terça-feira, 16 de abril de 2013

ETERNOS: ALAN MOORE (1953 - ...)


 
 
  
    Genialidade e excentricidade são dois traços indeléveis no caráter de Alan Moore, por muitos considerado um dos melhores escritores de BD de sempre. A despeito da sua renitência, várias das suas obras foram já adaptadas ao cinema.
 
Biografia: Primogénito de um casal composto por um taberneiro e uma tipógrafa, Alan Moore nasceu a 18 de novembro de 1953 (59 anos) em Northampton, uma pequena cidade industrial a meio caminho entre Londres e Birmingham, no Reino Unido.  A sua infância foi passada numa zona da cidade conhecida como The Boroughs, na qual floresciam a miséria e a iliteracia. Moore, no entanto, revelou-se um leitor precoce (aprendeu a ler com apenas 5 anos, antes mesmo de ingressar na escola primária) e compulsivo que, à falta de verba para comprar livros, recorria amiúde à biblioteca pública local. Paralelamente, descobriu as histórias aos quadradinhos. Primeiro as publicações indígenas como Topper e The Beezer; mais tarde os comics norte-americanos com especial predileção por títulos como Flash, Detective Comics, Fantastic Four e Blawkhawk.
      Em casa coabitava com os pais, o irmão mais novo e a sua beata e supersticiosa avó materna, a qual despertaria nele o fascínio pelo misticismo e pelo esoterismo (aquando do seu 40º aniversário, em 1993, Moore assumiu-se como um mago cerimonial).
      Devido às suas boas notas, Moore seria admitido na Northampton Grammar School, um prestigiado colégio masculino. Foi lá que, pela primeira vez, contactou com alunos provenientes de estratos sociais mais elevados. De aluno brilhante na escola primária, Moore passou a estudante medíocre, incapaz de competir com os seus novos colegas.
      Irreverente, desde os primórdios da adolescência que Moore começou a usar cabelo comprido (que, a par da barba desgrenhada e dos anéis, ainda hoje conserva como imagem de marca). Desmotivado de estudar, em finais do anos 1960, começou a publicar poemas e ensaios da sua autoria em toda a sorte de fanzines, antes de lançar o seu próprio, batizado de Embryo. Através deste projeto, Moore envolver-se-ia num outro, denominado Laboratório de Artes.
      Em 1970, Moore seria expulso da Northampton Grammar School por se dedicar ao tráfico de LSD e de outras substâncias alucinogénicas no interior do colégio. Em consequência disso, não voltaria a ser admitido em qualquer outro estabelecimento de ensino.
     No ano seguinte, enquanto continuava a morar na casa dos pais, Moore passou por vários empregos pouco qualificados. Nessa mesma época conheceu a sua primeira esposa com quem casou em 1974, daí resultando o nascimento de duas filhas. Durante quase duas décadas, o casal partilhou uma amante, porquanto nem Moore nem a mulher acreditavam na monogamia. As duas mulheres acabariam, porém, por abandonar Moore em meados da década de 1990, levando com elas as duas filhas do casal. Moore, por sua vez, voltaria a casar em 2007, desta feita com Melinda Gebbie com quem trabalhou na produção de várias bandas desenhadas.
     Moore continua a viver em Northampton, cuja história serviu de inspiração à novela da sua autoria Voice of the fire. Aderiu também ao vegetarianismo.
 
Miracleman foi um dos primeiros êxitos de Alan Moore.
 
