Mostrar mensagens com a etiqueta tocha humana. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta tocha humana. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

FÁBRICAS DE MITOS: TIMELY COMICS


  Num tempo de maravilhas e prodígios, lançou as bases do Universo Marvel e a trepidante carreira de Stan Lee. Teve no Capitão América o seu porta-estandarte e, tal como ele, foi revivida para enfrentar os desafios do presente.

Self-made man

Numa tentativa de suster a abrupta queda nas vendas, no início de 2016 a Marvel anunciou o lançamento de uma nova linha de títulos económicos com o selo Timely Comics. Face à possibilidade de adquirirem reedições a preços de saldo, os leitores aplaudiram a iniciativa, indiferentes, porém, ao cariz revivalista da mesma. Tanto assim que somente uma ínfima minoria conhecerá a singular história daquela que foi uma espécie de antepassada neolítica da Casa das Ideias. Uma história que começou a ser gravada na pedra há precisamente 80 anos, e que teve em Martin Goodman, self-made man moldado pelos rigores da Grande Depressão, o seu principal intérprete.
Mas quem era, afinal, o homem, personificação do Sonho Americano, que, a partir do zero, construiu um império editorial que continua a influenciar o imaginário coletivo?
Primogénito de um humildade casal de imigrantes lituanos de origem judaica radicados no Brooklyn, foi nesse pitoresco bairro nova-iorquino que, em 1908, nasceu Moses Goodman - o seu nome de batismo antes de adotar o pseudónimo que o imortalizaria na cultura popular. Após breve passagem pelos bancos da escola (consta que não terá ido além da instrução primária), o pequeno Moe, como era tratado pelos amigos, começou a calejar as mãos para ajudar no sustento dos 16 irmãos que a sua mãe trouxera entretanto ao mundo.
Quando os desvarios de Wall Street reduziram a economia americana a um cemitério de sonhos destruídos, o clã Goodman, como tantas outras famílias subitamente atiradas para a mais aviltante pobreza, teve de deixar a cidade que nunca dorme, em busca de uma vida melhor.
Martin Goodman passou, assim, parte da sua juventude a deambular pelo país e a (sobre)viver em acampamentos de indigentes e vagabundos. Esse forte instinto de sobrevivência ajudá-lo-ia, anos mais tarde, a vingar no mundo dos negócios, onde tantas vezes impera a lei da selva.

Martin Goodman: de miserável a magnata.
No início dos anos 1930, Martin Goodman, recém-regressado a Nova Iorque, foi contratado para o departamento comercial da Eastern Distributing Corp., uma distribuidora de revistas presidida por Louis Silberkleit, futuro fundador da Archie Comics, Após a falência da empresa, oficialmente declarada em outubro de 1932, Martin Goodman angariou o capital necessário para criar a sua própria companhia. Nesse mesmo ano nascia a Western Fiction Publishing.
A primeira aposta de Martin Goodman como editor foi a Western Supernovel Magazine, uma antologia de contos ambientados no Velho Oeste que chegou às bancas em maio de 1933. E que, logo na edição seguinte, teria o seu nome alterado para Complete Western Book Magazine.
À boleia do sucesso desta primeira publicação, rapidamente a Western Fiction Publishing diversificou o seu catálogo. Da ficção científica às histórias de detetives, passando pelas aventuras na selva, nenhum dos géneros mais populares ficou de fora. Entre a caterva de títulos lançados, o mais bem-sucedido foi Marvel Science Stories. Seria ele que, em 1939, emprestaria nome à primeira revista editada pela Timely Comics. Que, provavelmente, nunca teria existido se, dois anos antes, Martin Goodman, regressado da sua lua-de-mel europeia, tivesse, como previsto, embarcado no malsinado Hidenburg.
Recorde-se que o dirigível, de fabrico germânico, se incendiou em pleno ar quando se preparava para pousar num aeródromo de Nova Jérsia, causando a morte a 36 pessoas, entre passageiros e membros da tripulação. Apesar de ter adquirido as respetivas passagens, o casal Goodman acabou, à última hora, por optar pelo avião, evitando desse modo uma viagem que poderia ter sido fatídica.

Imagem relacionada
O magazine pulp que daria nome
 à primeira publicação da Timely Comics.
Enquanto editor, Martin Goodman ficaria conhecido por duas coisas: replicar os sucessos da concorrência e inundar o mercado com publicações sobre as temáticas mais populares. A sua estratégia comercial era, essencialmente, focada no curto prazo. Em vez de ditar tendências, preferia segui-las. Em vez de correr riscos, preferia jogar pelo seguro.
Martin Goodman também não se preocupava muito com a inovação e, dada a sua imaginação limitada, pouco controlo editorial impunha aos seus colaboradores. Estes descreviam-no como um homem cordato e aprumado que não dispensava longas sestas no seu escritório.
Martin Goodman podia não ser um visionário, mas fazia bom dinheiro e evitava dar passos em falso. O seu mantra era "Se tens um título que vende bem, junta-lhe outros do mesmo género e multiplicarás o teu lucro." Sem surpresas, seria essa filosofia de negócios que transplantaria para a Timely Comics, a sua joia da coroa.

Tempos de mudança

Em 1939, Martin Goodman procurava novos nichos de mercado para expandir o seu negócio. Atento ao desenvolvimento da indústria dos comics books a reboque do retumbante êxito do Super-Homem no ano anterior, Goodman resolveu incluí-los na sua eclética linha de publicações. Viviam-se tempos de mudança e o dono da Timely Publications não queria ficar à margem. Era um editor à procura de histórias.
Num daqueles obséquios do acaso, Goodman travou por essa altura conhecimento com um vendedor ao serviço da recém-fundada Funnies Incorporated. Por sinal, uma agência de autores independentes à procura de um editor.
Por aqueles dias, o promissor segmento super-heroico era dominado por um quarteto de editoras: Fox Comics, Centaur Publications, All-American Comics e National Periodicals (estas duas últimas dariam origem à DC). A Funnies Incorporated era constituída por antigos colaboradores da Centaur, que começaram por acalentar o sonho de produzir conteúdos próprios. A falta de liquidez fê-los no entanto repensar a sua estratégia. Que consistia agora em providenciar histórias aos quadradinhos às editoras que não dispunham de staff próprio. Na Timely Comics encontraram uma parceira talhada à medida.
Originalmente, a Timely Comics era uma divisão da Timely Publications, grupo editorial presidido por Martin Goodman. Servia-lhe de sede um pequeno apartamento no McGraw Hill Building, imponente arranha-céus que dominava a paisagem do lendário bairro de Hell's Kitchen.
Conhecida a propensão de Martin Goodman para replicar sucessos da concorrência, muitos acreditam, erroneamente, que o nome "Timely" adveio de uma versão genérica da conceituada revista Time. Na verdade, a marca teve origem noutra imitação. Tal como o título deixa facilmente perceber, a Popular Digest era um fac-símile da Reader's Digest e tinha como premissa "Timely Topics Condensed" (algo como "Tópicos Condensados da Atualidade"). Foi, pois, nessa sua antiga publicação, da qual foram editados apenas dois fascículos, que Goodman se inspirou para batizar a sua nova empresa.

Índice do primeiro número de Popular Digest, a resposta de Martin Goodman à
popularidade da Reader's Digest.
A primeira edição lançada sob os auspícios da Timely Comics chegou às bancas em outubro de 1939. Uma vez mais, com título emprestado. Marvel Comics nº1 compilava histórias de diferentes géneros (nem todas ilustradas) e apresentou ao mundo três novos super-heróis: Tocha Humana, Namor, o Príncipe Submarino e Anjo (um detetive fantasiado sem qualquer relação com o X-Man homónimo). Com 80 mil exemplares vendidos, no mês seguinte seria lançada uma segunda edição de Marvel Comics nº1, obtendo tiragem idêntica à da primeira. Números que, embora impressionantes, eram muito inferiores aos conseguidos pelas maiores concorrentes, designadamente pela National Periodicals. Aos olhos dos "tubarões", a Timely Comics não passava de peixe miúdo. Mas isso estava prestes a mudar.
Em 1939, Marvel Comics nº1 introduziu
 os primeiros super-heróis da Timely.
Percebendo o filão que tinha em mãos, Martin Goodman, fiel à sua estratégia comercial, não perdeu tempo a lançar uma linha de títulos periódicos com super-heróis. Recrutando, para esse efeito, artistas e escritores de diferentes proveniências. No entanto, a sua contratação mais sonora seria um dos maiores talentos da Funnies Incorporated, a quem confiou o cargo de editor. Ninguém menos do que Joe Simon.
Simon não veio sozinho. Consigo trouxe Jack Kirby, seu antigo parceiro criativo na Fox Comics. A dupla criaria, pouco tempo depois, aquele que seria o porta-estandarte da Timely Comics: o Capitão América.
A despeito do bom desempenho do número inaugural de Marvel Comics (entretanto renomeada Marvel Mystery Comics), as edições subsequentes ficaram aquém das expectativas. Lançados com pequenos intervalos ao longo de 1940, Daring Mystery Comics, Mystic Comics e Red Raven Comics também demoravam a afirmar-se. O último seria mesmo precocemente cancelado, logo rendido por The Human Torch. O Tocha Humana tornava-se, assim, o primeiro herói da Timely Comics a ganhar série própria. Mas nem isso atraiu novos leitores
À euforia inicial seguiu-se a estagnação e a Timely Comics parecia condenada a dissolver-se na espuma sazonal. Começaram a soar os alarmes no escritório de Martin Goodman.

