quinta-feira, 11 de maio de 2017

ETERNOS NICK CARDY (1920-2013)


   As raízes plebeias não o impediram de ser um príncipe da 9ª Arte, cuja magnífica obra continua a ser reverenciada pelos seus pares. Versátil e perfecionista, gostava de chamar a si todo o processo de criação artística, fazendo dele um caso ímpar na sua época. Tão glamorosas como as capas que produziu em série para a DC eram as musas e ninfetas esculpidas pelo seu lápis.

Biografia: Nova-iorquino de gema, Nick Cardy nasceu Nicholas Viscanti a 20 de outubro de 1920, no Lower East Side, pitoresco bairro de Manhattan que, antes da especulação imobiliária dos últimos anos, acolhia tradicionalmente as classes menos endinheiradas. Filho de um casal de modestos imigrantes italianos - o pai operário, a mãe costureira, nenhum deles falando mais do que algumas palavras de inglês - cedo começou a dar sinais de ser um talento precoce e um predestinado das artes.
Para embevecimento dos seus progenitores, com apenas 6 anos de idade o pequeno Nick já desenhava, esculpia e fazia entalhes em madeira. Aos 14, alguns dos murais que pintara para embelezar a comunidade onde cresceu foram fotografados pelo New York Herald Tribune e pela Literacy Digest, o que lhe valeu os seus primeiros minutos de fama.
Nada que, no entanto, lhe subisse à cabeça. Apesar de todo o prestígio que granjearia ao longo da sua exemplar carreira como ilustrador e arte-finalista, a humildade seria um traço indelével da sua personalidade.
Chegado ao secundário, foi pois sem surpresa que, em vez de um liceu convencional, Nick optou por matricular-se na recém-fundada School of Industrial Art. Instituição que, como o próprio nome sugere, se propunha a desenvolver as aptidões artísticas dos seus alunos com vista ao seu ingresso no mercado de trabalho.
Ao longo dos anos que por lá andou, o talento de Nick não passou despercebido nem a colegas nem a professores. Tendo mesmo o seu trabalho artístico sido distinguido com vários prémios e honrarias. Não obstante todo esse reconhecimento, sabia que tinha ainda uma longa aprendizagem pela frente. Passando por isso a frequentar em simultâneo aulas de arte nas filiais nova-iorquinas do Boys Club of America e da Art Students League, duas organizações filantrópicas que, a troco de propinas quase simbólicas, proporcionavam essas e outras atividades extracurriculares a jovens carenciados.
Depois de dizer adeus aos bancos da escola - e sem se poder dar ao luxo de os trocar por os de uma qualquer universidade -, Nick trabalhou durante um curto período de tempo como aprendiz numa agência publicitária antes de ser contratado para o Eisner & Iger.
Corria o ano de 1939, o espectro negro da guerra pairava sobre a Europa, e foi nesse lendário estúdio fundado por Will Eisner e Jerry Iger, dois iconoclastas, que ele deu os primeiros passos na turbulenta indústria dos comics. Que, por esses dias, em contraste com os tempos de chumbo que se aproximavam, vivia a sua época áurea.
Ao mesmo tempo que, na sua qualidade de avençado, desenhava títulos como Fight Comics ou Jungle Comics para a Fiction House (editora extinta nos anos 50 que teve em Sheena, a Rainha das Selvas o seu maior êxito), Nick assinava com o pseudónimo Ford Davis as tiras de Lady Luck publicadas no suplemento dominical do mesmo jornal em que eram também apresentadas as aventuras de The Spirit.

Fight Comics foi um dos títulos da Fiction House
desenhados por Nick Cardy.
Ambas as personagens haviam saído da imaginação de Will Eisner em 1940, motivando meses antes a dissolução da sua sociedade com Jerry Iger. Para o qual Nick continuou no entanto a trabalhar durante mais algum tempo.
Reconhecendo as enormes potencialidades de Nick, Eisner tornou-se seu mentor e confiou-lhe a arte de Lady Luck, para assim se poder dedicar por inteiro àquela que seria a sua criação suprema: The Spirit. Ao que consta, apesar do pseudónimo Ford Davis, o jovem pupilo de Eisner encontrava sempre maneira de inscrever subtilmente as suas verdadeiras iniciais (NV) em pontos estratégicos dos painéis por si ilustrados.
Em qualquer caso, a experiência foi-lhe de grande valia na medida em que, além do próprio Eisner, ela permitiu-lhe trabalhar de perto com outros grandes vultos da 9ª Arte, como Lou Fine, Bob Powell ou George Tuska. Unânimes em reputar Nick como um virtuoso da ilustração cuja humildade só encontrava paralelo na pertinácia que patenteava na constante sublimação do seu traço, caracterizado pela abordagem clássica à anatomia humana aliada a uma inesgotável criatividade.

Will Eisner confiou a sua Lady Luck a Nick Cardy.
Foi também apadrinhado por Eisner que, a partir de finais de 1940, Nick teve oportunidade de trabalhar na Quality Comics (outra das mais proeminentes editoras da Idade do Ouro de onde saiu, entre outros, Plastic Man). Ao serviço da qual foi autorizado pela primeira vez a usar o seu nome de batismo. Optou, todavia, por abreviá-lo - ou americanizá-lo, diriam alguns - como Cardy, apelido com que ficaria imortalizado na história da banda desenhada.
Ao cabo de um par de anos a perfumar com o seu talento alguns dos títulos mais emblemáticos da Quality, Nick Cardy foi contratado pela Fiction House, cujo contingente de artistas residentes reforçaria até ser chamado a vestir a farda do Exército norte-americano em 1943.

Ao serviço da Quality Comics, Nick Cardy pôde usar pela primeira vez
  o seu nome verdadeiro.
Crack Comics foi um dos títulos por onde passou.
Poucos saberão, de resto, que Nick Cardy foi um herói de guerra, condecorado não com um mas com dois Corações Púrpura* correspondentes a outros tantos ferimentos sofridos em combate. É difícil imaginar algo assim com alguém mais habituado a ter lápis e pincéis como armas. E, com efeito, Cardy documentou minuciosamente a sua epopeia de G.I. Joe através de dezenas de esboços e aguarelas.
Nada fazia prever, de facto, grandes atos de bravura por parte do soldado raso Nick Cardy. Inicialmente incorporado na 66ª Divisão de Infantaria dos EUA, passaria a trabalhar como mecânico nas oficinas do quartel-general da unidade após ter vencido um concurso para a conceção da respetiva insígnia. Era essa a única vaga disponível quando um general admirador do seu trabalho resolveu puxar uns cordelinhos para manter Cardy o mais afastado possível da linha da frente. Aonde acabaria mesmo por ir parar quando, nos primeiros meses de 1944, recebeu ordem para se juntar à 3ª Divisão Blindada, então estacionada na Velha Albion.


