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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

GALERIA DE VILÕES: CARNIFICINA





   Projetado para ser o herdeiro de Venom, afirmou-se como uma sua versão mais violenta e amoral. Traços de personalidade decalcados de um outro infame maníaco homicida dos quadradinhos. Tal como ele, à sua passagem deixa sempre para trás uma enorme pilha de cadáveres.


Nome original da personagem: Carnage
Licenciadora: Marvel Comics
Criadores: David Michelinie (história), Erik Larsen (arte conceitual de Cletus Kasady) e Mark Bagley (arte conceitual de Carnificina)
Primeira aparição (como Cletus Kasady): Amazing Spider-Man nº344 (fevereiro de 1991)
Primeira aparição (como Carnificina): Amazing Spider-Man nº361 (abril de 1992)
Identidade civil: Cletus Kasady
Espécie: Humano hospedeiro de um simbionte alienígena
Local de nascimento: Brooklyn, Nova Iorque
Parentes conhecidos: Avó (nome desconhecido, falecida) e pais (nomes desconhecidos, igualmente falecidos). Além destes antepassados do seu alter ego humano, Carnificina gerou uma extensa prole simbiótica, onde pontificam, entre outros, os "filhos" Carniça e Toxina (Carrion e Toxin, nas respetivas versões originais).
Afiliação: Ex-parceiro de Venom, ex-membro dos Vingadores (grupo de supervilões reunido por Magneto para enfrentar o Caveira Vermelha, logo após os eventos de Guerra Civil) e patriarca da Família Carnificina.
Base de operações: Móvel
Armas, poderes e habilidades: Devido à sua personalidade antissocial e às suas compulsões homicidas, quando ainda não passava de um criminoso comum Cletus Kasady era já considerado um indivíduo altamente perigoso. Perigosidade essa que sobrevinha, precisamente, da sua amoralidade e do seu mais profundo desprezo pela vida humana.
  Ao mesclar-se com o simbionte alienígena, Kasady teve o seu corpo recoberto por uma viscosa biomassa vermelha e preta, adquirindo por essa via uma impressionante gama de habilidades meta-humanas. Conquanto muitas delas sejam similares às de Venom, outras são ímpares. É o caso da sua capacidade de manipular a forma do simbionte. Circunstância que lhe permite, por exemplo, gerar apêndices orgânicos em forma de tentáculos passíveis de serem usados em situações de combate corpo a corpo ou para manietar os seus oponentes.
  Entre os poderes que são comuns a todos os hospedeiros do simbionte, destacam-se: força, resistência e velocidade ampliadas; propriedades regenerativas aceleradas; aderência a praticamente qualquer tipo de superfície; produção de uma teia orgânica ultrarresistente; imunidade ao sentido de aranha de Peter Parker.
Fraquezas: À semelhança de Venom e de todos os outros simbiontes da sua espécie, Carnificina é vulnerável ao som e às altas temperaturas. Ataques baseados nestes dois elementos são pois suscetíveis de lhe causarem dor excruciante. Alguns indícios sugerem, no entanto, que devido ao facto de a cria de Venom ter nascido na Terra, essa suscetibilidade será consideravelmente inferior à dos simbiontes de origem alienígena.
  Outro dos pontos fracos de Carnificina reside na instabilidade mental do seu hospedeiro. Mesmo antes da sua transformação, a Cletus Kasady já havia sido diagnosticada uma psicose com laivos de sadismo, a que se somava uma obsessão pelo caos.

Em Carnificina a maldade é orgânica.

Histórico de publicação: Em finais de 1990, o escritor David Michelinie idealizou Carnificina (Carnage, em inglês) para ser uma versão ainda mais sórdida de Venom, cujo alter ego humano (Eddie Brock) tencionava matar em Amazing Spider-Man nº400. O simbionte, esse, sobreviveria e continuaria a usar vários hospedeiros para disseminar o terror e atormentar um certo Escalador de Paredes.
  Projeto que acabaria, contudo, por não receber luz verde dos mandachuvas da Marvel em virtude de um súbito pico de popularidade da dupla Venom/Brock junto dos leitores. Recusando-se a atirar a toalha ao chão, Michelinie propôs, em alternativa, a conceção de uma personagem inédita: um sociopata sanguinário que, por contraste com Eddie Brock, não obedecia a qualquer código de honra.
   Aprovada a ideia, o passo seguinte consistiu em encontrar um bom nome para o novo vilão. Chaos e Ravage foram duas das opções equacionadas, acabando, no entanto, por recair a escolha sobre Carnage. Usando como referência o Joker (da concorrente DC), Erik Larsen desenvolveu o visual de Cletus Kasady. Ficando os primeiros esboços da sua contraparte simbiótica a cargo de Mark Bagley.

O "pai" de Venom e de Carnificina.

  Ultimado o processo criativo, Cletus Kasady fez a sua primeira aparição em fevereiro de 1991, nas páginas de Amazing Spider-Man nº344. Mais de um ano depois, em abril de 1992, seria a vez de Carnificina fazer a sua sangrenta estreia em Amazing Spider-Man nº361.
  Sucesso instantâneo, nos anos seguintes Carnificina afirmou-se como um dos vilões de charneira do Universo Marvel. Logo em 1993, viu ser-lhe conferido o estatuto de antagonista principal do Homem-Aranha na saga Maximum Carnage (publicada no Brasil pela Abril sob o título Carnificina Total). Tendo posteriormente direito, em 1996, a dois volumes especiais inteiramente dedicados a si: Carnage: Mind Bomb e Carnage: It's a Wonderful Life.

Eddie Brock e Cletus Kasady recebem uma visita inesperada
em Amazing Spider-Man nº344 (1991)
  À medida que os anos foram passando, o sinistro glamour de Carnificina foi-se desvanecendo. Após uma fugaz aparição em 2004, no título New Avengers, o vilão foi dado como morto. Assim permanecendo na meia dúzia de anos seguintes, até que a minissérie Carnage o trouxe de volta ao mundo dos vivos. Antes, porém, da sua reunião com Cletus Kasady, o simbionte usou uma hospedeira temporária chamada Tanis Nieves.
  Em novembro de 2015, no âmbito do reboot do Universo Marvel decorrente da saga Secret Wars III, chegou às bancas norte-americanas Carnage, uma nova série mensal da autoria de Gerry Conway e Mike Perkins, que promete trazer Carnificina de volta à ribalta..
 
Capa do número inaugural da nova série de Carnificina.

Biografia: Foi tudo menos idílica a infância de Cletus Kasady. Devido à sua personalidade psicótica, o futuro hospedeiro do Carnificina teve sempre uma relação conturbada com a sua família, em particular com os seus progenitores.
   Ainda criança, Cletus assassinou a avó, empurrando-a por um lanço de escadas. Proeza que tentou reeditar pouco tempo depois com a mãe, ao atirar um secador de cabelo ligado à corrente para dentro da banheira onde a mulher fazia as suas abluções. Frustrado o matricídio, a vítima seguinte dos instintos sádicos do catraio foi o cão da família.
  Apanhado em flagrante pela mãe enquanto torturava o pobre animal, Cletus foi violentamente espancado por ela. Era tal o desespero da sua progenitora, que esta tentou matá-lo com as próprias mãos. Apenas a intervenção do pai de Cletus evitou nova tragédia familiar. Acabando, no entanto, por originar outra, ao matar a esposa com uma pancada certeira.
  Julgado pelo homicídio da sua cara-metade, o pai de Cletus foi incriminado em tribunal pelo filho. Acabando dessa forma sentenciado à morte na cadeira elétrica.
  Quanto a Cletus, foi enviado para um orfanato, onde as suas condutas antissociais fizeram dele o alvo preferencial dos abusos tanto dos outros residentes como do staff da instituição. Esse acúmulo de violência e rancor teria consequências explosivas: antes de deitar fogo ao orfanato, Cletus assassinou um dos seus administradores e uma rapariga que havia escarnecido o seu pedido de namoro.