Joe Simon (de pé) e Jack Kirby.
Em baixo, dois dos títulos mais populares da Timely Comics.

Resultado de imagem para daring mystery comics

Resultado de imagem para mystic comics

Mesmo com tiragem modesta, Marvel Mystery Comics continuava a ser, de longe, o título mais popular da Timely. Muito por conta dos seus dois astros residentes: Tocha Humana e Namor, o Príncipe Submarino. Explorando a dualidade simbólica das duas personagens (Fogo versus Água), em 1940 os respetivos criadores, Carl Burgos e Bill Everett, promoveram aquele que seria o primeiro crossover da história da 9ª Arte.
Numa história em duas partes, narrada sob o ponto de vista de cada um dos contendores, o androide inflamável e o temperamental monarca atlante mediram forças nos números 8 e 9 de Marvel Mystery Comics. Graças a essa arrojada - e inédita - iniciativa, a Timely Comics voltou ao jogo e foram estabelecidas as bases do futuro Universo Marvel.

Resultado de imagem para timely comics human torch vs the sub-mariner
Anunciado como "a batalha do século", o duelo entre o Tocha Humana e o Príncipe Submarino
foi o primeiro crossover da histórias da 9ª Arte.
Embora naturalmente satisfeito, Martin Goodman sabia que isso era insuficiente. Com novas editoras e novos heróis a surgirem em barda, sabia estar a travar um combate desigual. Para ficar em paridade de armas, precisava de um campeão de vendas. E foi isso que pediu a Joe Simon.
Ciente da urgência do pedido do patrão, Joe Simon tratou logo de deitar mãos à obra. Dias depois apresentou a sua proposta: um herói de inspiração patriótica vestido com a Star and Stripes e portando um escudo metálico. Em linha com a tradição da Timely, o conceito reproduzia outro preexistente. Escassos meses antes, a MLJ Comics (atual Archie Comics) apresentara uma personagem similar chamada The Shield.
Simon batizou inicialmente a sua criação de Super American, mas Captain America deverá ter-lhe soado melhor. Aprovada a ideia, Jack Kirby foi o escolhido para ilustrar a primeira história do Sentinela da Liberdade.
Lançado em dezembro de 1940, precisamente um ano antes do ataque japonês a Pearl Harbor e consequente participação dos EUA na II Guerra Mundial, Captain America nº1 (cuja capa, da autoria de Joe Simon, mostrava o herói a esmurrar Hitler), excedeu todas as expectativas ao vender mais de um milhão de exemplares.

Resultado de imagem para timely comics captain america #1
A edição de estreia do Capitão América vendeu mais de um milhão de exemplares.
Radiante e com cifrões a retinirem-lhe nos olhos, Martin Goodman de pronto manifestou o seu desejo de adquirir os direitos da personagem. Sabendo ter em mãos uma mina de ouro capaz de despertar a cobiça de editoras com maior poder económico do que a Timely, Joe Simon impôs várias condições à concretização do negócio.
Apesar da sua reputação de negociador implacável, Martin Goodman cedeu às exigências do seu colaborador. Concordou, desde logo, em atribuir uma série própria ao Capitão América, em vez de submergi-lo numa qualquer antologia. Creditados como autores, Joe Simon e Jack Kirby receberiam 25% dos lucros e seriam, ademais, promovidos, respetivamente, a editor-chefe e diretor artístico da Timely Comics. Termos bastante vantajosos e incomuns numa época em que escritores e artistas eram, na sua larga maioria, mão de obra descartável numa indústria que não tinha pejo em explorá-los.
Com o advento do Capitão América, a Timely Comics reuniu a primeira trindade de super-heróis, precedendo em alguns meses a da DC, na medida em que só em finais de 1941 a Mulher-Maravilha se juntaria ao Super-Homem e ao Batman.
Atolados em trabalho, Joe Simon e Jack Kirby imploravam por um assistente. A escolha recaiu sobre um extrovertido jovem de 17 anos que era primo da mulher de Martin Goodman. O seu nome era Stanley Lieber. Ficaria, porém, imortalizado pelo seu pseudónimo: Stan Lee.

A Trindade da Timely recriada pelo traço de David Finch.

Enfant terrible

Nos seus dias de glória, a Timely Publications era um vibrante ninho de nepotismo. Do respetivo staff faziam parte vários parentes de Martin Goodman, incluindo três dos seus irmãos. Artie Goodman elaborava guias de cores para as bandas desenhadas, Abe Goodman tratava da contabilidade e Dave Goodman tinha como árdua tarefa fotografar curvilíneas modelos seminuas para as revistas masculinas.
Outro elemento com ligações familiares ao presidente da Timely era Robert Solomon. Tratava-se de um cunhado de Martin Goodman encarregue dos assuntos que este estaria demasiado ocupado para resolver por si próprio. Solomon, ríspido no trato, era também uma das figuras mais detestadas pelo staff da Timely. Tio de Stan Lee, seria pela sua mão que o futuro guru da Marvel daria os primeiros passos na indústria dos comic books.
Por oito dólares por semana (o dobro do que auferiam muitos artistas), Stan Lee servia cafés, revia roteiros, organizava a correspondência e apagava as linhas de lápis nos esboços arte-finalizados de Jack Kirby. Nos tempos mortos, o irrequieto Stan gostava de bater com as portas ou tocar a sua ocarina, o que deixava os seus colegas de trabalho com os nervos em franja. A Kirby irritava-o profundamente não poder puxar as orelhas àquele enfant terrible, a salvo de corretivos apenas por ser primo do patrão.

Resultado de imagem para young stan lee
Stan Lee era ainda um jovem imberbe
 quando adentrou no mundo dos quadradinhos.
Apesar dos seus ocasionais atritos, Joe Simon, Jack Kirby e Stan Lee adoravam trabalhar na série mensal do Capitão América. Empolgado com o  apreciável sucesso do Sentinela da Liberdade, Martin Goodman acreditava que ele podia fazer sombra a outros campeões de vendas, como o Capitão Marvel, da Fawcett Comics, ou até mesmo ao próprio Super-Homem. Talvez porque nunca lhe terá ocorrido que o patriotismo, bem como as histórias de super-heróis, poderiam sair de moda.
Levava Captain America uma dezena de números publicados quando surgiu a primeira contrariedade. Entre mútuas acusações de deslealdade, Martin Goodman viu-se obrigado a demitir Joe Simon e Jack Kirby.
Os criadores do Sentinela da Liberdade vinham negociando em segredo uma transferência para a DC. Se Joe Simon não excluía a hipótese de ter havido uma fuga de informação por parte da rival, Jack Kirby, ao invés, estava convicto de que fora Stan Lee a dar com a língua nos dentes. Pouco tempo antes, Kirby cometera a imprudência de confidenciar ao primo do patrão os seus planos para deixar a Timely. Este seria, aliás, o primeiro de muitos episódios controversos a pontuarem a relação desses dois titãs da 9ª Arte.
Após a saída de Joe Simon e Jack Kirby, em finais de 1941, Stan Lee, em vésperas de completar 19 anos, foi promovido a editor interino. Cargo que acumulou com o de escritor de Captain America antes de ser chamado a cumprir o serviço militar. Embora inexperiente, o jovem Stan deu boa conta do recado e a série, mesmo desfalcada dos seus autores, manteve-se na senda do sucesso.
Com Stan Lee ao leme, os anos de guerra foram de prosperidade para a Timely Comics. Apesar de ter ainda no Capitão América o seu indisputado campeão de vendas, a editora dispunha agora de um catálogo abrangente que abarcava praticamente todos os géneros.
Por indicação do próprio Martin Goodman, sempre sintonizado com as tendências do mercado, desde abril de 1942 que a Timely Comics vinha publicando revistas humorísticas maioritariamente protagonizadas por animais antropomorfizados. Títulos como Zippy Pig and Silly Seal ou Super Rabbit Comics vendiam quase tanto como as séries super-heroicas.
Um público até então menosprezado, as adolescentes foram outra das apostas da Timely nesta fase. A pensar nelas foram lançados títulos como Millie the Model ou Patsy Walker, em paralelo com novas super-heroínas como Sun Girl ou Namorita, a contraparte feminina do Príncipe Submarino.

