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sábado, 9 de março de 2019

GALERIA DE VILÃS: MÍSTICA


  Terrorista sanguinária ou combatente da liberdade? Rebelde com causa ou fanática sem coração? Num mundo pintado a preto e branco mas repleto de zonas cinzentas, a mutante das mil caras é tudo isso e muito mais. Ou não fossem as suas motivações tão camaleónicas quanto a sua aparência.

Denominação original: Mystique
Licenciadora: Marvel Comics
Criadores: Dave Cockrum (conceito), Chris Claremont (história) e Jim Mooney (arte)
Estreia: Ms. Marvel nº16 (abril de 1978)
Identidade civil: Raven Darkholme 
Espécie: Homo Superior (nomenclatura científica para a subespécie humana com poderes inatos, vulgarmente conhecida como mutantes)
Local de nascimento: Presumivelmente, algures na Áustria
Parentes conhecidos: Barão Christian Wagner (marido, falecido), Ralph Brickman (marido, falecido), Charles Xavier (marido), Irene Adler / Sina (companheira, falecida), Graydon Creed (filho, falecido),  Kurt Wagner / Noturno (filho), Gloria Brickman (filha) e Anna Marie / Vampira (filha adotiva)
Ocupação: Terrorista internacional, mercenária, aventureira e ex-agente secreta ao serviço dos governos norte-americano e germânico.
Base operacional: À natureza clandestina das suas atividades está associada a itinerância. Nunca permanecendo muito tempo no mesmo local, já esteve sediada em latitudes e longitudes  tão diversas como a Terra Selvagem, Washington D.C. ou a ilha de Alcatraz, ao largo da baía de São Francisco. 
Afiliações: Ex-líder da Irmandade de Mutantes e da Força Federal, ex-membro do X-Factor, do Tentáculo e do Departamento de Defesa dos EUA, aderiu recentemente ao Clube do Inferno, embora prefira agir por conta própria.
Némesis: X-Men e qualquer inimigo declarado da raça mutante
Poderes e parafernália: Mutante metamórfica, Mística detém a incrível habilidade de induzir psionicamente a reconfiguração das suas células biológicas. Consequentemente, consegue imitar na perfeição a aparência de qualquer ser humano ou humanoide, ao ponto de replicar com precisão retinas, padrões vocais e impressões digitais. Expediente que lhe permite, entre outras coisas, ludibriar eficazmente sistemas de segurança baseados no reconhecimento dessas características únicas de cada indivíduo.
As suas transformações fisionómicas não se restringem, todavia, a matrizes orgânicas. Mística possui a não menos assombrosa capacidade de reproduzir peças de vestuário e outro tipo de acessórios fabricados a partir de diferentes materiais, como óculos, brincos ou carteiras. Uma vez que os seus poderes lhe permitem criar a indumentária mais adequada às circunstâncias, Mística nunca veste roupa verdadeira - o mesmo é dizer que, tecnicamente, anda sempre desnuda.
Apesar da provecta idade (especula-se que terá nascido há mais de um século), Mística conserva um aspeto jovem. O segredo reside no facto de os seus poderes retardarem os efeitos degenerativos do envelhecimento celular, expandindo-lhe desse modo a longevidade. Para a qual muito contribui também a sua imunidade a um amplo espectro de toxinas e venenos desenvolvida sempre que é exposta a substâncias desse tipo.
O aprimoramento dos poderes de Mística decorreu da sua exposição a níveis perigosos de radiação quando tentava salvar Sapo, seu colega de equipa na Irmandade de Mutantes. Graças às novas propriedades regenerativas adquiridas no processo, a vilã consegue agora cicatrizar muito mais depressa do que um ser humano normal, sendo também menos suscetível a doenças e infeções. O seu fator de cura não é , porém, comparável ao de outros mutantes, nomeadamente ao de Wolverine.
Ainda mais extraordinária é a sua capacidade de mudar de posição os seus órgãos vitais, por forma a sobreviver a disparos, esfaqueamentos e outros ataques potencialmente fatais. Em razão disso, a mente de Mística é virtualmente inexpugnável a intrusões telepáticas. Nem mesmo o Professor X consegue capturar-lhe a mente, ou sequer ler-lhe os pensamentos.

Bela e perigosa,
Mística é uma assassina de classe mundial.
Especialista em operações de infiltração e sabotagem, Mística possui notáveis dotes de representação, domina como poucos as tecnologias de informação e é fluente em, pelo menos, onze línguas, entre as quais o português. É também uma brilhante estrategista e as suas competências em combate desarmado ombreiam com as da Viúva Negra.
Após quase um século a fazer-se passar por outras pessoas, Mística desenvolveu a peculiar capacidade de detetar disfarces através da leitura da linguagem corporal de quem os usa. Aprendeu também a camuflar o seu odor corporal, o que a torna irrastreável tanto para cães pisteiros como para detentores de sentidos aguçados, como Wolverine ou Dentes-de-Sabre.
Sempre que a missão o justifica, Mística utiliza um arsenal diversificado, dando primazia às armas de fogo, visto tratar-se de uma atiradora exímia. Por vezes faz-se transportar num sofisticado avião equipado com a mais avançada tecnologia furtiva e dispõe de dezenas de esconderijos espalhados pelos quatro cantos do mundo. Recursos financiados pela colossal fortuna de B. Byron Biggs, um dos seus incontáveis alter egos.
Conotada com dezenas de atentados terroristas um pouco por todo o mundo e com um número indeterminado de assassinatos no currículo, Mística foi em tempos descrita por Nick Fury, ex-diretor da SHIELD, como uma ameaça à segurança internacional e uma das mulheres mais perigosas do planeta. Reputação perfeitamente merecida e que muito diverte a mutante das mil caras.

Fraquezas: Originalmente, Mística conseguia apenas imitar a aparência de outros seres humanos, não conseguindo, porém, editar o seu próprio código genético. Em virtude dessa condicionante, continua a ser-lhe de todo impossível adquirir eventuais poderes ou habilidades das pessoas em quem se transforma. Ao mimetizar, por exemplo, o seu filho Noturno, Mística não pode teleportar-se. Do mesmo modo que, antes de ter os seus poderes aprimorados, revertia à sua verdadeira forma se inconsciente.
Outra limitação aos formidáveis poderes de Mística decorre da sua incapacidade de reajustar a própria massa corporal. Qualquer transformação em pessoas de maior estatura física requer da sua parte um enorme esforço. Quanto maior for a diferença de peso e de altura em relação ao indivíduo replicado maior será a dificuldade de Mística em manter a forma assumida.
Por outro lado, as constantes alterações fisionómicas de Mística afetam subtilmente o seu tecido cerebral sob a forma de esquizofrenia. Distúrbio mental que imprime volatilidade à sua personalidade, tornando-a imprevisível e, por vezes, errática na sua tomada de decisões.