Cletus Kasady escreve as suas próprias regras.

  Nos anos seguintes, Cletus passaria a justificar as suas atrocidades com uma bizarra doutrina libertária que preconiza que o Universo é, por definição, caótico. Do seu ponto de vista, a vida e as leis são fúteis, porquanto desprovidas de sentido. Por conseguinte, a propagação do caos e da desordem por via de chacinas aleatórias configuraria a suprema expressão de liberdade individual.
   Fiel a este postulado, Cletus tornou-se um assassino em série. Antes de ser finalmente capturado pelas autoridades, deixou uma pilha de cadáveres atrás de si. Crimes macabros que lhe valeriam uma pena de prisão perpétua a ser cumprida em Riker's Island.
   Num golpe de asa do Destino, Cletus Kasady teve como companheiro de cela ninguém menos do que Eddie Brock, a metade humana do famigerado Venom. Em atroz sofrimento, o simbionte invadiu a penitenciária a fim de libertar o seu hospedeiro. Causando, para esse efeito, uma fuga em massa dos reclusos.
   Brock estava no entanto longe de imaginar que a criatura estava grávida, e que dera à luz no meio do pandemónio instalado. Deixado para trás, o filhote do simbionte reclamou Cletus Kasady como seu hospedeiro. Dessa união nasceu o infame Carnificina.

O primeiro contacto do simbionte com o seu novo hospedeiro.

   Além de dotá-lo de superpoderes, o processo de simbiose potenciou a natureza psicótica de Kasady, tornando-o ainda mais sanguinário e mentalmente instável. Determinado em colocar em prática a sua doutrina homicida, Carnificina recorreu à lista telefónica para escolher a sua primeira vítima mortal. Seguindo-se um cortejo de mortes aleatórias que deixaram os nova-iorquinos em estado de choque.
  Previsivelmente, o rasto sangrento de Carnificina atraiu a atenção do Homem-Aranha. Levando em conta os depoimentos de testemunhas oculares dos crimes -que afirmavam que o assassino usava uma espécie de traje vivo - o Escalador de Paredes começou por atribui-los a Venom, mesmo não reconhecendo o modus operandi. No entanto, após uma investigação levada a cabo como Peter Parker, o herói concluiu que o culpado era na verdade o ex-colega de cela de Eddie Brock, Cletus Kasady.
  As pistas recolhidas pelo Homem-Aranha conduziram-no ao velho orfanato onde, em tempos, Cletus Kasady estivera internado. Local que serviu de palco ao primeiro confronto entre ambos, com o vilão a conseguir escapar.
  Percebendo que mesmo as suas fantásticas habilidades seriam insuficientes para derrotar Carnificina, o Homem-Aranha requisitou a ajuda do Quarteto Fantástico e de Venom, com quem forjou uma aliança temporária.
  Subjugado por esta coligação heterodoxa, Carnificina desapareceu da face da terra depois de ter, aparentemente, abandonado o seu hospedeiro.
 Cletus Kasady foi então enviado para o Asilo Ravencroft, instituição psiquiátrica especializada no tratamento de criminosos insanos. Transportando, sem que ninguém soubesse, o simbionte na sua corrente sanguínea. Ao que tudo indica, a criatura terá usado uma ferida no corpo de Cletus para se esconder no interior do seu organismo, evitando dessa forma ser detetada.
  Quando, algum tempo depois, um dos médicos de Ravencroft recolheu uma amostra de sangue de Cletus Kasady para análise, libertou inadvertidamente o simbionte. Sem perder tempo, Carnificina arrebanhou vários psicopatas superpoderosos, nomeadamente Carniça e Shriek, para tomarem de assalto Nova Iorque. Apesar da rápida intervenção do Homem-Aranha e seus aliados (entre os quais se incluía, uma vez mais, Venom), Shriek usou as suas habilidades psiónicas para induzir uma insaciável sede de sangue nos habitantes da cidade, fazendo com que eles se matassem uns aos outros.
   Na batalha final que opôs o séquito de Carnificina aos heróis reunidos para detê-los, estes últimos, ainda que a duras penas, saíram vitoriosos. Com Cletus Kasady a ser novamente confinado em Ravencroft (eventos narrados em Maximum Carnage/Carnificina Total).
  Mais recentemente, o vilão foi dado como morto após ter sido despedaçado em órbita pelo Sentinela. No entanto, seria mais tarde revelado que tanto o simbionte como o seu hospedeiro haviam, afinal, sobrevivido. Tudo indica que não seria Cletus Kasady a estar dentro do Carnificina quando tudo aconteceu.

Venom versus Carnificina: duelo simbiótico.

Apontamentos:

* Aquando da sua passagem pelo orfanato, o pequeno Cletus Kasady era inseparável do seu ursinho de peluche chamado Blinky. Brinquedo que fez questão de resgatar após a sua fuga da prisão;
* Kasady acredita que o seu simbionte é, na verdade, uma fêmea;
* Fã da banda de trash metal Anthrax, Kasady é obrigado a usar auscultadores para ouvir a sua música preferida sem ferir o simbionte;
* Tempos atrás, Kasady viu ser-lhe diagnosticado um cancro do estômago em fase terminal. Não voltaram, contudo, a ser feitas quaisquer referências à doença desde então;
* Em 2002, Carnificina foi a atração principal do parque temático da Marvel Halloween Horror Nights: Islands of Fear, baseado na saga Maximum Carnage. Por contraponto à história original, o vilão e seus aliados, depois de matarem todos os super-heróis, conseguiam mesmo dominar o mundo;
* O simbionte que atualmente usa Cletus Kasady como hospedeiro não é o original. Trata-se de um espécime similar proveniente da Zona Negativa.


Um aranhiço prestes a servir de refeição a dois simbiontes famintos.
Outros hospedeiros: 

  A despeito de ter em Cletus Kasady o seu hospedeiro primário, Carnificina já se fundiu temporariamente com outros indivíduos. A saber: John Jameson (filho do irascível diretor do Clarim Diário), Ben Reilly (o Aranha Escarlate), o Surfista Prateado (com quem formou o Carnificina Cósmico) e Tanis Nieves (a quem recorreu após a aparente morte de Kasady).
  Em qualquer dos casos, porém, o simbionte acabou sempre por voltar a mesclar-se com Cletus Kasady, a quem já por diversas ocasiões salvou de uma morte certa. Como aconteceu quando um médico, aproveitando a separação de Kasady do simbionte, tentou matá-lo para se tornar o novo Carnificina. A criatura, no entanto, rejeitou o hospedeiro alternativo e usou as suas propriedades regenerativas para curar os ferimentos infligidos a Kasady.

Lista (abreviada) de vítimas mortais:

*Avó Kasady;
* O diretor do orfanato onde Cletus passou parte da infância;
* Uma rapariga que rejeitou o seu pedido de namoro;
* Um guarda prisional;
* Vários agentes policiais;
* O vocalista dos Headbanger's Heaven;
* Vários passageiros do metro nova-iorquino;
* Todo os reclusos e guardas da penitenciária Kramer;
* Centenas de cidadãos anónimos que tiveram o azar de estar no sítio errado, à hora errada.

Quem disse que os monstros não existem?

