terça-feira, 8 de outubro de 2013

BD CINE APRESENTA: SUPER-HOMEM, O REGRESSO





      Após um interregno de quase duas décadas, ainda ao som da música de John Williams mas já sem Christopher Reeve, o Super-Homem voltou ao cinema em 2006, num filme de rara beleza visual mas que, pelo seu tom melancólico, desiludiu alguns fãs do herói kryptoniano.
Título original: Superman Returns
Ano: 2006
País: EUA
Duração: 154 minutos
Realização: Bryan Singer
Argumento: Bryan Singer, Michael Dougherty e Dan Harris
Estúdio: Legendary Pictures/ DC Comics
Elenco: Brandon Routh (Clark Kent/Superman), Kate Bosworth (Lois Lane), Kevin Spacey (Lex Luthor), James Marsden (Richard White) e Frank Langella (Perry White)
Orçamento: 204 milhões de dólares
Receitas: 391 milhões de dólares
Sinopse: Depois de ter derrotado o triunvirato kryptoniano liderado pelo General Zod, que aterrorizou a Terra em Superman II (1980), o Homem de Aço parte para o espaço em busca do seu planeta natal e de outros possíveis sobreviventes, baseado na suposta descoberta da localização de Krypton por parte de astrónomos terrestres. Tudo o que descobre, no entanto, são vestígios fantasmagóricos de um mundo morto há muito tempo, regressando então ao seu planeta adotivo. Apenas para descobrir que Lois Lane é agora casada com um sobrinho de Perry White, do qual tem um filho. E Lois parece não ter sido a única a seguir com a sua vida; também Metrópolis e a Terra parecem ter deixado de precisar do seu salvador.
       Lex Luthor, por seu turno, também se encontra novamente em liberdade, dispondo agora de vastíssimos recursos depois de ter desposado uma velhota milionária em fase terminal. Sedento de vingança por ter visto frustrados, pelo seu némesis, os seus planos de destruição da Califórnia, o vilão engendra um maquiavélico plano: usando a tecnologia kryptoniana baseada nos cristais de pedra solar, Luthor pretende gerar um novo continente que provocará a destruição da América do Norte e a consequente morte de milhões de inocentes.
       Incrustrados na nova estrutura, os cristais de kryponita (fragmentos radioativos do mundo natal do Super-Homem que são letais para ele) revelam-se uma armadilha mortal para o Homem de Aço. Este terá contudo de, numa corrida contra o tempo e apesar do coração partido, encontrar uma forma de deter os desígnios insanos de Luthor.
Luthor continua empenhado em vingar-se do seu arqui-inimigo.
Curiosidades:
* Na confeção do novo traje do Super-Homem foi utilizado um material especial que, com o uso, engelhava rapidamente. Decorrente desse facto, foram produzidos 80 uniformes, 100 capas, 30 botas e 90 cintos. Embora o preço unitário dos fatos nunca tenha sido divulgado, Bryan Singer gracejou numa entrevista que sempre que um deles se estragava, era como espatifar um Ferrari;
*O papel de Lex Luthor esteve sempre reservado para Kevin Spacey. Por conseguinte, o cronograma da produção foi ajustado à disponibilidade do ator que, à época, era também diretor do teatro Old Vic, em Londres;
*Brandon Routh, Kevin Spacey e Kate Bosworth aceitaram os respetivos papéis no filme antes sequer de lerem o guião;
* Foram necessários doze anos e três realizadores diferentes (entre os quais Tim Burton, o primeiro a assumi-lo em 1993) para que o projeto de fazer regressar o Último Filho de Krypton ao grande ecrã chegasse a bom porto;
* O filme foi rodado na Austrália (com Sydney a fazer as vezes de Metrópolis) e nos estúdios da Fox;
* Durante os castings, Henry Cavill e Amy Adams chegaram realizar audições para os papéis de Super-Homem e Lois Lane, respetivamente. Os mesmos que desempenham em Homem de Aço, o reboot que chegou este ano às salas de cinema de todo o mundo;
* Para a escolha de Brandon Routh foi preponderante a opinião favorável de Dana Reeve - viúva de Christopher Reeve - que viu nele uma enorme parecença física e vocal com o seu malogrado marido;
É um pássaro? É um avião? É o Christopher Reeve? Não, mas quase.
* Ao longo do filme, são várias as referências à banda desenhada: ao segurar um automóvel sobre a cabeça, o Super-Homem recria a icónica capa de Action Comics nº1 (onde o herói kryptoniano fez a sua estreia no já longínquo ano de 1938); já a sequência do salvamento do avião que transportava Lois Lane é decalcada da minissérie Homem de Aço, produzida em 1986 por John Byrne;
* Ao invés de contratar um ator para dar vida a Jor-El (pai biológico do Super-Homem), Bryan Singer optou por utilizar imagens de Marlon Brando, originalmente captadas para Superman e Superman II;
* Fazendo tábua rasa de Superman III e Superman IV - Em Busca da Paz, o enredo retoma a ação a partir dos eventos mostrados em Superman II. Ironicamente, porém, a última linha do quarto (e último filme) protagonizado por Christopher Reeve é "Vemo-nos dentro de vinte anos". Considerando que a cena em questão foi gravada em 1986, a frase assume contornos premonitórios;
* Entre as várias cenas cortadas durante a edição do filme (dedicado ao casal Christopher e Dana Reeve, ambos já falecidos), destaca-se uma, de aproximadamente seis minutos, mostrando a viagem exploratória do Super-Homem ao seu planeta natal, a qual, segundo é explicado, motivara a sua ausência da Terra durante cinco anos. Podem vê-la aqui:http://www.youtube.com/watch?v=sF44PEypDQs
Foram precisos quase 20 anos para o Super-Homem voltar a voar nos cinemas.
Veredito: 78%
      Este Super-Homem, O Regresso é, a vários títulos, especial para mim. Desde logo porque foi o primeiro filme do herói kryptoniano que pude ver no cinema, dada a minha tenra idade aquando do lançamento da quadrilogia original com o inigualável Christopher Reeve. Lembro-me bem da emoção pueril que senti ao escutar os primeiros acordes da magistral banda sonora de John Williams enquanto voavam no grande ecrã os créditos de abertura. Uma experiência extática que, até aí, só tinha podido vivenciar no recato do meu lar e nas reduzidas dimensões do meu televisor.
      Por outro lado, Super-Homem, O Regresso marcava o início da era pós-Christopher Reeve. Aos olhos de muitos fãs do Homem de Aço - eu incluído - Reeve foi - e, sem desprimor para os seus sucessores, provavelmente sempre será - O Super-Homem. A Brandon Routh cabia, portanto, a difícil tarefa de substituí-lo. Num esforço meritório, o jovem ator, ao invés de uma interpretação própria da personagem, optou por representar Christopher Reeve a fazer de Super-Homem. E convenhamos que foi bem-sucedido nessa tarefa. Muitas das expressões e maneirismos de Reeve foram mimetizados quase na perfeição por Routh que, tal como o seu antecessor, era  um ilustre desconhecido antes de assumir o manto do Último Filho de Krypton.
      Quanto à película em si, sob a batuta competente de Bryan Singer (um admirador confesso de super-heróis e, em particular, do Super-Homem), resulta numa verdadeira elegia aos dois primeiros filmes da série, realizados por Richard Donner. A prová-lo, o facto de Singer pura e simplesmente ter ignorado os inefáveis Superman III (1983) e Superman IV (1987). Ambos haviam redundado em estrondosos fracassos de bilheteira comprometendo a credibilidade da personagem e o futuro da franquia. Não surpreende, portanto, que o regresso do Super-Homem ao grande ecrã tenha levado quase duas décadas, com diversos projetos abortados pelo meio (e, nalguns casos, devemos todos ficar gratos por isso...).
      No entanto, uma tão prolongada espera criou uma grande ansiedade, e ainda maiores expectativas, nos fãs do herói. Ciente disso, Singer, a par do tributo a Superman e Superman II, empenhou-se em realizar um épico dos tempos modernos. Seguramente para se certificar que não mais o seu ídolo de infância voltaria a estar durante tanto tempo arredado do grande público.
Lois Lane e Super-Homem: um amargo reencontro.


