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quinta-feira, 27 de abril de 2017

HERÓIS EM AÇÃO: X-0 MANOWAR


  Com o ímpeto e a bravura de um guerreiro Visigodo nascido no campo de batalha, chegou aos nossos dias aos comandos de uma das mais poderosas armas da galáxia, que usa para defender um mundo que mal compreende. 
  Produto da imaginação de duas lendas vivas da 9ª Arte, X-0 Manowar é figura de proa do Universo Valiant e um fenómeno de sucesso por terras do Tio Sam. Continua a ser, porém, um ilustre desconhecido para boa parte do público lusófono.

Licenciadoras: Valiant Comics (1992-1996), Acclaim Comics (1997-1999) e Valiant Entertainment (desde 2012)
Criadores: Jim Shooter (história) e Bob Layton (arte conceitual)
Primeira aparição: X-0 Manowar nº1 (fevereiro de 1992)
Identidade civil: Aric de Dácia e Donovan Wylie (na versão da Acclaim Comics)
Local de nascimento: Dácia*, século IV d. C.
Parentes conhecidos: Rolf e Inga (pais, falecidos); Rei Alaric (tio, falecido); Deidre (ex-esposa, falecida); Saana (esposa) e Jhukka (filha ainda por nascer)
Base de operações: Móvel
Afiliações: Visigodos e Unidade **
Armas, poderes e habilidades: Como qualquer guerreiro da Antiguidade forjado por incontáveis pelejas, Aric maneja a espada com notável destreza e, muito por conta da sua robustez física, é um exímio lutador corpo a corpo. Habituado a comandar as hordas dácias no campo de batalha devido ao seu estatuto de herdeiro do trono, é um líder experimentado e um hábil estrategista. Sobrevém, no entanto, do seu exoesqueleto alienígena o seu formidável poderio bélico.
Segundo a lenda, milénios atrás a Shanhara (assim se chama a armadura de X-0 Manowar) terá crescido de uma planta mística estranha à flora de Loam, o planeta-metrópole do império galáctico da Vinha. Quando essa raça de aranhas humanoides (anteriormente designada Spider Aliens) foi escravizada por uma outra conhecida apenas como Tormenta, um dos seus representantes encontrou o traje e serviu-se do seu imenso poder de fogo para repelir sozinho a agressão contra o seu povo, tornando-se assim o seu campeão.
De origem e propósito ainda desconhecidos, a Shanhara é na verdade uma entidade senciente composta por uma amálgama de elementos orgânicos e de metais exóticos que estabelece uma relação simbiótica com o seu usuário. Cuja escolha não obedece, contudo, a critérios aleatórios. 
Antes de perecer, o hospedeiro original da Shanhara profetizou o advento de um escolhido digno de usá-la, e que guiaria Loam a uma era de prosperidade sem precedentes.
Na expectativa do cumprimento da profecia, ao longo dos séculos que seguiram os altos sacerdotes da Vinha - que haviam alçado a Shanhara ao estatuto de divindade - procuraram incessantemente por um substituto capaz de suportar o poder da armadura. Nenhum dos candidatos sobreviveu, porém, ao processo.
Foi, por isso, com um misto de estupefacção e ultraje que os clérigos da Vinha testemunharam a bem-sucedida comunhão da Shanhara com Aric, o humano que haviam abduzido anos antes e que vinham escravizando desde então.
Perante a incapacidade em compreender as razões que levaram o simbionte tecno-orgânico a escolher Aric como seu hospedeiro, o Conselho da Vinha teorizou que isso se deverá eventualmente ao facto de, salvo pelo seu primeiro usuário, os membros da sua espécie serem geneticamente incompatíveis com a entidade.
Aric e Shanhara partilham, de facto, uma relação singular; tão singular que é preservada mesmo quando os dois se encontram separados. No entanto, apesar de forte, o vínculo telepático entre ambos não é indestrutível. 
Num passado recente, Livewire, uma tecnopata ao serviço da Fundação Harbinger (organização secreta responsável pelo recrutamento de jovens dotados de poderes psiónicos, para salvaguarda da Humanidade), conseguiu sobrecarregar a conexão do traje a Aric, tornando-se depois sua usuária durante um curto período de tempo.

