da trilogia de Blade, The Punisher: War Zone é um dos poucos filmes baseados no panteão da Marvel que não contam com uma pequena participação de Stan Lee. Isto porque o antigo mestre-de-cerimónias da Casa das Ideias não teve qualquer envolvimento na conceção do Justiceiro (criado em 1974 por Gerry Conway, John Romita Sr. e Ross Andru);
*Na cena final do filme, quando o detetive Soap está a tagarelar sozinho e é abordado por um assaltante armado num parque fronteiro a uma igreja, o letreiro de néon onde se podia ler "Jesus Saves" ("Jesus Salva") apaga-se parcialmente, deixando apenas visível a palavra "Saves", quando o Justiceiro abate o meliante que intimidava o seu amigo.

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Anjo vingador.

Veredito: 60%

Desde que, na viragem do milénio, os grandes estúdios de Hollywood perceberam enfim o enormíssimo potencial monetário e as imensas possibilidades de experimentação no campo das adaptações de super-heróis ao cinema, os espectadores têm sido brindados com sucessivas levas desse material.
Uma grande percentagem dessas obras pouco ou nada acrescenta, porém, à cultura cinematográfica. Quanto muito, limitam-se a servir generosas doses de alienação. Não obstante, se olharmos para lá dos compromissos sociais e políticos e das viciadas abordagens puramente ideológicas, poderemos identificar algumas de apurada constituição formal e estética, embora quase nunca narrativa.
Vejam-se, a título exemplificativo, os visualmente estupendos Sin City (2005) e Watchmen (2009). De permeio surgiu, por entre balas, sangue e violência extrema, este Justiceiro - Zona de Guerra, o terceiro - e, na minha modesta opinião, o melhor - filme baseado naquele que é um dos mais carismáticos e controversos anti-heróis da banda desenhada.
Sob a competente batuta de Lexi Alexander, a película mostra elementos inovadores, abordados com menor intensidade ou até mal trabalhados em produções anteriores, os quais terão sido diminuídos por uma filosofia em que as questões morais prevaleciam. Ora, é precisamente neste ponto que Justiceiro - Zona de Guerra se assume como revolucionário ao apresentar um Frank Castle decalcado dos quadradinhos e, logo, intrinsecamente amoral.
Tal como o Motoqueiro Fantasma ou Spawn, o Justiceiro é o epítome de um anti-herói exterminador que, apesar de alguns resquícios de humanidade, é implacável com aqueles que considera culpados.
Em harmonia com essas suas idiossincrasias de viés fascizante, tanto o protagonista como o filme, mercê do seu conteúdo ideológico, são rancorosos, amorais e insaciáveis de sangue. O princípio da ação pela situação é, assim, a linha-mestra no desenvolvimento narrativo. Com a história a assentar em três vetores: o trágico passado de Frank Castle, o sadismo de Retalho e a precária relação do Justiceiro com a família da sua vítima inocente.
O argumento é, pois, de uma simplicidade quase desconcertante: um homem, ao ter a sua família assassinada, busca vingança matando qualquer criminoso que lhe cruza o caminho. Apesar dessa premissa básica, a hábil direção de Lexi Alexander evita as armadilhas em que normalmente caem filmes de registo idêntico. Isto ao mesmo tempo que pisca o olho a grandes clássicos de ação dos anos 1980, como Rambo ou  Exterminador Implacável.
Mesmo que não se lhe reconheçam outros méritos, Justiceiro - Zona de Guerra é a prova provada que os filmes de ação e violência baseados nos comics atraem um público muito específico. Isto, porém, tem o seu preço: o inevitável apocalipse nas bilheteiras.
Sem esquecer, no entanto, que é deste material de risco que é feito o cinema contemporâneo onde a originalidade é um bem cada vez mais escasso. Talvez, por isso, o futuro deste tipo de adaptações passe, não pelos grandes estúdios, mas por produções independentes.
Se são fãs do Justiceiro e, por descaso ou preconceito, ainda não viram este filme, façam um favor a vocês mesmos: ignorem as críticas corrosivas que o fizeram naufragar e vejam-no. Quem sabe não ficarão agradavelmente surpreendidos como eu fiquei?

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quinta-feira, 8 de junho de 2017

GALERIA DE VILÕES: MERCENÁRIO



  Devido aos seus talentos únicos, é um dos mais cotados assassinos do submundo nova-iorquino. Quase sempre uma sentença de morte para os seus alvos, as suas sangrentas credenciais incluem duas ex-namoradas do Demolidor, por quem desenvolveu uma perturbadora obsessão. 

Denominação original: Bullseye (vocábulo inglês que designa o centro de um alvo e, por extensão, qualquer lançamento ou disparo que o atinja)
Licenciadora: Marvel Comics
Criadores: Marv Wolfman (história) e John Romita Sr. (arte conceitual)
Estreia: Daredevil #131 (março de 1976)
Alter egos: Lester,  Benjamin Poindexter e Leonard
Local de nascimento: Queens, Nova Iorque
Parentes conhecidos: Kingmaker (pai, falecido), mãe não-identificada; Nathan (irmão, falecido), os Wilkerson (família de acolhimento)
Ocupação: Assassino a soldo
Base operacional: Nova Iorque
Afiliações: Ex- soldado do Exército dos EUA; ex-operacional da NSA (sigla inglesa para Agência de Segurança Nacional); ex-membro do Tentáculo, dos Vingadores Sombrios e dos Thunderbolts; ex-sicário do Rei do Crime*, do Homem Púrpura e de Mysterio. 
Armas, poderes e habilidades: Atendendo ao caráter único dos seus talentos, especulou-se durante algum tempo que o Mercenário poderia ser um mutante. Sucessivas análises ao seu ADN refutariam contudo essa hipótese.
Apesar da sua natureza humana, o Mercenário nasceu com uma pontaria quase infalível e com a assombrosa habilidade de lançar virtualmente qualquer objeto com a força e precisão suficientes para o converter num projétil letal. Nas suas mãos, uma simples carta de baralho pode servir para lacerar a garganta de uma pessoa. Outra das suas mais notórias proezas consistiu em matar alguém com um palito arremessado a uma distância de várias centenas de metros.
A sua letalidade decorre igualmente da sua proficiência no manuseamento de todo o tipo de armas. A despeito de ser um exímio franco-atirador, a sua preferência recai habitualmente sobre as de arremesso, como os shurikens ou as adagas sai. Antes da ressurreição de Elektra, o Mercenário gostava de exibir aquela que usara para empalar a ex-amante do Demolidor, apenas para provocar o herói.

Shurikens são as armas prediletas do Mercenário.