        A despeito de toda a sua devoção e reverência, Singer não alcançou plenamente os seus objetivos. Pela sua intensa carga emocional e registo melancólico - inusual em produções do género e para o qual contribuiu igualmente o figurino retro - Super-Homem, O Regresso defraudou as expectativas de alguns fãs, que certamente desejavam ver  mais ação física. Com efeito, o verdadeiro vilão da história não é Lex Luthor (e muito menos a dispensável kryptonita). Esse papel coube a Lois Lane, a verdadeira causadora do sofrimento do herói, ao partir-lhe o coração (uma proeza, visto tratar-se do Homem de Aço) e ao sonegar-lhe a paternidade. Super-Homem, O Regresso é, pois, em última análise, uma história de amor. Entre o Último Filho de Krypton e a sua eterna namorada, por um lado, e entre Bryan Singer e os filmes clássicos de Richard Donner, por outro.
        De uma rara beleza visual, algumas cenas de Super-Homem, O Regresso tornaram-se icónicas (a cena em que o herói flutua em órbita da Terra é simplesmente sublime). As sumptuosas sequências de voo são muito mais convincentes dos que as mostradas recentemente em Homem de Aço. Kevin Spacey infunde de cinismo e perversidade a sua versão de Lex Luthor (por contraponto ao registo mais histriónico de Gene Hackman) e, malgrado alguma falta de carisma, Kate Bosworth é uma Lois Lane muito mais bonita do que era Margot Kidder. Ainda uma palavra para o novo uniforme, que tanta controvérsia causou mal foram divulgadas as primeiras imagens: A-D-O-R-E-I! A troca do tradicional encarnado por um grená torna o fato mais telegénico e, considerando a sua origem alienígena, faz todo o sentido que o símbolo no peito seja tridimensional. E até as cuecas por fora parecem menos ridículas agora.
Reprodução de uma das mais belas sequência do filme.
       Agora os aspetos negativos: a essência da trama é decalcada do filme original de 1978 enfermando, por isso, de um défice de suspense (apenas atenuado pela quase morte do Super-Homem decorrente da sobre-exposição à kryptonita). Qualquer fã do herói sabe, no entanto, que ele dispõe de um considerável naipe de némesis à altura, pelo que não se percebe a insistência nas pedras radioativas como principal ameaça.
      Nada, porém, que torne menos refrescante este remake não assumido de Superman, The Movie, devidamente aprimorado pelas tecnologias modernas. Estamos, portanto, em presença de uma aventura clássica de um herói intemporal.


sábado, 5 de outubro de 2013

DO FUNDO DO BAÚ: TERRA X - O MUNDO MUTANTE





 
      Num futuro distópico em que todos possuem superpoderes, a humanidade está extinta e os mutantes são a nova espécie dominante. Haverá ainda lugar para os heróis ou não serão estes mais do que relíquias de um passado distante? Uma odisseia sem precedentes, idealizada pelo talento incomparável de Alex Ross.
 