66th Infantry Division shoulder sleeve insignia.jpg
Em cima: Nick Cardy em pose de galã de cinema;
Em baixo: o logótipo por ele concebido para a 66ª Divisão de Infantaria dos EUA.
Aos comandos de um tanque, Cardy acabaria dessa forma por participar ativamente na invasão da Normandia, operação militar que ditaria em larga medida a vitória aliada na 2ª Guerra Mundial.
Ferido duas vezes em combate, terminaria a sua comissão de serviço em França, num confortável gabinete do Departamento de Informação e Educação do Exército dos EUA.
De regresso à vida civil e à Grande Maçã, o primeiro emprego que Nick Cardy conseguiu foi como freelancer da Fiction House e ilustrador de revistas de palavras cruzadas. Era esse o seu ganha-pão quando, em 1946, conheceu e desposou Ruth Houghty, mãe do seu único filho (falecido em 2001), e com quem se manteria casado até 1969.
Após uma fugaz passagem pelas tiras a preto e branco de Tarzan, em 1950 Nick Cardy iniciou a sua longa colaboração de mais de um quarto de século com a DC. Na Editora das Lendas começou por desenhar duas séries de curta duração - The Legends of Daniel Boone e Congo Bill -, bem como historietas avulsas para House of Mystery e Gang Busters.
Numa época em que era comum os artistas desdobrarem-se entre diferentes géneros, Cardy emprestou também o seu traço a uma panóplia de séries de terror e romance da Standard Comics. Menos comum era um desenhador arte-finalizar o próprio trabalho. Algo que fazia de Nick Cardy se não caso único, pelo menos, uma das poucas exceções à regra.
Em resposta ao novo impulso dado pela Marvel Comics aos super-heróis no princípio dos anos 1960, a DC investiu fortemente nas suas publicações estreladas por essas figuras coloridas que haviam entrado em decadência no pós-guerra. A títulos consagrados como Action Comics, Showcase ou Detective Comics somaram-se assim alguns inéditos, incluindo Aquaman. Que, muito por conta da soberba arte de Nick Cardy, se revelaria uma aposta ganha. Exímio a desenhar criaturas marinhas e correntes marítimas, a fluidez do seu traço criava uma atmosfera subaquática visualmente cativante para dentro da qual os leitores se sentiam transportados.
Vale a pena lembrar que desde a sua estreia, em 1941, nunca o Soberano dos Mares dispusera de uma série própria. Sendo, portanto, justo reconhecer a Nick Cardy o mérito de tê-lo convertido numa das personagens de charneira do Universo DC, após década a viver na sombra de Superman e companhia.

Uma das mais glamorosas capas de Aquaman desenhadas por Nick Cardy.
Beneficiando de uma dinâmica particularmente favorável - especialmente quando Carmine Infantino** foi nomeado editor-chefe da DC - Nick Cardy iniciou uma fase seminal que se prolongaria até ao início da década seguinte. Entre 1962 e 1968 desenhou mais de 40 edições de Aquaman, continuando no entanto como seu capista até ao cancelamento da série em 1971.
Com cada trabalho seu a superar o anterior, algumas das capas que produziu durante esse período tornar-se-iam icónicas. Adjetivo que também se poderia aplicar a Mera, a curvilínea namorada de Aquaman que Cardy ajudara a criar logo em 1963. E que, à imagem e semelhança de tantas outras figuras femininas esculpidas pelo seu lápis, se tornaria uma musa cujas formas voluptuosas pareciam quase tridimensionais. Cardy notabilizou-se de facto por desenhar algumas das mais belas mulheres dos quadradinhos, dotando-as de curvas e não de ângulos.
Além de Mera, Nick Cardy foi também cocriador do Mestre dos Oceanos (Ocean Master, no original), ainda hoje um dos principais antagonistas do Soberano dos Mares.

Mera, a cara-metade de Aquaman, pelo traço de Nick Cardy.
A segunda série da Editora da Lendas para cujo sucesso Nick Cardy deu um importante contributo foi Teen Titans. Ficando a sua passagem por ela marcada por uma estreia e por uma polémica. Esta última suscitada pelo veto de Carmine Infantino a uma história dos Novos Titãs ilustrada por Cardy e que, se não fosse por essa interferência, teria introduzido o primeiro herói negro da história da DC. Já a estreia referia-se ao novo visual da Moça-Maravilha (Wonder Girl).
Objetivando sinalizar a maturidade da antiga adjunta juvenil da Mulher-Maravilha, Cardy substituiu-lhe o velho uniforme - essencialmente um pastiche do da sua precetora - por um modelo mais moderno e arrojado, que se tornaria a imagem de marca da personagem ao longo de mais de duas décadas.

Graças a Nick Cardy, Moça-Maravilha surgiu
de look renovado em Teen Titans #23 (1969).
Fazendo jus à sua reputação de trabalhador incansável, em paralelo a Teen Titans (de que desenhou os 42 primeiros números e outras tantas capas), entre os últimos meses de 1968 e os primeiros de 1969, Nick Cardy assumiu também a arte de Bat Lash. Ambientada no Velho Oeste e protagonizada por um carismático anti-herói muito diferente dos truculentos cowboys, esta série de curtíssimo prazo de validade (expirou ao fim de apenas 7 volumes) procurava reinventar o western, obliterando muitos dos seus clichés ao mesmo tempo que piscava o olho à contracultura que parecia ganhar mais adeptos a cada dia que passava. A combinação de tramas inteligentes, mulheres bonitas e vilões caricaturais tornou-a objeto de culto até aos dias de hoje.
Mesmo tendo fracassado na sua missão primordial de reviver um género moribundo, Bat Lash é por muitos considerada a piéce de résistance de Nick Cardy. Então com 48 anos, o artista viu cimentada a sua posição de importante intérprete da arte sequencial ao escrever também o seu segundo número.
Bat Lash #7 p. 3 (2)
A arte de Nick Cardy atingiu o seu ápice em Bat Lash.
Quando deixou finalmente as histórias dos Novos Titãs, em meados de 1973, Nick Cardy encontrou guarida na Casa das Ideias, onde fez parte da equipa criativa de Marvel Comics' Crazy Magazine, publicação humorística que satirizava elementos da cultura pop, incluindo os super-heróis. Manteve no entanto o seu estatuto de capista de referência da DC, assinando dezenas de capas de Superman, Batman, The Brave and the Bold, entre outros.
No final de 1974, Nick Cardy deixou os fãs em choque ao anunciar a sua retirada dos quadradinhos. Na origem desta inesperada decisão terão estado, dependendo das fontes consultadas, disputas relacionadas com direitos autorais ou a simples necessidade de mudar de ares ao fim de mais de três décadas ao serviço da indústria dos comics.
Certo é que quando trocou os quadradinhos pela arte comercial, passou a assinar como Nick Cardi as suas novas empreitadas. Que, além de ilustrações publicitárias, incluíam também cartazes promocionais de filmes. Sendo o mais icónico do seu portefólio aquele que concebeu para Apocalipse Now, a odisseia bélica dirigida em 1979 por Francis Ford Coppola.
1996 marcaria o regresso, ainda que interino, de Nick Cardy aos quadradinhos e à DC, casa que tão bem conhecia. Nesse ano foi um dos desenhadores convidados a participarem em Superman: Wedding Album, volume especial lançado para assinalar o casamento do Homem de Aço com o seu amor de sempre, Lois Lane. A sua despedida definitiva aconteceria em março de 2001, quando desenhou duas páginas de Titans #25, herdeiro do título que, quatro décadas antes, Cardy ajudara a catapultar para a ribalta.

A última capa desenhada por Nick Cardy para a DC, em 2000,
homenageava os Titãs originais,
Apesar das alterações de estilo ao longo dos anos, a arte de Nick Cardy primou sempre pela elevada qualidade. Dotando-o de um incomparável dom narrativo que lhe permitia contar histórias quase sem necessidade de suporte textual E se ele é menos conhecido entre os fãs atuais do que alguns dos seus contemporâneos isso deve-se ao facto de ele não ter tido oportunidade de desenhar com maior regularidade os principais ícones da DC, começando pela Trindade (Batman, Superman e Mulher-Maravilha). O que não obstou a que sua obra continue a ser admirada pelos seus pares, aos quais ainda hoje serve de referência.
Falecido em novembro de 2013, aos 93 anos, em resultado de problemas cardíacos, Nick Cardy viveu tempo suficiente para ver o seu trabalho reconhecido. Depois de, em 1998, ter sido galardoado com um Inkpot Award (prémio anual que, desde 1974, distingue os melhores profissionais do entretenimento), em 2005 foi um dos quatro nomes indicados pela indústria dos quadradinhos para o Will Eisner Comic Book Hall of Fame. Sendo também, a partir de hoje, um dos Eternos da 9ª Arte a abrilhantar este blogue com a sua solene presença. Dado o desconhecimento geral das novas safras de leitores relativamente à obra de Nick Cardy, penso que divulgá-la será a melhor das homenagens a prestar-lhe.

