segunda-feira, 9 de julho de 2012

ETERNOS: TODD MCFARLANE (1961 - ...)




      Depois de ter passado pela Marvel e pela DC (onde reformulou algumas das mais importantes personagens dessas editoras), Todd McFarlane foi, em 1992, um dos cofundadores da Image Comics. Pelo meio, criou Spawn, um dos mais carismáticos anti-heróis dos quadradinhos, e é hoje um dos homens mais influentes do ramo.
      McFarlane nasceu a 16 de março de 1961 em Calgary, na província canadiana de Alberta. Aos 17 anos descobriu os quadradinhos. Era fã do trabalho do seu compatriota John Byrne, assim como de outros desenhadores consagrados como George Pérez , Jack Kirby e Frank Miller. Apreciava igualmente o trabalho do conceituado argumentista britânico Alan Moore (Watchmen). Era, porém, a arte atípica de Michael Golden (Micronautas) e do criador da manga Akira, Katsuhiro Õtomo que lhe enchiam as medidas.
      No início dos anos 80, após concluir o liceu, McFarlane ingressou na Eastern Washington University com uma bolsa de estudo obtida graças ao basebol (outra das suas paixões) e estudou artes gráficas. Ambicionava vir a ser jogador profissional da modalidade após a conclusão dos estudos superiores. Porém, uma grave lesão no tornozelo, sofrida durante o seu primeiro ano, deitou por terra esse sonho. Passou então a trabalhar numa loja de banda desenhada em Spokane, Washington. Alguns desenhos que fez de várias personagens da Marvel e da DC foram vendidos nessa e noutras lojas da especialidade.
       Coyote, da editora Epic Comics, foi o seu primeiro trabalho publicado quando corria o ano de 1984. Não tardaria, porém, a começar a trabalhar em simultâneo para as arquirrivais Marvel e DC. Foi nesta última que ganhou maior projeção mercê do trabalho desenvolvido no título Infinity, Inc. (conhecido entre nós como Corporação Infinito) entre 1985 e 1987. Nesse mesmo ano ilustrou várias edições de Batman: Year Two. Daí passaria para a Marvel a fim de desenhar Incredible Hulk (1987-88).
Coyote nº13 (1985) contava com a arte de McFarlane no interior.


Capa de Batman nº423 (1988) ilustrada por McFarlane.
       Em parceria com o argumentista David Michelinie, McFarlane assumiu, em 1988, o título Amazing Spider-Man, a partir do número 298. E logo revolucionou o herói aracnídeo. Entre outras alterações introduzidas, destacou-se a forma como passou a desenhar as teias do Escalador de Paredes: o modelo clássico foi substituído pelo que ficaria conhecido como "teia esparguete". Coube-lhe igualmente a honra de ser o primeiro artista a desenhar Eddie Brock, o alter ego original do popular vilão Venom. Embora lhe tenham sido atribuídos os créditos de cocriador da personagem, essa decisão nunca foi consensual e tem sido motivo de discussão no seio da indústria dos comics.
        Seja como for, o trabalho de McFarlane em Amazing Spider-Man converteu-o numa superestrela dos quadradinhos. Pela conceção da capa do número 313 desse título, McFarlane recebeu, em 1989, uns módicos 700 dólares. Em 2010, essa mesma capa seria vendida por 71,2 mil dólares. Talvez por isso, em 1990, depois de ter coproduzido 28 edições de Amazing Spider-Man, McFarlane anunciou ao seu editor a sua intenção de abandonar a série devido à sua saturação de desenhar as histórias de outrem. Tentando demovê-lo dessa decisão, Jim Salicrup ofereceu-lhe um novo título mensal do Escalador de Paredes que McFarlane escreveria e desenharia, gozando de ampla liberdade criativa. Batizada simplesmente Spider-Man, a nova série do herói aracnídeo foi um retumbante sucesso (tendo o primeiro número vendido uns impressionantes 2,5 milhões de exemplares). Ao cabo de 16 edições, onde os leitores foram brindados com vários crossovers do Homem-Aranha com outros heróis da editora como Wolverine, Motoqueiro Fantasma ou X-Force, McFarlane,  em rota de colisão com o novo editor, abandonou o projeto, sendo substituído por Erik Larsen - outro dos futuros cofundadores da Image.