Título original: Earth X
Licenciadora: Marvel Comics
Argumento: Alex Ross e Jim Krueger
Arte: John Paul Leon e Alex Ross (capas)
Arte-final: Bill Reinhold
Publicado originalmente em: Earth X nº1 a 12 (EUA, 1999-2000)
 
Título em português: Terra X - O Mundo Mutante
Ano: 2001
Categoria: Minissérie
Número de volumes: 4
Formato: Americano (17 cm x 26 cm), colorido e com lombada agrafada
Número de páginas: 80 por edição
Editora: Mythos (em 2009 a Panini lançou uma edição encadernada)
Na minha coleção desde: 2013
 
Capa de Earth X nº6 com os novos X-Men,
 
História de publicação: Earth X começou a ser concebida em 1997, um ano depois do estrondoso sucesso de Kingdom Come (Reino do Amanhã), saga produzida por Alex Ross e Mark Waid para a DC, e que deu a conhecer uma tenebrosa realidade alternativa do universo da Editora das Lendas. A pedido da Wizard - revista estadounidense dedicada aos super-heróis - Alex Ross idealizou uma realidade distópica para o Universo Marvel, a exemplo do que fizera antes para a sua arquirrival.
       Ross fez então alguns esboços, nos quais apresentava possíveis versões futuras das principais personagens Marvel (incluindo o Capitão América, o Homem-Aranha e o Hulk) num mundo onde todos possuíam superpoderes e onde os super-heróis de outrora deixaram de ter um lugar especial.
       A edição da Wizard contendo o artigo de Alex Ross (acompanhado das citadas ilustrações) esgotou num abrir e fechar de olhos. A procura foi de tal ordem que, dois anos depois e já em parceria com a Casa das Ideias, o artigo seria republicado numa separata intitulada Earth X Sketchbook (Livro de Esboços de Terra X), que também esgotou num ápice. Considerando isso como um claro indicador do elevado interesse por parte dos fãs, a Marvel contratou Alex Ross para desenvolver uma série completa baseada nos seus esboços e anotações. O resultado seria uma saga em doze números, com argumento a cargo do próprio Ross e de Jim Krueger, sendo John Paul Leon o escolhido para assumir a arte. De tão bem-sucedida, Earth X abriria caminho a duas sequelas: Universe X  e Paradise X (ambas publicadas no Brasil pela Panini em 2012 e 2013, respetivamente).
 
 
Enredo: A Terra X é apenas um dos inúmeros planetas onde foram implantadas sementes dos Celestiais, uma raça de gigantes alienígenas que sonha dominar o Cosmos. As histórias de alguns dos seus mais ilustres habitantes são consideravelmente diferentes das suas contrapartes do Universo Marvel tradicional.
       Cerca de uma década depois do fim da Era Heroica, Raio Negro, o monarca dos Inumanos, liberta em segredo as Névoas Terrígenas na atmosfera terrestre. Cumpria assim o seu propósito de provocar uma mutação genética à escala global que transformaria toda a humanidade em Inumanos. Desta forma, Raio Negro certificava-se de que o seu povo não mais voltaria a ser perseguido.
       A fim de evitar qualquer interferência na execução do seu plano, Raio Negro cegara previamente o Vigia, impedindo o ser alienígena de testemunhar as suas ações.
      À medida que as Névoas Terrígenas se convertem permanentemente num componente da superpoluída atmosfera terrestre, Raio Negro e a Família Real Inumana abandonam o planeta.
     Incapaz de operar o seu equipamento de observação e registo da atividade humana, o Vigia transporta o robô X-51 (anteriormente conhecido como Homem-Máquina) para a Lua, com o fito de designá-lo como seu adjunto. Para esse efeito, o Vigia procura remover todo e qualquer resquício de emoções humanas de X-51 (concebido para imitar a vida do seu criador, o Professor Abel Stack). No entanto, à medida que a trama se desenrola, o robô denota uma crescente irritação face aos planos do Vigia para assegurar a derrota dos  heróis perante uma ameaça sem precedentes.
     Na Terra X, depois de matar o Caveira Vermelha, o Capitão América abandona os Vingadores por considerar que já não se enquadra no espírito do grupo. Pouco tempo depois, Reed Richards (o Senhor Fantástico) constrói uma rede mundial de balizas de vibranium com o objetivo de dar resposta a uma grave crise energética. Porém, a experiência fracassa depois de um dos seus subordinados cair dentro de um reator causando uma reação em cadeia à escala planetária.
 
X-51, o novo Vigia da Terra.
 
