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sábado, 3 de março de 2018

FÁBRICAS DE MITOS: CHARLTON COMICS


 Fundada atrás das grades, foi uma incubadora de talentos ímpar na sua autossuficiência. Alcançou glória efémera na Idade da Prata graças ao seus "heróis de ação"que inspirariam os Watchmen, de Alan Moore.

Reis da Sucata

Menos glamorosa e com contornos mais invulgares do que as de outras editoras surgidas em plena Idade do Ouro, a história da Charlton Comics começou a escrever-se em 1923. Nesse ano, seguindo as pisadas de tantos outros dos seus conterrâneos, um jovem italiano chamado John Santangelo cruzou o Atlântico à conquista do Sonho Americano.
Desembarcado em Nova Iorque com a sua mala de cartão, Santangelo começou por garantir o sustento a trabalhar como pedreiro antes de se estabelecer como empresário da construção. Estávamos em 1931 e, por esses dias, o rádio era ainda uma vibrante novidade. Mercê desse facto, em muitos lares continuava a ouvir-se música através de gira-discos, grafonolas e outros aparelhos similares. Cuja deficiente acústica nem sempre permitia aos ouvintes acompanharem as letras das suas melodias favoritas.

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Apesar do apregoado
 em anúncios publicitários como este,
 o som das grafonolas e afins 

deixava muito a desejar.
Ocorreu então ao ladino Santangelo, dono de um apurado faro para o negócio, que não faltariam porventura interessados em comprar as letras impressas das canções mais populares. E, se bem o pensou, melhor o fez: pouco tempo depois do seu momento eureca, Santangelo arrecadava já bom dinheiro com a venda de brochuras contendo esse tipo de material.
Havia apenas um pequeno senão: Santangelo não pagava direitos de autor pelas letras que disponibilizava ao público. Processado pela Sociedade Americana de Compositores, Autores e Produtores, de nada lhe valeram em tribunal as suas alegações de que ignorava em absoluto ter cometido uma infração.
Apesar dessas proclamações de inocência, em 1934 Santangelo seria mesmo sentenciado a um ano de prisão efetiva. Pena que cumpriria integralmente na Penitenciária Estadual de New Haven, no estado vizinho do Connecticut; não muito longe de Derby, a pequena cidade para onde ele e a sua cara-metade se haviam mudado tempos atrás, e que viria a acolher a sede da Charlton Publications.
Durante essa sua curta estadia atrás das grades, Santangelo travou amizade com Edward Levy, um ex-advogado a cumprir pena ligeira por crimes de colarinho branco, e que sabia reconhecer uma boa ideia quando lha apresentavam.
Visto que ambos seriam em breve restituídos à liberdade, Santangelo e Levy tornaram-se sócios no que viria a ser um negócio legal de divulgação de letras de canções e das novas tendências musicais. Ambos tinham filhos chamados Charles e, por isso, concordaram em batizar a futura editora de T.W.O. Charles Company.
Numa opção estratégica que se revelaria decisiva para o êxito do empreendimento, Santangelo e Levy adquiriram uma gráfica industrial e uma robusta frota de camiões. A primeira asseguraria a impressão das publicações, a segunda a sua distribuição um pouco por todo o país. Fazendo assim da T.W.O. Charles Company um caso único de autossuficiência no panorama editorial norte-americano.
Da edição à distribuição passando pela impressão, a empresa controlava toda a cadeia de produção a partir do seu quartel-general em Derby. Se por um lado isso lhe conferia uma importante vantagem sobre a concorrência, por outro encorajava uma menor exigência no que à qualidade do material produzido dizia respeito, já que a T.W.O. Charles Company não tinha de prestar contas a quem quer que fosse.

Panorâmica aérea da antiga sede da Charlton Publications, em Derby.
Demolida em 1999, no seu lugar existe hoje um centro comercial.
Quando tudo ficou finalmente a postos, no início de 1942 a T.W.O. Charles Company lançou Hit Pareder, um dos primeiros e mais duradouros magazines musicais publicado ininterruptamente ao longo de meio século. Embora especializada nesse tipo de material, o catálogo da nova editora incluía originalmente livros e revistas de palavras cruzadas.

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Fenómeno de longevidade, o magazine musical Hit Parader
 seria publicado pela Charlton até 1991.
Renomeada Charlton Publications em 1945, no ano seguinte a editora decidiu lançar a sua própria linha de histórias aos quadradinhos. Contrariamente a outras fábricas de mitos que continuavam a laborar a toda a brida, fê-lo no entanto com o exclusivo propósito de manter as suas gigantescas rotativas a funcionarem em contínuo, dado que qualquer pausa acarretaria custos proibitivos.
Assim nasceu a Charlton Comics, com a mediocridade inscrita no seu código genético. Salvo por uma outra pequena pepita, ao longo da sua história notabilizar-se-ia por vender pechisbeque e outras bugigangas de reduzido valor. Dito de outro modo, a Charlton Comics nunca foi uma editora de topo porque nunca aspirou a tal.
Preferindo seguir tendências a criá-las, a Charlton Comics navegou sempre ao sabor das caprichosas correntes do mercado: quando, na viragem da década de 50, os contos de terror estiveram na berlinda, a editora prosperou por conta deles; quando, a meio da década seguinte, as histórias de guerra perderam o seu apelo devido à impopularidade do conflito no Vietname, as suas vendas ressentiram-se.
Há, ainda assim, que lhe reconhecer o mérito de, por contraponto a muitas das suas concorrentes, ter conseguido manter-se à tona entre as cíclicas borrascas que fustigaram a indústria dos comics. Chegando mesmo a crescer em contraciclo. Quando, no final da II Guerra Mundial, as histórias aos quadradinhos entraram em declínio levando à falência de muitas editoras, a Charlton, escorada na sua autossuficiência e no ecletismo das suas publicações, não só resistiu à crise como aumentou a sua lucratividade.
Importa por outro lado ressalvar que, apesar do ecletismo do catálogo da Charlton Comics (no qual cabia uma impressionante variedade de géneros abrangendo desde romance adolescente a façanhas do Velho Oeste passando pela ficção científica), os super-heróis estiveram durante muito tempo subrepresentados nele. Sobrevindo este facto de a editora os ter encarado sempre como um subproduto, logo ainda mais descartável do que os restantes.