Com uma condição física equivalente à de um atleta olímpico, após ter ficado paralisado na sequência de uma queda ocorrida durante um confronto com o Demolidor, o Mercenário teve a sua fisiologia incrementada por implantes de adamantium. Além de lhe proteger os ossos de fraturas, o revestimento metálico permite-lhe a execução de manobras e acrobacias interditas ao comum dos mortais. Tendo o processo em causa sido conduzido pelo próprio Lorde Vento Negro (Lord Dark Wind, no original), o qual incluiu um tratamento herbáceo para prevenir os efeitos de uma eventual rejeição do organismo do Mercenário ao metal injetado.
Recorde-se, a este propósito, que Lorde Vento Negro foi o inventor do procedimento de implantação de adamantium. Foi aliás nas suas anotações incompletas que os cientistas do Programa Arma X se basearam para o aplicar a Wolverine, que só sobreviveu graças ao seu fator de cura mutante.
Em complemento a tudo isto, o Mercenário é também um mestre das artes marciais. Mesmo desarmado, é um adversário de respeito mesmo quando tem pela frente outros lutadores de alto gabarito.
Meticuloso, o Mercenário tem por hábito estudar até o mais ínfimo detalhe dos seus alvos: histórico familiar, boletim clínico, relacionamentos, habilidades, etc. Informação que utiliza depois para tentar antecipar os movimentos dos seus oponentes em combate. Não raro, essa compulsão extravasa o campo profissional e adentra a esfera pessoal, como sucedeu com Elektra, por quem, a exemplo do Demolidor, desenvolveu em tempos uma perturbadora obsessão.
Após sofrer um ferimento na cabeça, durante um brevíssimo período de tempo, o Mercenário conseguia pressentir telepaticamente a presença do Demolidor. Tão depressa como se manifestou, o referido poder desvaneceu-se sem deixar vestígios.

Cartada mortal.
Fraquezas: Recorrentemente diagnosticado como um perigoso psicopata com um pronunciado viés sádico, o Mercenário possui de facto uma mente volátil, o que o torna suscetível a surtos psicóticos quando perde as estribeiras. 
Mesmo quando balança entre a razão e a insanidade, o Mercenário aproveita o seu trabalho de assassino contratado para satisfazer a sua compulsão homicida e para levar a cabo a sua vingança pessoal contra o Demolidor.
É igualmente propenso a paranoias e a delírios esquizofrénicos. Como, de resto, ficou demonstrado na ocasião em que, de tão obcecado com o Demolidor, se convenceu ser ele próprio o Homem Sem Medo. Ou quando passou a vislumbrar o rosto do herói em qualquer pessoa com quem se cruzava. Em ambos os casos, os seus distúrbios psíquicos foram preponderantes para a sua derrota.
Exames médicos posteriores revelariam, contudo, que os seus devaneios eram parcialmente causados por um tumor cerebral, que lhe foi entretanto cirurgicamente removido.
Ignora-se, por outro lado, se esse facto terá alguma correlação com o seu daltonismo, ou se essa sua condição será de origem genética. Certo é que, em determinados contextos, ela lhe pode causar constrangimentos, designadamente no que à identificação de um alvo diz respeito.
Por outro lado, apesar da sua mira quase perfeita, já denotou algumas dificuldades em atingir alvos em movimento.

Por vezes, a mente do Mercenário prega-lhe partidas.
Como quando passou a ver o Demolidor em cada rosto na multidão.
Histórico de publicação: Apesar de na sua primeira aparição, em Daredevil nº131 (março de 1976), o Mercenário ter sido desenhado por Bob Brown, os créditos da sua arte conceitual pertencem a John Romita Sr, que com o escritor Marv Wolfman** divide a "paternidade" da personagem.
Conhecido pelo seu sentido de humor torpe, o Mercenário parece divertir-se a ludibriar quem o investiga. Em 2004, a minissérie Bullseye: Greatest Hits propôs-se derramar alguma luz sobre o passado do vilão. Nela, ele afirmava chamar-se Leonard e relatou mesmo alguns pormenores biográficos. Mas logo se percebeu que boa parte deles (ou, quiçá, a totalidade) eram forjados.
No rescaldo de Civil War***, o escritor britânico Warren Ellis assumiu as histórias de Thunderbolts, incorporando o Mercenário no renovado elenco da equipa. Da qual, durante a saga Dark Reign (sequência direta de Secret Invasion), se transferiria para os Vingadores Sombrios. Assumindo nessa fase o codinome Gavião Arqueiro.

O Mercenário anuncia ao que vem em Daredevil nº131 (1976).
Ao mesmo tempo que se evidenciava em Dark Avengers, o Mercenário/Gavião Arqueiro protagonizou Dark Reign: Hawkeye, minissérie em 5 volumes com assinatura de Mark Diggle e Tom Raney. Ainda na sua qualidade de Vingador Sombrio, desempenhou papel crucial no crossover Dark Avengers/ Uncanny X-Men, publicado no verão de 2009.
Aparentemente morto pelo Demolidor em Shadowland nº1 (setembro de 2010), o Mercenário ressurgiria meses depois, nas páginas de Daredevil Vol.3 nº26. Apesar de ter milagrosamente sobrevivido aos graves ferimentos infligidos pelo seu velho inimigo, era agora um prisioneiro do próprio corpo. Quando finalmente recuperou a sua mobilidade, procurou vingar-se do Homem Sem Medo, acabando, no entanto, cego e desfigurado ao cair num tanque com resíduos radioativos.

Capa de Bullseye: Greatest Hits nº2 (2004), 
Origem: Quem se aventura a desvendar o mistério em que está envolto o passado do Mercenário corre o sério risco de se perder num labirinto de mentiras e enganos. Que o digam os agentes federais que, certa vez, o sujeitaram a um exaustivo interrogatório quando ele se encontrava confinado numa prisão de alta segurança.
Entre os vários elementos biográficos que o vilão lhes revelou, incluía-se a descrição da sua conturbada infância em Queens, na casa que compartilhava com o seu irmão mais velho e com o pai alcoólico que os molestava. E de como foi entregue aos cuidados de uma família de acolhimento depois de o seu irmão ter ateado fogo à casa numa tentativa fracassada de matar o progenitor.
No liceu, as suas habilidades inatas fizeram dele o astro da equipa de basebol, chegando mesmo a ser-lhe oferecida uma bolsa de estudo. Terá preferido, contudo, jogar nas ligas secundárias onde continuou a sobressair como exímio lançador.
Até ao dia em que aceitou um suborno para falhar todos os arremessos numa partida decisiva. Em resposta às provocações de um jogador adversário, alvejou-o na cabeça com a última bola do jogo, causando-lhe morte instantânea em plena quadra. Indiferente à comoção que varria as bancadas, terá exclamado alegremente "Bullseye!" ("Em cheio!", numa tradução adaptada).
Toda esta informação carece, porém, de confirmação. Tanto mais que o Mercenário já demonstrou ser uma fonte pouco confiável. Chegando mesmo a admitir ter inventado esta história apenas para zombar dos seus captores.

