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segunda-feira, 15 de abril de 2019

HERÓIS EM AÇÃO: CAVALEIRO DA LUA


  Sob os sortilégios lunares, um fantasma de prata assombra os ímpios e vela pelos viajantes em jornadas noturnas. É essa a missão sagrada do Punho de Khonshu e do homem de alma multiplicada que a abraçou em busca de expiação para os seus pecados.

Denominação original: Moon Knight 
Licenciadora: Marvel Comics
Criadores: Doug Moench (história) e Don Perlin (arte conceitual)
Estreia: Werewolf  by Night nº32 (agosto de 1975)
Identidades civis: Marc Spector, Steven Grant e Jake Lockley 
Espécie: Humano
Local de nascimento: Chicago, Illinois 
Parentes conhecidos: Elias Spector (pai, falecido), mãe incógnita, Randall Spector (irmão, falecido) e Diatrice (filha)
Ocupação: Ex-pugilista, ex-militar, ex-agente governamental e ex-taxista, desdobra-se atualmente entre os seus compromissos de empresário, filantropo e vigilante urbano.
Base operacional: Mansão Spector (Long Island, Nova Iorque)
Afiliações: Ex-Fuzileiro Naval, ex-agente da CIA, ex-membro do Comité, dos Vingadores da Costa Oeste e dos Vingadores Secretos, colabora ocasionalmente com os Filhos da Meia-Noite (grupo de nove seres com ligações ao Oculto reunidos pelo Dr. Estranho para enfrentar ameaças sobrenaturais) com o seu recém-criado alter ego de Senhor Lua. A despeito da inquestionável lealdade para com os seus aliados, o Cavaleiro da Lua, mercê da sua peculiar psicologia, funciona sempre como um verso solto entre a comunidade heroica, mesmo quando trabalha em equipa.
Némesis: Raul Bushman
Poderes e parafernália: Devido às suas múltiplas personalidades, o Cavaleiro da Lua possui uma incrível resistência psíquica, o que diminui a eficácia dos ataques telepáticos de que possa ser alvo e o torna menos suscetível à hipnose. Possui, ademais, uma enorme tolerância à dor física, ao ponto de ignorar ferimentos potencialmente fatais apenas para poder prosseguir o combate em que está envolvido.
Os diferentes treinos a que foi sucessivamente sujeito como pugilista, fuzileiro e agente secreto tornaram Marc Spector exímio no combate corpo a corpo. Mestre em diversas artes marciais, a partir da síntese de todas elas desenvolveu um estilo de luta único e extremamente difícil de imitar. Uma das poucas pessoas capaz de o fazer é o Treinador, supervilão dotado da habilidade de mimetizar qualquer técnica de combate. Mas mesmo ele fica impressionado com a forma de lutar do Cavaleiro da Lua, que prefere receber um golpe a bloqueá-lo se isso lhe permitir contra-atacar o seu oponente ou lhe conferir alguma vantagem tática.
Do robusto inventário de recursos e habilidades do Cavaleiro da Luz fazem parte a investigação criminal, a estratégia militar, a furtividade e a proficiência com armas de fogo e de arremesso. Atleta de nível olímpico e especialista em explosivos, é também um excelente piloto capaz de manobrar com destreza os mais variados modelos de aeronaves. Não é, pois, por acaso, que elege o seu helicóptero em forma de meia-lua como transporte preferido nas suas missões de combate ao crime.
No período coincidente com a sua filiação nos Vingadores da Costa Oeste, o Cavaleiro da Lua adquiriu poderes sobrenaturais em consequência da sua possessão por Khonshu. Durante essa fase, o herói teve a sua força e reflexos ampliados em função das fases da Lua. Sob a Lua Cheia, por exemplo, os seus poderes atingiam o auge e conseguia erguer aproximadamente duas toneladas. Desenvolveu ainda uma forma de perceção extrassensorial que, além de ocasionais visões premonitórias, lhe permitia detetar entes sobrenaturais e com eles comunicar. Com o subsequente exorcismo de Khonshu, os superpoderes do Cavaleiro da Lua desapareceram como se nunca tivessem existido.
Graças à apreciável fortuna acumulada enquanto mercenário, Marc Spector adquiriu um arsenal de armas especiais, bem como todo o tipo de equipamento sofisticado essencial às suas atividades de vigilante urbano. Com destaque para a sua frota de veículos de temática lunar. Além do já mencionado helicóptero em forma de meia-lua, o Cruzado do Crescente tem ainda à disposição uma limusina blindada e um planador sugestivamente batizado de Asa de Anjo. Em comum, o facto de todos esses veículos serem autónomos e poderem ser operados remotamente.

O helicóptero em forma de meia-lua é o veículo mais icónico
 da frota utilizada pelo Cruzado do Crescente.
Originalmente, o Cavaleiro da Lua envergava um traje de kevlar, o qual substituiu por um fabricado de carbonadium, metal radioativo várias vezes mais resistente e flexível do que o aço. Dada a sua afinidade com armas de arremesso, tem nos dardos em forma de crescente a sua imagem de marca, embora também não dispense as boleadeiras e os bastões extensíveis com arpéus incorporados.
Notabilizado pelos seus métodos ultraviolentos - com assomos de sadismo - o Cavaleiro da Lua não hesita em mutilar ou até mesmo matar os seus adversários. Aos criminosos reincidentes, por exemplo, crava crescentes metálicos na testa, assinalando-os de forma indelével. Pior sorte teve Raul Bushman, o impiedoso mercenário africano responsável pela aparente morte de Marc Spector, que teve a face esfolada a sangue-frio pelo seu antigo associado.
Sem surpresa, no submundo de Nova Iorque o Cavaleiro da Lua tem reputação de maníaco, sendo profundamente temido tanto pelos delinquentes comuns como pelos criminosos fantasiados.

O Estigma do Crescente assinala os criminosos irrecuperáveis.

Vulnerabilidades: A mente fraturada de Marc Spector é o seu maior ponto fraco. Numa alucinante jornada na orla da insanidade, cada passo parece levá-lo para mais longe da razão. Apresentando-se Spector como uma espécie de tratado ambulante da loucura - palavra que, de resto, tem a sua raiz etimológica em "luna", termo latino para "lua" -, é-lhe cada vez mais difícil descortinar a linha que separa a realidade do delírio.
Inicialmente pensava-se que Marc Spector padeceria de esquizofrenia ou de um severo transtorno dissociativo de personalidade. Sendo agora claro que os múltiplos heterónimos por ele criados ao longo dos anos são uma consequência direta de ser o avatar de Khonshu. À divindade são atribuídas quatro facetas (tantas como as fases da Lua), obrigando, desse modo, Marc Spector a desenvolver personalidades capazes de refletir cada uma delas.
Em última análise, a mente de Spector foi "colonizada" por Khonshu e dessa circunstância sobreveio uma gradual diluição da sua identidade, na medida em que os seus alter egos adquirem por vezes vida própria sobrepondo-se ao seu verdadeiro eu.

Um herói multifacetado e em permanente crise de identidade.

Crescentes e eclipses

Criado pelo escritor Doug Moench e pelo artista Don Perlin para ser um vilão descartável da personagem-titular, o Cavaleiro da Lua fez a sua estreia em agosto de 1975, nas páginas de Werewolf by Night nº32. Numa história em duas partes, concluída na edição seguinte, o Lobisomem mediu forças com o misterioso mercenário contratado pelo Comité (sindicato do crime de Los Angeles) para capturá-lo. Ao descobrir as verdadeiras intenções dos seus empregadores (o Comité planeava usar o Lobisomem como arma), o Cavaleiro da Lua ajudou o seu alvo a escapar. 
Caído nas boas graças dos leitores, o Cavaleiro da Lua ressurgiria meses mais tarde na forma de uma aparição demoníaca, e novamente para enfrentar o Lobisomem. Também os editores da Marvel, em especial Marv Wolfman e Len Wein, simpatizaram com a personagem. Intuindo o seu potencial narrativo,  brindaram-no com a sua primeira aventura a solo em Marvel Spotlight nº28 (junho de 1976). A história, assinada por Doug Moench e Don Perlin, apresentou o Cavaleiro da Lua como um agente infiltrado no Comité para sabotar as nefastas atividades da organização.
Estava dado o mote para a participação do Cavaleiro da Lua nas histórias de alguns dos mais ilustres moradores da Casa das Ideias, como o Homem-Aranha ou o Incrível Hulk. Após vários anos a abrilhantar títulos alheios, em 1980 o Cavaleiro da Lua ganharia por fim uma série própria. Moon Knight revelaria o passado de Marc Spector como mercenário e introduziria aquele que seria o seu arqui-inimigo (e presumível carrasco): Raul Bushman. Sendo ainda sugerido que a suposta ressurreição de Spector não passara, afinal, de uma experiência de quase morte e que a visão de Khonshu fora fruto de uma alucinação.

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A estreia do Cavaleiro da Lua em Werewolf by Night nº32 (cima) e a capa
do primeiro número do seu título a solo.
A boa prestação comercial de Moon Knight levou a Marvel a incluía-lo na restrita lista de títulos disponibilizados apenas em lojas de banda desenhada. Ausente das bancas, as vendas da série caíram a pique até ao inevitável cancelamento. Com o último número a ser lançado em junho de 1984.
O resto da década de 1980 ficou marcado pela transferência do Cavaleiro da Lua para Marvel Fanfare e, depois, para West Coast Avengers, onde assentaria arraiais durante um longo período e sofreria profundas transformações. Até que, em 1989, lhe foi atribuída nova série própria, Marc Spector: Moon Knight. Mais duradoura do que a anterior, seria publicada até 1994 e daria azo ao lançamento de dois volumes especiais: Marc Spector: Moon Knight Special Edition nº1 e Moon Knight: Divided We Fall.
Seguiu-se um longo estio editorial, interrompido apenas em 1999. Ano em que foi lançada High Strangeness, nomeada para o Comics Buyer's Fan Guide na categoria de melhor minissérie.
Após novo interregno prolongado, desde 2006 que o Cavaleiro da Lua vem protagonizando consecutivas séries mensais, quase todas com existência abreviada pelas fracas vendas. Destaque para aquela que foi lançada em 2014, com a particularidade de cada edição ser escrita por um autor diferente, refletindo desse modo as múltiplas personalidades do herói. Reforçadas entretanto pelo Senhor Lua, um detetive janota criado por Marc Spector para colaborar com a polícia nova-iorquina.
Em janeiro de 2018, no contexto de Marvel Legacy, o mais recente reboot do Universo Marvel, o Cavaleiro da Lua voltou a ser contemplado com um título próprio. Com o arco de histórias inaugural a sair da pena de Max Bemis, também ele portador de um transtorno mental.
Crescentes e eclipses de uma carreira editorial influenciada não pelas fases da Lua, mas pelos voláteis humores do mercado de quadradinhos norte-americano.

Senhor Lua, o mais recente alter ego de Marc Spector.

O Punho de Khonshu 

Chicago serviu de berço a Marc Spector, o irreverente filho de um rabino judaico cuja família,  a meio da década de 1930, trocara a Checoslováquia pelos Estados Unidos para escapar ao antissemitismo que alastrava pela Europa. Apenas para descobrirem que, embora em menor escala, os judeus também eram discriminados em terras do Tio Sam.
Marc cresceu revoltado com esta realidade e não conseguia compreender por que motivo o pai não revidava contra aqueles que perseguiam o seu povo. Aos seus olhos, o pacifismo paterno mais não era do que uma expressão de covardia.
Mal atingiu a maturidade, Marc abraçou uma promissora carreira como pugilista. Após um par de anos a competir no campeonato de pesos-pesados, alistou-se nos Fuzileiro Navais. Treinado para executar operações especiais, os seus talentos não passaram despercebidos à CIA que o recrutou pouco tempo depois.
Ao serviço da CIA Marc trabalhou em conjunto com Randall Spector, seu irmão mais novo. Randall havia no entanto traído a agência e contrabandeava armas e outro material bélico. Quando a namorada de Marc descobriu o esquema, foi brutalmente assassinada por Randall. Em retaliação, Marc caçou o irmão que, aparentemente, sucumbiu à explosão de uma granada.
Após este incidente, Marc abandonou a CIA para se tornar um mercenário. Depressa ganhando reputação de fazer qualquer coisa a troco da quantia certa. Durante uma missão em África travou amizade com Jean-Paul DuChamp, um soldado da fortuna francês de quem se tornaria inseparável.
Mais ou menos por essa altura, Marc começou a trabalhar com Raul Bushman, mercenário de sangue frio para quem a vida humana era insignificante. À medida que o tempo ia passando, Marc ia ficando mais incomodado com a selvajaria do seu seu associado. Pela primeira vez na vida, a sua consciência agitava-se, levando-o a questionar as próprias ações.