Aric e Shanhara: separação dolorosa.
Assim como a sua origem e propósito, suspeita-se que também a real amplitude do poder da Shanhara poderá ainda não ter sido totalmente revelada. A despeito disso, a vasta gama de recursos com que capacita o seu usuário é suficiente para fazer dela uma das armas mais temidas e poderosas da galáxia.
Desde logo porque, à superforça e ao teletransporte, somam-se a invulnerabilidade e o poder de voo. Como se isso não fosse suficientemente impressionante, o traje possibilita também a manipulação de vários tipos de energia. Seja sob a forma de rajadas concussivas seja através da projeção de construtos ou de campos de força. Dispondo ainda de lançadores de mísseis acoplados nos pulsos. Tudo somado, a Shanhara faz do seu usuário um exército de um homem só.
Qualquer idioma - terrestre ou extraterrestre - é instantaneamente traduzido pela armadura. Que pode ainda interagir com complexas formas de tecnologia ou fornecer telepaticamente vastas quantidades de informação ao seu usuário. 
Outra das mais extraordinárias valências da Shanhara consiste na sua capacidade de curar moléstias ou ferimentos potencialmente fatais para o seu hospedeiro ou para terceiros (certa vez, Aric usou-a para salvar a vida do seu melhor amigo).
Apesar das suas características singulares, a Shanhara não é um espécime único. Espalhadas pelo Universo, existe um número indeterminado de armaduras sencientes, ao serviço de múltiplas raças alienígenas. Devendo, por isso, a Humanidade estar grata por ter X-0 Manowar como seu padroeiro.

*Território geográfico situado na região dos Cárpatos que, na Antiguidade, serviu de lar aos dácios (tribo setentrional aparentada com os trácios) e que corresponde, grosso modo, à Roménia e à Moldávia atuais. Até à sua conquista pelos romanos, em 102 d. C., a Dácia era um reino independente que tinha em Sarmisegetuza a sua capital.
**Unity no original, é um coletivo heroico composto por alguns dos mais poderosos superseres da Valiant Comics, originalmente reunidos para defrontar X-0 Manowar que, mais tarde, seria admitido na equipa.

Máquina de guerra em ação.

Histórico de publicação: Duas lendas vivas da Nona Arte, Joe Shooter e Bob Layton* dividem entre si a "paternidade" de X-0 Manowar. Escritor veterano e multipremiado, o primeiro fez praticamente todo o seu percurso profissional ao serviço da Marvel Comics, onde, ao longo de quase uma década, desempenhou as funções de editor-chefe. Precisamente aquelas de que seria investido na Valiant Comics, projeto de que fora aliás um dos fundadores. Já o segundo tivera na sua passagem pelas histórias do Homem de Ferro, na viragem da década de 1980, um dos pontos mais altos da sua fulgurante carreira de escritor e ilustrador.
Foi, pois, da junção desses dois vibrantes talentos que nasceu uma personagem fadada ao sucesso, conforme o ratificam os milhares de edições vendidas e o sortido de comendas e nomeações que foi averbando, sobretudo desde o seu relançamento em 2012. Ano em que, outras distinções, a sua nova série periódica foi contemplada com o Diamond GEM Award para a melhor edição do ano acima dos 3 dólares. Feito tanto mais assinalável em se tratando de um título publicado por uma editora recém- refundada.


Jim Shooter (em cima) e Bob Layton,
os criadores de X-0 Manowar.
Mas puxemos atrás o filme dos acontecimentos. Recuemos exatamente duas décadas até chegarmos a 1992. Em fevereiro desse ano, X-0 Manowar fazia a sua estreia em X-0 Manowar nº1. Alguns dos conceitos apresentados nessa edição histórica haviam no entanto já sido inseridos por Jim Shooter em Magnus, the Robot Fighter. Além da Shanhara, também as Spider Aliens tinham marcado presença nas aventuras desse herói clássico outrora propriedade da Gold Key Comics, mas cujos direitos de licenciamento eram agora detidos pela Valiant.