Capa alternativa de Spider-Man nº1(1990).
        Depois da sua saída da Marvel, McFarlane, juntamente com seis outros ilustradores e argumentistas descontentes, fundou a Image Comics (vide Fábrica de Mitos: Image Comics). Dispondo de um estúdio independente, McFarlane deu a conhecer ao mundo a sua maior criação: Spawn, O Soldado Infernal (vide Heróis em Ação: Spawn), cujo número de estreia, em 1992, vendeu 1,7 milhões de exemplares. Um recorde de vendas absoluto para uma editora independente. Dois anos volvidos, McFarlane lançou uma linha de brinquedos própria - a McFarlane Toys. Em virtude desta nova aposta de mercado, delegou a produção criativa de Spawn, limitando-se doravante a participações esporádicas nos títulos da personagem. Além de estatuetas minuciosamente detalhadas do Soldado do Inferno e respetivos coadjuvantes, McFarlane obteve ainda licença para produzir action figures de atletas populares de modalidades como basebol, basquetebol, hóquei e futebol americano. Também lançou bonecos inspirados em estrelas do rock (Jim Morrison, Kiss, etc) e em filmes de culto (Terminator, Matrix, etc.).
Spawn nº1 (1992) vendeu 1,7 milhões de exemplares.
          Em 1996 criou um estúdio de cinema e animação chamado McFarlane Entertainment. Em colaboração com a New Line Cinema, produziu, no ano seguinte, o filme Spawn cujas modestas receitas de bilheteira inviabilizaram uma sequela.
          Fanático por basebol, McFarlane é um ávido colecionador de artigos relacionados com esse desporto e não olha a despesas para obtê-los. Ao longo dos anos tem adquirido várias bolas com que algumas estrelas da modalidade fizeram home runs. Por uma delas desembolsou 3 milhões de dólares...
         Como não há bela sem senão, McFarlane já esteve  envolvido em várias disputas judiciais. Na primeira, que remonta a 1997, foi processado pelo jogador de basebol Anthony Twist por apropriação indevida do seu nome para batizar um dos coadjuvantes das histórias de Spawn (Tony Twist). Condenado, em primeira instância, a pagar uma indemnização no valor de 24,5 milhões de dólares, McFarlane veria o veredicto ser anulado pelo Supremo Tribunal do Missouri em 2003. Um ano antes, novo processo movido contra si, desta vez pelo escritor e argumentista Neil Gaiman. Acusação: violação de direitos autorais e não pagamento de royalties referentes à personagem Miracle Man. McFarlane foi obrigado a pagar 45 mil dólares a Gaiman, assim como todas as custas judiciais, montante que o escritor doou a um fundo para a defesa legal de criadores de comics.
         Polémicas à parte, Todd McFarlane é hoje um dos nomes mais influentes na indústria dos quadradinhos, gerindo negócios que movimentam anualmente milhões de dólares.
Stan Lee e Todd McFarlane: duas lendas vivas dos quadradinhos.
     

segunda-feira, 25 de junho de 2012

NÉMESIS: LAGARTO




       Escolhido para ser o vilão de serviço no novíssimo filme do Homem-Aranha, o Lagarto é um dos seus mais antigos e implacáveis inimigos. Já o seu alter ego, Dr. Curtis Connors, é um velho amigo e ex-professor de Peter Parker.

Nome original:  Lizard
Primeira aparição: Amazing Spider-Man vol.1 nº6 (novembro 1963)
Criadores: Stan Lee e Steve Ditko
Licenciadora: Marvel Comics
Identidade civil: Curtis "Curt" Connors
Origem: Coral Gables, Florida
Parentes conhecidos:  Martha (esposa falecida) e Billy (filho)
Filiação: Ex-membro dos Doze Sinistros (Sinister Twelve)
Base de operações: Nova Iorque
Poderes e habilidades: Embora dotado de um Q.I. muito acima da média, o nível de inteligência do Dr. Connors, quando transformado em Lagarto, varia. Na maior parte das vezes, a criatura possui um grau de inteligência médio mas também já surgiu irracional. Com força, resistência, agilidade e velocidade equivalentes às do Escalador de Paredes, o Lagarto, também pela sua ferocidade, é um oponente temível. Ainda para mais dispondo de dentes e garras aguçados, bem como de uma longa cauda capaz de desferir golpes a mais de 100 km/h. A mesma que, quando cortada, se regenera quase de imediato, assim como qualquer outra parte do seu corpo. O Lagarto consegue ainda controlar telepaticamente répteis e, recentemente, desenvolveu a capacidade de produzir feromonas que despertam instintos violentos nos humanos. Devido à sua condição de animal de sangue frio, o Lagarto enfraquece quando prolongadamene exposto a altas temperaturas.

