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quinta-feira, 17 de novembro de 2016

HERÓIS EM AÇÃO: TOCHA HUMANA



   
   Reminiscência incandescente da Idade de Ouro dos comics, foi um dos arautos da era de maravilhas que deixaram o mundo embasbacado. Sobreviveu às épicas batalhas contra o Príncipe Submarino e aos horrores de uma conflagração planetária, mas não ao desvanecimento do género super-heroico. Resgatado ao oblívio, a glória encalhada no passado, habituou-se a viver à sombra do seu sucessor.

Denominação original: The Human Torch
Criador: Carl Burgos
Licenciador: Timely Comics (1939-49). Atlas Comics (1953-54)  e Marvel Comics (de 1966 ao presente)
Primeira aparição: Marvel Comics nº1 (outubro de 1939)
Identidade civil: James "Jim" Hammond
Local de nascimento: Laboratório do Professor Phineas T. Horton, Brooklyn (Nova Iorque)
Categoria: Androide senciente 
Parentes conhecidos: Tratando-se de um androide, o Tocha Humana não possui verdadeiros vínculos familiares, na aceção biológica do conceito. Ao Professor Horton, seu criador, poderá contudo ser reconhecida a paternidade simbólica daquele que foi o primeiro homem sintético no Universo Marvel. Também Centelha (Toro, no original) foi a dada altura perfilhado pelo herói, que, assim, se tornou pai adotivo do seu adjunto juvenil.
Entre o Tocha Humana e outras formas de inteligência artificial a que a tecnologia do Professor Horton serviu de matriz existem igualmente fortes afinidades. Casos, por exemplo, de Adam II, Volton e, claro, do Visão*.
Afiliação: Agindo sob o disfarce de Jim Hammond nos primórdios da sua longeva carreira de combatente do crime, o Tocha Humana foi paralelamente um agente do Departamento de Polícia de Nova Iorque. Além da já citada parceria heroica com Centelha, ainda na Idade do Ouro, formou temporariamente parelha com Sun Girl, heroína que também lhe serviu de interesse romântico. Seguir-se-ia a fundação dos Invasores**, em conjunto com o Capitão América e o Príncipe Submarino, para travar as forças do Eixo durante a 2ª Guerra Mundial. Regressado ao ativo após longos anos em hibernação, passou pelas fileiras de diversas organizações, como os Vingadores da Costa Oeste ou os Novos Invasores. É atualmente um operacional da SHIELD.
Base de operações: Originalmente, o Tocha Humana tinha em Nova Iorque a sua base operacional. Nos dias que correm está aquartelado em Camp Hammond, o centro de treino da SHIELD para meta-humanos assim batizado em sua homenagem e sediado em Stamford (Connecticut).
Armas, poderes e habilidades: Sem que daí advenha qualquer dano para o seu corpo sintético, o Tocha Humana consegue envolver-se num manto de plasma incandescente. Habilidade que decorre do facto de ele ter cada milímetro de pele recoberto pelas chamadas células Horton. As quais, em contacto com o oxigénio, entram em combustão espontânea. Processo que, inicialmente, o herói não controlava, o que trouxe alguns amargos de boca ao seu criador.
Quando transformado num braseiro ambulante, a energia térmica gerada pelo Mestre do Fogo pode ser canalizada para diversos efeitos, incluindo voar ou disparar rajadas flamejantes que também podem ser concussivas. Importa notar que, no caso das primeiras, a respetiva intensidade oscila entre um simples fogacho e uma irrupção energética equivalente à implosão de uma pequena nova.
Mesmo quando as labaredas provêm de uma fonte externa, o Tocha Humana consegue manipulá-las a seu bel-prazer graças ao seu controlo telecinético sobre a energia térmica ambiental. Antes de sublimar esse talento, nas suas primeiras aparições o herói costumava gritar (!) ordens ao lume. Que, como se de um animal amestrado se tratasse, obedecia aos seus comandos vocais.
Como qualquer ignição, as labaredas geradas pelo Mestre do Fogo alimentam-se de oxigénio, podendo ser extintas com recurso a água, areia, espuma supressora de fogo ou a qualquer outro material clássico de combate a incêndios. Exceto quando as mesmas atingem temperaturas de tal forma elevadas que vaporizam instantaneamente qualquer coisa que entre em contacto com elas.
Durante a Idade do Ouro era comum o Tocha Humana usar o seu corpo incandescente para atravessar paredes, cofres e outros objetos sólidos. Qual míssil humano, conseguia penetrar profundamente no solo ou no casco dos vasos de guerra inimigos na 2ª Guerra Mundial.
Continua, contudo, por aferir a verdadeira extensão dos poderes do herói. Se em determinada ocasião saiu fortalecido de uma explosão termonuclear, noutra quase foi destruído por uma. Certo é que o Tocha Humana, por oposição às suas chamas, consegue sobreviver sem oxigénio. Bastando, para isso, entrar em estase.
Dotado de níveis de força e resistência ligeiramente superiores à média humana por conta da sua fisiologia inorgânica (vide texto seguinte), o Tocha Humana é também um hábil combatente corpo a corpo. Competências de defesa pessoal adquiridas quer pelo treino recebido na Academia de Polícia, quer pelo que lhe foi em tempos ministrado pelo Capitão América.