O nascimento do guerreiro em X-0 Manowar nº1 ( Valiant Comics, 1992).
Com 69 números publicados, a primeira série de X-0 Manowar, a exemplo de vários outros títulos da neófita editora, fez furor entre os leitores que dela fizeram uma campeã de vendas no período que precedeu o seu cancelamento, em setembro de 1996. Circunstância ditada, note-se, não por um súbito declínio, mas sim pela intenção da Acclaim Entertainment (a nova dona da Valiant) de produzir jogos de vídeo baseados em super-heróis. Necessitando, para esse efeito, de torná-los mais adaptáveis a essas plataformas. Requisito que, por sua vez, motivou no ano seguinte o relançamento (reboot, para os mais versados na terminologia nerd) de diversas personagens. Começando, claro, por aquela que era uma das figuras de proa do Universo Valiant: X-0 Manowar. 
Sem surpresas, foi ele o escolhido para, em conjunto com o Homem de Ferro, coprotagonizar Iron Man and X-0 Manowar in Heavy Metal, jogo de vídeo lançado logo em 1996 pela Acclaim Entertainment. Mas que esteve longe de encher as medidas aos fãs e à crítica especializada, que o descreveu mesmo como "aborrecido" e "dececionante".
Nessa sua nova encarnação sob a chancela da Acclaim Comics, X-0 Manowar teve a sua origem recontada e ganhou novo alter ego. Aric de Dácia cedeu, assim, o lugar a Donovan Wylie (vide texto seguinte) na segunda série de X-0 Manowar. Que, apesar de ter nos consagrados Mark Waid e Brian Augustyn a sua equipa criativa, foi incapaz de reeditar o êxito da sua antecessora, acabando cancelada em 1998, ao fim de 21 números publicados.

O renascer de um mito em X-0 Manowar nº1 (Acclaim Comics, 1996).
Quatro anos depois, em 2002, seria a vez de a própria Acclaim cerrar portas em consequência das dificuldades de tesouraria da sua divisão de jogos eletrónicos. Game over para X-0 Manowar? Como em tantos outros casos, as notícias acerca da sua morte foram manifestamente exageradas.
Empurrado para o limbo editorial, X-0 Manowar teria de esperar até 2008 para dele ser finalmente resgatado. Agora sob os auspícios da Valiant Entertainment (a nova denominação da rediviva editora fundada por Jim Shooter e companhia), nesse ano foi dada à estampa X-0 Manowar: Birth, uma antologia de luxo que compilava os sete primeiros números da série original. Recolorida digitalmente, a coleção incluía ainda, como bónus, uma história inédita da autoria de Bob Layton.
O regresso à ribalta só se cumpriria quatro anos depois, em 2012, quando X-0 Manowar voltou a dispor de um título em nome próprio. Escrita por Robert Venditti e com arte de Cary Nord, a terceira série de X-0 Manowar, apesar do bom desempenho comercial, não escapou ao cancelamento ocorrido em meados do ano transato após um hiato de alguns meses na respetiva publicação.
Podem no entanto os fãs aquietar os espíritos porque a Valiant já confirmou entretanto a sua intenção de lançar uma quarta série de X-0 Manowar. Por ora sabe-se apenas que ela terá tramas a cargo de Matt Kindt. Preveem-se, por isso, novidades dentro dos próximos meses, inclusive no que à escolha do artista diz respeito.

De volta às origens em X-0 Manowar  nº1 (Valiant Entertainment, 2012).
*Perfil disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/07/eternos-bob-layton-1953.html

Guerra de armaduras.
Origens: Na versão canónica da sua história, introduzida pela Valiant Comics, Aric de Dácia era um bravo guerreiro Visigodo nascido em pleno campo de batalha, e para quem a paz nunca fora mais do que uma quimera. Sobrinho do Rei Alaric, era também o legítimo herdeiro do trono quando, no dealbar do século V d.C., o seu povo lutava para se libertar do domínio do Império Romano.
Após uma clamorosa derrota imposta pelo exército ocupante, os Visigodos bateram em retirada para o seu campo, apenas para descobrirem que, na sua ausência, muitas das suas mulheres e crianças haviam sido capturadas pelos Romanos. Entre os cativos encontravam-se Deidre e Inga, a esposa e a mãe de Aric. Que já havia perdido também o pai no decurso da escaramuça com os soldados imperiais.