Uma das últimas fotografias de Nick Cardy, tirada em sua casa
pouco tempo antes de o artista se despedir do mundo dos vivos.

*Purple Heart (ou Coração Púrpura) é uma comenda militar atribuída pelo Presidente dos EUA aos veteranos de guerra feridos no campo de batalha;
** Perfil disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2013/06/eternos-carmine-infantino-1925-2013.html

Galeria de capas: 


The Brave and the Bold #94 (DC Comics, março de 1971)


Bat Lash #1 (DC Comics, novembro de 1968)

Aquaman #1 (DC Comics, fevereiro de 1962)

Congo Bill #1 (DC Comics, setembro de 1954)

DC Special #3 (DC Comics, Abril de 1969)
Falling in Love #119 (DC Comics, novembro de 1970)

Crazy Magazine #15 (Marvel Comics, janeiro de 1976)

The Deadly Hands of Kung Fu #18 (Marvel Comics, novembro de 1975)


















quinta-feira, 27 de abril de 2017

HERÓIS EM AÇÃO: X-0 MANOWAR


  Com o ímpeto e a bravura de um guerreiro Visigodo nascido no campo de batalha, chegou aos nossos dias aos comandos de uma das mais poderosas armas da galáxia, que usa para defender um mundo que mal compreende. 
  Produto da imaginação de duas lendas vivas da 9ª Arte, X-0 Manowar é figura de proa do Universo Valiant e um fenómeno de sucesso por terras do Tio Sam. Continua a ser, porém, um ilustre desconhecido para boa parte do público lusófono.

Licenciadoras: Valiant Comics (1992-1996), Acclaim Comics (1997-1999) e Valiant Entertainment (desde 2012)
Criadores: Jim Shooter (história) e Bob Layton (arte conceitual)
Primeira aparição: X-0 Manowar nº1 (fevereiro de 1992)
Identidade civil: Aric de Dácia e Donovan Wylie (na versão da Acclaim Comics)
Local de nascimento: Dácia*, século IV d. C.
Parentes conhecidos: Rolf e Inga (pais, falecidos); Rei Alaric (tio, falecido); Deidre (ex-esposa, falecida); Saana (esposa) e Jhukka (filha ainda por nascer)
Base de operações: Móvel
Afiliações: Visigodos e Unidade **
Armas, poderes e habilidades: Como qualquer guerreiro da Antiguidade forjado por incontáveis pelejas, Aric maneja a espada com notável destreza e, muito por conta da sua robustez física, é um exímio lutador corpo a corpo. Habituado a comandar as hordas dácias no campo de batalha devido ao seu estatuto de herdeiro do trono, é um líder experimentado e um hábil estrategista. Sobrevém, no entanto, do seu exoesqueleto alienígena o seu formidável poderio bélico.
Segundo a lenda, milénios atrás a Shanhara (assim se chama a armadura de X-0 Manowar) terá crescido de uma planta mística estranha à flora de Loam, o planeta-metrópole do império galáctico da Vinha. Quando essa raça de aranhas humanoides (anteriormente designada Spider Aliens) foi escravizada por uma outra conhecida apenas como Tormenta, um dos seus representantes encontrou o traje e serviu-se do seu imenso poder de fogo para repelir sozinho a agressão contra o seu povo, tornando-se assim o seu campeão.
De origem e propósito ainda desconhecidos, a Shanhara é na verdade uma entidade senciente composta por uma amálgama de elementos orgânicos e de metais exóticos que estabelece uma relação simbiótica com o seu usuário. Cuja escolha não obedece, contudo, a critérios aleatórios. 
Antes de perecer, o hospedeiro original da Shanhara profetizou o advento de um escolhido digno de usá-la, e que guiaria Loam a uma era de prosperidade sem precedentes.
Na expectativa do cumprimento da profecia, ao longo dos séculos que seguiram os altos sacerdotes da Vinha - que haviam alçado a Shanhara ao estatuto de divindade - procuraram incessantemente por um substituto capaz de suportar o poder da armadura. Nenhum dos candidatos sobreviveu, porém, ao processo.
Foi, por isso, com um misto de estupefacção e ultraje que os clérigos da Vinha testemunharam a bem-sucedida comunhão da Shanhara com Aric, o humano que haviam abduzido anos antes e que vinham escravizando desde então.
Perante a incapacidade em compreender as razões que levaram o simbionte tecno-orgânico a escolher Aric como seu hospedeiro, o Conselho da Vinha teorizou que isso se deverá eventualmente ao facto de, salvo pelo seu primeiro usuário, os membros da sua espécie serem geneticamente incompatíveis com a entidade.
Aric e Shanhara partilham, de facto, uma relação singular; tão singular que é preservada mesmo quando os dois se encontram separados. No entanto, apesar de forte, o vínculo telepático entre ambos não é indestrutível. 
Num passado recente, Livewire, uma tecnopata ao serviço da Fundação Harbinger (organização secreta responsável pelo recrutamento de jovens dotados de poderes psiónicos, para salvaguarda da Humanidade), conseguiu sobrecarregar a conexão do traje a Aric, tornando-se depois sua usuária durante um curto período de tempo.

Aric e Shanhara: separação dolorosa.
Assim como a sua origem e propósito, suspeita-se que também a real amplitude do poder da Shanhara poderá ainda não ter sido totalmente revelada. A despeito disso, a vasta gama de recursos com que capacita o seu usuário é suficiente para fazer dela uma das armas mais temidas e poderosas da galáxia.
Desde logo porque, à superforça e ao teletransporte, somam-se a invulnerabilidade e o poder de voo. Como se isso não fosse suficientemente impressionante, o traje possibilita também a manipulação de vários tipos de energia. Seja sob a forma de rajadas concussivas seja através da projeção de construtos ou de campos de força. Dispondo ainda de lançadores de mísseis acoplados nos pulsos. Tudo somado, a Shanhara faz do seu usuário um exército de um homem só.
Qualquer idioma - terrestre ou extraterrestre - é instantaneamente traduzido pela armadura. Que pode ainda interagir com complexas formas de tecnologia ou fornecer telepaticamente vastas quantidades de informação ao seu usuário. 
Outra das mais extraordinárias valências da Shanhara consiste na sua capacidade de curar moléstias ou ferimentos potencialmente fatais para o seu hospedeiro ou para terceiros (certa vez, Aric usou-a para salvar a vida do seu melhor amigo).
Apesar das suas características singulares, a Shanhara não é um espécime único. Espalhadas pelo Universo, existe um número indeterminado de armaduras sencientes, ao serviço de múltiplas raças alienígenas. Devendo, por isso, a Humanidade estar grata por ter X-0 Manowar como seu padroeiro.

*Território geográfico situado na região dos Cárpatos que, na Antiguidade, serviu de lar aos dácios (tribo setentrional aparentada com os trácios) e que corresponde, grosso modo, à Roménia e à Moldávia atuais. Até à sua conquista pelos romanos, em 102 d. C., a Dácia era um reino independente que tinha em Sarmisegetuza a sua capital.
**Unity no original, é um coletivo heroico composto por alguns dos mais poderosos superseres da Valiant Comics, originalmente reunidos para defrontar X-0 Manowar que, mais tarde, seria admitido na equipa.

Máquina de guerra em ação.