Raul Bushman e o seu bando espalhavam o terror por terras africanas.
Nos confins do Sudão, o grupo de mercenários liderado por Bushman tropeçou numa escavação arqueológica a cargo do Dr. Peter Alraune, um egiptólogo norte-americano que havia encontrado a tumba de um antigo faraó.
Convicto de que o sarcófago escondia ouro e outras riquezas, Bushman assassinou o Dr. Alraune para poder pilhar o túmulo. Enquanto isso, Marc procurou facilitar a fuga de Marlene, a filha do malogrado Dr. Alraune.
Ao aperceber-se da traição de Marc, Bushman espancou-o selvaticamente, arrastando-o em seguida para o deserto a fim de garantir-lhe uma morte lenta e dolorosa. Moribundo, Marc procurou abrigar-se do Sol inclemente no interior do túmulo profanado. Auxiliado por Marlene, prostrou-se aos pés de uma estátua de Khonshu, o deus egípcio da Lua.

Marc Spector agoniza aos pés de Khonshu.
Era, porém, tarde demais. Esvaído em sangue e castigado pelos elementos, Marc morreu nos braços de Marlene. Ressuscitando milagrosamente ao fim de alguns minutos.
Perante a incredulidade de Marlene, Marc alegou ter tido uma visão de Khonshu, que o restituiu ao mundo dos vivos depois de ele ter aceitado a missão sagrada que a divindade lhe confiara.
Marc removeu então a mortalha branca que adornava a estátua de Khonshu e usou-a para envolver o próprio corpo, como se de um manto se tratasse. Depois de derrotar Bushman em combate, pôs um ponto final à sua carreira de mercenário e retornou aos EUA. Assistido por Marlene e DuChamp, sua amante e mais fiel aliado, empreendeu uma cruzada de vingança como o Cavaleiro da Lua, o Punho de Khonshu.
Embora inicialmente não fosse claro se o encontro de Marc Spector com Khonshu fora real ou apenas uma alucinação gerada pela sua mente delirante, o vínculo entre ambos foi confirmado com o tempo. É, pois, na ambígua condição mental do Cavaleiro da Lua que reside boa parte do apelo da personagem.

Um fantasma de prata assombra a cidade que nunca dorme.

Miscelânea

*Apesar do apreciável número de autores de ascendência judaica na indústria dos comics, o Cavaleiro da Lua é um dos poucos super-heróis assumidamente judeu;
*Cruzado do Crescente, Legionário Lunar, Punho de Khonshu, Demónio da Lua, Aluado ou Cara de Lençol são alguns dos cognomes atribuídos ao Cavaleiro da Lua;
*Na sua primeira aparição, em Werewolf by Night nº32, o alter ego do Cavaleiro da Lua foi identificado como Mark Spector, sendo renomeado de Marc Spector na edição seguinte. Também no Brasil o herói começou por ser crismado de Cavaleiro de Prata pela RGE, a primeira editora a publicá-lo em Terras Tupiniquins, no seu lendário Almanaque Premiere Marvel. Designação só revista em meados dos anos 1980 após a sua transição para a Abril, que privilegiou a tradução literal da nomenclatura original da personagem;


A estreia do Cavaleiro da Lua em terras de Vera Cruz sob a égide da RGE.
*Durante a sua passagem pelas fileiras dos Vingadores da Costa Oeste, no final da década de 1980, o Cavaleiro da Lua viveu um tórrido, porém problemático, romance com Tigresa, sua colega de equipa. Khonshu reprovava a relação, o que gerou tensões entre a entidade e o seu avatar. Seriam, no entanto, outros os fatores a ditar a separação do casal, mormente o facto de ambos valorizarem sobremaneira a sua independência. Mais recentemente, o Cavaleiro da Lua envolveu-se com Eco, sua ex-parceira no combate ao crime. Duas almas atormentadas que encontraram consolo uma na outra até Eco ser assassinada pelo Conde Nefária;
*Com uma personalidade cada vez mais fragmentada, são hoje dez os heterónimos de Marc Spector. Aos clássicos Steven Grant, Jake Lockley e Cavaleiro da Lua, somam-se agora o Senhor Lua, Homem-Aranha, Capitão América, Wolverine e Eco. Nesta multidão intermutável de alter egos há ainda lugar para uma menina de nove anos não identificada cuja personalidade Marc Spector começou a manifestar recentemente;

Reunião dos Vingadores?
Não, apenas o Cavaleiro da Lua a confraternizar com os seus amigos imaginários.

*Na lista das cem melhores personagens de banda desenhada de todos os tempos elaborada pela plataforma IGN, o Cavaleiro da Lua surge na 89ª posição, descrito como um conceito próximo do que seria o Batman com distúrbios de personalidade;
*Frequentemente percecionado como uma espécie de Batman genérico da Marvel, o Cavaleiro da Lua dificilmente escapa às comparações com o Homem-Morcego da DC. Se é verdade que existem vários aspetos comuns às duas personagens (ambos são milionários que usam uma parafernália de gadgets temáticos para combater o crime), são também muitos aqueles que as diferenciam. Charlie Huston,  escriba responsável pela revitalização do Cruzado do Crescente em 2006, inverteu a polaridade das análises vigentes ao observar que as personalidades e as motivações dos dois heróis não poderiam ser mais contrastantes. Ao passo que Bruce Wayne combate o crime para vingar a morte dos seus pais às mãos de um meliante, Marc Spector aceitou ser o avatar de Khonshu como forma de expiar os seus infindáveis pecados cometidos enquanto soldado da fortuna. Por outro lado, se Bruce Wayne criou a persona Batman para fazer justiça pelas próprias mãos, os vários alter egos de Marc Spector servem, em primeiro lugar, para o ajudar a lidar com os seus demónios interiores. Também os respetivos métodos são muito distintos entre si: ao contrário do Homem-Morcego, o Cavaleiro da Lua não tem pudor em tirar a vida aos seus inimigos. E se o primeiro usa cores escuras para se camuflar nas sombras, o segundo traja de branco com o intuito de ser visto na noite. Curioso notar, ainda assim, o paralelismo existente entre Jake Lockley (o taxista que Marc Spector usa para obter informação nas ruas) com Fósforos Malone, o disfarce usado por Bruce Wayne para se infiltrar no submundo do crime gothamita;
*Também denominado Khensu ou Khons, Khonshu é o antigo deus egípcio da Lua. O seu nome significa "viajante", o que poderá estar relacionado com a trajetória descrita por esse corpo celeste no céu noturno. À semelhança de Thoth, outra das divindades adoradas no Antigo Egito, Khonshu está associado à passagem do tempo e à criação de novas vidas. Padroeiro dos viajantes noturnos, era por estes invocado para os proteger de ataques de salteadores ou de animais selvagens;
*Ainda sem vaga no universo cinematográfico da Marvel, em 2006 o Cavaleiro da Lua quase ganhou uma série televisiva. O projeto ficou encalhado, mas nesse mesmo ano Marc Spector foi referenciado como especialista em lobisomens em Blade: The Series. Apesar da sua influência nos quadradinhos, o Cruzado do Crescente demora a expandi-la a outros segmentos culturais. Circulam, porém, rumores de que isso estará prestes a mudar. Em janeiro de 2017, por exemplo, James Gunn, realizador dos Guardiões da Galáxia, publicitou no Twitter a sua vontade de dirigir um filme baseado no herói.



quarta-feira, 23 de maio de 2018

HEROÍNAS EM AÇÃO: VIÚVA NEGRA


  Outrora uma espia soviética com licença para seduzir, levou paixões ao rubro na mais fria das guerras. Nos Vingadores, lutou ao lado de velhos inimigos e tomou o gosto pelo heroísmo. Redimir-se dos seus pecados é a sua nova e solitária missão. 

Denominação original: Black Widow 
Licenciadora: Marvel Comics 
Criadores: Stan Lee (editor), Don Rico (história) e Don Heck (arte conceitual)
Estreia: Tales of Suspense nº52 (abril de 1964)
Identidade civil: Natalia Alianovna Romanova (vulgo Natasha Romanoff)
Espécie: Humana
Local de nascimento: Estalinegrado, URSS (atual Volvogrado, na Rússia)
Parentes conhecidos: Mãe anónima, Ivan Petrovitch Bezukhov (pai adotivo), Vindiktor (presumível irmão, falecido)  Alexei Shostakov/Guardião Vermelho (ex-marido)
Ocupação: Aventureira, mercenária e assassina profissional. Abraçou em tempos uma efémera carreira como estilista e foi professora sob disfarce.
Base operacional: De bússola irrequieta, Natasha Romanoff é uma verdadeira cidadã do mundo. Moscovo, Nova Iorque e Los Angeles foram algumas das metrópoles onde, a solo ou integrada em coletivos, a Viúva Negra esteve hospedada. 
Afiliações: Ex-agente da KGB; ex-operacional e diretora interina da SHIELD; ex-líder dos Campeões; ex-membro dos Vingadores e dos Vingadores Secretos (adstritos à SHIELD). Presentemente, prefere operar por conta própria ou em ocasionais parcerias com o Soldado Invernal.
Armas, poderes e habilidades: Atleta de nível olímpico. Mestre de artes marciais. Perita em disfarce. Atiradora exímia. Treinada desde o início da puberdade para ser uma espia de classe mundial e uma assassina implacável, a Viúva Negra possui uma vasta gama de recursos e talentos que fazem dela uma das mulheres mais letais do planeta.
Durante a sua passagem pela Sala Vermelha, o programa ultrassecreto da KGB (ver Origem e Evolução), Natasha recebeu uma variação do Soro do Super-Soldado, a fórmula que transformara Steve Rogers no Capitão América. Em virtude disso, ela teve as suas capacidades físicas e cognitivas quimicamente aprimoradas.
A fisiologia artificialmente incrementada da Viúva Negra torna-a capaz de executar proezas sobre-humanas, uma vez que possui força, agilidade e reflexos acima da média. No entanto, o efeito mais extraordinário dessa biotecnologia consiste no retardamento do envelhecimento (apesar da sua aparência jovial, Natasha é na verdade uma nonagenária) e consequente aumento da longevidade. Graças às suas propriedades regenerativas, Natasha consegue cicatrizar cinco vezes mais depressa do que um humano normal, sendo também menos suscetível a doenças e infeções.
Conjugando a sua exuberante sensualidade com apuradas técnicas de sedução, a Viúva Negra é irresistível para o sexo oposto, sendo uma hábil manipuladora de vontades masculinas.
Extremamente eficiente na recolha e processamento de informações, a Viúva Negra é também uma excelente estratega com comprovada capacidade de liderança mesmo nas situações mais adversas.
Ferramenta imprescindível para as suas missões de infiltração em território estrangeiro, o multilinguismo é outra das habilidades da Viúva Negra - fluente em russo, inglês, francês, mandarim e vários outros idiomas. É ainda uma talentosa hacker e programadora, o que lhe permite piratear facilmente qualquer computador ou sistema informático.

Durante vários anos, Natasha Romanoff foi submetida
 a um rigoroso programa de treino na Sala Vermelha.
Produzido a partir de um tecido especial desenvolvido por cientistas soviéticos, o uniforme da Viúva Negra foi concebido para resistir a altas temperaturas e até a projéteis de pequeno calibre. As ventosas que apetrecham a indumentária permitem-lhe, à imagem da aranha que lhe dá nome, escalar paredes e aderir a uma grande variedade de superfícies.
Sempre que a missão o justifica, a Viúva Negra utiliza armas de fogo, facas balísticas e/ou explosivos plásticos em complemento ao pequeno arsenal embutido no seu traje. Entre este destacam-se as suas braceletes que, além de um fino cabo de aço, lhe permitem também disparar uma potente rajada elétrica equivalente a 30 mil volts. A curta distância, a chamada Picada da Viúva é suficiente para atordoar um meta-humano superpoderoso.
Percecionada muitas vezes como o elo mais fraco dos Vingadores, a Viúva Negra tira partido desse menosprezo para surpreender os seus oponentes.