Terá o Mercenário passado ao lado
 de uma fulgurante carreira desportiva?
Certo é que, ao longo dos anos, ele apresentou outras versões dessa narrativa: numa delas, reconhecia ter sido ele o autor do incêndio que quase matara o pai; noutra, garantia tê-lo matado com um tiro na cabeça depois de lhe ter desenhado um alvo na testa enquanto ele dormia.
Alguns indícios sugerem, todavia, que, antes de empreender a sua carreira como assassino a soldo, o Mercenário terá sido um franco-atirador do Exército dos EUA, onde terá sido recrutado para a Agência de Segurança Nacional. Ao serviço da qual terá, alegadamente, viajado pelo mundo antes de ser dispensado com baixa desonrosa. Tudo porque terá, presumivelmente, usado os recursos da agência para montar um esquema de extorsão a narcotraficantes na Nicarágua. Quando este foi desmantelado pelo Justiceiro, o Mercenário desapareceu do radar.
Reapareceria algum tempo depois em Nova Iorque envergando já o seu icónico uniforme. A fim de publicitar os seus serviços de matador profissional, concedeu uma entrevista ao Clarim Diário, atraindo assim a atenção do Demolidor.
Depois de, num primeiro embate, ter levado a melhor sobre o Homem Sem Medo, sofreria uma humilhante derrota na segunda ocasião em que os dois mediram forças. Esse foi, aliás, o primeiro de muitos desaires às mãos do padroeiro da Cozinha do Inferno, tornando-o alvo de chacota nos meandros do submundo da Grande Maçã.
Apesar da mossa que isso causou na sua reputação, o Mercenário foi elevado a assassino-mor do Rei do Crime. Contudo, após nova temporada atrás das grades, ficou furioso ao descobrir que perdera o emprego para Elektra, a enigmática ninja que mantinha um tórrido romance com o Demolidor.



Um dos muitos duelos entre o Mercenário e o Demolidor.
Despeitado, o Mercenário confrontou Elektra, acabando por empalá-la com a sua própria adaga sai. Restaurada a sua reputação, o Mercenário recuperou o seu emprego na organização de Wilson Fisk. Mas foi sol de pouca dura.
Ávido de vingança pela morte da amada, o Demolidor derrotou uma vez o mais o Mercenário. No auge do combate, o vilão despencou do telhado de um prédio.
Paralisado numa cama de hospital e dependendo de um ventilador mecânico para respirar, seria de esperar que os seus dias de assassino contratado tivessem chegado ao fim. E, de facto, assim teria sido se Lorde Vento Negro, um cientista e senhor do crime japonês, não lhe tivesse infundido o esqueleto com adamantium.
Depois de uma curta estada no país do Sol Nascente ao serviço do seu benfeitor, o Mercenário regressaria a Nova Iorque para voltar a integrar a folha de pagamentos do Rei do Crime. O que, uma vez mais, o colocou na mira de um certo herói cego...

A morte de Elektra foi um dos pontos altos
da sangrenta carreira do Mercenário.

Miscelânea:

*Enquanto ao serviço do MARTELO (agência de contraterrorismo herdeira da SHIELD, que, entre outras coisas, tutelava os Vingadores Sombrios após os eventos de Invasão Secreta), ao Mercenário foi concedida uma autorização de segurança nível 5, a mais elevada no protocolo da instituição;
*Entre os mais insólitos objetos utilizados pelo Mercenário para matar alguém destacam-se um aviãozinho de papel, um caniche e até um dente que lhe fora arrancado durante uma zaragata, e que ele cuspiu como se de uma bala se tratasse;
*Amigos de longa data, Mercenário e Deadpool têm um passado em comum como soldados da fortuna e partilham praticamente o mesmo grau de insanidade mental;

Deadpool e Mercenário; almas gémeas.
*Prestes a ser executada a sangue-frio pelo Mercenário, Lindy Reynolds, a malograda esposa do herói conhecido como Sentinela, pediu-lhe, à laia de último desejo, que ele lhe revelasse o seu nome verdadeiro. Em resposta, o vilão apresentou-se simplesmente como Ben, numa possível referência a Benjamin Poindexter, o seu alter ego no Universo Ultimate, dimensão paralela povoada pelas versões revistas e atualizadas das principais personagens Marvel. À semelhança de quase todas elas, também o Mercenário teve a sua origem recontada;
*Além de Elektra e Karen Page, o Mercenário tentou matar também Milla Donovan, a ex-esposa (cega de nascença) de Matt Murdock. Na segunda ocasião em que o fez, foi detido pela Viúva Negra, também ela um antigo interesse amoroso do Demolidor;
*Aos olhos de muitos um émulo do Pistoleiro, são dois os aspetos essenciais que distinguem o Mercenário do seu homólogo da DC: a sua preferência por armas brancas e de arremesso em detrimento de armas de fogo, e a ausência de um espartano código de ética. Diferente do Pistoleiro, o Mercenário não tem pundonor em executar mulheres e crianças, tampouco separa negócios de assuntos pessoais.´

À falta de balas, o Mercenário
 pode usar um dente para tirar a vida a alguém.
Noutros segmentos culturais: Desde 2009 que o Mercenário ocupa um mui lisonjeiro 20º lugar na lista dos 100 melhores vilões da banda desenhada elaborada pela plataforma digital de entretenimento IGN. À frente, por exemplo, de outros expoentes de malignidade, como Ultron ou Venom.
Nos últimos anos tem sido também um habitué numa miríade de videojogos baseados no Universo Marvel. No mais recente, Marvel: Future Fight (2015), surge mesmo como personagem jogável.
Foi, no entanto, a sua passagem pelo grande ecrã que notabilizou o Mercenário junto do grande público. Em 2003, interpretado por Colin Farrell, o vilão teve papel de relevo em Daredevil, a primeira (e, até à data, única) longa-metragem do Homem Sem Medo.
Aproveitando a nacionalidade e o sotaque do ator escolhido para lhe dar vida, no filme o Mercenário tem raízes irlandesas. Surgindo também com roupagens muito diferentes daquelas que costuma usar nos quadradinhos. Em vez do tradicional uniforme azul e branco, o vilão enverga uma fatiota de cabedal de que nenhum gótico ou fã de heavy metal desdenharia. Não faltando, claro, o icónico alvo tatuado na fronte.
Tal como a sua contraparte dos comics, a versão cinematográfica do Mercenário tem nos shurikens a sua arma favorita, pese embora o seu arsenal inclua também pequenos objetos à primeira vista inócuos: clipes, cartas de baralho e até amendoins. Uma cena pós-créditos mostra-o, de resto, paralisado numa cama de hospital, sem que isso o impeça de usar uma agulha hipodérmica para empalar uma mosca sem contudo a matar. Murmurando depois, a custo, "Bullseye!". O que, neste contexto, poderá ser literalmente traduzido como "Na mosca!".

Colin Farrell emprestou o seu charme irlandês
ao Mercenário em Daredevil.

*Prontuário do Rei do Crime em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2015/09/galeria-de-viloes-rei-do-crime.html
**Perfil de Marv Wolfman em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2014/09/eternos-marv-wolfman-1946.html
***Resenha alargada de Guerra Civil em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/12/classicos-revisitados-guerra-civil.html



segunda-feira, 15 de agosto de 2016

EM CARTAZ: «O JUSTICEIRO»




  Exército de um homem só, o primeiro Justiceiro do século 21 sobreviveu ao confronto com um sanguinário senhor do crime, mas não à metralha de críticas negativas. De pouco lhe valendo o colete à prova de bala ou o facto de esta sua nova aventura cinematográfica ter sido baseada num par de obras antológicas que o consagraram nos quadradinhos.

Título original: The Punisher (subtitulado O Vingador, em Portugal)
Ano: 2004
País: EUA
Género: Ação/Aventura/Fantasia
Duração: 123 minutos (menos 17 do que na versão estendida lançada em formato DVD)
Produção: Marvel Enterprises, Valhalla Motion Pictures e Artisan Entertainment
Realização: Jonathan Hensleigh
Distribuição: Lions Gate Entertainment (EUA) e Columbia Pictures (resto do mundo)
Argumento: Jonathan Hensleigh e Michael France
Elenco: Thomas Jane (Frank Castle/Justiceiro); John Travolta (Howard Saint); Will Patton (Quentin Glass); Roy Scheider (Frank Castle, Sr.); Laura Harring (Livia Saint); Ben Foster (Spacker Dave), Rebecca Romijn (Joan) e Kevin Nash (O Russo)
Orçamento: 33 milhões de dólares
Receitas: 54,7 milhões de dólares

Crime e castigo: as duas faces da justiça.