Resultado de imagem para zippy pig and silly seal timely comics

Resultado de imagem para millie the model timely comics
O ecletismo editorial foi uma das imagens de marca da Timely Comics.
Outra novidade consistiu em incluir um escudo patriótico nas capas de todas as revistas editadas pela Timely Comics. Inspirado no escudo triangular originalmente portado pelo Capitão América, tornar-se-ia o símbolo da editora e aquele que perduraria na memória. Mais ou menos pela mesma altura, a Timely Comics transferiu a sua sede para o 14º piso do Empire State Building, onde permaneceria até 1951.
À medida que o fulgor dos super-heróis desvanecia no pós-guerra, muitas das personagens da Timely Comics foram resvalando para a obscuridade. À qual nem o próprio Capitão América escaparia.
Se é difícil assinalar com precisão o fim da Idade de Ouro, o crepúsculo da Timely Comics, reminiscência dessa era de maravilhas, coincidiu seguramente com o cancelamento de Captain America, em outubro de 1950.
Enquanto soava o dobre a finados de uma era, Martin Goodman, exemplo de perseverança, preparava-se para uma nova. A Timely Comics dava, assim, lugar à Atlas Comics para fazer face aos desafios presentes e futuros. Mas essa é uma história para outra altura...


Parte do panteão da Timely seria incorporado no Universo Marvel.


Resultado de imagem para timely comics 2016
2016 marcou o regresso da Timely Comics,
agora como linha low cost da Marvel.

.




















.




























segunda-feira, 22 de julho de 2019

HERÓIS EM AÇÃO: QUARTETO FANTÁSTICO


  Mesmo nos seus momentos menos felizes, a Primeira Família de Heróis - tão falha e disfuncional como qualquer outra - provou que o todo é maior do que a soma das partes. Argonautas do impossível sedentos de novas aventuras, enfrentam futuro incerto dentro e fora dos quadradinhos.

Denominação original: Fantastic Four
Editora: Marvel Comics
Criadores: Stan Lee e Jack Kirby
Estreia: The Fantastic Four nº1 (novembro de 1961)
Membros fundadores: Senhor Fantástico (Mister Fantastic), Mulher Invisível (Invisible Woman),  O Coisa (The Thing) e Tocha Humana (Human Torch)
Local de fundação: Central City, Califórnia
Outros membros: Cristalys, Medusa, Mulher-Hulk, Nova, Mulher-Coisa, Franklin Richards, Valeria Richards, Pantera Negra e Tempestade
Base operacional: Nas suas primeiras histórias, o Quarteto Fantástico operava a partir de Central City (cidade natal de Reed Richards e local de formação do grupo), mas depressa se instalaria em Nova Iorque. Na Grande Maçã ocupou vários quartéis-generais, o mais notável dos quais foi o Edifício Baxter, um arranha-céus de 35 andares situado no coração de Manhattan. Quando este foi destruído pelo filho adotivo de Victor Von Doom (o infame Doutor Destino), o grupo ficou temporariamente alojado na Mansão dos Vingadores antes de se transferir para o imponente e ultrasofisticado Four Freedoms Plaza (assim batizado em alusão a um célebre discurso ao Congresso pronunciado pelo Presidente Franklin D. Roosevelt nas vésperas da entrada dos EUA na II Guerra Mundial). Após a destruição do Four Freedoms Plaza em consequência de um devastador ataque dos Thunderbolts, o Quarteto Fantástico usou o Cais 4 - um discreto armazém no porto de Nova Iorque - como sede provisória. Quando o Cais 4 sofreu destino idêntico ao dos seus antecessores, o grupo foi presenteado com uma nova e melhorada versão do Edifício Baxter, cortesia de Noah Baxter, antigo professor de Reed Richards. Construído em órbita, o novo Edifício Baxter foi depois teletransportado para o exato local onde outrora se erguia o original.
Némesis: Doutor Destino 


O Edifício Baxter original (cima) e o Four Freedoms Plaza
 foram as duas primeiras moradas da Família Fundamental.

Primeiros inquilinos da Casa das Ideias

A história, com matizes lendárias mas nunca desmentida pelos saudosos intervenientes, reza assim: num belo dia de 1961, Martin Goodman (editor-chefe da Marvel) e Jack Liebowitz (seu homólogo da DC) disputavam uma das suas costumeiras partidas de golfe. Num intervalo entre tacadas, o segundo ter-se-á gabado do sucesso da Liga da Justiça da América. Para delírio dos fãs, aquela que era a nova coqueluche da Editora das Lendas reunia numa mesma revista alguns dos maiores astros da companhia.
A bazófia do rival terá desencadeado em Goodman um momento eureca. De volta aos escritórios da Marvel, exortou Stan Lee, editor do departamento super-heroico, a criar uma equipa de justiceiros fantasiados  para competir diretamente com a Liga da Justiça.
Ao princípio, Stan Lee não ficou propriamente empolgado com a ideia. Tanto mais que estava de malas aviadas. Por considerar que a indústria dos quadradinhos se encontrava estagnada - muito por culpa das restrições moralistas impostas pela Comic Code Authority -  Lee planeava abandoná-la tão logo expirasse o contrato que o vinculava à Marvel.
Convicto de que aquela seria a última história de super-heróis que escreveria na vida, Stan Lee encheu-se de brios para fechar com chave de ouro a sua já longa carreira nos quadradinhos, iniciada nos alvores da Idade de Ouro ao serviço da Timely Comics.
O destino tinha, no entanto, outros planos para Stan Lee. Sem que este o soubesse, aquele seria um momento crucial no percurso que faria dele uma lenda viva dos quadradinhos.  Nos dias seguintes, Lee não deu descanso à pena:«No que deveria ter sido a minha despedida, resolvi escrever uma história que eu próprio gostasse de ler. Uma história com personagens falíveis, ídolos com pés de barro com os quais a maioria de nós simpatizaria.»
Lee terá fornecido então uma sinopse a Jack Kirby, a quem coube desenhar a história. À arte de Kirby, Lee acrescentou depois as legendas e os diálogos. Um processo criativo a que foi dado o nome de Método Marvel, e que faria escola dentro e fora da Casa das Ideias.
Quando confrontado com esta versão dos acontecimentos, numa entrevista de 1990, Jack Kirby reagiu assim: «Não passa de uma mentira descarada! Fui eu quem apresentou a Martin Goodman a ideia para o Quarteto Fantástico. Lee limitou-se a adicionar os diálogos à história que eu havia desenhado." 
Kirby também reafirmou em diferentes ocasiões que tinha sido ele a conceptualizar os elementos visuais da história. Apontando, à laia de prova, as semelhanças com os Desafiadores do Desconhecido (Challengers of the Unknown), grupo de aventureiros científicos que havia criado para a DC em 1957.
«Se atentarem nos uniformes do Quarteto Fantástico, - explicou Kirby -  perceberão que são similares aos dos Desafiadores do Desconhecido. Sempre tive preferência por uniformes práticos e com cinto. Uns e outros seguem esse padrão. E, no caso do Quarteto, o Coisa serviu para quebrar a monotonia do azul."
Apesar dos relatos divergentes, é opinião unânime entre vários dos seus contemporâneos que Stan Lee e Jack Kirby partilham a "paternidade" da Primeira Família de Heróis.

Jack Kirby (esq.) e Stan Lee recordavam de forma diferente
 a criação da primeira super-equipa da Marvel.
Em baixo, os Desafiadores do Desconhecido pelo traço do Rei.
Já no que tange à criação da insígnia peitoral que adorna os uniformes do Quarteto (um 4 estilizado dentro de um círculo), não restam dúvidas de que foi Stan Lee o autor da ideia. No entanto, a equipa atuou à paisana nas suas duas primeiras histórias. Foi essa a forma encontrada para prevenir um eventual atrito com a DC que, além de concorrente direta, era também a proprietária da distribuidora que fazia chegar às bancas as revistas da Marvel.
Em novembro de 1961, o Quarteto Fantástico fez a sua estreia em The Fantastic Four nº1 (o "The" cairia no número 16) e o seu estrepitoso sucesso surpreendeu até os próprios autores. Ao ponto de fazer Stan Lee reconsiderar a sua decisão de abandonar a Marvel e, por extensão, a indústria dos comic books.
Antes de salvar o mundo, o Quarteto Fantástico salvou, portanto, a carreira de Stan Lee. Que retribuiu com um fortíssimo investimento emocional, escrevendo algumas das melhores histórias do grupo, sempre sublimadas pelo magnífico traço de Jack Kirby.
Numa época em que a palavra de ordem era "inovar", o realismo da caracterização dos membros do Quarteto Fantástico foi uma das coordenadas do sucesso. Apesar da constante tensão entre eles, dificultando o trabalho em equipa, sabiam sempre transformar as fraquezas individuais na força do coletivo.
Outro aspeto diferenciador do Quarteto Fantástico era a ausência de identidades secretas. Em vez do anonimato cultivado pela maioria dos super-heróis, os seus membros gozavam do estatuto de celebridades. A mesma multidão que, não raro, suspeitava dos vigilantes mascarados, idolatrava sem reservas Reed Richards e companhia.
Era, todavia, na sua dinâmica familiar que residia o principal atrativo do Quarteto Fantástico. Uma mistura volátil de emoções e personalidades contrastantes, nem sempre eram a mais funcional das famílias mas tinham sempre presente que, perante as provações, a união faz a força. Constituindo, desse modo, uma metáfora perfeita para o turbulento relacionamento entre Stan Lee e Jack Kirby, o alfa e o ómega da Casa das Ideias.
A mesma Casa das Ideais que teve no Quarteto Fantástico os seus primeiro inquilinos. Mas que, hoje, parece não ter espaço para eles. Depois do inusitado cancelamento da sua série mensal em 2015, a Primeira Família de Heróis regressou ao ativo no ano passado, mais na qualidade de hóspedes VIP do que de anfitriões de uma casa devoluta de imaginação mas sobrelotada de causas identitárias.