Até um meta-humano pode ser desestabilizado pela Picada da Viúva,
a mais icónica das armas do arsenal da ex-agente do KGB.
Fraquezas: Além de todas as limitações e vulnerabilidades inerentes à sua condição de simples humana, a variante do Soro do Super-soldado responsável pelo aprimoramento físico e pelo incremento da longevidade da Viúva Negra teve como efeito colateral a infertilidade. Razão pela qual  Natasha está impossibilitada de gerar descendência biológica.

Histórico de publicação

Inicialmente uma espia soviética enviada sob disfarce para os EUA com a missão de se infiltrar nas Indústrias Stark, a Viúva Negra fez a sua primeira aparição em Tales of Suspense nº52, edição datada de abril de 1964 e que marcou o seu primeiro confronto com o Homem de Ferro, de quem a vilã idealizada por Stan Lee, Don Rico e Don Heck se tornaria adversária recorrente.
Cinco meses mais tarde, em Tales of Suspense nº59, a Viúva Negra voltaria a enfrentar o Vingador Dourado depois de ter seduzido e  recrutado o Gavião Arqueiro para a sua causa.
Apesar deste passado criminoso, o casal acabaria por reforçar as fileiras dos Vingadores. No caso da Viúva Negra, isso aconteceu em Avengers nº29 (julho de 1966).
Em 1970, a Viúva Negra obteve aquele que se tornaria o seu visual mais icónico. Numa história publicada em julho desse ano em The Amazing Spider-Man nº86, a ex-agente do KGB surgiu com cabelo ruivo e ostentando um elegante uniforme negro apetrechado com braceletes multifunções.

Ainda à paisana, a Viúva Negra fez a sua primeira aparição
 em Tales of Suspense nº52 (abril de 1964) como antagonista do Homem de Ferro.
Ainda em 1970, a Viúva Negra teve as suas primeiras aventuras a solo publicadas em Amazing Adventures, título que dividiu com os Inumanos até ao cancelamento precoce da série.
Entre novembro de 1971 e agosto de 1975, a Viúva Negra coadjuvou o Demolidor em Daredevil, o que motivou a renomeação temporária da série que, durante alguns números, se designou Daredevil and the Black Widow. Ideia que partiu de Gerry Conway*, admirador confesso das façanhas de Natasha Romanoff e que considerava existir uma química especial entre ela e o Homem Sem Medo.
Os escritores que lhe sucederam tiveram, contudo, entendimento diferente e, a partir de setembro de 1975, a Viúva Negra transitou de Daredevil para The Champions, título que acomodava as aventuras dos recém-formados Campeões.

A partir do nº81, a série do Demolidor
 foi renomeada de Daredevil and the Black Widow.
Nos anos 80 e 90 do último século, na sua dupla qualidade de Vingadora e agente freelance da SHIELD, a Viúva Negra teve breves passagens por Marvel Fanfare, Journey into Mystery e outros títulos emblemáticos da Casa das Ideias. Protagonizou também quatro minisséries e outras tantas graphic novels, a mais ovacionada das quais foi Black Widow: The Coldest War, lançada originalmente em abril de 1990, nas vésperas do colapso da União Soviética.
Em 2010, à boleia da sua introdução no Universo Cinemático da Marvel - ocorrida em Homem de Ferro 2 (ver Noutros media) -, a Viúva Negra ganhou nova série em nome próprio, participando paralelamente em Secret Avengers.
Mais recentemente, entre maio de 2016 e maio de 2017 - e já depois de ter sido cabeça de cartaz de várias minisséries e volumes especiais- , a heroína russa teve direito a nova série epónima, na esteira dos eventos narrados em Secret Wars.

O número final da mais recente série da Viúva Negra
 chegou às bancas americanas em maio de 2017.

Origem e evolução

Adensando ainda mais a aura de mistério ao redor do seu passado, existem relatos díspares acerca da origem da Viúva Negra.
De acordo com um deles, Natasha Romanoff e a mãe estariam encurraladas num prédio em chamas quando foram encontradas por Ivan Petrovitch, um soldado soviético que procurava sobreviventes no rescaldo da Batalha de Estalinegrado.
Num ato desesperado para salvar a vida da filha, antes de ser tragada pelas chamas a mãe de Natasha tê-la-á atirado pela janela diretamente para os braços de Ivan Petrovitch. Que, sentindo-se responsável pela pequena órfã, a perfilhou e acompanhou o resto da vida, tornando-se seu motorista na idade adulta.
Ansiosa por servir o seu país, ainda adolescente Natasha terá sido recrutada pela KGB, da qual viria a ser uma das suas operativas de topo.

Na escola de espiões da KGB, Natasha foi uma aluna exemplar.
Num outro relato introduzido retroativamente, após um périplo pela Europa devastada do pós-guerra na companhia de Ivan Petrovitch, Natasha terá sido recrutada para a Sala Vermelha. Nesse programa ultrassecreto da KGB, a jovem terá sido treinada para ser uma espia-mor e psicologicamente condicionada com recurso a sofisticadas técnicas de lavagem cerebral - que incluíam a implantação de falsas memórias.
Durante o seu estágio na Sala Vermelha. Natasha terá tido como instrutor o Soldado Invernal. Foi também inoculada com uma fórmula genérica do Soro do Super-Soldado que lhe incrementou a fisiologia.
Antes de ser enviada para os EUA com a missão de se infiltrar nas Indústrias Stark, Natasha foi forçada a casar-se com Alexei Shostakov, herói de guerra que, como Guardião Vermelho, seria a resposta da União Soviética ao Capitão América.
Pouco tempo depois, Natasha foi no entanto levada a acreditar que o marido havia morrido num acidente envolvendo o protótipo de um foguete espacial.
Na sua primeira incursão em território norte-americano, a Viúva Negra assistiu Boris Turgenov (o infame Dínamo Escarlate) na sua missão de assassinar o Professor Anton Venko. Dissidente soviético e cientista brilhante, Venko estava ao serviço das Indústrias Stark, colocando o casal de espiões em rota de colisão com o Homem de Ferro.

Natalia Romanova (Earth-616) from Tales of Suspense Vol 1 52 001
Nas suas primeiras aparições, a Viúva Negra agia à paisana.
Depois de ter seduzido o Gavião Arqueiro, a Viúva Negra instigou-o a enfrentar o Vingador Dourado. Durante o confronto de ambos, Natasha foi gravemente ferida, vicissitude que levou o Gavião Arqueiro a bater em retirada para garantir a sobrevivência da amante.
Natasha vinha, contudo, planeando em segredo a sua deserção para os EUA, e os sentimentos que acalentava pelo Gavião Arqueiro fizeram-na questionar ainda mais a sua lealdade à Mãe Rússia.
Antes que se propiciasse a sua deserção, a Viúva Negra foi raptada pela KGB e levada de volta à União Soviética, onde foi objeto de nova lavagem cerebral. Findo o processo de reeducação, foi prontamente recambiada para terras do Tio Sam usando pela primeira vez um uniforme que lhe permitiria bater-se em paridade de armas com os heróis fantasiados que por lá proliferavam.

O primeiro uniforme da Viúva Negra foi um presente da KGB.
Aliada ao Espadachim e ao Poderoso, a Viúva Negra participou numa ofensiva falhada contra os Vingadores, aos quais se uniria uma vez consumada a sua deserção para os EUA. Ela e o Gavião Arqueiro engrossariam, aliás, o contingente de criminosos regenerados admitidos ao longo dos anos nas fileiras dos Heróis Mais Poderoso da Terra.
Nem sempre a Víuva Negra conseguiu, porém, observar o código de conduta dos Vingadores, que proibia expressamente o emprego de força letal. Agastada com essas restrições à sua liberdade de ação, Natasha  abandonaria o grupo.
Durante a fase em que atuou a solo, a Viúva Negra foi agente freelance da SHIELD ao mesmo tempo que combatia o crime nas ruas de Nova Iorque. Na Grande Maçã envolveu-se romanticamente com o Demolidor, de quem se tornaria parceira e amante. Os dois seriam, aliás, o primeiro casal da banda desenhada a ter uma vida em comum sem estarem unidos pelos laços do matrimónio.
Nesse período marcante da sua vida, Natasha empreendeu também uma efémera carreira como estilista.
Sentindo que o Demolidor não a tratava como igual no campo de batalha, a Viúva Negra pôs um ponto final no romance e rumou a Los Angeles. Lá, seria convidada a liderar os Campeões, um heterodoxo coletivo reunido pelos antigos X-Men Anjo e Homem de Gelo, e que contava ainda com o Motoqueiro Fantasma e Hércules.
Quando, por motivo de insolvência, os Campeões foram dissolvidos, a Viúva Negra enveredou por nova carreira a solo. Para assinalar esse virar de página na sua vida, adotou também um novo visual.

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A Viúva Negra ao lado dos Campeões (cima)
 e o novo seu visual a solo.

Anos mais tarde, a Viúva Negra voltaria, porém, a juntar-se aos Vingadores. Chegando inclusivamente a comandar o que restou da equipa quando vários dos seus membros foram dados como mortos às mãos do Devastador (Massacre, no Brasil; Onslaught, no original).
Desde o início do presente o século,  a Viúva Negra vem participando em algumas das sagas mais impactantes da Marvel. Em Guerra Civil**, por exemplo, fez parte da fação pró-registo obrigatório de superseres.
A Viúva Negra tem, no entanto, preferido trilhar o seu próprio caminho, numa jornada de redenção para os seus muitos pecados passados. Para aliviar a consciência pesada, doa parte substancial dos seus honorários de mercenária a orfanatos e outras instituições de caridade.

Uma mercenária em busca de redenção.

Uma femme fatale da Idade do Ouro

Dando de barato que esta informação constituirá uma novidade para alguns dos que me leem, importa esclarecer que o nome de código Viúva Negra nem sempre pertenceu a Natasha Romanoff. Em boa verdade, ela herdou-o de uma anti-heroína da Idade do Ouro há muito relegada para a obscuridade, apesar de algumas tentativas recentes de a resgatar de lá.
A despeito desse legado nominal, não existe contudo qualquer relação entre as duas personagens. À parte a beleza superlativa que as caracteriza, quase nada têm de facto em comum. Nacionalidades diferentes, talentos diferentes, motivações diferentes.
Mas quem era, afinal, a primeira Viúva Negra?
Claire Voyant era uma médium norte-americana que se servia dos seus poderes psíquicos para comunicar com os defuntos. Depois de ter sido possessa pelo próprio Satanás quando tentava ajudar uma família que havia contratados os seus serviços, Claire foi assassinada a sangue-frio por um dos elementos do clã, que a culpava pela desgraça que sobre ele se abatera.
Enviada para o Inferno, Claire concordou em servir o Príncipe das Trevas a troco da oportunidade de vingar a sua morte. Desígnio em que seria bem-sucedida graças ao toque mortal com que foi agraciada pelo seu tenebroso mestre.
Com efeito, uma vez restituída ao mundo dos vivos, Claire descobriu que um simples toque dos seus dedos na fronte de outra pessoas bastaria para causar-lhe morte instantânea. Esse tétrico poder ficaria conhecido como "a marca da Viúva Negra".

