domingo, 23 de julho de 2017

ETERNOS: OTTO BINDER (1911-1974)


  Escreveu alguns dos títulos mais populares da Idade do Ouro e da Prata ao mesmo tempo que ajudava a criar um magote de personagens inesquecíveis. Apesar desses admiráveis pergaminhos, continua a ser um dos mais menosprezados autores da 9ª Arte. Apaixonado pela ficção científica, perfilhou teorias exóticas sobre as origens da Humanidade antes de sucumbir a uma tragédia familiar.

O mais novo dos seis filhos de um casal de imigrantes austríacos recém-chegados a terras do Tio Sam, Oscar Otto Binder nasceu a 26 de agosto de 1911 em Bessemer, pequena cidade do Michigan assim batizada em homenagem a Sir Henry Bessemer, engenheiro britânico do século XIX inventor do processo de fabrico do aço.
Devido às suas raízes familiares centro-europeias, Otto, tal como os irmãos, foi educado de acordo como os preceitos morais e religiosos do Luteranismo. Em 1922, quando se despedia da infância para embarcar na odisseia da puberdade, a sua família resolveu trocar a modorra de Bessemer pela azáfama de Chicago. Foi na grande metrópole do Illinois que Otto e o seu irmão favorito, Earl, se deixaram seduzir pelo charme kitsch das historietas de ficção científica. Género que, naquela época e sobretudo entre os mais jovens, gozava de uma crescente popularidade.
Em vez de, como seria de esperar, contribuir para o esmorecimento da paixão assolapada dos manos Binder pela ficção científica, a passagem do tempo teve o condão de espevitá-la ainda mais. Levando-os mesmo a aventurarem-se na escrita de narrativas desse jaez. Sob o pseudónimo Eando Binder (acrónimo de "E and O", composto pelas respetivas iniciais),  Earl e Otto conseguiram vender a sua primeira produção literária conjunta em 1930. Intitulada The First Martian (O Primeiro Marciano), seria dada à estampa dois anos depois em Amazing Stories, o primeiro - e, provavelmente, o mais duradouro - magazine exclusivamente dedicado à ficção científica, que vinha sendo editado desde a primavera de 1926.

A história I, Robot, de Eando Binder, em destaque na capa desta edição de 1939
do magazine de ficção científica Amazing Stories.
Cientes de que essa atividade, por si só, não lhes garantiria a sobrevivência económica, os irmãos Binder exerceram paralelamente vários outros ofícios. Enquanto Earl calejava as mãos numa fundição na periferia de Chicago, Otto rumou a Nova Iorque. Fê-lo na qualidade de agente literário ao serviço de Otis Kline, afamado autor de novelas de ficção científica - conhecido, também, pela sua amizade (e pretensa parceria literária) com Edgar Rice Burroughs, o criador de Tarzan - , recentemente convertido em editor e empresário.
Durante o curto período como agente literário, Otto ficou essencialmente encarregue da divulgação das obras do então desconhecido Robert E. Howard, "pai" de Conan, o Bárbaro e do subgénero conhecido como Espada & Feitiçaria.
A partida do benjamim do clã Binder para a Cidade Que Nunca Dorme fora precedida pela dissolução da sua sociedade com Earl. Mesmo sendo agora o único autor das estórias de ficção científica que ia vendendo a magazines e outras publicações especializadas, como a Thrilling Wonder Stories e a Amazing (para a qual desenvolveu a cultuada série de Adam Link, o robô senciente criado à imagem e semelhança dos humanos), continuou a assiná-las com o velho pseudónimo que incluía a inicial do irmão.