* Anatomia do Fantasma de Pedra disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/08/herois-em-acao-visao.html
** Prontuário sobre os Invasores em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2015/02/herois-em-acao-invasores.htm

Nem paredes de aço travavam o Tocha Humana.
Fisiologia: Ao ser apresentado ao mundo, no virar da década de 1930, como o primeiro homem sintético da História, o Tocha Humana configurou um caso ímpar no panorama ficcional da época. Não só na banda desenhada mas também na literatura e no cinema. Segmentos culturais onde, até aí, o conceito mais glosado fora o do tradicional robô metálico.
Fazendo amiúde lembrar  um homem de lata, o aspeto dessa figura icónica da ficção científica podia ser mais ou menos antropomorfizado sem, contudo, lograr disfarçar a sua natureza mecânica aos olhos dos leitores e/ou dos espectadores.
Ora. embora composto por materiais inorgânicos, o Tocha Humana é anatomicamente idêntico a um ser humano do sexo masculino. Toda a sua fisiologia reproduz, aliás, até ao mais ínfimo pormenor, a de um homem de carne e osso.
Além de todo um conjunto de órgãos internos artificiais, o androide dispõe igualmente de um sistema circulatório. O sangue sintético do Tocha Humana corresponde, de resto, a uma das suas características fisiológicas mais admiráveis. Não só porque é compatível com todos os fenótipos catalogados (incluindo mutantes) mas, sobretudo, pelas suas reconhecidas propriedades regenerativas. Servindo igualmente de veículo transmissor de habilidades meta-humanas.
Recorde-se que foi depois de receber uma transfusão sanguínea do Tocha Humana que a heroína britânica Spitfire adquiriu a sua supervelocidade. Já uma segunda transfusão, recebida décadas mais tarde, salvou-lhe a vida e restaurou-lhe a juventude.

Spitfire ganhou supervelocidade graças
 ao sangue sintético do Tocha Humana.
De igual modo, os poderes latentes de Centelha, Homo Superior e antigo sidekick adolescente do herói, manifestaram-se apenas na sequência da sua exposição às células Horton. Nelas reside, com efeito, o segredo para estas milagrosas propriedades do sangue sintético do Tocha Humana. Ao cabo de uma investigação científica exaustiva, o Pensador Louco concluiu que a sua composição inclui plástico e polímeros de carbono que lhes possibilitam mimetizar as estruturas moleculares presentes nas células orgânicas. Mesmo em pequenas amostras, as células Horton conseguem produzir e acumular enormes quantidades de energia.
Não obstante tudo isto, o Mestre do Fogo possui, grosso modo, as mesmas necessidades e fraquezas de qualquer ser humano. Conforme atesta o facto de, em diversas ocasiões, ele ter sido mostrado a dormir ou a ingerir alimentos. Centelha chegou mesmo a sugerir humoristicamente que o seu mentor estaria apetrechado com um aparelho excretor. Brincadeiras à parte, tanto nas suas estórias clássicas como nas atuais, o Tocha Humana já demonstrou ser vulnerável, entre outras coisas, a gases tóxicos, à hipnose e a ataques telepáticos.
Curioso observar, no entanto, que a representação anatómica da personagem tem variado significativamente ao longo do tempo. Sobretudo desde que ele ganhou uma segunda vida no Universo Marvel, em meados dos anos 1960. Desde então, vários foram os cientistas que examinaram e modificaram o corpo robótico do Tocha Humana. Dentre eles, o Pensador Louco, responsável pela sua reativação, foi aquele que mais profundas transformações nele operou.

O Tocha Humana foi o primeiro homem sintético.
À boleia dessas reconfigurações tecnológicas, alguns dos escritores que passaram pelas histórias do Mestre do Fogo enfatizaram a sua origem mecânica. Por um lado, expondo sem pudor as suas entranhas cibernéticas (servomotores, circuitos elétricos, etc.); por outro, sugerindo que o androide obedece a uma programação predefinida e suscetível de ser alterada. Elementos inovadores que levaram a uma gradual desumanização da personagem, lembrando os leitores que estão em presença de uma máquina. E em prejuízo das características fisiológicas que tinham feito do Tocha Humana uma singularidade entre a constelação de inteligências artificiais que, após o seu surgimento, foram despontando nos quadradinhos e na ficção científica.

Tocha Humana: maravilha ou ameaça? 
Histórico de publicação: Com uma história assinada pelo próprio Carl Burgos, seu criador, o Tocha Humana estreou-se nas páginas de Marvel Comics nº1. Estávamos em novembro de 1939 e, em boa verdade, tratou-se de uma dupla estreia. De uma assentada, o neófito da Timely apadrinhava o lançamento do mais recente título periódico da editora. O mesmo que, mais de uma vintena de anos transcorridos, lhe daria o nome que a imortalizou nos pergaminhos da 9ª Arte.
Caído desde logo nas boas graças dos leitores, a quem incendiava a imaginação com as suas façanhas, a popularidade do Tocha Humana rendeu-lhe uma série própria. Seria, de resto, um dos primeiros super-heróis a beneficiar de tal privilégio, reforçando dessa forma o estatuto de coqueluche da Timely. Que, por esses dias, procurava conquistar o seu lugar ao sol no efervescente e competitivo mercado dos comics, alavancado pelo surgimento recente de personagens como Batman e Superman.



Em cima: Carl Burgos, o criador do Tocha Humana.
Em baixo: a sua estreia em Marvel Comics nº1 (1939).
Ao mesmo tempo que vivia trepidantes aventuras em The Human Torch (cujo número inaugural chegara às bancas norte-americanas no outono de 1940), o herói flamejante continuou a ser presença assídua noutros títulos da editora ao longo de todo o decénio. Captain America, Young Allies e Mystic Comics foram algumas das séries que, durante esse período áureo, acolheram tão distinto convidado.
Ainda em 1940, mais precisamente em maio e junho desse ano, o Tocha Humana coprotagonizaria com o Príncipe Submarino* aquele que é que considerado o primeiro crossover da história da banda desenhada. Entretanto renomeada de Marvel Mystery Comics, a série mensal que dera a conhecer ao mundo o primeiro homem sintético serviu de arena àqueles que eram, à época, os dois titãs da Timely. Uma batalha de contornos épicos que contemplava também um duelo elemental, visto que Namor e o Tocha Humana simbolizavam, respetivamente, a Água e o Fogo.
Narrada sob o ponto de vista dos dois contendores, a peleja espraiou-se por outras tantas edições de Marvel Mystery Comics, levando ao rubro as emoções dos leitores. Por exigência destes, assistir-se-ia, ao longo de toda a Idade do Ouro, a várias reedições desse confronto titânico.