Carreira: 1978 foi o ano que assinalou o arranque oficial da longa e eclética carreira profissional de Alan Moore. Após abandonar o seu anterior emprego como administrativo, resolveu escrever e desenhar as suas próprias histórias aos quadradinhos. Recebeu o seu primeiro cachê graças a umas ilustrações publicadas numa revista especializada em música. Até 1980, por vezes sob pseudónimos, Moore publicou várias tiras e séries em revistas e jornais. Concentrou-se, entretanto, em aprimorar a sua escrita, em detrimento da sua arte. Contou para isso com a ajuda do seu velho amigo e também argumentista Steve Moore.
     Entre 1980 e 1984, Alan Moore trabalhou como argumentista freelancer em várias editoras britânicas, nomeadamente a Marvel UK e a 2000AD, mas também na Warrior, onde teve a cargo duas séries regulares: Marvelman (posteriormente rebatizado de Miracleman por razões legais) e V for Vendetta. Esta narrativa distópica, que tinha lugar num futuro próximo marcado pelo totalitarismo fascizante, seria uma das obras-primas de Moore, muito provavelmente por se ter identificado com o herói da série que, a exemplo do escritor, era um assumido anarca. A despeito das reservas de Moore - que sempre recusou ver o seu nome associado às adaptações cinematográficas das suas obras - V for Vendetta deu origem a um filme de sucesso em 2005.
     O trabalho de Moore na 2000AD atraiu a atenção de Len Wein, o editor-chefe da DC à época, que o contratou em 1983 para escrever Swamp Thing, um título cujas vendas andavam pelas ruas da amargura. Secundado por uma competente equipa de ilustradores, Moore reinventou o Monstro do Pântano, misturando nas suas histórias elementos sobrenaturais e de terror com outros de cariz social e ambiental. A série obteve um sucesso sem precedentes junto do público e da crítica, abrindo assim caminho para a contratação por parte da DC de outros escritores britânicos, designadamente Neil Gaiman, com vista ao relançamento de outras personagens obscuras.
 
Antes de Alan Moore, o Monstro do Pântano não passava de uma personagem obscura do universo DC.
 
      Durante a sua passagem de cinco anos pela DC, Moore teve igualmente oportunidade de trabalhar com as personagens de charneira da editora. Para Superman escreveu, em 1985, For The Man Who Has Everything, com arte de Dave Gibbons (seu futuro parceiro criativo em Watchmen). The Killing Joke foi o seu tributo ao Homem-Morcego (mas também ao seu arqui-inimigo Joker).
       Após o êxito de Watchmen (vide texto anterior), a relação de Moore com a DC começou progressivamente a deteriorar-se, devido a divergências relacionadas com merchandising e direitos autorais. Situação que culminou com a saída de Moore da DC em 1989 para, em sociedade com a sua primeira esposa e a amante de ambos, fundar a sua própria editora, a qual sugestivamente crismaram de Mad Love. Até 1996, ano em que a Mad Love encerrou portas, Moore e os seus associados produziram toda a sorte de séries, antologias e novelas gráficas, com especial destaque para a controversa Lost Girls, descrita pelo próprio autor como sendo uma obra de pornografia inteligente. Ainda nesse ano Moore publicaria o romance Voice of the fire.
      Seguiu-se uma passagem pela Image Comics, tendo sido o seu trabalho com Supreme (personagem criada por Rob Liefeld e com notórias semelhanças com o Homem de Aço) o mais notável. Em 1999, Moore, desavindo com Liefeld, abandonou a Image para fundar a American Best Comics (ABC), associada à Wildstorm Studios de Jim Lee. Foi sob a égide da ABC que Moore lançou The League of Extraordinary Gentleman (adaptada ao grande ecrã em 2003).
      Atualmente, Alan Moore tem vários projetos em carteira começando por um livro dedicado ao Ocultismo, escrito a meias com o seu velho compincha Steve Moore. Isto ao mesmo tempo que escreve o seu segundo romance, com o título provisório Jerusalem.
 
A par de Watchmen, V for Vendetta é uma das obras mais emblemáticas de Moore, tendo ambas sido adaptadas ao cinema.
 
Prémios e distinções: Autor multipremiado, ao longo da sua carreira foram inúmeros os galardões e distinções atribuídos a Alan Moore.  No seu currículo, e apenas para citar alguns, constam 7 Harvey Awards para Melhor Escritor; 9 Kirby Awards em categorias que vão desde Melhor Escritor a Melhor Série Regular; 9 Eisner Awards para Melhor Escritor. Acrescem ainda várias honrarias internacionais como 2 prémios Angoulême para Melhor Álbum e outros tantos British National Comics Award que o distinguiram em duas ocasiões (2001 e 2002) como o melhor escritor de BD de sempre.
 
Alan Moore na companhia da sua atual esposa, Melinda Gebbie.
 
 
 


quarta-feira, 10 de abril de 2013

DO FUNDO DO BAÚ



 
 
 
     O que aconteceria se os super-heróis fossem reais e tivessem o poder de alterar o curso da história humana? Seriam eles considerados salvadores ou ameaças? Foi este o ponto de partida para Alan Moore escrever Watchmen, verdadeira obra-prima dos quadradinhos.
 