Claire Voyant, a primeira Viúva Negra.
A missão terrena da Viúva Negra seria, no entanto, prolongada por Satanás. Que, cansado de esperar pela morte natural dos facínoras cujas almas reclamaria, a incumbiu de acelerar o processo.
Sem o mais leve vestígio de hesitação ou remorso, a Viúva Negra passou então a matar toda a sorte de malfeitores. De mafiosos a traficantes de armas, passando por políticos corruptos todos sucumbiram aos seus encantos, e todos foram por ela condenados à danação eterna.
Se este seu traço de caráter era inato ou consequência da nefasta influência do Príncipe das Trevas, não é claro. Certo é que a crueldade com que a Viúva Negra tratava os criminosos contrastava com a compaixão que demonstrava em relação às vítimas inocentes. As quais, não raro, protegia ou até curava com recurso aos seus poderes místicos, que não se esgotavam na já mencionada "marca da Viúva Negra".
Numa época em que a femme fatale era um ícone da literatura policial e do cinema noir, também nos quadradinhos não tardou a despontar um robusto contingente dessas mulheres com tanto de belas como de perigosas. Distinguindo-se a Viúva Negra das suas congéneres pelo facto de ter sido a primeira a dispor, simultaneamente, de um uniforme e de poderes sobrenaturais.
É, pois, nesses aspetos inovadores que reside o valor histórico da personagem criada por George Kapitan (trama) e Harry Sahle (desenhos), e que fez a sua estreia em agosto de 1940, nas páginas de Mystic Comics nº4. Um dos três títulos periódicos da Timely Comics (antecessora da Marvel) onde marcou discreta presença até finais de 1943. E digo "discreta" porque, durante esse ínterim, a Viúva Negra fez apenas cinco aparições em histórias que nunca excederam as oito páginas.
Após mais de meio século votada ao ostracismo, em 2007 a Viúva Negra seria revivida em The Twelve (Os Doze), iniciativa editorial da Casa das Ideias que reintroduziu na sua continuidade vários dos justiceiros mascarados originalmente detidos pela Timely.
Apesar da sua sensualidade e motivações se manterem intactas, nesta sua versão moderna Claire Voyant assumiu a persona de Viúva Negra em 1928 (coincidentemente, a data de nascimento de Natasha Romanoff) após o assassinato da sua irmã. Sedenta de vingança, Claire aceitou ser o instrumento de uma perversa entidade que, mesmo nunca explicitamente nomeada, tudo indica que seja, uma vez mais, o próprio Satanás.

Trivialidades

*Apesar de ser ruiva natural, nas suas primeiras missões de espionagem ao serviço da KGB, era frequente a Viúva Negra tingir o seu cabelo de preto;
*Cidade natal de Natasha Romanoff, Volvogrado serviu também de berço a Sergei Kravinoff, o vilão notabilizado como Kraven, o Caçador;
*Além de ter sido casada com Alexi Shostakov (o Guardião Vermelho), o extenso currículo amoroso da Viúva Negra inclui vários outros heróis fantasiados. A saber: Clint Barton (Gavião Arqueiro), Matt Murdock (Demolidor), James Barnes (Soldado Invernal) e Hércules, com quem Natasha manteve um fugaz romance durante a fase em que capitaneou os Campeões;

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Demolidor e Viúva Negra: muito mais do que parceiros no combate ao crime.
*Ao serviço da SHIELD, a Viúva Negra foi uma operacional de nível 10. Estatuto que lhe rendeu a liderança interina da organização quando Tony Stark e Maria Hill (respetivamente, diretor e diretora-adjunta) ficaram temporariamente incapacitados;
*A pedido de Nick Fury, Natasha assumiu a identidade de Yelena Belova ( sua antiga rival e a terceira Viúva Negra) para se infiltrar nos Thunderbolts, então às ordens do perverso Norman Osborn; 
*A Viúva Negra figura em 31º lugar na lista das cem maiores beldades da banda desenhada elaborada pelo Comics Buyer's Guide Já no Top 50 de Vingadores organizado pelo site IGN, a ex-agente da KGB surge na 42ª posição;
*Black Widow: Forever Red (2015) e Black Widow: Red Vengeance (2016) são os títulos das duas novelas - ainda inéditas em português - da autoria de Margaret Sthol e que têm a Viúva Negra como protagonista;
*Rumores nunca confirmados aventavam a possibilidade de, atendendo ao seu apelido, Natasha ser filha de Anastásia Romanova, a filha do Czar Nicolau II que muitos acreditam ter sobrevivido ao massacre da família real russa na sequência da Revolução Bolchevique.

Noutros media

Por via das suas numerosas participações em animações e videojogos baseados no Universo Marvel, era já apreciável o lastro mediático da Viúva Negra antes do seu advento ao grande ecrã, em Homem de Ferro 2.
Com efeito, a sua estreia no segmento audiovisual remonta a 1966, ano em que marcou presença no trecho dedicado ao Homem de Ferro em The Marvel Super Heroes, aquela que foi a primeira série animada produzida sob os auspícios da Casa das Ideias.
Habitué noutras produções do género, já este século a Viúva Negra tem estado em grande plano em Avengers Assemble (em exibição desde 2013). Ainda no campo da animação, em 2014 coprotagonizou com o Justiceiro Avengers Confidential: Black Widow & Punisher, película lançada diretamente em vídeo.

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Uma das muitas animações da Marvel
 em que a Viúva Negra participou.
No capítulo da ação real, a introdução da Viúva Negra no Universo Cinemático Marvel foi precedida por duas tentativas fracassadas de adaptá-la ao pequeno e ao grande ecrã. A primeira registou-se em 1975, quando a heroína russa e o Demolidor foram escolhidos para protagonizar uma série televisiva nunca produzida. Angie Bowie, ex-mulher do falecido David Bowie, teria encarnado Natasha Romanoff se o projeto tivesse chegado a bom porto.
Antes da Marvel chamar a si a produção dos próprios filmes, em 2004 a Lionsgate adquiriu os direitos de adaptação da Viúva Negra, com vista ao lançamento de uma longa-metragem da heroína. Projeto que nunca saiu da gaveta em consequência do fracasso comercial de películas como Mulher-Gato e Elektra. Fiascos que levaram os responsáveis da Lionsgate a ficarem descrentes na viabilidade de filmes protagonizados por super-heroínas.

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Angie Bowie como Natasha Romanoff
 na série nunca produzida do Demolidor e da Viúva Negra.
Desde 2010 que a Viúva Negra integra a franquia cinematográfica da Marvel, onde vem sendo competentemente interpretada por Scarlett Johansson. Após a sua estreia em Homem de Ferro 2, a atriz repetiu o papel em Os Vingadores (2012), Capitão América: O Soldado Invernal (2014), Os Vingadores: Era de Ultron (2015), Capitão América: Guerra Civil (2016) e Os Vingadores: Guerra Infinita (2018), Tendo já presença confirmada na respetiva sequência, com estreia marcada para o próximo ano.
Entretanto, Kevin Feige, Presidente Executivo dos Estúdios Marvel, já manifestou reiteradas vezes  o seu interesse na produção de um filme a solo da Viúva Negra. Até à data, o projeto continua no entanto em lume brando embora conste que poderá receber luz verde num futuro próximo.
Enquanto isso não acontece, resta aos fãs da heroína russa acompanharem as suas aventuras e desventuras ao lado dos Vingadores no próximo capítulo da saga Guerra Infinita.

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De 2010 a 2016: a evolução visual da Viúva Negra cinematográfica.


* http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/03/eternos-gerry-conway-1952.html
** http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/12/classicos-revisitados-guerra-civil.html



quarta-feira, 6 de setembro de 2017

GALERIA DE VILÕES: BARÃO ZEMO


  Último representante de uma infame linhagem de aristocratas germânicos, do pai herdou o título nobiliárquico e o ódio visceral pelo Capitão América. O seu altruísmo distorcido levou-o, porém, a fundar os Thuderbolts, coletivo heroico com um segredo tão sórdido como o passado do seu líder. 

Denominação original: Baron Zemo
Licenciadora: Marvel Comics
Criadores: Tony Isabella/Roy Thomas (história) e Sal Buscema (arte conceptual)
Estreia (como Fénix): Captain America Vol.1 nº168 (Dezembro de 1973)
Estreia (como Barão Zemo): Captain America Vol.1 nº275 (Novembro de 1982)
Identidade civil: Helmut J. Zemo
Local de nascimento: Leipzig, Alemanha
Nacionalidade: Alemã
Parentes conhecidos: Heirinch e Hilda Zemo (pais, falecidos); Heike Zemo/Baronesa (esposa presumivelmente falecida) e demais antepassados da linhagem Zemo (ver Dinastia Maldita)
Ocupação: Engenheiro, aventureiro e terrorista internacional
Base operacional: Seguindo uma tradição fundada pelo avô paterno, Helmut Zemo operava, inicialmente, a partir do seu centenário castelo familiar, no leste da Alemanha. Seguiram-se, contudo, anos de itinerância que o levaram a diferentes latitudes do hemisfério setentrional, designadamente México e Nova Iorque. Até se fixar por fim na capital da Bagália (nação insular fictícia cuja população é, quase exclusivamente, composta por malfeitores), usando desde então a imponente Torre Zemo como centro nevrálgico das suas atividades subversivas.
Afiliações: Atual membro do Conselho Superior da HIDRA e financiador do Império Secreto, Zemo liderou outrora os Mestres do Terror e os Thunderbolts (vide respetivos prontuários infra)
Armas, poderes e habilidades: Zemo compensa a ausência de capacidades sobre-humanas com uma apreciável gama de recursos que, embora mais comezinhos, são quanto basta para fazer dele um dos supervilões mais cotados do Universo Marvel.
Menos genial e inventivo do que o seu defunto progenitor - que, ao longo da vida, colecionou patentes científicas - o atual Barão Zemo é ainda assim dono de um intelecto superior. Especialista em engenharia reversa, é também um exímio estratega e um manipulador nato. Se o primeiro atributo lhe permite tirar proveito de tecnologia alheia, este último é uma das suas imagens de marca.
Sob a influência de Zemo numerosos indivíduos bem intencionados foram já induzidos por ele a cometer toda a espécie de atrocidades. Carismático, é sempre fortíssimo o ascendente que o vilão exerce sobre aqueles que o rodeiam. Algo que ficou, aliás, bem patente no filme Capitão América: Guerra Civil (ver Noutros Media).
No ápice da forma física, Helmut Zemo possui uma compleição equivalente à de um atleta olímpico. É, no entanto, muito mais velho do que aparenta. Sobrevindo da toma regular do chamado Composto X - soro milagroso desenvolvido pelo seu pai - a extraordinária vitalidade por si exibida.
Esgrimista de classe mundial, Zemo tem na sua espada de adamantium uma extensão natural do seu corpo em cenários de combate mano a mano, conquanto seja igualmente destro no manuseamento de armas de fogo. Além do famigerado Adesivo X - outra das criações paternas - , de vários raios desintegradores e dispositivos de controlo mental, na sofisticada parafernália tecnológica de Zemo avulta ainda uma tiara psíquica que o vilão costuma acoplar no seu capuz a fim de se proteger de ataques telepáticos.
Nas gemas alienígenas de que espoliou Rocha Lunar- sua ex-subordinada e concubina - o Barão Zemo tem, incontestavelmente, as armas mais poderosas do seu arsenal. Graças a elas, o vilão consegue levitar, ampliar a sua força, desmaterializar-se e até viajar através do hiperespaço. Justificando-se assim plenamente o honroso 40º lugar que o Barão Zemo ocupa na lista dos 100 Maiores Vilões dos Quadradinhos organizada pela plataforma digital de entretenimento IGN.

Zemo preparado para a guerra com a sua espada de adamantium
 e as gemas surripiadas a Rocha Lunar.

Histórico de publicação

A despeito dos seus pergaminhos familiares, o debute de Helmut Zemo foi pouco promissor. Ou não tivesse ele encetado a sua carreira criminal como um vilão genérico e potencialmente descartável chamado Fénix (Phoenix, no original).
Facto pouco conhecido, foi, com efeito, sob esta persona que, em dezembro de 1973, Helmut Zemo se deu a conhecer aos leitores de Captain America nº168. Saído meses antes da imaginação de Tony Isabella, Roy Thomas e Sal Buscema, o seu processo de afirmação dentro do Universo Marvel foi particularmente moroso. Tendo o momento de viragem ocorrido quase uma década depois quando, em Capitain America nº275 (novembro de 1982), Helmut assumiu por fim o título de Barão Zemo, dando dessa forma continuidade ao sinistro legado paterno.

Fénix foi a primeira persona criminosa
 de Helmut Zemo.
Foi nesta edição de Captain America
que o Barão Zemo moderno (em baixo)
 fez a sua estreia oficial.


