terça-feira, 19 de agosto de 2014

DO FUNDO DO BAÚ: «A ÚLTIMA CAÇADA DE KRAVEN»




    Numa perturbadora aventura em tons condizentes com o uniforme negro que então usava, o Homem-Aranha vê-se na pele da presa de um caçador obstinado em fazer dele o seu troféu supremo. Levado ao limite pelo seu algoz, o herói aracnídeo terá de superar-se como nunca para sobreviver a tamanha provação.

Título original da saga: Kraven's Last Hunt (também conhecida como Fearful Simmetry)
Publicada originalmente em: Web of Spider-Man nº31, The Amazing Spider-Man nº293, Peter Parker, The Spectacular Spider-Man nº131, Web of Spider-Man nº32, The Amazing Spider-Man nº294 e Peter Parker, The Spectacular Spider-Man nº132 (títulos lançados nos EUA entre outubro e novembro de 1987)
Argumento: J.M. DeMatteis
Arte: Mike Zeck
Licenciadora: Marvel Comics

Capa de The Amazing Spider-Man nº294, onde foi publicado o quinto capítulo da saga.

Edição brasileira

Título: Homem-Aranha - A Última Caçada de Kraven (subintitulada Terrível Simetria)
Data: Maio de 1991
Editora: Abril Jovem  (em dezembro de 1991 a mesma editora lançou o volume encadernado da minissérie, a qual voltaria às bancas nesse formato em 2002 e em 2013, com a chancela da Panini e da Salvat, respetivamente)
Categoria: Minissérie em três edições
Número de páginas: 36 por edição
Formato: Americano (17 x 26 cm), colorido, com lombada agrafada
Na minha coleção desde: 1991 (edição encadernada da Abril)

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A sombra do caçador.

Histórico de publicação: Em meados da década de 1980, o argumentista J.M. DeMatteis propôs um arco de histórias em que Wonder Man (conhecido entre o público lusófono como Magnum), após um duelo com o seu meio-irmão Grim Reaper (o Ceifador), seria enterrado vivo, emergindo mais tarde do seu túmulo. Tom DeFalco, à data editor-chefe da Marvel, rejeitou a ideia.
   Anos depois, numa história de Batman que explorava a hipótese de o Cruzado Encapuzado ser assassinado pelo Joker, DeMatteis recuperou o conceito de um herói a erguer-se da própria sepultura.  Na sinopse fornecida aos responsáveis da DC, DeMatteis sustentava que seria essa a cura para a insanidade mental do Palhaço do Crime. O projeto não foi, contudo, aprovado, dadas as suas semelhanças com uma outra história de Batman que estava então a ser desenvolvida: nada mais nada menos do que a aclamada novela gráfica, da autoria de Alan Moore e Brian Bolland, Batman: The Killing Joke (A Piada Mortal).
 
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J.M. DeMatteis.
  
    Não se dando por vencido, DeMatteis introduziu algumas alterações na trama original. Tendo a principal consistido na substituição do Joker pelo Professor Hugo Strange (outro ilustre integrante da vasta e pitoresca galeria de vilões do Cavaleiro das Trevas).  Nada que impressionasse, porém, os editores da DC que voltaram a não dar luz verde à ideia.
    Inabalável nas suas convicções apesar das consecutivas recusas, DeMatteis voltou a trabalhar a história e apresentou a nova versão à Marvel. Agora com o Homem-Aranha como protagonista e com um novo vilão criado propositadamente para o efeito, o projeto recebeu finalmente o aval por parte dos editores da Casa das Ideias.
    Vários elementos importantes foram sendo acrescentados ao enredo, à medida que DeMatteis trabalhava nele. Com Peter Parker e Mary Jane recém-casados, o escritor optou por colocar o enfoque emocional da sua narrativa no casal. Já a ideia de usar Kraven, o Caçador como antagonista surgiu após DeMatteis ter lido o seu prontuário em The Official Handbook of the Marvel Universe (espécie de "quem é quem" da editora).
   Tendo Mike Zeck sido o eleito para assumir a arte da história, DeMatteis considerou que seria interessante incluir uma personagem criada por ambos. E, assim, o repulsivo Rattus (Vermin, no original) ganhou um lugar de destaque na saga, cuja publicação integral estava inicialmente prevista para Peter Parker: The Spectacular Spider-Man. Todavia, o editor Jim Salicrup deliberou que a publicação deveria ser transversal a todos os títulos do Escalador de Paredes, argumentando que o impacto da morte do herói seria atenuado se, em simultâneo, houvesse outras histórias suas a serem lançadas.

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Vermin/Rattus foi criado por J.M.DeMatteis e Mike Zeck em 1982.

     Enquanto limava as derradeiras arestas da trama, DeMatteis comentou: "Não estou a olhar para além destas seis edições. Esta história não se encaixa na continuidade dos restantes títulos do Homem-Aranha. Na verdade, creio que uma minissérie ou uma edição especial seriam formatos mais apropriados para a sua publicação".
     Ainda segundo o autor, a sua intenção era explorar a personalidade do herói aracnídeo e a forma como os outros - em especial os seus inimigos - o veem. DeMatteis explica: "O que Kraven planeia fazer é matar o Homem-Aranha e tomar o seu lugar, para assim provar que consegue ser melhor do que ele. Claro que aquilo em que ele se transforma não é o Homem-Aranha, mas sim a sua perceção dele. Kraven está, pois, longe de imaginar que Peter Parker não se limita a colocar uma máscara para caçar criminosos. O Homem-Aranha não é a sombria e violenta criatura notívaga interpretada pelo seu algoz. Não importa a cor do traje que veste, não importa o que ele faz, Peter Parker será sempre um sujeito com boa índole e um caráter íntegro. Características fundamentais da sua personalidade que o diferenciam muito de Kraven".
    Com a versão final do argumento em mãos, Mike Zeck optou por desenhar as seis capas antes de ilustrar a história. De acordo com o próprio, a icónica capa de Web of Spider-Man nº32 (título onde foi publicado originalmente o quarto capítulo da saga intitulado Resurrection) foi a primeira a ser produzida. Todas as outras derivaram dela.

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Mike Zeck.
    A título de curiosidade, refira-se que, na esteira do enorme sucesso comercial de Kraven's Last Hunt, em 1994 a DC autorizou finalmente a publicação da história apresentada cerca de uma década antes por DeMatteis, na qual o Joker aparentemente executava Batman. Sob o título Going Sane, a narrativa em quatro partes  foi apresentada aos leitores da Editora das Lendas nas páginas de Batman: Legends of the Dark Knight nº65- 68.

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Há um novo Homem-Aranha na cidade.

Enredo: Houve um tempo em que o mundo admirava a sua pujança física. Uma época debruada a ouro em que a sua coragem inspirava reverência  e as suas façanhas eram lendárias. Uma época em que ele era considerado o melhor caçador do mundo. Mas isso foi antes de os ambientalistas e os ativistas dos direitos dos animais arruinarem a sua reputação. Antes de conhecer o Homem-Aranha.
    Sergei Kravinov - celebrizado nesse passado glorioso como Kraven, o Caçador -  está ciente que a morte se aproxima. Pressente a sua presença nas sombras e quase consegue perscrutar o seu semblante tétrico. Mas ele não está preparado para morrer. Não sem antes recuperar a honra e dignidade perdidas. Não sem antes saciar o seu orgulho e provar a sua superioridade.E isso só será possível derrotando o Homem-Aranha.
     Reunido as forças que ainda lhe restam, Kraven empreende, assim, a sua derradeira caçada.
    Conquanto seja ainda ágil como uma pantera e forte como um tigre, Kraven sabe que está longe do seu ápice físico de outrora. No entanto, ele acredita que nunca descansará em paz se não vergar o Homem-Aranha. Tomando poções e infusões de ervas trazidas das selvas mais profundas para amplificar os seus sentidos e a sua força, Kraven concebe um macabro plano: enterrar o seu rival com centenas de aranhas.
    Recém-regressado da sua lua de mel com Mary Jane e meditando sobre a morte à sua volta durante o funeral de um meliante, o Homem-Aranha sente necessidade de dar um passeio noturno. Absorto em divagações enquanto se balança nas suas teias, o herói é subitamente atacado, drogado e capturado por Kraven.
    Quando Kraven se acerca dele, o Homem-Aranha está prestes a perder os sentidos. Contudo, tem ainda tempo de ver a espingarda e o olhar sinistro do seu verdugo enquanto este se prepara para o executar a sangue frio. Balbuciando sobre a restauração da sua honra, Kraven aponta a arma à cabeça do Escalador de Paredes e dispara à queima-roupa, bem no meio dos olhos.