Noutros media: Desde 2009 que Carnificina ocupa a 90ª posição na lista dos Melhores Vilões dos Quadradinhos de Todos os Tempos do IGN. Fora deles, a sua estreia no panorama audiovisual remonta a 1996. Ano em que participou em alguns episódios da terceira temporada da série Spider-Man. Apesar de algumas cambiantes, a sua versão animada era bastante fiel ao conceito primordial. Situação que se verificou, também. nas restantes séries de animação estreladas pelo Homem-Aranha em que foi marcando presença ao longo dos anos.
 Ainda sem lugar no efervescente Universo Cinemático da Marvel, Carnificina continua, no entanto, a marcar pontos nos jogos de vídeo baseados na mitologia da Casa das Ideias.E até já subiu ao palco na Broadway. Aconteceu em 2011, quando lá estreou a peça musical Spider-Man: Turn Off the Dark, com banda sonora de Bono e The Edge, dos U2. Retratado como um membro do Sexteto Sinistro, o vilão foi interpretado por Collin Baja.

Spider-Man musical.jpg
Cartaz promocional do musical do Homem-Aranha
 que deu a conhecer Carnificina ao espectadores da Broadway.

 
   

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

CLÁSSICOS REVISITADOS: « A MORTE DE JEAN DEWOLFF»




   Na peugada do assassino da sua mais valorosa aliada, um transtornado Homem-Aranha enreda-se numa teia de mistérios e segredos desconcertantes. Logo descobrindo, porém, que esse foi apenas o prelúdio de uma macabra história escrita com o sangue de inocentes. 
  Obra de estreia de Peter David como profissional dos quadradinhos, esta saga ocupa um lugar de destaque na memorabilia do herói aracnídeo.


Título original da saga:  The Death of Jean DeWolff
Data de publicação: Outubro de 1985 a janeiro de 1986
Licenciadora: Marvel Comics
Autores: Peter David (enredo) e Rich Buckler (arte)
Títulos abrangidos: Peter Parker, The Spectacular Spider-Man nº 107-110
Personagens principais: Homem-Aranha, Devorador de Pecados, Jean DeWolff, Demolidor, J. Jonah Jameson, Betty Brant, Emil Gregg, Tia May e Ernie Popchik

Edição brasileira


A primeira metade da saga foi publicada em Homem-Aranha nº87.

Editora: Abril*
Publicado em: Homem-Aranha (1ª série) nº87 e 88 (setembro-outubro de 1990)
Formato: Formatinho (13,5 x 19cm), colorido e com lombada agrafada
Na minha coleção desde: 1991

*Sob os auspícios da Panini Comics, em março de 2013, foi lançada a compilação da saga num volume com 172 páginas e em formato americano.

Edição encadernada da Panini (2013).

Conceção e desenvolvimento: Recém-chegado à indústria dos comics, Peter David foi incumbido pelo então editor da linha de títulos do Homem-Aranha, Jim Owsley (pseudónimo de Christopher Priest), de escrever uma saga que desse um safanão ao herói e aos fãs. Owsley pretendia uma história que incluísse o assassinato da Capitã Jean DeWolff e uma série de acobertamentos feitos no interior do departamento policial nova-iorquino. Ficando desse modo patente que partiu de Owsley, e não de David, a ideia de matar aquela que era uma habitué das aventuras do Escalador de Paredes desde meados dos anos 70.
  Sem pudores, Jim Owsley assumiu a autoria moral do "crime" numa entrevista concedida a uma publicação especializada em quadradinhos: "O tom caprichoso de Spectacular Spider-Man há muito que deixara de agradar-me. Foi por isso que não hesitei em enxotar Al Milgrom, trazendo para o seu lugar o brilhante Peter David. Embora ele fosse um novato no meio, desde o primeiro momento reconheci as suas potencialidades enquanto escritor. Sabia, no entanto, que a minha aposta só seria bem-sucedida se ele fosse adjuvado por um artista de qualidade. Quando pensei num nome, o de Rich Buckler foi o que mais me entusiasmou. Com ele e David à frente de Spectacular Spider-Man, a série adquiriu um registo mais adulto, passando a abordar temas mais complexos.
  À premissa proposta por Owsley, David juntou elementos da sua autoria. O escritor pretendia produzir uma história na qual o Homem-Aranha seria levado ao limite enquanto enfrentava um vilão capaz de cometer atos hediondos. Outro aspeto que ele pretendia explorar eram as diferenças filosóficas entre o herói aracnídeo e o Demolidor.
  Esses e outros pormenores foram incorporados na trama durante uma reunião de Owsley e David em casa deste último, a qual se prolongou até de madrugada. Ficando igualmente estipulado que a história seria composta por quatro capítulos.


Jim Owsley (em cima)  e Peter David: parceiros no crime.

  Jim Owsley recorda assim o final impactante do terceiro capítulo da saga: "Uma sequência tão intensa que chegámos a considerar a sua exclusão. Eu próprio fiquei assustado com ela. Imaginam a reação das mamãs suburbanas que haviam comprado aquela edição para os seus rapazinhos? Qual seria a cara delas ao perceberem que o Devorador de Pecados fazia explodir as entranhas de Betty Brant com um disparo da sua arma?"
  Afirmando ter-se inspirado numa antiga tradição inglesa para conceber a personagem (ver prontuário infra), Peter David explica que não foi aleatória a escolha da persona civil do Devorador de Pecados. Segundo ele, "Stan (diminutivo de Stanley) é um nome simpático para os leitores depois de décadas de associação com Stan Lee. Além disso, retratei Stanley Carter como judeu. Isaac Asimov disse certa vez que se queremos introduzir um vilão cujas intenções maliciosas devem ser dissimuladas, nada como fazê-lo judeu e pô-lo a falar com frases invertidas. Isso fará lembrar o Mestre Yoda (da saga cinemática Guerra das Estrelas), levando a que os leitores o percecionem como uma personagem amistosa".
  David lauda também o trabalho de Rich Buckler, cujo traço denso e dinâmico fez a história pulsar de vida: "Buckler conseguiu imprimir a dose ideal de realismo na trama. Foi quase como se o Homem-Aranha estivesse a participar num episódio de Hill Street Blues (série policial dos anos 80 que, em Portugal, foi traduzida como Balada de Hill Street).


Rich Buckler, o terceiro atirador.


Curiosidades:

* No terceiro capítulo da saga, existe uma cena em que o Rei do Crime dita uma carta na qual responde ao contacto efetuado por uma assassina profissional, identificada como "Senhorita C.B. Kalish". Trata-se de uma private joke envolvendo Carol B. Kalish, à época Diretora Comercial da Marvel Comics e velha amiga de Peter David. Foi, com efeito, pela mão dela que o escritor deu os primeiros passos nos meandros da 9ª arte;
* Na primeira página do quarto (e último) capítulo da trama, os flashbacks em que o Homem-Aranha rememora o fugaz romance que teve na juventude com Betty Brant são, na verdade, reproduções de painéis incluídos em algumas das primeiras histórias do herói, publicadas no início dos anos 60 em Amazing Spider-Man.

O lado lunar do Escalador de Paredes vem à tona na saga.


Quem era Jean DeWolff?


   
   Personagem idealizada por Bill Mantlo e Sal Buscema, a Capitã Jean DeWolff fez a sua primeira aparição em agosto de 1976, nas páginas de Marvel Team-Up nº48. Nos anos que precederam a sua morte, foi coadjuvante no portfólio de títulos estrelados pelo Escalador de Paredes.
  Filha de Phillip DeWolff, um antigo inspetor da Polícia nova-iorquina, Jean resolveu seguir as pisadas do pai, apesar das objeções deste. Após muito trabalho árduo, alcançou a patente de capitã no Departamento de Polícia de Nova Iorque (DPNI). Inteligente e obstinada, destacou-se também pelo seu gosto por visuais retro inspirados nos anos 30.
  Quando investigava uma série de atentados à bomba, a capitã DeWolff conheceu o Homem-Aranha, de quem se tornaria admiradora e aliada. Tornando-se, assim, uma exceção no seio de um  DPNI tradicionalmente hostil ao Escalador de Paredes, muito por conta dos virulentos editoriais do Clarim Diário.
  Na sequência da morte da capitã DeWolff às mãos do próprio namorado (Stanley Carter, vulgo Devorador de Pecados), o Homem-Aranha descobriu que ela colecionara fotos e recortes de jornais onde ele aparecia. Levando o herói a concluir que os sentimentos que ela nutria em relação à sua pessoa eram mais calorosos do que ele imaginava. Descoberta que deixou ainda mais abalado o Escalador de Paredes.