Desenvolvimento: A ideia de levar novamente o Justiceiro ao grande ecrã começou a ganhar forma no princípio de 1997. Três anos depois, a Marvel celebrou um contrato de longa duração com a Artisan Entertainment (que já produzira em 1989 o primeiro The Punisher) com vista à adaptação de quinze das suas personagens ao cinema e à televisão. Lista que incluía aquele que era há muito um dos mais carismáticos anti-heróis dos quadradinhos. Estatuto que, à partida, fazia do Justiceiro um ativo em que valia a pena tornar a apostar.
Assim, em abril de 2002, foi oficializada a contratação de Jonathan Hensleigh para escrever e dirigir a nova aventura cinematográfica de Frank Castle. Argumentista traquejado, Hensleigh não possuía, contudo, qualquer experiência de realização. Mas nem por isso pensou duas vezes em aceitar o desafio.
Como principais referências para o seu enredo, Hensleigh selecionou duas histórias antológicas do Justiceiro: Welcome Back, Frank (ovacionada série mensal da autoria de Garth Ennis e Steve Dillon, originalmente publicada entre abril de 2000 e março de 2001) e The Punisher: Year One (minissérie composta por quatro volumes lançada nos EUA entre dezembro de 1994 e março de 1995).


Capas de Welcome Back, Frank nº1 (cima)
e de The Punisher: Year One nº1.
Hensleigh não se limitou, porém, a fazer uma colagem de elementos das sagas em questão. Empenhando-se, ao invés, na reinterpretação das motivações de Frank Castle. Sobre as quais teceu em tempos as seguinte considerações: "Tive de me questionar intensivamente sobre que tipo de crime hediondo cometido contra um indivíduo poderia levar mesmo quem repudia o vigilantismo a resolver fazer justiça pelas próprias mãos. Era essa a principal incógnita na minha equação. Foi por isso dei conta aos mandachuvas da Marvel que não era minha intenção filmar apenas uma história de vingança; queria apresentar a mãe de todas as histórias de vingança. Aprovada a minha ideia, tratei de reinventar vários dos aspetos da origem do Justiceiro, tornando-a ainda mais soturna e violenta. Exercício que muito me empolgou fazer."

Jonathan Hensleigh (esq.) e Thomas Jane.
A empolgação do cineasta esmoreceu consideravelmente quando, em vésperas do arranque das filmagens, lhe foi transmitido que o orçamento do projeto se quedaria pelos 33 milhões de dólares, dos quais somente 15,5 milhões se destinariam à produção propriamente dita. Ciente de que a maioria das fitas de ação dispunham de uma verba global a rondar os 64 milhões de dólares, Hensleigh não pôde deixar de sentir uma pontada de angústia. Pontada que se tornaria ainda mais aguda quando lhe foi apresentado o cronograma para as filmagens e pós-produção: 52 dias. Prazo que correspondia, sensivelmente, a metade do tempo alocado à maior parte das produções análogas.
Conforme é revelado nos comentários da edição em DVD de The Punisher, em consequência das restrições orçamentais e do apertado calendário, um significativo número de cenas inclusas na versão primitiva do enredo foram alteradas ou simplesmente eliminadas.
Por insistência do coargumentista Michael France, Tampa (cidade situada na costa oeste da Flórida) foi o local escolhido para acolher as filmagens. Para convencer os produtores das vantagens dessa localização, France fez-lhes notar que, além de sair mais barato filmar lá do que em Chicago ou Nova Iorque, Tampa providenciaria cenários ensolarados. Ora sucede que a cidade é extremamente propensa à ocorrência de repentinas e violentas intempéries. A despeito de as filmagens terem decorrido em meados de julho, desde 1890 que não havia registo de um verão tão chuvoso. Quadro meteorológico que, em larga medida, prejudicou a rodagem da película.
Além das já citadas sagas do Justiceiro, um sortido de filmes e de séries de ação dos anos 60 e 70 do último século serviram de inspiração a Jonathan Hensleigh: de Dirty Harry a The Godfather passando por Bonnie & Clyde, foram várias as influências que impregnaram o seu trabalho de realização. Numa entrevista concedida logo após a estreia de The Punisher, Hensleigh revelou ainda ter ido beber inspiração a Othello, tragédia literária que se conjetura ter sido escrita por William Shakespeare no ano de 1603. Surgindo no entanto as personagens em papéis revertidos, com Frank Castle a ser o catalisador do ciúme doentio que, no filme, leva Howard Saint a assassinar a sua esposa e o seu melhor amigo.
Com as filmagens em velocidade de cruzeiro, a Lions Gate interpôs um processo judicial à Artisan. Em consequência desse diferendo, não obstante a película ter sido distribuída sob a égide da Lions Gate, a verdade é que ela nada teve a ver com o projeto. Ao qual, aliás, nunca dera luz verde. Significando isto que, na prática, a "paternidade" deste The Punisher - tal como da película homónima de 1989 - pertence exclusivamente à Artisan.

Os criminosos podem rir da Lei,
mas não riem do Justiceiro.

Enredo: Quando Bobby Saint e Mickey Duka se encontram com o traficante de armas europeu Otto Krieg nas docas do porto de Tampa, o FBI intervém, daí resultando a morte do primeiro e a detenção do segundo. Também aparentemente morto no tiroteio, Krieg é na verdade um agente federal disfarçado chamado Frank Castle.
Pouco tempo depois desta operação, Castle demite-se do FBI e viaja com a sua esposa e filhos para a ilha de Porto Rico para participar numa reunião familiar em casa do seu pai, Frank Castle Sr.
A transbordar de ódio e rancor devido à perda do filho, o senhor do crime Howard Saint e o seu braço-direito Quentin Glass subornam agentes do FBI que lhes revelam a verdadeira identidade de Otto Krieg. De imediato Saint ordena o assassínio de Frank Castle, mas a sua esposa, Lívia, exige que toda a família Castle seja executada a sangue-frio, pois só assim as contas serão acertadas.
Em Porto Rico, a reunião do clã Castle é violentamente interrompida por um grupo de sicários a soldo de Howard Saint, no qual se inclui John Saint, o outro filho do mafioso, também ele ansioso por vingar a morte do seu irmão gémeo. Frank e o pai ainda conseguem abater alguns dos atiradores, antes de este último ser mortalmente atingido. 
Ao tentarem escapar do fogo cruzado, a mulher e os filhos de Frank são atropelados por um camião conduzido por John Saint. Alvejado no peito e atingido pelos estilhaços de uma explosão deflagrada por Glass, Frank é dado como morto após o seu corpo afundar nas águas da baía. 