Em Adam Link Otto Binder teve a sua
  piéce de résistance no campo da ficção científica.
Sopravam ventos benfazejos na vida de Otto Binder até que os nefastos efeitos da Grande Depressão que devorava o coração da economia estadunidense obrigaram Otis Kline a cerrar as portas da sua editora, apenas um ano e meio decorrido sobre a sua fundação.
Vendo-se repentinamente privado da sua principal fonte de rendimento, em 1939, por sugestão de outro dos seus irmãos, Jack Binder (autor do Daredevil original), Otto resolveu tentar a sua sorte na fervilhante indústria dos comics. Pela mão de Jack, que há um par de anos lá vinha trabalhando como ilustrador, Otto juntou-se, assim, ao staff do estúdio Harry Chesler, um dos muitos que, no dealbar da Idade do Ouro, supriam as necessidades das cada vez mais numerosas editoras de banda desenhada.
Seria, no entanto, meteórica a passagem de Otto Binder pelo estúdio de Harry Chesler. Cerca de um ano depois de lá ter entrado pela primeira vez, estava já de malas aviadas para a Fawcett Comics, a recém-fundada subsidiária da Fawcett Publications.
Num primeiro momento, Otto Binder assumiu as histórias de personagens secundárias da Fawcett, como Bulletman, El Carim ou Golden Arrow. A sua criatividade e desenvoltura não passaram, porém, despercebidas ao editor Ed Herron que, em meados de 1941, lhe confiou os destinos da estrela da companhia: Captain Marvel (vulgo Shazam; não confundir, portanto, com o seu homónimo da Casa das Ideias).
Capitalizando o sucesso da série de ação real do Mortal Mais Poderoso da Terra (a primeira adaptação ao grande ecrã de um super-herói) que, por esses dias, atraía milhares de espectadores de todas as idades aos cinemas, a novela pulp The Return of the Scorpion foi, ainda em 1941, a primeira história do Capitão Marvel com o cunho de Otto Binder. Registando-se no ano seguinte o seu debute oficial como argumentista da série periódica do herói, em Captain Marvel Adventures nº9.

A edição que marcou a estreia de Otto Binder
como argumentista do Mortal Mais Poderoso da Terra.
Por conta da pródiga imaginação de Otto Binder, o título mensal do Capitão Marvel ganharia novo elã, destronando mesmo o Superman no pódio das vendas. Enquanto a coqueluche da DC Comics era assim inapelavelmente ofuscada (embora inconfessado, seria esse um dos verdadeiros motivos que, anos depois, levariam a Editora das Lendas a processar a Fawcett por um alegado plágio), o brilho de Otto Binder era mais intenso a cada dia que passava. E não tardou a irradiar um conjunto de spin-offs estrelados pelos igualmente icónicos Captain Marvel Jr. e Mary Marvel, esta última criada a meias por Otto Binder e o artista Marc Swayze, em dezembro de 1942.
Aqui ficam alguns números impressionantes que ilustram bem a envergadura da obra de Otto Binder ao serviço da Fawcett Comics: entre 1941 e 1953, ele escreveu 986 das 1743 histórias do Capitão Marvel, correspondendo, grosso modo, a 60% do total das que foram publicadas durante esse período. Ao longo do qual Otto concebeu, em articulação com C.C, Beck (o lendário criador do Mortal Mais Poderoso da Terra) e Marc Swayze, um magote de personagens que se tornariam emblemáticas.
Além da já citada Mary Marvel, Black Adam (Adão Negro), Uncle Dudley (Tio Marvel), Tawky Tawny (o tigre falante conhecido entre o público lusófono como Senhor Malhado) e os pérfidos filhos adolescentes do Doutor Sivana - Sivana Jr. e Georgia Sivana - completavam esse rol de coadjuvantes de luxo. Refira-se, a este propósito, que, em 1953, quando já se adivinhava o canto do cisne da Fawcett Comics, Otto Binder e C.C. Beck viram frustrada a sua intenção de produzir uma tira de jornal protagonizada pelo Senhor Malhado.



Mary Marvel (cima) e Adão Negro foram duas das mais icónicas criações
 de Otto Binder para a Fawcett Comics.
Ao imprimir nos enredos da Família Marvel a lógica dos sonhos, Otto Binder cumpria na perfeição os desejos de qualquer criança sem, contudo, infantilizar em demasia as suas narrativas. Exorbitando frequentemente as fronteiras da imaginação, as aventuras dos discípulos do mago Shazam tanto podiam transportar os leitores para um conto de fadas como para um plano surreal. Foi, pois, essa dimensão onírica que fez de Captain Marvel Adventures um caso sério de popularidade, mobilizando, mês após mês, o interesse e a imaginação de milhares de leitores.