Título: Watchmen (minissérie de luxo em 6 edições mensais)
Data: Novembro de 1988 a abril de 1989
Número de páginas: 68 por volume
Formato: Americano (17 cm x 26 cm), colorido e com lombada agrafada
Licenciadora: DC
Editora: Entre 1988 e 1999, a Abril Jovem publicou duas séries de Watchmen e uma edição encadernada. Já neste século, surgiram mais quatro reedições da saga, uma lançada pela Via Lettera e as restantes com a chancela da Panini Comics.
Argumento: Alan Moore
Arte: Dave Gibbons
Publicado originalmente em: Watchmen nº1 a 12 (EUA, 1986/87)
História de publicação: Introduzindo abordagens e linguagens anteriormente ligadas apenas aos quadradinhos ditos "alternativos", além de lidar com temáticas de orientação mais madura e menos superficial quando comparada aos comics mainstream publicados à época nos EUA, Watchmen representa um marco importante na evolução da 9ª arte naquele país.
     Diz-se, aliás, que Watchmen foi, no contexto da indústria dos quadradinhos na década de 1980, um dos responsáveis por, a par de A Queda de Murdock e O Regresso do Cavaleiro das Trevas (ambas da autoria de Frank Miller) e de Maus (de Art Spiegelman), despertar o interesse do público adulto para um formato até então considerado infanto-juvenil. 
     Tudo começou em 1985, quando a DC se tornou detentora dos direitos da linha de personagens da Charlton Comics. Durante esse período, Alan Moore considerou escrever uma história que teria como protagonistas heróis obscuros que, a exemplo do que fez com Miracleman, ele pudesse remodelar a seu belo prazer.
     Julgando que o grupo Mighty Crusaders da MLJ Comics estaria disponível para o seu projeto, Moore desenvolveu um enredo de mistério envolvendo um assassinato, que começaria com a descoberta do corpo de um dos integrantes da equipa. Usando essa premissa, e perante a indisponibilidade das personagens da MLJ, Moore substituiu-as pelos super-heróis da Charlton, dando o título Who Killed The Peacemaker? (Quem Matou O Pacificador?) à narrativa e  apresentado-a ulteriormente a Dick Giordano, o então editor-chefe da DC. Este, embora recetivo à ideia, opôs-se à utilização de personagens da Charlton na história, ao perceber que as mesmas acabariam mortas ou inutilizadas. Por conseguinte, Giordano convenceu Moore a introduzir personagens inéditas. Moore mostrou-se relutante ao princípio, mas acabaria por aceder ao pedido.
      Dave Gibbons, desenhista que colaborara com Moore em projetos anteriores, manifestou o seu interesse em trabalhar novamente com o seu patrício (ambos são britânicos) e, após considerações de Giordano, foi aceite, trazendo consigo o colorista John Higgins.
     Originalmente, Moore e Gibbons tinham matéria-prima para apenas seis edições, pelo que  compensaram interpolando os assuntos principais com temas que proporcionariam uma espécie de retrato biográfico das personagens principais. Durante o processo, Gibbons teve grande autonomia para desenvolver o estilo visual de Watchmen, inserindo detalhes que Moore admitiu só perceber mais tarde, pois a saga foi feita para ser lida e compreendida totalmente somente após diversas leituras.
 
Alan Moore (esq.) e Dave Gibbons, a dupla criativa de Watchmen.
 