Raven Darkholme turns into Mystique
Camaleão humano.
Rapsódia azul

Principalmente como antagonista - embora, também, como ocasional aliada -, Mística é uma velha conhecida dos X-Men. Foi, no entanto, nas histórias de uma outra ilustre moradora da Casa das Ideias que fez a sua estreia.
Tudo começou quando o artista Dave Cockrum mostrou a Chris Claremont - com quem trabalhara em Uncanny X-Men - os esboços da sua nova personagem: uma escultural transmorfa de pele azulada. Claremont batizou-a de Mística e, com o beneplácito do colega, introduziu-a como vilã da Miss Marvel (Carol Danvers, atualmente conhecida como Capitã Marvel). Com Mística a apresentar as suas credenciais  em Ms. Marvel nº16, edição datada de maio de 1978.
No entanto, nesta sua primeira aparição, Mística não exibia a sua verdadeira forma, uma vez que operava sob disfarce. Isso só aconteceria dois meses depois, em Ms. Marvel nº18, com ambas as histórias a serem desenhadas por Jim Mooney, que  acabou assim creditado como coautor da personagem.
Nos seus primórdios, Mística nutria um profundo rancor pela Miss Marvel, pese embora a origem desse sentimento não tenha sido devidamente explicitada. A série da heroína foi cancelada antes que as reais motivações da sua inimiga fossem conhecidas.
Chris Claremont revelaria mais tarde que a ideia era ligar Miss Marvel a uma perturbadora visão de Sina (mutante precognitiva íntima de Mística) em relação ao futuro. Um futuro no qual a heroína causaria grande sofrimento a Vampira, a filha adotiva de Mística. Levando dessa forma a vilã a procurar por todos os meios impedir a concretização da profecia.

Ms. Marvel Vol 1 16
Foi nesta edição de Ms. Marvel
  
que Mística fez a sua estreia.


Mística revela enfim a sua verdadeira forma
 mas não as razões do seu ódio pela Miss Marvel. 

Ironicamente, as ações de Mística tiveram como consequência, anos mais tarde,  a absorção dos poderes da Miss Marvel por parte de Vampira. O que, efetivamente, causou grande sofrimento emocional à jovem e ditaria o afastamento de mãe e filha. Com ambas a demonstrarem desde então sentimentos contraditórios em relação uma à outra.
Claremont revelaria ainda que pretendia estabelecer Mística e Sina como pais biológicos do X-Man Noturno (com a primeira a transformar-se em homem para o ato de conceção). Proposta prontamente vetada pela Marvel, ao abrigo do rígido regulamento moral imposto pela Comics Code Authority. Que, entre outros constrangimentos, à época proibia o uso de personagens declaradamente homossexuais ou bissexuais. Por conseguinte, só muito tempo depois Mística passaria a ser explicitamente retratada como fazendo parte desta segunda categoria, vivendo maritalmente com Sina até à morte desta.
Mas quem é, afinal, Raven Darkholme, essa rapsódia em tons de azul que adotou Mística como nome de guerra?
Apesar dos vários exercícios de continuidade retroativa realizados ao longo dos anos, o passado de Mística permanece envolto na obscuridade, fazendo dela um enigma tão fascinante quanto indecifrável.
Uma vez que não é conhecida a sua filiação, ignora-se se Mística terá sido concebida por humanos, mutantes ou uma mistura de ambos. Outra incógnita é a sua data de nascimento, embora se presuma que terá vindo ao mundo cerca de cem anos atrás - provavelmente, numa qualquer localidade austríaca. Nada se sabe também acerca da sua infância, exceto que os seus poderes terão despontado por volta dos doze anos de idade.
Numa das suas primeiras missões sob disfarce no estrangeiro, no auge da Guerra Fria, Mística teve um brevíssimo affair com Victor Creed, o assassino mutante conhecido como Dentes-de-Sabre. Uma relação que teria sido inconsequente para ambos se dela não tivesse resultado um filho. Para perplexidade e desgosto de Mística, o seu bebé nasceu humano. O que a levou a dá-lo para adoção tão logo se restabeleceu do parto. O nome do menino era Graydon Creed.
Ao descobrir a verdade sobre o seu passado, Graydon passou a odiar os mutantes. Já adulto, lançaria uma feroz campanha política contra eles antes de ser assassinado por uma versão futura da própria mãe.
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Graydon Creed num comício antimutante.
Antes desses eventos, Mística foi casada com o Barão Christian Wagner, um influente membro da aristocracia germânica, e daria à luz um segundo filho. Kurt Wagner foi fruto da relação extraconjugal mantida pela sua mãe com o demónio Azazel, tendo por isso nascido com a aparência de um demónio de olhos amarelos e pele azulada. Prestes a ser linchada pelos aldeões, e já depois de ter assassinado o marido na vã tentativa de encobrir a sua infidelidade, Mística atirou o bebé ao rio. O pequeno Kurt seria, no entanto, resgatado por uma cigana que o perfilharia. Só muitos anos mais tarde ficaria a conhecer a identidade da sua verdadeira mãe, com quem continua a manter uma relação distante.
Ao lado de Sina, o grande amor da sua vida, Mística encontraria relativa estabilidade emocional, sem nunca renunciar à sua luta pela libertação dos mutantes, que considerava oprimidos pela Humanidade. Do desejo da parelha de constituir família resultou a adoção de Vampira, uma jovem proscrita nascida com a habilidade de absorver poderes e memórias alheios.
Foi também nessa fase da sua vida que Mística fundou e liderou a terceira encarnação da Irmandade de Mutantes, organização terrorista que se batia pela supremacia dos Homo Superior. Após o atentado falhado contra o Senador Robert Kelly orquestrado pelo grupo, o sentimento antimutante exacerbou-se ainda mais entre a população humana. Levando o Governo norte-americano a criar uma força-tarefa especial para dar caça a mutantes fora da lei.
Temendo pela vida, Mística e alguns dos seus apaniguados da Irmandade de Mutantes aceitaram integrar a Força Federal (Freedom Force, no original), a troco de um indulto presidencial para os seus muitos crimes passados. Quando a Força Federal foi dissolvida e substituída pelo X-Factor, Mística colaborou brevemente com o grupo.
Mas depressa voltaria a trilhar o seu próprio caminho. Sempre com os inimigos da sua espécie na mira e com uma guerra racial no horizonte.  Uma guerra que estava convicta que poderia apenas ter como desfecho a vitória dos Homo Superior. Mas que também em vários momentos ajudou a evitar. Chegando assim ao presente enleada nas agrugras e doçuras desse infindável túnel de contradições que é a sua vida.