Fogo versus Água.
Reprodução de um duelo clássico da Idade do Ouro.

Numa época em que os super-heróis prosperavam, parecia impossível os fãs cansarem-se das proezas da Primeira Maravilha. Exceção feita ao Capitão América, nenhuma outra personagem da Timely apareceu em tão grande número de histórias como o Tocha Humana. Já diz, no entanto, o velho adágio que "não há mal que sempre dure nem bem que não se acabe". E, de facto, tudo mudaria no pós-guerra. Período histórico que, além da paz e da esperança, trouxe também consigo o inexorável declínio do género super-heroico. À medida que a década de 1940 caminhava a passos largos para o seu epílogo, poucos foram os vigilantes fantasiados que escaparam ao oblívio.
Até então altas e pujantes, as labaredas do Tocha Humana começaram lentamente a esmorecer até se extinguirem. Em março de 1949, a sua série periódica foi cancelada em consequência da abrupta queda nas vendas. Apenas três meses depois seria a vez de à lendária Marvel Mystery Comics ser aplicada idêntica sentença de morte.
Ironicamente, a derradeira história do Tocha Humana publicada com a chancela da Timely Comics recontava a sua origem. Embarcando assim a personagem numa viagem ao passado sem bilhete de regresso ao futuro.
Numa tentativa de reabilitação do género super-heroico, em 1954 a Atlas Comics (herdeira da Timley Comics) lançou Young Men, série antológica que compilava algumas das histórias mais emblemáticas de Capitão América, Príncipe Submarino e Tocha Humana. A iniciativa redundaria, porém, num fiasco e duraria menos de um ano. Com os super-heróis a cambalearem pelas ruas da amargura, nem os mais otimistas se atreviam então a augurar-lhes um futuro risonho.

O Tocha Humana em destaque na capa de Young Men nº25 (1954).
Empurrado para a obscuridade, onde já definhavam muitos dos seus coevos da Idade do Ouro, o Tocha Humana por lá permaneceria durante doze longos anos. Sendo finalmente resgatado das catacumbas da memória coletiva em 1966. Apenas para ser morto em Fantastic Four Annual nº4. Não sem antes travar conhecimento com o seu jovem e irrequieto epónimo, Johnny Storm.
A morte nos quadradinhos é, no entanto, quase sempre um estágio temporário. Especialmente quando o suposto defunto é um androide. Foi, pois, sem grande surpresa que, alguns anos depois, os leitores reagiram à revelação de que o Tocha Humana original fora, afinal, reconfigurado e reprogramado para ser o Vingador robótico conhecido como Visão. Quando esta tese foi desmentida, os Vingadores não descansaram enquanto não recuperaram o verdadeiro corpo do Mestre do Fogo. Que, graças ao engenho científico de Hank Pym, seria revivido. O mesmo não acontecendo, porém, com a sua glória de outrora.
Mesmo sem o fulgor de outros tempos, o Tocha Humana clássico tem vindo gradualmente a recuperar notoriedade na mitologia da Marvel. Efeito direto da sua participação em The New Invaders. Título baseado na bem-sucedida série mensal dos Invasores editada nos anos 1970, e que vem sendo dado à estampa desde 2014.
O que quer que o futuro reserve à Primeira Maravilha, nada nem ninguém conseguirá alguma vez apagar o seu lastro incandescente na história da Casa das Ideias, em cujas paredes escreveu o seu nome com letras de fogo grego.


All New Invaders (cima) devolveu o Tocha Humana à ribalta.
Em baixo: o elenco original dos Invasores.
Origem: Pioneiro no campo da inteligência artificial e da robótica, o Professor Phineas T. Horton projetou um androide capaz de mimetizar praticamente todas as funções orgânicas de um ser humano, e também as cognitivas.
Usando exclusivamente materiais inorgânicos no processo de construção, o cientista criou dessa forma o primeiro homem sintético. Cuja epiderme estava totalmente recoberta pelas chamadas células Horton. De origem fotoelétrica, estas serviam-lhe de fonte de energia, constituindo simultaneamente a única deficiência da criatura. Devido à sua extrema volatilidade, as células Horton entravam em combustão espontânea em contacto com o oxigénio. Sem, contudo, danificar o corpo do androide.
Apesar dessa contrariedade, o Professor Horton resolveu anunciar a sua invenção ao mundo, convocando uma conferência de imprensa para o efeito, em novembro de 1939. Perante uma pequena multidão de repórteres céticos, o cientista mostrou como o androide irrompia em chamas ao permitir a entrada de oxigénio no interior do cilindro de vidro onde ele se encontrava confinado. Mas as coisas não correram exatamente como Horton planeara, com os jornalistas presentes a reagirem com um misto de escárnio e pavor.