Sinopse: Na realidade histórica alternativa apresentada em Watchmen, Richard Nixon teria conduzido os EUA à vitória na Guerra do Vietname e, em resultado deste facto, teria permanecido no poder por um longo período. Esta vitória, além de muitas outras diferenças entre o mundo verdadeiro e o retratado na saga ( como, por exemplo, os carros elétricos serem a realidade da indústria dos automóveis e o petróleo já não ser a maior fonte de energia) derivaria da existência naquele cenário do Dr. Manhattan, um indivíduo dotado de poderes especiais, os quais o levam a possuir vasto controlo sobre a matéria e a energia, elevando-o ao estado de um semideus.
     Ambientada em 1985 e com o mundo à beira de holocausto termonuclear, a trama mostra que existiriam histórias aos quadradinhos de super-heróis no final dos anos de 1930, inclusive do Superman, os quais eventualmente seriam a principal inspiração para que uma das personagens da série viesse a  tornar-se um combatente do crime (o primeiro Coruja). As revistas deste género  teriam entretanto deixado de existir, sendo substituídas por novelas gráficas de piratas (talvez devido ao surgimento de super-heróis de carne e osso). O Dr. Manhattan, o único a possuir poderes (como explodir ou desmontar objetos, e até mesmo pessoas, pois controla os átomos), foi o primeiro da "nova era" de super-heróis mais sofisticados que durou do começo da década de 1960 até à promulgação da Lei Keene em 1977, implementada em resposta à greve da polícia e a consequente revolta da população contra os vigilantes que agiam acima da lei. À época, o grupo conhecido como Crimebusters  dispunha-se a combater a criminalidade na cidade de Nova Iorque.
     A Lei Keene exigia que todos os "aventureiros fantasiados" se registassem no governo. A maioria dos vigilantes resolveu aposentar-se, alguns revelando publicamente as suas identidades secretas para faturar com a atenção dos media  - caso de Adrian Veidt, o Ozymandias. Outros, como o Comediante e o Dr. Manhattan, continuaram a trabalhar sob a supervisão e o controlo do governo. O vigilante conhecido como Rorschach passou a operar como um herói renegado e fora-da-lei, sendo frequentemente perseguido pela polícia.
     A história abre com a investigação do assassinato de Edward Blake, logo revelado como sendo a identidade civil do vigilante mascarado conhecido como O Comediante. Tal assassinato chama a atenção de Rorschach, o qual passará toda a primeira metade da trama entrando em contacto com seus antigos companheiros em busca de pistas, considerando praticamente todos como possíveis suspeitos.
    Rorschach suspeita que o evento da morte de Blake estaria relacionado a um possível rancor de criminosos presos pelos heróis no passado, tese que ganha força à medida que outros ex-combatentes do crime e o próprio Rorschach são duramente atingidos por um aparentemente planificado ataque sistemático à sua integridade física e moral.
     No entanto, à medida que a investigação se aprofunda, os indícios apontam para uma maquiavélica conjura orquestrada por um insidioso némesis que não descansará enquanto não eliminar todos os heróis.

Watchmen (da esq. para a dir.): Espectral II, Comediante, Coruja II, Dr. Manhattan, Rorschach e Ozymandias.
 
Prémios e distinções: A série conquistou vários Prémios Kirby e Eisner (que estão para a BD como os Óscares estão para o cinema), além de uma honraria muito especial no Prémio Hugo, voltado para a literatura. É, de resto, até ao momento a única novela gráfica a merecer tal distinção, assim como também é a única história aos quadradinhos a figurar na lista dos cem melhores romances eleitos pela revista Time desde 1923.
 
 
Curiosidades:
* Os heróis que compõem os Watchmen tiveram como modelo várias personagens da editora Charlton Comics, cujos direitos de publicação haviam sido recentemente adquiridos pela DC. Assim, Coruja II, Espectral II, Dr. Manhattan, Rorschach, Comediante e Ozymandias correspondem, respetivamente, ao Besouro Azul, Sombra da Noite, Capitão Átomo, Questão, Pacificador e Thunderbolt.
* Antecessores dos Watchmen, os Minutemen são a única formação organizada de super-heróis referida na história. Trata-se de uma equipa de vigilantes mascarados fundada em 1938 (curiosamente, o ano da estreia do Super-homem) e que atuou durante a II Guerra Mundial. O termo Watchmen alude, portanto, genericamente a todos os vigilantes mascarados, não designando contudo o grupo de heróis remanescentes.
Na minha coleção desde: 1995 (edição encadernada da Abril)
 
 


quarta-feira, 3 de abril de 2013

BD CINE APRESENTA: WATCHMEN





     Após o êxito de 300, Zack Snyder foi o realizador escolhido para adaptar ao cinema Watchmen, a aclamada saga da autoria de Alan Moore e Dave Gibbons. O resultado superou todas as expectativas, exceto as do próprio Moore.
 