Quem era o Devorador de Pecados?



  O vilão responsável pela morte de Jean DeWolff (Sin-Eater,no original) debutou em outubro de 1985, nas páginas de Peter Parker, The Spectacular Spider-Man nº107. De seu nome verdadeiro Stanley Carter, trata-se de um conceito desenvolvido conjuntamente por Peter David e Rich Buckler, com base no folclore inglês.
  Em certas regiões do Reino Unido (e também nas montanhas Ozark, nos EUA), sempre que alguém morre, os seus entes queridos depositam frutos e outros alimentos no peito do cadáver. De acordo com esta tradição pagã, o ritual servirá para absorver os pecados do defunto. Cabendo, assim, ao Devorador de Pecados (geralmente um mendigo) comer as oferendas, assegurando dessa forma a absolvição dos pecados cometidos em vida pelo malogrado.
  Antes de se voluntariar como cobaia para uma droga experimental, o agente da SHIELD Stanley Carter já estava familiarizado com esta tradição. Inoculada no organismo humano, a substância em causa dotava os seus usuários de capacidades físicas sobre-humanas, designadamente força, resistência e reflexos amplificados. Considerado demasiado perigoso pelo Governo norte-americano (um dos efeitos colaterais da droga era a demência das cobaias), o programa recebeu ordem de encerramento. Decisão que Carter interiorizou como um abuso de autoridade, motivando a sua renúncia.
  Carter foi submetido a testes antes de regressar à vida civil, não tendo sido detetados vestígios da droga no seu organismo. Alguns comportamentos seus indiciavam, porém, uma sanidade mental precária e uma crescente propensão para a violência.
 Pouco tempo depois, Carter ingressou no Departamento de Polícia de Nova Iorque, passando a desempenhar funções como detetive. Quando o seu parceiro foi abatido num tiroteio com um bando de delinquentes juvenis, Carter tornou-se obcecado com a ideia de liquidar indivíduos que abusavam da sua autoridade para deixar impunes os criminosos.
  Decidido a "absorver" os pecados do mundo, Carter tencionava executar juízes que aplicavam sentenças irrisórias a malfeitores, advogados que os defendiam em tribunal mesmo conscientes da sua culpabilidade e até mesmo os padres que escutavam as suas confissões e mantinham sigilo delas. Com esse objetivo em vista, ele adquiriu uma espingarda e improvisou um disfarce para ocultar a sua verdadeira identidade. Nascia assim o Devorador de Pecados, cuja primeira vítima foi a Capitã Jean DeWolff, namorada de Stanley Carter. Ironicamente, seria ele o detetive designado para investigar o homicídio. Circunstância que o levou a trabalhar em conjunto com o Homem-Aranha.

Capa de Peter Parker, The Spectacular Spider-Man nº109 (1985).

Enredo: Após capturar os meliantes que haviam agredido Ernie Popchik, um dos residentes no lar de idosos gerido pela Tia May, o Homem-Aranha fica mortificado ao descobrir que a Capitã Jean DeWolff, sua amiga e aliada de longa data, fora morta durante o sono. Transtornado, o herói interpela o detetive encarregue da investigação do caso, o Sargento Stanley "Stan" Carter. Este revela-lhe alguns pormenores sobre o crime: DeWolff terá sido baleada à queima-roupa por uma espingarda de canos sobrepostos e o seu distintivo terá sido roubado pelo assassino.
 Entretanto, Matthew Murdock (vulgo, Demolidor) é designado como advogado oficioso dos agressores de Ernie Popchik, conseguindo que os jovens sejam libertados sem caução. Desagradado com a conduta desordeira dos seus clientes, Matt confidencia ao juiz Horace Rosenthal (seu antigo mentor) os seus receios em relação ao serviço pro bono que vem prestando. Durante a conversa entre ambos, Matt pressente a presença de um intruso armado nos aposentos do juiz. Quando este sai da sala, o Devorador de Pecados assoma e abre fogo sobre Matt. Ao ouvir o estrépito dos disparos, Rosenthal regressa à sala e é executado a sangue-frio pelo Devorador de Pecados, que de imediato se põe em fuga.

O momento da descoberta do cadáver da Capitã DeWolff.

  Alertado pelo rebuliço causado pelo atentado, o Homem-Aranha acorre ao local, deparando-se com o Devorador de Pecados. Sem hesitar, o vilão dispara sobre o Escalador de Paredes, que facilmente se esquiva das balas. Pior sorte têm, contudo, alguns transeuntes que circulavam no exterior do tribunal, feridos pelas balas perdidas.
  Enquanto luta com o seu atacante, o Homem-Aranha apercebe-se que este tem na sua posse o distintivo policial da falecida Capitã DeWolff. Deduzindo de imediato que está em presença do assassino da sua amiga. Contudo, ao ver a Tia May desfalecida na calçada, o herói aracnídeo permite a fuga do Devorador de Pecados.
  Depois de obter autorização do Sargento Carter para revistar o apartamento de DeWolff, o Homem-Aranha não descobre quaisquer pistas ou indícios. Encontra, no entanto, fotos e recortes de jornais onde ele aparece. Ficando dessa forma claro que DeWolff tinha um interesse romântico no herói. Facto que o deixa ainda mais consternado.
  Pela boca do próprio Carter, o Escalador de Paredes fica a par do seu passado como agente da SHIELD e do folclore associado ao Devorador de Pecados.
  No dia seguinte, durante o funeral do juiz Rosenthal, Matt Murdock consegue identificar, algures entres os presentes, a batida cardíaca do Devorador de Pecados. É, porém, incapaz de reconhecê-lo.
   Nessa mesma noite, o Devorador de Pecados executa a tiro o padre que havia conduzido as exéquias da Capitã DeWolff.
   Devido à vaga de mortes atribuída ao Devorador de Pecados, é montado um circo mediático, aproveitado pelo Reverendo Jackson Tulliver para acicatar a opinião pública. Paralelamente, o Homem-Aranha e o Demolidor procuram no submundo do crime nova-iorquino pistas sobre a verdadeira identidade do assassino da Capitã DeWolff. As suas investigações são, todavia, infrutíferas.
   Dias depois, o Devorador de Pecados irrompe na redação do Clarim Diário, exigindo falar com J. Jonah Jameson. Este encontrava-se, no entanto, ausente em férias. Momentaneamente distraído por Joe Robertson (editor-chefe do jornal), o vilão é alvejado por uma máquina de escrever arremessada por Peter Parker.
  Inanimado, o Devorador de Pecados é desmascarado, sendo identificado como Emil Gregg. Este não tem, no entanto, qualquer lembrança de ser o autor dos homicídios que lhe são imputados. Alega, ainda assim, que vozes lhe haviam ordenado que os cometesse.
   Chegado entretanto ao local, o Demolidor assiste à confissão de Gregg, não reconhecendo, contudo, o seu ritmo cardíaco. Assumindo, portanto, tratar-se de um impostor. Perante o ceticismo do Homem-Aranha, o Diabo da Guarda convida-o a acompanhá-lo numa busca ao apartamento de Gregg.
  No apartamento supostamente propriedade de Gregg, os dois heróis encontram a arma e o traje usados pelos Devorador de Pecados, bem como um gravador contendo registos áudio do vilão. Rapidamente concluem ser aquela a origem das vozes que, presumivelmente, atormentariam Gregg. No entanto, a revelação mais chocante surge sob a forma de correspondência destinada ao verdadeiro proprietário do imóvel: Stanley Carter.
   Ao darem pela falta de uma segunda arma no armário onde o Devorador de Pecados guardava o seu arsenal, o Homem-Aranha e o Demolidor concluem que ele terá usado Gregg como engodo, enquanto se dirigia a casa de JJ. Jameson para o matar. Dada a grande distância que os separava da morada e o avanço levado pelo Devorador de Pecados, seria impossível os heróis chegarem a tempo de impedir o crime.
  Em desespero, o Homem-Aranha telefona para o Clarim Diário e consegue obter o número de telefone de JJJ. Sem perder tempo, o Cabeça de Teia efetua a chamada, atendida por Betty Brant (secretária pessoal de Jameson e primeira namorada de Peter). No entanto, antes que o Homem-Aranha possa avisá-la, ouve-se o som de um disparo em fundo.