A estreia da Primeira Família de Heróis em Fantastic Four nº1 (1962).

Argonautas do impossível

Um dos maiores vultos mundiais da engenharia aeroespacial, Reed Richards inventou a primeira espaçonave capaz de viajar até aos confins do nosso Sistema Solar. Esta foi, no entanto, uma pequena alteração ao rascunho inicial da história que apresentava a origem do Quarteto Fantástico. Num primeiro momento, Stan Lee definira Marte como destino da abortada missão espacial que levaria à formação daquela que seria a primeira super-equipa da Marvel.
Dado o considerável avanço que, por aqueles dias, os soviéticos levavam sobre os americanos na corrida espacial, Lee considerou prudente ser mais abrangente na sua descrição. Não fosse dar-se o caso de, aquando da publicação da história, uma bandeira da URSS ter já sido plantada na superfície do Planeta Vermelho.
Quando, em vésperas da data lançamento do foguetão de Richards, o Governo americano anunciou a sua intenção de cortar o financiamento do projeto, o jovem cientista ficou desesperado face à perspetiva de todo o seu trabalho ter sido em vão.
Recusando-se a atirar a toalha ao chão, Reed convenceu então a sua namorada (Susan Storm), o irmão dela (Johnny Storm) e um seu amigo dos tempos da faculdade (Ben Grimm) a acompanhá-lo num voo orbital não-autorizado. Cabendo a Ben, um experiente ex-piloto de testes, assumir os comandos da nave.
A coberto da noite, e antes que os jatos da Força Aérea pudessem intercetá-lo, o foguetão descolou rumo às estrelas com os quatro astronautas improvisados a bordo. Logo depois de ter saído da atmosfera terrestre, a nave foi engolida por uma tempestade subespacial e exposta a um intenso bombardeamento de radiação cósmica.
Assustada e desorientada, a tripulação comandada por Reed não teve outra opção senão abortar a missão e regressar, a muito custo, à Terra. Apesar de a nave se ter despenhado numa zona florestal, os seus ocupantes saíram aparentemente ilesos. Depressa descobriram, porém, terem sofrido mutações induzidas pelos raios cósmicos, que os dotaram de incríveis poderes.
Reed Richards conseguia agora esticar o seu corpo e membros como se de um elástico humano se tratasse; Susan Storm conseguia ficar invisível; Johnny Storm incendiava-se e conseguia voar; Ben Grimm, o menos afortunado do grupo, teve o seu corpo recoberto por uma densa camada rochosa e era senhor de uma força descomunal.
Note-se como os poderes de cada membro do Quarteto Fantástico correspondem aos quatro elementos primordiais estabelecidos pela Filosofia grega clássica: Terra (Coisa), Ar (Mulher Invisível), Fogo (Tocha Humana) e Água (Senhor Fantástico).

Terra, Ar, Fogo e Água.
Os 4 elementos primordiais estão representados no Quarteto Fantástico.
Apesar de ter decidido usar as suas habilidades em prol da Humanidade, o Quarteto Fantástico sempre se considerou mais uma família de cientistas e exploradores do que uma equipa de super-heróis. Foi Reed quem, por exemplo, descobriu a Zona Negativa, uma dimensão paralela composta por antimatéria, mas com uma atmosfera respirável que permite ao grupo visitá-la com regularidade.
Em todo o caso, o financiamento das atividades do Quarteto advém das inúmeras patentes registadas por Reed ao longo dos anos. Uma das mais lucrativas diz respeito às moléculas instáveis, usadas na confeção dos uniformes usados pelo grupo devido à sua capacidade de adaptação aos poderes de cada membro. É graças a elas que, por exemplo, o traje do Tocha Humana não arde sempre que ele se incendeia.
Para estes argonautas do impossível, habituados a viverem epopeias que desafiam os limites da imaginação e a contemplar as maiores maravilhas e horrores que o Universo tem para oferecer, viagens extradimensionais ou encontros com entidades cósmicas de incomensurável poder são apenas mais um dia no escritório.

Família alargada

À imagem e semelhança de qualquer outra família, o Quarteto Fantástico sofreu diversas reconfigurações no decurso dos anos. Em qualquer uma das suas formações, o grupo provou no entanto que o todo consegue ser maior do que a soma das partes, e soube sempre dar resposta coesa aos desafios que lhe foram sendo apresentados.
O seu núcleo duro é composto por quatro personalidades tão distintas entre si como as quatro estações do ano o costumavam ser antes de as alterações climáticas as baralharem. Fiquemos agora a conhecê-las um pouco melhor, assim como alguns apontamentos curiosos sobre cada um dos Quatro Fantásticos:

*Senhor Fantástico: Génio científico, Reed Richards representa a figura paterna do grupo, com perfil condizente: pragmático, autoritário e, não raro, enfadonho. Reed recrimina-se pelo fiasco da sua missão espacial e, particularmente, pela horrenda transformação do seu velho amigo Ben Grimm.
Capaz de esticar, deformar ou expandir o seu corpo em qualquer forma concebida pela sua imaginação, os seus poderes elásticos foram inspirados nos de Plastic Man (antiga propriedade da Quality Comics, agora detida pela DC). Apesar do seu Q.I. estratosférico, Reed tende a ser socialmente inábil e reprovou quatro vezes no seu exame de condução. Tem como passatempo preferido corrigir as teses de outros cientistas de elevada craveira, em especial as de Stephen Hawking.

Mister Fantastic (Reed Richards) by Ron Frenz #RonFrenz #MisterFantastic #ReedRichards #FantasticFour #FF #FutureFoundation #Avengers #Defenders #Illuminati
Reed Richards, o cérebro do grupo.

*Mulher Invisível: Única representante do belo sexo no conjunto, Susan Storm agrega os papéis tradicionalmente reservados às mulheres: esposa, mãe e amiga. Stan Lee concedeu-lhe o dom de manipular a luz para se tornar invisível porque não apreciava a ideia de ter um clone da Mulher-Maravilha a distribuir porrada. Preferindo, ao invés, criar uma contraparte feminina do Homem Invisível imaginado por H.G. Wells em 1897.
Nos anos 80 do século passado, durante a aclamada fase da autoria de John Byrne, Susan Storm ganharia a capacidade adicional de gerar campos de força invisíveis, usados tanto para efeitos defensivos como ofensivos. Pela mão do autor canadiano, Susan tornar-se-ia simultaneamente uma mulher independente e o membro mais poderoso da equipa.
Em harmonia com os costumes da época em que foi criada, Susan foi inicialmente retratada como modelo, mas um retcon conferiu-lhe um doutoramento numa área não especificada. Infeliz no seu casamento com Reed, viveu em tempos um tórrido affair com o Príncipe Submarino, do qual resultou o seu abandono temporário do grupo e consequente substituição pela Inumana Medusa.

Mulher Invisível
Susan Storm, a matriarca da Família Fundamental.
*Tocha Humana: Irmão mais novo de Susan Storm e benjamim do grupo, Johnny Storm foi agraciado com mimetismo pirocinético, ou seja, a capacidade de transformar o seu corpo em fogo. Em virtude disso, consegue voar e disparar rajadas incandescentes. A sua personalidade rebelde e impulsiva é em tudo semelhante à de um adolescente. Johnny ressente-se, por isso, de ser uma criança entre adultos, que nem sempre o levam a sério.Tem no Homem-Aranha um dos seus melhores amigos, apesar de a relação entre os dois ter começado com o pé esquerdo.
O seu nome e habilidades homenageiam o Tocha Humana da Idade de Ouro (prontuário disponível neste blogue), tendo mesmo Johnny chegado a adotar em tempos um uniforme idêntico ao do seu antecessor.
Uma vez que ao inflamar-se incinera todos os germes e bactérias presentes no seu corpo, Johnny não tem realmente necessidade de tomar banho ou escovar os dentes, ainda que não prescinda desses hábitos de higiene.

Human Torch of the Fantastic 4 (Marvel Comics) creating a 4 symbol in the sky
Johnny Storm, o eterno enfant terrible.