      Quando as primeiras mutações genéticas se começam a manifestar na população terrestre, devido à ação das Névoas Terrígenas secretamente libertadas por Raio Negro, muitos culpam a experiência fracassada de Richards pelo sucedido. Entre os primeiros a ganhar habilidades meta-humanas está o jovem neonazi Benny Beckley. Capaz de controlar e manipular vontades alheias, o rapaz assume a identidade de Caveira. Como efeito colateral da manifestação do seu poder, todos os telepatas da Terra são mortos.
      Entretanto, o Doutor Destino e Namor atacam a sede da ONU em Nova Iorque, sendo confrontados pelo Quarteto Fantástico. Na peleja que se segue, o primeiro acaba por perecer numa explosão, que também ceifa a vida da Mulher Invisível. Namor, por sua vez, assassina o Tocha Humana e, em resultado disso, o filho de Reed e Sue Richards, Franklin, lança uma maldição sobre o Príncipe Submarino. Com metade do corpo a inflamar-se quando em contacto com o ar, Namor vê-se forçado a regressar ao oceano.
      Devastado pelas mortes da esposa e do cunhado, Reed Richards assume a armadura do Doutor Destino e autoexila-se no castelo do ex-soberano da Latvéria. Ben Grimm, por seu turno, casa com Alicia Masters, com quem tem dois filhos idênticos a ele. Assim chegava ao fim o Quarteto Fantástico.
      Dias depois, os Vingadores são chamados a travar um ataque contra Washington, D.C. perpetrado pelo Homem-Absorvente, agora dono de uma formidável inteligência artificial após ter absorvido as propriedades do robô Ultron. Usando um sofisticado vírus informático, o Visão consegue por fim derrotar o vilão. No entanto, vários Vingadores haviam sucumbido durante a batalha e a capital federal dos EUA fora obliterada.
 
Com a ajuda da Miss Marvel, o Capitão América tenta trazer Mar-Vell de volta ao mundo dos vivos.
 
      Em consequência disso, assiste-se um declínio da indústria, abrindo caminho à hegemonia das Indústrias Osborn graças ao seu controlo da produção agroalimentar. Norman Osborn, cuja mutação transformou a sua cabeça numa sinistra réplica da máscara de Duende Verde que usara durante anos para infernizar a vida do Homem-Aranha, assume a presidência dos EUA sem que tenha tido lugar qualquer eleição. A fim de resguardar o seu poder, Osborn usa ADN extraterrestre para criar a Hidra, um coletivo parasitário que controla mentalmente os seus hospedeiros. Também oferece a Tony Stark (em tempos o Homem de Ferro e um dos poucos humanos imunes à mutação) asilo político em troca da construção de réplicas metálicas dos falecidos Vingadores.
      Sob o comando do Czar de Ferro (o antigo X-Man Colossus), a Rússia torna-se o maior produtor mundial de alimentos, distribuídos pelos quatro cantos do globo pela marinha mercante do Reino Unido (cujo novo soberano é o Capitão Bretanha). O reino africano de Wakanda continua a ser governado pelo Pantera Negra, agora um híbrido de homem e animal, cuja Rainha é a ex-líder dos X-Men, Tempestade.
      Nos EUA, o Capitão América e o seu parceiro Asa Vermelha descobrem que o jovem Caveira está a usar o seu controlo mental para reunir um exército. Quando o Asa Vermelha é dominado pelo vilão, ao Sentinela da Liberdade não resta outra alternativa se não bater em retirada e partir em busca de novos aliados. O primeiro a perfilar-se é o novo Demolidor (cuja verdadeira identidade não é revelada, embora suspeite tratar-se de Deadpool), que em resultado da mutação que sofreu é agora uma atração circense com um fator de cura que lhe permite recuperar rapidamente de qualquer ferimento.
      Entretanto, a Família Real do Inumanos retorna à Terra e contacta Reed Richards, na esperança de poder reunir o seu povo. Enquanto procura localizar a antiga nação dos Inumanos com o supercomputador Cérebro, Richards descobre a verdadeira causa por detrás das mutações genéticas.
      Em Nova Iorque, o exército do Caveira destrói a Hidra, mata o Presidente Osborn e chacina as forças policiais da cidade comandadas por Luke Cage. May Parker, a nova hospedeira do simbionte alienígena Venom e filha de um envelhecido e amargo Peter Parker, tem também a sua mente dominada pelo vilão.
 
May Parker é a nova hospedeira de Venom.
  
      Última linha de defesa da cidade, o Capitão América e os seus aliados não demoram a tombar perante o poder do Caveira e a superioridade numérica das suas legiões.  Aproveitando uma distração do vilão, o Sentinela da Liberdade fere-o mortalmente, libertando desse modo os seus seguidores involuntários.
      Antes, porém, que os heróis possam festejar, os Celestiais chegam à Terra para germinar o embrião que implantaram no nosso planeta, milhões de anos atrás. Quando os gigantes se preparam para avançar sobre Nova Iorque, Tony Stark faz o seu derradeiro sacrifício lançando um ataque suicida contra as criaturas. Quase em simultâneo, na órbita terrestre, Raio Negro é morto por outro grupo de Celestiais, não sem antes soltar um grito hipersónico de ajuda através da galáxia. O qual é atendido pelo novo Galactus (nada mais nada menos do que Franklin Richards). Este expulsa os Celestiais da Terra e consome o seu embrião.
      Após estes eventos, X-51, farto da arrogância e frieza do Vigia, priva-o da audição, inutilizando-o definitivamente e assumindo as suas funções de testemunha ocular da história humana. Já Reed Richards converte a sua rede mundial de balizas de vibranium em Tochas Humanas (numa clara homenagem ao cunhado falecido), na esperança de conseguir queimar as Névoas Terrígenas e de reverter as mutações genéticas que transformaram pessoas comuns em superseres.
 
Franklin Richards é o novo Galactus.
 
Personagens principais:
 
Vigia: cego há quase duas décadas, Uatu tornou-se insensível e niilista;
Capitão América: com cem anos de idade, exibe uma aparência alquebrada e uma cicatriz a lembrar um A na testa;
Hulk: separado de Bruce Banner (que nesta versão alternativa não passa de uma criança cega), o Golias Esmeralda faz lembrar um símio verde e é os olhos do seu antigo alter ego;
Thor: é agora uma mulher devido a uma trapaça orquestrada pelo seu meio-irmão Loki junto de Odin;
 
A nova Deusa do Trovão.
 Doutor Estranho: assassinado na sua forma astral por Clea -  sua ex-discípula agora aliada a Loki - procura contactar Mar-Vell no Além;
Loki: descobriu que os deuses asgardianos são mutantes com enorme longevidade e poderes imaginados pelos humanos, bloqueados contudo pelos Celestiais que os induziram a acreditar serem imortais, impedindo-os assim de se tornarem uma ameaça aos seus desígnios.
 