Tigres falantes e planetas vivos?
Nas histórias do Capitão Marvel saídas da pena de Otto Binder tudo era possível.
Mesmo após a extinção da Fawcett Comics, Otto Binder agora um escriba consagrado, continuou sem mãos a medir. Até finais de 1954 (ano em que assentou arraiais na DC Comics, com a qual vinha colaborando pontualmente desde 1948), desdobrou-se entre a Timely Comics e a Quality Comics*.
Para a primeira, Otto escreveu histórias do Capitão América, Príncipe Submarino e do Tocha Humana original**, ícones da Idade do Ouro e personagens de charneira daquela que seria a precursora da Marvel Comics. Sobrando-lhe ainda tempo e imaginação para participar na criação de The Whizzer (Ciclone) e All-Wiinners Squad (Esquadrão Vitorioso).
Já para  segunda, o seu trabalho consistiu em escrever algumas das suas séries periódicas mais bem-sucedidas, nomeadamente Blackhawk, Doll Man e Uncle Sam. Para não fugir à regra, foi ainda cocriador de Kid Eternity (Kid Eternidade) que, sem embargo, se converteria numa das figuras de proa da Quality Comics.
Há ainda a registar, durante esse ínterim que preludiou a sua transferência para a DC, algumas colaborações episódicas com a MLJ Comics (antecessora da Archie Comics), a Gold Key Comics (para qual criou Mighty Samson, um das personagens mais icónicas da editora) e com a EC Comics (onde voltou a escrever histórias de ficção científica).
Na DC, Otto Binder reencontrou um velho conhecido dos seus tempos na Thrilling Wonder Stories: o editor Mort Weisinger. Sob a sábia batuta de Weisinger, Otto, que nunca foi homem de ficar arrimado às glórias pretéritas, empreendeu nova fase seminal, que mudaria para sempre a mitologia do Superman.
Assim, ao longo de década e meia, de 1954 a 1969, Otto Binder assumiu sozinho o catálogo de títulos do Homem de Aço (no qual pontificavam os históricos Superman, Superboy e Action Comics), introduzindo neles um lote de personagens inéditas que logo se tornariam presença assídua nas aventuras do campeão de Metrópolis.

Otto Binder era um mestre do burlesco
que caracterizou a Idade da Prata dos comics.
Entre os conceitos que ajudou a desenvolver nesse contexto, avultavam - citando somente os mais emblemáticos - Supergirl, Brainiac, Bizarro e a Legião dos Super-Heróis. Se a participação de Otto Binder na conceção de Bizarro é por vezes contestada, é consensual que a versão mais conhecida do vilão é da sua autoria. Assim como outros elementos que, no decurso da Idade da Prata. se tornaram recorrentes nas aventuras do Superman. A saber: a Zona Fantasma, o relógio-sinalizador de Jimmy Olsen e a cidade engarrafada de Kandor, essa fascinante reminiscência da civilização kryptoniana.

Supergirl, uma das mais acarinhadas cocriações de Binder
 ao serviço da Editora das Lendas.
O estilo narrativo de Otto Binder correspondia, com efeito, ao epítome da Idade da Prata dos quadradinhos. Caracterizada, entre outros aspetos, pelos conflitos derivados da ansiedade das personagens e pelas tramas rocambolescas com reviravoltas a condizer. Não admira, portanto, que o trabalho de Otto Binder tenha feito escola, sendo emulado por muitos argumentistas da sua geração.
Mesmo depois de ter abandonado a DC por razões pessoais que mais adiante explanarei, Otto Binder não foi esquecido pelos seus pares. Quando, em 1972, foi publicada a primeira história do Capitão Marvel (entretanto renomeado de Shazam) com a chancela da Editora das Lendas, foi-lhe rendida uma singela homenagem. Desenhado pelo próprio C.C. Beck, Otto Binder surgia como um dos coadjuvantes do Mortal Mais Poderoso da Terra naquela edição histórica.
Ironicamente, a referida homenagem coincidiu com um dos períodos mais infaustos da vida de Otto Binder. Se na indústria dos comics trazia o sucesso e o prestígio à ilharga, fora dela a desdita fez-lhe marcação cerrada, sombreando-lhe os dias com as cores negras do fracasso e da tragédia.
No início dos anos 1960 - sem que daí adviesse prejuízo para o fenomenal trabalho que continuava a executar na DC - ,  Otto Binder foi cofundador e editor-chefe de Space World, um magazine de Astronomia. Vítima das fracas vendas, o projeto seria, porém , cancelado após 16 números, deixando Otto Binder em grandes apuros financeiros.
Apesar de ter hipotecado a própria casa e de ter desbaratado todas as suas poupanças, Otto continuava endividado até ao tutano. Não tendo, portanto, outro remédio se não adiar a sua reforma e o seu sonho  de se tornar escritor de ficção científica a tempo inteiro. O que não o impediu de dar largas à sua veia literária.