O que move um homem a quem foi tirado aquilo que mais amava?
No entanto, Frank sobrevive milagrosamente, sendo resgatado por um pescador local que lhe providencia abrigo e faz o melhor que pode para lhe curar os ferimentos. Uma vez recuperado, o antigo agente federal e ex-operacional da Força Delta, regressa a Tampa, refugiando-se num edifício decrépito onde trava amizade com um trio de jovens inadaptados: Dave, Bumpo e Joan.
Naquele que será o primeiro capítulo da sua vingança, Castle rapta Mickey Duka, que de bom grado lhe fornece informações sobre a vida familiar e os obscuros negócios do clã liderado com mão de ferro por Howard Saint.
Entretanto, Frank caça, um por um, os agentes policiais e antigos colegas do FBI que, por fazerem parte da folha de pagamentos de Howard Saint, haviam dado por encerrada a investigação ao massacre da sua família. 
De seguida, é o próspero negócio de lavagem de dinheiro operado por Howard Saint a ficar na mira de Frank, que consegue mesmo sabotar a sua parceria com os irmãos Toro, dois mafiosos cubanos. Ao investigar Livia Saint e Quentin Glass, Frank descobre que este guarda segredo da sua homossexualidade.
À medida que os seus prejuízos se avolumam, Howard Saint deduz que Frank Castle permanece vivo e que é ele o responsável pela sabotagem dos seus negócios. Determinado em resolver o problema de uma vez por todas, Saint contrata dois assassinos profissionais para liquidar o seu obstinado inimigo.

O reinado criminoso de Howard Saint tem os dias contados.
Harry Heck, um falso guitarrista, é o primeiro a entrar em cena. Durante uma violenta refrega com Frank, acaba morto por ele com uma faca balística cravada no pescoço.
Segue-se o Russo, uma montanha de músculos com força e resistência descomunais, mas que acaba igualmente liquidado por Frank quando este lhe derrama óleo a ferver no rosto. Aproveitando a cegueira do seu adversário, Frank empurra-o por um lanço de escadas abaixo, partindo-lhe o pescoço.
Instantes depois, os homens de Saint acorrem ao local, liderados por Quentin Glass e John Saint. Dave, Joan e Bumpo escondem Frank, recusando-se a entregá-lo mesmo quando Glass tortura sadicamente o primeiro, arrancando-lhe vários dos seus piercings faciais com um alicate. 
Frustrados pela ausência de respostas, os malfeitores resolvem arrepiar caminho, deixando um dos seus companheiros para trás com ordens para matar Frank caso ele reapareça. Contudo, assim que Glass e os restantes abandonam o edifício, Frank mata o capanga e avança para a próxima fase do seu plano de retribuição.
Com a ajuda de Mickey Duka, Frank induz Howard Saint a acreditar que a sua mulher tem um caso com Quentin Glass. Ignorando a homossexualidade do seu lugar-tenente e descrente da fidelidade de Livia, Howard resolve matar ambos pessoalmente, sem que qualquer um deles compreenda o motivo.
Pouco tempo depois, Frank ataca o quartel-general de Howard Saint, um badalado clube noturno na baixa de Tampa. Do ataque resulta a morte de muitos dos asseclas de Howard, incluindo do seu filho John. 
Segue-se uma intensa troca de tiros no parque de estacionamento do clube, durante a qual Frank fere Howard Saint, amarrando-o de seguida pelos tornozelos ao para-choques de um automóvel. Antes de pôr o veículo em movimento, Frank conta-lhe que Livia e Glass nunca o haviam traído, e que tudo não passara de uma farsa por ele orquestrada. 
Enquanto o carro rodopia como um pião infernal pelo parque de estacionamento, arrastando consigo o corpo ensanguentado do vilão, Frank aciona vários engenhos explosivos que tinha plantado previamente. Processo que culmina com a morte de Saint e com o desenho flamejante da icónica caveira que serve de símbolo ao Justiceiro.

O Justiceiro é sinónimo de pena capital para os culpados.
Mais tarde naquela noite, Frank regressa ao seu modesto apartamento com a intenção de se suicidar. Mudando de ideias após ter uma fugaz visão da sua falecida esposa, que o encoraja a dar seguimento à sua campanha de punição a todos quantos se julgam acima da Lei. 
Antes de partir para a sua próxima missão, Frank deixa um saco de dinheiro que trouxera consigo do covil de Saint como um presente de agradecimento a Dave, Joan e Bumpo.
No cimo de uma ponte, banhado pela luz do crepúsculo, Frank faz o seu juramento solene: "Aqueles que fazem mal aos outros - assassinos, violadores, traficantes, psicopatas  - irão conhecer-me bem. Frank Castle está morto. Chamem-me Justiceiro!".

Trailer:




Prémios e nomeações: Nomeado em diversas categorias dos Taurus World Stunt Awards (galardão anual que, desde 2001, distingue as performances dos duplos de cinema), The Punisher saiu apenas vencedor na de Melhor Duplo de Fogo, prémio atribuído a Mark Chadwick.

Curiosidades:

* Apesar de ter sido a primeira escolha do realizador Jonathan Heinsleigh e do produtor Avi Arad para assumir o papel principal, Thomas Jane relutou em aceitá-lo. Após ter recusado um primeiro convite nesse sentido por não se considerar talhado para interpretar super-heróis, mudou de ideias graças à arte conceitual do Justiceiro desenvolvida por Timothy Bradstreet. Ilustrador cujo fabuloso trabalho em Blade II (2002) lhe valera reconhecimento internacional;
* Para corresponder aos exigentes requisitos físicos da personagem a quem, literalmente, aceitou dar corpo, durante sete meses Thomas Jane recebeu treino intensivo dos Navy Seals norte-americanos. Programa que, além da vertente atlética, incluiu também uma formação no manuseamento de vários tipos de armas. Em paralelo, o ator seguiu uma rigorosa dieta proteica que o ajudou a adquirir nove quilos de massa muscular em tempo recorde;
* Devido à deficiente divulgação feita pelas autoridades municipais de Tampa, as linhas de emergência foram entupidas com centenas de chamadas de moradores em pânico durante a rodagem de uma cena que incluía uma explosão junto à sucursal local do Bank of America;
* Ainda no campo dos incidentes, Thomas Jane esfaqueou acidentalmente Kevin Nash quando com ele contracenava - felizmente sem consequências graves. Tendo sido depois a vez de o próprio Thomas Jane sentir na pele o excesso de zelo de uma colega de representação. Numa cena em que deveria fingir suturar uma ferida a Frank Castle, Rebecca Romijn espetou-lhe, sem querer, a agulha no corpo;
* Foram propositadamente construídos para o filme cinco Pontiac GTO, dois dos quais acabariam totalmente destruídos. A opção por este modelo de automóvel foi justificada pela necessidade de marcar diferença em relação ao meio de transporte utilizado pelo Justiceiro na película de 1989. Recorde-se que Dolph Lundgren conduzia uma imponente Harley Davidson;
*No primeiro rascunho do enredo, o Justiceiro dispunha de um escudeiro na sua cruzada vindicativa. Ninguém menos do que David Lieberman, vulgo Microchip. Personagem que, na banda desenhada original, recolhe informações e presta assistência técnica e logística a Frank Castle (coadjuvando-o, esporadicamente, no teatro de operações). Microchip acabaria contudo riscado da história por ordem de Jonathan Heinsleigh, que com ele antipatizava particularmente;