O visual do Capitão América da Terra X.
 
Notas finais:
 
      Inicialmente, Earth X foi proposta como um futuro para a cronologia oficial do Universo Marvel. Contudo, as sucessivas revisões da série não se mostraram consistentes com essa possibilidade. Convencionou-se então que os eventos mostrados na saga prefigurariam uma realidade alternativa.
  
Hulk e Banner finalmente separados.
  

sábado, 28 de setembro de 2013

HERÓIS EM AÇÃO: PUNHO DE FERRO


 
       Surgido numa época de enorme popularidade dos mestre das artes marciais, o Punho de Ferro deve o seu nome ao título de um filme do género. Como Vingador ou herói de aluguer, ele luta sempre por causas justas.


Nome original: Iron Fist
Primeira aparição: Marvel Premiere nº15 ( maio de 1974)
Criadores: Roy Thomas (história) e Gil Kane (arte)
Licenciadora: Marvel Comics
Identidade civil: Daniel Thomas Rand-K'ai
Local de nascimento: Nova Iorque
Parentes conhecidos: Wendell Rand-K'ai (pai falecido), Heather Duncan Rand (mãe falecida), Miranda Rand-K'ai (meia-irmã)
Filiação: Heróis de Aluguer, Vingadores e Defensores Secretos
Base de operações: Nova Iorque
Poderes, armas e habilidades: Atleta e acrobata de excelência, o Punho de Ferro é também um mestre em praticamente todas as artes marciais conhecidas. O que faz dele uma verdadeira arma viva, além de lhe permitir controlar o seu sistema nervoso de forma a entorpecer a dor.
       Através da concentração, o herói consegue canalizar a sua energia espiritual (chi) de modo a  amplificar as suas capacidades físicas e mentais até níveis sobre-humanos. Focalizando esse mesmo chi no seu punho, ele consegue controlar a energia de Shou-Lao, a qual fornece temporariamente a essa parte da sua anatomia superforça, invulnerabilidade e imunidade à dor. Este processo é, todavia, mentalmente extenuante, pelo que o Punho de Ferro necessita de algum tempo para descansar antes de voltar a repeti-lo.
       Entre as suas habilidades destaca-se ainda o seu fator de cura, que pode ser aplicado em outrem. Pode também captar energias místicas, bem como fundir a sua consciência com a de outros indivíduos, percecionando dessa forma as suas memórias e emoções.
       Em circunstâncias muito excecionais, ele pode inclusivamente empregar o seu chi para abrir portais dimensionais.

A estreia de Punho de Ferro em Marvel Premiere nº15 (1974).
 
História de publicação: Em meados da década de 1970, na cultura norte-americana, assistiu-se a uma súbita popularidade dos heróis de ação e dos mestres das artes marciais. Na senda desse fenómeno, a Marvel lançou, em dezembro de 1973, Shang-Chi, O Mestre do Kung-Fu, personagem que fez furor entre os leitores. Em resultado disso, menos de um ano depois, a Casa das Ideias resolveu apostar em novo herói do género, criado pelo argumentista Roy Thomas e pelo desenhador Gil Kane (vide texto anterior).
      Numa pequeno texto introdutório publicado em Marvel Premiere nº15 (onde o Punho de Ferro fez a sua primeira aparição), Roy Thomas explicava que muitos dos elementos da origem do herói derivavam de um conceito originalmente desenvolvido por Bill Everett nos anos 1940: o Amazing-Man.  Já o nome dado à neófita personagem foi inspirado no título de um filme de artes marciais, visto por Gil Kane, muito antes de Bruce Lee se tornar o expoente máximo do género, The Iron Fist Ceremony (A Cerimónia do Punho de Ferro).
      Apesar de algumas dúvidas iniciais em relação ao nome Punho de Ferro - sendo passível de ser confundido com o Homem de Ferro - Stan Lee, o editor-chefe da Marvel à época, deu-lhe o seu aval e, pouco tempo depois, o novo herói debutava nas páginas de Marvel Premiere. Título onde foi sucessivamente escrito e desenhado por valores consagrados como Len Wein, Chris Claremont, John Byrne ou Larry Hama, apenas para citar alguns.
      Devido ao seu sucesso, o Punho de Ferro ganharia um título próprio a partir de novembro de 1975, com os argumentos a cargo de Chris Claremont e arte de Jonh Byrne. Uma dupla criativa de luxo que, ainda assim, foi incapaz de evitar o cancelamento da série ao cabo de quinze edições.
      Após a sua participação numa história em três partes nos números 48, 49 e 50 de Power Man (conhecido entre nós como Luke Cage), o Punho de Ferro passou a dividir o título com o herói de ébano. Juntos, os dois viveriam incontáveis aventuras e desventuras como Heróis de Aluguer, até à última edição da série, publicada em setembro de 1986.
      Seguiu-se uma longa travessia do deserto, interrompida apenas por algumas minisséries e participações ocasionais em títulos de outras personagens Marvel. Foi, pois, preciso esperar até 2007 para ver o herói estrelar um título próprio. Ao longo de 27 números (o último foi lançado em agosto de 2009), Immortal Iron Fist devolveu o Punho de Ferro à ribalta.
     Mais recentemente, entre agosto de 2010 e janeiro de 2013 foi presença regular na série New Avengers combatendo ao lado dos heróis mais poderosos da Terra toda a sorte de ameaças.