O falhanço de Space World deixou Otto Binder em maus lençóis.
Indefetível da controversa Teoria dos Astronautas Ancestrais, cujos postulados pseudocientíficos foram apresentados pela primeira vez em 1919 pelo escritor americano Charles Fort, Otto Binder foi o autor de dois livros dedicados ao assunto: Flying Saucers Are Watching Us (Os Discos Voadores Observam-nos, de 1968) e, em coautoria com Max Flindt, Mankind Child of Stars (Humanidade Filha das Estrelas, 1974). Ambas as obras serviram para Otto Binder sustentar a hipótese de a Humanidade ser uma espécie híbrida, resultado de experimentos de bioengenharia realizados por extraterrestres que visitaram o nosso planeta milénios atrás.

O primeiro dos dois livros de Otto Binder
dedicados à controversa Teoria dos Astronautas Ancestrais.
Crenças que nem a tragédia familiar sofrida anos antes conseguira abalar. Em 1967, a única filha do casal Binder (Mary, de apenas 14 anos) fora colhida mortalmente por um automóvel desgovernado à entrada da escola onde estudava.
Devastados, Otto e a esposa nunca recuperaram do desgosto. Enquanto ele afogava as mágoas na bebida, ela sufocava lentamente no abraço viscoso da depressão. Na viragem da década, já depois de Otto ter abandonado definitivamente a DC, o casal ainda ensaiou um novo começo fora de Nova Iorque. Uma fuga para a frente precocemente interrompida pelo falecimento da mulher.
Até ser fulminado por um ataque cardíaco em outubro de 1974 (escassos meses após o seu regresso a Nova Iorque), Otto Binder, apesar do espírito esmagado, devotou os últimos dias da sua vida à mais imorredoura das suas paixões: as histórias de ficção científica. Agora ao serviço da Pendulum Press, ganhava a vida a escrever adaptações aos quadradinhos de clássicos da literatura fantástica como Frankenstein e 20.000 Léguas Submarinas.
O reconhecimento, esse, seria tardio mas condigno. Em 2004, cumpridos trinta anos sobre o seu desaparecimento, o nome de Otto Binder seria inscrito no Will Eisner Hall of Fame. Seis anos antes de ser contemplado com um Bill Finger Award, galardão que, desde 2005, laureia (quase sempre a título póstumo) a nata dos escritores de banda desenhada.
Com menos pompa e circunstância, também os produtores de Supergirl não deixaram de homenagear o cocriador da Última Prima de Krypton. Otto Binder era o nome da ponte que, no episódio-piloto da série, a heroína de aço evita que seja destruída por um avião em queda.
Acredito, no entanto, que o maior tributo que poderá ser prestado a este gigante da Nona Arte consistirá na (re)descoberta da vastíssima obra que nos legou, e que merece ser reverenciada. Faço, por isso, votos para que esta minha modesta evocação de Otto Binder sirva esse propósito. A ele, o meu muito obrigado pelos momentos inesquecíveis que as suas histórias me proporcionaram. Sem elas,a minha infância teria sido decerto menos divertida e empolgante.

Otto Binder (1911-1974).
«O mérito é como os rios: quanto mais profundo, menos ruído faz.»
(George Halifax, estadista inglês do século XVII)

* http://bdmarveldc.blogspot.pt/2017/06/fabrica-de-mitos-quality-comics.html
** http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/11/herois-em-acao-tocha-humana.html


































sexta-feira, 7 de julho de 2017

HEROÍNAS EM AÇÃO: VAMPIRELLA


  Uma das mais antigas bad girls dos quadradinhos, foi também uma das primeiras a estrelar um filme em nome próprio. Inspirada numa diva da ficção científica, da sua itinerância editorial resultaram diferentes origens e uma radical mudança de visual. A sua missão, essa, perdura: caçar vampiros degenerados e outros predadores sobrenaturais da Humanidade.