O Professor Horton apresenta a sua criação ao mundo.
Descrito pelos tabloides como uma potencial ameaça à segurança pública, o surgimento do Tocha Humana gerou, naturalmente, alarme social. Perante este quadro, o Presidente dos EUA emitiu um decreto intimando Horton a neutralizar de imediato a sua criação. Foi assim que a Primeira Maravilha acabou enterrada várias dezenas de metros abaixo do nível do solo dentro de um caixão de concreto.
Enquanto Horton retomava a sua pesquisa na esperança de encontrar uma forma de evitar que o androide se inflamasse em contacto com o ar - ou que, pelo menos, aprendesse a controlar as suas labaredas - o Tocha Humana logrou evadir-se da sua prisão subterrânea. Proeza só possível devido a uma pequena rachadura no seu caixão de cimento que permitiu a entrada de oxigénio em quantidade suficiente para ativar as células Horton que revestiam o seu corpo.
Uma vez em liberdade, o Tocha Humana provocou acidentalmente vários focos de incêndio dispersos pela cidade de Nova Iorque, gerando pânico à sua passagem. Por fim, a sua jornada caótica conduziu-o à propriedade de Anthony Sardo, um criminoso oportunista que, tirando proveito da desorientação do androide,  usaria durante algum tempo os seus formidáveis poderes  para cometer uma série de delitos.
Quando tomou consciência das más intenções de Sardo, o Tocha Humana rebelou-se, acabando por, inadvertidamente. desencadear uma explosão que tiraria a vida ao bandido. Em consequência desse trágico episódio, e já depois de ter aprendido finalmente a controlar os seus poderes, o androide jurou solenemente servir a Humanidade.
Para levar a cabo essa árdua missão, o Tocha Humana passaria a contar logo depois com o voluntarismo de Centelha. De seu nome verdadeiro Thomas Raymond, Centelha era o filho adolescente de um casal de cientistas nucleares nascido com o talento mutante de controlar o fogo devido aos níveis de radiação a que haviam sido expostos os seus progenitores.
Mais ou menos pela mesma altura, movido pelo mesmo espírito cívico que o levara a operar como vigilante, o Tocha Humana criou a persona de Jim Hammond para ingressar no Departamento de Polícia nova-iorquino. Identidade civil que abandonaria ao cabo de pouco tempo. Continuando, todavia, a colaborar oficialmente com as autoridades municipais como Tocha Humana.
Quando os EUA entraram na II Guerra Mundial, o Mestre do Fogo e o seu adjunto juvenil aliaram-se a outros super-heróis para, nos campos de batalha europeus ou na frente do Pacífico, combaterem as forças do Eixo que ameaçavam a liberdade mundial. Nas fileiras dos Invasores, lutou, entre outros, ao lado do Capitão América e do Príncipe Submarino, seu antigo némesis.

Auxiliado por Centelha, o Tocha Humana
frustra os sinistros planos de um comando nipónico.
Na continuidade da Marvel, o Tocha Humana foi, aliás, o verdugo de Adolf Hitler. Com o Exército Vermelho às portas de Berlim, ele e Centelha invadiram o bunker do Fuhrer momentos antes de este se suicidar. Apesar dos seus esforços, o herói flamejante não conseguiu convencer o tirano a entregar-se aos americanos em vez de se render aos soviéticos. Quando Hitler disparou sobre ele, o Tocha Humana incinerou-o vivo com uma rajada de plasma incandescente.
Findas as hostilidades, o Tocha Humana seria desativado e enterrado sob as areias escaldantes do Deserto de Mojave. A sua hibernação seria, contudo, interrompida pelo ensaio de uma bomba atómica. Ao tomar conhecimento de que Centelha fora capturado e lobotomizado pelos soviéticos, o Mestre do Fogo resgatou o seu antigo parceiro e filho adotivo. Descobrindo entretanto que os seus poderes, embora amplificados pela radiação da bomba atómica que o despertara, também se tinham tornado mais instáveis.
Temendo representar uma ameaça para a Humanidade, o Tocha Humana regressou ao Deserto de Mojave e libertou toda a energia acumulada no seu corpo sintético, induzindo assim a própria desativação. Permanecendo inerte e esquecido por vários anos até ser encontrado pelo Pensador Louco que o tentou usar para liquidar o Quarteto Fantástico. Episódio que assinalou a sua reintrodução na continuidade moderna da Casa das Ideias.

Origem e evolução do Príncipe Submarino em: http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/05/herois-em-acao-namor-o-principe.html

Fogo contra fogo. ´
O Tocha Humana original defronta o seu sucessor em Fantastic Four Annual nº4 (1966).

Trivialidades:

* São muitos os leitores que ignoram até hoje que Johnny Storm, o celebérrimo Tocha Humana do Quarteto Fantástico, herdou esse título do seu antepassado da Idade de Ouro dos quadradinhos. No princípio dos anos 1970, o benjamim da equipa capitaneada pelo Senhor Fantástico chegou mesmo a adotar brevemente um visual inspirado no do Tocha Humana original, apresentado nas páginas de Fantastic Four Vol.1 nº132 (edição datada de março de 1973);

A estreia do uniforme vermelho e dourado de Johnny Storm,
que teve como modelo o do Tocha Humana original.
* Muitos são aqueles também que desconhecem por completo que, na sua primeira aparição, o cabelo do herói era ruivo, passando a loiro na edição seguinte; ou, ainda, que ele costumava deixar pegadas de fogo por onde passava, as quais demoravam horas a extinguir-se naturalmente;
* Apesar de o Tocha Humana atuar frequentemente de cara descoberta, nem a imprensa nem o público alguma vez conseguiram identificá-lo como Jim Hammond;
*Em linha com uma multitude de publicações do género, The Human Torch serviu fins propagandísticos durante a II Guerra Mundial. Impregnadas de fervor patriótico, era comum as historietas do Mestre do Fogo incluírem referências a episódios reais do conflito em curso. Pretendia-se desse modo enaltecer o esforço de guerra americano e, por inerência, a causa aliada;
* Conforme foi referido anteriormente, Camp Hammond, o centro de treino da SHIELD para meta-humanos, foi assim nomeado em homenagem ao Tocha Humana. Que, em tempos, teve também direito a uma estátua no interior do recinto, em cuja base se podia ler a seguinte inscrição: "Jim Hammond, a primeira das maravilhas. Ele mostrou-nos que os heróis podem ser criados." O monumento seria, contudo, derrubado por uma turba enfurecida durante a saga Reinado Sombrio (Dark Reign, 2009), quando, após desmantelar a SHIELD, Norman Osborn ordenou o encerramento das suas instalações espalhadas pelo globo;