Em 2007, o Punho de Ferro voltou à ribalta com uma série própria, The Immortal Iron Fist.
 

Biografia: Daniel Rand é filho do empresário Wendell Rand que, na sua juventude, visitou a cidade mística de K'un-Lun, a qual, uma vez a cada década, se materializa nos Himalaias. Fundada por extraterrestres aproximadamente um milhão de anos atrás, K'un-Lun foi governada ao longo dos séculos pelos descendentes dessa raça alienígena e por seres conhecidos como os Reis Dragões. Ambas as espécies obedeciam, porém, ao Mestre Khan, um poderosíssimo mago.
     Aquando da sua visita à cidade mística, Wendell Rand salvou a vida de Lorde Tuan, o regente de K'un-Lun. Este retribuiu perfilhando-o e, para ressentimento do seu filho biológico, designando-o como seu herdeiro.
     Durante a sua estada em K'un-Lun, Wendell desposou uma mulher chamada Shakari e adotou uma filha, a que deu o nome de Miranda Rand-K'ai. Algum tempo depois, Wendell derrotou num combate ritualístico o filho do mais formidável guerreiro da cidade, conquistando assim o direito a reclamar para si o poder de Shou-Lao, o Imortal. Tratava-se de uma criatura horrenda resultante da transformação, mil anos atrás, de um homem em serpente mística pela ação do Rei Dragão Chiantang. No entanto, apesar de os melhores guerreiros de K'un-Lun terem sido periodicamente detentores do poder do Punho de Ferro, Wendell recusou-o.


     Dez anos após a sua chegada a K'un-Lun, Wendell e a sua esposa, Shakari, foram atacados por asseclas do filho de Lorde Tuan. Do ataque resultou a morte de Shakari, facto que, por sua vez, ditou o regresso de Wendell aos EUA. No seu país de origem, não tardou a tornar-se num bem-sucedido empresário acumulando uma considerável fortuna. Também refez a sua vida familiar casando em segundas núpcias com Heather Duncan, uma socialite nova-iorquina. Desse casamento nasceu Daniel.
     Entretanto, sem que Wendell soubesse, Lord Tuan deixara o mundo dos vivos e, perante a ausência do seu herdeiro designado, o poder régio de K'un-Lun transitou para o seu pérfido filho, Yu-Ti.
    Quando Daniel tinha nove anos, o pai resolveu levar a família a K'un-Lun, cuja próxima materialização terrena estava iminente. A expedição aos Himalaias contou também com a presença de Harold Meachum, sócio de Wendell. Quando Wendell caiu numa escarpa da montanha, sendo a sua queda sustida pela saliência de um rocha, Meachum, vendo ali uma oportunidade de tomar os negócios do seu sócio, forçou-o a precipitar-se no abismo, provocando-lhe a morte.
     Heather, por seu turno, sacrificou a própria vida para salvar a do filho do ataque de uma alcateia enfurecida. Daniel foi encontrado pelos habitantes de K'un-Lun e levado por eles para a cidade mística entretanto materializada. Mutilado pelo frio, Meachum regressou a Nova Iorque sabendo que o herdeiro do seu falecido sócio sobrevivera. Ao longo da década seguinte, engendrou um elaborado plano de defesa contra o ataque que sabia inevitável.
     Jurando vingar a morte dos seus pais, o pequeno Daniel estudou artes marciais durante a sua estada em K'un-Lun. Enquanto crescia, tinha como melhor amiga Miranda Rand-K'ai, que, no entanto, desconhecia ser sua meia-irmã. Pouco depois de completar dezanove anos, Daniel reclamou a oportunidade de conquistar o poder do Punho de Ferro defrontando, tal como o seu pai fizera anos antes, Shou-Lao, O Imortal, cujo poder residia agora num braseiro místico.
 
Aliando as artes marciais ao misticismo, o Punho de Ferro é uma arma viva ao serviço do Bem.
 
     Num feito inédito, Daniel matou Shou-Lao e mergulhou as suas mãos no braseiro místico, ficando assim imbuído do poder do Punho de Ferro. Quando o portal dimensional que permitia o acesso à Terra se reabriu, Daniel deixou K'un-Lun para rumar a Nova Iorque.
      Ao tomar conhecimento do regresso do filho do seu malogrado sócio, Meachum pôs a cabeça de Daniel a prémio. Nada que impedisse o jovem de chegar até ele. No entanto, ao constatar que o assassino do seu pai não passava agora de um inválido, Daniel compadeceu-se e poupou-lhe a vida.
     Envergando o traje cerimonial do Punho de Ferro, Daniel Rand passou a operar como um justiceiro mascarado. Entre os vários vilões que enfrentou nos primórdios da sua carreira heroica, destacam-se Dentes-de-sabre, Mestre Khan e Serpente de Aço. Pelo meio, tornou-se amante de Misty Knight, uma agente policial especializada em missões como infiltrada. Numa dessas operações, a sua identidade foi descoberta e, em resultado disso, o gângster em cuja organização Misty se infiltrara, sequestrou dois amigos de Luke Cage, um mercenário invulnerável. Chantageado pelo criminoso, Cage tentou matar Misty. Coube ao Punho de Ferro protegê-la  e, após uma breve batalha com Cage, a verdade veio à tona. Punho de Ferro e Luke Cage acabaram unindo esforços para resgatar os amigos deste e para entregar Bushmaster à justiça. Desta parceria fortuita resultariam os Heróis de Aluguer, uma empresa de prestação de serviços de proteção pessoal e corporativa.