Consolidado o seu estatuto de vilão de referência ao longo da década de 1980, no início da seguinte o Barão Zemo demonstrou a sua multidimensionalidade ao fundar o coletivo heroico Thunderbolts. À semelhança do que sucedera com Magneto poucos anos antes, Zemo, mercê da sua ambivalência moral e de um certo altruísmo distorcido, passou de vilão a herói apenas para voltar a fazer o percurso inverso.
Vale a pena lembrar que, durante a sua fase heroica (que se prolongou mesmo após o desmantelamento dos Thunderbolts), Zemo procurou genuinamente retratar-se de alguns dos atos ignóbeis que havia cometido no passado. Contudo, a descoberta de que Bucky Barnes - o antigo sidekick do Capitão América presumivelmente morto pelo seu pai nos últimos dias da 2ª Guerra Mundial - se encontrava, afinal, vivo e de boa saúde, fez com que a faceta maligna de Zemo prevalecesse uma vez mais. Realidade aparentemente irreversível, conforme atestam as suas participações em algumas das sagas mais recentes da Casa das Ideias, designadamente no polémico Secret Empire (lançado este ano nos EUA e ainda inédito no universo lusófono).

Dinastia maldita

Com raízes na época medieval, a árvore genealógica de Helmut Zemo conta uma história de poder e ganância, mas também de coragem e patriotismo.
Tudo começou no longínquo ano de 1480 em Zeulniz, uma pequena vila alemã. Assediado por uma horda de saqueadores eslavos, o povoado foi salvo pela valentia de Harbin Zemo. Munido apenas de uma espada, este modesto funcionário público responsável pela proteção do celeiro comunitário desbaratou sozinho os invasores
Os ecos da façanha chegaram à sala do trono e o Imperador nomeou Harbin Zemo Barão de Zeulniz. Título nobiliárquico que seria daí em diante transmitido de pai para filho, fazendo perdurar até aos nossos dias a infame dinastia Zemo. Cuja linha sucessória, assente na primogenitura masculina, é a seguinte:

*Harbin Zemo: o 1º Barão Zemo e fundador da dinastia. Apesar do ato de bravura que lhe valeu a condição aristocrática, depressa se tornaria um déspota sanguinário. Morreu de velhice em 1503;
*Hademar Zemo: o 2º Barão Zemo, filho de Harbin, e o mais pusilânime  de toda a linhagem. A sua fraqueza ditaria que fosse morto às mãos da sua guarda pessoal, numa conjura encabeçada por Heller Zemo, o seu filho de apenas 12 anos de idade;
*Heller Zemo: o 3º Barão Zemo, filho de Hademar, e o mais progressista dos Zemos;
*Herbert Zemo: o 4º Barão Zemo, filho de Heller, e um orgulhoso guerreiro colecionador de glórias e inimigos. Assassinado pelos próprios generais;
*Helmuth Zemo: o 5º Barão Zemo, filho de Heller. Assassinado pelo Barão Zemo moderno durante uma das suas viagens no tempo;
*Hackett Zemo: o 6º Barão Zemo, filho de Helmuth. Quase matou o atual Barão Zemo quando este monitorizava a sua atividade por volta de 1710;
*Hartwig Zemo: o 7º Barão Zemo, filho de Hackett. Morto em combate quando participava na Guerra dos Sete Anos (1756-1763);
*Hilliard Zemo: o 8º Barão Zemo, filho de Hartwig;
*Hoffman Zemo: o 9º Barão Zemo, filho de Hilliard;
*Hobart Zemo: o 10º Barão Zemo, filho de Hoffman. Morto às mãos de camponeses amotinados durante as revoltas que se seguiram à proibição do socialismo em terras germânicas decretada pelo Imperador Guilherme I;
*Herman Zemo: o 11º Barão Zemo, filho de Hobart e avô do atual Barão Zemo. Combateu os Aliados durante a I Guerra Mundial, causando-lhes numerosas baixas com a sua própria fórmula do terrível gás mostarda;
*Heinrich Zemo: o 12º Barão Zemo, filho de Herman e pai do atual detentor do título. Um dos maiores cientistas ao serviço de Hitler durante a II Guerra Mundial, tornou-se arqui-inimigo do Capitão América, tendo sido responsável, na ponta final do conflito, pela presumível morte do herói e de Bucky Barnes, seu adjunto juvenil;
*Helmut J. Zemo: o 13º e atual Barão Zemo, filho de Heinrich. A sua dramática história é resumida no texto seguinte.

Helmut Zemo descende de uma longa linhagem varonil.

Origem

Único descendente conhecido de um aristocrata germânico que era também uma das mais prodigiosas mentes científicas ao serviço do 3º Reich, Helmut Zemo soube-se desde muito cedo predestinado à grandeza e à perversidade.
Nascido em meados da década de 1930 em Leipzig, no leste da Alemanha. Helmut passou parte da sua juventude em Berlim. Enquanto o pai, Heinrich Zemo, inventava armas de destruição em massa para os nazis, Helmut desenvolveu, durante esse período, uma paixão secreta por comics, filmes e outros produtos culturais norte-americanos.
Embora venerado pela família e pelos seus correligionários, Heinrich Zemo era profundamente odiado pelas potências aliadas. Sentimento que se estenderia ao seus próprios compatriotas após a vexatória derrota que lhe foi imposta pelo Capitão América e pelo Comando Selvagem*.
Temendo pela sua segurança e dos seus entes queridos, Heinrich, entretanto celebrizado como Barão Zemo, começou a usar um capuz que lhe cobria integralmente o rosto.
Pouco tempo depois de ter criado o famigerado Adesivo X (uma supercola impossível de remover por qualquer processo conhecido na época), o Barão Zemo enfrentou pela primeira vez o Capitão América, empenhado em impedir que a substância fosse usada contra as tropas aliadas.
Atingido pelo escudo do herói no calor da refrega, Zemo caiu dentro de uma vasilha contendo Adesivo X. Apesar de ter sobrevivido ao incidente, o vilão não mais conseguiria remover o capuz e a roupa que usava naquele dia. Consequentemente, passaria a ser alimentado por via intravenosa até ao fim da vida.

O Barão Zemo clássico
 foi uma criação de Stan Lee e Jack Kirby,
 cuja estreia ocorreu em The Avengers nº6 (1964).
Cada vez mais demencial, Heinrich fez da mulher e do filho os seus bodes expiatórios, molestando-os constantemente. Por contraste com a mãe - que ajudaria o Capitão América a travar um dos sórdidos planos do marido - Helmut manteve-se sempre leal ao pai. Lealdade que não seria de todo recompensada.
Procurado por crimes de guerra, em 1945 (pouco depois de ter, aparentemente, causado a morte do Capitão América e Bucky), o Barão Zemo fugiu da Alemanha e buscou refúgio nas profundezas da floresta amazónica. Deixando para trás o filho e a pátria reduzida a escombros fumegantes.
Na prolongada ausência paterna, Helmut, determinado em levar uma vida normal, viajou pelo mundo e formou-se em engenharia. Incapaz de escapar à sua herança familiar, o jovem Zemo seria, no entanto, convocado pelo pai ao seu reino amazónico. Onde testemunharia a forma brutal como o seu progenitor chacinou os indígenas sublevados e o ouviu gabar-se pela morte do Cidadão V, um agente especial britânico durante a 2ª Guerra Mundial.
Entretanto, o ressurgimento do Capitão América motivaria uma série de confrontos entre o Barão Zemo (agora coadjuvado pelos seus Mestres do Terror) e os Vingadores (liderados pelo Sentinela da Liberdade).
Após a morte acidental do pai durante um desses recontros, Helmut culpou o Capitão América pela destruição da sua família. Replicando alguns dos aparatos mais mortíferos do arsenal paterno, Helmut adotou a identidade de Fénix para se vingar do herói.
Horrivelmente desfigurado após mergulhar, tal como o pai, numa tina de Adesivo X, Helmut reapareceria pouco tempo depois como o novo Barão Zemo.
Sem que o seu ódio figadal pelo Capitão América desse sinais de apaziguamento, o vilão reuniu aquela que foi, até à data, a maior e mais poderosa formação dos Mestres do Terror.

O novo Barão Zemo
 exibe o símbolo do seu némesis.
Naquele que foi um dos pontos mais altos da sua carreira criminosa, o Barão Zemo e os seus apaniguados invadiram a Mansão dos Vingadores, de onde só a muito custo seriam desalojados pelos heróis.
A uma tentativa gorada de ressuscitar o seu pai com recurso às Pedras de Sangue, seguiu-se o enlace do Barão Zemo com a terrorista internacional conhecida como Baronesa. O casal acabaria, contudo, capturado pelo Capitão América depois de ter raptado várias crianças negligenciadas para formar uma família instantânea.
Quando, no final da épica batalha que os opôs à entidade conhecida como Devastador (Massacre, no Brasil), os Vingadores e o Quarteto Fantástico foram dados como mortos, Zemo, assim privado dos seus arqui-inimigos, interiorizou finalmente que o pai se tinha autodestruído.
Mudando o foco da vingança para a busca do poder, Zemo converteu o núcleo duro dos Mestres do Terror num coletivo heroico apresentado ao mundo como Thunderbolts. Num ato de mórbida ironia, Zemo escolheu para si o título de Cidadão V, o herói britânico assassinado pelo seu pai durante a 2ª Guerra Mundial.
Desmascarado o embuste dos Thunderbolts, o Barão Zemo retomou a sua carreira a solo. Atualmente, governa com mão de ferro Bagália, um pequeno Estado-pária de localização desconhecida que serve de santuário a delinquentes de todo o mundo.

*Howling Commandos, brigada especial de soldados aliados que, durante a 2ª Guerra Mundial, atuava atrás das linhas inimigas.

Zemo (disfarçado de Cidadão V) à frente dos Thunderbolts originais.

Quem são os Mestres do Terror?

Inimigos clássicos dos Vingadores, os Mestres do Terror (Masters of Evil, no original) são uma das mais antigas organizações criminosas do Universo Marvel. Criada por Stan Lee e Jack Kirby, a equipa fez a sua primeira aparição em The Avengers Vol.1 nº6, edição histórica datada de julho de 1964.
Sob o comando do penúltimo Barão Zemo, os Mestres do Terror agrupavam inicialmente Cavaleiro Negro, Derretedor e Homem-Radioativo. Cada um destes elementos fora criteriosamente selecionado por Zemo para antagonizar um Vingador específico. Assim, ao Cavaleiro Negro competiria neutralizar o casal Vespa e Gigante, o Derretedor teria como alvo o Homem de Ferro, e o Homem-Radioativo deveria medir forças com Thor. Zemo, por seu turno, tentaria ajustar velhas contas com o Capitão América. A este elenco primordial juntar-se-iam posteriormente alguns pesos-pesados. A saber: Encantor, Executor, Magnum e Destruidor.
Das diversas encarnações da equipa ao longo dos anos, a mais eficiente foi, sem sombra de dúvida, aquela que contava nas suas fileiras com Mr. Hyde, Blackout, Rocha Lunar, Armador, Jaqueta Amarela II, Tubarão-Tigre, Titânia, Homem Absorvente, Gangue da Demolição (Aríete, Destruidor, Massa e Bate-Estacas) e Golias. Agora liderados pelo filho do Barão Zemo, os Mestres do Terror fizeram jus ao título ao tomarem de assalto a Mansão dos Vingadores, fazendo reféns alguns dos seus membros. Cuja libertação só foi possível na sequência de uma feroz batalha que culminaria com a morte de Hércules.
Seria precisamente esta formação dos Mestres do Terror que, anos mais tarde, serviria de base aos Thunderbolts (vide texto seguinte).

O primeiro confronto entre os Vingadores e os Mestres do Terror
 em The Avengers nº6 (1964).


A formação dos Mestres do Terror que quase vergaram os Vingadores.

Thunderbolts: heróis ou vilões?