Uma das sequências mais dramáticas da saga: a pretensa execução sumária de Betty Brant.


  Convencido de que Betty estaria morta, o herói aracnídeo ruma rapidamente à morada de Jameson. Embora aterrorizada, a rapariga está, no entanto, viva e ilesa. Facto, ainda assim, insuficiente para aplacar a fúria homérica do Escalador de Paredes, que espanca violentamente o Devorador de Pecados, mesmo depois de ele ter perdido os sentidos.
  Chegado ao local, o Demolidor evita a custo que o Homem-Aranha faça justiça pelas próprias mãos.
  Stan Carter é preso e a notícia de que o Devorador de Pecados era um agente policial deixa a comunidade em choque. Enquanto isso, Ernie Popchik, armado com o seu velho revólver, atira sobre três meliantes que o ameaçam no interior de uma carruagem de metro.
 A Polícia é informada pela SHIELD de que Carter fora submetido a tratamentos com uma droga experimental. Circunstância que explica tanto as suas capacidades sobre-humanas como as suas atividades como Devorador de Pecados.
 Dias depois, os planos das autoridades para transferirem em segredo o Devorador de Pecados para a Ilha Riker chegam ao conhecimento dos media. Uma turba enfurecida concentra-se diante da esquadra onde ele se encontra detido e tenta linchá-lo. O Demolidor intervém, mas acaba ele próprio agredido pela multidão.Tanto ele como o Devorador de Pecados são salvos, in extremis, pelo Homem-Aranha.
  Depois de Stan Carter ter sido finalmente transportado para a penitenciária, o Demolidor repreende o Escalador de Paredes pelo seu desrespeito pelo sistema judicial. Oferecendo de seguida os seus serviços de advogado para, em regime pro bono, defender Popchik em tribunal.

O Demolidor impede o Homem-Aranha de sujar as mãos de sangue.

Ramificações:

* O enredo de A Morte de Jean DeWolff incluía uma intriga secundária envolvendo um ladrão vestido de Pai Natal. Esta narrativa paralela seria posteriormente retomada em Peter Parker, The Spectacular Spider-Man nº112 (março de 1986). Edição em que é igualmente revelado que Ernie Popchik fora libertado da prisão após ter sido absolvido por um júri. Na edição seguinte, Popchik, acossado pelos jornalistas, regressa ao lar de terceira idade gerido pela Tia May. No entanto, ele e os restantes residentes são feitos reféns pelos delinquentes que ele alvejara numa carruagem de metro. O Homem-Aranha intervém e consegue subjugar três dos quatro meliantes, sendo o quarto abatido pela Polícia. Sentindo-se culpado pelo sucedido, Popchik parte para local incerto;
*Peter David trouxe de volta o Devorador de Pecados num arco de histórias publicado, entre janeiro e março de 1988, nos números 134,135 e 136 de Peter Parker, The Spectacular Spider-Man. Ambientada cerca de um ano depois dos eventos narrados em A Morte de Jean DeWolff, esta espécie de sequela informal  explorava a origem do vilão e a sua tentativa de reabilitação.Sob custódia da SHIELD, Stan Carter é sujeito a psicoterapia e a um programa de desintoxicação para purgar a droga do seu organismo. Após a sua libertação, Stan sente grandes dificuldades de reinserção social, pois continua a ser assombrado por visões dos crimes que perpetrou como Devorador de Pecados. Sucumbindo por fim à sua demência, Carter volta a vestir o seu velho disfarce e, brandindo uma arma descarregada, irrompe numa esquadra de polícia, acabando abatido pelos agentes no local. Peter David descreveu este trágico epílogo como um ato de misericórdia para com Stanley Carter;
*Em The Amazing Spider-Man nº300 (maio de 1988), os leitores ficaram a saber que o repórter do Daily Globe, Eddie Brock, escrevera um artigo no qual expunha Emil Gregg como o suposto alter ego do Devorador de Pecados. A revelação de que Stan Carter era a verdadeira identidade do vilão motivou a demissão de Brock e o seu subsequente divórcio. O rancor que Brock passou a nutrir relativamente ao Homem-Aranha (que culpava pelos seus reveses), serviria de catalisador para a sua transformação em Venom.


Eddie Brock sucedeu a Peter Parker como hospedeiro do simbionte alienígena.



Vale a pena a ler?

   Há 30 anos, o panorama dos quadradinhos com super-heróis e a forma como estes eram perspetivados pelos leitores eram substancialmente diferentes dos atuais. Se nos dias que correm a ocorrência de mortes nas páginas deste tipo de publicações se tornou comezinha, à época era uma raridade. Facto que, em larga medida, explica o profundo impacto produzido por esta saga.
 Conforme observou Peter David, a história torneava as convenções instituídas na indústria dos comics. Um dos aspetos em que mais notoriamente o faz reside no fim indigno da Capitã DeWolff. Em vez da tradicional morte gloriosa no clímax de uma batalha épica, a personagem é cobardemente assassinada durante o sono.
  Outra singularidade que destoa dos padrões da época consiste em termos um antagonista que não se insere no paradigma clássico do supervilão dotado de capacidades sobre-humanas. No seu lugar, temos um vigilante mentalmente perturbado que não olha a meios para cumprir a missão crucial de que se julga investido. 
  Este é, aliás, um dos pontos mais fortes da  saga. Através das ações tresloucadas do Devorador de Pecados, o leitor é convidado a questionar-se sobre os perigos do vigilantismo. Conceito que, convém lembrar, alberga qualquer um que, substituindo-se ao sistema judicial, resolve fazer justiça pelas próprias mãos. Ainda que com outros matizes, é precisamente isso que os chamados super-heróis fazem. Levando, assim, a um questionamento das suas ações. Potenciado na trama pelo descontrolo emocional do Homem-Aranha, que quase o leva a tirar a vida ao assassino da sua amiga. Se isso tivesse acontecido, o que o distinguiria, afinal, do vilão?
  De assinalar também que, à data de publicação desta saga, os dilemas morais costumavam andar arredados das páginas dos títulos Marvel e DC. Salvos raras exceções, as historietas neles apresentadas não abordavam temas complexos (na verdade, os seus autores fugiam deles como do tifo); tão-pouco se caracterizavam pelo realismo (por contraponto ao culto que dele se faz presentemente). 
  Tudo motivos, portanto, para que A Morte de Jean DeWolff tenha sido uma pedrada no charco, cujos círculos concêntricos chegaram até ao presente. Tanto assim que, transcorridas três décadas, ela continua a ser considerada uma das melhores histórias de sempre do Escalador de Paredes. Estatuto corroborado, com efeito, pelas críticas assaz favoráveis que recebeu por parte de reputadas publicações, como a Wizard e o Comics Bulletin. E tudo graças à genialidade de um debutante na nona arte...
     