Mystique in Uncanny X-Men
Mística à frente da sua Irmandade de Mutantes, da qual também fazia parte Sina,
 sua amante e companheira de longa data.
Miscelânea

*Diferente do que vem sendo mostrado no cinema (e, também, em algumas séries animadas dos X-Men), Mística não é o braço-direito de Magneto na Irmandade de Mutantes. Na banda desenhada rareiam, com efeito, os encontros entre ambos, conhecendo-se por isso apenas de raspão. Acresce ainda o facto de Mística ser dona de uma personalidade muito forte e independente, nada compatível com funções subalternas;
*Mística não suporta a própria aparência, pelo que evita sempre observar o seu reflexo no espelho. Assume, porém, com alguma frequência a sua verdadeira forma antes de iniciar duelos. Presume-se que este subterfúgio objetivará surpreender e confundir os seus adversários;
*Apesar de não lhe agradar tirar a vida a outros membros da sua espécie, fá-lo-á sem pestanejar se os considerar irremediavelmente perdidos para a causa mutante ou se estiverem a trabalhar para o inimigo;
*Desconhecendo-se a sua exata data de nascimento, supõe-se que Mística terá vindo ao mundo em setembro de um qualquer ano no dealbar do século XX. Quando, certa vez, foi presenteada com um colar de safiras (pedra preciosa tradicionalmente associada a quem nasce em setembro), Mística perguntou ao seu benfeitor como sabia o seu mês de nascimento;
*Num exercício de continuidade retroativa influenciado pela proximidade existente entre as versões cinematográficas das duas personagens, num passado recente o escritor Brian Michael Bendis alterou drasticamente a relação entre Mística e o Professor Xavier no universo canónico dos X-Men. Algum tempo após a morte do seu mentor, os Filhos do Átomo ficaram em choque com a última vontade inscrita no testamento de Xavier: que todo o seu património revertesse a favor da sua esposa (ninguém menos do que Mística). Um casamento de que nenhum dos cônjuges teria, aparentemente, conhecimento, e que terá resultado da ação de um misterioso viajante do tempo;
*Reflexo da notoriedade alcançada por via da sua participação na franquia cinematográfica dos X-Men iniciada na viragem do século, desde 2009 que Mística ocupa a 18ª posição na lista dos cem melhores vilões de todos os tempos organizada pelo site IGN. À frente, por exemplo, de grandes expoentes de malignidade como Thanos (também da Marvel) ou General Zod, da rival DC. Mística é também considerada uma das personagens femininas mais sensuais dos quadradinhos, o que explica em boa medida o seu sucesso dentro e fora deles.

Mutante das mil caras.

Noutros media

Fora dos quadradinhos, Mística começou por ser antagonista recorrente dos pupilos do Professor Xavier em X-Men: Animated Series, no ar entre 1992 e 1997. Nesta sua primeira versão animada, a vilã comandava a Irmandade de Mutantes e agia frequentemente em conluio com o Senhor Sinistro, Magneto e Apocalipse. Caracterização que conheceria ligeiras nuances em produções subsequentes. Em Wolverine and the X-Men, por exemplo, Mística mantinha um relacionamento amoroso com Logan ao mesmo tempo que conspirava com o Mestre do Magnetismo contra a Humanidade.

Mística em X-Men: Animated Series.
No cinema, Mística foi originalmente interpretada pela ex-modelo Rebecca Romijn na primeira trilogia dos X-Men produzida entre 2000 e 2006. Após o reboot da franquia, desde 2011 que uma sua versão mais jovem vem sendo representada pela oscarizada Jennifer Lawrence. Com a particularidade de a personagem ser agora retratada mais como uma anti-heroína do que como uma vilã.
Apesar da sua versatilidade, o  futuro de Mística  no grande ecrã é incerto, dado o cansaço já manifestado por Lawrence relativamente às exigências do papel, designadamente as longas horas despendidas com a respetiva caracterização.
Mesmo que venha a confirmar-se a saída de Jennifer Lawrence, isso em nada comprometeria a participação de Mística numa franquia onde vem sendo figura-chave. Dada a multiplicidade de formas assumidas pela mutante das mil caras, qualquer outra atriz poderia ser escalada para o papel. Certo é que Mística regressará ao grande ecrã já no próximo mês de junho, quando Dark Phoenix chegar às salas de cinema norte-americanas.
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Jennifer Lawrence (esq.) e Rebecca Romijn encarnaram Mística no cinema.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

RETROSPETIVA: «X-MEN»



   Na viragem do milénio, o advento dos Filhos do Átomo ao grande ecrã foi a chave para o salto evolutivo de todo um género. Manifesto simbólico contra o preconceito social, o filme de Bryan Singer cumpriu exemplarmente o duplo desígnio de entreter e consciencializar. 

Título original: X-Men
Ano: 2000
País: EUA
Duração: 104 minutos
Género: Ação / Fantasia / Super-heróis
Produção: Marvel Entertainment Group / The Donner's Company
Realização: Bryan Singer
Argumento: David Hayter, Tom DeSanto e Bryan Singer
Distribuição: 20th Century Fox
Elenco: Patrick Stewart (Charles Xavier / Professor X), Hugh Jackman (Logan / Wolverine),  Ian McKellen (Eric Lehnsherr / Magneto),  Halle Berry (Ororo Munroe / Tempestade), Famke Janssen (Drª. Jean Grey), James Marsden (Scott Summers / Ciclope), Bruce Davison (Senador Robert Kelly), Rebecca Romijn-Stamos (Raven Darkholme / Mística), Ray Park (Mortimer Toynbee / Sapo), Tyler Mane ( Victor Creed / Dentes-de-Sabre) e Anna Paquin (Marie D'Ancanto / Vampira)
Orçamento: 75 milhões de dólares
Receitas: 296, 3 milhões de dólares

O genoma de um clássico 

Os primeiros planos para uma adaptação cinematográfica dos X-Men começaram a ser alinhavados a meio da década de 80, especificamente em 1984. Nesse ano, Roy Thomas e Gerry Conway, editores-chefes da Marvel Comics, escreveram em conjunto o argumento para um filme dos heróis mutantes criados em 1963 por Stan Lee e Jack Kirby, cuja produção deveria ter ficado a cargo da Orion Pictures. O projeto seria no entanto inviabilizado pelos graves problemas de tesouraria entretanto enfrentados pelo estúdio.
Cinco anos mais tarde, em 1989, Stan Lee e Chris Claremont encetaram negociações com a Carolco Pictures com vista à produção de uma longa-metragem baseada nos X-Men. James Cameron seria produtor executivo do filme, ficando a direção endossada a Kathryn Bigelow, que assinaria também o respetivo argumento.
Tudo parecia bem encaminhado (Angela Basset chegou a ser cogitada para o papel de Tempestade) não fosse a inesperada falência da Carolco. Em consequência da qual os direitos da película reverteram para a Marvel, ela própria em situação de pré-rutura financeira.
Em 1992, ao mesmo tempo que a Marvel procurava convencer a Columbia Pictures a adquirir os direitos de adaptação daqueles que eram então os seus mais valiosos ativos, Avi Arad produziu uma série animada dos X-Men para o canal Fox Kids. Impressionada com o enorme êxito desse projeto, a 20th Century Fox, associada à produtora Lauren Shuler Donner (esposa de Richard Donner, realizador de Superman, the Movie), assegurou os direitos das personagens em 1994.