Denominação original: Vampirella 
Licenciadora: Warren Publishing (1969-1983); Harris Publications (1991-2010); Dynamite Entertainment (2010 - Presente)
Criadores: Forrest J. Ackerman (história), Trina Robbins, Frank Frazetta e Tom Sutton (arte conceptual)
Primeira aparição: Vampirella nº1 (setembro de 1969)
Identidade civil: Nenhuma
Local de nascimento: Drakulon (Warren Publishing); Inferno (Harris Publications)
Parentes conhecidos: Lilith (mãe), Draculina, (irmã gémea), Madek (irmão), Magdalene (irmã) e Drago (meio-irmão)
Espécie: Vampiro
Ocupação: Agente secreta do Vaticano e atriz 
Base operacional: Móvel
Afiliações: Vaticano e Sofia Murray (ver Galeria de Coadjuvantes)
Armas, poderes e habilidades: Detentora de muitos dos poderes típicos dos vampiros mitológicos, o extenso cardápio de talentos sobrenaturais de Vampirella tem, contudo, sofrido variações no decurso dos anos. Entre aqueles que seguem imutáveis avultam desde logo as capacidades físicas amplificadas a níveis muito superiores aos humanos.
À superforça, Vampirella alia, assim, a supervelocidade e os sentidos aguçados. Enquanto a primeira lhe permite, por exemplo, usar a âncora de um navio para derrubar um helicóptero, é graças à segunda que aturde os seus oponentes ao assumir em combate a forma de um borrão em movimento. Além de uma visão noturna perfeita, Vampirella possui igualmente uma espécie de perceção extrassensorial que deteta a presença de seres e forças sobrenaturais.
Voar é outra das capacidades que a acompanham desde os seus primórdios. Variando, no entanto, os meios empregues para o fazer. Se na sua versão primordial a heroína se transformava num morcego, nas suas encarnações mais recentes apenas lhe brotam asas das costas.
Sobrevindo daí a sua presumível imortalidade, Vampirella dispõe de um fator de cura que não só lhe permite recuperar rapidamente mesmo de ferimentos profundos como a imuniza praticamente de todas as patologias e toxinas terrestres.

Vampirella é muito mais poderosa
do que os vampiros tradicionais,
Apesar de formidáveis, estes poderes clássicos empalidecem se comparados com alguns do que Vampirella exibe esporadicamente. A saber: telepatia, hipnotismo, transmorfismo, invisibilidade e até a capacidade de aceder a memórias alheias bebendo o sangue das suas vítimas
Menos consistente é, por outro lado, a sua capacidade de converter humanos em vampiros. Os mesmos humanos que, não raro, têm as suas vontades manipuladas pela influência hipnótica  de Vampirella exercida tanto pela sua voz melodiosa como pelo seu olhar mesmerizante.
Na sua exacerbada sensualidade Vampirella tem, naturalmente, outra das suas armas mais eficazes, sobretudo entre os descendentes de Adão. Em quem, de resto, a sua simples presença basta para induzir desejos libidinosos.
Convém, no entanto, sublinhar que todos estes talentos sobrenaturais podem ser drasticamente diminuídos em consequência da exaustão física de Vampirella, impondo-se nessa situação o consumo de sangue para retemperar forças. Funcionando dessa forma o precioso néctar mais como um tónico ou elixir terapêutico do que como um alimento.
Desenganem-se, porém, os que acreditam que Vampirella fica indefesa quando privada temporariamente das suas habilidades especiais. Ou não fosse ela uma exímia lutadora corpo a corpo, tendo já demonstrado também proficiência no manejo de armas de fogo. Motivos de sobra para justificar o seu estatuto de uma das mais poderosas super-heroínas da banda desenhada.

Quando ferida ou exausta,
Vampirella precisa beber sangue para se recuperar.
Fraquezas: Isenta pela sua fisiologia extraterrestre das tradicionais vulnerabilidades dos vampiros, Vampirella é imune aos efeitos da água benta, do alho, dos crucifixos e até da luz solar (pese embora prefira evitá-la). Segundo a própria revelou quando foi empalada pela Lança de Longino (artefacto sagrado que herdou o nome do centurião romano que o terá usado para perfurar o tórax de Jesus Cristo), a única forma de matá-la seria trespassar-lhe o coração.
No entanto, numa outra ocasião, Vampirella sobreviveu depois de ter tido o seu coração trespassado por uma flecha. Aparentemente, isso ficou a dever-se ao facto de ela ter removido o projétil a tempo de deixar o seu fator de cura atuar.
Graças ao soro especial desenvolvido por um dos seus aliados (ver Galeria de Coadjuvantes), Vampirella está também livre dos sintomas de abstinência de sangue que acometem os outros vampiros, compelindo-os a caçarem as suas presas por uma questão de sobrevivência.