Aproveitando o vazio deixado pelo desaparecimento dos Vingadores e do Quarteto Fantástico no final da saga Onslaught (Devastação em Portugal; Massacre no Brasil), o Barão Zemo reciclou os seus Mestres do Terror num novo coletivo super-heróico a que deu o nome de Thunderbolts. Além do próprio Zemo (que atendia agora por Cidadão V), o elenco primitivo da equipa por ele convocada reunia Atlas, Meteorita, Soprano, MACH-1 e Tecno. Sob estas identidades falsas escondiam-se, respetivamente, os ex-criminosos Golias (em tempos conhecido também como Contrabandista), Besouro, Rocha Lunar, Colombina e Armador. A estes membros fundadores logo se juntou Choque, uma jovem heroína que ignorava os verdadeiros desígnios dos seus companheiros, e cujo idealismo os contagiou.
Depois de ter conquistado a confiança do público, Zemo empreendeu a sua campanha de dominação mundial. Seria, no entanto, detido pela ação conjunta dos Vingadores e do Quarteto Fantástico (entretanto regressados do degredo extradimensional), bem como pelos próprios Thunderbolts. Em busca de redenção para os seus pecados, os antigos subordinados de Zemo haviam encarnado de forma inesperada o papel de defensores dos fracos e oprimidos.
Zemo logrou escapar graças à ajuda de Tecno - o único membro do grupo que se lhe manteve leal - enquanto os demais Thunderbolts, cujas verdadeiras identidades haviam sido entretanto expostas, passaram a operar na clandestinidade, praticando o heroísmo a que tinham tomado o gosto.
Conceito desenvolvido por Mark Waid e Mark Bagley, os Thunderbolts fizeram a sua estreia em janeiro de 1997, nas páginas de The Incredible Hulk nº449, e mantêm-se no ativo até aos dias de hoje. Após sucessivas reconfigurações e lideranças, a sua formação mais recente, capitaneada pelo Soldado Invernal, é composta por Atlas, Armador, Rocha Lunar, MACH-X e Kobik.

Thunderbolts: Lobos em peles de cordeiros.

Trivialidades:

*Situada na ex-RDA, Leipzig, a cidade natal de Helmut Zemo, possui uma prestigiada Universidade onde, entre outros expoentes da elite dirigente teutónica, se diplomou Angela Merkel, atual chanceler federal da Alemanha;
*No jogo de vídeo Iron Man and X-0 Manowar in Heavy Metal (1996), o Barão Zemo surgia como uma das personagens jogáveis;
*Dois anos depois, em maio de 1998, Zemo e os seus Thunderbolts participaram em Star Trek: The Next Generation / X-Men: Second Contact, um crossover entre a tripulação da nave USS Enterprise e os pupilos do Professor Xavier.


Terão Merkel e Zemo estudado a mesma cartilha?

Noutros media: Antes do seu advento ao grande ecrã por via da sua participação em Captain America: Civil War (2016), o Barão Zemo (pai e filho) era já um habitué nas séries animadas da Marvel. Remontando a 1966 a sua estreia televisiva, no segmento reservado ao Sentinela da Liberdade em The Marvel Super Heroes. Essa foi, de resto, a única ocasião em que o Barão Zemo sénior não interagiu com o júnior. Em produções mais recentes, como Avengers: Ultron Revolution (em exibição desde 2013), os dois têm coabitado e, não raro, unido forças contra os Heróis Mais Poderosos da Terra.

O Barão Zemo tem sido presença assídua
em Avengers: Ultron Revolution.
Embora irreconhecível, o atual Barão Zemo, interpretado pelo ator hispano-germânico Daniel Bruhl, foi o vilão de serviço no terceiro capítulo da saga cinematográfica do Capitão América. À parte o nome e a sanha que nutre pelos Vingadores, pouco tem, de facto, em comum com a sua contraparte da banda desenhada. No filme,  Helmut Zemo é apresentado como um obstinado oficial do Exército de Sokóvia desejoso de vingança depois de ter perdido a sua família na batalha que arrasou a capital do seu país em Avengers: Age of Ultron (2015)

A versão cinematográfica de Zemo (rebaixado a plebeu)
deixou um travo amargo na boca dos Vingadores, mas também de muitos fãs.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

CLÁSSICOS REVISITADOS: «GUERRA CIVIL»




   Heróis contra heróis. Liberdade versus segurança. Antigos camaradas de armas atirados para lados opostos da barricada num conflito fratricida de proporções épicas. Entrincheirados nas suas convicções, os dois homens que os comandam estão dispostos ao sacrifício supremo em prol do que acreditam ser um futuro melhor. Por quem dobrarão os sinos?

Título original: Civil War
Data de publicação: Julho de 2006 a fevereiro de 2007
Categoria: Minissérie em sete edições mensais
Licenciador: Marvel Comics
Autores: Mark Millar (enredo), Steve McNiven (ilustrações) e Dexter Vines (cores)
Personagens principais: Capitão América (Captain America), Homem de Ferro (Iron Man), SHIELD, Quarteto Fantástico (Fantastic Four), Pantera Negra (Black Panther), Tempestade (Storm), Homem-Aranha (Spider-Man), Vingadores Secretos (Secret Avengers) e Atlantes (Atlanteans)
Coadjuvantes: Novos Guerreiros (New Warriors), X-Men, Inumanos (Inhumans) e O Vigia (The Watcher)
Vilões: Nitro e Ragnarok
Cenários: Stamford (Connecticut), Zona Negativa e vários pontos da cidade de Nova Iorque
Guia de leitura: http://www.howtolovecomics.com/2014/11/30/marvel-civil-war-reading-order-guide/



O alfa e o ómega de uma guerra perdida.

                                    
Edições em Português: No Brasil, a primeira edição de Guerra Civil na língua de Camões remonta a 2007/08, tendo sido publicada sob os auspícios da Panini Comics. Além dos sete fascículos mensais que a compunham, foram igualmente lançados no mesmo período vários volumes correlatos, designadamente Rumo à Guerra Civil e Guerra Civil Especial. Ainda com a chancela da mesma editora, nos anos imediatos a saga teria direito a diversas republicações em diferentes formatos.
Também por Terras Tupiniquins, em 2014 seria a vez de a Salvat dedicar a esta obra capital um volume encadernado na sua Coleção Oficial de Graphic Novels da Marvel.
Do outro lado do Atlântico, em Portugal, as honras de edição couberam à Levoir que, em 2012, incluiria Guerra Civil na sua coletânea de histórias essenciais da Casa das Ideias.

A edição portuguesa da saga lançada pela Levoir.

Antecedentes:
 Em retrospeto, podemos afirmar que em, certa medida, as sementes da Guerra Civil começaram a ser plantadas em 1981. Nesse já longínquo ano, Chris Claremont e John Byrne exploraram pela primeira vez a ideia de os mutantes e demais superseres terem as suas atividades controladas pelo Governo dos EUA em X-Men: Days of Future Past (X-Men: Dias de um Futuro Esquecido).
Noutra história dos Filhos do Átomo, publicada em 1984 nas páginas de Uncanny X-Men nº181, era discutida no Congresso uma proposta de lei que contemplava a obrigatoriedade do registo de todos os Homo Superior residentes em território norte-americano.
Aprovada em tempo recorde, a medida requeria o registo junto das autoridades federais de qualquer indivíduo nascido com habilidades mutantes, tão-logo as mesmas se manifestassem. Para supervisionar a aplicação da nova legislação, foi criado o controverso Comité de Atividades Meta-Humanas. Com o qual, ao longo dos anos, heróis como o Capitão América, os Vingadores e o X-Factor se incompatibilizariam.
Desdobramento da Lei do Registo de Mutantes, em 1990 entraria em vigor a Lei do Registo de Superseres. Com um escopo mais lato do que a sua antecessora, abrangia todos os indivíduos que, mesmo tendo nascido sem o gene X no seu ADN, haviam adquirido capacidades sobre-humanas por outros meios. Ironicamente, na eventualidade de ter sido aprovada nesses moldes, a lei deixaria de fora vigilantes como o Justiceiro ou a Viúva Negra, conhecidos pela letalidade dos seus métodos no combate à criminalidade, porém ambos simples humanos.

O primeiro ensaio de cadastramento de superseres
 ocorreu em X-Men: Days of Future Past (1981).

Face à celeuma instalada, Reed Richards foi convidado a depor perante um comité especial do Congresso. Numa análise clarividente, como é seu timbre, o líder do Quarteto Fantástico denunciou as incoerências da lei, bem como a sua futilidade. Desde logo porque a supervisão governamental serviria tão-somente para dificultar a ação dos super.heróis, Mas, também, por causa da flagrante subjetividade que presidia à definição de "superseres" vertida no respetivo texto. E que, conforme ficou comprovado, daria azo a toda a sorte de arbitrariedades.
Sensíveis à argumentação de Richards, os membros do comité deliberaram a revogação imediata da Lei do Registo de Superseres. Uma pequena vitória que, contudo, não encerrou o debate em torno da necessidade de monitorização das atividades dos meta-humanos. De facto, em 1993, seria a vez de o Canadá promulgar um pacote legislativo decalcado do americano. Com a diferença de, apesar de se manter em vigor desde essa data, nunca ter espoletado qualquer conflito no seio da comunidade meta-humana do grande vizinho do Norte.
Porventura encorajados por esse precedente, em 2006 um grupo de congressistas norte-americanos entendeu por bem ressuscitar a Lei do Registo de Superseres. Cuja versão revista ia mais longe do que qualquer uma das anteriores ao abranger igualmente indivíduos desprovidos de superpoderes mas detentores de tecnologia avançada e/ou exótica (leia-se: de origem alienígena, mística ou outra). Categoria onde se encaixava, por exemplo, a armadura do Homem de Ferro. Precisamente a primeira voz a alertar para os enormes perigos que uma medida dessa natureza comportaria.
Perante o Senado, Tony Stark, tal como antes dele fizera Reed Richards, apontou o dedo ao caráter subjetivo dos conceitos contemplados pela lei. Advertindo de caminho para as eventuais consequências nefastas de os heróis e vigilantes virem a ter a sua liberdade de ação coartada pelas autoridades oficiais.
Determinado em fazer valer o seu ponto de vista, Stark contratou em segredo um supervilão para atentar contra a sua própria vida e resolveu usar o Homem-Aranha como peão. Ignorando que tudo não passava de uma encenação, o herói aracnídeo foi em socorro do magnata em apuros. Enquanto confrontava o agressor de Stark, este, seguindo à risca o guião predefinido, confidenciou-lhe que várias potências estrangeiras inimigas dos EUA contavam com a nova lei para deixar o país desguarnecido, já que ela levaria ao encarceramento de alguns dos seus mais poderosos defensores.
Munido de um vídeo do atentado de que presumivelmente fora alvo, Tony Stark persuadiu o Senado de que, a ser aprovada, a Lei do Registo de Superseres faria mais mal do que bem. Por seu lado, o Homem-Aranha sustentou que a existência de super-heróis se justifica pela necessidade de responder a situações às quais as autoridades oficiais não estão em condições de dar resposta.
À luz desses desenvolvimentos, a lei seria novamente sujeita a discussão no Congresso. Confiante na renitência dos políticos em tomarem decisões impopulares, Tony Stark tranquilizou o Homem-Aranha, asseverando-lhe que, salvo alguma mudança drástica na forma como a opinião pública percecionava os super-heróis, a medida acabaria por ser metida na gaveta.
Claro que o impensável acabaria mesmo por acontecer e logo as nuvens negras se começariam a acumular no horizonte, num funesto prenúncio dos dias de chumbo que estavam por vir...

Quem nos protege dos nossos protetores?
Conceção: Conforme explanado no texto anterior, a introdução de legislação a requerer o cadastro de todos os meta-humanos radicados nos EUA serviu de premissa ao arco de histórias genericamente intitulado Civil War. Ideia que, contudo, nada tinha de inovadora, considerando que havia já sido glosada nos universos de outras editoras. Astro City (Image Comics) e Watchmen* (DC Comics) representam apenas os exemplos mais sonantes de sagas com idêntico ponto de partida.
A esta aparente falta de originalidade, Mark Millar, o escriba de Civil War, contrapôs o seguinte: «Ao lerem a história, as pessoas certamente perceberão que a minha abordagem ao dilema super-heroico é ligeiramente diferente das fórmulas já antes testadas. Cujo denominador comum consistia na exigência por parte do público da ilegalização das atividades vigilantistas. Algo que não se verifica em Civil War. Mesmo conscientes dos perigos que lhes estão associados, as pessoas não reclamam o banimento dos super-heróis, mas, sim, a sua reconversão em funcionários públicos. À semelhança dos bombeiros ou dos agentes policiais, os super-heróis, vigilantes e afins deveriam ser remunerados pelo Estado e sujeitar-se ao mesmo escrutínio das forças de proteção civil. Em teoria, seria a solução perfeita para o problema. E, tanto quanto sei, nunca ninguém a equacionara.»