Na BD, David Lieberman adjuva o Justiceiro
 sob o codinome Microchip.
* Estava igualmente previsto que a sequência de abertura do filme mostrasse uma encarniçada batalha ambientada no Koweit durante a primeira Guerra do Golfo. A ideia seria atualizar o cadastro militar de Frank Castle, um veterano do Vietname na história original. Essa seria, porém, uma das muitas cenas cortadas em consequência do austero orçamento da produção;
* A declaração que Frank Castle redige na ponta final da história, elencando os preceitos básicos da sua filosofia vigilantista, corresponde à primeira entrada do seu Diário de Guerra. É nele que, na BD, o Justiceiro regista o deve e o haver da sua campanha contra o crime organizado. E que serviu de base a The Punisher War Journal, outra das suas aclamadas séries mensais encerrada em janeiro de 2009;
* Na versão estendida da película, inclusa na edição em DVD, é apresentada uma trama secundária, na qual é revelado que Jimmy Weeks (antigo colega de Frank no FBI) fornecera, em troca do perdão de uma avultada dívida de jogo, informações sobre a família de Castle a Howard Saint. Após tomar conhecimento da traição de Weeks, Frank compele-o a cometer suicídio. Não foi, contudo, o registo macabro da cena a ditar a sua exclusão da versão cinemática, mas antes a necessidade de encurtar a duração do filme.

Outra das séries do Justiceiro
 que serviram de inspiração ao filme.
Legado: Antes de The Punisher ser trespassado pelo ricochete de críticas contundentes e deixado para morrer em lenta agonia, a Lions Entertainment planeara a produção de uma sequela. Avi Arad, presidente-executivo dos Estúdios Marvel, chegara mesmo a vangloriar-se de que essa seria a quinta franquia cinematográfica baseada na mitologia da Casa das Ideias. Também Jonathan Hensleigh sinalizou o seu interesse em dirigir o segundo capítulo da saga do Justiceiro. Personagem que Thomas Jane se mostrara entretanto disponível para voltar a encarnar. Numa entrevista concedida a uma publicação especializada, o ator chegou mesmo a confidenciar que The Punisher 2 teria o Retalho (Jigsaw) como mau da fita.
Devido à desapontante prestação do primeiro filme, o projeto para a realização de uma sequência direta seria, contudo, deixado em banho-maria nos três anos seguintes. Período durante o qual Jonathan Hensleigh escreveu um primeiro rascunho do guião, que deixou para trás quando resolveu bater com a porta, em meados de 2006.
Nesse mesmo ano, John Dahl foi sondado para ocupar a vaga deixada por Hensleigh, mas as negociações não chegaram a bom porto. Ao que consta, o realizador terá ficado desagradado com a fraca qualidade do enredo, e mais ainda com a recusa dos produtores em abrirem os cordões à bolsa.
Meses depois, em maio de 2007, Thomas Jane seguiria as pisadas de Dahl, invocando os mesmíssimos motivos. Com efeito, após ler o novo guião, da autoria de Kurt Sutter, o ator teve o seguinte desabafo no decorrer de uma entrevista radiofónica: "Aquilo que eu nunca farei é desperdiçar meses da minha vida a dar o litro por um filme em que não acredito. Adoro os tipos da Marvel e desejo-lhes as maiores felicidades. Entretanto, continuarei à procura de projetos que não me venham a causar embaraços no futuro." 
Sem demora, os Estúdios Marvel anunciaram, poucas semanas depois, os nomes do novo realizador e do novo ator principal: respetivamente, Lexi Alexander (uma inexperiente cineasta germânica) e Ray Stevenson (ator nascido na Irlanda do Norte que, até aí, apenas numa ocasião fora cabeça de cartaz). De caminho foi ainda anunciado que o filme não seria afinal uma sequela, mas sim um relançamento da franquia do Justiceiro. Assim se explicando a escolha do título - Punisher: War Zone. Esta seria, de facto, a segunda tentativa nesse sentido, na medida em que The Punisher fora, também ele, um reboot da longa-metragem homónima de 1989, protagonizada por Dolph Lundgren.
Perante uma plateia extasiada, na edição de 2012 da San Diego Comic-Con International foi exibida uma curta-metragem do Justiceiro produzida por um fã e estrelada por ninguém menos do que Thomas Jane. Dirty Laundry contava ainda no seu elenco com outro astro de Hollywood habituado a dar vida a personagens saídas dos quadradinhos: Ron Perlman (Hellboy e Hellboy II - The Golden Army).Embora não-canónica, a película tornou-se objeto de culto, especialmente no ciberespaço.

Os três filmes do Justiceiro realizados até ao momento.

Veredito: 53%

Prometia muito esta segunda passagem do Justiceiro pelo grande ecrã. Talvez até demasiado à boleia de uma trama baseada em algumas das suas sagas mais emblemáticas, da presença de um astro de primeira grandeza (John Travolta) no elenco e, principalmente, pelo comprometimento da Marvel na sua produção. Dado que poderia ter feito toda a diferença, tendo em conta a relutância da Casa das Ideias em reconhecer oficialmente a película de 1989.
Ainda que, na minha modesta opinião, o primeiro The Punisher, apesar do seu caráter tosco - recebendo em Portugal um título a condizer (Fúria Silenciosa) - fique alguns furos acima desta nova aventura cinematográfica de Frank Castle. Que, por sua vez, também não é tão sofrível como a pintam. E que só não correspondeu às altas expectativas porque, a exemplo de tantos outros projetos artísticos, foi vítima da avareza de produtores de olhos postos apenas no lucro.
Claro que o filme tem as suas pechas. Apesar de o realizador ter ido beber diretamente à fonte e da sua vontade manifesta em inovar no que às motivações do protagonista dizia respeito, a verdade é que a história é basicamente a mesma. Salvo por algumas licenças poéticas tomadas por Jonathan Hensleigh, como o facto de este ser o primeiro filme em que o Justiceiro é colocado frente a frente com os carrascos da sua família.
No capítulo das representações, Travolta - que se imagina ter recebido um robusto cachê - parece ter ligado o piloto automático durante as gravações, servindo-nos um vilão com o carisma de um pepino. Contrastando, portanto, com um Thomas Jane que deu boa conta do recado no papel de Frank Castle. Cuja faceta mais violenta não foi, todavia, devidamente explorada neste filme.
Quem conhece minimamente as histórias do Justiceiro sabe que ele não hesita em aplicar métodos radicais capazes de deixarem qualquer defensor dos direitos humanos de cabelos em pé. Sendo essa, aliás,uma parte fundamental da sua estratégia para infundir terror nos malfeitores que ele jurou punir após a matança que vitimou a sua família.
Em The Punisher, a maior brutalidade fica, no entanto, por conta dos maus da fita. Facto a que não terá sido alheia a decisão de eliminar algumas cenas mais violentas em que o Justiceiro dava largas à sua veia sádica (ver Curiosidades).
Resumindo, não sendo uma pérola reluzente da 7ª Arte - tampouco uma referência dentro do género super-heroico - julgo que ninguém terá tido verdadeiramente motivos para exigir o reembolso no final da sessão. Ainda que talvez tivesse sido preferível guardar esses trocados para um filme que justificasse mais uma ida ao cinema. Se foi o vosso caso, que vos sirva de consolo que não falta por aí quem tenha pago para ver o mais recente reboot do Quarteto Fantástico. Essa, sim, uma razão mais do que suficiente para reclamar uma choruda indemnização. Que, no caso dos verdadeiros fãs grupo, reverteria em grande parte para sessões de psicoterapia, tal foi o trauma.







quinta-feira, 31 de março de 2016

ETERNOS: GERRY CONWAY (1952 - ...)