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O momento que antecede a presumível execução do Homem-Aranha.

   Transportando o corpo inerte da sua presa para o seu covil, Kraven coloca-o num ataúde repleto de aranhas  e enterra-o em local desconhecido. Não era, todavia, suficiente para o vilão chacinar o seu rival. Era imperativo demonstrar a sua superioridade sobre ele. Razão pela qual Kraven usurpa a identidade do Escalador de Paredes. Envergando uma cópia do traje do herói, Kraven começa a patrulhar a  cidade de Nova Iorque, aplicando o seu distorcido conceito de justiça.
    Ao invés do original, este falso Homem-Aranha não se inibe de liquidar alguns dos criminosos que tiveram a infelicidade de lhe cruzarem o caminho.
   Kraven, em dado momento, chega a salvar Mary Jane de um grupo de assaltantes, mas ela de imediato percebe estar na presença de um impostor.

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Epitáfio de um herói.

   Entretanto, Rattus - um híbrido de homem e rato - começa a semear o medo nas ruas de Nova Iorque por via dos seus sanguinolentos ataques a transeuntes. Dotada de força e sentidos sobre-humanos, a criatura atrai a atenção do falso Homem-Aranha que lhe move uma feroz perseguição através da rede subterrânea de esgotos. Quando finalmente encontra Rattus, Kraven espanca-o brutalmente, captura-o e leva-o para o seu esconderijo.
   Enquanto Kraven se regozija  com mais este seu triunfo, o verdadeiro Homem-Aranha desperta do coma e soergue-se da sua sepultura. Tinha, afinal, sido drogado e enterrado vivo pelo seu algoz.
   Duas semanas se haviam passado. Desesperado por rever a sua esposa, o herói aracnídeo vai ao encontro de Mary Jane. Após certificar-se de que ela está sã e salva, o Homem-Aranha parte na peugada de Kraven. E não demora a localizar o seu covil.
    Recorrendo a toda sorte de sevícias, Kraven subjugara Rattus. O vilão mantivera a criatura em cativeiro porque queria perceber se o Homem-Aranha seria capaz de fazer o mesmo. Mas o Escalador de Paredes nada tinha a provar nem qualquer desejo de infligir dor a Rattus. O monstro, porém, não hesitou em atacar o compassivo herói. Sendo, contudo, prontamente detido por Kraven, que não estava disposto a conceder a quem quer que fosse o privilégio de matar o seu rival. Confuso, Rattus aproveita o ensejo para escapar.
    Cego de raiva, o herói aracnídeo ataca Kraven sem dó nem piedade. Este, porém, nem se dá ao trabalho de revidar. Limita-se a encaixar os golpes desferidos pelo seu adversário enquanto sorri. Apesar de tudo, ele vencera. Permitira que a sua presa vivesse quando podia facilmente tê-la matado. Dessa forma provara a si mesmo a sua superioridade relativamente ao rival que o ensombrava.
  Cumprido o seu desígnio, Kraven permite que o Homem-Aranha parta no encalço de Rattus. Suicidando-se de seguida.

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Do ponto de vista de Kraven, a vitória final pertenceu-lhe.

Vale a pena ler?
   
    Esta é, obviamente, uma pergunta meramente retórica, já que A Última Caçada de Kraven é leitura obrigatória para qualquer fã de BD que se preze - e não apenas para os entusiastas do Escalador de Paredes. A par de Watchmen e de Batman, O Cavaleiro das Trevas, trata-se de uma das melhores histórias aos quadradinhos alguma vez produzidas. Ilustrando todas elas a importância e o imenso potencial criativo da nona arte.
     Aquando da sua publicação nos EUA, A Última Caçada de Kraven mereceu os mais rasgados elogios por parte da crítica e dos fãs. Mais recentemente, em 2012, foi eleita  pelos leitores de Comic Book Resources como a melhor história de sempre do Homem-Aranha. Mesmo sendo este título discutível, não há dúvidas de que estamos em presença de uma das mais magistrais e memoráveis sagas do aranhiço.
    Dirigindo-se, pela sua maturidade narrativa, a um público mais sofisticado, A Última Caçada de Kraven alia a dinâmica dos comics a elementos extraídos de clássicos da literatura. Ao longos das suas páginas, Kraven recita vários excertos do poema The Tyger, da autoria de William Blake. Isto enquanto a arte de Mike Zeck imprime um realismo fotográfico a uma trama que tem na elaborada caracterização psicológica dos seus protagonistas e na superior qualidade dos diálogos os seus principais pontos fortes.
    Embora a história seja, toda ela, uma alegoria para o perpétuo conflito entre presas e predadores, adquire susbstrato emocional ao colocar um enfoque especial no neófito casamento de Peter Parker e Mary Jane. Algumas das suas passagens mais intensas exploram, de facto, a forma como MJ lida com o desaparecimento do marido e como reagiria ela à sua hipotética morte em ação. Uma abordagem que não só acrescenta camadas emotivas à trama, como desvela o lado mais humano do herói aracnídeo cujos primeiros pensamentos, quando desperta do coma, são dirigidos à mulher que ama.

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Uma imagem que enriqueceu a iconografia da 9ª arte.
  
   Ao brilhantismo da escrita de J.M. DeMatteis, soma-se, pois, o traço soturno de Mike Zeck. Dessa sinergia nasce uma estética lúgubre onde pontifica o simbolismo imagético. Desde o primeiro relance de Kraven na primeira página da saga (envolto em fumo e numa luz escarlate a fazer lembrar o sangue), até ao momento climático em que o Homem-Aranha emerge do seu túmulo, passando pelas sequências tendo como cenário os esgotos subterrâneos (que, de tão densas, o leitor quase lhes consegue sentir o fedor), a arte de Zeck é inebriante do princípio ao fim.
   Mais do uma simples banda desenhada, A Última Caçada de Kraven é uma espécie de recriação contemporânea de mitos ancestrais. A trama, as personagens e o simbolismo são épicos - na aceção homérica do termo. Tornando o produto final capaz de satisfazer o palato do leitor mais exigente.
    DeMatteis e Zeck criaram uma fórmula de sucesso que tem sido replicada por diversos autores ao longo dos anos, dando assim origem a alguns sucedâneos que, todavia, não se comparam ao original.
     Dito isto, o meu veredito não podia ser outro: Imperdível!

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Os heróis não se abatem.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

GALERIA DE VILÕES: ESQUADRÃO SUICIDA



   Sempre que o Governo norte-americano precisa de agentes descartáveis para realizar missões clandestinas que mais ninguém pode cumprir, ele recorre ao Esquadrão Suicida. Vilões irrecuperáveis dispostos a tudo para obterem uma redução das suas penas. Mesmo que isso ponha em risco as suas próprias vidas.

Nome original do grupo: Suicide Squad (em tempos também designado Suicide Squadron)
Primeira aparição (Idade da Prata): The Brave and the Bold nº25 (setembro de 1959)
Criadores: Robert Kanigher (história) e Ross Andru (arte)
Primeira aparição (versão moderna): Legends nº3 (janeiro de 1987)
Criador: John Ostrander
Licenciadora: DC Comics
Base de operações: Penitenciária Belle Reeve (Louisiana, EUA)

A estreia do primeiro Esquadrão Suicida em The Brave and the Bold nº25 (1959).