Mark Millar, o homem que pôs heróis contra heróis.
Ao registo obrigatório de todos os superseres a operar dentro das fronteiras estadunidenses, somava-se a exigência legal de que eles revelassem as suas verdadeiras identidades às autoridades. Classificados como armas de destruição massiva, os meta-humanos teriam ainda de submeter-se a um programa de treino específico ministrado pelo Governo. Terminado o mesmo, àqueles que optassem por juntar-se às fileiras da SHIELD ficaria reservado o estatuto de agente federal, passando a obedecer a uma cadeia de comando e a auferir um vencimento.
Embora aliciante aos olhos de muitos dos seus membros, a proposta cindiu a comunidade super-heroica. De um lado, a fação presidida pelo Homem de Ferro que encarava o registo obrigatório como um dever cívico e um garante de segurança. Do outro, o setor que, sob a liderança do Capitão América, contestava a medida por considerar que ela violava direitos constitucionalmente consignados ao mesmo tempo que comprometia a proteção conferida pelo anonimato.
À medida que se assistia a um extremar de posições, muitos supervilões acabariam também por tomar partido. Alguns aliaram-se ao Capitão América, outros aderiram à causa do Homem de Ferro. Houve ainda um pequeno grupo, constituído tanto por heróis como por malfeitores, a optar pela neutralidade. Poucos foram, no entanto, aqueles que escaparam aos ricochetes da Guerra Civil.

*Resenha disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2013/04/do-fundo-do-bau.html

Histórico de publicação: Em consequência de outros compromissos profissionais do artista Steve McNiven, em agosto de 2006, a Marvel anunciou o adiamento em alguns meses de vários capítulos de Civil War. Decisão que implicou atrasos voluntários no lançamento dos títulos periódicos cujas histórias entroncavam na saga. Outra vítima das circunstâncias seria a minissérie Civil War: Front Line, que teve a sua chegada às bancas retardada em várias semanas.
Todas estas alterações ao cronograma editorial visavam evitar que desenvolvimentos importantes do enredo de Civil War fossem precocemente revelados. Por conta dos sucessivos atrasos, o seu epílogo só seria conhecido em meados de fevereiro de 2007, dois meses após o inicialmente previsto.

Uma das vítimas das
 alterações de calendário da Marvel.
Enredo: Já depois de, numa das suas proverbiais erupções de fúria irracional, o Hulk ter causado acidentalmente a morte a 26 pessoas em Las Vegas, e de 99% da população mutante ter sido dizimada por uma mentalmente perturbada Feiticeira Escarlate, um outro infausto acontecimento protagonizado por meta-humanos suscita a histeria coletiva.
Em Stamford, pequena e pacata cidade do Connecticut, os Novos Guerreiros, acompanhados de perto pelas câmaras de televisão devido à sua participação num reality show, invadem uma casa que serve de esconderijo a um bando de supercriminosos evadidos de uma prisão de alta segurança. Um deles, Nitro, usa os seus poderes explosivos para arrasar vários quarteirões numa tentativa desesperada de escapar ao cerco montado pelos heróis.
Quando a poeira assenta, mais de seis centenas de cadáveres jazem entre os escombros fumegantes. Entre eles, os de 60 crianças que se encontravam numa escola primária nas redondezas. Ao desastre, transmitido em direto em rede nacional, sobrevivem apenas Speedball, dos Novos Guerreiros, e o próprio Nitro.
No rescaldo da tragédia são vários os super-heróis que participam nas operações de socorro e que procuram transmitir algum alento às famílias das vítimas. Gestos solidários insuficientes, ainda assim, para calar a profunda revolta que toma conta de muitos cidadãos anónimos, indignados por mais esta carnificina causada por meta-humanos. Nos dias seguintes, essa revolta e indignação dão mesmo lugar a ataques violentos contra superseres. Um dos primeiros alvos é o Tocha Humana do Quarteto Fantástico, quase linchado por uma multidão enfurecida.


Entre as ruínas de Stamford germinaram as sementes da guerra.
Sob forte pressão da opinião pública, o Governo Federal apressa-se a retirar da gaveta a Lei do Registo de Superseres. Nesta sua nova versão, além da obrigatoriedade do registo de todos os indivíduos dotados de habilidades meta-humanas residentes no interior das fronteiras estadunidenses, é-lhes exigido que revelem as suas verdadeiras identidades às autoridades.
Perante a perspetiva de uma medida deste cariz ser aprovada pelo Congresso, a comunidade super-heroica divide-se. Apesar de a ela se ter oposto no passado, o Homem de Ferro assume-se agora como seu principal defensor. Justificando a sua mudança de posição com a necessidade de garantir a segurança dos civis em futuras ações levadas a cabo por meta-humanos. O que, no seu entender, só será possível com treino e monitorização governamentais. Tese subscrita, entre outros, por Hank Pym e Reed Richards, dois dos mais respeitados cientistas mundiais e eles próprios meta-humanos. Mas prontamente rejeitada pelo Capitão América, para quem a Lei do Registo de Superseres retiraria liberdade de movimentos aos heróis e colocaria em risco as suas vidas privadas, assim como os seus entes queridos.
Enquanto o debate sobe de tom, numa reunião secreta com o Presidente dos EUA, o Homem de Ferro exorta-o a avançar o quanto antes com a Lei do Registo de Superseres. Aprovada poucos dias depois, a supervisão da sua aplicação fica a cargo da SHIELD, sob o comando interino de Maria Hill.
Empurrados para a clandestinidade, vários heróis antirregisto aderem ao movimento de resistência fundado pelo Capitão América. A despeito da tensão crescente entre as duas fações, as primeiras batalhas são meramente propagandísticas. Ao passo que o Sentinela de Liberdade e seus aliados continuam a enfrentar supervilões, deixando-os à mercê das mesmas autoridades que os acossam, o grupo liderado pelo Homem de Ferro lança-se numa frenética caça aos refratários sem fazer distinção entre vigilantes e malfeitores.
O primeiro momento de viragem no curso dos acontecimentos ocorre quando o Homem de Ferro persuade o Homem-Aranha a expor publicamente a sua identidade. Decisão que teria repercussões extremamente negativas no porvir do herói e dos que o rodeavam.

Uma decisão de que Peter Parker se arrependeria amargamente.
Ainda com os ecos dessa revelação bombástica a fazerem-se sentir um pouco por toda a parte, o Homem de Ferro faz uma visita à Mansão X, lar dos X-Men. Num tête-à-tête com Emma Frost, o Vingador Dourado procura apurar qual o posicionamento da comunidade mutante face à nova legislação. Pela voz da antiga Rainha Branca do Clube do Inferno, o herói blindado fica a saber que os X-Men nunca aceitariam submeter-se a uma lei que vai contra tudo aquilo em que Charles Xavier acreditava. No entanto, a população Homo Superior, manter-se-á neutral, contanto que deixada em paz.
O segundo episódio que conduz a uma escalada no conflito ocorre quando os Vingadores Secretos (coletivo heroico às ordens do Capitão América) é atraído para uma cilada montada pelas forças pró-registo numa petroquímica. Ao convite do Homem de Ferro para um debate pacífico, o Capitão América responde com uma agressão, usando um dispositivo oculto nas luvas para desativar momentaneamente a armadura do seu antigo amigo e colega Vingador.
No final da escaramuça que se segue entre os dois grupos, o Homem de Ferro espanca selvaticamente o Capitão América. Já os Vingadores Secretos são sumariamente derrotados por Ragnarok, um clone de Thor ao serviço da SHIELD. Trespassado por um relâmpago invocado pelo falso Deus do Trovão, Golias é a primeira baixa na Guerra Civil.

Baixas de guerra: a morte de Golias às mãos de Ragnarok.
A morte de Golias tem, no entanto, o condão de colocar as coisas em perspetiva, levando vários heróis a passarem para o outro lado da barricada. Devido ao elevado número de deserções, a fação pró-registo vê-se obrigada a acelerar o seu plano de operações.
Sem tempo a perder, o Homem de Ferro e o Senhor Fantástico concebem uma prisão na Zona Negativa (dimensão paralela da nossa composta exclusivamente por antimatéria) para confinar todos os insurgentes capturados. Por corresponder à 42ª iniciativa que ambos tomaram desde o desastre de Stamford, o presídio é batizado de Projeto 42.
O movimento pró-registo sofre entretanto outro revés inesperado. Ao tomar consciência que quem não aceitar registar-se será encarcerado por tempo indeterminado, o Homem-Aranha troca de lado, juntando-se à resistência chefiada pelo Capitão América. Não sem antes aplicar uma valente tareia no Homem de Ferro. O que o Escalador de Paredes não sabia é que o seu novo traje blindado (um presente de Tony Stark) servira para este lhe analisar secretamente os poderes em busca de uma forma de anulá-los.
Entretanto, o Justiceiro, que conseguira infiltrar-se no quartel-general do Quarteto Fantástico, apodera-se dos planos do Projeto 42. Na posse dessa informação preciosa, o Capitão América e seus aliados tomam de assalto a prisão na Zona Negativa, com o propósito de libertarem todos os reclusos. São, no entanto, traídos por Tigra que tinha em segredo alertado o Homem de Ferro para o ataque. Acolitado por um grupo de supervilões recrutados à força para as suas fileiras, o Vingador Dourado procura desesperadamente impedir a fuga em massa. No calor da batalha, todos os beligerantes são misteriosamente transportados para Time Square, bem no coração de Nova Iorque.
Perante uma plateia horrorizada, o Capitão América, com a ajuda do Visão, derrota o Homem de Ferro e prepara-se para lhe desferir um golpe potencialmente fatal. É, no entanto, detido no último momento por elementos das equipas de socorro que haviam entretanto acorrido ao local.
Tomando consciência do absurdo de uma guerra fratricida que, em última análise, ele desencadeara, o Capitão América remove a máscara e rende-se.
Chegava assim ao fim, sem um vencedor declarado, a trágica Guerra Civil. E nada voltaria a ser como dantes no Universo Marvel.


"Coragem alimenta as guerras, mas é o medo que as faz nascer"
(Émile-Auguste Chartier, ensaísta e filósofo francês do século XX)
Repercussões:

* Já depois de cessadas as hostilidades entre as duas fações conflitantes, o Capitão América seria, aparentemente, assassinado por Ossos Cruzados quando subia a escadaria do tribunal onde seria julgado. O vilão agia às ordens do Caveira Vermelha e de Sharon Carter, agente da SHIELD e ex-namorada do herói a quem o Doutor Fausto fizera uma lavagem cerebral. Seria entretanto revelado que o disparo supostamente fatal fora efetuado pela jovem;

Ecos do pós-guerra: a morte do supersoldado.
* Quase todos os Vingadores Secretos foram amnistiados pelo Governo. Alguns optaram, ainda assim, por manter-se na clandestinidade e outros houve que emigraram para o Canadá;
* Nomeado diretor da SHIELD, o Homem de Ferro reuniria a sua própria equipa de superseres, os Poderosos Vingadores;
* Os Novos Vingadores, por seu turno, passariam à clandestinidade. Punho de Ferro, Doutor Estranho e Ronin (vulgo Clint Barton, anteriormente conhecido como Gavião Arqueiro) juntar-se-iam logo depois ao grupo;
* Entre as ruínas do desastre de Stamford, seria construído Camp Hammond, o novo centro de treino de meta-humanos da SHIELD, assim batizado em homenagem ao primeiro Tocha Humana (ver post anterior);
* Sob a tutela férrea de Norman Osborn, os Thunderbolts seriam convertidos numa agência federal;
* Ainda abalados pelos eventos dramáticos da Guerra Civil, o Senhor Fantástico e a Mulher Invisível abandonariam temporariamente o Quarteto Fantástico, sendo substituídos pelo Casal Real de Wakanda: Pantera Negra e Tempestade.