O destino de Aric de Dácia estava escrito nas estrelas.
Na esperança de conseguirem resgatar os seus entes queridos, um grupo de guerreiros Visigodos chefiados por Aric planearam atacar nessa mesma noite o forte Romano onde eles se encontravam aprisionados. Foram, no entanto, surpreendidos por batedores da Vinha, uma brutal raça de esclavagistas alienígenas.
Levados para os confins do espaço sideral a bordo da nave-mãe da Vinha, Aric e os seus companheiros passaram os anos seguintes a trabalhar como escravos nos campos agrícolas existentes no seu interior.

Comandante Trill, um dos mais desapiedados membros da Vinha
 e inimigo figadal de X-0 Manowar.
Dono de uma vontade inquebrantável, Aric nunca desistiu de voltar para junto daqueles que amava e, quando a oportunidade se materializou, liderou uma rebelião contra os seus captores. Durante a qual invadiu um templo sagrado da Vinha, roubando a sua maior relíquia: Shanhara, uma armadura senciente que era também uma das mais poderosas armas da galáxia.  Aos comandos da qual conseguiu finalmente escapar da nave. A duras penas, no entanto, já que foi obrigado a deixar para trás os seus companheiros moribundos.
De volta à Terra, Aric ficou mortificado ao descobrir que, devido a um fenómeno de dilatação temporal induzido pela velocidade da luz a que se movia a nave da Vinha, haviam passado de facto 1600 anos desde a sua abdução.
Preso no século XXI, não foi fácil para Aric, mesmo com a ajuda da Shanhara, ajustar-se à realidade dos nossos dias. Ao cabo de muitas peripécias e alguns encontros - nem sempre amistosos -  com outros super-heróis do Universo Valiant, acabaria por assumir o controlo das Indústrias Orbe, uma poderosa multinacional secretamente fundada pela Vinha com o propósito de influenciar os destinos da Humanidade.

Um bárbaro à deriva na civilização.
Um homem fora do seu tempo, X-0 Manowar é desde então o campeão de um mundo que ainda mal compreende.
Problema que nunca afligiu Donovan Wylye, a sua contraparte introduzida pela Acclaim Comics. Um brilhante cientista militar, Wylie operava uma sofisticada armadura de combate apreendida pelo Governo americano aos nazis durante a II Guerra Mundial.
De origem desconhecida, o traje deste segundo X-0 Manowar pouco tinha a ver com o modelo original. Sendo descrito como um artefacto usado ao longo de diferentes épocas por uma miríade de guerreiros.Havendo, no entanto, um reverso da medalha.
Ao mesmo tempo que concedia enorme poder de fogo ao seu usuário, o traje drenava-lhe a energia vital, deteriorando-lhe o corpo e a mente. Outra diferença residia na natureza do vínculo estabelecido entre ambos. Em vez de uma conexão telepática, a nova armadura fundia-se ao sistema nervoso central do seu hospedeiro, não podendo ser removida sem que daí resultasse a sua morte. Contingência para a qual, malgrado os esforços envidados nesse sentido, Donovan Wylie nunca conseguiu solucionar.


Donovan Wylie estava refém da sua armadura.

Apontamentos:

*O Homem dos Mapas (Map Giver, um sósia quase perfeito de Elvis Presley) foi quem, na versão original da história de X-0 Manowar, usou uma lasca de osso para entalhar na palma da mão de Aric o mapa que o conduziu à Shanhara;
*Antiga escrava, Deidre reverenciava Lug, uma das principais divindades do panteão celta à qual Aric se converteu depois de desposá-la; 
*Em X-0 Manowar Yearbook (1995) foi explicitada a génese da inimizade jurada entre Gilad Anni-Padda - o herói imortal conhecido como Guerreiro Eterno (Eternal Warrior) - e Aric. Após ter sido salvo por este de uma cilada montada por saqueadores, Gilad retribuiu denunciando aos Romanos a localização do campo dos Visigodos. Em consequência do ataque que se seguiu, Deidre,, perdeu o bebé de Aric que carregava no ventre. O vil ato de traição de Gilad fez no entanto parte de uma conjura que provocou a queda do Império Romano e abriu caminho à entronização de Alaric, rei dos Dácios e tio de Aric.

Um guerreiro tão eterno como o ódio que lhe devota X-0 Manowar.