O primeiro confronto entre o herói aracnídeo e o Lagarto em The Amazing Spider-Man nº6 (1963).

Biografia: Reputado cirurgião, o doutor Curtis Connors foi destacado para a guerra do Vietname onde operou inúmeros soldados norte-americanos feridos em combate. Quando um dos seu braços foi amputado, devido ao ferimento causado por uma explosão, Connors tornou-se obcecado com as capacidades regenerativas dos répteis e passou a estudar intensivamente herpetologia no seu laboratório nos pântanos de Everglades (Florida). Em resultado da sua investigação, desenvolveu um soro produzido através do ADN de um réptil. Com ele conseguiu recuperar o membro decepado de um coelho e, a despeito dos avisos da mulher, Connors resolveu testar o soro em si próprio. Depois de ingeri-lo, o seu braço amputado voltou a crescer. Houve, no entanto, um efeito colateral inesperado: Connors transformou-se num monstruoso lagarto gigante.
                Ao tomar conhecimento dos catastróficos resultados das experiências do Dr. Connors, o Homem-Aranha viajou até à Florida, munido das anotações do seu ex-professor na Universidade Empire State.  Durante algum tempo, Peter Parker trabalhara nessa instituição como assistente do Dr. Connors, daí resultando laços de amizade entre ambos. No entanto, o melhor que o seu ex-pupilo conseguiu foi inventar um antídoto temporário para a atual condição de Connors. Embora revertida a transformação, a mesma passou a ser espoletada, de tempos em tempos,  em resultado do stresse ou de uma qualquer reação química operada no organismo de Connors. Sempre que tal sucedia, o Homem-Aranha via-se forçado a enfrentar o Lagarto.
                Com o tempo, uma segunda personalidade parece ter-se desenvolvido no Lagarto, a qual ambicionava conquistar o mundo com a ajuda de um exército de répteis. Após o fracasso desse projeto, o Lagarto voltou a trabalhar sozinho.


               Quando a sua mulher e filho o abandonaram (devido à ameaça que representava o seu alter ego), Connors tentou em vão endireitar a sua vida. Em desespero, o Lagarto assumiu o controlo, não obstante a sua fraca força mental. Isso permitiu que fosse dominado pelo vudu da misteriosa Calypso, que usou a criatura para os seus próprios propósitos (eventos mostrados na minissérie em duas edições "Tormento", publicada no Brasil pela Abril Jovem em 1992). No final de uma série de recontros sangrentos, o Lagarto e Calypso foram derrotados pelo Homem-Aranha e Connors conseguiu retomar o controlo da mente da fera.  Mais uma vez, a transformação foi revertida mas apenas temporariamente.
                Algum tempo volvido, um Lagarto totalmente irracional surgiu, levando a crer que a personalidade da fera era agora permanente. Porém, quando esta segunda versão da criatura foi no encalço de Connors, este ingeriu o soro original, transformando-se uma vez mais no verdadeiro Lagarto. Para salvar o seu filho, o Lagarto matou o impostor. Em nova tentativa de obter uma cura para a sua condição, o Doutor Connors testara em segredo uma nova fórmula do seu soro num pedaço da cauda do Lagarto, o que resultou na formação desta segunda criatura. No desfecho destes acontecimentos, Connors e a esposa voltaram a juntar-se.
               O idílio familiar, porém, seria de curta duração. Uma vez mais a tragédia abateu-se sobre a família Connors. Desta vez sobre Martha e Billy que, após anos de exposição a produtos cancerígenos, viram-lhes ser diagnosticado cancro a ambos. Apesar dos esforços conjuntos do Homem-Aranha e do Doutor Connors, Martha acabaria por sucumbir à doença. Billy, por sua vez, sobreviveu mas culpa o pai pelo sucedido.