Histórico de publicação: Quando, em setembro de 1959, debutou nas páginas de The Brave and the Bold nº25, o primeiro Esquadrão Suicida era composto por Rick Flag Jr., pela sua namorada Karin Grace, Jess Bright e pelo Dr. Hugh Evans. Conquanto nenhum dos seus integrantes possuísse habilidades meta-humanas, foi posteriormente convencionado que o grupo substituiria a Sociedade da Justiça da América  (cuja maioria dos seus membros se retirara devido a perseguições políticas em pleno McCarthismo ), no combate a ameaças monstruosas.
    Transcorridas quase três décadas, surgiu em Legends nº3 (1987) um redivivo Esquadrão Suicida. No renovado conceito introduzido pelo argumentista John Ostrander, supervilões a cumprir pena eram recrutados em segredo pelo Governo norte-americano para executarem operações confidenciais e envolvendo um elevado grau de risco. Muitas vezes a equipa - sempre sob a tutela férrea de Amanda Waller - operava em conjunto com outra agência governamental secreta: o Xeque-Mate.

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A versão moderna do Esquadrão Suicida fez a sua primeira aparição em Legends nº3 (1987).

    São, pois, notórias as influências do filme Doze Indomáveis Patifes (clássico de ação ambientado na II Guerra Mundial realizado, em 1967, por Robert Aldrich), assim como da célebre série televisiva Missão Impossível (1966-73). Por outro lado, o sigilo em torno da equipa induzia tensões entre os seus membros (já de si problemáticos e pouco atreitos à disciplina), além de a colocar no radar de Lois Lane e de Batman. Sendo que este último foi obrigado a desistir das suas investigações às atividades do Esquadrão depois de Amanda Waller ter ameaçado usar todos os recursos ao seu dispor para expor a verdadeira identidade do Homem-Morcego.
   Embora, com o tempo, alguns dos seus elementos (como Tigre de Bronze, Pistoleiro ou Capitão Bumerange) tenham adquirido o estatuto de membros permanentes, o elenco do Esquadrão Suicida caracterizou-se sempre pela rotatividade e por integrar supervilões de segunda linha. Os quais aceitavam executar missões "sujas" em troca de uma comutação das suas penas. Facto que explicava, em parte, a imagem de porta giratória associada ao sistema penal do Universo DC.

O primeiro Esquadrão Suicida (esq.) e a sua versão moderna.

    Bem-sucedido na maior parte das suas missões, ocasiões houve, contudo, em que o Esquadrão fracassou e fez jus ao seu nome, visto alguns dos seus operacionais terem perdido a vida nelas. Geralmente, os sacrificados eram criminosos de meia-tigela, autêntica carne para canhão de quem ninguém sentiria a falta. Não obstante, John Ostrander não se acanhou em liquidar uma das suas figuras de proa. No final do segundo ano de publicação de Suicide Squad (vol.1), Rick Flag foi morto em combate.
     Um dos pontos fortes da série era a análise feita às vidas, motivações e perfis psicológicos dos elementos que compunham o Esquadrão. Numa edição especial anual, os leitores podiam acompanhar a entrevista conduzida pelo psicólogo da equipa a um dos seus membros.
   No quinquénio 1987-1992, Suicide Squad (vol. 1) teve 66 números publicados, além de uma edição especial (Doom Patrol and the Suicide Squad Special #1) e outra anual. Após o cancelamento da série, o Esquadrão teve algumas participações especiais em títulos como Superboy (com a particularidade de vários antagonistas do Adolescente de Aço terem sido engajados para a equipa dirigida por Amanda Waller), Hawk & Dove, Chase e Adventures of Superman.

Formação padrão do Esquadrão Suicida nos anos 80 e 90. Da esq. para a dir.: Orquídea Negra, Sombra da Noite, Capitão Frio, Pistoleiro, Rick Flag, Víxen, Némesis, Tigre de Bronze, Duquesa e Capitão Bumerangue.

   No alvor do século XXI -  mais precisamente em 2001- , a DC deliberou dar nova vida ao Esquadrão Suicida nos quadradinhos. Com os argumentos a cargo de Keith Giffen e arte de Paco Medina, foi lançado Suicide Squad (vol.2). Embora no número inaugural da série a equipa fosse totalmente composta por vilões da Liga da Injustiça (criação do próprio Giffen), no final da história apenas o Major Desastre e Multiplex sobreviviam. Facto que obrigou o novo líder do Esquadrão, o Sargento Rock, a recrutar substitutos. A maioria dos quais, no entanto, seriam igualmente chacinados em missões subsequentes.
    Assinalando o regresso de John Ostrander, em 2007 a minissérie em oito volumes Suicide Squad (vol.3), focava-se em Rick Flag Jr. e na formação de um novo Esquadrão, com o propósito de atacar uma corporação responsável pelo desenvolvimento de uma mortífera arma biológica. De caminho, a equipa tinha de lidar com a traição do General Wade Eilling, bem como com a morte de vários dos seus agentes de campo.

Uma equipa renascida das cinzas pelas mãos do criador da sua versão moderna.

   Na renovada cronologia do Universo DC saída de The New 52!, em Suicide Squad (vol.4) - agora escrito por Adam Glass e desenhado por Federico Dallocchio e Ransom Getty- , Amanda Waller volta a assumir o comando da equipa a partir dos bastidores. Pistoleiro, Arlequina e Tubarão-Rei são os ativos mais proeminentes desta nova encarnação do Esquadrão, cujo título foi cancelado, já este ano, ao fim de 30 edições publicadas.

Um novíssimo Esquadrão nasceu com Os Novos 52!.

   Em julho último, estreou nas bancas norte-americanas New Suicide Squad. Com argumentos de Sean Ryan e arte de Jeremy Roberts, a nova série reúne antigos e novos membros da equipa: ao Pistoleiro e a Arlequina, juntam-se agora o Exterminador, Arraia Negra e a Filha do Joker.


A mais recente formação da equipa menos ortodoxa do Universo DC.

Origem e evolução da equipa: O Esquadrão Suicida tem as suas raízes na II Guerra Mundial. Tratava-se então de uma equipa de soldados descartáveis reunida para levar a cabo missões perigosas contra as forças do Eixo. Findo o conflito, o Esquadrão foi absorvido pela Força Tarefa X, passando a realizar operações clandestinas ao serviço do Governo dos EUA.

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A equipa original. Da esq. para a dir.: Karin Grace, Rick Flag Jr, Jess Bright e Dr. Hugh Evans.


   Na sequência de Crise nas Infinitas Terras, surgiu a versão moderna da equipa, agora formada por supervilões que, em troca de uma redução das suas penas, aceitavam participar em missões sigilosas dentro e fora do território estadunidense. Desta forma o Governo dos EUA podia negar oficialmente a existência do Esquadrão, bem como o seu envolvimento nas referidas missões.
  Composto inicialmente por Pistoleiro, Tigre de Bronze, Arrasa-Quarteirão, Capitão Bumerange e Magia, o Esquadrão Suicida sofreu sucessivas reconfigurações no seu elenco durante essa fase. Salvo algumas exceções, a maioria dos seus integrantes eram criminosos. Alguns executaram múltiplas missões, outros apenas uma.

Capa de Suicide Squad nº1 (1987).


   Após os eventos narrados em Ponto de Ignição (Flashpoint, no original), a equipa manteve o seu status operacional. Todavia, a exemplo da sua predecessora, esta nova encarnação do Esquadrão esteve sujeita a constantes reconfigurações. Para este facto contribuiu, por um lado, a elevada taxa de mortalidade associada aos seus membros e, por outro, a preferência de Waller em relação a alguns deles. Nessa equação repleta de variáveis e incógnitas, existiram contudo algumas constantes: até à recente reestruturação do grupo, Pistoleiro, Arlequina, Tubarão-Rei, Aranha Negra, El Diablo e Voltaico foram, por assim dizer, titulares indiscutíveis.