X Men Clássico
O sucesso da primeira série animada dos X-Men
foi fundamental
 para o lançamento do filme dos Filhos do Átomo.
Com o vindouro filme dos X-Men em fase de pré-produção, Andrew Kevin Walker escreveu um argumento focado na rivalidade entre o Professor X e Magneto, mas também entre Wolverine e Ciclope. Na trama participariam ainda a Irmandade de Mutantes e os Sentinelas, os robôs gigantes projetados para caçar indivíduos portadores do gene X.
A este primeiro rascunho do enredo sucederam-se várias outras versões, incluindo uma da autoria de Joss Whedon, o futuro realizador de The Avengers. Robert Rodríguez, Paul W.S. Anderson e Brett Retner (que, em 2006, viria a dirigir X-Men 3: Last Stand) foram alguns dos realizadores sondados para o projeto, mas nenhum deles se mostrou disponível para capitaneá-lo.
Depois de ter dirigido com mestria o aclamado The Usual Suspects (1995), Bryan Singer pretendia aventurar-se na ficção cientifica. Sensível a essa veleidade do cineasta, a 20th Century Fox começou por oferecer-lhe a direção de Alien Resurrection mas acabaria por considerá-lo mais indicado para levar X-Men a bom porto.
Apesar de oficialmente confirmado, desde dezembro de 1996, como realizador da película dos Filhos do Átomo, em abril do ano seguinte Bryan Singer assumiu a direção de Apt Pupil, que tinha Ian McKellen como protagonista. Ainda no decurso de 1997, a Fox aprovou um orçamento de 60 milhões  de dólares para X-Men e anunciou o Natal de 1998 como data oficial para a estreia do filme.

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Bryan Singer foi o realizador escolhido para dirigir X-Men.
Seria no entanto apenas em finais de 1998, na sequência de uma profunda revisão do argumento de Tom DeSanto, que a Fox aprovaria o orçamento final da produção, que ascendia agora aos 75 milhões de dólares. O que só foi possível após intensas negociações entre os representantes do estúdio e Bryan Singer, com este a concordar com a remoção de certos elementos e referências extraídos do material original. Entre os quais Fera (um dos X-Men fundadores) e a Sala do Perigo (espécie de campo de treino virtual instalado na Mansão X). Se no caso do primeiro a solução passou por transferir os conhecimentos médico-científicos da personagem para Jean Grey, a ausência da segunda permitiu a Bryan Singer dar mais ênfase a cenas com maior carga dramática.

Drawing of an ape-man wearing trunks. He has huge, muscular arms that hang down past his knees.
Arte conceptual do Fera
descartada após a revisão do argumento.
Ainda que a versão final do argumento tenha sido (re)escrita por David Hayter, Bryan Singer e Tom DeSanto foram igualmente creditados pela história transposta ao grande ecrã. Uma história, que atendendo à enorme popularidade da personagem entre os fãs, tinha, inevitavelmente, em Wolverine uma das figuras centrais.
Com efeito, tão logo as primeiras notícias e rumores acerca do desenvolvimento do filme dos X-Men começaram a circular (viviam-se ainda os primórdios da Internet), nenhum despertou tanto interesse junto dos fãs como aqueles que diziam respeito à escolha do ator para encarnar Wolverine.
Depois de Gary Sinise ter ficado bem cotado em meados dos anos 1990, Russel Crowe seria a primeira escolha de Bryan Singer para o papel. O ator neozelandês recusou mas indicou Hugh Jackman, seu amigo de longa de data. Também ele originário da Oceânia, designadamente da Austrália, Jackman era, à época, um ilustre desconhecido, circunstância que deixou Singer reticente. No entanto, por força das sucessivas "negas" dadas por atores de maior nomeada, Singer resolveu dar uma oportunidade a Jackman, que acabaria por ser contratado apenas três semanas antes do arranque das filmagens.
Incluindo diferentes localizações no Canadá, mormente Toronto, a rodagem do filme prolongou-se por um semestre, entre setembro de 1999 e março de 2000. Inicialmente prevista para o Natal desse ano, a estreia de X-Men acabaria por ser antecipada para 14 de julho de 2000, por forma a preencher uma vaga no calendário de lançamentos resultante do adiamento de Minority Report. Estavam assim lançadas as bases para uma das mais bem-sucedidas franquias da história da 7ª Arte, que perdura até hoje.

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X-Men guindou Hugh Jackman ao estrelato.

Sinopse

Sob chuva torrencial, uma multidão de prisioneiros judeus arrasta-se pelo campo de concentração de Auschwitz, na Polónia ocupada. Quando o pequeno Eric Lehnsherr é separado à força dos pais, o desespero do garoto faz com que a sua habilidade mutante de gerar campos magnéticos e de controlar o metal se manifeste. A fúria de Eric cessa apenas quando um dos guardas o golpeia violentamente na cabeça com a coronha da sua espingarda. 
Num futuro não muito distante, o Senador Robert Kelly pugna no Congresso dos EUA pela aprovação da Lei de Registo de Mutantes. Medida legislativa que visa compelir os Homo Superior (designação científica para mutantes) a revelarem publicamente os seus poderes e identidades.

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O Senador Kelly lidera uma feroz campanha antimutante.
A assistir de camarote ao debate travado por Kelly e a Drª. Jean Grey em pleno Congresso estão Eric Lehnsherr e Charles Xavier. Dois velhos amigos que a causa mutante atirou para lados opostos da barricada, e que atendem agora pelos nomes de Magneto e Professor X, respetivamente.
Perante a iminente aprovação da nova lei, Xavier fica apreensivo com a reação de Magneto ao que este considera ser um ato persecutório dos humanos relativamente à população mutante. Os dois trocam breves palavras nos corredores do Congresso mas ficam claras as suas divergências no que à coexistência entre as duas espécies diz respeito.
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Professor X e Magneto, as duas faces de uma causa.
Longe dali, numa pequena cidade do Mississipi, uma adolescente chamada Marie deixa o seu namorado em coma depois de permitir que este a beijasse. Apavorada com o perigo que as suas habilidades mutantes representam para aqueles que a rodeiam, a jovem foge de casa e assume a identidade de Vampira.
Na cidade canadiana de Alberta, Vampira encontra Logan, mais conhecido por Wolverine, um mutante possuidor de fator de cura acelerada e com garras metálicas retráteis nas mãos. Apesar de relutante, Wolverine acaba por consentir que Vampira o acompanhe na sua jornada através dos gélidos confins do Grande Vizinho do Norte.
A viagem de ambos é, porém, abruptamente interrompida quando sofrem uma emboscada montada por Dentes-de-Sabre, um dos apaniguados de Magneto e membro da Irmandade de Mutantes. 
Com Wolverine ainda aturdido e a recuperar dos graves ferimentos sofridos, Vampira é salva pela intervenção de Ciclope e Tempestade, dois dos X-Men reunidos por Charles Xavier.