Histórico de publicação: Duas lendas vivas da Nona Arte, Joe Shooter e Bob Layton* dividem entre si a "paternidade" de X-0 Manowar. Escritor veterano e multipremiado, o primeiro fez praticamente todo o seu percurso profissional ao serviço da Marvel Comics, onde, ao longo de quase uma década, desempenhou as funções de editor-chefe. Precisamente aquelas de que seria investido na Valiant Comics, projeto de que fora aliás um dos fundadores. Já o segundo tivera na sua passagem pelas histórias do Homem de Ferro, na viragem da década de 1980, um dos pontos mais altos da sua fulgurante carreira de escritor e ilustrador.
Foi, pois, da junção desses dois vibrantes talentos que nasceu uma personagem fadada ao sucesso, conforme o ratificam os milhares de edições vendidas e o sortido de comendas e nomeações que foi averbando, sobretudo desde o seu relançamento em 2012. Ano em que, outras distinções, a sua nova série periódica foi contemplada com o Diamond GEM Award para a melhor edição do ano acima dos 3 dólares. Feito tanto mais assinalável em se tratando de um título publicado por uma editora recém- refundada.


Jim Shooter (em cima) e Bob Layton,
os criadores de X-0 Manowar.
Mas puxemos atrás o filme dos acontecimentos. Recuemos exatamente duas décadas até chegarmos a 1992. Em fevereiro desse ano, X-0 Manowar fazia a sua estreia em X-0 Manowar nº1. Alguns dos conceitos apresentados nessa edição histórica haviam no entanto já sido inseridos por Jim Shooter em Magnus, the Robot Fighter. Além da Shanhara, também as Spider Aliens tinham marcado presença nas aventuras desse herói clássico outrora propriedade da Gold Key Comics, mas cujos direitos de licenciamento eram agora detidos pela Valiant.

O nascimento do guerreiro em X-0 Manowar nº1 ( Valiant Comics, 1992).
Com 69 números publicados, a primeira série de X-0 Manowar, a exemplo de vários outros títulos da neófita editora, fez furor entre os leitores que dela fizeram uma campeã de vendas no período que precedeu o seu cancelamento, em setembro de 1996. Circunstância ditada, note-se, não por um súbito declínio, mas sim pela intenção da Acclaim Entertainment (a nova dona da Valiant) de produzir jogos de vídeo baseados em super-heróis. Necessitando, para esse efeito, de torná-los mais adaptáveis a essas plataformas. Requisito que, por sua vez, motivou no ano seguinte o relançamento (reboot, para os mais versados na terminologia nerd) de diversas personagens. Começando, claro, por aquela que era uma das figuras de proa do Universo Valiant: X-0 Manowar. 
Sem surpresas, foi ele o escolhido para, em conjunto com o Homem de Ferro, coprotagonizar Iron Man and X-0 Manowar in Heavy Metal, jogo de vídeo lançado logo em 1996 pela Acclaim Entertainment. Mas que esteve longe de encher as medidas aos fãs e à crítica especializada, que o descreveu mesmo como "aborrecido" e "dececionante".
Nessa sua nova encarnação sob a chancela da Acclaim Comics, X-0 Manowar teve a sua origem recontada e ganhou novo alter ego. Aric de Dácia cedeu, assim, o lugar a Donovan Wylie (vide texto seguinte) na segunda série de X-0 Manowar. Que, apesar de ter nos consagrados Mark Waid e Brian Augustyn a sua equipa criativa, foi incapaz de reeditar o êxito da sua antecessora, acabando cancelada em 1998, ao fim de 21 números publicados.

O renascer de um mito em X-0 Manowar nº1 (Acclaim Comics, 1996).
Quatro anos depois, em 2002, seria a vez de a própria Acclaim cerrar portas em consequência das dificuldades de tesouraria da sua divisão de jogos eletrónicos. Game over para X-0 Manowar? Como em tantos outros casos, as notícias acerca da sua morte foram manifestamente exageradas.
Empurrado para o limbo editorial, X-0 Manowar teria de esperar até 2008 para dele ser finalmente resgatado. Agora sob os auspícios da Valiant Entertainment (a nova denominação da rediviva editora fundada por Jim Shooter e companhia), nesse ano foi dada à estampa X-0 Manowar: Birth, uma antologia de luxo que compilava os sete primeiros números da série original. Recolorida digitalmente, a coleção incluía ainda, como bónus, uma história inédita da autoria de Bob Layton.
O regresso à ribalta só se cumpriria quatro anos depois, em 2012, quando X-0 Manowar voltou a dispor de um título em nome próprio. Escrita por Robert Venditti e com arte de Cary Nord, a terceira série de X-0 Manowar, apesar do bom desempenho comercial, não escapou ao cancelamento ocorrido em meados do ano transato após um hiato de alguns meses na respetiva publicação.
Podem no entanto os fãs aquietar os espíritos porque a Valiant já confirmou entretanto a sua intenção de lançar uma quarta série de X-0 Manowar. Por ora sabe-se apenas que ela terá tramas a cargo de Matt Kindt. Preveem-se, por isso, novidades dentro dos próximos meses, inclusive no que à escolha do artista diz respeito.

De volta às origens em X-0 Manowar  nº1 (Valiant Entertainment, 2012).
*Perfil disponível em http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/07/eternos-bob-layton-1953.html

Guerra de armaduras.
Origens: Na versão canónica da sua história, introduzida pela Valiant Comics, Aric de Dácia era um bravo guerreiro Visigodo nascido em pleno campo de batalha, e para quem a paz nunca fora mais do que uma quimera. Sobrinho do Rei Alaric, era também o legítimo herdeiro do trono quando, no dealbar do século V d.C., o seu povo lutava para se libertar do domínio do Império Romano.
Após uma clamorosa derrota imposta pelo exército ocupante, os Visigodos bateram em retirada para o seu campo, apenas para descobrirem que, na sua ausência, muitas das suas mulheres e crianças haviam sido capturadas pelos Romanos. Entre os cativos encontravam-se Deidre e Inga, a esposa e a mãe de Aric. Que já havia perdido também o pai no decurso da escaramuça com os soldados imperiais.

O destino de Aric de Dácia estava escrito nas estrelas.
Na esperança de conseguirem resgatar os seus entes queridos, um grupo de guerreiros Visigodos chefiados por Aric planearam atacar nessa mesma noite o forte Romano onde eles se encontravam aprisionados. Foram, no entanto, surpreendidos por batedores da Vinha, uma brutal raça de esclavagistas alienígenas.
Levados para os confins do espaço sideral a bordo da nave-mãe da Vinha, Aric e os seus companheiros passaram os anos seguintes a trabalhar como escravos nos campos agrícolas existentes no seu interior.

Comandante Trill, um dos mais desapiedados membros da Vinha
 e inimigo figadal de X-0 Manowar.
Dono de uma vontade inquebrantável, Aric nunca desistiu de voltar para junto daqueles que amava e, quando a oportunidade se materializou, liderou uma rebelião contra os seus captores. Durante a qual invadiu um templo sagrado da Vinha, roubando a sua maior relíquia: Shanhara, uma armadura senciente que era também uma das mais poderosas armas da galáxia.  Aos comandos da qual conseguiu finalmente escapar da nave. A duras penas, no entanto, já que foi obrigado a deixar para trás os seus companheiros moribundos.
De volta à Terra, Aric ficou mortificado ao descobrir que, devido a um fenómeno de dilatação temporal induzido pela velocidade da luz a que se movia a nave da Vinha, haviam passado de facto 1600 anos desde a sua abdução.
Preso no século XXI, não foi fácil para Aric, mesmo com a ajuda da Shanhara, ajustar-se à realidade dos nossos dias. Ao cabo de muitas peripécias e alguns encontros - nem sempre amistosos -  com outros super-heróis do Universo Valiant, acabaria por assumir o controlo das Indústrias Orbe, uma poderosa multinacional secretamente fundada pela Vinha com o propósito de influenciar os destinos da Humanidade.