Jim Hammond, agente da SHIELD.
*Apesar de ter aprendido a voar muito precocemente, por algum motivo o Tocha Humana não fez uso dessa habilidade em algumas das suas primeiras aventuras. Era, porém, capaz de correr mais depressa do que qualquer automóvel da época e de saltar a grandes alturas;
* Incendiário (Firebug), Mestre do Fogo (Fire Master) e Primeira Maravilha (First of the Marvels) são os principais epítetos utilizados para cognominar o Tocha Humana. Devendo-se este último não ao facto de ele ter sido o primeiro super-herói da Casa das Ideias (a sua estreia foi precedida em alguns meses pela do Príncipe Submarino), mas por lhe terem cabido as honras de inaugurar Marvel Comics. Título mensal que, como explicado acima, daria nome à editora anteriormente conhecida como Timely Comics e Atlas Comics;
* No Brasil, as histórias do primeiro Tocha Humana foram publicadas sob os auspícios de diversas editoras. Foi, todavia, com a chancela da Bloch que, entre 1975 e 1976, ele granjeou maior notoriedade em Terras Tupiniquins, ao ter direito a uma série mensal em nome próprio. Esta, além de servir de repositório ao material antigo da personagem publicado pela Timely Comics na década de 40 do século transato, reproduzia igualmente capas e histórias de um título regular que o herói flamejante estrelara em 1974 nos EUA. Como bónus, O Tocha Humana incluía ainda aventuras a solo do seu epónimo, Johnny Storm.
Mais recentemente, em 2015, foi a vez da editora Salvat lançar uma antologia das histórias emblemáticas do Tocha Humana original, tomo integrado na coleção Os Heróis Mais Poderosos da Marvel.

Dilúvio de fogo.
Duelo de Tochas Humanas a abrir a série solo do herói editada pela Bloch.
Noutros media: Por contraponto à sua versão contemporânea, o Tocha Humana clássico é um ilustre desconhecido do grande público. Contam-se, de resto, pelos dedos de uma mão as suas incursões no panorama audiovisual. Facto que, sem sombra de dúvida, contribui para reforçar esse seu semianonimato. Somente em 1994, num episódio avulso da primeira temporada da série animada Fantastic Four, é que o Mestre do Fogo timidamente se aventurou fora da banda desenhada.
Nessa sua estreia televisiva, a personagem teve, porém, a sua origem retocada. Na nova versão da sua história, ele continuava a ser um androide, mas projetado por Reed Richards. O que aconteceu depois de o líder do Quarteto ter descoberto uma forma de replicar os poderes incandescentes de Johnny Storm. Com esta cambiante, inverteu-se a ordem cronológica da aparição dos dois Tochas. Corruptela histórica apenas percecionada por verdadeiros eruditos da 9ª Arte.
Desde esta sua discreta participação em Fantastic Four, o primeiro Tocha Humana fez apenas dois cameos, um na TV e outro no cinema. O primeiro ocorreu em 2010 num episódio de The Super Hero Squad Show, outra série de animação produzida pelos Estúdios Marvel.
No ano seguinte, a personagem marcou presença em Capitão América: O Primeiro Vingador ( filme já aqui esmiuçado). Numa clara piscadela de olho ao material original, na sequência ambientada na Expo Stark, é mostrado um vislumbre do corpo inerte do androide no interior de um cilindro de vidro estanque e transparente. Uma vez mais, essa deliciosa referência terá passado despercebida ao leigos em "heroilogia".

O Tocha Humana na Expo Stark
em Capitão América: O Primeiro Vingador.



quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

ETERNOS: JOHN BYRNE (1950 - ...)




    Canadiano naturalizado, o seu nome ficará para sempre associado a alguns dos marcos mais importantes na história da Marvel e da DC, ao serviço das quais erigiu o grosso da sua fulgurante - porém, não isenta de controvérsia - carreira. Dono de um traço inconfundível, gosta de explorar a sensualidade das personagens que desenha e detém créditos firmados como argumentista.