Principais histórias de referência: 

* Lendas (Legends)
   
   Enquanto o esbirro de Darkseid, G. Gordon Godfrey, continua a envenenar a opinião pública contra os super-heróis, Amanda Waller reativa o Esquadrão Suicida. Composto por Tigre de Bronze, Pistoleiro, Magia, Capitão Bumerangue e Arrasa-Quarteirão, a primeira missão do grupo consistiu em neutralizar Enxofre, um monstro incandescente igualmente ao serviço do soberano de Apokolips. Antes de conseguir cumprir o seu objetivo, o Esquadrão sofre a sua primeira baixa: Arrasa-Quarteirão perde a vida durante a batalha com Enxofre. Waller resolve desmantelar a equipa, embora pouco tempo depois  a volte a mobilizar para resgatar o Capitão Bumerange, que havia desertado e fora entretanto feito prisioneiro por Godfrey.

* Missão em Moscovo (Mission to Moscow)

   Agora sob as ordens de Derek Tolliver (oficial de ligação da equipa com o Conselho de Segurança Nacional) e contando com o Pinguim nas suas fileiras, o Esquadrão Suicida é enviado a Moscovo com a missão de resgatar Zoya Trigorin, uma escritora dissidente. Apesar de bem-sucedido nessa missão, o grupo é surpreendido pela renitência de Zoya em ser libertada. Fiel à sua causa, a mulher anseia por se tornar uma mártir.
   Sanadas algumas fricções no seio grupo e vencidas as objeções de Zoya, o Esquadrão prepara-se para abandonar o território russo quando é intercetado pelo grupo de meta-humanos autóctones chamado Heróis do Povo. Apanhada no fogo cruzado, Zoya acaba por morrer enquanto Némesis é capturado. Sendo este último posteriormente resgatado pelos seus companheiros e pela Liga da Justiça Internacional.

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Nem sempre é fácil manter a coesão de um coletivo composto por supercriminosos.

* A Diretiva Janus (The Janus Directive)

    Em conflito com várias outras agências secretas governamentais, como consequência da Diretiva Janus - uma misteriosa agenda definida por Amanda Waller - o Esquadrão sofre diversas baixas quando estala uma guerra aberta com o Xeque-Mate  e o Projeto Átomo. A Diretiva Janus era, na realidade, um ardil montado por Waller que visava ludibriar o vilão Kobra, que a tinha tentado assassinar e tomar o seu lugar.
   No final da guerra, a Força Tarefa X é dissolvida, passando o Esquadrão Suicida e o Xeque-Mate a operarem autonomamente sob o comando de Sarge Steel.  Caída em desgraça, Waller é exonerada das suas funções e posteriormente encarcerada, acusada de insubordinação, conspiração e homicídio.

* Massacre (Onslaught)

   Reformado pelo Sargento Rock, o Esquadrão Suicida leva a cabo uma série de missões arriscadas, culminando num confronto com a Jihad (um grupo de superseres patrocinado pelo Governo do Qurac). Num primeiro momento derrotada pelos vilões, a equipa - depois de ter vários dos seus membros capturados ou mortos - consegue virar o jogo, graças à ajuda da Sociedade da Justiça da América. No final, Rock é desmascarado como sendo um impostor.

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O Esquadrão em mais uma missão suicida.


* Pontapé nos Dentes (Kicked in the Teeth)
    
    No âmbito de Os Novos 52!, o Esquadrão Suicida é formado pela primeira vez. Chefiada por Amanda Waller, a equipa é enviada para um estádio de futebol repleto de infetados por um misterioso vírus que transforma pessoas em zombies. O objetivo da missão consistia em resgatar um bebé que os cientistas acreditavam possuir no seu organismo os anticorpos que permitiriam curar a infeção. Apesar de bem-sucedido, o Esquadrão (já depois de ter perdido um dos seus operacionais) não consegue alcançar a tempo o seu ponto de extração. Quando os agentes de Waller finalmente chegam ao local, salvam o bebé mas obrigam a equipa a permanecer no estádio e a confrontar uma célula da organização terrorista Basilisco.
   Regressado à prisão, o Esquadrão vê-se na contingência de travar um motim causado pela fuga da Arlequina. Cumprida essa missão, o grupo é de imediato mandado no encalço da sua antiga companheira. Uma jornada que termina em Gotham City, onde a ex-namorada do Joker é recapturada. Não sem antes o Esquadrão sofrer nova baixa.

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A Filha do Joker (à esq.) e Arlequina são as atuais representantes femininas no Esquadrão.

Noutros media: Após a estreia da versão moderna do Esquadrão Suicida, a DC considerou a hipótese de produzir uma série televisiva baseada nas aventuras da equipa. De acordo com John Ostrander, de tão más que eram as ideias apresentadas, o projeto foi de imediato posto de parte.
     Assim, a primeira missão do Esquadrão fora dos quadradinhos ocorreu num episódio da série animada Justice League Unlimited (2004-06), intitulado "Task Force X". Ainda no pequeno ecrã, após uma subtil referência na 9ª temporada de Smallville, o Esquadrão teve participação direta na temporada seguinte. A qual repetiria num par de episódios da 2ª temporada de Arrow.
   No cinema, o currículo do Esquadrão salda-se por uma  participação no filme de animação Batman: Assault on Arkham, lançado já este ano no mercado de vídeo norte-americano. Segundo alguns rumores, a Warner Bros. estará presentemente a reunir uma equipa criativa com vista à produção de um filme da equipa.
  
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Amanda Waller à frente do Esquadrão Suicida em Arrow.

    

  

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

HEROÍNAS EM AÇÃO: TEMPESTADE



    Descendente de uma linhagem ancestral de sacerdotisas africanas, Ororo alia o seu poder mutante de controlo do clima a um elevado potencial místico. Deusa, rainha e X-Man de segunda geração, foi também a primeira super-heroína negra na história da 9ª arte.

Nome original da personagem: Storm
Primeira aparição: Giant-Size X-Men nº1  (maio de 1975)
Criadores: Len Wein (história) e Dave Cockrum (arte)
Licenciadora: Marvel Comics
Identidade civil: Ororo Munroe
Local de nascimento: Manhattan, Nova Iorque (EUA)
Parentes conhecidos: David e N'Daré Munroe (pais falecidos), Ainet (mãe adotiva), Achmed El Gibar (pai adotivo), Coronel Shetani (tio materno), Abuya (prima), Pantera Negra (ex-marido), Kymera (futura filha) e Robert Munroe (filho adotivo)
Afiliação: Ex-membro da X-Force, dos Morlocks, do Clube do Inferno, do Quarteto Fantástico e dos Vingadores Secretos (durante os eventos de Guerra Civil). Lidera atualmente os X-Men.
Base de operações: Escola Jean Grey Para Estudos Avançados


Deusa. Rainha. Heroína. Mulher. Tempestade é tudo isso e muito mais.
 
Armas, poderes e habilidades: Possivelmente uma mutante de nível ómega (o mais elevado na escala que classifica o poderio dos homo superior), Tempestade é uma das mais poderosas entre os seus congéneres. A principal fonte do seu poder- que  consiste, essencialmente, na habilidade psiónica de controlar e manipular todas as formas de clima em vastas áreas- advém do campo eletromagnético da Terra.
    Além da sua capacidade para gerar fenómenos atmosféricos (precipitação, temperatura, humidade,etc), consegue induzir temporais ou nevascas, invocar furacões ou, em sentido inverso, amenizar as condições meteorológicas.
    Com idêntica facilidade, Tempestade pode manipular as correntes de ar quente o suficiente para estas suportarem o peso do seu corpo, permitindo-lhe dessa forma voar a grandes altitudes e velocidades.
     Em diversas ocasiões também já demonstrou capacidade de controlar forças naturais que incluem ventos solares, correntes oceânicas, terramotos, energia eletromagnética e até tempestades cósmicas.
    Quando no espaço sideral, Tempestade pode alterar a sua perceção visual de molde a conseguir enxergar o Universo sob a forma de padrões energéticos. Dessa forma, ela consegue detetar e manipular a seu bel-prazer os fluxos de energia térmica, cinética e eletromagnética associados aos fenómenos atmosféricos - princípio válido tanto para ecossistemas terrestres como extraterrestres.
   Ao longo dos anos, Tempestade desenvolveu igualmente uma forte resistência telepática, sendo portanto pouco vulnerável a ataques dessa natureza. Em paralelo, mercê do seu poder mutante, Ororo estabeleceu um vínculo psíquico com a própria biosfera terrestre. Característica que, entre outras coisas,  lhe permite pressentir, mesmo a grandes distâncias, a ocorrência de sismos e intempéries, bem como movimentos no ar ou na água.
    Embora não desenvolvido, existe um enorme potencial místico em Tempestade, cujas antepassadas eram feiticeiras e sacerdotisas africanas. É, por outro lado, uma exímia combatente corpo a corpo (muito graças ao treino que recebeu de Wolverine), uma brilhante estratega (facto que lhe valeu a liderança dos X-Men) e poliglota (fala fluentemente Inglês, Francês, Suaíli, Árabe, Russo e Japonês)

Tempestade é uma das mais poderosas mutantes do mundo.