   Com apenas 19 anos foi investido da espinhosa missão de suceder a ninguém menos do que Stan Lee em The Amazing Spider-Man. Apesar da sua juventude e do peso desse legado, logrou afirmar-se ao escrever algumas das mais memoráveis histórias do Escalador de Paredes. Dele são também os créditos pela criação de personagens icónicas, como Justiceiro e Nuclear.


Biografia: De ascendência irlandesa, Gerard F. "Gerry" Conway nasceu há 63 anos no Brooklyn (Nova Iorque). Criado no seio de uma modesta família de imigrantes de segunda geração, o pequeno Gerry lia historietas de super-heróis com devoção religiosa. A mesma que lhe falta hoje em dia, apesar de ter recebido uma educação baseada nos preceitos do Catolicismo.
   No seu blogue pessoal, Gerry Conway descreve nestes termos os seus antecedentes familiares: "Os meus avós maternos nasceram na Irlanda. Como muitos outros,antes e depois deles, vieram à procura do sonho americano. Viveram no entanto uma vida em tudo parecida com aquela que a minha empregada de limpeza latina vive hoje em dia. O meu avô trabalhava de sol a sol como estivador nas docas. A minha avó lavava escadas na Hunter College (subsidiária da Universidade de Nova Iorque, sediada em Manhattan). Por força do seu baixo estatuto social, eram os hispânicos daquela época. Ou seja, eram tolerados mas não respeitados pelos estratos sociais mais elevados. Até o meu pai, nascido nos EUA, sentiu na pele esse preconceito em relação aos irlandeses. Raramente falava contudo do assunto. Mas, quando o fazia, era evidente o seu amargor."
  Naquilo que alguns poderão interpretar como um sinal da sua predestinação de vir a ser um expoente da 9ª arte, aos 14 anos Gerry Conway teve uma carta da sua lavra publicada em Fantastic Four nº50 (vide texto anterior). Destino que começou a desenhar-se três anos depois, em setembro de 1969, quando viu ser dado à estampa o seu primeiro trabalho profissional. Consistindo este num conto de terror, composto por seis páginas e meia, publicado em House of Secrets nº81 (título da DC Comics).

Edição de The House of Secrets que marcou
 a estreia profissional de Gerry Conway.

   Por conta desta estreia auspiciosa, da pena de Gerry Conway continuou a sair um manancial de histórias de cariz sobrenatural, publicadas nos meses subsequentes tanto em títulos da Marvel como da DC. Apesar de cada vez mais requisitado, Gerry suspirava por uma oportunidade para trabalhar com a sua verdadeira paixão: super-heróis. Graças à ajuda de amigos bem colocados, em finais de 1970, Gerry entrou em contacto com Roy Thomas    ( à época, editor da Marvel e braço-direito de Stan Lee), que concordou em testar as capacidades do jovem aspirante a escriba, dando-lhe um argumento para desenvolver.
   Oportunidade de ouro que nem passaria pela cabeça de Gerry desperdiçar. Ciente de que tinha na mão a chave para abrir de par em par as portas do seu emprego de sonho, arregaçou as mangas e trabalhou com afinco. Impressionado com a prestação do jovem,. Roy Thomas logo lhe atribuiu outras histórias, inclusive uma de Ka-Zar, publicada em Astonishing Tales nº3 (dezembro de 1970).

O primeiro trabalho de Conway para a Marvel
 foi publicado  neste volume de Astonishing Tales
  Conquistada a admiração dos seus pares, num piscar de olhos Gerry Conway tornou-se parte da mobília da Casa das Ideias. Sendo-lhe confiadas personagens cada vez mais proeminentes: a Ka-Zar seguir-se-iam Demolidor, Viúva Negra, Homem de Ferro, Inumanos e o Incrível Hulk. Sobejando-lhe, ainda assim, tempo e criatividade para escrever a história inaugural da série The Tomb of Dracula, e para participar na conceção de personagens como Lobisomem e Homem-Coisa (Werewolf e Man-Thing, nos respetivos originais).
  O batismo de fogo de Gerry Conway chegaria, contudo, em meados de 1972. Ano em que foi o escolhido para suceder a ninguém menos do que Stan Lee à frente de The Amazing Spider-Man. Ironia do destino, já que, ao contrário de Roy Thomas, o Papa da Marvel não ficara impressionado com a amostra do trabalho de Gerry Conway,  Este, do alto dos seus 19 anos, não se fez rogado na hora de aceitar aquilo que bem poderia ter sido um presente envenenado: assumir o legado de uma lenda viva num título de charneira da Casa das Ideias.
   Malgrado a sua juventude e o natural ceticismo de alguns leitores, Gerry Conway não demorou a afirmar-se, dando um novo elã ao microcosmos do Homem-Aranha. Ao longo do triénio (1972-75) que durou o seu consulado em The Amazing Spider-Man, o escritor revitalizou as histórias do Escalador de Paredes. Algumas das quais, pelo seu escopo na vida do herói, se tornariam antológicas. Foi o caso, desde logo, de The Night Gwen Stacy Died (A Noite em que Gwen Stacy Morreu), que chegou às bancas norte-americanas em junho de 1973.

A morte de Gwen Stacy continua a ser uma das histórias
 mais impactantes na vida do Escalador de Paredes.

  Oito meses depois, em parceria com Ross Andru, Gerry Conway introduziria dois novos e carismáticos antagonistas do herói aracnídeo: o Chacal (The Jackal) e o Justiceiro (The Punisher). Enquanto o primeiro estaria na origem da controversa Saga do Clone (já aqui esmiuçada), o segundo teria uma ascensão fulgurante no Universo Marvel, depressa trocando as roupagens de vilão pelas de um anti-herói cujos métodos radicais no combate à criminalidade o tornaram numa das mais populares personagens dos quadradinhos (e fora deles).

O Justiceiro (aqui pelo traço de Ross Andru, seu cocriador)
rapidamente passou de coadjuvante a protagonista.

  Paralelamente ao trabalho desenvolvido em The Amazing Spider-Man, Gerry Conway escreveu também, durante cerca de ano meio, outro dos títulos mais emblemáticos da Casa das Ideias: The Fantastic Four. 
    Factos que, em 2009, lhe motivariam as seguintes reflexões: "Qualquer pessoa com uma atividade criativa está ciente de que a precocidade é uma maldição. No meu caso, a maior parte da pressão que senti quando era um jovem escritor de super-heróis foi autoinfligida. Aquilo que eu mais queria era ser aceite como igual pelos meus colegas mais velhos. Circunstância que me levou muitas vezes a projetar uma maturidade emocional e profissional superior à que tinha na altura. 
   Posso dizer, no entanto, que era bastante convincente nesse papel. Dele decorrendo vantagens mas, obviamente, também algumas desvantagens. Olhando para trás, julgo que as pessoas se esqueciam frequentemente de quão novo eu era, esperando desse modo que eu atingisse um nível que claramente não estava ao meu alcance. 
  A principal consequência foi eu ter passado os primeiros anos da minha carreira profissional esmagado por uma gigantesca pressão, sem saber muito bem o que fazer. Escrevia muitas vezes por instinto. Quando essa forma de escrever se adequava ao material que tinha em mãos, o resultado final era estupendo. Mesmo passados todos estes anos, continuo a orgulhar-me do trabalho que fiz em The Amazing Spider-Man. Outras situações houve em que fui notoriamente prejudicado pela minha inexperiência."