Biografia e carreira: A 6 de junho de 1950, John Lindley Byrne nascia na pequena cidade britânica de West Bromwich. Lá viveu, com os pais e avó materna, até aos 8 anos de idade, quando a sua família tomou a decisão de emigrar para o Canadá. Antes, porém, teve ainda tempo para um primeiro contacto com os comics. Este deu-se por via de Adventures of Superman, série televisiva dos anos 50 do século passado, estrelada por George Reeves e que, segundo recordou o próprio Byrne numa entrevista concedida em 2005, era exibida no Reino Unido pela BBC, quando ele tinha cerca de 6 anos.
    Em discurso direto Byrne evocou assim esse episódio da sua infância: "Pouco tempo depois de começar a acompanhar Adventures of Superman na TV, comprei um almanaque australiano chamado Super Comics que incluía histórias de Superboy, Johnny Quick e Batman. Esta última deixou-me positivamente fascinado. Nunca mais a esqueci. Quando, um par de anos depois, a minha família se mudou de armas e bagagens para o Canadá, tive oportunidade de descobrir o enorme repertório de títulos estadunidenses que lá eram distribuídos."
      Em 1962, Byrne teve o seu primeiro contacto com as publicações da Marvel através de Fanstastic Four #5 - título à data ainda produzido pela dupla-maravilha Stan Lee e Jack Kirby. Byrne diria mais tarde a propósito desta sua experiência que a revista tinha um charme muito próprio, totalmente diferente daquilo que ele estava habituado a ler na DC. O traço de Kirby influenciaria, de resto, a sua arte. Tendo, enquanto profissional da 9ª arte, trabalhado com diversas criações e cocriações do Rei. Outra das suas referências futuras seria o estilo naturalista de Neal Adams.
    Corria o ano de 1970 quando Byrne se matriculou pela primeira vez no Alberta College of Art and Design, em Calgary. Durante a sua passagem pela instituição, criou Gay Guy para o jornal universitário. Num registo cómico que Byrne transplantaria para trabalhos vindouros (como She-Hulk), o objetivo era parodiar os esterótipos homossexuais enraizados em muitos dos seus colegas. A personagem serviria igualmente de protótipo para Estrela Polar, um dos membros fundadores da Tropa Alfa (ver texto anterior). Ainda durante este período, Byrne publicou a sua primeira banda desenhada, ACA Comix #1.
     Três anos volvidos, Byrne abandonaria a escola de arte e design sem terminar o curso. No início de 1974 debutaria no circuito profissional dos comics através de uma pequena participação numa edição promocional da Marvel intitulada Foom. No verão desse ano assumiria a arte de uma estória de duas páginas publicada no nº 20 da revista de terror a preto e branco Nightmare, editada pela Skywald Publications. Passando de seguida a trabalhar como freelancer para a Charlton Comics. Foi ao serviço dessa editora que se estreou a desenhar um título colorido, E-Man. Para o qual criaria Rog-2000, um herói robótico cujas aventuras chegaram a ser escritas por Roger Stern e Bob Layton, e que se tornaria uma personagem emblemática da Charlton.
     Algum tempo depois, o trabalho desenvolvido por Byrne na Charlton chamou a atenção do escritor Chris Claremont, que o aliciou a desenhar uma das suas histórias. A oportunidade propiciar-se-ia quando, num inesperado golpe de asa do destino, o ilustrador encarregue da arte de Iron Fist falhou o seu prazo de entrega e a vaga foi oferecida a Byrne. Agradados pela qualidade do seu trabalho, os mandachuvas da Marvel oferecer-lhe-iam um lugar a tempo inteiro como desenhador. Em consequência disso, viu-se obrigado a deixar a Charlton por forma a poder concentrar-se exclusivamente nas empreitadas que lhe eram adjudicadas pelos seus novos empregadores.

John Byrne numa foto tirada em finais dos anos 1980.
    Demorou pouco para que Byrne começasse a desenhar títulos regulares, como The Champions e Marvel Team-Up. Neste último assumiria pela primeira vez a arte de uma história dos X-Men. Em vários números  subsequentes da série fez dupla com Chris Claremont. O mesmo sucedendo no título a preto e branco Marvel Preview, onde pontificava Star-Lord (futuro líder dos Guardiões da Galáxia).
     A sinergia de Chris Claremont e John Byrne que revolucionaria os heróis mutantes mais famosos do planeta principiou em dezembro de 1977, em X-Men #108. Arcos de histórias como Saga da Fénix Negra ou Dias de um Futuro Esquecido valeram-lhes o reconhecimento dos fãs e da crítica, guindando-os ao Olimpo da 9ª arte. Por insistência de Byrne, o seu patrício Wolverine continuou a marcar presença nas aventuras dos Filhos do Átomo. Facto que contribuiria inapelavelmente para a estratosférica popularidade daquela que é, ainda hoje, uma das figuras de proa do Universo Marvel.
      A partir de X-Men #114, Byrne passaria a acumular as funções de coargumentista com as de ilustrador. Foi, aliás, nessa dupla condição que deu o seu contributo na produção daquela que é quase unanimemente considerada uma das melhores histórias aos quadradinhos de todos os tempos: a Saga da Fénix Negra (The Dark Phoenix Saga no original). Chegando ao ponto de haver quem a compare com a Galactus Trilogy, da autoria de Stan Lee e Jack Kirby.

Capa de The Uncanny X-Men #135 (1980) pelo traço de John Byrne.

     Durante a sua passagem por X-Men, Byrne criou a nova benjamim da equipa, Kitty Pryde (vulgo Ninfa, posteriormente rebatizada de Lince Negra), o vilão Proteus (notabilizado também como Mutante X) e, claro, o grupo de superseres seus conterrâneos: a Tropa Alfa. Quando, em março de 1981, Byrne abandonou a série regular dos Filhos do Átomo, a periodicidade desta deixara de ser bimestral para passar a mensal devido ao pico de vendas, que se manteve por muito tempo após a saída do ilustrador canadiano.
   Do portefólio de John Byrne ao serviço da Casa das Ideias, no período pós-X-Men, destaca-se o quinquénio (1981-86) em que tomou em mãos Fantastic Four. Sob a sua batuta, o título viveu uma segunda idade do ouro, com Byrne a introduzir alterações importantes naquela que é uma das mais antigas e emblemáticas equipas de super-heróis na história da banda desenhada. Além da substituição do Coisa pela Mulher-Hulk (personagem cujas aventuras a solo Byrne também escreveria), os leitores puderam testemunhar a transformação da Mulher Invisível no elemento mais poderoso do grupo e o controverso romance entre o Tocha Humana e Alicia Masters (namorada de longa data do seu colega de equipa Ben Grimm).

Com Byrne à frente da série, Fantastic Four viveu novo período áureo.
     Pelo meio Byrne teve ainda tempo para criar a Tropa Alfa. Malgrado o bom desempenho comercial do novo título (meio milhão de exemplares vendidos da primeira edição), Byrne considerava-o pouco divertido e as personagens insípidas. Isto apesar de um dos integrantes da Tropa Alfa, Estrela Polar, se ter tornado o primeiro herói assumidamente gay da Marvel. A sua homossexualidade só seria, contudo,  abordada abertamente enquanto Byrne esteve à frente dos destinos da série.

A Tropa Alfa foi a principal criação de Byrne para a Marvel.
 