Noutros segmentos culturais: Resume-se por enquanto ao já mencionado Iron Man and X-0 Manowar in Heavy Metal - jogo eletrónico lançado pela Acclaim em 1996 - a presença do herói criado por Jim Shooter e Bob Layton em outras plataformas que não a banda desenhada.  Cenário que poderá, contudo, alterar-se significativamente num futuro próximo.
Numa entrevista recentemente concedida ao canal do YouTube Variant Comics, o atual presidente-executivo da Valiant Entertainment,  Dinesh Shamdasani, anunciou os planos da companhia para a criação do seu próprio Universo Estendido. O que, a concretizar-se, abrirá uma nova frente de combate na guerra mediática que vem sendo travada nos últimos anos pelas arquirrivais Marvel e DC.
Na esteira dessas declarações de Shamdasani, o New York Times adiantou entretanto que se encontram atualmente em curso negociações entre a Valiant e a DMG Entertainment, uma produtora cinematográfica de Los Angeles com forte implantação no mercado chinês e cuja filmografia inclui Iron Man 3.
Além de uma série de ação real baseada em Ninjak e de um filme de Bloodshot (duas das coqueluches da Valiant), estará também na calha uma longa-metragem estrelada por X-0 Manowar. 
Notícias que soarão certamente como música aos ouvidos dos fãs da Valiant, ansiosos por verem as suas personagens favoritas a ganharem vida no pequeno e grande ecrãs.

Metal pesado em defesa do Universo.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

ETERNOS: BOB LAYTON (1953 - ... )



  Teve um dos pontos mais altos da sua trepidante carreira na sua passagem pelas estórias do Homem de Ferro, a quem ajudou a restituir o fulgor de outrora. Visionário também no mundo dos negócios, fez prosperar uma pequena editora falida e revolucionou o circuito de distribuição de comics antes de rumar à Meca do cinema.

Biografia e carreira: Mesmo depois de ter trocado a Nona pela Sétima Arte, aos 63 anos Robert "Bob" Layton continua a ser um dos mais venerados autores de banda desenhada com super-heróis, tendo no Homem de Ferro a sua personagem-talismã. Conhecido pela sua astúcia e polivalência, erigiu uma sólida carreira ao serviço dos gigantes da indústria de quadradinhos norte-americana.Com cujas produções teve contacto ainda em tenra idade e cujas potencialidades de negócio começou a explorar numa fase igualmente precoce da sua vida.
Bob contava apenas quatro anos de idade quando foi alfabetizado pela sua irmã mais velha que, cansada de ler-lhe vezes sem conta a mesma edição de Showcase (almanaque de referência da DC Comics, muito popular nos anos 50 e 60 do último século), o ensinou pacientemente a juntar as primeiras letras.
Mal concluiu o liceu, Bob tornou-se uma espécie de traficante de revistas aos quadradinhos, vendendo-as a outros jovens nas imediações do edifício de apartamentos em Indianápolis onde residia com a família. Foi graças a esta pequena negociata que, em 1973, travou conhecimento com Roger Stern. À época, o futuro romancista e escritor de algumas das personagens de proa da Marvel e da DC trabalhava numa estação de rádio local. Deste encontro fortuito nasceu uma proveitosa sinergia que alçaria ambos a voos mais altos.
Com efeito, pouco tempo depois de os seus caminhos se terem cruzado, Bob Layton e Roger Stern lançaram um fanzine que logo os colocaria na berlinda. Sob o pomposo título Contemporary Pictorial Literature (Literatura Pictórica Contemporânea), mais não era, contudo, do que uma publicação amadorística dedicada à Nona Arte, material muito comum ao longo de toda a década de 1970. Sobressaindo, porém, o CPL pela sua elevada qualidade, tanto a nível gráfico como textual.
Vendido uma vez mais à porta da casa de Bob, foi muito por conta das apelativas capas por ele ilustradas que o CPL se tornou um fenómeno de popularidade, obrigando a sucessivos aumentos de tiragem. Sobremaneira apreciados pelos fãs - que, de quando em vez, eram convidados a participarem no projeto - eram também os artigos da lavra de Roger Stern.

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Capa de CPL nº17 (1975) com arte de Paul Gulacy,
outro dos virtuosos que  lá se deu a conhecer.