Um bárbaro à deriva na civilização.
Um homem fora do seu tempo, X-0 Manowar é desde então o campeão de um mundo que ainda mal compreende.
Problema que nunca afligiu Donovan Wylye, a sua contraparte introduzida pela Acclaim Comics. Um brilhante cientista militar, Wylie operava uma sofisticada armadura de combate apreendida pelo Governo americano aos nazis durante a II Guerra Mundial.
De origem desconhecida, o traje deste segundo X-0 Manowar pouco tinha a ver com o modelo original. Sendo descrito como um artefacto usado ao longo de diferentes épocas por uma miríade de guerreiros.Havendo, no entanto, um reverso da medalha.
Ao mesmo tempo que concedia enorme poder de fogo ao seu usuário, o traje drenava-lhe a energia vital, deteriorando-lhe o corpo e a mente. Outra diferença residia na natureza do vínculo estabelecido entre ambos. Em vez de uma conexão telepática, a nova armadura fundia-se ao sistema nervoso central do seu hospedeiro, não podendo ser removida sem que daí resultasse a sua morte. Contingência para a qual, malgrado os esforços envidados nesse sentido, Donovan Wylie nunca conseguiu solucionar.


Donovan Wylie estava refém da sua armadura.

Apontamentos:

*O Homem dos Mapas (Map Giver, um sósia quase perfeito de Elvis Presley) foi quem, na versão original da história de X-0 Manowar, usou uma lasca de osso para entalhar na palma da mão de Aric o mapa que o conduziu à Shanhara;
*Antiga escrava, Deidre reverenciava Lug, uma das principais divindades do panteão celta à qual Aric se converteu depois de desposá-la; 
*Em X-0 Manowar Yearbook (1995) foi explicitada a génese da inimizade jurada entre Gilad Anni-Padda - o herói imortal conhecido como Guerreiro Eterno (Eternal Warrior) - e Aric. Após ter sido salvo por este de uma cilada montada por saqueadores, Gilad retribuiu denunciando aos Romanos a localização do campo dos Visigodos. Em consequência do ataque que se seguiu, Deidre,, perdeu o bebé de Aric que carregava no ventre. O vil ato de traição de Gilad fez no entanto parte de uma conjura que provocou a queda do Império Romano e abriu caminho à entronização de Alaric, rei dos Dácios e tio de Aric.

Um guerreiro tão eterno como o ódio que lhe devota X-0 Manowar.

Noutros segmentos culturais: Resume-se por enquanto ao já mencionado Iron Man and X-0 Manowar in Heavy Metal - jogo eletrónico lançado pela Acclaim em 1996 - a presença do herói criado por Jim Shooter e Bob Layton em outras plataformas que não a banda desenhada.  Cenário que poderá, contudo, alterar-se significativamente num futuro próximo.
Numa entrevista recentemente concedida ao canal do YouTube Variant Comics, o atual presidente-executivo da Valiant Entertainment,  Dinesh Shamdasani, anunciou os planos da companhia para a criação do seu próprio Universo Estendido. O que, a concretizar-se, abrirá uma nova frente de combate na guerra mediática que vem sendo travada nos últimos anos pelas arquirrivais Marvel e DC.
Na esteira dessas declarações de Shamdasani, o New York Times adiantou entretanto que se encontram atualmente em curso negociações entre a Valiant e a DMG Entertainment, uma produtora cinematográfica de Los Angeles com forte implantação no mercado chinês e cuja filmografia inclui Iron Man 3.
Além de uma série de ação real baseada em Ninjak e de um filme de Bloodshot (duas das coqueluches da Valiant), estará também na calha uma longa-metragem estrelada por X-0 Manowar. 
Notícias que soarão certamente como música aos ouvidos dos fãs da Valiant, ansiosos por verem as suas personagens favoritas a ganharem vida no pequeno e grande ecrãs.

Metal pesado em defesa do Universo.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

CLÁSSICOS REVISITADOS: «SUPERMAN - ENTRE A FOICE E O MARTELO»




  E se, por um capricho do destino, o foguete que transportava o Último Filho de Krypton não se tivesse despenhado nos EUA mas sim no coração da URSS estalinista? Como seria o mundo sob os auspícios de um Homem de Aço arvorado a campeão do proletariado e símbolo supremo do comunismo?
  Eis as empolgantes premissas porfiadas num exercício de imaginação com o cunho de Mark Millar (Guerra Civil, O Velho Logan), e que influenciou também a abordagem de Henry Cavill ao herói em Man of Steel.

Título original: Superman: Red Son
País: EUA
Data de publicação: De junho a agosto de 2003
Categoria: Minissérie mensal em três volumes em formato americano
Licenciadora: Detective Comics (DC)
Autores: Mark Millar (trama) e Dave Johnson (ilustrações)
Protagonistas: Superman e Lex Luthor
Vilões: Brainiac
Coadjuvantes: Batman, Mulher-Maravilha, Lois Lane, Jimmy Olsen, Pyotr Roslov, Perry White, Lana Lazarenko, Amazonas de Themyscira e Tropa dos Lanternas Verdes 
Cenários: Palácio de Inverno do Superman, Themyscira, Batcaverna, Museu do Superman, Zona Fantasma, EUA, URSS e várias geografias da Terra-30 do Multiverso DC



As capas originais da minissérie
cujos créditos artísticos pertencem a Dave Johnson.
Edições em português: Como habitualmente, a primeira versão em língua portuguesa da saga ficou por conta da Panini brasileira que, em 2004, a lançou pela primeira vez em Terras Tupiniquins em formato idêntico ao original. Ainda sob o selo da mesma editora, Superman - Entre a Foice e o Martelo seria, dois anos depois, compilada num volume encadernado.
Titulada Herança Vermelha , a saga seria lançada deste lado do Atlântico em 2014 pela Levoir num volume único.

A compilação da saga
lançada em 2006 pela Panini.

Antecedentes: Segundo rezam as crónicas lavradas pelo próprio, Mark Millar seria ainda pessoa de palmo e meio na sua Escócia natal quando leu a história do Homem de Aço que, décadas depois, serviria de ponto de partida a Red Son.
Tem, portanto, a palavra o autor: «Foi um outro exercício de imaginação que li quando tinha apenas seis anos de idade que me inspirou a escrever Red Son. A história em causa fazia parte de Superman nº300 (edição comemorativa lançada em 1976) e marcou-me profundamente. Enquanto criança criada em plena Guerra Fria, não pude ficar indiferente à respetiva premissa: E se, em vez do Kansas, a nave que transportava o Último Filho de Krypton tivesse amarado em águas internacionais?
Num clima de alta tensão político-militar entre os EUA e a URSS, ambas as superpotências se apressariam a reclamar o bebé, acabando os americanos por se antecipar. Fascinava-me, no entanto, conjeturar o que teria acontecido se os soviéticos tivessem levado a melhor nessa disputa.
Sempre com esse pensamento em mente, à medida que fui crescendo continuei a reunir ideias para a minha própria narrativa. Quando tinha 13 anos, animado por aquela ousadia típica da puberdade, remeti-a à DC, na ingénua esperança de que viesse a ser publicada. Claro que, na melhor das hipóteses, o que escrevi correspondia a um rascunho. Sem mencionar que os meus desenhos eram para lá de toscos. Foi contudo esse meu projeto adolescente a lançar as bases para Red Son.
Em 1992, quando ainda residia na Grã-Bretanha e escrevia títulos como 2000 AD e Crisis para a Fleetway Publications, tinha já definido alguns dos principais eixos narrativos. Por essa altura era já ponto assente que, em vez do Kansas, o foguete que trouxe Kal-El ao nosso planeta teria aterrado numa Unidade de Produção Coletiva no coração da União Soviética governada com mão de ferro por Estaline. Quando adulto, em vez de trabalhar no Daily Planet, o Superman seria jornalista do Pravda (antigo órgão oficial do PCUS).