Título original: Watchmen (em Portugal foi subintitulado "Os Guardiões")
Ano: 2009
País: EUA
Duração: 162 minutos
Realização: Zack Snyder
Argumento: David Hayter e Alex Tse (baseado no argumento original de Alan Moore)
Elenco:  Malin Akerman (Laurie Jupiter/ Silk Spectre II); Billy Crudup (Dr. Manhattan); Mathew Goode (Adrian Veidt/Ozymandias); Jackie Earle Haley (Rorschach); Jeffrey Dean Morgan (Edward Blake/Comediante); Patrick Wilson (Dan Dreiberg/ Night Owl II); Carla Gugino (Sally Jupiter/Silk Spectre I);
Produção: Em 1986, os produtores Lawrence Gordon e Joel Silver adquiriram os direitos de Watchmen para a 20th Century Fox, a fim de adaptarem a prestigiada série ao grande ecrã. Devido à recusa de Alan Moore em escrever o guião do filme, baseado na BD original, a Fox contratou Sam Hamm (um dos argumentistas de Batman), que tomou a liberdade de reescrever o final apocalíptico da saga. Porém, transcorridos cinco anos, a Fox vendeu o projeto à Warner Bros. A qual, por sua vez, desistiria dele em virtude da falta de financiamento. Entre 2001 e 2005 houve algumas tentativas frustradas de ressuscitar o projeto, envolvendo diversos estúdios e equipas de produção. Foi, contudo, preciso esperar até finais de 2005 para Watchmen começar enfim a ganhar  forma. Impressionados com o seu trabalho em 300 (adaptação cinematográfica de uma graphic novel homónima de Frank Miller), os mandachuvas da Warner Bros. convidaram Zack Snyder (que dirigiu também a mais recente longa-metragem do Homem de Aço) a ocupar a cadeira de realizador. Secundado por uma competente equipa de argumentistas e tendo como consultor Dave Gibbons (o ilustrador que deu vida ao conceito primordial de Moore), Snyder usou, a exemplo do que fizera em 300,  a banda desenhada como ponto de partida para o seu filme. Adicionalmente, extendeu as cenas de luta e pediu para que fosse introduzido um subtexto sobre fontes de energia, com  vista a tornar o filme mais socialmente comprometido. Alterações que, aos olhos de Alan Moore, se afiguraram blasfemas. Sendo essa uma das razões que explicam a recusa do autor em ter o seu nome associado a qualquer adaptação ao grande ecrã das suas obras.
               Com início em setembro de 2007 e tendo como cenário principal a cidade de Vancouver (Canadá), as filmagens ficaram concluídas em fevereiro de 2008. Estima-se que os custos globais do projeto tenham ascendido aos 130 milhões de dólares.
Orçamento: 130 milhões de dólares
Receitas: 185 milhões de dólares
Prémios e nomeações: 3 Saturn Awards (Melhor Filme de Fantasia, Melhor Guarda-roupa e Melhor Edição em DVD), 1 Scream Award (Melhor Filme de Super-heróis) e várias nomeações em categorias como Melhor Realizador, Melhor Atriz Secundária e Melhor Argumento, apenas para citar algumas.

 
Sinopse: O enredo de Watchmen desenrola-se em 1985, numa realidade alternativa onde os super-heróis são reais, Richard Nixon cumpre um terceiro mandato presidencial na Casa Branca e as tensões entre os EUA e a URSS estão ao rubro.
             Tudo começou em 1938, data da formação dos Minutemen, um grupo de vigilantes mascarados antecessores dos Watchmen. A existência dessas personagens mudou o curso da História: os superpoderes do Dr. Manhattan ajudaram os EUA a vencer a Guerra do Vietname, daí resultando as sucessivas reeleições de Nixon e uma vantagem estratégica do bloco ocidental em relação à URSS e seus aliados. Facto que, por sua vez, conduziu a uma escalada da tensão entre as duas superpotências, deixando o mundo à beira de um conflito nuclear. Outra consequência foi um crescente sentimento anti-super-heróis em território norte-americano, culminando com a ilegalização do vigilantismo. Ao passo que muitos dos antigos justiceiros mascarados optaram por se reformar, o Dr. Manhattan e o Comediante tornaram-se agentes ao serviço do governo estadounidense. Rorschach, por seu turno, continuou a operar na clandestinidade. É ele, de resto, que, ao investigar a morte do Comediante desconfia que está em curso uma conspiração para exterminar os Watchmen. Alertados pelo seu antigo camarada, os demais super-heróis revelam-se céticos quanto a essa possibilidade. Até começarem a ser caçados um a um por um misterioso e desapiedado assassino. Acossados, não resta aos Watchmen remanescentes outra alternativa que não regressarem ao ativo, de modo a deterem o diabólico plano do seu insidioso némesis. 
Curiosidades:

* O traje de Ozymandias é uma paródia aos uniformes de borracha utilizados em outros filmes de super-heróis, como Batman & Robin;
* A par dos direitos de Watchmen, em 1986 foram adquiridos os de V de Vingança, outra graphic novel escrita por Alan Moore que seria levada ao grande ecrã em 2005;
* Michael Bay (Armageddon, Transformers) chegou a ser cogitado para o cargo de realizador em 2003;
* Ao longo dos anos, circularam vários rumores relacionados com o elenco: nomes como Sigourney Weaver, John Hurt, Arnold Schwarzenegger e Tom Cruise, entre muitos outros, foram dados como certos num futuro filme baseado no universo alternativo idealizado por Alan Moore;
* Jeffrey Dean Morgan inicialmente rejeitou o papel de Comediante depois de ter lido as três primeiras páginas do enredo, por julgar irrelevante a personagem. Foi, todavia, persuadido pelo seu agente a aceitar o papel;
* Apresentado pela primeira vez aquando da estreia de Batman, O Cavaleiro Das Trevas, o trailer de Watchmen catapultou novamente a banda desenhada original para os tops de vendas nos EUA.

 
Minha avaliação: 81%
       Desde logo, Watchmen tem o mérito de ser um daqueles raros filmes que mistura vários géneros (drama, ficção científica e policial noir), sem daí resultar uma intragável mixórdia cinéfila. Tendo como pano de fundo uma realidade onde pontifica o sadismo e onde a linha que separa o Bem do Mal é tão sombria como as ruas da metrópole onde opera um grupo de super-heróis tremendamente humanos, Watchmen está longe de corresponder ao cânones das adaptações ao grande ecrã de super-heróis nascidos nos quadradinhos. Assassínio, violação, sexo, nudez e guerra são nele retratados sem pudor.  A profusão de violência - a espaços gratuita  - é, com efeito, uma das pechas desta película, servindo por vezes para distrair o espectador da narrativa hipnótica que se vai desfiando no ecrã.
       Classificada pelo próprio autor de "infilmável", a saga Watchmen, pelas mãos do visionário Zack Snyder, resulta num exercício visual intoxicante, complementado pela abordagem de temas complexos e tradicionalmente ausentes em filmes do género. Só por isto Watchmen está fadado a servir de referência a futuras adaptações cinematográficas do universo super-heroico, sendo notória a sua influência em produções mais recentes como Os Vingadores ou Batman, O Cavaleiro das Trevas Renasce.

 
 

sábado, 30 de março de 2013

HERÓIS EM AÇÃO: NOVOS TITÃS




     A formação primitiva dos Novos Titãs reunia os parceiros juvenis dos principais super-heróis seniores da DC. Seguiram-se várias reconfigurações, transformações e ressurreições da equipa, que nunca deixou de ser fiel à sua matriz.

Nota prévia: dada a plêiade de integrantes que ao longo das décadas fizeram parte dos Novos Titãs, o texto abaixo centrar-se-á apenas naquelas que, na minha opinião, foram as três fases mais importantes da história do grupo.


I- Os Titãs primordiais

Da esq. para a dir.: Ricardito, Aqualad, Kid Flash e Robin, com a Moça-Maravilha em segundo plano.

 
Nome original: Teen Titans
Primeira aparição: Brave and the Bold nº54 (julho de 1964)
Licenciadora: DC
Criadores: Bob Haney, George Kashdan e Bruno Premiani
Membros fundadores: Robin (Dick Grayson), Kid Flash (Wally West), Aqualad (Garth), Moça-Maravilha/Wonder Girl (Donna Troy) e Ricardito/Speedy (Roy Harper)
Base de operações: Torre Titã (Nova York)
Origem e histórico de publicação: Na sua primeira aventura em conjunto, Robin, Kid Flash e Aqualad - parceiros juvenis, respetivamente, de Batman, Flash e Aquaman - juntaram forças para derrotar um vilão com poderes climáticos no 54º número de Brave and the Bold (1964). Um ano e seis edições volvidas, ao triunvirato primordial juntar-se-ia a Moça-Maravilha (pretensa irmã mais nova da Mulher-Maravilha, criada especificamente para integrar o grupo), passando então a pandilha a atuar sob o nome de Turma Titã (assim crismados no Brasil pela editora EBAL). Ainda em 1965, mas em dezembro, seria a vez de Ricardito ( então sidekick do Arqueiro Verde) se juntar ao grupo nas páginas de Showcase nº59. Em fevereiro do ano seguinte, os heroicos adolescentes estreariam a sua própria série. A qual tinha como premissa transformar os Titãs numa espécie de Liga da Justiça júnior, respondendo a pedidos de ajuda provenientes dos quatro cantos do mundo.
        Claramente elegendo os adolescentes como público-alvo, temas como jovens assumindo responsabilidades e papéis de adultos eram recorrentes na série. Nesse sentido, nas primeiras histórias da equipa eram exploradas situações contemporâneas, como a contestação à guerra no Vietname ou as tensões raciais que eclodiam um pouco por todos os EUA.
       Não obstante o sucesso relativo, a série seria cancelada em 1973, sendo relançada três anos decorridos, sem contudo lograr recuperar o fulgor inicial.