Tamanho furor não passou despercebido aos mandachuvas da Charlton Comics que, intuindo o virtuosismo dos jovens autores do CPL, os convidou a produzirem e publicarem o lendário Charlton Bullseye. Magazine a preto e branco que, entre 1975 e 1976, serviria essencialmente para divulgar material inédito da editora, indo dessa forma ao encontro de iniciativas análogas por parte da Marvel e da DC.
Entre os vários nomes que se tornariam sonantes nos meandros dos quadradinhos depois de terem engalanado as páginas do CPL com o seu talento, destaque para John Byrne, então um jovem desenhador freelancer a tentar afirmar-se na Charlton Comics.
Azougado como poucos, Bob Layton soube retirar grandes benefícios desta parceria com aquela que, à época, era uma das mais importantes editoras a operar no mercado dos comics. Desde logo porque foi graças a ela que foi apresentado a Wallace Wood, um dos mais prestigiados cartunistas estadunidenses do século transato, de quem se tornaria aprendiz. Esse aprendizado com tão insigne mestre abrir-lhe-ia as portas da Charlton, companhia da qual Bob assumiria vários dos seus títulos de charneira.

O primeiro número do Charlton Bullseye
foi lançado em janeiro de 1975.
Ainda que com alguma sorte e batota à mistura, também as portas da Casa das Ideias se entreabririam entretanto para Bob Layton. Entre as incumbências inerentes ao seu tirocínio com Wallace Wood, incluía-se a ocasional entrega de trabalhos do seu precetor nos estúdios nova-iorquinos da Marvel Comics. Tendo sido precisamente numa dessas visitas à sede da editora que era ainda capitaneada por Stan Lee que, com o arrojo que lhe é característico, Bob se atirou de cabeça para não deixar escapar a oportunidade em que lá inesperadamente tropeçou.
Recuperemos o relato na primeira pessoa de como tudo se passou: «Certo dia, estava eu na sede da Marvel para entregar alguns trabalhos do Woody (diminutivo pelo qual Wallace Wood é afetuosamente tratado no seu círculo de amizades) e resolvi aproveitar a oportunidade para mostrar parte do meu portfólio a quem se dispusesse a vê-lo. Ao passar pelo gabinete do diretor artístico, não pude deixar de ouvir John Romita a barafustar ao telefone. Percebi que ele tentava desesperadamente encontrar alguém que arte-finalizasse os esboços de George Tuska para a próxima edição de Iron Man. Como um perfeito idiota, enfiei a cabeça através da porta entreaberta do gabinete e, sem parar para pensar que isso seria humanamente impossível, dei comigo a dizer que conseguiria ter o trabalho pronto nos quatro ou cinco dias de que disporia para fazê-lo. Claro que era pura gabarolice minha, mas eu queria mesmo muito trabalhar para a Marvel. Para meu espanto, Romita estendeu-me as páginas inacabadas, dizendo-me: "Mostra-me do que és capaz, miúdo."»