A fonte de inspiração para Red Son.
«Haveria também uma dramática inversão das circunstâncias geopolíticas das duas superpotências. Nesta realidade divergente, enquanto a URSS prosperava e se afirmava como farol da Humanidade, os EUA enfrentavam a decadência económica e a ameaça de desintegração representada pelos sonhos independentistas da Geórgia e da Luisiana. Uma das cenas mais impactantes mostraria tanques a esmagarem a revolta nas ruas de Nova Orleães, a exemplo do ocorrido na ex-Checoslováquia durante a Primavera de Praga.
Apesar de centrada no Superman, a história contaria com a participação de Batman, Lanterna Verde e outras figuras gradas do Universo DC. Todas elas apresentadas sob ângulos completamente distintos dos habituais. Estava ciente de que se tratava de um exercício de imaginação tão estimulante quanto arriscado. Mas eu estava disposto a assumir os riscos e, por isso, continuei a escrever.
Antes mesmo de saber se a DC me concederia foral para esta abordagem tão pouco ortodoxa à sua personagem de charneira, o meu bom e velho amigo Grant Morrison ajudou-me a definir o desfecho da trama. Uma ideia que, mesmo não sendo totalmente inovadora, apenas posso qualificar de genial (ver Trivialidades).»
A DC acabaria mesmo por dar luz verde à iniciativa, com Red Son a chegar às bancas norte-americanas em 2003. Dois anos depois, ironicamente, de Mark Millar ter apresentado a sua demissão da Editora das Lendas, onde vinha trabalhando desde 1994.
Dave Johnson, artista nascido há 51 anos em terras do Tio Sam e cujo repertório incluía à data títulos como Demon e R.E.B.E.L.S., seria o eleito para desenhar aquela que viria a ser considerada uma das melhores sagas do Homem de Aço produzidas este século e uma obra de referência na memorabilia do herói.

Mark Millar, um provocador nato
cujas fábulas não deixam ninguém indiferente..

Enredo: Em meados da década de 1950, a União Soviética surpreendo o mundo ao revelar a existência do Superman. Um alienígena com poderes semidivinos às ordens de Estaline faz soar as campainhas de alarme nos EUA, e muda o foco da corrida armamentista, em curso desde o início da Guerra Fria, das bombas atómicas para os meta-humanos.
É percetível nas entrelinhas que o despenhamento, duas décadas antes, da nave que transportava o bebé Kal-El em solo ucraniano se terá ficado a dever a um ligeiro desfasamento temporal relativamente à linha cronológica canónica.Ou seja, um par de horas de diferença na rotação da Terra colocou a nave na rota da URSS em vez dos EUA. Já a identidade dos pais adotivos do Último Filho de Krypton é um segredo de Estado muito bem guardado.
Reputado cientista dos Laboratórios S.T.A.R. e uma das mentes mais brilhantes do planeta, Lex Luthor é contratado por um agente da CIA chamado Jimmy Olsen para destruir o novo campeão soviético.
Objetivando a recolha do material genético do Superman, Luthor induz a queda do satélite Sputnik 2 em Metrópolis. Previsivelmente, o desastre é evitado graças à providencial intervenção do herói. Que, no processo, acaba também por travar conhecimento com Lois Lane, a sedutora esposa de Luthor. Apesar da tensão romântica imediatamente instalada entre o casal, ambos resistem à atração mútua devido ao estado civil de Lois.
Invocando razões de segurança nacional, o Governo estadunidense confisca o satélite soviético e Luthor utiliza os vestígios biológicos nele deixados por Superman para fabricar um clone do herói. Algo falha no processo e a duplicata, oficialmente denominada Superman 2, exibe várias deformidades físicas que lhe conferem uma aparência bizarra.

Superman, o campeão do proletariado.
Entretanto, Superman e Mulher-Maravilha, a embaixadora de Themyscira, são apresentados numa festa diplomática. Seduzida pelo garbo e pela nobreza de caráter do Homem de Aço, a Princesa Amazona insinua-se, mas o herói é forçado a abandonar apressadamente o evento após avistar o tenebroso Pyotr Roslov, diretor da não menos tenebrosa NKVD (polícia política antecessora da KGB) e filho ilegítimo de Estaline.
Ressentido com a afeição dispensada pelo pai a um extraterrestre, Pyotr considera que o advento do Superman reconfigurou a estrutura de poder do regime soviético, hipotecando as suas hipóteses de vir a ser o herdeiro designado de Estaline à frente dos destinos daquela que é uma das duas nações mais poderosas do mundo.
A despeito disso, Pyotr executa pessoalmente um casal de dissidentes que vinham imprimindo e distribuindo panfletos alertando para a potencial ameaça representada pelo Superman. Crime cometido à frente do filho do casal, assim traçando o destino do menino.
Cada vez mais perturbado, Pyotr ordena em segredo o envenenamento do pai com cianeto. Decisão de que se arrepende mas não ao ponto de confessar a autoria moral da conjura que levou à morte de Estaline. Com o povo soviético enlutado e tomado por um sentimento de orfandade, o Superman é convidado pelo Politburo a assumir a liderança do Partido, mas não cede ao apelo do poder.

A relação próxima de Estaline com Superman não agradava a todos.
Semanas depois, a mando de Luthor, o Superman 2 ataca o Homem de Aço. Sem que dele emirja um vencedor inequívoco, o titânico confronto provoca o lançamento acidental de um míssil nuclear sobre o Reino Unido.
Infundido do mesmo heroísmo do original, o Superman 2 imola-se na tentativa de impedir o holocausto no qual pereceriam milhões. Londres acaba, porém, por ser atingida pelas devastadoras ondas de choque da detonação, daí resultando um elevado número de vítimas mortais entre os seus habitantes. Paralelamente a todas as outras repercussões, o incidente tem também como consequência o rompimento das relações diplomáticas entre o Reino Unido e os EUA.
Inconformado com o fracasso do seu projeto, Luthor resolve abandonar os Laboratórios S.T.A.R. e fundar a sua própria empresa, a LuthorCorp. Não sem antes assassinar a sangue frio todos os seus ex-colaboradores.
Negligenciada pelo marido, Lois Lane fantasia com o Superman que, por sua vez, também não a consegue expulsar do pensamento. Tudo muda no entanto quando se propicia o reencontro do herói com Lana Lazarenko, o seu amor de infância.
Ao observar o sofrimento de Lana e dos seus filhos, o Superman conhece pela primeira vez o reverso do paraíso socialista apregoado pela bem oleada máquina propagandística do regime. Circunstância que o leva a reconsiderar a sua decisão de rejeitar a liderança do PCUS, por entender ser seu dever moral fazer uso dos seus poderes para transformar não só a URSS mas o mundo inteiro numa utopia.

Superman toma finalmente consciência
das misérias do regime que simboliza.
Quatro décadas depois, em 1978, o panorama mundial é deveras diferente daquele que todos conhecemos. Com John F. Kennedy na Casa Branca após suceder a Richard Nixon (assassinado em Dallas 15 anos antes), os EUA estão no limiar do colapso social. Cenário contrastante com o da URSS que, graças à liderança do Superman, vive uma era de inaudita prosperidade económica e vem alargando o seu arco de influência a praticamente todo o globo. De facto, salvo os EUA, apenas o Chile se mantém à margem da utopia socialista fundada pelo Homem de Aço.
No entanto, nem tudo é tão idílico como aparenta. A paz e a prosperidade tiveram como custo a severa restrição das liberdades individuais. Com o Superman transformado num tirano benevolente, os dissidentes são submetidos a lobotomias que os convertem em autómatos obedientes. Embora governe agora a URSS em conjunto com a Mulher-Maravilha, o herói não a trata como sua consorte e ignora o amor que ela lhe devota.
Enquanto o impulso secessionista de vários estados empurram os EUA para a implosão, Luthor, mais obcecado do que nunca em destruir o Superman, planeia encolher Moscovo. O plano acaba, contudo, por fracassar depois de Brainiac, o seu novo aliado, encolher por engano Estalinegrado. Os dois acabam detidos pelo Superman que, malgrado os seus esforços, é incapaz de reverter o processo de miniaturização de uma das principais cidades soviéticas. Esse seu primeiro revés deixo-o consumido pela culpa. Para aliviá-la, decide engarrafar Estalinegrado para melhor a preservar e para lhe servir de lembrete da sua falibilidade.