Luke Cage & Punho de Ferro, os Heróis de Aluguer.
  
      Embora os Heróis de Aluguer supostamente apenas agissem a troco de dinheiro, a verdade é que eles nunca deixavam de lutar por causas justas acabando assim por se revelar uma atividade muito pouco lucrativa. Como Daniel Rand, o Punho de Ferro reassumira entretanto o controlo da fortuna paterna, facto que gerou tensões com o seu associado, nascido e criado na pobreza do gueto.
      Muitos anos após a dissolução dos Heróis de Aluguer, quando a identidade secreta do Demolidor foi comprometida, Daniel assumiu temporariamente o uniforme do Homem Sem Medo, tentando dessa forma fornecer um álibi a Matt Murdock.  Foi nessa qualidade que, durante a Guerra Civil, se juntou à fação de opositores ao registo obrigatório de meta-humanos, liderada pelo Capitão América. Com a prisão deste, Daniel, reassumindo a identidade de Punho de Ferro, passou a integrar Os Novos Vingadores, um grupo clandestino de super-heróis que, entre outros, incluía também o seu ex-associado Luke Cage. Adotou também um novo uniforme, substituindo o tradicional verde e dourado por um branco e dourado.
 
Nos Novos Vingadores, o Punho de Ferro reencontrou Luke Cage (em 1º plano na imagem).
      
Noutros media: Ainda enquanto membro dos Heróis de Aluguer, o Punho de Ferro fez a sua estreia fora da banda desenhada num episódio da série animada The Avengers: Earth's Mightiest Heroes (2010-2012). A comprovar a sua diminuta expressão noutros media, o facto de, desde 2000, um filme baseado no herói ter vindo a ser sucessivamente adiado. A última informação referente a este projeto foi divulgada em agosto de 2010, com os estúdios da Marvel a anunciarem a contratação de um novo argumentista. Nada mais foi, contudo, concretizado até ao momento.
 
Poderão os fãs esperar um filme do Punho de Ferro num futuro próximo?


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

ETERNOS: GIL KANE (1926-2000)



      Viveu as Idades do Ouro e da Prata dos Quadradinhos. O seu traço distinto fez escola na Marvel e na DC. Criou personagens emblemáticas para ambas as editoras. Sempre a coberto de pseudónimos.
 
 
Biografia e carreira: Gil Kane foi o pseudónimo mais famoso de Eli Katz, nascido na Letónia, no seio de uma família a judaica, a 6 de abril de 1926.  Scott Edward, Gil Stack, Stack Til, Pen Star e Phil Martell foram outros dos pseudónimos que usou ao longo da sua extensa carreira como ilustrador.
      Em 1929 a família de Gil Kane emigrou para os EUA, assentando arraiais em Brooklyn, Nova Iorque. Filho de um modesto comerciante de carne de aves, Kane frequentou a School of Industrial Art, em Manhattan, mas abandonou os estudos no último ano, quando surgiu a oportunidade de trabalhar na MLJ Comics (antecessora da Archie Comics). Corria o ano de 1942 e Kane tinha acabado de completar 16 anos.
      A sua passagem pela editora seria, contudo, efémera. Ao fim de apenas três semanas, Kane foi dispensado. Durante esse breve período, o seu trabalho consistiu, quase exclusivamente, em fazer a balonagem de algumas histórias aos quadradinhos, embora, pontualmente, tenha arte-finalizado algumas delas.
      Pouco tempo depois, foi convidado por Jack Binder a trabalhar na sua agência. Esta, no entanto, resumia-se a um apartamento situado na Quinta Avenida, que Gil Kane descreveria mais tarde como uma espécie de campo de trabalhos forçados. Dentro daquele espaço amontoavam-se entre 50 a 60 ilustradores, trabalhando afincadamente diante dos seus estiradores. Dados os parcos recursos da agência, até o papel era racionado.
     Foi todavia lá que Kane se profissionalizou como desenhador. Mas o resultado do seu trabalho não entusiasmou Jack Binder e o seu emprego na agência ficou em xeque.
     Inesperadamente, passadas três semanas, a MLJ Comics resolveu não só readmiti-lo, como também atribuir-lhe novas funções e um aumento salarial. De um dia para o outro, Kane assumiu um dos títulos principais da editora, ao mesmo tempo que colaborava como freelancer com outros estúdios.
     Em 1944 realizou o seu primeiro trabalho para a Timely Comics (antepassada da Marvel), sendo um dos dois coloristas que colaboraram numa história de 28 páginas dos Young Allies (um grupo de heróis adolescentes criado com motivos patrióticos durante a II Guerra Mundial). Nesse mesmo ano arte-finalizou o trabalho do mestre Jack Kirby numa história de Sandman, não figurando, porém, o seu nome nos créditos da mesma (o que, na gíria da indústria dos comics, se designa por "artista fantasma").
     Ainda em 1944, foi incorporado no Exército estadounidense, sendo posteriormente destacado para o teatro de operações do Pacífico. Ao cabo de 19 meses de serviço millitar, regressou a casa, em dezembro de 1945. Dois anos depois, em 1947, foi contratado por Sheldon Mayer, o editor-chefe da All-American Publications, para um projeto que duraria um semestre.
     Pelo meio, e sempre sob pseudónimos, trabalhou como ilustrador e colorista em projetos de diversas editoras, chegando também a desenhar alguns guiões televisivos.
     Em 1949 Gil Kane iniciou uma longa relação profissional com Julius Schwartz, um dos editores da National Comics (atual DC).
    Ao longo da década de 1950, Gil Kane viveu por dentro a eferverscência criativa da denominada Idade da Prata dos Quadradinhos. Em conjunto com o argumentista John Broome, foi cocriador da versão moderna do Lanterna Verde, assim como da Tropa dos Lanternas Verdes.
 