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Quatro dos títulos mais emblemáticos
 da Charlton Publications.
Apesar desse seu diminuto apreço pelo género super-heroico, a Charlton já antes se aventurara na publicação de material dessa natureza. Em setembro de 1944, tinha chegado às bancas Yellowjacket, uma antologia de historietas de terror e de super-heróis com o selo da Frank Comunale Publishing Company.
Era comum nos primórdios da indústria dos quadradinhos as editoras mudarem frequentemente de nome, por forma a contornarem o racionamento de papel imposto pelo esforço de guerra e/ou para ludibriarem o Fisco. Escusado será dizer que a Charlton Comics não fugiu à regra tendo criado, além da já mencionada Frank Comunale Publishing Company, várias outras subsidiárias. Casos da Children Comics Publishing (vocacionada para o público infantil, publicou Zoo Funnies, um dos títulos de charneira da editora), da Charles Company Publishing ou ainda da Frank Publications.

Yellowjacket nº1 (1944) incluía as primeiras histórias
 de super-heróis publicadas pela Charlton.
Mantendo-se fiel ao seu perfil low cost - e sempre sob a liderança bicéfala de Levy (diretor executivo) e Santangelo (diretor financeiro) - ao longo dos anos seguintes a Charlton Comics compraria ao desbarato personagens detidas por editoras moribundas ou a braços com graves problemas de tesouraria. Entre as vítimas da sua necrofagia contam-se a Superior Comics e a Mainline Publications (fundada em tempos por Joe Simon e Jack Kirby, criadores do Capitão América), tendo ainda reclamado para si parte dos despojos mortais da Fawcett Comics*. A sua aquisição de maior monta seria, contudo, o Besouro Azul, antigo porta-estandarte do Fox Features Syndicate.
Outra das práticas pelas quais a Charlton Comics se tornou tristemente notória foi a dos baixos salários pagos aos seus colaboradores. O que não a impediu de conseguir arregimentar, na primeira metade da década de 50,  talentosos artistas e escritores aliciados pelo maior controlo criativo que a editora lhes proporcionava. Entre eles pontificavam algumas futuras lendas da Nona Arte, como Steve Ditko (cocriador do Homem-Aranha). Joe Gill (escriba prolífico) e Dick Giordano (ilustrador virtuoso e futuro editor-chefe da DC Comics). Vindo este último, como mais adiante se perceberá, a ficar inextricavelmente ligado ao curto apogeu da Charlton Comics.
Sinalizando o despontar do que se convencionou designar como a Idade de Prata da banda desenhada, em 1956 a DC Comics reformulou alguns dos seus ícones clássicos, como o Flash e o Lanterna Verde. Influenciada pelo renovado vigor assim infundido ao género super-heroico, logo em 1960 (antecipando-se à revolução trazida pela Marvel Comics a partir do ano imediato) a Charlton criou de raiz o seu primeiro super-herói: o Capitão Átomo.

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O visual original do Capitão Átomo.
Já com Dick Giordano a ocupar o posto de seu editor-chefe, entre 1965 e 1968 a Charlton Comics viveu aquele que a generalidade dos fãs e dos historiadores da Nona Arte consideram ter sido o ponto mais alto da sua carreira. Muito por conta, note-se, dos seus "heróis de ação" (action heroes, no original), designação atribuída por Giordano à nova safra de justiceiros fantasiados da editora. Além do Capitão Átomo e de uma versão recauchetada do Besouro Azul, dele faziam parte também Pacificador, Questão, Thunderbolt e Mestre Judoca, citando apenas os mais populares.
Reflexo dessa inédita aposta num género que até então sempre menosprezara, a Charlton Comics adquiriu, em paralelo, os direitos de licenciamento de Flash Gordon e do Fantasma ao King Features Syndicate. Duas personagens consagradas que, naquela época, eram sinónimo de boas vendas.
Pela mão de Dick Giordano, chegaram ainda à Charlton Comics Jim Aparo**, Dennis O'Neill (que escrevia sob o pseudónimo Sergius O’Shaughnessy) e todo um contingente de novos talentos dos quadradinhos que tiveram na editora a rampa de lançamento para as suas meteóricas carreiras. Transformada num alfobre de estrelas em ascensão, por lá passariam anos mais tarde os "galácticos" John Byrne e Jim Starlin.