Estalinegrado, uma cidade engarrafada.
Recusando-se a atirar a toalha ao chão, Luthor engendra novo plano de destruição do seu némesis. Um que envolve Batman, sob cujo capuz se esconde o órfão que, em criança, viu os seus pais serem assassinados por Pyotr Roslov. E é precisamente com o auxílio deste, agora chefe supremo da KGB, que Batman sequestra a Mulher-Maravilha com o intuito de usá-la como engodo para atrair o Superman para uma armadilha com raios que imitam o sol vermelho do seu planeta natal. Em teoria, isso deixá-lo-ia privado dos seus poderes.
O plano resulta na perfeição, deixando o Superman em agonia. Ele consegue no entanto persuadir a Mulher-Maravilha a libertar-se do laço que a prendia e a destruir as lâmpadas de sol vermelho. Restabelecido, o Superman parte rapidamente no encalço dos seus algozes, indiferente aos profundos ferimentos da sua companheira, infligidos quando ela se esforçava para lhe salvar a vida.
Uma vez capturado pelo Superman, Pyotr Roslov é transformado num dos seus robôs. Temendo sofrer idêntico destino, Batman opta pelo suicídio, assim fornecendo um mártir à causa Anti-Superman. Luthor, por seu lado, coloca em marcha novo plano após a descoberta de uma misteriosa lanterna verde entre os destroços de uma nave espacial acidentada em Roswell, Novo México.
Heróis da Terra-30.
Reprogramado pelo Superman, Brainiac torna-se seu lacaio e é incumbido da construção do seu Palácio de Inverno na Sibéria. Apesar de determinado a vencer o braço de ferro com os EUA, o Homem de Aço vai rejeitando as sugestões feitas por Brainiac para que invada o país inimigo.
Pouco tempo depois, Lex Luthor e Jimmy Olsen são eleitos, respetivamente, Presidente e Vice-Presidente dos EUA. Fazendo uso do seu conhecimento científico, de vasto capital económico e dos seus poderes autocráticos, o novo líder norte-americano honra a sua promessa de restituir a grandeza à nação que vê nele um messias.

Luthor, um presidente aclamado pelo povo.
Tudo isso faz no entanto parte de um plano mais abrangente, que visa instigar o Superman a invadir os EUA. E quando isso acontecer, Luthor conta com duas armas secretas: a Tropa dos Lanternas Verdes e a Zona Fantasma (local fora do alcance da superaudição do Homem de Aço que, acredita-se, a usa para ouvir cada palavra pronunciada no mundo).
Demora pouco a Luthor passar da teoria à prática, confrontando o Superman no seu Palácio de Inverno. Acaba no entanto capturado por Brainiac, que aproveita o ensejo para voltar a instigar o Homem de Aço a invadir os EUA. Obtendo desta feita uma resposta positiva da parte do seu amo.
Com a Costa Leste dos EUA sob ataque do Superman, a Primeira Dama, Lois Lane, viaja até Themyscira, agora governada por uma amarga Mulher-Maravilha, na expectativa de forjar uma aliança com as Amazonas.
Entretanto, a Tropa dos Lanternas Verdes, comandada pelo coronel Hal Jordan, é facilmente desbaratada pelo Superman. Caída a primeira linha defensiva dos EUA, cabe de seguida às Amazonas e à equipa de supervilões reunida secretamente ao longo dos anos por Luthor procurar suster o avanço do Homem de Aço. Mas todos eles acabam igualmente derrotados.
Num ataque coordenado com o do Superman, na Costa Oeste a gigantesca nave espacial de Brainiac pulveriza a frota naval do Pacífico antes de os dois superseres convergirem para a Casa Branca, onde Luthor os saúda com a sua derradeira arma secreta: uma simples nota manuscrita onde se pode ler "Porque não pões simplesmente o mundo inteiro numa garrafa, Superman?".
Magoado pela alusão ao ocorrido com Estalinegrado, o Superman percebe ter ido longe de mais e ordena a Brainiac o cessar das hostilidades. Este, no entanto, nunca estivera realmente sob seu domínio e ataca-o com kryptonita.

A traição de Brainiac.
Desligado remotamente por Luthor, Brainiac cai por terra, deixando desgovernada a sua nave que ameaça colapsar sobre Washington, D.C.
Reunindo as energias que ainda lhe restam, o Superman alça voo e empurra a nave de Brainiac para o espaço, onde ela explode em mil pedaços. Num ato de justiça poética, o mundo é salvo pelo  sacrifício supremo do seu opressor.
Nos meses seguintes ao desaparecimento do seu líder e campeão, a URSS mergulha na anarquia, mas a ordem é rapidamente restabelecida graças à ação dos Batmen (antigos membros da Resistência que adotaram o símbolo do morcego após a morte do Batman).
Luthor incorpora vários dos conceitos de Superman e Brainiac na sua nova doutrina - o Luthorismo - que serve de base à fundação dos Estados Unidos Globais. Sendo esse um momento definidor na História da Humanidade. Graças aos progressos científicos proporcionados por essa era de paz e prosperidade sem precedentes, são encontradas as curas para todas as doenças conhecidas. É também iniciada a colonização do sistema solar sob a égide do Governo Global presidido por Luthor, cuja vida se prolonga por mais de um século.
Quando Luthor morre por fim, o Superman comparece às suas exéquias usando um disfarce em tudo semelhante ao de Clark Kent. Identidade que, recorde-se, ele nunca assumiu nesta dimensão paralela. Ao avistar aquela misteriosa figura entre a multidão, Lois Lane, a viúva de Luthor, tem uma estranha sensação de déjà vu mas não suspeita do que quer que seja.
Afastando-se discretamente, o Superman, cuja imortalidade fica implícita, planeia viver doravante entre os humanos em vez de governá-los.
Milhões de anos no futuro, a Terra está a ser destroçada por violentos maremotos causados pelo Sol, agora transformado num gigante vermelho. Jor-L, um longínquo descendente de Luthor, envia o seu filho recém-nascido, Kal-L, numa viagem para o passado com a missão de prevenir a iminente extinção da Humanidade.
Os painéis finais da história mostram a nave que transporta o bebé a aterrar numa quinta coletiva algures na Ucrânia em 1938 (ano da estreia oficial do Superman na BD), causando dessa forma um paradoxo de predestinação. Consistindo o mesmo em o Homem de Aço ser um descendente de Luthor.

Um mundo virado do avesso.