Amizade interrompida.
    

sábado, 6 de setembro de 2014

EM CARTAZ: HOMEM-ARANHA 3

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   Para levar de vencida as sinistras ameaças que impendem sobre si e os que lhe são queridos, o herói aracnídeo terá primeiro de travar uma batalha interior. Menos consensual do que os seus antecessores, o último capítulo da trilogia dirigida por Sam Raimi continua, ainda assim, a ser um dos filmes mais lucrativos de sempre da Marvel.

Titulo original: Spider-Man 3
Ano: 2007
País: EUA
Género: Ação/Aventura/Fantasia
Duração: 139 minutos
Distribuição: Columbia Pictures
Realização: Sam Raimi
Argumento: Sam e Ivan Raimi
Elenco: Tobey Maguire (Peter Parker/Homem-Aranha); Kirsten Dunst (Mary Jane Watson); James Franco (Harry Osborn/ Duende Verde II); Thomas Haden Church (Flint Marko/Homem-Areia); Topher Grace (Eddie Brock/Venom); Bryce Dallas Howard (Gwen Stacy); Rosemary Harris (May Parker) e J.K. Simmons (J.Jonah Jameson)
Orçamento: 258 milhões de dólares
Receitas: 891 milhões de dólares (a terceira produção cinematográfica mais lucrativa da Marvel, superada apenas por Os Vingadores e Homem de Ferro 3)
Prémios e nomeações: Nomeado, entre 2007 e 2008, para vários prémios e galardões, Homem-Aranha 3 apenas conseguiu sair vencedor na categoria de Melhor Filme de Verão nos Golden Trailer Awards.

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Uma das cenas mais icónicas de toda a trilogia original do herói aracnídeo.
 
Produção e desenvolvimento: A produção de um terceiro filme do Escalador de Paredes arrancou em março de 2004, três meses antes da chegada às salas de cinema de todo o mundo de Homem-Aranha 2. Antevendo o sucesso comercial da sequela, os estúdios da Marvel definiram 2 de maio de 2007 ( data posteriormente alterada para 4 do mesmo mês) para a estreia do próximo capítulo de uma franquia comprovadamente rentável.
    Imediatamente após a chegada aos cinemas de Homem-Aranha 2, Sam Raimi escreveu (a meias com o seu irmão Ivan) uma primeira versão do argumento para o filme seguinte. O realizador pretendia explorar a faceta menos luminosa do herói por contraponto ao lado mais humano dos criminosos. Nesse sentido, Harry Osborn foi repescado porque Sam Raimi acreditava que ele não seguiria o legado maligno do pai, sendo antes retratado como uma personagem de moral ambígua.
    Couberam, assim, ao Homem-Areia as honras de antagonista principal, tendo Raimi ficado fascinado com o potencial visual da personagem. Apesar de, nos quadradinhos, se tratar de um criminoso de segunda linha, os argumentistas criaram-lhe um background em que era ele o verdadeiro assassino de Ben Parker, potenciando dessa forma o sentimento de culpa de Peter relativamente à morte do tio. Em última análise, Raimi descreveu a sua história como sendo uma jornada de expiação dos pecados dos protagonistas.
    Raimi desejava incluir outro vilão na trama, indo a sua preferência para o Abutre. No entanto, o produtor Avi Arad convenceu-o a optar por Venom, por forma a agradar aos muitos fãs da personagem. Na sua versão cinematográfica, Eddie Brock serve, pois, de reflexo distorcido de Peter Parker, já que ambos têm a mesma profissão e interesses românticos em comum. Por outro lado, a conduta antiética de Brock permitia explorar temas contemporâneos como os paparazzi e as perversidades do jornalismo tabloide.

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Sam Raimi relutou em incluir Venom no argumento.
  
   Os produtores sugeriram ainda que fosse acrescentada ao enredo uma disputa amorosa entre Eddie e Peter por Gwen Stacy. Com tantas alterações a adensarem a complexidade da história, a dado momento foi equacionada a hipótese de dividir o filme em duas partes. Ideia que só não vingou porque nenhum dos argumentistas conseguiu conceber um clímax intermédio.
    Entretanto, a 5 de novembro de 2005, arrancaram as gravações de cenas envolvendo grande quantidade de efeitos especiais. Processo que levou dez dias a concluir e que permitia à Sony, a exemplo do que já sucedera com Homem-Aranha 2, ir trabalhando nesses segmentos enquanto decorria a produção do resto da película.
   Entre janeiro e julho de 2006, decorreram as filmagens, tendo como cenários Los Angeles, Cleveland e Nova Iorque. Em agosto, porém, as mesmas foram retomadas dada a necessidade de incluir cenas de ação adicionais. Só no início de 2007 a produção ficaria finalmente concluída. Para esta demora contribuiu a indecisão quanto a qual das quatro versões da origem do Homem-Areia seria utilizada no filme.

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Mesmo os heróis mais nobres possuem um lado lunar.
 
Enredo: Enquanto desfruta da sua enorme popularidade como Homem-Aranha, Peter Parker planeia pedir Mary Jane (que acaba de se estrear como atriz na Broadway) em casamento. Durante um passeio noturno do casal no Central Park, um meteorito despenha-se a pouca distância deles e um simbionte alienígena atraca-se a Peter sem que este se aperceba.
    Longe dali, enquanto tenta escapar da Polícia, o criminoso evadido Flint Marko cai acidentalmente dentro de um acelerador de partículas e tem o seu ADN combinado com a areia que havia no local. Em consequência disso, adquire a capacidade de moldar a sua forma e de transformar o seu corpo em areia.
   Harry Osborn, que culpa Peter pela morte do seu pai (Norman Osborn, o Duende Verde), usa um sofisticado arsenal herdado do seu genitor para atacar o ex-amigo. Na refrega entre os dois, Harry sofre uma contusão na cabeça que o deixa parcialmente amnésico ao ponto de se esquecer que Peter e o Homem-Aranha são uma só pessoa, ficando assim suprimido o seu desejo de vingança em relação a ambos.
    Durante um festival em homenagem ao herói aracnídeo, Flint Marko rouba um carro blindado carregado de dinheiro. O capitão George Stacy, do Departamento de Polícia de Nova Iorque, informa Peter e a sua tia May que Marko foi o verdadeiro assassino de Ben Parker, sendo Dennis Carradine um simples cúmplice.
    Nessa noite, enquanto Peter tem o seu sono povoado por pesadelos, o simbionte alienígena funde-se com ele. Peter desperta pendurado no cimo de um arranha-céus envergando um uniforme negro, logo constatando que os seus poderes foram amplificados.

O célebre uniforme negro que fez furor nos quadradinhos e fora deles.

    A sua ligação com o simbionte traz, porém, à tona o seu lado mais sombrio. Assim, quando localiza o Homem-Areia num túnel do metro, o Escalador de Paredes espanca-o com violência e usa água para reduzir o vilão a uma poça de lama.
   Mary Jane, cuja carreira artística se encontra estagnada, sente-se humilhada pela súbita mudança de comportamento de Peter e busca consolo em Harry Osborn. Influenciado por uma alucinação do seu pai, Harry recupera a memória e chantageia Mary Jane para levá-la romper o seu noivado com Peter. Coagida por Harry, MJ declara-se apaixonada por outro homem, deixando Peter devastado.
    Numa atitude provocatória, Harry procura Peter para se assumir como o novo dono do coração de Mary Jane. Mais tarde, usando o seu novo traje, Peter confronta Harry. Este lança uma abóbora explosiva na direção do ex-amigo, que a rebate em pleno ar. A bomba rebenta desfigurando o rosto de Harry.
    Manipulado pelo simbionte, Peter denuncia as fotografias forjadas retratando o Homem-Aranha como um criminoso, tiradas por Eddie Brock, um fotógrafo rival do Clarim Diário. Furioso por ter de publicar um desmentido, o diretor do jornal, J. Jonah Jameson, demite Brock.
    Numa tentativa de causar ciúmes a Mary Jane, Peter faz-se acompanhar de Gwen Stacy (uma jovem que Brock acreditava ser sua namorada) à discoteca onde a sua ex-noiva trabalha atualmente. No entanto, nem tudo corre conforme desejado: ao vê-los juntos, Brock assume que Peter e Gwen namoram; apercebendo-se de que foi usada por Peter, Gwen bate em retirada; Peter, por sua vez, envolve-se numa zaragata com os seguranças do estabelecimento acabando acidentalmente por atingir Mary Jane. É nesse momento que toma enfim consciência da influência perniciosa que o simbionte vem exercendo sobre ele.