Noutros media: A primeira vez que o Lagarto saltou dos quadradinhos para a televisão foi em 1967, num episódio da série animada Spider-Man, no qual foi apresentado como o Homem-lagarto. Também o apelido do seu alter ego foi substituído por Conner. Outro facto curioso é que, o Dr. Connors surge com ambos os braços. Talvez a fim de evitar o tema da amputação de membros numa série cujo público-alvo eram crianças. Seguiram-se várias aparições do vilão em outras tantas séries de animação estreladas pelo aranhiço: Spider-Man (1981), Spider-Man: The Animated Series (1994), Spider-Man: The New Animated Series (2003), The Spectacular Spider-Man (2008) e Ultimate Spider-Man (2012).
                          Na trilogia cinematográfica do Homem-Aranha (2002-2007), o Dr. Connors é mencionado no primeiro filme e surge no segundo e no terceiro, interpretado por Dylan Baker. Já em The Amazing Spider-Man (estreia a 5 de julho nos cinemas nacionais), o vilão, encarnado por Rhys Ifans, será o principal antagonista de um jovem Escalador de Paredes em início de carreira.

Será este o aspeto do Lagarto no novo filme do Homem-Aranha.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

HERÓIS EM AÇÃO: HOMEM-ARANHA




  
             Picado por uma aranha radioativa, o adolescente Peter Parker adquiriu habilidades assombrosas. Aprendeu, porém, da pior maneira que grandes poderes acarretam grandes responsabilidades. E assim passou a combater o crime como o sensacional Homem-Aranha. Conheçam as histórias (e as polémicas) por trás da origem desta personagem icónica.

Nome original: Spider-Man
Primeira aparição: Amazing  Fantasy nº15 (agosto de 1962)
Criadores: Stan Lee e Steve Ditko
Licenciadora: Marvel Comics
Identidade civil: Peter Benjamin Parker
Parentes conhecidos: Richard e Mary Parker (pais falecidos); Benjamin Parker (tio falecido); May Parker (tia); Mary Jane Watson-Parker (ex-esposa).
Origem e base de operações: Nova Iorque
Filiação:  Vingadores, Novos Vingadores, Vingadores Secretos, Defensores Secretos, Novo Quarteto Fantástico, etc.
Poderes e habilidades: O Homem-Aranha possui os poderes proporcionais de uma aranha. As complexas enzimas  mutagénicas transferidas para o sangue de Peter Parker aquando da picada de uma aranha irradiada, concederam-lhe força, agilidade, velocidade e resistência sobre-humanas, bem como a capacidade de aderir a quase todo o tipo de superfícies. Outro dos seus poderes é o chamado "sentido de aranha". Trata-se de um alarme extrasensorial que, através de um zumbido na cabeça, o alerta para os perigos iminentes. Devido ao seu metabolismo acelerado, o herói aracnídeo também dispõe de uma resistência acima da média em relação a drogas, doenças e vários produtos químicos. Embora num nível inferior ao de Wolverine, o Homem-Aranha possui um fator de cura que lhe permite cicatrizar mais rapidamente fraturas ou danos nos tecidos. Da sua parafernália fazem parte o fluido de teia sintético e respetivos lançadores. No seu cinto de utilidades guarda os cartuchos de teia para recarregar os lançadores e um pequeno projetor para o seu Sinal-aranha.

O Homem-Aranha debutou nas páginas de Amazing Fantasy nº15 (1962).

Biografia: Órfão desde pequeno, Peter Parker foi acolhido pelos seus tios Ben e May Parker na sua casa em Forest Hills, Queens (Nova Iorque). Os seus pais - ambos agentes secretos - haviam partido numa missão no exterior da qual nunca regressaram. Com o tempo, Peter tornou-se um adolescente franzino e introvertido porém extremamente inteligente, com uma especial aptidão para a ciência. Devido a essas características estava longe de ser um aluno popular no liceu. No entanto, quando tinha apenas 15 anos, a sua vida sofreu uma reviravolta. Durante uma demonstração de equipamentos que manipulavam a radiação, Peter foi picado por uma aranha irradiada cujo veneno, em circunstâncias normais, é inofensivo para os seres humanos. O inseto, todavia, fora exposto à radioativdade do aparelho e por isso a sua picada provocou impressionantes mutações na genética, metabolismo e biologia do jovem.

A picada que mudou para sempre a vida de Peter Parker.