Dick Giordano (1932-2010) capitaneou
 uma revolução de veludo na Charlton Comics.
Qual fogo-fátuo, o sucesso dos "heróis de ação" da Charlton Comics esfumou-se num abrir e fechar de olhos. Antes ainda da saída de Giordano para a DC no ano seguinte, em 1967 viram os seus títulos mensais serem cancelados sem apelo nem agravo. Chegava assim ao fim o curto estado de graça de uma editora que nunca foi provida dela.
Naquele que seria o seu derradeiro esforço para reviver o seu panteão super-heroico, em 1973 a Charlton Comics lançou E-Man, cujo tom humorístico das histórias captou inicialmente a atenção dos fãs. No entanto, o seu débil desempenho comercial ditaria o cancelamento da sua série ao fim de uma dezena de números publicados.
Em consequência desse revés, ao longo do resto da década de 1970 a Charlton Comics limitou-se a publicar histórias de terror (das quais os leitores pareciam não se cansar) e a reeditar material antigo do seu inventário. Especializou-se igualmente nas adaptações de séries televisivas que por aqueles dias faziam furor. Casos, por exemplo, de Bionic Woman e The Six Million Dollar Man. Prodigalizando sempre a costumeira mediocridade que, à parte o pequeno parêntesis acima descrito, foi sempre a imagem de marca da editora.

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Da TV para a BD. 
Quando se adivinhava já o seu canto do cisne, em 1983 a Charlton Comics aceitou vender à DC, por uns módicos 30 mil dólares acrescidos de royalties, os seus "heróis de ação" que vinham acumulando poeira numa qualquer gaveta. Segundo consta, ter-se-á tratado de um presente oferecido pelo então Vice-Presidente Executivo da DC, Paul Levitz, a Dick Giordano em reconhecimento pelo excelente trabalho que ele vinha desenvolvendo na Editora das Lendas.
Certamente mais do que uma infeliz coincidência, o cerrar definitivo de portas da Charlton ocorreria pouco tempo depois, em 1985. No ano seguinte,  Alan Moore expressou o seu desejo de usar os antigos "heróis de ação" da Charlton em Watchmen, aquela que seria a magnum opus do controverso escritor britânico, e uma das sagas mais memoráveis da história da Nona Arte. Intenção que esbarrou contudo na renitência dos mandachuvas da DC em alienarem a título definitivo ativos recém-adquiridos, e aos quais reconheciam potencialidades. 
Assim, não restou a Moore outro remédio senão criar pastiches descartáveis para a sua história. O Capitão Átomo transformou-se no Doutor Manhattan, o Besouro Azul no Coruja e por aí afora.

Duas faces da mesma moeda:
 os "heróis de ação" da Charlton e os Watchmen, de Alan Moore.
Quanto aos verdadeiros "heróis de ação" da Charlton, tiveram sortes diferentes. Ao passo que Capitão Átomo, Besouro Azul e Questão obtiveram lugar de destaque na mitologia da DC, de Mestre Judoca ou Pacificador restam apenas ténues reminiscências (vide texto seguinte).
Numa deliciosa ironia, seriam pois os mesmos super-heróis de que a Charlton Comics tanto desdenhou a salvá-la do ostracismo a que parecia irremediavelmente condenada.
Epitáfio inglório para uma editora cuja história é um compêndio de oportunidades desperdiçadas, mas cuja "mística" sobrevive ainda na memória afetiva de muitos fãs. E também de antigos colaboradores. Como Dick Giordano que, certa vez, resumiu de forma lapidar o legado da Charlton Comics: "Se assim o tivesse desejado, a Charlton poderia ter ombreado com a DC. Poderia ter produzido material de melhor qualidade por metade do preço. Poderia ter virado o jogo a seu favor e revolucionado a indústria dos quadradinhos. Mas os seus donos preferiram ser os reis da sucata."

*http://bdmarveldc.blogspot.pt/2017/09/fabrica-de-mitos-fawcett-comics.html
**http://bdmarveldc.blogspot.pt/2015/10/eternos-jim-aparo-1932-2005.html

Heróis de Ação

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Falar em panteão super-heroico da Charlton Comics poderá soar um tudo-nada exagerado. Quanto muito,  a editora dispôs brevemente de um lote de justiceiros fantasiados que, se não tivessem sido adquiridos pela DC, estariam muito provavelmente fadados ao oblívio. Sorte a que nem todos lograram, ainda assim, escapar.
Foi, no entanto, por intermédio dos seus "heróis de ação" que a Charlton conseguiu ser mais do que uma mera nota de rodapé na história da Nona Arte. Sendo por isso da mais elementar justiça corrigir alguns equívocos no que à propriedade original dessas personagens concerne. Isto porque, sendo verdade que nem todos correspondem a conceitos originais da editora, também não é menos verdade que alguns continuam a ser erroneamente creditados à DC, como se sempre tivessem sido sua pertença.
Importa por isso dar a conhecer um pouco melhor alguns dos lendários "heróis de ação" da Charlton Comics, mormente aqueles que serviram de modelo aos Watchmen, de Alan Moore.

Besouro Azul (Blue Beetle): Sem dúvida o mais acarinhado dos "heróis de ação" da Charlton, pertenceu originalmente à Fox Comics. Apesar da assinalável popularidade de que gozou durante a Idade do Ouro, não conseguiu reeditá-la sob o selo da nova editora. Joe Jill e Steve Ditko foram por isso incumbidos de desenvolver uma sua nova versão que debutou em Captain Atom nº83 (novembro de 1966). A nova velha personagem depressa conquistaria a simpatia dos fãs. Em Watchmen (saga e filmes já aqui esmiuçados) teve como contraparte o Coruja. Prontuário detalhado em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2015/09/herois-em-acao-besouro-azul.html ;

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Ted Kord,
o segundo Besouro Azul.

Capitão Átomo: O primeiro super-herói original da Charlton Comics e um dos poucos com superpoderes. Também ele saído da imaginação da dupla Joe Gill/Steve Ditko, na sua estreia em Space Adventures nº33 (março de 1960) surgia com um uniforme azul na capa e um dourado no interior da revista. Um erro de impressão que atesta bem o descaso com que este ramo da Charlton Publications tratava os seus produtos. Na DC, o Capitão Átomo teve a sua identidade civil e visual alterados.  Foi nele que Moore se inspirou para criar o Doutor Manhattan. Podem saber mais sobre este herói em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2013/05/herois-em-acao-capitao-atomo.html ;

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Os três uniformes do Capitão Átomo na Charlton.