Supõe-se que somente uma estaca
 cravada no coração poderá matar Vampirella.
Conceção: No auge da revolução sexual feminina que, em boa medida, ditou o frenético compasso da década de 1960, partiu de James Warren, fundador da Warren Publishing, a ideia de criar uma heroína representativa da mulher moderna e emancipada.
Estávamos em 1969, ainda na ressaca do chamado Verão do Amor e, no ano anterior, Barbarella - filme baseado na aventureira espacial criada em 1962 pelo escritor e ilustrador francês Jean-Claude Forest - consagrara a atriz Jane Fonda como um ícone sexual, abrindo assim caminho ao surgimento de personagens similares.
Influenciado pela estética erotizada de Barbarella, Forrest J. Ackerman, o lendário editor da Warren que nunca antes escrevera uma história, voluntariou-se para desenvolver um conceito com os atributos que o seu patrão tinha em mente.

Forrest J. Ackerman (1916-2008),
um dos "pais" de Vampirella.

Na sua versão primitiva, era frequente Vampirella
 ser retratada como uma aventureira espacial à imagem de Barbarella (cima).
A conceção de Vampirella resultou, todavia, de um consórcio criativo que, além de Ackerman, congregou também os artistas Frank Frazetta, Tom Sutton e Trina Robbins. Cabendo a esta última desenhar o (diminuto) figurino da personagem inspirado no visual insinuante das musas e ninfetas que, naquela época, perfumavam com a sua sensualidade as histórias de ficção científica. Dado o seu arrojo, o uniforme de Vampirella serviria, por sua vez, de modelo às indumentárias das bad girls ( assim definidas pela sua conduta violenta e pela sua ambiguidade moral) que, no arranque dos anos 1990, surgiram em catadupa na banda desenhada e no cinema. Sob vários aspetos, Vampirella pode, portanto, ser percecionada como uma precursora dessa tendência cultural cujas expressões perduram até hoje.
Outra originalidade subjacente ao processo criativo de Vampirella concerne à forma como o seu nome foi escolhido. Inserido numa lista composta por outras cinco  denominações sugestivas submetidas à apreciação dos visitantes da editora, "Vampirella" seria o mais votado, apesar da evidente proximidade fonética com Barbarella (ou, quiçá, por causa dela).
Certo é que Vampirella resistiu com elegância à passagem do tempo, chegando aos nossos dias com o seu charme e carisma praticamente intactos, malgrado algumas concessões recentes ao politicamente correto (ver Origem e evolução).


Witchblade (Image Comics) e Lady Death (Chaos Comics):
duas das bad girls dos ano 90 claramente influenciadas por Vampirella.
Histórico de publicação: À boleia do sucesso de Creepy e Eerie, em setembro de 1969 a Warren Publishing resolveu reforçar com Vampirella a sua linha de antologias de terror. O novo título diferenciava-se dos seus antecessores ao incluir histórias a solo da personagem que o apadrinhava.
Antes do seu encerramento, em março de 1983, foram publicados 112 números de Vampirella, a que se somam várias participações especiais da heroína em séries alheias. Foi, aliás, num desses crossovers que ela mediu pela primeira vez forças com Pantha (ver Galeria de Coadjuvantes), a outra diva do universo Warren.
Logo após a falência da Warren Publishing, no verão de 1983 a Harris Comics arrematou em leilão os seus principais ativos. Apesar de, em 1999, o antigo proprietário da Warren, no culminar de uma longa batalha jurídica, ter conseguido readquirir os direitos sobres os títulos Creepy e Eerie, a série estrelada por Vampirella continuou a ser a coqueluche da Harris Comics. Que, entre 1991 e 2007, a continuou a publicar, assim como um vasto repertório de minisséries e edições especiais.
Em março de 2010, a Dynamite Entertainment adquiriu os direitos de publicação de Vampirella e, logo em novembro desse ano, lançou uma nova série regular da heroína. Após um primeiro reboot em 2014, a série seria relançada no início de 2016, apresentando uma Vampirella vestida mais de acordo com os padrões estéticos do nosso século.