                   Peter descobre os seus poderes quando, ainda aturdido, vagueia pela rua e quase é atropelado por um carro. O seu "sentido de aranha" alerta-o para o perigo e, por puro reflexo, ele salta e fixa-se na parede de um prédio. Assustado, ele escala até ao telhado do edifício e amassa uma chaminé de aço como se fosse de papel. A cena em que um menino o vê a escalar a dita parede ficou imortalizada em todas as bandas desenhadas que (re)contaram a origem do Homem-Aranha, mas não no cinema nem na versão de Ultimate Marvel.
                   Empolgado com os seus novos poderes, inicialmente Peter pensa apenas em ganhar dinheiro com eles. Participa por isso em combates de luta-livre e em vários programas televisivos onde exibe as suas assombrosas habilidades a troco de dinheiro. Levado por esses pensamentos individualistas, não mexe um dedo para impedir a fuga de um ladrão, que logo depois assassinaria o seu adorado tio Ben.  Este episódio trouxe-lhe um profundo sentimento de culpa e ensinou-lhe uma dura lição: com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. Depois disso passa a usar os seus poderes no combate ao crime sob o disfarce do Homem-Aranha. O que, no entanto, não é suficiente para que seja considerado um herói. Muitos veem-no como uma ameaça, em resultado das sucessivas campanhas difamatórias realizadas por J.J. Jamenson, diretor do jornal Clarim Diário. Depois de ingressar na Universidade Empire State, Peter começa a trabalhar no Clarim como fotógrafo freelancer de modo a ajudar a equilibrar o parco orçamento familiar. É, de resto, este humanismo que o distingue de heróis como o Super-Homem e que o tornaram tão popular entre os leitores.

A origem da personagem: Muitos detalhes acerca do processo de criação do Homem-Aranha permanecem obscuros até hoje. Sabe-se, essencialmente, que foi produto da criatividade de três monstros sagrados dos quadradinhos: Stan Lee, Jack Kirby e Steve Ditko (vide as respetivas biografias já publicadas neste blogue na rubrica Eternos). Existe, porém, uma controvérsia em torno da "paternidade" de um dos super-heróis mais populares de sempre. À época editor-chefe e principal escritor da Marvel Comics, Stan Lee desenvolveu um método rápido de escrever argumentos: em duas ou três páginas datilografadas, Stan apresentava as linhas gerais das personagens e do respetivo enredo, ficando o restante trabalho a cargo dos ilustradores. No final, Stan incluía os diálogos. Este método rendeu mais tarde inúmeros questionamentos sobre a real participação de Stan Lee  na criação de algumas das personagens mais famosas da editora. Já Jack Kirby, embora tenha participado no desenvolvimento inicial do Escalador de Paredes, nunca chegou a ser seu desenhador regular. Essa honra coube a Steve Ditko, fazendo dele cocriador do Homem-Aranha.
                    Mas qual foi o verdadeiro contributo de cada um deles na criação da personagem?
                    Segundo Stan Lee, o nome "Homem-Aranha" foi baseado na personagem The Spider (o Aranha), protagonista de vários contos publicados em revistas pulp que Stan lera durante a infância. À parte o nome, o violento justiceiro não tinha qualquer semelhança com o herói idealizado por Stan Lee. Um nome que esteve longe de agradar a Martin Goodman, o mandachuva da Marvel à época. Para ele, uma personagem conotada com aranhas estaria fadada ao fracasso uma vez que quase toda a gene odeia esses bichos. Stan Lee teve de usar toda a sua lábia para convencer Goodman a permitir a publicação de uma história-piloto na revista Amazing Fantasy, que estava prestes a ser cancelada.

The Spider serviu de inspiração a Stan Lee.

                   Habituado a desenhar super-heróis, Jack Kirby foi a escolha natural para ilustrar a primeira história do Homem-Aranha. Stan, porém, idealizara um adolescente franzino (numa época em que aos jovens estava reservado o estatuto de sidekicks de heróis séniores como Batman ou Capitão América) e, ao ver os esboços de Kirby, deparou-se com um novo Capitão América. Decidiu assim entregar o projeto a Steve Ditko, mais habituado a retratar o mundo real do que o épico Kirby.
                    Stan Lee, cuja memória é proverbialmente fraca, não se recorda se o uniforme do aranhiço foi idealizado por Ditko ou Kirby. Este questionava diversos pormenores da história de Lee. Segundo ele, o herói era, na verdade, uma reciclagem de Silver Spider (Aranha Prateada), personagem criada por Kirby em parceria com Joe Simon em 1953 mas que fora rejeitada pela editora Harvey Comics. De realçar que Simon afirmava que o nome original da personagem era Spiderman (sem o hífen distintivo do homólogo da Marvel) e que os esboços foram feitos por C.C. Beck, nada mais nada menos que o criador do Capitão Marvel/SHAZAM. Existem, contudo, incongruências na versão de Simon uma vez que o traço de Beck nada tem a ver com o de Kirby, pelo que dificilmente este conseguiria fazer passar por seus os esboços apresentados a Ditko. Kirby alegava também ter sido ele o criador do traje do aracnídeo. Apesar de a roupa não fazer lembrar nenhuma das indumentárias idealizadas por ele, mas sim as poucas criadas por Ditko.