Mestre Judoca (Judo Master): Mestre das artes marciais e ex-veterano da II Guerra Mundial, foi uma criação de Joe Jill e Frank McLaughlin. Estreou-se em Special War Series nº4 (novembro de 1965), ganhando pouco tempo depois um parceiro juvenil chamado Tigre. Após diversas modificações impostas pela DC, na sua versão mais recente é uma mulher chamada Sonia Sato;

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Lutador invencível.

Pacificador (Peacemaker): Dividia o seu tempo entre o trabalho diplomático como emissário dos EUA na Conferência de Genebra e o combate ao crime como um implacável vigilante urbano. Conceito desenvolvido por Joe Jill e Pat Boyette, fez a sua primeira aparição em Fightin'5 nº40 (novembro de 1966) antes de ganhar um título próprio que duraria apenas 5 números. Serviu de modelo ao cínico Comediante dos Watchmen;

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Paz armada.

Questão (Question): Mesmo sem nunca ter tido direito a uma série em nome próprio, esta criação de Steve Ditko (vista pela primeira vez em junho de 1967, nas páginas de Blue Beetle nº1) foi um dos mais bem-sucedidos "heróis de ação" da Charlton. Popularidade reforçada aquando da sua passagem para a DC, onde ganhou finalmente um título só para si. Teve o seu figurino e modus operandi replicados por Rorschach;

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Justiça sem rosto.

Sombra da Noite (Nightshade): Único elemento feminino do contingente original de "heróis de ação", conseguiu na DC (onde começou por ser integrada no Esquadrão Suicida) a notoriedade que lhe faltou na Charlton. Criação de David Kaler e Steve Ditko, esta teleportadora capaz de gerar sombras vivas estreou-se em Captain Atom nº82 (setembro de 1966). Foi uma das três heroínas clássicas que estiveram na origem da Espectral dos Watchmen (as outras duas foram Lady Fantasma e Canário Negro);

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Sombra viva.

Thunderbolt: Após atingir o ápice físico e mental, este órfão americano criado por monges tibetanos enveredou por uma carreira como combatente do crime. Tendo feito a sua primeira aparição em Peter Cannon, Thunderbolt nº1 (agosto de 1966), os créditos da sua criação pertencem a Peter Morisi. Ozymandias foi diretamente baseado nele, porém nunca conseguiu vingar na DC. É atualmente propriedade da Dynamite Entertainment;

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Ás de ação.

E-Man: Uma entidade alienígena composta por pura energia que podia assumir forma humana. Criado por Nicola Cuti e Joe Staton foi introduzido em E-Man nº1 (outubro de 1973). O registo humorístico das suas aventuras contribuiu em larga medida para o seu efémero sucesso. Apesar de não ser sido incluído no lote de personagens vendidas à DC, a First Comics tentaria revivê-lo nos anos 80;

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A ciência do humor.

Filho de Vulcano (Son of Vulcan): A resposta da Charlton Comics ao Poderoso Thor, da Marvel. Sempre que gritava "Vulcano, ajuda-me!", o repórter de guerra Johnny Mann transformava-se no formidável campeão dos Deuses Romanos. Estreou-se em Mysteries of Unexplored Worlds nº46 (maio de 1965) e teve em Pat Masulli e Bill Fraccio os seus autores. Adquirido pela DC, esteve em grande plano na saga Guerra dos Deuses (War of the Gods, 1991) antes de passar o manto a um Vulcano adolescente.

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Gladiador dos tempos modernos.

Um grande bem-haja ao meu bom e talentoso amigo Emerson Andrade. É da sua autoria a magnífica montagem que abre este artigo. 




















































terça-feira, 16 de abril de 2013

ETERNOS: ALAN MOORE (1953 - ...)


 
 
  
    Genialidade e excentricidade são dois traços indeléveis no caráter de Alan Moore, por muitos considerado um dos melhores escritores de BD de sempre. A despeito da sua renitência, várias das suas obras foram já adaptadas ao cinema.
 