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Amizade entre proscritos.
Levados para a Escola de Jovens Sobredotados instalada na mansão de Xavier, nos arrabaldes nova-iorquinos, Wolverine e Vampira travam conhecimento com os restantes X-Men e com os alunos mutantes que frequentam a instituição.
Xavier pede a Wolverine que permaneça na escola enquanto os X-Men investigam os planos de Magneto, que parece ter um especial interesse nas capacidades do mutante canadiano. Vampira, por sua vez, é integrada numa das turmas e logo faz amizade com Bobby Drake, o Homem de Gelo. 
Dias depois, o Senador Kelly é raptado por Mística e por Sapo, da Irmandade de Mutantes. Levado para o esconderijo de Magneto numa ilha não-cartografada, Kelly é usado como cobaia para testar os efeitos de uma máquina capaz de induzir mutações em seres humanos normais. Contudo, o esforço despendido por Magneto para energizar o aparato deixa-o exaurido.
Graças às suas novas habilidades mutantes, Kelly consegue evadir-se da base secreta da Irmandade de Mutantes e dá à costa numa praia apinhada de gente.

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Mutante de mil caras.
Enquanto isso, depois de ter usado os seus poderes para absorver temporariamente as capacidades regenerativas de Wolverine - que a tinha, acidentalmente, trespassado com as suas garras de adamantium - , Vampira é convencida por Bobby Drake (na verdade, Mística) de que a sua presença na Escola Xavier é indesejada, devendo partir de imediato. 
Ao detetar a fuga da sua mais recente pupila, o Professor X recorre ao seu supercomputador Cérebro para localizar Vampira numa estação ferroviária a vários quilómetros da mansão e envia os X-Men para resgatá-la.Sem que ninguém se aperceba, Mística, agora disfarçada de Charles Xavier, implanta um vírus informático em Cérebro.
Adiantando-se aos seus colegas de equipa, Wolverine encontra Vampira a bordo de um comboio e convence-a a regressar com ele para a Escola Xavier. Contudo, antes que os dois possam arrepiar caminho são atacados por Magneto, que derruba Wolverine e sequestra Vampira.
Malgrado os esforços de Xavier para deter Magneto, este acaba por levar avante os seus intentos ao ameaçar matar os agentes policiais que haviam acorrido à estação de caminhos de ferro.
Quando o Senador Kelly chega à Escola Xavier à procura de ajuda para a sua nova condição, o Professor X submete-o a uma sondagem telepática. Ficando assim a conhecer o verdadeiro plano de Magneto e o funcionamento da máquina por ele construída. Ao observar o estado debilitado de Magneto após operá-la, Xavier deduz que o vilão pretende transferir os seus poderes para Vampira, usando-a como uma bateria para o seu dispositivo, o que resultará na morte da jovem.

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Os pupilos do Professor X.
Já depois do corpo de Kelly se ter liquefeito, Xavier recorre novamente a Cérebro para descobrir o paradeiro de Vampira, mas fica incapacitado devido à sabotagem executada por Mística. Cabendo então a Jean Grey usar os seus poderes telepáticos para se conectar ao supercomputador. Apesar da agonia que isso lhe causa, Jean consegue descobrir que Magneto instalou a sua máquina na cabeça da Estátua da Liberdade e que tenciona usá-la para transformar em mutantes os líderes mundiais reunidos numa cimeira histórica das Nações Unidas  à qual Ellis Island serve de palco.
Ao mesmo tempo que Magneto transfere os seus poderes para Vampira, os X-Men enfrentam a Irmandade de Mutantes no interior da Estátua da Liberdade. A máquina de Magneto acaba, no entanto, destruída pelos heróis antes que os seus raios pudessem atingir o alvo. 
Para salvar a vida de Vampira, Wolverine permite que ela lhe absorva o seu fator de cura, mergulhando de imediato num coma. 
Já com Wolverine e Xavier restabelecidos, os X-Men descobrem que Mística escapou de Ellis Island usando o falecido Senador Kelly como disfarce. Xavier sonda telepaticamente a mente de Wolverine e fornece-lhe pistas sobre o seu passado numa instalação militar secreta numa região remota do Canadá.
Aprisionado numa cela de plástico suspensa num complexo subterrâneo, Magneto recebe a visita de Xavier. Terminada a partida de xadrez disputada por ambos, Magneto avisa o seu velho amigo que pretende recuperar a sua liberdade para liderar a revolução mutante. Ao que Xavier responde que, quando esse dia chegar, ele estará lá fora à sua espera.


Trailer



Prémios e nomeações

X-Men traduziu em prémios metade das 26 nomeações recebidas. Foi particularmente bem-sucedido nos Saturn Awards ao sair vitorioso em segmentos importantes como Melhor Filme de Ficção Científica, Melhor Realizador (Bryan Singer), Melhor Argumento (David Hayter) e Melhor Ator (Hugh Jackman). Um registo notável que faz de X-Men o filme mais galardoado da trilogia original (2000-2006), mas apenas o quinto de toda a franquia, que, recorde-se, inclui igualmente as três películas de Wolverine e as duas já realizadas de Deadpool.

Curiosidades

*Por considerar os comics um género literário menor, Bryan Singer declinou três vezes a proposta para assumir a direção da primeira longa-metragem baseada nos X-Men. Homossexual assumido, o realizador celebrizado por Os Suspeitos do Costume (1995) mudaria radicalmente de opinião após ler algumas das sagas mais marcantes dos Filhos do Átomo, às quais ficou rendido visto abordarem temas como o preconceito e a discriminação de minorias;
*Conscientes do risco de iniciarem uma franquia dispendiosa que poderia não ir além do primeiro filme, os executivos da 20th Century Fox deram luz  verde a  um orçamento de "apenas" 75 milhões de dólares para X-Men. Valor modesto por comparação com os mais de 100 milhões de dólares que, à época, eram alocados, em média, aos blockbusters estivais;
*Apesar de expressamente proibidas por Bryan Singer, que as considerava uma influência nociva para os atores, as revistas dos X-Men circularam clandestinamente entre o elenco do princípio ao fim das filmagens;