Bob Layton teve no Homem de Ferro
 a sua personagem-talismã.
À alegria inicial por ter conseguido o seu primeiro trabalho para a Marvel seguiu-se o pânico de não conseguir tê-lo pronto a tempo. A procura frenética de Bob por ajuda levou-o a bater à porta do Continuity Associates, conceituado estúdio de ilustradores freelancers fundado em 1971 pela dupla Dick Giordano / Neal Adams e que, ao longo dos anos, se afirmou como um autêntico viveiro de talentos. Walt Simonson, Howard Chaykin e Jim Starlin foram apenas alguns dos que nele tiveram a rampa de lançamento para carreiras de estratosférico sucesso na indústria dos quadradinhos.
Apesar das adversidades iniciais, Bob Layton conseguiu, graças a essa providencial ajuda, entregar o trabalho dentro do prazo estabelecido. Proeza que lhe valeu o estatuto de arte-finalista residente de Champions, na altura uma das coqueluches editoriais da Casa das Ideias. Bob soube-o de uma forma invulgar: no mês seguinte, recebeu na sua morada um grosso envelope almofadado contendo os esboços de uma historieta completa dos Campeões, a primeira equipa de super-heróis Marvel a eleger Los Angeles como base de operações.
Seria, contudo, meteórica esta primeira passagem de Bob Layton pela Casa das Ideias. Ao cabo de apenas alguns meses, foi brindado com uma proposta irrecusável por parte da DC: um contrato de exclusividade com duração anual a troco de um salário chorudo. Período durante o qual Bob arte-finalizou títulos como All Star Comics e DC Special, além do número inaugural da série Star Hunters, escrita por David Michelinie. Pelo meio, participou na conceção da versão moderna da Caçadora (The Huntress, no original), heroína com raízes na Idade do Ouro dos Quadradinhos.
Bob Layton e David Michelinie voltariam a trabalhar juntos, aquando do regresso do primeiro à Casa das Ideias. Os dois firmariam, de resto, uma profícua parceria criativa, principiando a sua colaboração em Iron Man nº116 (novembro de 1978). Título que, antes da chegada dos novos autores, andava pelas ruas da amargura sempre assombrado pelo espectro negro do cancelamento iminente.
Sob a batuta de ambos (e, também, de John Romita, Jr, que a eles se juntou), a série regular do Homem de Ferro ganhou novo fôlego, tornando-se mesmo um best-seller. Circunstância para a qual contribuiu em grande medida o êxito retumbante da saga Demon in a Bottle (vide texto anterior). Para regozijo dos leitores, a arrojada abordagem de Layton e Michelinie  trouxe uma lufada de ar fresco às histórias bafientas de um herói que parecia condenado ao inexorável declínio.
Sempre em articulação com o seu parceiro criativo, Bob Layton ajudou a criar um naipe de influentes coadjuvantes para as histórias do Vingador Dourado, nele avultando James Rhodes, o braço-direito de Tony Stark que, anos mais tarde, passaria a atuar como Máquina de Guerra (War Machine). Este e outros conceitos da sua autoria têm vindo, aliás, a marcar presença nas produções dos Estúdios Marvel, com especial incidência, naturalmente, na franquia cinematográfica do Homem de Ferro.




Máquina de Guerra (cima) e Caçadora:
duas cocriações de Bob Layton .
Em setembro de 1982, após a sua saída de Iron Man seguida de fugazes passagens (sempre na qualidade de capista) por títulos como Captain America, The Incredible Hulk ou Micronauts, Bob Layton assumiu a sua primeira empreitada a solo. Nada menos do que a primeira minissérie da Marvel.
Apostado em não deixar os seus créditos por mãos alheias, Bob escreveu e ilustrou os quatro volumes de Hercules: Prince of Power, cujo sucesso, malgrado o seu improvável protagonista, excedeu mesmo as expectativas mais otimistas. Valendo-lhe assim novo e aliciante desafio: desenhar a linha de brinquedos da Mattel que estaria na origem de Secret Wars (saga emblemática da Marvel publicada nos idos de 1984).

Hercules: Prince of Power marcou a estreia a solo
 de Bob Layton na Marvel.
Cada vez mais requisitado, em fevereiro de 1986 Bob Layton foi o escolhido para reviver os X-Men originais em X-Factor, escrevendo os cinco primeiros números da série. Exatamente um ano depois, reuniu-se com David Michelinie em Iron Man. Dessa segunda incursão da parelha por um título que muito se ressentira da sua saída, resultou outra saga antológica do Homem de Ferro: Armor Wars (Guerra das Armaduras).

O regresso triunfal dos X-Men originais
 em X-Factor nº1 (1986).

Era ainda a década de 1990 uma nascitura quando Bob Layton trocou a segurança da Marvel pela incerteza da Valiant (Voyager Communications, Inc). Fundada em 1989, esta pequena editora independente encontrava-se em situação financeira aflitiva caminhando a passos largos para a insolvência. Nada que demovesse, ainda assim, Bob de acumular os cargos de editor-chefe, coproprietário e vice-presidente executivo.
Herdando da anterior administração um passivo que ascendia aos 4 milhões de dólares, Bob logrou a façanha de, em apenas um par de anos, tirar as contas da empresa do vermelho para passar a apresentar lucros na ordem dos 30 milhões de dólares. Num abir e fechar de olhos, a Valiant passou de uma pequena editora detentora de uma quota de mercado residual para uma pujante empresa capaz de fazer sombra à Marvel e à DC.
Na base deste fulgurante sucesso da rediviva Valiant, esteve, entre outros fatores, o lançamento de um jogo de vídeo desenvolvido a partir de conceitos idealizados por Bob Layton. Com 1,5 milhões de unidades vendidas, Turok, Dinosaur Hunter foi um maná muito cobiçado pela concorrência.