*O Coisa: Antigo colega de quarto dos tempos da faculdade e melhor amigo de Reed Richards, Ben Grimm não está ligado por qualquer grau de parentesco aos restantes membros do grupo. Representando, antes, uma espécie de tio por afinidade, daqueles que existem em quase todas as famílias.
Com uma personalidade decalcada da de Jack Kirby, Ben é temperamental e dono de um sentido de humor corrosivo. Apesar de amargurado pela impossibilidade de reverter a sua monstruosa aparência, o seu coração de manteiga faz dele o mais humano de todos os elementos que compõem a Família Fundamental, sendo por isso muito acarinhado pelos fãs.
À sua força descomunal (estima-se que conseguirá levantar, aproximadamente, 85 toneladas), o Coisa alia uma incrível resistência física e uma vontade inquebrantável. Judeu como Kirby, originalmente a sua aparência invocava a de um Golem - de acordo com o folclore hebraico, um gigante de pedra animado com recurso à magia. É também o alvo preferido das partidas do Tocha Humana, que se diverte com a sua crónica rabugice.

Ben Grimm, a alma e coração do Quarteto.
Da necessidade de substituir provisoriamente algum dos membros fundadores, resultou ao longo dos anos o recrutamento de vários integrantes temporários do Quarteto Fantástico. Foram os casos, por exemplo, da Inumana Cristalys (que ocupou a vaga da Mulher Invisível durante a primeira gravidez desta), de Medusa, ou ainda da Mulher-Hulk, que emprestou músculo à equipa durante o exílio autoimposto  do Coisa no final das primeiras Guerras Secretas.
No rescaldo da Guerra Civil (saga já aqui esmiuçada), também o Senhor Fantástico e a Mulher Invisível abandonaram o Quarteto, sendo respetivamente revezados pelo Pantera Negra e Tempestade.
Ainda que o grupo nunca tenha passado oficialmente a quinteto, em vários momentos da sua história contou, de facto, com cinco elementos. No rol de supletivos destacam-se, pela importância e duração das suas participações, Nova e Mulher-Coisa - ex-namoradas de Johnny Storm e Ben Grimm, respetivamente.
Houve ainda uma ocasião em que os quatro membros originais foram capturados por uma fugitiva Skrull, abrindo caminho a uma formação inédita composta por Hulk, Wolverine, Homem-Aranha e Motoqueiro Fantasma (Danny Ketch).


Em tempos, a Mulher-Hulk substituiu o Coisa.

Miscelânea

*O disforme regente de um império subterrâneo povoado por diferentes tipos de monstros, o Homem-Toupeira (Mole Man) foi o primeiro antagonista do Quarteto Fantástico, em Fantastic Four nº1;
*No âmbito de uma campanha promocional, em 1974 a Marvel lançou uma coleção de selos com as suas personagens mais emblemáticas. Distribuída em conjunto com as revistas mensais da editora, a coleção podia ser também adquirida por via postal. Cada um dos membros do Quarteto Fantástico teve direito a uma estampilha individual;


MVS page 3.jpg
O selo individual do Coisa na coleção lançada pela Marvel em 1974.
*Em 1980, John Byrne produziu uma edição especial de Fantastic Four para a Coca-Cola. A história seria, no entanto, vetada pelos executivos da empresa, que a consideraram demasiado violenta. Meses depois, a Marvel publicá-la-ia em Fantastic Four 220 e 221;
*Exercícios de metalinguagem e autorreferenciação eram frequentes nas histórias antigas do Quarteto Fantástico. No final dos anos 1960, por exemplo, o grupo vendeu os seus direitos de imagem à Marvel Comics, que os adaptou aos quadradinhos. Noutra ocasião, Stan Lee e Jack Kirby surgiram como coadjuvantes interagindo diretamente com as suas criações;
*Entre Reed Richards e Susan Storm existe uma considerável diferença de idades. Consoante a fonte consultada, a mesma varia entre os dez e os vinte anos. Ironicamente, na última aventura cinematográfica da Primeira Família de Heróis (vide texto seguinte), Kate Mara - atriz que sucedeu a Rebecca Staab e Jessica Alba no papel de Mulher Invisível - era quatro anos mais velha do que Milles Teller, a quem coube interpretar o Senhor Fantástico;
*Todos os membros do Quarteto Fantástico já passaram, em algum momento, pelas fileiras dos Vingadores, bem como de outros contingentes heroicos;
*Nos primórdios da sua carreira heroica, o Homem-Aranha procurou ingressar no Quarteto Fantástico, desistindo desse intento ao ser informado que não seria remunerado. As suas recorrentes colaborações com o grupo fariam porém dele uma espécie de quinto elemento oficioso. Em 2011, após a aparente morte do Tocha Humana, o Escalador de Paredes, acedendo ao último pedido do amigo, juntou-se à Fundação Futuro, organização filantrópica herdeira direta do Quarteto;
*No Brasil, a Primeira Família de Heróis debutou em 1969, na revista do Demolidor publicada pela EBAL. No ano seguinte ganharia título próprio, dando sequência às histórias iniciadas na série do Homem Sem Medo. Seguiu-se uma breve passagem pela GEA antes do regresso da equipa à EBAL, em finais de 1973. Durante essa fase, as histórias do Quarteto foram insertas na revista do Homem-Aranha. Na viragem da década de 1980, o grupo seria sucessivamente relançado em título próprio pela Bloch e RGE. Em 1983, foi a vez de a Abril adquirir os direitos do Quarteto Fantástico, os quais conservaria até 2000. Atualmente, é a Panini a sua detentora em Terras Tupiniquins. Já na pequena paróquia atlântica povoada pelos descendentes de Viriato, o grupo estreou-se em 1977, sob os auspícios da Palirex e com direito a título próprio: Os 4 Fantásticos  (nomenclatura que seria mantida pela Agência Portuguesa de Revistas até meados da década seguinte);

A série quinzenal a preto branco dos 4 Fantásticos editada pela Palirex.

Noutros media

Com forte penetração no segmento audiovisual refletindo a sua popularidade na banda desenhada, o Quarteto Fantástico protagonizou, até ao momento, quatro séries animadas e outros tantos filmes em ação real.
A transição do grupo para o pequeno ecrã verificou-se em 1967, ano em que o canal ABC exibiu Fantastic Four, produzida pela Hanna-Barbera e com desenhos de Alex Toth. Mais de uma década volvida, em 1978, a Primeira Família de Heróis regressaria à TV, desfalcada porém de um dos seus membros. Nessa segunda série animada saída dos estúdios DePatie-Freleng, o robô H.E.R.B.I.E. fez as vezes do Tocha Humana, cujos direitos haviam sido vendidos pela Marvel para um filme a solo nunca produzido.
Com introduções de Stan Lee e inserida no bloco The Marvel Action Hour, a terceira série animada do Quarteto Fantástico, outra vez titulada simplesmente Fantastic Four, manteve-se no ar entre 1994 e 1996. A reboque do filme lançado no ano anterior, em 2006 a última incursão do grupo no campo da animação - Fantastic Four: World's Greatest Heroes - teve a chancela da Moonscoop.

The 1967 series
A primeira série animada do Quarteto foi produzida pela Hanna-Barbera em 1967.
Oficialmente, a estreia cinematográfica do Quarteto Fantástico ocorreu em 2005, com o lançamento da longa-metragem epónima dirigida por Tim Story e com Ioan Gruffudd, Jessica Alba, Chris Evans e Michael Chiklis a interpretarem, respetivamente, Senhor Fantástico, Mulher Invisível, Tocha Humana e O Coisa. Apesar da reação morna da crítica e dos fãs, o filme daria, dois anos depois, origem à sequela Fantastic Four: Rise of the Silver Surfer.
Estas duas adaptações oficiais do grupo ao grande ecrã foram, todavia, precedidas de uma longa-metragem apócrifa produzida em 1994. Dirigida por Roger Corman, cineasta especializado em filmes de baixo orçamento, Fantastic Four nunca chegaria às salas de cinema ou sequer seria distribuído no circuito vídeo, na medida em que serviu exclusivamente para que a Constantin Films conservasse os direitos das personagens, adquiridos à Marvel Comics em meados da década anterior.
Em resposta ao débil desempenho comercial de Fantastic Four: Rise of the Silver Surfer, em 2015 foi lançado um reboot da franquia. Com realização a cargo de Josh Trank, Fant4stic contou com Milles Teller, Kate Mara, Michael B. Jordan e Jamie Bell nos principais papéis, sendo baseado na versão Ultimate do grupo. Desmantelado pela crítica, o filme soçobrou nas bilheteiras e é considerado por muitos fãs um dos piores dentro do género super-heroico.

Os filmes do Quarteto Fantástico ainda não convenceram os fãs.
Na sequência da aquisição da 21st Century Fox (detentora dos direitos cinematográficos do Quarteto Fantástico) pela Disney (proprietária dos Estúdios Marvel), em março deste ano, é expectável que, a exemplo do que já sucedeu com o Homem-Aranha, a Primeira Família de Heróis venha, num futuro próximo, a ser integrada no MCU.
Além dos filmes, séries animadas e jogos de vídeo, o Quarteto Fantástico deu também origem, em 1975, a um folhetim radiofónico. Apesar da sua curta duração, o projeto - que revisitava as histórias iniciais do grupo em episódios de 5 minutos - contava com a narração do próprio Stan Lee e ajudou a celebrizar o então desconhecido Bill Murray, ator escolhido para emprestar voz ao Tocha Humana.