Biografia: Primogénito de um casal composto por um taberneiro e uma tipógrafa, Alan Moore nasceu a 18 de novembro de 1953 (59 anos) em Northampton, uma pequena cidade industrial a meio caminho entre Londres e Birmingham, no Reino Unido.  A sua infância foi passada numa zona da cidade conhecida como The Boroughs, na qual floresciam a miséria e a iliteracia. Moore, no entanto, revelou-se um leitor precoce (aprendeu a ler com apenas 5 anos, antes mesmo de ingressar na escola primária) e compulsivo que, à falta de verba para comprar livros, recorria amiúde à biblioteca pública local. Paralelamente, descobriu as histórias aos quadradinhos. Primeiro as publicações indígenas como Topper e The Beezer; mais tarde os comics norte-americanos com especial predileção por títulos como Flash, Detective Comics, Fantastic Four e Blawkhawk.
      Em casa coabitava com os pais, o irmão mais novo e a sua beata e supersticiosa avó materna, a qual despertaria nele o fascínio pelo misticismo e pelo esoterismo (aquando do seu 40º aniversário, em 1993, Moore assumiu-se como um mago cerimonial).
      Devido às suas boas notas, Moore seria admitido na Northampton Grammar School, um prestigiado colégio masculino. Foi lá que, pela primeira vez, contactou com alunos provenientes de estratos sociais mais elevados. De aluno brilhante na escola primária, Moore passou a estudante medíocre, incapaz de competir com os seus novos colegas.
      Irreverente, desde os primórdios da adolescência que Moore começou a usar cabelo comprido (que, a par da barba desgrenhada e dos anéis, ainda hoje conserva como imagem de marca). Desmotivado de estudar, em finais do anos 1960, começou a publicar poemas e ensaios da sua autoria em toda a sorte de fanzines, antes de lançar o seu próprio, batizado de Embryo. Através deste projeto, Moore envolver-se-ia num outro, denominado Laboratório de Artes.
      Em 1970, Moore seria expulso da Northampton Grammar School por se dedicar ao tráfico de LSD e de outras substâncias alucinogénicas no interior do colégio. Em consequência disso, não voltaria a ser admitido em qualquer outro estabelecimento de ensino.
     No ano seguinte, enquanto continuava a morar na casa dos pais, Moore passou por vários empregos pouco qualificados. Nessa mesma época conheceu a sua primeira esposa com quem casou em 1974, daí resultando o nascimento de duas filhas. Durante quase duas décadas, o casal partilhou uma amante, porquanto nem Moore nem a mulher acreditavam na monogamia. As duas mulheres acabariam, porém, por abandonar Moore em meados da década de 1990, levando com elas as duas filhas do casal. Moore, por sua vez, voltaria a casar em 2007, desta feita com Melinda Gebbie com quem trabalhou na produção de várias bandas desenhadas.
     Moore continua a viver em Northampton, cuja história serviu de inspiração à novela da sua autoria Voice of the fire. Aderiu também ao vegetarianismo.
 
Miracleman foi um dos primeiros êxitos de Alan Moore.
 
Carreira: 1978 foi o ano que assinalou o arranque oficial da longa e eclética carreira profissional de Alan Moore. Após abandonar o seu anterior emprego como administrativo, resolveu escrever e desenhar as suas próprias histórias aos quadradinhos. Recebeu o seu primeiro cachê graças a umas ilustrações publicadas numa revista especializada em música. Até 1980, por vezes sob pseudónimos, Moore publicou várias tiras e séries em revistas e jornais. Concentrou-se, entretanto, em aprimorar a sua escrita, em detrimento da sua arte. Contou para isso com a ajuda do seu velho amigo e também argumentista Steve Moore.
     Entre 1980 e 1984, Alan Moore trabalhou como argumentista freelancer em várias editoras britânicas, nomeadamente a Marvel UK e a 2000AD, mas também na Warrior, onde teve a cargo duas séries regulares: Marvelman (posteriormente rebatizado de Miracleman por razões legais) e V for Vendetta. Esta narrativa distópica, que tinha lugar num futuro próximo marcado pelo totalitarismo fascizante, seria uma das obras-primas de Moore, muito provavelmente por se ter identificado com o herói da série que, a exemplo do escritor, era um assumido anarca. A despeito das reservas de Moore - que sempre recusou ver o seu nome associado às adaptações cinematográficas das suas obras - V for Vendetta deu origem a um filme de sucesso em 2005.
     O trabalho de Moore na 2000AD atraiu a atenção de Len Wein, o editor-chefe da DC à época, que o contratou em 1983 para escrever Swamp Thing, um título cujas vendas andavam pelas ruas da amargura. Secundado por uma competente equipa de ilustradores, Moore reinventou o Monstro do Pântano, misturando nas suas histórias elementos sobrenaturais e de terror com outros de cariz social e ambiental. A série obteve um sucesso sem precedentes junto do público e da crítica, abrindo assim caminho para a contratação por parte da DC de outros escritores britânicos, designadamente Neil Gaiman, com vista ao relançamento de outras personagens obscuras.
 
Antes de Alan Moore, o Monstro do Pântano não passava de uma personagem obscura do universo DC.
 
      Durante a sua passagem de cinco anos pela DC, Moore teve igualmente oportunidade de trabalhar com as personagens de charneira da editora. Para Superman escreveu, em 1985, For The Man Who Has Everything, com arte de Dave Gibbons (seu futuro parceiro criativo em Watchmen). The Killing Joke foi o seu tributo ao Homem-Morcego (mas também ao seu arqui-inimigo Joker).
       Após o êxito de Watchmen (vide texto anterior), a relação de Moore com a DC começou progressivamente a deteriorar-se, devido a divergências relacionadas com merchandising e direitos autorais. Situação que culminou com a saída de Moore da DC em 1989 para, em sociedade com a sua primeira esposa e a amante de ambos, fundar a sua própria editora, a qual sugestivamente crismaram de Mad Love. Até 1996, ano em que a Mad Love encerrou portas, Moore e os seus associados produziram toda a sorte de séries, antologias e novelas gráficas, com especial destaque para a controversa Lost Girls, descrita pelo próprio autor como sendo uma obra de pornografia inteligente. Ainda nesse ano Moore publicaria o romance Voice of the fire.
      Seguiu-se uma passagem pela Image Comics, tendo sido o seu trabalho com Supreme (personagem criada por Rob Liefeld e com notórias semelhanças com o Homem de Aço) o mais notável. Em 1999, Moore, desavindo com Liefeld, abandonou a Image para fundar a American Best Comics (ABC), associada à Wildstorm Studios de Jim Lee. Foi sob a égide da ABC que Moore lançou The League of Extraordinary Gentleman (adaptada ao grande ecrã em 2003).
      Atualmente, Alan Moore tem vários projetos em carteira começando por um livro dedicado ao Ocultismo, escrito a meias com o seu velho compincha Steve Moore. Isto ao mesmo tempo que escreve o seu segundo romance, com o título provisório Jerusalem.
 