O fenómeno de vendas que salvou a Valiant da bancarrota.
Em 1994, já depois de, no ano anterior, Bob Layton ter sido votado pelos leitores da revista Wizard Editor do Ano, a Valiant foi adquirida pela Acclaim Entertainment por uns astronómicos 65 milhões de dólares. Bob conservou, apesar disso, o cargo de vice-presidente executivo por mais dois anos. Momento em que, por vontade própria, resolveu abandoná-lo para desfrutar de uma espécie de reforma antecipada na Flórida.
Incapaz de se manter afastado por muito tempo daquilo que mais gosta de fazer, entre 1997 e 1998, Bob Layton escreveu e arte-finalizou uma dúzia de edições de Doctor Tomorrow, a mais recente aposta da Acclaim Entertainment (nome pelo qual era agora conhecida a Valiant), cujos esboços estavam a cargo do veterano Dick Giordano. A residir também na Flórida, este tornar-se-ia uma espécie de mentor de Bob nos anos que antecederam a fundação da Future Comics. Projeto que, além deles, teve como impulsionadores David Michelinie e Allen Berrebi.
Do peculiar repertório da Future Comics faziam parte Deathmask, Metallix, Peacekeeper e Freemind. Sendo este último escrito, editado e arte-finalizado por Bob Layton. Que, provando uma vez mais ser um homem de visão, quis revolucionar o circuito de distribuição desse tipo de material, fazendo da sua companhia uma pioneira do comércio digital. Descartando intermediários, a Future Comics - fazendo jus ao nome - apostou forte na Internet para captar clientes, vendendo-lhes diretamente as sua publicações.
Os proventos do negócios ficaram no entanto aquém do esperado. Vergada pelas severas pressões de tesouraria, no verão de 2002 a Future Comics viu-se compelida a assinar contrato com a Diamond Comics Distribution, a maior distribuidora de quadradinhos a nível mundial. Mudança de paradigma que não obstou à falência da companhia pouco tempo depois. À semelhança de tantos outros visionários, Bob Layton testemunhou, impotente, o lento ocaso de um sonho à frente do seu tempo.

Freemind foi uma das apostas editoriais
 da Future Comics.
Deixando para trás um impressionante lastro na História da Nona Arte, num passado recente Bob Layton deu uma guinada na sua vida profissional ao trocar os quadradinhos pelo cinema. Atualmente a residir em Hollywood, tem firmado créditos como guionista, empenhado-se em desenvolver novas ideias e conceitos a serem transpostos tanto ao grande como ao pequeno ecrã.
Longe de se sentir deslocado na feérica Meca da Sétima Arte, Bob - que, ao longo da sua carreira ligada à banda desenhada, privara com argumentistas e cineastas de renome, como George Romero (Night of the Living Dead) - tem prestado igualmente serviços de consultoria de guiões.
No entanto, de momento, a sua grande aposta é o filme Shumbler, uma comédia de terror da Odyssey Pictures que o creditará como cocriador, coargumentista e produtor executivo. Demonstrando uma admirável capacidade de trabalho, Bob escreve em paralelo o enredo de Mettle, longa-metragem ainda em fase de pré-produção que terá Edward James Olmos - nomeado para o Óscar de Melhor Ator em 1988 - como realizador.
Mesmo por estes dias arredado dos quadradinhos, Bob Layton será sempre uma figura incontornável para inúmeros consumidores desse produto cultural que ele ajudou a prestigiar, deixando a sua marca indelével em todas as personagens que perfilhou ao longo dos anos. Nalguns casos dando-lhes a notoriedade merecida, noutros devolvendo-lhes o glamour perdido. Mas tratando-as sempre com o carinho e respeito que um pai extremoso dedica aos filhos. Os leitores agradecem e jamais o esquecerão.

Voltará algum dia Bob Layton  às histórias do Homem de Ferro?