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Homem-Areia, Novo Duende e Venom: um triunvirato vilanesco de respeito.

    No campanário de uma catedral, Peter procura desesperadamente desenvencilhar-se do uniforme, que é afinal um ser vivo.Quando, acidentalmente, faz tocar o sino da catedral, as vibrações sónicas por ele emitidas enfraquecem o simbionte, e Peter consegui removê-lo de si. Em agonia, o simbionte cai no interior da edifício onde, naquele momento, Eddie Brock rezava pela morte de Peter. Encontrando em Brock um novo hospedeiro, o simbionte transforma-o em Venom. Ainda que inicialmente horrorizado com a metamorfose, logo Brock aceita a sua nova forma. Sem perder tempo, Venom vai ao encontro do Homem-Areia a fim de lhe propor uma aliança contra o Escalador de Paredes.
    Mary Jane viaja a bordo de um táxi que é sequestrado por Venom, pendurando-o de seguida numa teia sobre um enorme monte de areia num estaleiro de obras.  Perante o sucedido, Peter procura a ajuda de Harry, mas é rejeitado.
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Na BD , Gwen Stacy foi o primeiro grande amor de Peter Parker. No cinema, esse papel coube a Mary Jane Watson.

   Ao mesmo tempo que o Homem-Aranha combate sozinho os poderes combinados de Venom e do Homem-Areia, Harry descobre, através do seu velho mordomo, a verdade sobre a natureza maléfica do seu falecido pai e resolve ir em auxílio de Peter.
    Prestes a ser subjugado pelos vilões, o Homem-Aranha é salvo no último momento pela chegada de Harry usando um uniforme inspirado no primeiro Duende Verde. Unindo forças, os dois amigos conseguem levar a melhor sobre Venom e o seu comparsa.
   Venom ainda tenta usar o planador do novo Duende para empalar o Homem-Aranha, mas Harry interpõe-se e é ferido mortalmente.
   O Homem-Aranha constrói então um círculo de guizos com as suas teias, criando dessa forma uma muralha de vibrações sónicas. O simbionte liberta Brock, o qual é prontamente resgatado pelo herói aracnídeo. No entanto, quando o Escalador de Paredes atira uma das bombas-abóbora de Harry na direção do simbionte, Brock salta para junto da criatura, sendo colhido pela violenta explosão. Dela resultando a aparente morte de ambos.
    Flint Marko confessa a Peter nunca ter tido intenção de assassinar o seu tio tio. Apenas queria o seu carro para escapar à Polícia, tendo o disparo fatal ocorrido quando o seu cúmplice lhe agarrou o braço.Uma morte que o assombra desde então. Peter perdoa Marko, que se dissolve em areia e desaparece.
    Peter e Harry fazem as pazes antes deste último soltar o seu derradeiro suspiro, sendo o momento testemunhado por Mary Jane.
    Algumas noites depois, Peter visita o club de jazz onde Mary Jane agora atua como cantora e ambos começam a remendar o seu relacionamento. 
Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=8X6W2VG_MaA

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Duelo ao espelho.

Curiosidades: 
* Todos os gritos de Kristen Dunst ao longo da película foram reciclados de Homem-Aranha 2 (2004);
* Bryce Dallas Howard dispensou a utilização de uma dupla na sua cena mais arriscada, desconhecendo na altura estar grávida;
* Embora assumindo-se como um fã de super-heróis que leu as primeiras histórias de Venom na sua infância, Topher Grace viveu um verdadeiro calvário na pele do vilão. Além de muito desconfortável, o traje demorava uma hora a ser vestido (à qual se somavam outras quatro para a aplicação de próteses) e tinha de ser constantemente lambuzado com gosma por forma a conceder-lhe o seu característico aspeto viscoso. Como se isso não bastasse, o ator teve também de utilizar presas postiças que lhe feriram as gengivas;
* Um dos sons guturais emitidos por Venom no filme pertencia a um demónio da Tasmânia;
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Topher Grace teve de penar para dar vida a Venom no grande ecrã.
 * Sam Raimi foi o primeiro realizador a dirigir três filmes consecutivos de uma franquia super-heroica. Em 2012, ao concluir a sua trilogia do Cavaleiro das Trevas, Chris Nolan tornou-se o segundo cineasta a conseguir essa proeza. Raimi, de resto, na sequência do sucesso comercial de Homem-Aranha 3, foi convidado para dirigir nova sequela. Divergências entre o realizador e a Sony ditaram, porém, o seu afastamento do projeto, abrindo dessa forma caminho a um reboot  da franquia;
* Foram necessários três anos para criar os efeitos visuais que permitiram reproduzir os poderes do Homem-Areia. Por forma a compreender a dinâmica da areia, ao longo desse período foram conduzidas diversas experiências e consultados escultores habituados a trabalhar com esse material;
* Pode dizer-se que Homem-Aranha 3 foi um projeto familiar, uma vez que teve o condão de reunir os três irmãos Raimi: Sam assumiu a realização, Ivan foi coargumentista e Ted interpretou um pequeno papel como Hoffman;
* Com 139 minutos, este é o filme mais longo da trilogia original do Escalador de Paredes. É também o único em que o antagonista principal (Homem-Areia) sobrevive no final da história. Recorde-se que, nos dois capítulos anteriores, o Duende Verde e o Dr. Octopus tiveram fins trágicos;
* Segundo Grant Curtis (um dos produtores da trilogia), inicialmente estava prevista a participação do Abutre na película, tendo Ben Kingsley sido sondado para o papel. O vilão acabaria, contudo, por ser substituído por Venom, malgrado a renitência de Sam Raimi, que considerava a personagem repulsivamente desumana;
* Na BD, foi o Senhor Fantástico quem descobriu a verdadeira natureza alienígena e simbiótica do uniforme negro do herói aracnídeo. Devido aos direitos do Quarteto Fantástico pertencerem à 20th Century Fox - e não à Sony Entertainment como o Escalador de Paredes - esse mérito coube no filme ao Dr. Curt Connors (o Lagarto).

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Mary Jane e Peter: a bonança antes da tempestade.
 