Simon e Kirby criaram Silver Spider em 1953.

                   A solução de tais mistérios residia em Steve Ditko. Avesso a entrevistas, absteve-se durante décadas de comentar o assunto. Porém, um artigo publicado em 1990 lançou nova luz sobre o assunto. Nele, Ditko confirma que Kirby foi efetivamente o primeiro ilustrador designado para a série mas saiu por motivos desconhecidos. Conta ainda que o conceito original de Kirby era o de um adolescente que ganhava superpoderes e corpo de adulto graças a um anel mágico. Salvo um desenho abastrato no peito, nada no uniforme projetado por Kirby fazia lembrar uma aranha. Pese embora fossem evidentes as semelhanças com o Capitão América, o que atesta a versão de Stan Lee. No lugar dos discretos lançadores de teias propostos por Ditko, o protótipo do herói carregava uma arma de teias à cintura.
O traje original do Homem-Aranha desenvolvido por Kirby.

                 Ditko ignorou toda essa versão, refez a história e projetou o uniforme que todos conhecemos. Uma mudança significativa que, provavelmente, resultou numa personagem bem mais interessante do que a da versão original de Lee e Kirby. Ditko também desenhou uma capa para o número 15 de Amazing Fantasy que foi, todavia, rejeitada. Ironicamente, a dita capa seria desenhada por Kirby.
                 Embora Amazing Fantasy fosse cancelada após essa edição, o Homem-Aranha teve direito a um título próprio: Amazing Spider-Man, coescrito por Lee e Ditko e ilustrado por este último até à sua saída da Marvel. E é esta versão que povoa a imaginação dos leitores há quase meio século. Em 2011, o Escalador de Paredes mais famoso do mundo obteve o terceiro lugar no Top 100 Dos Melhores Super-heróis de Sempre do site IGN, suplantado apenas por Batman (2º) e Super-homem (1º).
Stan Lee e Steve Ditko, os cocriadores do Escalador de Paredes.

 
Noutros media: Sendo um fenómeno de popularidade global, ao longo dos anos o Homem-Aranha já teve direito a diversas séries animadas, a uma lendária série televisiva de 1977 e a quatro adaptações ao grande ecrã, a mais recente das quais é The Amazing Spider-Man (com estreia prevista em Portugal a 5 de julho).  A sua imagem também está associada a todo o tipo de merchandise: desde mochilas a bonecos, passando por pijamas e sapatilhas. Em 2010 estreou na Broadway um musical baseado no herói, cuja música e letra foram da autoria de Bono e The Edge, dos U2. Spider-Man: Turn Off The Dark foi a produção mais cara da história da Broadway (aproximadamente 70 milhões de dólares).
Andrew Garfield (esq.) e Tobey Maguire deram vida ao Homem-Aranha no cinema.

                  

segunda-feira, 18 de junho de 2012

ETERNOS: MIKE MIGNOLA (1960 - ...)

 