     Invocando cansaço criativo e questões de política interna, Byrne deixou Fantastic Four no verão de 1986 Depois de uma fugaz passagem por The Incredible Hulk (do qual escreveria e desenharia apenas 5 números), transferiu-se para a DC.
     Esta não foi, todavia, a sua primeira experiência na Editora das Lendas. No início da década de 1980, aproveitando um ínterim de três meses durante os quais esteve desvinculado contratualmente da Marvel, Byrne concretizou o seu velho sonho de desenhar o Cavaleiro das Trevas, assumindo a arte do primeiro capítulo da minissérie The Untold Legend of the Batman.
    Naquela que foi, portanto, a sua segunda passagem pela DC, Byrne foi incumbido de revitalizar a mitologia do Super-Homem pós-Crise nas Infinitas Terras. Pela mão do desenhador canadiano, o Homem de Aço foi humanizado, vendo significativamente reduzido o seu nível de poder. Trabalho que teve eco fora da indústria dos comics, sendo inclusivamente objeto de reportagem em dois dos mais circunspetos tabloides nova-iorquinos, o Times e o The New York Times.
     A origem e os primórdios da carreira heroica da versão de Byrne do Último Filho de Krypton (epíteto a que Kal-El fazia agora jus devido à eliminação de outros sobreviventes do seu mundo natal) foram apresentados na minissérie The Man of Steel (julho a setembro de 1986). Com a particularidade de Byrne ter produzido duas capas diferentes para o primeiro número da dita. Inaugurando assim a moda das capas variantes, tão voga ainda nos dias que correm.

Man of Steel #1 (1986) lançou a moda das capas variantes.

     Entre as várias alterações introduzidas na mitologia e na personalidade do Homem de Aço, avulta o facto de, nesta nova versão, os seus poderes só se terem começado a manifestar na adolescência e de ele só se ter revelado ao mundo já adulto. Inviabilizando desse modo a existência de um Superboy. Outros elementos clássicos, como a Fortaleza da Solidão e Krypto (o supercão que servia de mascote à versão juvenil do Super-Homem) foram igualmente suprimidos. Em contrapartida, os pais adotivos do herói foram mantidos vivos. Também o seu alter-ego, o acanhado repórter Clark Kent, viu a sua personalidade retocada, convertendo-se num indivíduo mais confiante e extrovertido.
    Ao mesmo tempo que escrevia e desenhava dois títulos mensais do Super-Homem (Superman e Action Comics), Byrne ilustrou os seis números da minissérie Legends. Em 1988, ano em que se assinalou o cinquentenário da criação do herói kryptoniano, Byrne colaborou em mais um punhado de projetos alusivos a essa efeméride: The World of Krypton, The World of Metropolis e The World of Smallville (respetivamente, O Mundo de Krypton, O Mundo de Metrópolis e O Mundo de Smallville, todos editados no Brasil pela Abril).
    Apesar  do sucesso do renovado Homem de Aço, Byrne acabaria por abandonar os seus títulos ao cabo de dois anos, descontente com uma alegada falta de apoio por parte dos responsáveis da DC. Saber-se-ia posteriormente que, na base do diferendo entre o desenhador e a editora, esteve o facto de a versão do Super-Homem licenciada para merchandising ser contrária àquela que fora burilada por Byrne na banda desenhada. Não obstante, muitos dos elementos introduzidos por Byrne na mitologia do herói kryptoniano não só continuam a ser usados no atual Universo DC, como influenciaram adaptações suas ao pequeno e grande ecrãs. Exemplos disso são as duas últimas incursões cinematográficas do Último Filho de Krypton: Superman Returns (2006) e Man of Steel (2013). No primeiro, a cena em que o Super-Homem resgata Lois Lane e demais passageiros de um avião prestes a despenhar-se é decalcada do desastroso voo inaugural de um vaivém espacial retratado na já referida minissérie Man of Steel. Sendo, por outro lado, óbvia a referência à mesma no título escolhido para a mais recente longa-metragem estrelada pela personagem criada por Jerry Siegel e Joe Shuster em 1938.
    Qual filho pródigo que a casa torna, Byrne regressou de seguida à Marvel. Desde meados de 1986 que, num projeto apadrinhado pelo à época seu editor-chefe Jim Shooter, a Casa das Ideias vinha publicando uma nova linha de títulos ambientados fora da continuidade oficial da editora, o chamado Novo Universo. No ano seguinte, já com Tom DeFalco no lugar de Shooter, Byrne foi convidado a assumir os argumentos e a arte de Star Brand (conhecido entre os leitores lusófonos que acompanharam as sua aventuras publicadas em Força Psi da Abril, como Estigma, a Marca da Estrela). Após o cancelamento da série, Byrne transitou para  Avengers West Coast (Vingadores da Costa Oeste), onde reformulou a origem para o Visão.
    A pedido de Mark Gruenwald (antigo argumentista da Mulher-Hulk), em 1989 John Byrne assumiu The Sensational She-Hulk, o segundo título a solo da Amazona de Jade. Com um refrescante registo humorístico, as aventuras da prima do Hulk fizeram as delícias dos leitores. Byrne seria, todavia, afastado da série depois de apenas oito edições publicadas. Na génese desse afastamento estiveram presumíveis divergências com a sua editora, Bobbie Chase. Byrne reassumiria ainda assim o título, a partir do seu 31º número, já com Renée Witterstaetter como sua editora.

Byrne carregado em ombros pela Mulher-Hulk em The Sensational She-Hulk #131.