Fraquezas: As habilidades mutantes de Tempestade são afetadas pelas suas emoções. Consequentemente, se ela perde o controlo sobre estas últimas, a sua cólera pode induzir uma intempérie devastadora. Devido a um trauma de infância, sofre também de severa claustrofobia.
 
Dos primórdios à atualidade: a evolução de um mito.
Histórico de publicação: Tempestade debutou nas páginas de Giant-Size X-Men nº1 (maio de 1975), uma edição histórica porquanto assinalou a estreia da segunda geração de X-Men. A nova heroína mutante resultou do somatório de duas outras personagens concebidas pelo desenhista Dave Cockrum: Gata Negra e Tufão (da primeira herdou uma variante do seu uniforme; do segundo o poder de invocar ventos). 
    Uma vez que a equipa criativa dos X-Men não desejava um coletivo totalmente masculino, o editor Roy Thomas sugeriu a Dave Cockrum que transformasse o Tufão numa mulher. Ideia que o artista  tomou como premissa para a conceção de uma nova personagem.

Única representante feminina da segunda geração dos X-Men, Tempestade fez a sua estreia em Giant-Size X-Men nº1 (1975).

   Quando os primeiros esboços de Tempestade foram apresentados, alguns dos colegas de Cockrum  expressaram as suas reservas quanto ao facto de ela exibir uma farta cabeleira branca. Receavam que essa característica lhe conferisse o aspeto de uma idosa. Cockrum, todavia, mostrou-se confiante de que essa seria a imagem de marca da sua criação, a qual decerto agradaria aos leitores.
   Algum tempo depois, Chris Claremont sucedeu a Len Wein como argumentista de Uncanny X-Men, produzindo nessa qualidade algumas das mais notáveis sagas dos pupilos de Charles Xavier, como God Loves, Man Kills Dark Phoenix Saga. Em ambas Tempestade teve um papel de relevo - em especial na segunda, na medida em que era a melhor amiga de Jean Grey.
   Em Uncanny X-Men nº102 ( dezembro de 1976), o mesmo Chris Claremont escreveria a origem de Ororo, a qual permaneceria inalterada durante muitos e bons anos.
  Tempestade teve ainda a particularidade de ser a primeira super-heroína negra na história dos quadradinhos. No Universo Marvel, sucedeu a um punhado de heróis negros, como Pantera Negra (1966), Falcão (1969, Luke Cage (1972) e Blade (1973).

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O visual original de Tempestade suscitou algumas reservas.

   A este propósito, Gladys L. Knight, autora do livro Female Action Heroes: A Guide to Women in Comics,Video Games, Film and Television (2010), escreveu: «Os dois aspetos distintivos da personalidade de Tempestade são a sua identidade racial e a sua condição mutante».
   Com efeito, os X-Men serviram sempre como representação simbólica de minorias marginalizadas, tendo a sua estreia nos quadradinhos coincidido com a luta pelos direitos cívicos dos afro-americanos (sendo, por conseguinte, Charles Xavier e Magneto, respetivamente, alegorias de Martin Luther King e Malcom X). 
   Também não deverá, por outro lado, ter sido fortuito o facto de a criação de Tempestade ter ocorrido no auge de um novo género cinematográfico (conhecido nos EUA como blaxplotation) que, nos anos 70 do século XX, fazia  a apologia do orgulho negro e teve como um dos seus principais expoentes a atriz Pam Grier.

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Elementos em fúria.
Biografia: Ororo Munroe descende de uma antiga linhagem de feiticeiras e sacerdotisas africanas, das quais herdou os seus peculiares cabelos brancos e olhos azuis, além de um elevado potencial místico. O seu nome, de resto, significa "beleza" em Suaíli (uma das línguas oficiais do Quénia, do Uganda e da Tanzânia).
   A sua mãe, N'Daré, era uma princesa de uma tribo queniana, que após o seu casamento com um fotojornalista norte-americano chamado David Monroe, se mudou para Nove Iorque, cidade onde Ororo nasceria. Seis meses depois do nascimento da filha, o casal trocou a Grande Maçã pela capital egípcia.
   Durante os cinco anos seguintes, a família viveu feliz no Cairo. Até ao dia em que o prédio onde habitavam foi atingido pela queda de um avião. Os pais de Ororo morreram na sequência do desastre, mas ela sobreviveu, soterrada por toneladas de escombros e amparada pelo corpo sem vida da sua progenitora. Este trágico episódio esteve na origem da sua severa claustrofobia.
   Órfã e sem-abrigo, a pequena Ororo vagueou pelas ruas do Cairo antes de ser encontrada pela quadrilha de Achmed El Gibar. Este perfilhou-a e ensinou-lhe a arte de roubar. Em nome da sobrevivência, Ororo tornou-se uma astuta ladra, tendo como alvos preferenciais turistas incautos, a quem gostava de surripiar as carteiras. Foi, de resto, o que tentou fazer a um jovem Charles Xavier, em solitária peregrinação pelo Norte de África, anos antes de formar os X-Men e de recrutar a jovem mutante para as suas fileiras.
   Com apenas doze anos, Ororo, movida por um irreprimível desejo de descobrir as suas raízes, rumou ao sul. Nessa sua jornada aceitou ingenuamente a boleia oferecida por um camionista sudanês que a tentou violar. Ororo foi forçada a matá-lo e jurou que nunca mais tiraria a vida a outro ser humano.
  Depois de quase ter perecido na sua travessia do deserto do Saara, os poderes climáticos de Ororo manifestaram-se pouco antes de, já no Quénia, o seu caminho se cruzar com o do príncipe de Wakanda, T'Challa (o futuro Pantera Negra).
   Como é habitual na adolescência, o casal viveu um breve, porém intenso, romance. Interrompido devido aos deveres de T'Challa enquanto herdeiro da coroa wakandesa.
   Chegada enfim à terra dos seus antepassados - a planície do Serengeti, território que se estende entre o Quénia e a Tanzânia - Ororo foi acolhida por uma anciã chamada Ainet.
   Certa vez, quando a sua aldeia foi afetada por uma seca extrema, Ororo usou os seus poderes para produzir chuva. Em consequência disso, a jovem mutante passou a ser adorada como uma deusa pelas tribos locais. No entanto, as suas ações provocaram um desequilíbrio no clima de regiões vizinhas, causando a morte a centenas de animais. Ainet aproveitou o sucedido para lhe explicar a importância de usar os seus dons de forma responsável. Lição  não mais desaprendida pela jovem mutante.
   Como a sua existência já era do conhecimento do Professor Xavier, que precisava urgentemente de reunir uma nova equipa na sequência da captura dos seus pupilos pela ilha senciente de Krakoa, Ororo foi recrutada para integrar essa segunda geração de X-Men, adotando o codinome de Tempestade.

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A segunda formação dos X-Men, com Tempestade em primeiro plano.