Uma Vampirella para o século XXI
 ou uma cedência ao politicamente correto?
Origem e evolução: A cada mudança de editora por parte de Vampirella correspondeu uma versão revista da sua história. E digo "revista" porque, a despeito da inclusão de elementos inovadores, estes misturavam-se sempre com os clássicos. Motivo pelo qual não é legítimo aludir a uma origem definitiva da personagem, mas antes às suas múltiplas declinações.
Fortemente influenciada, como já vimos, pela estética e erotismo de Barbarella, aquando da sua estreia sob os auspícios da Warren Publishing, Vampirella começou por ser apresentada como uma voluptuosa vampira alienígena de coração nobre proveniente de Drakulon. Neste exótico planeta alumiado por dois sóis corriam rios de sangue de onde os seus habitantes tiravam o sustento.
À medida que os rios escarlates iam secando devido à implosão de uma das estrelas gémeas, os Vampiri - assim se designavam os autóctones de Drakulon - iam definhando e perecendo aos milhares.
Já poucos sobreviventes restavam, de facto,  em Drakulon quando um grupo de astronautas terrestres se despenhou naquele mundo condenado. Enviada para investigar os estranhos visitantes, Vampirella, depois de por eles ter sido atacada, descobriu que lhes corria sangue nas veias. Na esperança de conseguir salvar a sua espécie da extinção iminente, Vampirella viajou então para a Terra aos comandos da nave acidentada.
Chegada ao nosso planeta, Vampirella foi obrigada a agir nas sombras após descobrir a proliferação de vampiros degenerados aparentados com a sua espécie, e que predavam os humanos. Decidiu então dedicar a sua energia a caçá-los, o que a colocaria em rota de colisão com Drácula, outro expatriado de Drakulon chegado séculos antes à Terra, assim iniciando uma sanguinolenta genealogia.


Drácula versus Vampirella: duelo sangrento entre sobreviventes de Drakulon.
Sem romper totalmente com esta narrativa pregressa, no início do anos 1990 a Harris Comics reformulá-la-ia de forma substancial. Já não uma vampira extraterrestre, Vampirella surgia agora como a filha pródiga de Lilith, a primeira esposa de Adão banida por Deus do Paraíso devido à sua recusa em submeter-se ao marido.
Exilada no Inferno por incontáveis eras, Lilith deu à luz milhares de demónios antes de, aparentemente, se arrepender dos seus pecados. Em busca de redenção, retornou ao Céu onde gerou dois filhos, Madek e Magdalene, que pretendia enviar para a Terra para combater as forças do Mal. Sucede que os gémeos foram precocemente corrompidos, obrigando Lilith a gerar Vampirella. Quando esta nasceu, os seus pérfidos irmãos implantaram-lhe falsas memórias que a induziram a acreditar ser originária do planeta Drakulon.
Este excerto da sua origem seria, também ele, objeto de revisão alguns anos mais tarde. Embora se tratasse de um sítio real, Drakulon não era um planeta, mas sim um território do próprio Inferno. Ficando aliás implícito que teria sido lá, e não no Céu, que Vampirella havia sido criada.
Numa revisitação posterior desta versão seriam finalmente reveladas as verdadeiras motivações de Lilith (entrementes morta e ressuscitada) quando decidiu gerar Vampirella. Não tinha sido o arrependimento a ditar as suas ações, mas sim a necessidade de criar uma arma viva para exterminar os vampiros, cuja existência enfraquecia o seu poder. Contrariamente ao que tinha sido sugerido até essa altura, apurou-se, também, que fora a própria Lilith a sugestionar Vampirella relativamente ao seu passado em Drakulon.
Quando passou a ter as suas histórias publicadas pela Dynamite Entertainment, Vampirella começou por ser uma aliada relutante de Drácula no combate a um inimigo comum, passando em seguida a trabalhar como agente secreta do Vaticano. Altura em que ganhou um novíssimo visual, assinalando a rutura com o insinuante figurino que fora a sua imagem de marca ao longo de quatro décadas e dela fizera um símbolo sexual.
Essa não foi, porém, a única mudança radical na vida de Vampirella. Recém-chegada ao nosso planeta, vive com o namorado lobisomem enquanto tenta conciliar o seu trabalho de investigadora do paranormal ao serviço da Santa Sé com o de atriz de filmes de terror, em Hollywood.

Sortilégios lunares de uma princesa das trevas.
Versões alternativas:

Com a chancela Anarchy Studio (linha de títulos manga da defunta Harris Comics), no ano 2000 foi lançada Vampi, série mensal protagonizada por uma versão futurista de Vampirella em busca de uma cura para o seu vampirismo. Além dos 25 números publicados foram lançadas em paralelo diversas minisséries e edições especiais baseadas nesse exercício de imaginação.
Catorze anos depois, já sob os auspícios da Dynamite Entertainment, foi dado à estampa Li'l Vampi, um volume especial que dava a conhecer as aventuras de uma Vampirella de palmo e meio empenhada em descobrir o motivo de monstros quererem destruir uma pequena cidade do Maine.