Trivialidades:

* No prelúdio de Siege, (arco de histórias lançado nos EUA em 2009/10), Loki e Norman Osborn discutem a possibilidade de engendrar uma tragédia semelhante à que serviu de catalisador à Guerra Civil para justificar um ataque contra Asgard;
* Os eventos da Guerra Civil foram igualmente referenciados no decurso da minissérie Avengers versus X-Men (2012), quando o Homem de Ferro relembrou o Capitão América do período em que ele agiu na orla da legalidade;
* Combinação do intelecto de Otto Octavius com o corpo de Peter Parker, o Homem-Aranha Superior descreveu a Guerra Civil como um conflito declarado pelo Capitão América em prol do direito à privacidade. Do seu ponto de vista, tudo se resumiu à necessidade de uma boa parte dos vigilantes mascarados preservarem o seu anonimato como forma de salvaguardarem os seus entes queridos de eventuais represálias por parte dos seus inimigos.


As feridas sararam, as cicatrizes ficaram.
Versões alternativas: Em What if? Civil War nº1 (edição dada à estampa em fevereiro de 2008), foram apresentados dois desfechos diferentes para a Guerra Civil. Ao visitar o túmulo do Capitão América no Cemitério Nacional de Arlington, Tony Stark é abordado por um estranho. Da boca deste ouve a descrição detalhada de duas linhas de tempo divergentes, nas quais o curso dos acontecimentos foi substancialmente alterado por circunstâncias de vária ordem.
Na primeira narrativa, é-lhe mostrado o que teria acontecido se o Capitão América tivesse liderado toda a comunidade super-heroica contra a Lei do Registo Obrigatório. Nesta realidade paralela, o cisma seria evitado pela morte prematura de Tony Stark, infetado pelo tecnovírus Extremis. Em consequência disso, o Governo norte-americano elegeria o Sentinela da Liberdade como porta-voz oficial dos meta-humanos.
Contestatário da medida que contemplava a exposição das identidades civis dos registados, o velho soldado conseguiria, a custo, postergar a sua aprovação no Congresso. No entanto, a exemplo do que se verificou no universo canónico, o desastre de Stamford precipitaria uma dramática cadeia de eventos que, sem a intercessão do Homem de Ferro junto das autoridades, as levaria a retaliar de forma desproporcionada. Sob o comando do agente especial Henry Peter Gyrich, as forças governamentais levariam a cabo operações militares que desbaratariam a resistência. Entre as muitas vítimas da carnificina que daí adviria, contar-se-ia um número assinalável de heróis.

Um olhar diferente sobre os eventos da Guerra Civil.
A segunda realidade seria bastante mais auspiciosa: em vez de optar por uma estratégia de intimidação, o Homem de Ferro pediria ajuda ao Capitão América. Admitindo as suas dúvidas quanto às virtualidades da Lei de Registo Obrigatório e à sua própria conduta no respetivo processo de implementação, o Vingador Dourado evitaria assim que o seu antigo colega de equipa usasse a arma escondida na luva para lhe desabilitar a armadura.
De seguida, os dois heróis uniriam forças para deter Ragnarok, o furioso clone do Deus do Trovão, entretanto libertado pela SHIELD. Convencido da boa vontade do Homem de Ferro, o Capitão América acederia ao seu pedido de ajuda para aplicar o programa de registo, sendo o único a quem os outros heróis se disporiam a confiar as suas identidades. Evitado o conflito entre apoiantes e opositores da Lei do Registo Obrigatório, centenas de vidas seriam poupadas e abrir-se-ia uma nova era de paz e segurança.
Quanto ao estranho, era, afinal, Uatu, o Vigia responsável pela monitorização da atividade humana. Ao consciencializar-se do futuro radioso que boicotou com as suas ações, Tony Stark fica devastado e chora junto à última morada do amigo tombado.

Sequela: Anunciada com pompa e circunstância pela Marvel em dezembro de 2015, Civil War II vem sendo publicada em terras do Tio Sam desde junho último. Brian Michael Bendis (história) e David Marquez (arte) repartem os créditos na produção desta sequência direta da saga original, no ano em que se assinala o seu décimo aniversário.
Agora do mesmo lado da barricada, o Homem de Ferro e o Capitão América têm a Capitã Marvel como adversária num conflito em larga escala que volta a pôr heróis contra heróis e que promete abalar os alicerces da Casa das Ideias.
Desta feita o rastilho é aceso pelo surgimento de uma personagem agraciada com poderes precognitivos que lhe fornecem visões nítidas de futuros prováveis. Um talento extraordinário que, no entendimento da Capitã Marvel, deverá servir como instrumento de prevenção de delitos. Tese conflitante com a do Homem de Ferro (e, a bem dizer, com os princípios basilares de qualquer Estado de Direito) para quem, em circunstância alguma, o castigo deverá preceder o crime.
Em resultado dessas divergências aparentemente insanáveis, assiste-se a um progressivo extremar de posições no seio da comunidade super-heroica que culmina num novo cisma. Do cisma à guerra fratricida é um pequeno passo e poucos são os que se conseguirão manter à margem dela.

Dez anos depois, nova guerra fratricida abala o Universo Marvel.
Noutros media: Data de julho de 2012 a primeira adaptação de Civil War a outros segmentos culturais. Quatro anos antes da sua chegada ao cinema, a saga teve direito a uma novelização da autoria de Stuart Moore, escritor celebrizado pelo seu trabalho com o Príncipe Submarino. O livro inaugurou, de resto, uma série literária baseada em quatro histórias fundamentais na memorabilia da Marvel.
Tomando diversas licenças poéticas relativamente ao material original, Moore ambientou a sua história no primeiro mandato presidencial de Barack Obama, e não na ponta final do consulado de George W. Bush. Para que não restassem dúvidas quanto ao contexto político, logo no capítulo de abertura do livro, Tony Stark menciona o polémico Obamacare.
Essa não é, no entanto, a única diferença assinalável em relação à banda desenhada. Nela, após expor publicamente a sua identidade, o Homem-Aranha vê-se forçado a celebrar um pacto com Mefisto para reverter essa situação. Processo que, para infortúnio do herói, incluiu o apagamento das memórias que Peter Parker e Mary Jane Watson tinham um do outro, inclusive do casamento de ambos. Já na versão saída da pena de Moore, Peter nunca chegou a dar o nó com MJ. Premissa retirada de One More Day, realidade alternativa que explora precisamente essa possibilidade.
Da novelização de Civil War nasceria um audiolivro. Lançado em março de 2013, era composto por seis CDs e, além do elenco que emprestava as vozes à multitude de personagens, incluía ainda efeitos sonoros nas cenas mais dramáticas.
Tanto o jogo de vídeo Marvel Ultimate Alliance 2 (2009) como o filme Captain America: Civil War (2016) são igualmente baseados na saga. No entanto, por oposição ao primeiro, o segundo contém apenas alguns dos elementos-chave da história original. Exemplos: a chacina de civis numa explosão provocada por meta-humanos e o facto de a mãe de um deles, Miriam Sharpe, culpar diretamente Tony Stark pela morte do filho.
Uma vez que as identidades secretas são um conceito estranho ao Universo Cinemático Marvel, o enfoque da película incide essencialmente na necessidade de supervisão das atividades meta-humanas por parte do Governo americano.

Capitão América: Guerra Civil foi um campeão de bilheteira.

Vale a pena ler?

"De que lado ficarás?". Foi sob este lema enganador que, há precisamente uma década, Civil War foi lançada entre enorme alarido. Enganador porque, contrariamente ao que sugere a estafada frase de efeito, a história (também ela, à primeira vista, um cliché) não se resume à escolha de um lado num conflito que, pela sua natureza fratricida, nunca poderia ter um vencedor inequívoco.
À imagem e semelhança das guerras civis do mundo real que dividem nações e famílias e transformam em adversários amigos de ontem, fosse qual fosse o resultado desta rixa entre heróis, todos sairiam a perder. Mais ainda quando ambas as partes defendiam pontos de vista válidos e cometeram terríveis erros de julgamento no decurso da liça.
Convém lembrar que, dentro da armadura de alta tecnologia do Homem de Ferro ou atrás do escudo indestrutível do Capitão América, se escondem homens. E homens são falíveis. Sendo a magnitude das consequências das suas ações proporcional ao respetivo nível de poder e de responsabilidade.
Não faltará, ainda assim, quem tenha cedido à tentação de tomar partido num afrontamento clássico entre a liberdade e a segurança. Dois valores essenciais em qualquer sociedade democrática. Mas que, apesar de indissociáveis, nem sempre coabitam harmoniosamente.
Haverá verdadeira liberdade sem uma vigilância constante por parte das autoridades contra as múltiplas ameaças que impendem sobre os cidadãos? E que parcela da nossa liberdade individual estaremos dispostos a penhorar num regime securitário? Questões prementes que encapsulam um dos principais dilemas das sociedades atuais. E a que Civil War serve de alegoria quase perfeita, sem aventar respostas simplistas. É, pois, nesse busílis trágico do conflito entre as fações pró e antirregisto que repousa a beleza de uma narrativa consideravelmente menos superficial do que muitos a continuam a pintar.
Discordam? Façamos então o seguinte exercício de imaginação: e se os eventos descritos na saga ocorressem no mundo real? E se devido às constantes batalhas entre seres superpoderosos a operar fora da lei perdessem o vosso lar, o vosso emprego ou um ente querido? No entanto, como ninguém conhece as suas verdadeiras identidades, os causadores da vossa desgraça não poderiam ser responsabilizados pelas suas ações. Continuariam a tolerá-las e a defender a existência desses vigilantes anónimos? Continuariam a achar que a razão assiste ao Capitão América?
Vejamos agora as coisa sob um prisma diferente: imaginem que, um belo dia, acordam com capacidades muitos superiores às do comum dos mortais. Aceitariam de bom grado serem cooptados pelo Governo do vosso país para colocarem os vossos poderes ao serviço do bem maior? Aceitariam ter a vossa privacidade devassada pelas autoridades, pondo em risco as pessoas que mais amam? Ainda querem ir a correr juntar-se à equipa do Homem de Ferro?
Acredito que, quando colocadas desta forma, as coisas se tornam um pouco mais complexas. Os mais conscienciosos, pelo menos, pensarão duas vezes antes de escolher um lado da barricada. Os mais sábios talvez optem pela neutralidade. Haverá ainda os que continuarão a tomar partido apenas em função da sua preferência pessoal pelo Capitão América ou pelo Homem de Ferro. Em qualquer dos casos, conforme observei no preâmbulo deste comentário, Civil War nunca foi sobre escolher lados. Como seria isso possível se estão ambos certos e, ao mesmo tempo, errados?
Em temas fraturantes como aquele que serve de mote à saga, sabermos pôr-nos no lugar do outro, fazer um esforço efetivo para compreender as suas motivações e os seus receios é fundamental. Só assim será possível trabalhar em conjunto na busca por respostas a problemas comuns. Quando isso não acontece, quando diálogo fracassa ou sequer é ensaiado, dá-se rédea solta à intolerância. E esta é sempre um bom rastilho para toda a sorte de quezílias de maiores ou menores proporções.
Foi essa a amarga lição que dois Vingadores desavindos aprenderam numa história que é muito mais do que um pretexto para ver super-heróis a trocarem uns sopapos entre si. Mas que, por conta dessa análise redutora feita por muito boa gente, continua a ser polémica e mal-amada. Mesmo por aqueles que, curiosamente, não regateiam elogios ao filme epónimo. Apesar de este fazer uma abordagem muito mais rasa ao dilema que marca o compasso da saga original.
Escusam, porém, de desembainhar as vossas espadas, pois considero Capitão América: Guerra Civil um dos melhores filmes de super-heróis deste ano. Ainda que o título me soe um tanto quanto abusivo, já que, em bom rigor, ele é apenas vagamente inspirado em Civil War. Assunto para uma futura recensão...

Como escolher um lado numa guerra entre a liberdade e a justiça?