      Talentoso e versátil, ao criar o inigualável Hellboy, Mike Mignola conquistou o seu lugar no panteão dos Eternos aos quais os fãs de banda desenhada tanto devem. No entanto, nos primórdios da sua carreira, tinha um objetivo modesto: desenhar monstros.
      Nascido a 16 de setembro de 1960 (51 anos), em Berkeley, Califórnia, Michael Joseph Mignola, cedo desenvolveu uma estranha paixão por monstros, em particular pelos que figuravam nas bandas desenhadas que devorava com sofreguidão na sua infância e adolescência.  A história que mais o marcou, porém, foi "Drácula", esse clássico da literatura de terror da autoria de Bram Stroker. O qual, de resto, influenciaria fortemente as suas narrativas futuras. Depois disso, as suas escolhas literárias recaíram sobre as histórias de fantasmas e contos sobrenaturais, assim como sobre  mitos transmitidos ao longo de gerações em várias culturas do globo.
       Desde criança que Mignola acalentava o desejo de vir um dia a trabalhar na indústria dos comics. Planeava, para esse efeito, mudar-se para Nova Iorque logo que atingisse a maioridade. E, conforme explicou numa entrevista concedida anos depois, já quando o sonho se tornara realidade: "Se ia viver para a Grande Maçã, porque haveria de me dar ao trabalho de tirar a carta de condução?Há lá muitos táxis para te levarem aonde precisas ir."
        O seu objetivo de vida (desenhar monstros) parecia modesto mas Mike perseguiu-o com ardor e tenacidade.  Depois de se formar no California College of Arts and Crafts em 1982, rumou a Nova Iorque. Possuía já alguns contactos na indústria dos comics decorrentes de um pequeno trabalho realizado para a Marvel Comics. As suas primeiras tentativas de arranjar emprego foram relativamente bem sucedidas mas, ao cabo de seis meses, retornou à Califórnia, alimentando a esperança de conseguir um trabalho à distância como freelancer. Tal não se concretizou e Mike rumou novamente à Costa Leste. A sua persistência deu, finalmente, frutos e ele começou a trabalhar regularmente como ilustrador.
A arte de Mignola na minissérie Odisseia Cósmica da DC.
        No ano seguinte, Mike realizou o seu primeiro trabalho como desenhador numa minissérie em quatro volumes intitulada Rocket Racoon, lançada pela Marvel. Seguiram-se várias outras personagens da editora, entre as quais o Incrível Hulk.  Em 1988, Mignola trocou a Marvel pela arquirrival DC.  À época, depois do retumabante sucesso de Watchmen e de The Dark Knight Returns, a DC resolvera investir fortemente em séries e graphic novels vocacionadas para um público adulto. A atmosfera soturna e amiúde violenta dessas produções atraiu Mignola e não demorou muito a que este estabelecesse a sua reputação de artista notável com um estilo excitante. Entre outros trabalhos, Mike desenhou a minissérie Cosmic Odissey (Odisseia Cósmica, publicada no Brasil pela Abril Jovem em 1990) e produziu as capas para a série Batman: A Death in the Family. Um dos seus projetos na DC consistia em escrever uma história onde o Cavaleiro das Trevas enfrentava um vilão fantasmagórico.
Aquando da sua passagem pela DC, Mignola desenhou Batman.

          Até 1993, Mignola  limitara-se a ilustrar o trabalho de outros. Isso mudaria quando nesse mesmo ano foi convidado pela Dark Horse Comics (uma editora conhecida por publicar bandas desenhadas baseadas em filmes de sucesso), a participar num desses projetos. Iniciou-se assim uma parceria duradoura entre Mignola e a Dark Horse, da qual resultaria o nascimento de Hellboy.
          Há muito que Mignola desejava desenvolver uma nova personagem. "A ideia era criar um tipo de monstro com bom coração que trabalhasse como investigador do paranormal", declarou o "pai" de Hellboy quando entrevistado anos atrás. Desse projeto nasceu um demónio musculado, de pele vermelha , cornos e cauda, norteado por um enorme sentido de justiça, decorrente da educação recebida da sua família adotiva. Para criar Hellboy, Mike misturou habilmente elementos retirados das obras de mestres do terror como Edgar Allan Poe e H.P. Lovecraft.
           Nos anos subsequentes, Mike escreveu e ilustrou numerosas edições de Hellboy, revelando gradualmente detalhes sobre o passado da personagem. Este e outros trabalhos valeram-lhe alguns do mais prestigiantes prémios dos quadradinhos, como os  Eisner Awards e  os Harvey Awards.
           Quando, em 2004, a adaptação cinematográfica de Hellboy se tornou realidade, Mike Mignola nem queria acreditar, tantos foram os projetos anteriormente recusados pelos estúdios de Hollywood.  Mike encontrou no realizador Guillermo del Toro um parceiro criativo perfeito visto que ambos comungavam das mesmas ideias para transportar herói demoníaco ao grande ecrã. A este propósito, Mike confidenciou um dia: "Guillermo del Toro deve ser o único tipo que gosta mais do Hellboy do que eu."
           Apesar do filme ter catapultado Hellboy e o seu criador para a ribalta, este manteve-se humilde: "A grande diferença é que agora vivo num mundo em que as pessoas conhecem realmente o Hellboy", declarou dias após a estreia da película nos cinemas norte-americanos.
Hellboy é a obra-prima de Mignola.