The Fantastic Four returns to monthly comics in August, 2018.
Estará a Família Fundamental a caminho do MCU?
transparent background

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

HERÓIS EM AÇÃO: TOCHA HUMANA



   
   Reminiscência incandescente da Idade de Ouro dos comics, foi um dos arautos da era de maravilhas que deixaram o mundo embasbacado. Sobreviveu às épicas batalhas contra o Príncipe Submarino e aos horrores de uma conflagração planetária, mas não ao desvanecimento do género super-heroico. Resgatado ao oblívio, a glória encalhada no passado, habituou-se a viver à sombra do seu sucessor.

Denominação original: The Human Torch
Criador: Carl Burgos
Licenciador: Timely Comics (1939-49). Atlas Comics (1953-54)  e Marvel Comics (de 1966 ao presente)
Primeira aparição: Marvel Comics nº1 (outubro de 1939)
Identidade civil: James "Jim" Hammond
Local de nascimento: Laboratório do Professor Phineas T. Horton, Brooklyn (Nova Iorque)
Categoria: Androide senciente 
Parentes conhecidos: Tratando-se de um androide, o Tocha Humana não possui verdadeiros vínculos familiares, na aceção biológica do conceito. Ao Professor Horton, seu criador, poderá contudo ser reconhecida a paternidade simbólica daquele que foi o primeiro homem sintético no Universo Marvel. Também Centelha (Toro, no original) foi a dada altura perfilhado pelo herói, que, assim, se tornou pai adotivo do seu adjunto juvenil.
Entre o Tocha Humana e outras formas de inteligência artificial a que a tecnologia do Professor Horton serviu de matriz existem igualmente fortes afinidades. Casos, por exemplo, de Adam II, Volton e, claro, do Visão*.
Afiliação: Agindo sob o disfarce de Jim Hammond nos primórdios da sua longeva carreira de combatente do crime, o Tocha Humana foi paralelamente um agente do Departamento de Polícia de Nova Iorque. Além da já citada parceria heroica com Centelha, ainda na Idade do Ouro, formou temporariamente parelha com Sun Girl, heroína que também lhe serviu de interesse romântico. Seguir-se-ia a fundação dos Invasores**, em conjunto com o Capitão América e o Príncipe Submarino, para travar as forças do Eixo durante a 2ª Guerra Mundial. Regressado ao ativo após longos anos em hibernação, passou pelas fileiras de diversas organizações, como os Vingadores da Costa Oeste ou os Novos Invasores. É atualmente um operacional da SHIELD.
Base de operações: Originalmente, o Tocha Humana tinha em Nova Iorque a sua base operacional. Nos dias que correm está aquartelado em Camp Hammond, o centro de treino da SHIELD para meta-humanos assim batizado em sua homenagem e sediado em Stamford (Connecticut).
Armas, poderes e habilidades: Sem que daí advenha qualquer dano para o seu corpo sintético, o Tocha Humana consegue envolver-se num manto de plasma incandescente. Habilidade que decorre do facto de ele ter cada milímetro de pele recoberto pelas chamadas células Horton. As quais, em contacto com o oxigénio, entram em combustão espontânea. Processo que, inicialmente, o herói não controlava, o que trouxe alguns amargos de boca ao seu criador.
Quando transformado num braseiro ambulante, a energia térmica gerada pelo Mestre do Fogo pode ser canalizada para diversos efeitos, incluindo voar ou disparar rajadas flamejantes que também podem ser concussivas. Importa notar que, no caso das primeiras, a respetiva intensidade oscila entre um simples fogacho e uma irrupção energética equivalente à implosão de uma pequena nova.
Mesmo quando as labaredas provêm de uma fonte externa, o Tocha Humana consegue manipulá-las a seu bel-prazer graças ao seu controlo telecinético sobre a energia térmica ambiental. Antes de sublimar esse talento, nas suas primeiras aparições o herói costumava gritar (!) ordens ao lume. Que, como se de um animal amestrado se tratasse, obedecia aos seus comandos vocais.
Como qualquer ignição, as labaredas geradas pelo Mestre do Fogo alimentam-se de oxigénio, podendo ser extintas com recurso a água, areia, espuma supressora de fogo ou a qualquer outro material clássico de combate a incêndios. Exceto quando as mesmas atingem temperaturas de tal forma elevadas que vaporizam instantaneamente qualquer coisa que entre em contacto com elas.
Durante a Idade do Ouro era comum o Tocha Humana usar o seu corpo incandescente para atravessar paredes, cofres e outros objetos sólidos. Qual míssil humano, conseguia penetrar profundamente no solo ou no casco dos vasos de guerra inimigos na 2ª Guerra Mundial.
Continua, contudo, por aferir a verdadeira extensão dos poderes do herói. Se em determinada ocasião saiu fortalecido de uma explosão termonuclear, noutra quase foi destruído por uma. Certo é que o Tocha Humana, por oposição às suas chamas, consegue sobreviver sem oxigénio. Bastando, para isso, entrar em estase.
Dotado de níveis de força e resistência ligeiramente superiores à média humana por conta da sua fisiologia inorgânica (vide texto seguinte), o Tocha Humana é também um hábil combatente corpo a corpo. Competências de defesa pessoal adquiridas quer pelo treino recebido na Academia de Polícia, quer pelo que lhe foi em tempos ministrado pelo Capitão América.

* Anatomia do Fantasma de Pedra disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/08/herois-em-acao-visao.html
** Prontuário sobre os Invasores em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2015/02/herois-em-acao-invasores.htm

Nem paredes de aço travavam o Tocha Humana.
Fisiologia: Ao ser apresentado ao mundo, no virar da década de 1930, como o primeiro homem sintético da História, o Tocha Humana configurou um caso ímpar no panorama ficcional da época. Não só na banda desenhada mas também na literatura e no cinema. Segmentos culturais onde, até aí, o conceito mais glosado fora o do tradicional robô metálico.
Fazendo amiúde lembrar  um homem de lata, o aspeto dessa figura icónica da ficção científica podia ser mais ou menos antropomorfizado sem, contudo, lograr disfarçar a sua natureza mecânica aos olhos dos leitores e/ou dos espectadores.
Ora. embora composto por materiais inorgânicos, o Tocha Humana é anatomicamente idêntico a um ser humano do sexo masculino. Toda a sua fisiologia reproduz, aliás, até ao mais ínfimo pormenor, a de um homem de carne e osso.
Além de todo um conjunto de órgãos internos artificiais, o androide dispõe igualmente de um sistema circulatório. O sangue sintético do Tocha Humana corresponde, de resto, a uma das suas características fisiológicas mais admiráveis. Não só porque é compatível com todos os fenótipos catalogados (incluindo mutantes) mas, sobretudo, pelas suas reconhecidas propriedades regenerativas. Servindo igualmente de veículo transmissor de habilidades meta-humanas.
Recorde-se que foi depois de receber uma transfusão sanguínea do Tocha Humana que a heroína britânica Spitfire adquiriu a sua supervelocidade. Já uma segunda transfusão, recebida décadas mais tarde, salvou-lhe a vida e restaurou-lhe a juventude.

Spitfire ganhou supervelocidade graças
 ao sangue sintético do Tocha Humana.
De igual modo, os poderes latentes de Centelha, Homo Superior e antigo sidekick adolescente do herói, manifestaram-se apenas na sequência da sua exposição às células Horton. Nelas reside, com efeito, o segredo para estas milagrosas propriedades do sangue sintético do Tocha Humana. Ao cabo de uma investigação científica exaustiva, o Pensador Louco concluiu que a sua composição inclui plástico e polímeros de carbono que lhes possibilitam mimetizar as estruturas moleculares presentes nas células orgânicas. Mesmo em pequenas amostras, as células Horton conseguem produzir e acumular enormes quantidades de energia.
Não obstante tudo isto, o Mestre do Fogo possui, grosso modo, as mesmas necessidades e fraquezas de qualquer ser humano. Conforme atesta o facto de, em diversas ocasiões, ele ter sido mostrado a dormir ou a ingerir alimentos. Centelha chegou mesmo a sugerir humoristicamente que o seu mentor estaria apetrechado com um aparelho excretor. Brincadeiras à parte, tanto nas suas estórias clássicas como nas atuais, o Tocha Humana já demonstrou ser vulnerável, entre outras coisas, a gases tóxicos, à hipnose e a ataques telepáticos.
Curioso observar, no entanto, que a representação anatómica da personagem tem variado significativamente ao longo do tempo. Sobretudo desde que ele ganhou uma segunda vida no Universo Marvel, em meados dos anos 1960. Desde então, vários foram os cientistas que examinaram e modificaram o corpo robótico do Tocha Humana. Dentre eles, o Pensador Louco, responsável pela sua reativação, foi aquele que mais profundas transformações nele operou.