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Ian McKellen lê a adaptação oficial de X-Men aos quadradinhos.
*Nem Patrick Stewart nem Ian McKellen sabiam jogar xadrez. Houve, por isso, a necessidade de contratar um mestre para ensinar-lhes os preceitos básicos do jogo;
*Há muito desejado pelos fãs para o papel de Professor X, o britânico Patrick Stewart foi a única escolha de Bryan Singer e o primeiro ator a ser escalado para o filme. Isto apesar do profundo desconhecimento de Stewart acerca dos heróis mutantes criados por Stan Lee e Jack Kirby;
*O exterior de uma destilaria de Toronto fez as vezes do campo de concentração nazi que enquadra a cena de abertura do filme. Curiosamente, essa havia sido a última cena a ser gravada no Canadá;
*Desde a sua primeira aparição em 1981, Vampira (Rogue, em inglês) nunca possuíra uma identidade civil. Crismada simplesmente de Marie no filme, o seu apelido - D'Ancanto - seria revelado no capítulo seguinte da saga. Em consequência disso, à sua versão canónica seria entretanto atribuído o nome Anna Marie;
*Indiferente ao facto de Vampira ser, à data, uma personagem relativamente secundária nas histórias dos X-Men, Bryan Singer concedeu-lhe papel central na trama, devido à sua capacidade mutante para drenar as memórias, habilidades e energia vital de todos aqueles em quem toca. Misturando elementos de Jubileu e Kitty Pryde, outras jovens pupilas do Professor X na BD, a caracterização de Vampira visou convertê-la num símbolo de alienação das minorias;

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Vampira foi personagem charneira em X-Men.
*A troca de sorrisos entre um menino e Ciclope durante a cena na estação ferroviária foi totalmente improvisada. O menino era um grande fã dos X-Men, sendo Ciclope o seu favorito, razão pela qual não conseguia parar de sorrir para James Marsden. Bryan Singer gostou tanto dessa interatividade espontânea que decidiu incluir a cena no filme, em detrimento da que havia sido inicialmente planeada;
*Composta por 110 próteses personalizadas que cobriam 60% da sua área corporal, a maquilhagem de Mística demorava 9 horas a ser aplicada. Rebecca Romijn-Stamos estava, ademais, proibida de beber álcool ou viajar de avião na véspera de ser submetida ao processo de caracterização, dado o risco de ser desencadeada uma reação química de efeitos imprevisíveis. Apesar dessas interdições, no último dia de filmagens a atriz levou consigo uma garrafa de tequila, que dividiu com o restante elenco. Sucede que ainda lhe faltava gravar a cena de luta com Wolverine, durante a qual Rebecca cobriria Hugh Jackman de vómito azul;
*Tyler Mane ficou temporariamente cego devido ao uso de lentes especiais requerido para a sua caracterização como Dentes-de-Sabre;
*Conhecido pela sua ferocidade animal e pelo seu instinto assassino nos quadradinhos, no filme Wolverine não é responsável por qualquer morte;
*Reverso do sonho do Professor X de uma coexistência harmoniosa entre humanos e mutantes, a Irmandade de Mutantes de Magneto é um grupo terrorista que se bate pela supremacia do Homo Superior. Pela mão de Stan Lee e Jack Kirby, a Irmandade de Mutantes fez a sua estreia em X-Men nº4 (março de 1964), tendo como membros fundadores, além do próprio Mestre do Magnetismo, Sapo (anteriormente conhecido como Groxo, no Brasil), Mestre Mental e os gémeos Mercúrio e Feiticeira Escarlate (filhos secretos de Magneto);
*Na dupla qualidade de coautor dos Filhos do Átomo e de produtor executivo da película,, o malogrado Stan Lee fez um cameo em X-Men. É ele o homem junto a uma rulote de cachorros-quentes à entrada da praia quando o Senador Kelly emerge do oceano.

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A primeira Irmandade de Mutantes.

Veredito: 75% 

Pelo seu significado e repercussão - equiparável apenas a Superman, The Movie - X-Men foi o principal responsável pelo regresso em força dos super-heróis ao grande ecrã. De onde andavam arredados há largo tempo, tanto por conta do elevado custo desse tipo de produções como pelos apocalipses de bilheteira de algumas delas, tornando-as um género menor aos olhos de Hollywood.
Através de um veículo inteligente, ágil e respeitoso à fonte, Bryan Singer conseguiu estabelecer grande identificação entre o público e as personagens do seu filme. Que transita elegantemente por temáticas tão atemporais como a amizade entre inadaptados sociais e o preconceito de que são alvo.
Singer tem, no entanto, de dividir os méritos de X-Men com David Hayter, autor de um argumento adulto, sagaz e bem trabalhado. É, com efeito, na sua sólida trama (a única original em toda a saga cinematográfica dos X-Men) que reside a mais-valia da película.
Por contraste com muitas adaptações atuais de super-heróis, que privilegiam a espetacularidade visual em prejuízo da consistência narrativa, X-Men presenteia os espectadores com uma história envolvente, repleta de dramas interpessoais, ambivalência moral e amizades nascidas do infortúnio.
A despeito da desenvoltura narrativa de Hayter, a curta duração do filme não lhe permitiu porém desenvolver satisfatoriamente todas as personagens que desfilam pelo ecrã - sendo Tempestade, remetida a um estranho mutismo, a maior vítima dessa circunstância.
O que mais empalidece X-Men quando é feita a comparação com muitas das produções atuais é a notória falta de ambição no que à grandiosidade diz respeito. O filme dececiona nas cenas de ação carentes de espetacularidade e emoção - exceção feita às que têm Mística como protagonista.
Se, mesmo analisando X-Men com a perspetiva concedida por quase uma vintena de anos, o filme se mantém apelativo do ponto de vista simbólico, o mesmo não poderá dizer-se dos seus efeitos especiais datados. Tecnicamente, X-Men não envelheceu bem, comprometendo em certa medida o toque verosímil que Singer se esforçou por imprimir-lhe.
Nada disto impede, contudo, que X-Men continue a exalar o fascínio de um clássico que criou caminho deslizante para a prosperidade do género super-heroico, que vive por estes dias (pelo menos, no cinema) a sua segunda Idade de Ouro. Se X-Men não tivesse sido produzido -  ou tivesse fracassado - as adaptações de quadradinhos ao grande ecrã seriam hoje seguramente muito menos exuberantes.

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X-Men escancarou as portas do futuro a todo um género.










terça-feira, 26 de maio de 2015

HEROÍNAS EM AÇÃO: VAMPIRA


   Mutante de passado obscuro e vincado pela tragédia, foi perfilhada por Mística antes de se unir aos X-Men. Impedida, apesar da sua bela aparência, de levar uma vida normal, viu sempre mais como uma maldição do que como uma bênção o  seu poder de absorver as habilidades e as memórias de qualquer pessoa cuja pele toque.