   Em abril de 1990, Byrne inaugurou Namor, The Sub-Mariner, a nova série mensal do Príncipe Submarino. Tendo as 25 primeiras edições sido escritas e desenhadas pelo canadiano, altura em que a arte ficou a cargo de Jae Lee. Meses depois, Byrne começaria a escrever as histórias do Homem de Ferro. Deixando também aí a sua marca ao ser o primeiro argumentista a retocar a origem da personagem concebida em 1963 por Stan Lee e Jack Kirby. De caminho ainda restituiu ao Mandarim o estatuto de principal némesis do herói blindado.
    Em meados da década de 1990, em linha com a tendência inaugurada pela ascensão de licenciadoras independentes como a Image Comics, Byrne criou material original próprio a ser editado pela Dark Horse Comics. Next Men deu a conhecer aos leitores a história de cinco jovens meta-humanos que eram o resultado de uma experimento militar ultrassecreto. Byrne incutiu na série um registo mais realístico e sombrio do que em qualquer um dos seus anteriores trabalhos. Tendo sido o seu projeto com maior visibilidade, não foi, porém, o único a ser criado nesse âmbito. A par de Next Men, Byrne deu também a conhecer Babe e Danger Unlimited, títulos vocacionados para um público adulto.

Next Men, o mais bem sucedido projeto independente de Byrne.
     Nos anos mais recentes, Byrne tem escrito e ilustrado uma panóplia de títulos da Marvel, DC e de outras editoras. Dentre os seus trabalhos mais ovacionados ressaltam Wonder Woman (com Byrne a elevar a Princesa Amazona ao estatuto de divindade), Spider-Man: Chapter One (série especial em que revisitou algumas das primeiras aventuras do Escalador de Paredes) e várias minisséries baseadas no universo de Star Trek publicadas com a chancela da IDW.
    Durante 15 anos, John Byrne foi casado com a fotógrafa e atriz Andrea Braun, que tinha um filho de uma anterior relação. O rapaz, de quem Byrne se tornou padastro quando ele tinha 13 anos de idade, era ninguém menos do que Kieron Dwyer, um dos mais versáteis e requisitados profissionais atualmente no ativo na indústria dos quadradinhos. Embora tenham vivido juntos apenas por um curto período de tempo, Byrne sempre encorajou o enteado a procurar cumprir as suas aspirações como cartunista. Foi, aliás, graças aos seus contactos que Dwyer conseguiu o seu primeiro trabalho, ilustrando Batman #413, em novembro de 1987.
 
Paródia de Byrne a uma das mais icónicas capas de Fantastic Four.

Prémios e controvérsias: Mercê da sua vetusta e prolixa carreira de iconoclasta, Jonh Byrne foi em múltiplas ocasiões agraciado com prémios e distinções. No seu impressionante currículo sobressaem, por exemplo, dois Eagle Awards para Melhor Artista de Banda Desenhada (conquistados em 1978 e 1979), um Inkpot Award (1980) e um Squiddy Award Para Melhor Ilustrador (1993). Em 2008, Byrne foi nomeado para o Joe Shuster Canadian Comic Book Creator Award (prémio anual criado em homenagem ao cocriador do Super-Homem e que serve para distinguir os maiores talentos em diversas categorias).
    Em paralelo com os prémios e distinções, John Byrne colecionou igualmente controvérsias. A mais antiga e célebre das quais remonta a 1981. Ano em que Jack Kirby começou a falar publicamente sobre a sua crença de que teria sido espoliado dos créditos e lucros decorrentes das inúmeras personagens que concebeu ao longo dos anos para a Marvel.  Em resposta a estas denúncias, Byrne escreveu um polémico editorial, no qual se afirmava orgulhoso da sua condição de mero obreiro na indústria dos comics. Argumentando de permeio que todos os criadores deveriam seguir as regras das companhias para as quais trabalhavam. Tomada de posição que lhe valeu ser satirizado por Kirby e Steve Gerber, numa paródia intitulada Destroyer Duck. Nela pontificava uma personagem a que deram o nome de Booster Cogburn, que pretendia retratar Byrne. Sendo a mesma descrita como uma criatura invertebrada que vivia apenas para servir a gigantesca corporação da qual era, literalmente, pertença.
   No ano seguinte, quando participava num painel de discussão na Dallas Fantasy Fair, Byrne voltou a melindrar suscetibilidades ao tecer considerações pouco simpáticas relativamente a Roy Thomas, veterano escritor de banda desenhada e em tempos editor-chefe da Marvel. Em consequência deste episódio, Thomas ameaçou processar Byrne a menos que este se retratasse publicamente. O que o artista canadiano faria através de uma carta publicada num jornal especializado em assuntos da 9ª arte.
  Quase uma década depois, em 1990, foi a vez de Erik Larsen criar um vilão, Johnny Readbeard (Joãozinho Barba Ruiva, numa clara alusão à tonalidade capilar de Byrne), com o intuito de parodiar o seu colega canadiano. Figurando em algumas histórias de Savage Dragon e Freak Force (títulos produzidos por Larsen para a Image Comics), Johnny Redbeard exibia um crânio enorme carregado por uns membros atrofiados e podia conceder superpoderes a quem lhe desse na real gana.

Caricatura de Byrne da autoria do próprio.
  Além dos já citados, outros nomes sonantes do meio com quem em algum momento Byrne se incompatibilizou foram: Peter David, Marv Wolfman, Jim Shooter e Joe Quesada.
    Gail Simone, que trabalhou em 2006 com Byrne em The All New Atom, descreve o colega nos seguintes termos: "John é muito opinativo. Essa é uma característica comum a muitos artistas e eu não tenho problemas com ela. Honestamente, considero que ele é brilhante e que a sua personalidade vincada contribui para esse brilhantismo".  Análise que parece ser corroborada pelo próprio Byrne que se autodefine como alguém "sem paciência para aturar idiotas".
   Polémicas e traços de personalidade à parte, John Byrne há muito conquistou o direito a figurar no panteão da 9ª arte, a bem da qual se espera que continue a presentear-nos com o seu extraordinário talento por muito e bom tempo.