O Tocha Humana foi o primeiro homem sintético.
À boleia dessas reconfigurações tecnológicas, alguns dos escritores que passaram pelas histórias do Mestre do Fogo enfatizaram a sua origem mecânica. Por um lado, expondo sem pudor as suas entranhas cibernéticas (servomotores, circuitos elétricos, etc.); por outro, sugerindo que o androide obedece a uma programação predefinida e suscetível de ser alterada. Elementos inovadores que levaram a uma gradual desumanização da personagem, lembrando os leitores que estão em presença de uma máquina. E em prejuízo das características fisiológicas que tinham feito do Tocha Humana uma singularidade entre a constelação de inteligências artificiais que, após o seu surgimento, foram despontando nos quadradinhos e na ficção científica.

Tocha Humana: maravilha ou ameaça? 
Histórico de publicação: Com uma história assinada pelo próprio Carl Burgos, seu criador, o Tocha Humana estreou-se nas páginas de Marvel Comics nº1. Estávamos em novembro de 1939 e, em boa verdade, tratou-se de uma dupla estreia. De uma assentada, o neófito da Timely apadrinhava o lançamento do mais recente título periódico da editora. O mesmo que, mais de uma vintena de anos transcorridos, lhe daria o nome que a imortalizou nos pergaminhos da 9ª Arte.
Caído desde logo nas boas graças dos leitores, a quem incendiava a imaginação com as suas façanhas, a popularidade do Tocha Humana rendeu-lhe uma série própria. Seria, de resto, um dos primeiros super-heróis a beneficiar de tal privilégio, reforçando dessa forma o estatuto de coqueluche da Timely. Que, por esses dias, procurava conquistar o seu lugar ao sol no efervescente e competitivo mercado dos comics, alavancado pelo surgimento recente de personagens como Batman e Superman.



Em cima: Carl Burgos, o criador do Tocha Humana.
Em baixo: a sua estreia em Marvel Comics nº1 (1939).
Ao mesmo tempo que vivia trepidantes aventuras em The Human Torch (cujo número inaugural chegara às bancas norte-americanas no outono de 1940), o herói flamejante continuou a ser presença assídua noutros títulos da editora ao longo de todo o decénio. Captain America, Young Allies e Mystic Comics foram algumas das séries que, durante esse período áureo, acolheram tão distinto convidado.
Ainda em 1940, mais precisamente em maio e junho desse ano, o Tocha Humana coprotagonizaria com o Príncipe Submarino* aquele que é que considerado o primeiro crossover da história da banda desenhada. Entretanto renomeada de Marvel Mystery Comics, a série mensal que dera a conhecer ao mundo o primeiro homem sintético serviu de arena àqueles que eram, à época, os dois titãs da Timely. Uma batalha de contornos épicos que contemplava também um duelo elemental, visto que Namor e o Tocha Humana simbolizavam, respetivamente, a Água e o Fogo.
Narrada sob o ponto de vista dos dois contendores, a peleja espraiou-se por outras tantas edições de Marvel Mystery Comics, levando ao rubro as emoções dos leitores. Por exigência destes, assistir-se-ia, ao longo de toda a Idade do Ouro, a várias reedições desse confronto titânico.

Fogo versus Água.
Reprodução de um duelo clássico da Idade do Ouro.

Numa época em que os super-heróis prosperavam, parecia impossível os fãs cansarem-se das proezas da Primeira Maravilha. Exceção feita ao Capitão América, nenhuma outra personagem da Timely apareceu em tão grande número de histórias como o Tocha Humana. Já diz, no entanto, o velho adágio que "não há mal que sempre dure nem bem que não se acabe". E, de facto, tudo mudaria no pós-guerra. Período histórico que, além da paz e da esperança, trouxe também consigo o inexorável declínio do género super-heroico. À medida que a década de 1940 caminhava a passos largos para o seu epílogo, poucos foram os vigilantes fantasiados que escaparam ao oblívio.
Até então altas e pujantes, as labaredas do Tocha Humana começaram lentamente a esmorecer até se extinguirem. Em março de 1949, a sua série periódica foi cancelada em consequência da abrupta queda nas vendas. Apenas três meses depois seria a vez de à lendária Marvel Mystery Comics ser aplicada idêntica sentença de morte.
Ironicamente, a derradeira história do Tocha Humana publicada com a chancela da Timely Comics recontava a sua origem. Embarcando assim a personagem numa viagem ao passado sem bilhete de regresso ao futuro.
Numa tentativa de reabilitação do género super-heroico, em 1954 a Atlas Comics (herdeira da Timley Comics) lançou Young Men, série antológica que compilava algumas das histórias mais emblemáticas de Capitão América, Príncipe Submarino e Tocha Humana. A iniciativa redundaria, porém, num fiasco e duraria menos de um ano. Com os super-heróis a cambalearem pelas ruas da amargura, nem os mais otimistas se atreviam então a augurar-lhes um futuro risonho.

O Tocha Humana em destaque na capa de Young Men nº25 (1954).
Empurrado para a obscuridade, onde já definhavam muitos dos seus coevos da Idade do Ouro, o Tocha Humana por lá permaneceria durante doze longos anos. Sendo finalmente resgatado das catacumbas da memória coletiva em 1966. Apenas para ser morto em Fantastic Four Annual nº4. Não sem antes travar conhecimento com o seu jovem e irrequieto epónimo, Johnny Storm.
A morte nos quadradinhos é, no entanto, quase sempre um estágio temporário. Especialmente quando o suposto defunto é um androide. Foi, pois, sem grande surpresa que, alguns anos depois, os leitores reagiram à revelação de que o Tocha Humana original fora, afinal, reconfigurado e reprogramado para ser o Vingador robótico conhecido como Visão. Quando esta tese foi desmentida, os Vingadores não descansaram enquanto não recuperaram o verdadeiro corpo do Mestre do Fogo. Que, graças ao engenho científico de Hank Pym, seria revivido. O mesmo não acontecendo, porém, com a sua glória de outrora.
Mesmo sem o fulgor de outros tempos, o Tocha Humana clássico tem vindo gradualmente a recuperar notoriedade na mitologia da Marvel. Efeito direto da sua participação em The New Invaders. Título baseado na bem-sucedida série mensal dos Invasores editada nos anos 1970, e que vem sendo dado à estampa desde 2014.
O que quer que o futuro reserve à Primeira Maravilha, nada nem ninguém conseguirá alguma vez apagar o seu lastro incandescente na história da Casa das Ideias, em cujas paredes escreveu o seu nome com letras de fogo grego.


All New Invaders (cima) devolveu o Tocha Humana à ribalta.
Em baixo: o elenco original dos Invasores.
Origem: Pioneiro no campo da inteligência artificial e da robótica, o Professor Phineas T. Horton projetou um androide capaz de mimetizar praticamente todas as funções orgânicas de um ser humano, e também as cognitivas.
Usando exclusivamente materiais inorgânicos no processo de construção, o cientista criou dessa forma o primeiro homem sintético. Cuja epiderme estava totalmente recoberta pelas chamadas células Horton. De origem fotoelétrica, estas serviam-lhe de fonte de energia, constituindo simultaneamente a única deficiência da criatura. Devido à sua extrema volatilidade, as células Horton entravam em combustão espontânea em contacto com o oxigénio. Sem, contudo, danificar o corpo do androide.
Apesar dessa contrariedade, o Professor Horton resolveu anunciar a sua invenção ao mundo, convocando uma conferência de imprensa para o efeito, em novembro de 1939. Perante uma pequena multidão de repórteres céticos, o cientista mostrou como o androide irrompia em chamas ao permitir a entrada de oxigénio no interior do cilindro de vidro onde ele se encontrava confinado. Mas as coisas não correram exatamente como Horton planeara, com os jornalistas presentes a reagirem com um misto de escárnio e pavor.