Apontamentos:

*A propaganda soviética acerca do Superman reproduz, ipsis verbis, o genérico de introdução de The Adventures of Superman. O primeiro folhetim radiofónico baseado no herói, emitido em diferentes formatos no período compreendido entre 1940 e 1951, apresentava-o como "um estranho visitante de outro mundo capaz de mudar o curso de rios e de dobrar barras de aço com as próprias mãos";
*Ao entrar em cena pela primeira vez, Lex Luthor surge entretido com a montagem de um quebra-cabeças da Acme Corporation. Trata-se da empresa fictícia cuja parafernália de acessórios é utilizada nos desenhos animados da Looney Tunes. Que, tal como a DC, é propriedade da Warner Bros;
*O painel do primeiro tomo da saga onde o Superman devolve um balão a um menino americano enquanto segura com a outra mão o globo do Daily Planet rende homenagem à icónica capa de Superman nº1 (1939);


A homenagem feita a Superman nº1 (em cima).
*A miniaturização de Estalinegrado é uma referência à Cidade Engarrafada de Kandor, elemento recorrente nas história do Homem de Aço durante a chamada Idade de Prata dos quadradinhos;
*Entre os vários itens em exposição no Museu do Superman avultam as estátuas dos seus pais biológicos, cuja estética corresponde a uma mescla daquelas que tradicionalmente os representavam na Fortaleza da Solidão com o célebre monumento Operário e Camponesa, esculpido por Vera Mukhina em 1937 para a participação soviética na Exibição de Artes, Ofícios e Ciências patente em Paris nesse mesmo ano. Outra das relíquias a integrar o referido acervo museológico é o  lendário Supermobile. Veículo construído pelo herói numa história datada de 1978 em que ele ficara temporariamente privado dos seus superpoderes, em consequência da explosão de um sol vermelho;

O Supermobile em ação contra Amazo.
*Oliver Queen (persona civil do Arqueiro Verde no universo canónico da DC) e Iris West (interesse amoroso do Flash Barry Allen no mesmo contexto) surgem retratados na história como funcionários do Daily Planet. O próprio Barry Allen é também referenciado por Iris como tendo chegado com duas horas de atraso à festa de despedida de Perry White, o agora aposentado editor do tabloide;
*Identificada como Devilpig, a estátua exposta na Batcaverna foi batizada com o pseudónimo com que o ilustrador Dave Johnson gosta por vezes de assinar as suas obras;
*A arquitetura do Palácio de Inverno do Superman é baseada na da sua Fortaleza da Solidão da Idade da Prata. O acesso às duas estruturas só era possível com recurso a uma gigantesca chave metálica que pesava várias toneladas. No interior do Palácio de Inverno, além dos destroços do Titanic, encontram-se expostas as estátuas de Darkseid e Krypto (o Super-cão), bem como a nave kryptoniana que trouxe Kal-El à Terra;
*No momento em que, no terceiro e último capítulo da história, o Homem de Aço discute com Brainiac a situação política dos EUA, uma cena em fundo mostra um grupo de manifestantes a tombarem um automóvel e um homem a fugir do caos instalado. Trata-se de uma homenagem à capa de Action Comics nº1, a histórica edição que, em junho de 1938, apresentou o Superman ao mundo;
*Pese embora a Ucrânia surja referenciada numa legenda como sendo parte integrante da Rússia em 1938, isso não corresponde à verdade. Antes da formação da União Soviética, em 1922, ambas eram nações independentes e, depois dessa data, adquiriram o estatuto de repúblicas constituintes da nova entidade geopolítica. Trata-se, portanto, de uma gafe histórica do autor;
*Informalmente creditado ao escritor britânico Grant Morrison, o final da saga contém alguns conceitos imaginados por Jerry Siegel em 1934 para explicar a origem do Superman. Nesse primeiro rascunho da história do herói, ele seria oriundo do futuro e teria sido enviado para o passado pelo seu pai, o último homem da Terra, com a missão de prevenir a extinção da Humanidade;
*Henry Cavill citou Red Son como uma das quatro obras capitais do Superman que influenciaram a sua interpretação em Man of Steel (2013);
*O visual e missões do Superman, Mulher-Maravilha e Batman no jogo de vídeo Injustice: Gods Among Us são baseados nas suas contrapartes de Red Son;

Henry Cavill em Man of Steel: um herói marxista?

Vale a pena ler?

Isso lá é coisa que se pergunte? É como perguntar a um cego se ele quer ver ou a um paralítico se ele gostaria de voltar a andar. Esta é, sem sombra de dúvida, uma das melhores histórias do Superman dadas à estampa este século. Fadada a ser um clássico e, por conseguinte, a ocupar lugar de destaque na memorabilia do herói.
Acham que estou a exagerar? Leiam até ao fim a minha análise e retirem as vossas próprias conclusões. Lembrem-se,  no entanto, que, ao cabo de quase 80 anos de aventuras e desventuras do Homem de Aço, não é fácil uma história sua surpreender-nos ao ponto que esta o faz.
Nunca fiz segredo do meu fascínio por dimensões paralelas e realidades alternativas. Quem não perde pitada do que por aqui vou publicando sabe bem quanto aprecio esses estimulantes exercícios de imaginação em que os nossos heróis de sempre são transpostos para contextos diferentes dos habituais. Poucos escritores da atualidade exibem, no entanto, tanta mestria na exploração dessas premissas inovadoras como Mark Millar.
Mesmo os que lhe regateiam elogios terão de reconhecer que lhe sobeja coragem para fazer abordagens arrojadas (e, não raro, polémicas) a personagens consagradas. Circunstância que consolida o seu estatuto de fabulista dos tempos modernos, com uma costela subversiva.
Da pena de Millar vêm saindo sagas memoráveis, algumas das quais já adaptadas ao cinema. Casos, por exemplo, de Guerra Civil e O Velho Logan (ambas da Marvel, ambas já aqui esmiuçadas). Mas antes delas Millar assinou este magistral épico onde o Superman é apresentado como nunca antes o tínhamos visto.

Uma nova ordem mundial sob a égide do Superman.
Todas as culturas dispõem de uma iconografia própria. Personagens e figuras reconhecíveis por qualquer indivíduo que delas faça parte. Ou até mesmo por quem lhes é estranho. Em qualquer dos casos, esses ícones, quais monstros sagrados, tendem a ser reverenciados e, portanto, são frequentemente vistos como intocáveis.
Poucas culturas conseguirão todavia globalizar as suas iconografias como a norte-americana. Lembro-me de ter lido algures que a principal exportação dos EUA são os sonhos. Começando, obviamente, pelo tão incensado sonho americano que, apesar de já ter conhecido melhores dias, nem por isso deixou de ser menos apetecível.
Nenhuma outra personagem melhor o metaforiza do que o Superman. Afinal, estamos a falar de um refugiado vindo das estrelas que encontrou guarida em terras do Tio Sam, tornando-se, a par dele, um dos símbolos maiores dos EUA.
No fundo, o Superman representa o que os EUA deveriam ser enquanto nação: poderosa, mas justa e compassiva. Mesmo dispondo dos meios para controlar o mundo, o herói escolhe não o fazer. E todos gostamos de acreditar que isso se deve ao facto de ele ter sido criado por um bondoso casal do Kansas, que o dotou de uma fibra moral tão forte como o metal que o cognomina.
Partindo desse pressuposto, Millar examina em Red Son como as coisas poderiam ter sido muito diferentes se a trajetória do herói tivesse sido outra.
Sem subverter o mito, a história coloca-o em perspetiva. De salvador, o Superman passa a tirano bem-intencionado. Com Luthor a assumir-se como libertador da Humanidade. Uma fascinante inversão de papéis que leva o leitor a questionar quem será afinal o verdadeiro vilão. Ou se haverá sequer um (exceto por Brainiac, que não sabe ser outra coisa).
Evocando a estética da antiga propaganda soviética, a arte de Dave Johnson dá um toque especial à trama, na qual todo um conjunto de personagens são devidamente trabalhadas. Mais importante do que tudo isso é, porém, a mensagem que ela encerra. E não me refiro apenas ao subtexto político suscetível de ser interpretado de múltiplas formas consoante a ideologia perfilhada pelo leitor. Se um conservador poderá ver na história uma alegoria para os perigos da estatização da sociedade, aos olhos de um liberal ela poderá ser um manifesto anti-imperialismo.
A essas leituras ideologicamente engajadas sobrepõe-se uma mensagem que lhes é transversal: a de que os indivíduos e as sociedades são definidos pelas escolhas que fazem. Podem nem sempre ser as mais acertadas, mas o importante é que sejam livres. Porque, à falta de um salvador semidivino na vida real,teremos de salvar-nos a (e de) nós próprios. É essa a grande lição de moral a retirar de Red Son.

Símbolo de esperança ou de opressão?