Nome original da personagem: Rogue (palavra inglesa para patife ou canalha)
Licenciadora: Marvel Comics
Criadores: Chris Claremont (história) e Michael Golden (arte)
Primeira aparição: Avengers Annual nº10 (novembro de 1981)
Identidade civil: Anna Marie (apelido verdadeiro desconhecido)
Local de nascimento: Caldecott County, Mississipi
Parentes conhecidos: Owen e Priscilla (pais biológicos), Carrie (tia materna), Raven Darkholme/Mística (mãe adotiva), Irene Adler/Sina (idem), Kurt Wagner/Noturno e Graydon Creed (irmãos adotivos, o segundo já falecido)
Afiliação: Ex-integrante da Irmandade dos Mutantes, ex-aluna da Escola Xavier para Jovens Sobredotados, atualmente membro ativo dos X-Men
Base de operações: móvel
Armas, poderes e habilidades: Através do contacto físico, Vampira rouba a energia vital, as recordações e as habilidades físicas e mentais - normais ou especiais - que a sua vítima possua. Assimilando dessa forma não só eventuais superpoderes, mas também alguns dos seus traços de personalidade. Normalmente, este processo ocasiona perda de consciência e de memória no alvo. Sendo o efeito da transferência temporário: uma vez escoadas as características absorvidas, a vítima volta ao normal. Contactos prolongados podem, no entanto, causar o dreno permanente ou até a morte da pessoa vampirizada.
   Circunstâncias que explicam como conseguiu Vampira conservar durante vários anos os poderes da Miss Marvel (superforça, voo e invulnerabilidade). Além destes, a heroína mutante já demonstrou a capacidade de manifestar aleatoriamente dons anteriormente absorvidos, sem a ocorrência de novo contacto com os seus legítimos detentores. Casos, por exemplo, do fator de cura de Wolverine ou das habilidades flamejantes de Solaris.
 Hoje em dia, porém, Vampira dispõe apenas do seu poder original de absorção. Com a diferença de, ao invés do que se verificou na maior parte da sua vida, conseguir agora de forma consciente ativá-lo, desativá-lo ou direcioná-lo para o que quer drenar especificamente, podendo igualmente decidir se o seu toque causará ou não dano ao visado.
  Em consequência do exigente treino a que foi submetida na Sala do Perigo da Escola Xavier, Vampira é também proficiente em diversas técnicas de combate e autodefesa.
 
De vilã a heroína: a evolução visual de Vampira.


Histórico de publicação: A introdução de Vampira na continuidade da Casa das Ideias deveria ter ocorrido em 1979, nas páginas de Miss Marvel nº25. Contudo, o súbito cancelamento do título (numa altura em que metade da arte da história já fora finalizada) adiou a sua estreia por um  par de anos. Assim, a primeira aparição oficial da personagem verificou-se em 1981, no décimo número de Avengers Annual. No ano seguinte, a  mutante surgiu pela primeira vez numa série regular dos Filhos do Átomo: Uncanny X-Men nº158. Com a sua adesão ao grupo a ter lugar em Uncanny X-Men nº171, datado de 1983.

Avengers Annual nº10 (1981) assinalou a estreia oficial de Vampira, então integrada na Irmandade dos Mutantes.

  Não obstante tudo isso, a origem e nome verdadeiro da Vampira apenas seriam revelados mais de uma vintena de anos depois. Até setembro de 2004, data da publicação de uma história escrita por Robert Rodi no efémero título mensal Rogue, o passado da personagem permanecia envolto num denso mistério.
 Apesar da intenção clarificadora da citada narrativa, alguma da informação nela apresentada era inconsistente com dados que haviam sido divulgados ao longo da década anterior. Com efeito, dez anos antes, em X-Men Unlimited vol.1 nº4, numa história com a assinatura de Scott Lobdell, haviam sido veiculados alguns factos até aí ignorados sobre o passado familiar de Vampira.

Em X-Men Unlimited nº4 (1994) foi apresenta a primeira versão da origem de Vampira, entretanto revista.

 Era explicitado, por exemplo, que ela fugira do seu pai depois de os seus poderes mutantes se manifestarem. Em clara contradição, portanto, com a versão de Rodi, em que a jovem assume nunca ter conhecido o pai por ele a ter abandonado antes mesmo do seu nascimento, tendo sido adotada por Mística e Sina antes da eclosão das suas capacidades mutantes.
 Continua, assim, por desvendar o enigmático passado de Vampira, essa eterna inadaptada.


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Beleza sulista que não pode ser tocada, apenas vista.
Biografia: Criada pela sua severa tia materna depois da tragédia se ter abatido sobre os seus pais, a pequena Anna Marie fugiu de casa, tendo sido acolhida por Raven Darkholme (Mística) e Irene Adler (Sina).
  Anos antes, na sequência de um ritual místico fracassado levado a cabo na comunidade hippie onde vivia com a filha e o marido, a mãe de Anna Marie, Priscilla, desaparecera sem deixar rasto. Ficando, assim, a menina entregue aos cuidados da sua irmã, Carrie. Educada por ela nos preceitos da educação tradicional sulista, Anna Marie cedo se tornou fluente em inglês e francês. Sempre se pautando, porém, pela rebeldia e irreverência.
  No princípio da adolescência, os  poderes mutantes de Anna Marie manifestaram-se pela primeira vez, quando ela beijou um rapaz chamado Cody Robbins. Em consequência disso, ela teve a mente preenchida pelas memórias do namorado, com este a cair num coma permanente.
 Amargurada pela impossibilidade de levar uma vida normal, Anna Marie começou a participar nas atividades criminosas da sua mãe adotiva, entrando pela mão de Mística na Irmandade dos Mutantes.
  Logo na sua primeira missão integrada no grupo, a inexperiente Vampira chocou de frente com a Miss Marvel. Daí resultando a absorção permanente das recordações e habilidades meta-humanas da heroína: invulnerabilidade, voo e superforça.

O exato momento em que Vampira absorve os poderes da Miss Marvel.

  Perturbada pela falta de controlo sobre os seus poderes, Vampira procurou a ajuda dos maiores inimigos da Irmandade dos Mutantes, os X-Men. Apesar da renitência dos seus pupilos em aceitá-la no seio da equipa, o Professor Xavier acreditou na sinceridade da filha adotiva de Mística. No entanto, apenas depois de arriscar a própria vida para salvar a noiva de Wolverine, Mariko Yashida, é que Vampira mereceu a confiança dos seus pares.
  Mesmo sabendo que nunca poderia consumar devidamente o seu amor por Gambit, Vampira apaixonou-se pelo seu colega de equipa. Algum tempo depois, os dois  iniciaram uma demanda pelos diários de Sina, cujos poderes precognitivos lhe haviam permitido vislumbrar o futuro dos homo superior. Durante essa jornada conjunta, o casal viu-se despojado das suas habilidades mutantes, aproveitando a oportunidade para viver uma vida normal e anónima numa pacata comunidade californiana.

Vampira e Gambit: amor mutante.