Houve um antes e um depois de Gerry Conway nas histórias do Homem-Aranha.
   Regressado à DC em meados de 1975, Gerry Conway assumiu de uma assentada três edições, todas datadas de novembro desse ano: Hercules Unbound nº1, Kong, The Untamed nº3 e Swamp Thing nº19. Carga de trabalho complementada pela revitalização por ele operada em All Star Comics. Foi, aliás, neste título histórico com origens na Idade do Ouro que Gerry deu a conhecer a Poderosa (Power Girl), uma das suas mais bem-sucedidas criações.
  Tal versatilidade valeu-lhe, pouco tempo depois, o convite para escrever Superman versus The Amazing Spider-Man, o primeiro crossover oficial Marvel/DC. Iniciativa editorial que associaria para sempre o nome de Gerry Conway à história das duas gigantes dos quadradinhos estadunidenses.
  Depois de mais alguns meses a trabalhar na Editora das Lendas, em março de 1976 Gerry Conway aceitou novo desafio de monta ao assumir o cargo de editor-chefe da Marvel. Funções que exerceria apenas durante pouco mais de um mês, logo renunciando a elas por motivos que permanecem até hoje obscuros.

Nos créditos da batalha do século XX figurava o nome de Gerry Conway.

  Novamente ao serviço da DC (agora em regime de exclusividade), na década seguinte Gerry Conway deixaria a sua marca em praticamente toda a linha de títulos da editora. De Superman a Detective Comics (onde Batman era cabeça de cartaz), passando por Justice League of America, poucas foram as personagens que não tiveram histórias escritas pela sua incansável pena. Fase seminal em que Gerry Ordway foi também cocriador de um lote de personagens emblemáticas. Citando apenas as mais afamadas: Nuclear (Firestorm), Vixen, Vibro (Vibe), Cigana (Gipsy) e Gládio (Steel, the Indestructible Man). Importa referir que, excetuando o herói atómico, os restantes formaram o contingente de neófitos da Liga da Justiça de Detroit.
   Durante esta sua segunda passagem pela DC, Gerry Conway reencontrou Roy Thomas, com quem teve ocasião de colaborar em diversos projetos. Dentre estes, o mais ambicioso - e, em certa medida, o mais frustrante - seria,muito provavelmente, JLA/Avengers, crossover cujo cancelamento foi ditado pelas disputas editoriais entre as duas licenciadoras.
   Constantemente em busca de novos desafios, em finais dos anos 80, Gerry Conway trocou uma vez mais a DC pela Marvel. Entre 1988 e 1990 escreveu em simultâneo The Spectacular Spider-Man e Web of Spider-Man, os dois títulos estrelados pelo Homem-Aranha. Sobre esta sua segunda experiência com o Escalador de Paredes, Conway declararia certa vez: "Entendia a personagem muito melhor nessa altura do que quando tinha 19 anos. Uma das vantagens deste trabalho é que podemos sempre refrescar conceitos consagrados por via de alterações subtis. Algo que me continua a dar gozo fazer."
   Convidado a produzir os guiões da série policial Father Dowling Mysteries, Gerry Conway trocaria entretanto a BD pela TV. Não tendo sido esta, contudo, a sua primeira incursão no panorama audiovisual. Em 1983, ele e Roy Thomas haviam sido os autores do enredo de Fire & Ice, película de animação baseada em personagens idealizadas por Ralph Bakshi e Frank Frazetta. No ano seguinte, a mesma dupla assinaria a trama do filme Conan. The Destroyer (sequela de Conan, The Barbarian ,ambos protagonizados por Arnold Schwarzenegger).

A série televisiva que levou Gerry Conway
a abandonar a indústria dos comics.

   No plano literário, Gerry Conway deu à estampa duas novelas de ficção científica: The Midnight Dancers (1971) e Mindship (1974). Nenhuma delas obteve, todavia, o estatuto de best-seller.
   Circunscrevendo atualmente a sua relação com os comics  a ocasionais colaborações com a Marvel e a DC, Gerry Conway continua, ainda assim, a expressar o seu afeto por esses produtos culturais através das múltiplas referências que lhes faz nas séries televisivas que escreve e produz. Num episódio de Law & Order, por exemplo, deu o nome de John Byrne a uma das personagens.Rendendo dessa forma tributo a outro grande vulto da 9ª arte, cujo perfil já aqui foi publicado.
  Casado em segundas núpcias com Karen Bitten - uma psicóloga especializada em autismo infantil -, Gerry Conway é pai de duas filhas. Sendo a mais velha fruto do seu matrimónio com Carla Conway. Além da parentalidade, o ex-casal divide os créditos pela criação de Miss Marvel.
    A residir desde 2009 em San Fernand Valley - subúrbio da buliçosa Los Angeles - Gerry Conway leva uma pacata vida familiar longe dos holofotes. Nada que impeça a sua legião de fãs de continuar a acalentar a esperança de o ver regressar em grande estilo à indústria dos quadradinhos, atravessando presentemente uma das mais amorfas fases da sua História.
   Mesmo que tal nunca venha a acontecer, pelo seu importante contributo para o prestígio da 9ª arte, o nome de Gerry Conway ficará para sempre entalhado com letras douradas no panteão dos seus mais preclaros autores.


Gerry Conway entrevistado durante a Comic Con de Seattle de 2013.

 Obras de referência:

* The Amazing Spider-Man (Marvel, 1972-75);
* Superman versus The Amazing Spider-Man (Marvel/DC, 1976);
* Superman versus Wonder Woman (DC, 1978);
* Superman versus Shazam (idem, ibidem)
.*The Spectacular Spider-Man (Marvel, 1988-90);
* Web of Spider-Man (idem, ibidem);
* DC Retroactive: Justice League- The '80s (DC, 2011);

Outro tesouro de papel com a assinatura de Gerry Conway.

Principais criações e cocriações:

* Justiceiro/Punisher (Marvel);
* Chacal/Jackal (Marvel);
* Poderosa/Power Girl (DC);
*Vibro/Vibe (DC);
*Cigana/Gipsy (DC);
*Gládio/Steel, The Indestructible Man (DC);
* Miss Marvel (Marvel);
*Homem-Coisa/Man-Thing (Marvel);
* Lobisomem/Werewolf (Marvel);
* Jason Todd*(DC);
* Nevasca/Killer Frost (DC);
* Nuclear/Firestorm (DC);
* Crocodilo/Killer Croc (DC);
*Ben Rilley** (Marvel);
* Halloween/Jack O'Lantern (Marvel)
*Drácula/Dracula (Marvel);
*Esquadrão Atari/Atari Force (DC)

* Identidade civil do segundo Robin (atual Capuz Vermelho);
** Identidade civil do Aranha Escarlate

Nuclear: umas das mais célebres criações de Gerry Conway.