A par de Watchmen, V for Vendetta é uma das obras mais emblemáticas de Moore, tendo ambas sido adaptadas ao cinema.
 
Prémios e distinções: Autor multipremiado, ao longo da sua carreira foram inúmeros os galardões e distinções atribuídos a Alan Moore.  No seu currículo, e apenas para citar alguns, constam 7 Harvey Awards para Melhor Escritor; 9 Kirby Awards em categorias que vão desde Melhor Escritor a Melhor Série Regular; 9 Eisner Awards para Melhor Escritor. Acrescem ainda várias honrarias internacionais como 2 prémios Angoulême para Melhor Álbum e outros tantos British National Comics Award que o distinguiram em duas ocasiões (2001 e 2002) como o melhor escritor de BD de sempre.
 
Alan Moore na companhia da sua atual esposa, Melinda Gebbie.
 
 
 


quarta-feira, 10 de abril de 2013

DO FUNDO DO BAÚ



 
 
 
     O que aconteceria se os super-heróis fossem reais e tivessem o poder de alterar o curso da história humana? Seriam eles considerados salvadores ou ameaças? Foi este o ponto de partida para Alan Moore escrever Watchmen, verdadeira obra-prima dos quadradinhos.
 
Título: Watchmen (minissérie de luxo em 6 edições mensais)
Data: Novembro de 1988 a abril de 1989
Número de páginas: 68 por volume
Formato: Americano (17 cm x 26 cm), colorido e com lombada agrafada
Licenciadora: DC
Editora: Entre 1988 e 1999, a Abril Jovem publicou duas séries de Watchmen e uma edição encadernada. Já neste século, surgiram mais quatro reedições da saga, uma lançada pela Via Lettera e as restantes com a chancela da Panini Comics.
Argumento: Alan Moore
Arte: Dave Gibbons
Publicado originalmente em: Watchmen nº1 a 12 (EUA, 1986/87)
História de publicação: Introduzindo abordagens e linguagens anteriormente ligadas apenas aos quadradinhos ditos "alternativos", além de lidar com temáticas de orientação mais madura e menos superficial quando comparada aos comics mainstream publicados à época nos EUA, Watchmen representa um marco importante na evolução da 9ª arte naquele país.
     Diz-se, aliás, que Watchmen foi, no contexto da indústria dos quadradinhos na década de 1980, um dos responsáveis por, a par de A Queda de Murdock e O Regresso do Cavaleiro das Trevas (ambas da autoria de Frank Miller) e de Maus (de Art Spiegelman), despertar o interesse do público adulto para um formato até então considerado infanto-juvenil. 
     Tudo começou em 1985, quando a DC se tornou detentora dos direitos da linha de personagens da Charlton Comics. Durante esse período, Alan Moore considerou escrever uma história que teria como protagonistas heróis obscuros que, a exemplo do que fez com Miracleman, ele pudesse remodelar a seu belo prazer.
     Julgando que o grupo Mighty Crusaders da MLJ Comics estaria disponível para o seu projeto, Moore desenvolveu um enredo de mistério envolvendo um assassinato, que começaria com a descoberta do corpo de um dos integrantes da equipa. Usando essa premissa, e perante a indisponibilidade das personagens da MLJ, Moore substituiu-as pelos super-heróis da Charlton, dando o título Who Killed The Peacemaker? (Quem Matou O Pacificador?) à narrativa e  apresentado-a ulteriormente a Dick Giordano, o então editor-chefe da DC. Este, embora recetivo à ideia, opôs-se à utilização de personagens da Charlton na história, ao perceber que as mesmas acabariam mortas ou inutilizadas. Por conseguinte, Giordano convenceu Moore a introduzir personagens inéditas. Moore mostrou-se relutante ao princípio, mas acabaria por aceder ao pedido.
      Dave Gibbons, desenhista que colaborara com Moore em projetos anteriores, manifestou o seu interesse em trabalhar novamente com o seu patrício (ambos são britânicos) e, após considerações de Giordano, foi aceite, trazendo consigo o colorista John Higgins.
     Originalmente, Moore e Gibbons tinham matéria-prima para apenas seis edições, pelo que  compensaram interpolando os assuntos principais com temas que proporcionariam uma espécie de retrato biográfico das personagens principais. Durante o processo, Gibbons teve grande autonomia para desenvolver o estilo visual de Watchmen, inserindo detalhes que Moore admitiu só perceber mais tarde, pois a saga foi feita para ser lida e compreendida totalmente somente após diversas leituras.
 
Alan Moore (esq.) e Dave Gibbons, a dupla criativa de Watchmen.
 