O Professor Horton apresenta a sua criação ao mundo.
Descrito pelos tabloides como uma potencial ameaça à segurança pública, o surgimento do Tocha Humana gerou, naturalmente, alarme social. Perante este quadro, o Presidente dos EUA emitiu um decreto intimando Horton a neutralizar de imediato a sua criação. Foi assim que a Primeira Maravilha acabou enterrada várias dezenas de metros abaixo do nível do solo dentro de um caixão de concreto.
Enquanto Horton retomava a sua pesquisa na esperança de encontrar uma forma de evitar que o androide se inflamasse em contacto com o ar - ou que, pelo menos, aprendesse a controlar as suas labaredas - o Tocha Humana logrou evadir-se da sua prisão subterrânea. Proeza só possível devido a uma pequena rachadura no seu caixão de cimento que permitiu a entrada de oxigénio em quantidade suficiente para ativar as células Horton que revestiam o seu corpo.
Uma vez em liberdade, o Tocha Humana provocou acidentalmente vários focos de incêndio dispersos pela cidade de Nova Iorque, gerando pânico à sua passagem. Por fim, a sua jornada caótica conduziu-o à propriedade de Anthony Sardo, um criminoso oportunista que, tirando proveito da desorientação do androide,  usaria durante algum tempo os seus formidáveis poderes  para cometer uma série de delitos.
Quando tomou consciência das más intenções de Sardo, o Tocha Humana rebelou-se, acabando por, inadvertidamente. desencadear uma explosão que tiraria a vida ao bandido. Em consequência desse trágico episódio, e já depois de ter aprendido finalmente a controlar os seus poderes, o androide jurou solenemente servir a Humanidade.
Para levar a cabo essa árdua missão, o Tocha Humana passaria a contar logo depois com o voluntarismo de Centelha. De seu nome verdadeiro Thomas Raymond, Centelha era o filho adolescente de um casal de cientistas nucleares nascido com o talento mutante de controlar o fogo devido aos níveis de radiação a que haviam sido expostos os seus progenitores.
Mais ou menos pela mesma altura, movido pelo mesmo espírito cívico que o levara a operar como vigilante, o Tocha Humana criou a persona de Jim Hammond para ingressar no Departamento de Polícia nova-iorquino. Identidade civil que abandonaria ao cabo de pouco tempo. Continuando, todavia, a colaborar oficialmente com as autoridades municipais como Tocha Humana.
Quando os EUA entraram na II Guerra Mundial, o Mestre do Fogo e o seu adjunto juvenil aliaram-se a outros super-heróis para, nos campos de batalha europeus ou na frente do Pacífico, combaterem as forças do Eixo que ameaçavam a liberdade mundial. Nas fileiras dos Invasores, lutou, entre outros, ao lado do Capitão América e do Príncipe Submarino, seu antigo némesis.

Auxiliado por Centelha, o Tocha Humana
frustra os sinistros planos de um comando nipónico.
Na continuidade da Marvel, o Tocha Humana foi, aliás, o verdugo de Adolf Hitler. Com o Exército Vermelho às portas de Berlim, ele e Centelha invadiram o bunker do Fuhrer momentos antes de este se suicidar. Apesar dos seus esforços, o herói flamejante não conseguiu convencer o tirano a entregar-se aos americanos em vez de se render aos soviéticos. Quando Hitler disparou sobre ele, o Tocha Humana incinerou-o vivo com uma rajada de plasma incandescente.
Findas as hostilidades, o Tocha Humana seria desativado e enterrado sob as areias escaldantes do Deserto de Mojave. A sua hibernação seria, contudo, interrompida pelo ensaio de uma bomba atómica. Ao tomar conhecimento de que Centelha fora capturado e lobotomizado pelos soviéticos, o Mestre do Fogo resgatou o seu antigo parceiro e filho adotivo. Descobrindo entretanto que os seus poderes, embora amplificados pela radiação da bomba atómica que o despertara, também se tinham tornado mais instáveis.
Temendo representar uma ameaça para a Humanidade, o Tocha Humana regressou ao Deserto de Mojave e libertou toda a energia acumulada no seu corpo sintético, induzindo assim a própria desativação. Permanecendo inerte e esquecido por vários anos até ser encontrado pelo Pensador Louco que o tentou usar para liquidar o Quarteto Fantástico. Episódio que assinalou a sua reintrodução na continuidade moderna da Casa das Ideias.

Origem e evolução do Príncipe Submarino em: http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/05/herois-em-acao-namor-o-principe.html

Fogo contra fogo. ´
O Tocha Humana original defronta o seu sucessor em Fantastic Four Annual nº4 (1966).

Trivialidades:

* São muitos os leitores que ignoram até hoje que Johnny Storm, o celebérrimo Tocha Humana do Quarteto Fantástico, herdou esse título do seu antepassado da Idade de Ouro dos quadradinhos. No princípio dos anos 1970, o benjamim da equipa capitaneada pelo Senhor Fantástico chegou mesmo a adotar brevemente um visual inspirado no do Tocha Humana original, apresentado nas páginas de Fantastic Four Vol.1 nº132 (edição datada de março de 1973);

A estreia do uniforme vermelho e dourado de Johnny Storm,
que teve como modelo o do Tocha Humana original.
* Muitos são aqueles também que desconhecem por completo que, na sua primeira aparição, o cabelo do herói era ruivo, passando a loiro na edição seguinte; ou, ainda, que ele costumava deixar pegadas de fogo por onde passava, as quais demoravam horas a extinguir-se naturalmente;
* Apesar de o Tocha Humana atuar frequentemente de cara descoberta, nem a imprensa nem o público alguma vez conseguiram identificá-lo como Jim Hammond;
*Em linha com uma multitude de publicações do género, The Human Torch serviu fins propagandísticos durante a II Guerra Mundial. Impregnadas de fervor patriótico, era comum as historietas do Mestre do Fogo incluírem referências a episódios reais do conflito em curso. Pretendia-se desse modo enaltecer o esforço de guerra americano e, por inerência, a causa aliada;
* Conforme foi referido anteriormente, Camp Hammond, o centro de treino da SHIELD para meta-humanos, foi assim nomeado em homenagem ao Tocha Humana. Que, em tempos, teve também direito a uma estátua no interior do recinto, em cuja base se podia ler a seguinte inscrição: "Jim Hammond, a primeira das maravilhas. Ele mostrou-nos que os heróis podem ser criados." O monumento seria, contudo, derrubado por uma turba enfurecida durante a saga Reinado Sombrio (Dark Reign, 2009), quando, após desmantelar a SHIELD, Norman Osborn ordenou o encerramento das suas instalações espalhadas pelo globo;

Jim Hammond, agente da SHIELD.
*Apesar de ter aprendido a voar muito precocemente, por algum motivo o Tocha Humana não fez uso dessa habilidade em algumas das suas primeiras aventuras. Era, porém, capaz de correr mais depressa do que qualquer automóvel da época e de saltar a grandes alturas;
* Incendiário (Firebug), Mestre do Fogo (Fire Master) e Primeira Maravilha (First of the Marvels) são os principais epítetos utilizados para cognominar o Tocha Humana. Devendo-se este último não ao facto de ele ter sido o primeiro super-herói da Casa das Ideias (a sua estreia foi precedida em alguns meses pela do Príncipe Submarino), mas por lhe terem cabido as honras de inaugurar Marvel Comics. Título mensal que, como explicado acima, daria nome à editora anteriormente conhecida como Timely Comics e Atlas Comics;
* No Brasil, as histórias do primeiro Tocha Humana foram publicadas sob os auspícios de diversas editoras. Foi, todavia, com a chancela da Bloch que, entre 1975 e 1976, ele granjeou maior notoriedade em Terras Tupiniquins, ao ter direito a uma série mensal em nome próprio. Esta, além de servir de repositório ao material antigo da personagem publicado pela Timely Comics na década de 40 do século transato, reproduzia igualmente capas e histórias de um título regular que o herói flamejante estrelara em 1974 nos EUA. Como bónus, O Tocha Humana incluía ainda aventuras a solo do seu epónimo, Johnny Storm.
Mais recentemente, em 2015, foi a vez da editora Salvat lançar uma antologia das histórias emblemáticas do Tocha Humana original, tomo integrado na coleção Os Heróis Mais Poderosos da Marvel.

Dilúvio de fogo.
Duelo de Tochas Humanas a abrir a série solo do herói editada pela Bloch.
Noutros media: Por contraponto à sua versão contemporânea, o Tocha Humana clássico é um ilustre desconhecido do grande público. Contam-se, de resto, pelos dedos de uma mão as suas incursões no panorama audiovisual. Facto que, sem sombra de dúvida, contribui para reforçar esse seu semianonimato. Somente em 1994, num episódio avulso da primeira temporada da série animada Fantastic Four, é que o Mestre do Fogo timidamente se aventurou fora da banda desenhada.
Nessa sua estreia televisiva, a personagem teve, porém, a sua origem retocada. Na nova versão da sua história, ele continuava a ser um androide, mas projetado por Reed Richards. O que aconteceu depois de o líder do Quarteto ter descoberto uma forma de replicar os poderes incandescentes de Johnny Storm. Com esta cambiante, inverteu-se a ordem cronológica da aparição dos dois Tochas. Corruptela histórica apenas percecionada por verdadeiros eruditos da 9ª Arte.
Desde esta sua discreta participação em Fantastic Four, o primeiro Tocha Humana fez apenas dois cameos, um na TV e outro no cinema. O primeiro ocorreu em 2010 num episódio de The Super Hero Squad Show, outra série de animação produzida pelos Estúdios Marvel.
No ano seguinte, a personagem marcou presença em Capitão América: O Primeiro Vingador ( filme já aqui esmiuçado). Numa clara piscadela de olho ao material original, na sequência ambientada na Expo Stark, é mostrado um vislumbre do corpo inerte do androide no interior de um cilindro de vidro estanque e transparente. Uma vez mais, essa deliciosa referência terá passado despercebida ao leigos em "heroilogia".

O Tocha Humana na Expo Stark
em Capitão América: O Primeiro Vingador.