   Em virtude das suas raízes culturais e do seu apego à terra dos seus ancestrais, não foi, contudo, fácil a adaptação de Ororo ao mundo moderno. Valeu-lhe, pois, a paciente ajuda de Jean Grey (uma das X-Man fundadoras, mais tarde renomeada de Fénix), com quem criou fortes laços de amizade. Jean foi também uma das primeiras a ficar ao corrente da fobia de Ororo em relação a espaços fechados.
   Após o sacrifício - e aparente morte -  de Jean Grey, Ciclope, até então líder dos X-Men, abandonou a equipa. Tempestade foi a escolhida para lhe suceder. Apesar da sua insegurança inicial, graças ao apoio e encorajamento dos seus companheiros, Ororo afirmou-se no papel de líder.
   Anos depois, quando procuravam localizar o Anjo, os X-Men depararam-se com uma comunidade subterrânea de mutantes, conhecidos como Morlocks, e que tinham sido os raptores do seu camarada alado. Para salvá-lo, Tempestade desafiou Callisto, a arguta chefe da colónia, para um combate mano a mano. Saindo vencedora, Ororo assumiu a liderança da comunidade e ordenou-lhes que cessassem imediatamente os ataques aos habitantes da superfície.
    Depois de ter perdido e recuperado os seus poderes, de ter regredido à puberdade e de ter sido dada como morta, Tempestade afastou-se dos X-Men e regressou a África e aos braços de uma antiga paixão: T'Challa (o Pantera Negra, atual soberano de Wakanda). Rapidamente os dois resolveram casar-se, o que outorgou a Ororo o título de rainha consorte de Wakanda. No entanto, entediada com as suas obrigações reais, Tempestade, com a anuência do marido, participava ocasionalmente nas missões dos X-Men.
    Em lados opostos da barricada durante o recente conflito que opôs Vingadores e X-Men, Tempestade e Pantera Negra separaram-se, com este último, na sua qualidade de supremo sacerdote de Wakanda, a anular o matrimónio.

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Pantera Negra e Tempestade: um casamento de sonho que acabou em pesadelo.

   Com o recrudescimento da espécie mutante um pouco por todo o globo e com cada novo homo superior a ser fervorosamente disputado pelos renovados X-Men e pela fação radical comandada por Ciclope, Tempestade acumula atualmente as funções de professora e de reitora na Escola Jean Grey Para Estudos Avançados (sucessora do Instituto Xavier Para Jovens Sobredotados). De caminho, reciclou o visual punk com que tinha feito furor na década de 1990.

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Tempestade volta a liderar os X-Men.
Noutros media: Ratificando o seu estatuto de uma das mais fortes personagens femininas, não só dos X-Men mas de toda a nona arte, o 42º lugar alcançado por Tempestade na lista dos melhores heróis e heroínas dos quadradinhos de todos os tempos, divulgada pelo site IGN. Também a revista Wizard, especializada em comics e seus subprodutos, a classificou como a 89ª melhor personagem de sempre nos quadradinhos. Popularidade ainda mais notória quando os critérios se estreitam, conforme sucedeu com a eleição promovida pelo IGN dos 25 melhores X-Men, na qual coube a Tempestade um honroso 8º lugar. A própria Marvel, por seu turno, indicou-a como a terceira X-Man mais influente de sempre.
   Perante isto, não é, pois, de admirar que Ororo seja presença assídua em séries animadas, como X-Men: Evolution e Wolverine and the X-Men, bem como em jogos de vídeo e toda a sorte de merchandising com a chancela da Casa das Ideias.
   No cinema, vem sendo representada por Halle Berry, tendo participado em quatro dos cinco filmes dos Filhos do Átomo produzidos até à data: X-Men (2000), X-Men 2 (2003), X-Men 3 - O Confronto Final (2006) e X-Men - Dias de um Futuro Esquecido (2014).

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Halle Berry voltou a dar vida à Rainha dos Ventos no recente X-Men - Dias de um Futuro Esquecido.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

EM CARTAZ: SUPER-HOMEM II



    Depois de  ter frustrado os planos nefandos de Luthor no primeiro filme, o Homem de Aço enfrenta agora a ameaça de três renegados kryptonianos que procuram vingar-se do filho do seu carcereiro. Conservando ainda o tom épico do seu predecessor, Super-Homem II, malgrado a sua tumultuosa produção, redundou num retumbante sucesso.

Título original: Superman II
Data de lançamento: Dezembro de 1980 (Austrália e Europa Continental) e janeiro de 1981 (EUA e Reino Unido)
País: Reino Unido
Género: Ação/Aventura/Fantasia
Duração: 127 minutos
Realização: Richard Lester e Richard Donner (embora não creditado, dirigiu a versão primitiva do filme posteriormente editada em DVD)
Argumento: Mario Puzo, David Nemwan, Leslie Newman e Tom Mankiewicz (consultor criativo)
Elenco: Christopher Reeve (Clark Kent/Super-Homem); Gene Hackman (Lex Luthor); Terence Stamp (General Zod), Margot Kidder (Lois Lane); Sarah Douglas (Ursa); Jack O'Halloran (Non), Jackie Cooper (Perry White) e Marc McClure (Jimmy Olsen)
Distribuição: Warner Bros.
Orçamento: 54 milhões de dólares
Receitas: 108 milhões de dólares
Produção: A produção de Superman II arrancou em simultâneo com as filmagens do primeiro filme do Homem de Aço, em abril de 1977. No entanto, devido à envergadura dos meios logísticos envolvidos e ao calendário apertado, a produção da sequela foi suspensa em outubro desse ano, por forma a permitir que Richard Donner se concentrasse exclusivamente em Superman.
    Devido a um diferendo entre o cineasta e os produtores (Alex e Ilya Salkind) acerca dos privilégios da edição final da película, Donner foi demitido. Para o seu lugar foi contratado outro Richard, de apelido Lester. Este tinha já trabalhado com os Salkind noutro projeto duplo: The Three Musketeers (1973) e The Four Musketeers (1974) e fora trazido meses antes na qualidade de assistente de realização, para apaziguar a crescente tensão entre Donner e os produtores.
   Umas das mais veementes objeções manifestadas por Donner antes do seu afastamento do projeto prendeu-se com a decisão dos Salkind de suprimir todas as cenas já filmadas com Marlon Brando, evitando desse modo ter de pagar uma maquia adicional ao ator, que reivindicava em tribunal uma parte dos lucros do filme.
     Em março de 1979, pouco mais de um ano após a estreia de Superman, os Salkind resolveram demitir Donner e oferecer a cadeira de realizador a Lester. Uma decisão controversa entre o elenco e a equipa de produção, com o ator Gene Hackman, o editor Stuart Baird e o consultor criativo Tom Mankiewicz a recusarem participar na nova versão da sequela, em solidariedade com Donner. 

Richard Donner, o primeiro realizador de Superman II.

    No dia 1 de junho de 1979, recomeçaram oficialmente as filmagens da nova versão de Superman II, sob a batuta de Lester. No argumento revisto figuravam agora várias sequências inéditas, como aquela em que Lois Lane salta para as Cataratas de Niagara ou a da bomba na Torre Eiffel. 
    Ao longo dos nove meses subsequentes, a rodagem do filme passou pelo Canadá, Noruega, Paris e pela ilha de Santa Lúcia. Já as cenas ambientadas em Metrópolis (rodadas em Nova Iorque no primeiro filme) foram inteiramente gravadas nos britânicos Estúdios Pinewood. Em março de 1980 as filmagens estavam finalmente concluídas.
     A despeito de todos os percalços e dificuldades inerentes à sua produção, Superman II recebeu críticas muito positivas (em particular quanto ao argumento e aos efeitos especiais) e foi um estrondoso sucesso de bilheteira (sendo mesmo o terceiro filme mais lucrativo de 1981). Factos que valeram a Lester um convite para dirigir a próxima sequela que, contudo, esteve longe de corresponder às expectativas do fãs (tema para um próximo artigo).