Sinopse: Na realidade histórica alternativa apresentada em Watchmen, Richard Nixon teria conduzido os EUA à vitória na Guerra do Vietname e, em resultado deste facto, teria permanecido no poder por um longo período. Esta vitória, além de muitas outras diferenças entre o mundo verdadeiro e o retratado na saga ( como, por exemplo, os carros elétricos serem a realidade da indústria dos automóveis e o petróleo já não ser a maior fonte de energia) derivaria da existência naquele cenário do Dr. Manhattan, um indivíduo dotado de poderes especiais, os quais o levam a possuir vasto controlo sobre a matéria e a energia, elevando-o ao estado de um semideus.
     Ambientada em 1985 e com o mundo à beira de holocausto termonuclear, a trama mostra que existiriam histórias aos quadradinhos de super-heróis no final dos anos de 1930, inclusive do Superman, os quais eventualmente seriam a principal inspiração para que uma das personagens da série viesse a  tornar-se um combatente do crime (o primeiro Coruja). As revistas deste género  teriam entretanto deixado de existir, sendo substituídas por novelas gráficas de piratas (talvez devido ao surgimento de super-heróis de carne e osso). O Dr. Manhattan, o único a possuir poderes (como explodir ou desmontar objetos, e até mesmo pessoas, pois controla os átomos), foi o primeiro da "nova era" de super-heróis mais sofisticados que durou do começo da década de 1960 até à promulgação da Lei Keene em 1977, implementada em resposta à greve da polícia e a consequente revolta da população contra os vigilantes que agiam acima da lei. À época, o grupo conhecido como Crimebusters  dispunha-se a combater a criminalidade na cidade de Nova Iorque.
     A Lei Keene exigia que todos os "aventureiros fantasiados" se registassem no governo. A maioria dos vigilantes resolveu aposentar-se, alguns revelando publicamente as suas identidades secretas para faturar com a atenção dos media  - caso de Adrian Veidt, o Ozymandias. Outros, como o Comediante e o Dr. Manhattan, continuaram a trabalhar sob a supervisão e o controlo do governo. O vigilante conhecido como Rorschach passou a operar como um herói renegado e fora-da-lei, sendo frequentemente perseguido pela polícia.
     A história abre com a investigação do assassinato de Edward Blake, logo revelado como sendo a identidade civil do vigilante mascarado conhecido como O Comediante. Tal assassinato chama a atenção de Rorschach, o qual passará toda a primeira metade da trama entrando em contacto com seus antigos companheiros em busca de pistas, considerando praticamente todos como possíveis suspeitos.
    Rorschach suspeita que o evento da morte de Blake estaria relacionado a um possível rancor de criminosos presos pelos heróis no passado, tese que ganha força à medida que outros ex-combatentes do crime e o próprio Rorschach são duramente atingidos por um aparentemente planificado ataque sistemático à sua integridade física e moral.
     No entanto, à medida que a investigação se aprofunda, os indícios apontam para uma maquiavélica conjura orquestrada por um insidioso némesis que não descansará enquanto não eliminar todos os heróis.

Watchmen (da esq. para a dir.): Espectral II, Comediante, Coruja II, Dr. Manhattan, Rorschach e Ozymandias.
 
Prémios e distinções: A série conquistou vários Prémios Kirby e Eisner (que estão para a BD como os Óscares estão para o cinema), além de uma honraria muito especial no Prémio Hugo, voltado para a literatura. É, de resto, até ao momento a única novela gráfica a merecer tal distinção, assim como também é a única história aos quadradinhos a figurar na lista dos cem melhores romances eleitos pela revista Time desde 1923.
 
 
Curiosidades:
* Os heróis que compõem os Watchmen tiveram como modelo várias personagens da editora Charlton Comics, cujos direitos de publicação haviam sido recentemente adquiridos pela DC. Assim, Coruja II, Espectral II, Dr. Manhattan, Rorschach, Comediante e Ozymandias correspondem, respetivamente, ao Besouro Azul, Sombra da Noite, Capitão Átomo, Questão, Pacificador e Thunderbolt.
* Antecessores dos Watchmen, os Minutemen são a única formação organizada de super-heróis referida na história. Trata-se de uma equipa de vigilantes mascarados fundada em 1938 (curiosamente, o ano da estreia do Super-homem) e que atuou durante a II Guerra Mundial. O termo Watchmen alude, portanto, genericamente a todos os vigilantes mascarados, não designando contudo o grupo de heróis remanescentes.
Na minha coleção desde: 1995 (edição encadernada da Abril)
 
 


quarta-feira, 3 de abril de 2013

BD CINE APRESENTA: WATCHMEN





     Após o êxito de 300, Zack Snyder foi o realizador escolhido para adaptar ao cinema Watchmen, a aclamada saga da autoria de Alan Moore e Dave Gibbons. O resultado superou todas as expectativas, exceto as do próprio Moore.
 
Título original: Watchmen (em Portugal foi subintitulado "Os Guardiões")
Ano: 2009
País: EUA
Duração: 162 minutos
Realização: Zack Snyder
Argumento: David Hayter e Alex Tse (baseado no argumento original de Alan Moore)
Elenco:  Malin Akerman (Laurie Jupiter/ Silk Spectre II); Billy Crudup (Dr. Manhattan); Mathew Goode (Adrian Veidt/Ozymandias); Jackie Earle Haley (Rorschach); Jeffrey Dean Morgan (Edward Blake/Comediante); Patrick Wilson (Dan Dreiberg/ Night Owl II); Carla Gugino (Sally Jupiter/Silk Spectre I);
Produção: Em 1986, os produtores Lawrence Gordon e Joel Silver adquiriram os direitos de Watchmen para a 20th Century Fox, a fim de adaptarem a prestigiada série ao grande ecrã. Devido à recusa de Alan Moore em escrever o guião do filme, baseado na BD original, a Fox contratou Sam Hamm (um dos argumentistas de Batman), que tomou a liberdade de reescrever o final apocalíptico da saga. Porém, transcorridos cinco anos, a Fox vendeu o projeto à Warner Bros. A qual, por sua vez, desistiria dele em virtude da falta de financiamento. Entre 2001 e 2005 houve algumas tentativas frustradas de ressuscitar o projeto, envolvendo diversos estúdios e equipas de produção. Foi, contudo, preciso esperar até finais de 2005 para Watchmen começar enfim a ganhar  forma. Impressionados com o seu trabalho em 300 (adaptação cinematográfica de uma graphic novel homónima de Frank Miller), os mandachuvas da Warner Bros. convidaram Zack Snyder (que dirigiu também a mais recente longa-metragem do Homem de Aço) a ocupar a cadeira de realizador. Secundado por uma competente equipa de argumentistas e tendo como consultor Dave Gibbons (o ilustrador que deu vida ao conceito primordial de Moore), Snyder usou, a exemplo do que fizera em 300,  a banda desenhada como ponto de partida para o seu filme. Adicionalmente, extendeu as cenas de luta e pediu para que fosse introduzido um subtexto sobre fontes de energia, com  vista a tornar o filme mais socialmente comprometido. Alterações que, aos olhos de Alan Moore, se afiguraram blasfemas. Sendo essa uma das razões que explicam a recusa do autor em ter o seu nome associado a qualquer adaptação ao grande ecrã das suas obras.
               Com início em setembro de 2007 e tendo como cenário principal a cidade de Vancouver (Canadá), as filmagens ficaram concluídas em fevereiro de 2008. Estima-se que os custos globais do projeto tenham ascendido aos 130 milhões de dólares.
Orçamento: 130 milhões de dólares
Receitas: 185 milhões de dólares
Prémios e nomeações: 3 Saturn Awards (Melhor Filme de Fantasia, Melhor Guarda-roupa e Melhor Edição em DVD), 1 Scream Award (Melhor Filme de Super-heróis) e várias nomeações em categorias como Melhor Realizador, Melhor Atriz Secundária e Melhor Argumento, apenas para citar algumas.