Veredito:  58% 

   Depois de dois capítulos épicos que mereceram plenamente o seu sucesso, seguiu-se um terceiro menos equilibrado, balançando precariamente entre  arrebatadoras sequências de ação e monótonos intervalos dramáticos.
   Era sabido que Homem-Aranha 3 teria de superar os seus predecessores, sob pena de - como, de facto, aconteceu - a franquia perder gás. Desse imperativo decorreram, com efeito, os seus principais problemas.
   Conquanto seja maior(e mais lucrativa), a terceira aventura cinematográfica do herói aracnídeo não é, todavia, melhor do que as anteriores. Dada a profusão de personagens (no caso particular dos vilões, assenta como uma luva o velho axioma "dois é bom, três é demais") e uma intrincada tapeçaria de narrativas secundárias, o Escalador de Paredes parece ter de lutar por destaque no seu próprio filme. Facto que, por si só, justificaria a divisão do projeto em duas partes - hipótese, de resto, cogitada pelos produtores. Tal não aconteceu e, à imagem de um arranha-céus construído sobre frágeis alicerces, a película acabou por ceder ao próprio peso. Homem-Aranha 3 acaba, portanto, por ser vítima de alguma megalomania.
   Faltando-lhe em fluidez narrativa o que lhe sobra em melodrama e personagens, Homem-Aranha 3 é bem-sucedido no seu objetivo de conservar os fãs dos dois primeiros filmes (mesmo perdendo na comparação com eles), embora fracassando em arregimentar novos.
   No entanto, como vieram comprovar as duas mais recentes adaptações ao grande ecrã do Escalador de Paredes dirigidas por Marc Webb, Homem-Aranha 3 não é afinal assim tão mau como muitos sentenciaram. Não faltando por aí quem suspire já pelo regresso de Sam Raimi à cadeira de realizador...

      http://www.fernbyfilms.com/wp-content/uploads/2011/10/Spider-Man-3-001.jpg

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

NÉMESIS: VENOM


 
     Na vasta galeria de vilões do Homem-Aranha (que porventura só terá paralelo na do Batman), figuram várias personagens sinistras e ao mesmo tempo fascinantes. Venom, o simbionte alienígena que durante algum tempo usou Peter Parker como hospedeiro, é, sem dúvida, uma delas. Saibam mais sobre este inimigo mortal do herói aracnídeo.

Nome original: Venom
Primeira aparição (como uniforme negro do Homem-Aranha): Secret Wars nº8 (1984)
Primeira aparição (como Eddie Brock/ Venom): Amazing Spider-man nº 299 (1988)
Criadores: David Michelinie e Todd McFarlane
Licenciador: Marvel Comics
Identidade civil: Edward "Eddie" Charles Brock (atualmente Anti-Venom) e Mac Gargan (anteriormente conhecido como Escorpião).
Parentes conhecidos: Carl e Jamie Brock (pais), Anne Weying (esposa falecida que durante algum atuou como a versão feminina de Venom).
Base de operações: Nova Iorque
Poderes e habilidades: Uma vez instalado no sistema nervoso central do seu hospedeiro, o simbionte alienígena dota-o com todos os poderes do Homem-Aranha, o seu primeiro hospedeiro conhecido. Assim, quem quer que se una à criatura passa a poder escalar paredes e a dispor de um " sentido de aranha" que o alertará para qualquer perigo iminente. Passará também a ter força, velocidade e agilidade sobre-humanas. A isto acresce a capacidade de mudar de forma e de produzir uma substância semelhante a uma teia altamente resistente e flexível, composta por polímeros orgânicos. Por vezes, o simbionte consegue absorver disparos feitos a partir de armas de pequeno porte. É, todavia, vulnerável a ataques sónicos e térmicos.
Na sua atual versão, Venom é canibal.

Biografia: O que começou por ser uma arrojada mudança de visual do Homem-Aranha, acabaria por se tornar num dos seus maiores pesadelos. Com efeito, tudo começou quando, durante a lendária saga Secret Wars, o aranhiço rasgou o seu uniforme tradicional no decurso de uma batalha no planeta criado pelo omnipotente Beyonder.  Antes que pudesse substituir o fato danificado, o Homem-Aranha libertou acidentalmente um misterioso simbionte alienígena que assumia a forma de um líquido negro e viscoso. Embora alertado pelo seu "sentido de aranha", o herói aracnídeo permitiu que a criatura lhe cubrisse o corpo e lhe providenciasse um novo uniforme e um novo símbolo, inspirados nos envergados pela nova Mulher-Aranha. Para surpresa do Cabeça de Teia, a nova vestimenta providenciava um suprimento de teias aparentemente inesgotável.
               De volta à Terra, Peter Parker deleitava-se com os recursos do novo uniforme até começar a sentir-se exausto e começar a ter pesadelos. Decidiu então pedir a ajuda do Senhor Fantástico para analisar a vestimenta. Foi assim que descobriu que, na realidade, se tratava de um parasita extraterrestre que desejava fundir-se definitivamente ao seu hospedeiro e que frequentemente controlava o seu corpo durante a noite, daí resultando a sua exaustão. O Sr. Fantástico descobre igualmente as fraquezas da criatura: som e fogo. Com a ajuda do Tocha Humana, conseguiram separar o simbionte de Peter Parker. A criatura, porém,  escapa e só algum tempo depois Peter consegue desenvencilhar-se dela de uma vez por todas. O que só foi possível graças à sua enorme força de vontade e coragem. Peter arriscou a própria vida ao expor o simbionte ao som ensurdecedor dos sinos de uma igreja.  O esforço deixou Peter inanimado e à mercê da criatura. Esta, porém, poupou a vida do seu antigo hospedeiro. Mas guardou grande rancor pela rejeição de Peter, o qual transmitiu a todos os hospedeiros subsequentes.

O começo de uma nova era em Secret Wars nº8.
                Eddie Brock, um ex-repórter caído em desgraça após ter fabricado uma notícia desmentida pela ação do Homem-Aranha, foi o novo hospedeiro escolhido pelo simbionte. A criatura foi atraída pelo ódio que ambos nutriam pelo escalador de paredes. Brock, a quem fora entretanto diagnosticado um cancro, torna-se assim no primeiro Venom e não olha a meios para se vingar do Homem-Aranha, que culpava pela sua desgraça.
               Em diversas ocasiões Venom derrotou o Homem-Aranha em combate, mas optou sempre por lhe poupar a vida apenas pelo prazer de o poder continuar a atormentar.

Venom vs Homem-Aranha: duelo mortal.

               Com o passar do tempo, Brock usou esporadicamente os poderes do simbionte para agir como um vigilante, lutando em várias ocasiões lado a lado com o seu némesis aracnídeo. Depois do Homem-Aranha ter ajudado Brock a salvar a sua ex-mulher, Ann Weying, os dois decidem fazer uma trégua. Apenas temporária, contudo, pois termina com o suicídio de Ann.
               Cansado da sede de sangue do simbionte, Brock começa a rejeitá-lo. Este, por seu lado, está insatisfeito com o facto de o seu hospedeiro estar doente. Brock acaba assim por vender a criatura  num leilão onde participam vários outros supervilões. O feliz contemplado é Mac Donald "Mac" Gargan, o Escorpião. O novo Venom é, porém, facilmente derrotado no seu primeiro confronto com o aranhiço. Suspeita-se que porque Mac Gargan não o odiava com a mesma intensidade do seu antecessor.
               Gargan junta-se aos Thunderbolts, equipa com a missão de capturar os Vingadores Secretos. Pelo meio, descobre que o Governo lhe colocou implantes eléctricos com o objetivo de manter Venom sob controlo. Ao contrário do seu predecessor, que dominava o simbionte, a personalidade de Gargan é quase totalmente sobrepujada pela do parasita que alberga. Deste facto resulta, entre outras coisas, o canibalismo do novo Venom.
               Além dos três hospedeiros acima referidos, o simbionte já usou vários outros, incluindo mulheres: Ann Weying, Patricia Robertson e a Miss Marvel.
               Fora dos comics, Venom já marcou presença em várias séries de animação estreladas pelo Homem-Aranha: Spider-Man Unlimited, The Spetacular Spider-Man, etc. Embora no cinema só se tenha estreado em 2007 como um dos vilões de serviço em Spider-Man 3 (interpretado por Topher Grace), Venom esteve quase a ter direito a um filme próprio anos antes onde seria retratado como um anti-herói e teria como antagonista Carnificina.
Topher Grace foi Venom em Spider-Man 3.