Richard Lester, o substituto.

   No entanto, segundo o próprio Richard Donner, a versão da película que chegou às salas de cinema contém, na melhor das hipóteses, 25% do material por ele filmado. A razão é simples: para ser creditado na produção de um filme, um realizador tem de ser responsável por,  pelo menos, 51% das cenas. Daí que Richard Lester tenha substituído muitas das sequências previamente gravadas pelo seu antecessor.
   Na sequência de um petição online promovida por fãs e coincidindo com a estreia de Superman Returns, em 2006 foi lançada em DVD a versão primitiva do filme: Superman II - The Richard Donner Cut. 
    Recuperando a maior parte do conceito original de Donner (aproximadamente 83% do material por si gravado foi restaurado), esta versão inclui também diversas cenas da autoria de Lester, usadas para preencher alguns espaços na narrativa.
     Entre as várias sequências recuperadas, constam:

* A destruição da Fortaleza da Solidão levada a cabo pelo herói kryptoniano;
* O Super-Homem usa a sua visão de calor para confecionar um suflé no seu jantar romântico com Lois na Fortaleza da Solidão;
* A cena que retrata a invasão da Casa Branca pelo trio de kryptonianos era originalmente muito mais violenta;
* Na reta final do filme, Clark Kent esbarra com um matulão careca e lembra-se que tem contas a ajustar com um certo rufia.


Enredo: Pouco tempo antes da destruição de Krypton, o Conselho - presidido por Jor-El - condena três criminosos, acusados de sedição e genocídio, ao banimento na Zona Fantasma. Os seus nomes: Zod, Ursa e Non. Apesar dos pungentes pedidos de clemência do primeiro, Jor-El ratifica a sentença dos seus pares. Face ao terrível destino que os espera, Zod jura vingança.
   Décadas passadas, a Zona Fantasma é estilhaçada pelas ondas de choque resultantes da detonação de uma bomba de hidrogénio lançada pelo Super-Homem na órbita terrestre, após ter impedido um atentado terrorista em Paris. Zod e os seus companheiros são assim acidentalmente libertados.
   Ainda aturdidos pela liberdade reconquistada e pelos recém-adquiridos superpoderes em consequência da sua exposição à radiação do nosso sol amarelo, o trio de kryptonianos voa até à Lua. 
   Antes de massacrarem a equipa de astronautas americanos e soviéticos que lá encontram, escutam as transmissões da NASA emitidas a partir de Houston. Julgando ser esse o nome do planeta de origem dos astronautas, os três dirigem-se para a Terra. 
   Chegados ao nosso mundo, atacam uma pequena cidade no interior dos EUA. Após desbaratarem o contingente militar destacado para o local, rumam a Washington, D.C. e tomam a Casa Branca. 
    Na sequência da capitulação das forças que defendiam o símbolo máximo do poder político dos EUA, Zod obriga o Presidente norte-americano a, perante as câmaras de televisão, ajoelhar-se aos seus pés. Quando o Presidente lança um desesperado pedido de socorro endereçado ao Super-Homem, Zod exige saber de quem se trata e ordena-lhe, em direto, que se venha ajoelhar diante dele.

Triunvirato kryptoniano (da esq. para a dir.): Non, Zod e Ursa.

    Entretanto, os repórteres do Planeta Diário, Clark Kent e Lois Lane(disfarçados de recém-casados) são destacados para as Cataratas de Niagara a fim de investigarem uma presumível burla tendo como alvos casais em lua de mel. 
    Cada vez mais desconfiada de que Clark e o Super-Homem são uma só pessoa, Lois recorre a diversos ardis para tentar comprovar a sua teoria. Chega mesmo a atirar-se para as cataratas, mas Clark evita comprometer a sua identidade secreta usando astutamente as suas habilidades para salvá-la.
   Nessa noite, na suíte nupcial onde o casal de repórteres se encontra alojado, Clark desequilibra-se ao tentar retirar da lareira acesa uma escova de cabelo de Lois. Perante a sua ausência de ferimentos, Clark é forçado a admitir que é o Homem de Aço.
    Feita a revelação, o casal voa até à Fortaleza da Solidão, no Ártico. O herói dá a conhecer a Lois alguns arquivos históricos de Krypton, armazenados sob a forma de cristais de pedra solar. Sendo que um deles foi, segundo ele explica à sua fascinada interlocutora, o responsável pela construção da estrutura e por o ter posto em contacto com os seus malogrados progenitores.
    Depois de declarar o seu amor por Lois, o Super-Homem expressa a sua vontade de renunciar aos seus poderes por forma a poder passar o resto da vida com ela. Apesar das advertências da mãe, ele não muda de ideias e adentra numa câmara molecular para se expor à radiação de um sol vermelho (idêntico ao que iluminava Krypton e que lhe anula os poderes).

Por amor, o Super-Homem deixa de ser super.

   Agora um simples humano, Clark passa a noite com Lois e, no dia seguinte, ambos abandonam a Fortaleza da Solidão de regresso aos EUA. Num restaurante de camionistas, Clark, ao tentar defender Lois do assédio de um rufia, acaba espancado por este. É também nesse momento que toma conhecimento das ações de Zod e dos seus aliados. 
    Com o mundo à mercê dos seus compatriotas, Clark resolve regressar à Fortaleza da Solidão para tentar recuperar os seus superpoderes.
    Longe dali, Lex Luthor escapa da penitenciária com a ajuda da sua assistente, Eve Teschmacher. Ambos rumam, de seguida, ao Ártico e infiltram-se na, agora deserta, Fortaleza da Solidão. Explorando as funcionalidades da estrutura, Luthor descobre a relação existente entre o pai biológico do seu inimigo e o general Zod. 
    Na posse dessa preciosa informação, Luthor vai ao encontro do triunvirato kryptoniano na Casa Branca. Em troca da propriedade da Austrália, ele oferece-se para conduzir Zod e seus comparsas ao filho do seu carcereiro.
   Ávidos de vingança, os três kryptonianos forjam uma aliança com Luthor e voam até Metrópolis, onde tomam de assalto a redação do Planeta Diário com o intuito de sequestrar Lois Lane e, dessa forma, atrair o Super-Homem. Este entra em cena, após ter conseguido reverter a sua transformação em humano com a ajuda do misterioso cristal de kryptonita verde.
   Na violenta batalha que se segue, embora em inferioridade numérica, o Homem de Aço tira vantagem da sua maior destreza no uso dos seus poderes. Pressentindo a derrota, Zod, depois de se aperceber que o filho de Jor-El se preocupa com os humanos, resolve tirar proveito dessa fraqueza do seu adversário, ordenando o ataque indiscriminado a transeuntes que assistiam à contenda.

Em plena batalha de Metrópolis, o Homem de Aço oferece uma voltinha de carrossel a Zod. 
   Constatando que a única forma de evitar a morte de inocentes seria levar os seus adversários para longe da cidade, o Super-Homem finge bater em retirada. Tomando-o por um covarde, Zod vangloria-se do seu aparente triunfo. Quando se prepara para descartar Luthor, este oferece-se para o levar até à Fortaleza da Solidão. Ursa, por seu lado, decide levar Lois como refém e o quinteto voa em direção ao Ártico.
   Após nova peleja, agora no reduto do Homem de Aço, a capitulação de Zod parece iminente. Porém, Ursa e Non ameaçam despedaçar Lois se o herói não se render. 
    Novamente descartado por Zod, Luthor aproxima-se do Super-Homem, que lhe confidencia o seu plano de usar a câmara molecular para remover os poderes do trio de renegados kryptonianos. Ansioso por voltar a cair nas boas graças de Zod, Luthor conta-lhe o plano do Homem de Aço e prontifica-se a acionar o dispositivo.
    Prevendo a traição de Luthor, o Super-Homem usa uma câmara de cristal para se proteger da radiação de sol vermelho que inunda a Fortaleza. Zod e os seus comparsas apercebem-se tarde demais do logro e, despojados das suas habilidades, são facilmente vencidos pelo Homem de Aço.
   No dia seguinte, no Planeta Diário, Clark encontra uma angustiada Lois, incapaz de lidar com seu segredo. Ele beija-a na boca e, ato contínuo, a memória recente da repórter é apagada.
   Depois de se desforrar do valentão que o havia espancado quando estava privado dos seus poderes, Clark dá lugar ao Super-Homem e voa até Washington para recolocar a cúpula destruída da Casa Branca com a bandeira norte-americana desfraldada no topo. Antes de partir para o seu habitual passeio orbital, o herói promete ao Presidente que não o tornará a deixar mal.
Trailerhttp://www.imdb.com/video/screenplay/vi3346572313