Numa antevisão do que seriam os Titãs, Kid Flash, Robin e Aqualad reuniram-se pela primeira vez em Brave and the Bold nº54 (1964).
 


II- A 2ª geração de Titãs

    A 2ª geração de Titãs (no sentido dos ponteiros do relógio e com a Torre Titã em fundo): Estelar, Robin, Kid Flash, Ravena, Cyborg, Mutano e Moça-Maravilha.

Nome original: The New Teen Titans
Primeira aparição: The New Teen Titans nº1 (novembro de 1980)
Licenciadora: DC
Equipa criativa: Marv Wolfman (texto) e George Pérez (arte)
Membros: Robin/Asa Noturna, Kid Flash/Flash III, Ravena, Cyborg (Victor Stone), Mutano/Beast Boy (Garfield Logan), Moça-Maravilha/Tróia/Darkstar e Estelar (Koriander). A este elenco juntar-se-iam várias outras personagens, nomeadamente Jericó (filho do Exterminador, inimigo jurado dos Titãs), Terra, Fantasma, Pantha, Estrela Vermelha, Rapina & Columba, só para citar algumas.
Base de operações: Torre Titã (Nova York)
Origem e histórico de publicação: Em novembro de 1980, pelas mãos de Marv Wolfman e George Pérez, a segunda geração de Titãs debutou nas páginas de The New Teen Titans nº1. À formação original (exceto Ricardito), juntou-se um novo quarteto de personagens: Cyborg, meio homem, meio máquina; Mutano, um transmorfo capaz de assumir a forma de qualquer animal; Estelar, uma sensual e poderosa princesa alienígena; e Ravena, uma soturna empata filha do demónio Trigon. Foi, de resto, para frustrar os planos diabólicos de Trigon que a equipa foi reunida por Ravena. Sobrepujada a ameaça, os seus jovens integrantes decidiram manter o coletivo.
       Contrastando com o tom pueril das primeiras histórias dos Titãs, a nova safra narrativa assumia um registo mais adulto. Desde logo, as motivações dos vilões complexificaram-se, seguindo tendências que despontavam naquela época, introduzindo grande profundidade nos quadradinhos, particularmente no caso do Exterminador (vide texto anterior), um mercenário moralmente ambivalente , contratado para aniquilar o grupo, depois de o seu filho ter fracassado nessa missão. Fiel a esse desígnio, o vilão infiltraria no seio dos Titãs uma espia: Terra, uma meta-humana sua amante, com poderes geotérmicos e uma personalidade psicótica, que atraiçoaria os seus companheiros de equipa.
       Atestando o caráter mais adulto dos Novos Titãs, Robin e Kid Flash emanciparam-se dos seus respetivos tutores (Batman e Flash) e assumiram novas identidades: o primeiro seria doravante conhecido como Asa Noturna (Nightwing no original), ao passo que o segundo deixaria cair o Kid no nome, tornando-se assim a terceira encarnação do Flash (sucedendo a Barry Allen, falecido durante a Crise nas Infinitas Terras).
        A série, no entanto, experimentaria algumas confusões relacionadas com títulos e numerações quando, em 1984, no âmbito da iniciativa da DC informalmente designada hardcover/softcover (capa dura / capa mole), foi relançado um novo nº1. Juntamente com Legion of the Super-Heroes e Batman and the Outsiders, The New Teen Titans foi um dos três títulos abrangidos por esse controverso projeto editorial que consistia em publicar a mesma história duas vezes: a primeira numa edição mais cara com papel e impressão de alta qualidade distribuída exclusivamente em lojas especializadas; a segunda sendo republicada um ano depois no formato original de baixo custo e colocada à venda nas tradicionais bancas. Em resultado disso, a série foi renomeada Tales of the Teen Titans, passando a coexistir com uma outra agora publicada como The New Teen Titans (vol.2). Logo na sua primeira edição, a série causou polémica, ao mostrar Robin e Estelar deitados juntos na cama, embora já tivesse sido anteriormente estabelecido que os dois formavam um casal monogâmico, sem contudo estar unido pelo matrimónio.
        O número 50 da série foi duplamente marcante: por um lado, devido à supressão de Teen no respetivo título, na medida em que os Titãs já não eram adolescentes; por outro, a revelação da origem da Moça-Maravilha e da sua ligação com a Princesa Amazona. Ao longo dos sete anos seguintes, a The New Titans introduziu várias novas personagens (Jericó, Pantha, Estrela Vermelha, etc.), o regresso de outras (caso de Ricardito, agora respondendo pelo nome Arsenal) e transformações radicais noutras (a Moça-Maravilha deu lugar a Tróia e posteriormente a Darkstar).