  Esse quotidiano idílico seria, contudo, sol de pouca dura. Depois de recorrerem à ajuda dos X-Men para derrotarem um caçador de mutantes chamado Elias Bogan, Vampira e Gambit reingressaram na equipa.
 Readquirindo o seu poder de absorção graças à habilidade mutante do seu colega de equipa Sage, Vampira partiu numa jornada à descoberta do seu passado. Entre outras peças que lhe permitiram completar um pouco mais o seu puzzle familiar, a jovem descobriu que os seus pais haviam dedicado grande parte das suas vidas à busca pelos Bancos Distantes, uma dimensão onírica cujo acesso apenas era possível a quem atingia um elevado grau de consciência.
  Com a ajuda de Campbell - outro enigmático mutante - Vampira localizou os seus progenitores. Após a emoção do reencontro, a jovem convenceu a mãe a preservar a barreira que separava os Bancos Distantes do nosso mundo. Priscilla aquiesceu, mas foi traída pelo marido, obcecado com a  abertura de um portal entre as duas realidades. Perante estas circunstâncias, a mão de Vampira imolou-se a fim de impedir que outras pessoas mal intencionadas conseguissem futuramente aceder aos Bancos Distantes.
  De seguida, foi a vez de a própria Vampira adentrar esse mundo de sonhos, conseguindo por fim fazer as pazes com o espírito da sua mãe.
  Regressada à Mansão X, Vampira reencontrou Gambit e os dois iniciaram uma terapia telepática ministrada por Emma Frost na esperança de encontrarem uma solução para a impossibilidade de contacto físico entre o casal. As sessões redundaram, contudo, em fracasso.
  Entretanto, uma aluna de Gambit chamada Foxx tentou seduzi-lo. Falhado o ardil, a mulher revelou a sua verdadeira identidade: Mística. A mãe adotiva de Vampira tentara dessa forma apartar o casal, para que a filha pudesse tentar ter um relacionamento amoroso normal com alguém menos problemático.
  Apesar das maquinações de Mística, Vampira e Gambit permaneceram juntos, até ele ser transformado por Apocalipse em Morte, um dos seus quatro cavaleiros. Recusando-se a acreditar na corrupção da alma do seu amado, a heroína mutante quase foi morta por ele em diversas ocasiões.

Vampira encontrou em Mística uma segunda mãe.

  Quando finalmente interiorizou o facto de que o homem que amava não mais existia, Vampira aliou-se a Ciclope e a Emma Frost para resgatar mutantes de uma clínica onde estavam prestes a ser submetidos a horríficas experiências médicas. Recuperando, daí em diante, o estatuto de membro de pleno direito dos X-Men, ao lado dos quais viveu incontáveis peripécias.
   Mais recentemente, na esteira dos eventos mostrados na saga Vingadores versus X-Men (conflito em que começou por ser neutral, acabando, porém, por tomar partido da fação encabeçada por Ciclope), Vampira foi uma das escolhidas para fazer parte da Divisão Unidade dos Vingadores (DUV), força conjunta que reúne humanos e mutantes com o objetivo de promover a coexistência pacífica entre ambas as espécies.
  Culpando a Feiticeira Escarlate pela morte do Professor Xavier, a coabitação entre Vampira e a filha de Magneto na DUV foi sempre pautada por uma enorme tensão. Após assimilar os poderes de Wolverine, e convicta de que a sua colega de equipa seria uma traidora à própria espécie, Vampira assassinou a Feiticeira Escarlate. Apenas para ser logo de seguida morta pelo Ceifador.
  Meses atrás, porém, Vampira foi ressuscitada, tendo-lhe sido confiada a liderança da renovada DUV. Mais madura e determinada do que nunca, ela é hoje uma das mais formidáveis mutantes da Terra.

A morte da Feiticeira Escarlate às mãos de Vampira.

O enigma de um nome: Na trilogia cinemática dos X-Men (2000-2006), Vampira é identificada simplesmente como Marie. Nos quadradinhos, porém, ela já usou vários nomes. Um dos mais notórios e duradouros foi Anna Raven (adotando como apelido o nome próprio de Mística, sua precetora). Chris Claremont, por seu turno, crismou-a de Anna Marie Raven em X-Men Forever. De facto, só em 2004 o seu nome de batismo foi finalmente estabelecido: Anna Marie. Vampira interiorizou-o graças às memórias que absorvera da sua tia que a criara após o desparecimento da mãe. E é esse o nome que consta no prontuário da personagem no Official Handbook of the Marvel Universe (espécie de "quem é quem" da editora). Quanto ao seu apelido verdadeiro, talvez um dia venha a ser revelado...

Vampira fez parte de diversas formações dos X-Men.
Romances de alto risco: Devido à sua habilidade mutante de absorver poderes, energia e memórias alheias com um simples toque, Vampira nunca conseguiu ter um relacionamento amoroso normal. Após o trágico episódio com o seu primeiro namorado (Cody Robbins, que ficou em coma depois de ambos terem trocado o primeiro beijo), a jovem evitou ao máximo o contacto com outras pessoas de modo a evitar incidentes semelhantes. Razão pela qual nutriu durante algum tempo uma paixão platónica pelo seu ex-companheiro de equipa, Longshot. Ficando intimamente devastada quando este se envolveu romanticamente com Cristal.
 O grande amor de Vampira foi, porém, Remy LeBeau, o garboso mutante francês conhecido como Gambit. O que não a impediu de viver também uma intensa paixão com Magneto. Ironicamente, a icónica madeixa branca de Anna Marie foi resultado da sua tentativa de absorção dos poderes do Mestre do Magnetismo, vários anos antes.

Mutante de coração dividido.

Noutros media: Um dos mais carismáticos e proeminentes membros dos X-Men desde meados dos anos 1980, a notoriedade de Vampira há muito transcendeu os quadradinhos. Fora deles, a sua estreia deu-se em 1992, na série animada X-Men. Ainda no campo da animação, a filha adotiva de Mística foi figura de destaque em X-Men: Evolution (2000) e Wolverine and the X-Men (2008).
  No cinema, vem há 15 anos sendo interpretada pela oscarizada Anna Paquin, tendo marcado presença em quatro das cinco longas-metragens dos X-Men (a exceção foi X-Men: Origins). Com a particularidade de Vampira não ter qualquer ligação afetiva com Mística nesta sua versão cinematográfica.
 Em 2008, Vampira ganhou a eleição online promovida pela Comic Book Resources para escolher o melhor X-Men de sempre. Quedando-se, no ano seguinte, na 10º posição da lista das 100 Personagens Femininas Mais Sexys Dos Quadradinhos elaborada pelo Comics Buyer's Guide. Títulos que ratificam de forma incontestável a sua enorme popularidade no seio da comunidade nerd.

Anna Paquin como Vampira em X-Men 3: O Confronto Final (2006).