Curiosidades: 

* Gene Hackman não participou na segunda versão do filme, dirigida por Richard Lester. Todas as suas cenas como Lex Luthor haviam sido gravadas por Richard Donner. Nas que foram posteriormente inseridas na película, foram usados um duplo seu e um imitador de vozes;
* Na versão original, o míssil nuclear de Luthor que o Homem de Aço desvia para o espaço em Superman (1978), seria o responsável pela libertação de Zod e seus companheiros da Zona Fantasma. Cena incluída na edição em DVD de Superman II - The Richard Donner Cut, tendo a cena em Paris sido suprimida;
* Devido a significativas modificações fisionómicas operadas em Christopher Reeve no interlúdio entre as duas versões da sequela, algumas das suas cenas tiveram que ser regravadas;
* A cena em que Zod, Ursa e Non usam o seu supersopro para dispersar a multidão que os tenta atacar em Metrópolis, foi rodada ao longo de três gélidas noites de novembro num estúdio britânico, tendo Richard Lester improvisado a maior parte das situações cómicas;

Gene Hackman como Lex Luthor (papel que repetiria em 3 dos 4 filmes da franquia).

* Originalmente, Donner tinha filmado Kal-El a conversar com o seu pai na Fortaleza da Solidão, mas Marlon Brando (que interpretou Jor-El no primeiro filme) interpôs um processo judicial exigindo uma parcela dos lucros do filme, mesmo que não participasse nele. Tendo os tribunais deferido esta reivindicação do finado ator, as cenas com Jor-El foram substituídas por Lara (mãe biológica do Super-Homem). No entanto, as cenas cortadas de Brando seriam reaproveitadas em Superman Returns (2006);
* Embora americano de gema, Richard Lester, há muito radicado no Reino Unido, afirmou nunca ter sequer ouvido falar do Super-Homem antes de ser convidado a ocupar a vaga deixada por Richard Donner. Explicação: em criança, as histórias aos quadradinhos eram expressamente proibidas em sua casa;
* Numa entrevista concedida vários anos após a estreia do filme, Margot Kidder declarou: "Olhando para trás, sou forçada a concordar com os moralistas que censuraram o facto de a Lois Lane ter ido para a cama com o Super-Homem"; 
* Noutra entrevista, datada de 2004, a mesma Margot Kidder revelou que Richard Donner gravara suficiente material para uma película completa, o qual estaria algures guardado num cofre. Na sequência destas declarações, um site lançou uma petição online exigindo à Warner Bros. que libertasse o material em questão. O que viria a acontecer um par de anos volvidos, sob o título Superman II - The Richard Donner Cut e coincidindo com a chegada às salas de cinema de todo o mundo de Superman Returns;
* Durante a filmagem da cena em que, na Fortaleza da Solidão, Lois Lane esmurra Ursa na face, Margot Kidder acertou acidentalmente em Sarah Douglas, deixando-a inanimada;
* Para apagar da memória de Lois o conhecimento de que Clark Kent e o Super-Homem são a mesma pessoa, o herói kryptoniano aplica-lhe um "superbeijo" nos lábios. Ainda que raramente usado, trata-se de um poder de que o Homem de Aço dispôs em tempos na BD, mas que acabou por ser eliminado;
* Os poderes perdidos do Super-Homem são restaurados após Clark Kent encontrar um cristal de kryptonita verde na Fortaleza da Solidão, sem que contudo seja aventada uma explicação para esse facto. Para mais considerando que a sua exposição a esses fragmentos radioativos do seu mundo natal lhe é potencialmente letal. Nada que impedisse a inclusão de uma cena similar em Super-Homem IV, Em Busca da Paz (1987).

Dois símbolos americanos.

Veredito: 84%

   Antes da massificação das adaptações cinematográficas de algumas personagens de charneira da Marvel e da DC que, para gáudio dos fãs, tem marcado o início deste século, houve uma primeira geração de películas que foram pioneiras num género até então menosprezado por Hollywood (e, bem vistas as coisas, pelo público em geral).
   O mote foi dado por Superman em 1978 e, ao invés do panorama atual, durante as décadas de 1980 e 1990 a DC dava cartas no grande ecrã. Entre 1978 e 1997, foram lançadas duas quadrilogias (uma do Homem de Aço, outra de Batman) e um filme a solo da Supergirl.
   No mesmo intervalo de tempo, a produção cinéfila da Marvel restringiu-se a um par de  telefilmes do Hulk e outros tantos do Homem-Aranha (que, na realidade, mais não eram do que episódios extendidos das respetivas séries televisivas), um filme extraoficial do Justiceiro e uma película série B do Capitão América. Pelo meio, houve uns quantos "abortos" cuja maternidade a Casa das Ideias só a muito custo assumiu. Refiro-me, por exemplo, aos infames  Nick Fury e Fantastic Four (1994), ambos votados ao mais recôndito oblívio.
   Focando-me agora nas produções da DC, tanto na quadrilogia do Super-Homem (1978-1987), como na do Homem-Morcego (1989-1997)), os dois primeiros capítulos são magistrais, ao passo que o terceiro e o quarto são inenarráveis (e responsáveis por recorrentes pesadelos em fãs mais sensíveis).
  Especificamente falando das aventuras do herói kryptoniano no grande ecrã, sou, ainda hoje, um fã incondicional dos dois primeiros filmes da franquia. Embora datados, alcançaram a intemporalidade por via do seu registo épico e do saudoso Christopher Reeve (que me desculpem os seus sucessores, mas ele foi  o Super-Homem).
Super-Homem versus General Zod: um duelo reeditado em Homem de Aço (2013).

   Por conseguinte, quando me perguntam qual dos dois prefiro, hesito sempre na resposta. Mesmo passados todos estes anos, ambos me conseguem ainda fazer vibrar como na primeira vez em que tive o prazer de assisti-los: no primeiro, perdi a conta às vezes em que vi e revi a cena em que o Homem de Aço apanha Lois Lane em pleno ar, ao mesmo tempo que segura, com uma só mão, um helicóptero em queda livre; no segundo, quase rebentei a fita da velhinha cassete VHS em que o tinha gravado, de tanto a rebobinar para assistir, uma e outra vez, à épica batalha travada em Metrópolis pelo Super-Homem e os vilões do seu planeta natal.
    Sem desprimor, pois, para o seu antecessor, Superman II continua a figurar no meu top 5 dos melhores filmes com super-heróis (encabeçado pelo igualmente clássico Batman, de Tim Burton).
   Mesmo a uma distância de quase 35 anos, Superman II mantém-se como um excelente entretenimento, graças ao seu elenco sólido, ao argumento consistente e a uma generosa porção de sequências de ação. Chegando mesmo a superar o primeiro filme, em especial devido ao foco nos dramas individuais de algumas personagens (o inviável triângulo amoroso entre Lois, Clark e o Super-Homem é uma das pedras de toque da trama) e à maior credibilidade dos vilões e suas motivações (Terence Stamp não podia ter sido melhor escolhido para o papel de Zod, não perdendo na comparação com Michael Shannon em Homem de Aço).
   Por tudo isto, Superman II é um digno tributo ao maior herói de todos os tempos, desde logo porque não desvirtua a sua mitologia e porque nos fez acreditar que um homem podia voar.

Christopher Reeve, o eterno Super-Homem cinematográfico.