 
Sinopse: O enredo de Watchmen desenrola-se em 1985, numa realidade alternativa onde os super-heróis são reais, Richard Nixon cumpre um terceiro mandato presidencial na Casa Branca e as tensões entre os EUA e a URSS estão ao rubro.
             Tudo começou em 1938, data da formação dos Minutemen, um grupo de vigilantes mascarados antecessores dos Watchmen. A existência dessas personagens mudou o curso da História: os superpoderes do Dr. Manhattan ajudaram os EUA a vencer a Guerra do Vietname, daí resultando as sucessivas reeleições de Nixon e uma vantagem estratégica do bloco ocidental em relação à URSS e seus aliados. Facto que, por sua vez, conduziu a uma escalada da tensão entre as duas superpotências, deixando o mundo à beira de um conflito nuclear. Outra consequência foi um crescente sentimento anti-super-heróis em território norte-americano, culminando com a ilegalização do vigilantismo. Ao passo que muitos dos antigos justiceiros mascarados optaram por se reformar, o Dr. Manhattan e o Comediante tornaram-se agentes ao serviço do governo estadounidense. Rorschach, por seu turno, continuou a operar na clandestinidade. É ele, de resto, que, ao investigar a morte do Comediante desconfia que está em curso uma conspiração para exterminar os Watchmen. Alertados pelo seu antigo camarada, os demais super-heróis revelam-se céticos quanto a essa possibilidade. Até começarem a ser caçados um a um por um misterioso e desapiedado assassino. Acossados, não resta aos Watchmen remanescentes outra alternativa que não regressarem ao ativo, de modo a deterem o diabólico plano do seu insidioso némesis. 
Curiosidades:

* O traje de Ozymandias é uma paródia aos uniformes de borracha utilizados em outros filmes de super-heróis, como Batman & Robin;
* A par dos direitos de Watchmen, em 1986 foram adquiridos os de V de Vingança, outra graphic novel escrita por Alan Moore que seria levada ao grande ecrã em 2005;
* Michael Bay (Armageddon, Transformers) chegou a ser cogitado para o cargo de realizador em 2003;
* Ao longo dos anos, circularam vários rumores relacionados com o elenco: nomes como Sigourney Weaver, John Hurt, Arnold Schwarzenegger e Tom Cruise, entre muitos outros, foram dados como certos num futuro filme baseado no universo alternativo idealizado por Alan Moore;
* Jeffrey Dean Morgan inicialmente rejeitou o papel de Comediante depois de ter lido as três primeiras páginas do enredo, por julgar irrelevante a personagem. Foi, todavia, persuadido pelo seu agente a aceitar o papel;
* Apresentado pela primeira vez aquando da estreia de Batman, O Cavaleiro Das Trevas, o trailer de Watchmen catapultou novamente a banda desenhada original para os tops de vendas nos EUA.

 
Minha avaliação: 81%
       Desde logo, Watchmen tem o mérito de ser um daqueles raros filmes que mistura vários géneros (drama, ficção científica e policial noir), sem daí resultar uma intragável mixórdia cinéfila. Tendo como pano de fundo uma realidade onde pontifica o sadismo e onde a linha que separa o Bem do Mal é tão sombria como as ruas da metrópole onde opera um grupo de super-heróis tremendamente humanos, Watchmen está longe de corresponder ao cânones das adaptações ao grande ecrã de super-heróis nascidos nos quadradinhos. Assassínio, violação, sexo, nudez e guerra são nele retratados sem pudor.  A profusão de violência - a espaços gratuita  - é, com efeito, uma das pechas desta película, servindo por vezes para distrair o espectador da narrativa hipnótica que se vai desfiando no ecrã.
       Classificada pelo próprio autor de "infilmável", a saga Watchmen, pelas mãos do visionário Zack Snyder, resulta num exercício visual intoxicante, complementado pela abordagem de temas complexos e tradicionalmente ausentes em filmes do género. Só por isto Watchmen está fadado a servir de referência a futuras adaptações cinematográficas do universo super-heroico, sendo notória a sua influência em produções mais recentes como Os Vingadores ou Batman, O Cavaleiro das Trevas Renasce.