O Lanterna Verde da Idade da Prata pelo traço de Gil Kane.
 
    Ao serviço da DC, desenhou também, nos anos 1960, várias histórias de Os Novos Titãs, bem como de Rapina e Columba. Paralelamente, ilustrou um punhado de histórias do Hulk, sob o pseudónimo Scott Edward, para a arquirrival Marvel.
    Renegando esse pseudónimo, Gil Kane colaborou com a Tower Comics e a Harvey Comics, antes de se mudar de armas e bagagens para a Marvel, onde, nos primeiros anos da década de 70 do século passado, sucedeu a John Romita Sr. como responsável artístico do título The Amazing Spider-Man. Muito apreciado pelo seu traço ímpar, logo se tornou no mais proeminente artista de capas da Casa das Ideias.
    Em parceria com o escritor/editor Stan Lee, Kane produziu um arco de histórias em três capítulos, publicado nos números 96, 97 e 98 de The Amazing Spider-Man em 1971, que assinalou o primeiro grande desafio à autorregulação da indústria dos quadradinhos desde a introdução, em 1954, do Comics Code Authority. Essa espécie de código de ética proibia expressamente qualquer referência ao uso de drogas nos comics, mesmo num contexto negativo. Fazendo tábua rasa dessa interdição, Lee e Kane, sob os auspícios do Departamento Federal de Saúde, Educação e Bem-estar, lançaram uma história do Escalador de Paredes, que alertava para os malefícios do consumo de estupefacientes, mesmo sem a aprovação do Comics Code Authority.
     O resultado não podia ter sido melhor: além de aclamada pela crítica, a história foi um enorme sucesso de vendas. Em consequência disso, a indústria rejeitou a censura autoimposta, abrindo assim caminho para a revisão do seu código de ética.
     Com o escritor Roy Thomas, Gil Kane reformulou o Capitão Marvel e relançou Adam Warlock, dois heróis cósmicos do universo Marvel caídos no oblívio. Esta dupla seria também responsável pela criação do Punho de Ferro e do vampiro Morbius.
 
Homem-Aranha e Punho de Ferro foram dois dos heróis Marvel desenhados por Gil Kane.

     Em concomitância com este afã criativo na Casa das Ideias, Kane desenvolveu vários projetos a título individual. Agora sob o pseudónimo Robert Franklin, ele concebeu, ilustrou e coescreveu duas novelas gráficas: His name is... Savage (publicada em 1968 pela Adventure House Press) e Blackmark (Bantam Books, 1971).
 
Com Blackmark, Kane inaugurou a tendência das novelas gráficas.
 
     Nos anos 1970 e 1980, Kane revitalizou diversas personagens das séries animadas da Hanna-Barbera e da Ruby-Spears. Em 1977, em parceria com o escritor Ron Goulart, lançou uma bem-sucedida série de tiras diárias num jornal, a que deu o título de Star Hawks. Depois de, no princípio dos anos 1980, se ter revezado com Curt Swan na arte das histórias do Homem de Aço, em 1989, Gil Kane  ilustrou uma adaptação aos quadradinhos da ópera épica de Richard Wagner, O Anel dos Nibelungos.
     Na década seguinte, Kane diversificou as suas colaborações, tendo ilustrado minisséries e edições especiais para a Topp Comics, a Malibu Comics e Awesome Entertainment.
      O seu último trabalho publicado em vida teria, contudo, a chancela da Dark Horse Comics: uma página ilustrada em Sin City: Hell and Back nº4 (outubro de 1999). Postumamente, em junho de 2000, foi lançada a história em duas partes reunindo o Lanterna Verde e Eléktron (outro herói da DC de que foi cocriador) por si desenhada.
     Até ao seu falecimento, em 31 de janeiro de 2000 em Miami (Florida), devido a um linfoma, Gil Kane manteve-se ativo enquanto artista. Deixou viúva a sua segunda esposa, Elaine, e órfão o filho Scott.
 
Gil Kane inscreveu o seu nome nos anais da história da banda desenhada.
 
Prémios e distinções: Distinguido diversas vezes ao longo da sua carreira, Gil Kane arrecadou em três ocasiões (1971,1972 e 1975) o prémio para melhor desenhador atribuído pela National Cartoonists Society. Em 1977 Star Hawks foi eleita a melhor tira diária pela mesma instituição. Recebeu ainda um SHAZAM Award, em 1971, pela graphic novel Blackmark, sendo igualmente nomeado para o Eisner Award Hall of Fame e para o Harvey Award Jack Kirby Hall of Fame em 1997. Antes, em 1995, o seu trabalho fez parte da exibição KAPOW: A Showcase of Superheroes, realizada no Centro Cultural Muckenthaler, em Fullerton (Califórnia).
      No entanto, o mais importante prémio da sua carreira foi, sem dúvida, o reconhecimento de uma legião de fãs que cresceram a apreciar o seu traço inconfundível.
 
Star Hawks, uma das obras-primas de Gil Kane.