 The New Teen Titans nº1 (1980) marcou o dealbar de uma nova era para a equipa.

III - Os Titãs do 3º milénio

Titãs do século 21 (no sentido dos ponteiros do relógio): Robin Vermelho, Solstício, Kid Flash II, Skitter, Moça-Maravilha II e Superboy (ao centro).


Nome orginal: Teen Titans
Primeira aparição: Teen Titans (vol. 4) nº1 (novembro de 2011)
Licenciadora: DC
Membros: Robin Vermelho/Red Robin (Tim Drake), Moça-Maravilha II/Wonder Girl (Cassie Sandsmark), Kid Flash II (Barry Allen), Bunker (Miguel Barragan), Solstício/Solstice (Kiran Singh), Skitter (Celine Patterson) e Danny the Street. Também Superboy (Kon-El) colabora ocasionalmente com o grupo, apesar de não ser oficialmente membro.
Base de operações: Nova York
Origem e histórico de publicação: Em setembro de 2011, a franquia dos Novos Titãs foi relançada nos EUA, acompanhando a revitalização da cronologia oficial do universo DC, operada através de "Os Novos 52".  No entanto, a maior novidade na mais recente encarnação da equipa radica no facto de Tim Drake nunca ter sido Robin, nem sidekick do Homem-Morcego. Atuando como Robin Vermelho, Drake, que vinha monitorizando as atividades de vários jovens meta-humanos espalhados pelo globo, reúne um grupo de heróis improváveis para enfrentar a ameaça representada pela Momentum (N.O.W.H.E.R.E. no original), uma organização secreta cujos objetivos são ainda desconhecidos. Mas que é responsável pela criação em laboratório de uma nova versão do Superboy, concebido com o propósito de ser a arma suprema ao serviço da Momentum, de molde a obliterar qualquer resistência ao seus desgínios.
           Inexperientes e impulsivos, os jovens heróis nem sempre funcionam bem em conjunto, apesar da assertiva liderança do Robin Vermelho.

O renascer de uma lenda em Teen Titans (vol. 4) nº1 (2011).

Noutros media: Data de 1967 a primeira incursão dos Titãs noutros meios de comunicação social que não os quadradinhos. Nesse ano, Ricardito, Aqualad, Moça-Maravilha e Kid Flash participaram pontualmente nalguns episódios da série de animação The Superman / Aquaman Hour Of Adventure, transmitida pela cadeia televisiva norte-americana CBS entre 1967 e 1968. Em 1983 foi a vez de  The New Teen Titans, série animada produzida pela Hanna-Barbera mas rejeitada pelo canal ABC. Seguiu-se uma longa travessia do deserto, somente interrompida em 2003 aquando do lançamento pela Cartoon Network de nova série de desenhos animados inspirada na equipa de heróis adolescentes e com notórias influências anime: Teen Titans teve cinco temporadas, ao longo das quais foram narradas algumas das histórias clássicas do grupo como "O Contrato de Judas" ou "O Reinado de Trigon".

Os Titãs em ação num episódio de The Superman/Aquaman Hour of Adventure (1967).
 Teen Titans: só em 2003 o grupo regressaria ao pequeno ecrã.