A versão futurista e manga de Vampirella
lançada pelos Anarchy Studios em 2000.

Galeria de coadjuvantes:

Lilith: Mãe de Vampirella e a primeira mulher criada por Deus. A sua história é narrada numa versão alternativa de Génesis, o primeiro tomo comum às Bíblias Hebraica e Cristã. Nele, ela surge descrita como tendo sido a esposa original de Adão - precedendo, portanto, Eva nesse papel - e a mãe dos demónios após o degredo a que foi condenada no Inferno devido à sua insubmissão perante o marido. Enviou Vampirella para a Terra a fim de salvaguardar o seu poder;

Lilith, a viciosa mãe de Vampirella.
Madek e Magdalene: Gémeos malignos irmãos de Vampirella. Foram eles quem, na versão revista da sua origem introduzida pela Harris Comics, lhe implantaram falsas memórias relacionadas com Drakulon;

Conrad Van Helsing: Cego e dotado de habilidades psíquicas, é um implacável caçador de vampiros. Seguia a peugada de Drácula quando encontrou pela primeira vez Vampirella, a quem tomou por uma concubina do Príncipe das Trevas, tentando, por isso, destruí-la;

Adam Van Helsing: Filho de Conrad Van Helsing e último descendente de uma linhagem ancestral de caçadores de vampiros, resolveu seguir as pisadas do pai tornando-se investigador do paranormal, atividade em que chegou a ser coadjuvado por Vampirella. Acreditava na boa índole da filha de Lilith e os dois viveram um fugaz idílio até ele ser assassinado por Nyx;

Nyx: Fruto da união profana entre Caos (o deus insano) e Lucrécia Bórgia (filha ilegítima do Papa Alexandre VI) é uma híbrida de mulher e demónio, ensinada desde o berço a odiar a Humanidade. Vive obcecada com a ideia de destruir Vampirella e tudo o que ela ama;

Pendragon / O Grande Mordecai: Antigo feiticeiro, ganha atualmente a vida com os seus espetáculos itinerantes de magia. Mantém uma relação paternalista com Vampirella e, nas antigas histórias da Warren, os dois costumavam viajar juntos à procura de ameaças sobrenaturais. Apesar dos seus conhecimentos de magia e das suas boas intenções, nem sempre age como um parceiro de aventuras confiável, uma vez que é frequente embriagar-se, adormecer ou perder-se. Vampirella é-lhe, no entanto, extremamente leal, pois vê-o como a única família que lhe resta;

Tyler Westron: Um físico que resgatou Vampirella após um acidente de aviação. Devido aos severos ferimentos sofridos pela heroína, Tyler teve de amputar-lhe as asas. Foi também ele o inventor do soro à base de sangue sintético que mantém Vampirella sob controlo;

Rainha de Copas: Outrora a Meretriz da Babilónia, o seu espírito infundiu-se magicamente com uma carta da Rainha de Copas. Desde então, sempre que uma mulher toca uma dessas cartas, transforma-se numa potencial hospedeira para esta lasciva entidade demoníaca. Deseja ardentemente ser desposada por Caos, o deus louco, e por isso recolhe corações humanos para o presentear.

A infame Rainha de Copas.

Sofia Murray: Uma jovem gótica de Seattle que sobreviveu a um ataque de La Fanu, uma vampira francesa contemporânea de Napoleão Bonaparte. Encontrou um propósito de vida ao lado de Vampirella, de quem se tornou amiga e adjunta na encarnação moderna da heroína inserta no Universo Dynamite Entertainment. 

Tristan: Atual namorado de Vampirella, é um lobisomem afável e inconformado com a sua licantropia;

Pantha: Originalmente uma transmorfa nativa de Drakulon, o planeta natal de Vampirella. Capaz de assumir a forma de uma pantera negra, a sua ferocidade suplantava, contudo, a da sua compatriota. Em histórias ulteriores passou a ser retratada como uma sacerdotisa do Antigo Egito condenada à imortalidade depois de ter matado e devorado a própria prole. Nem sempre conserva memórias do seu passado nas suas sucessivas reencarnações e tem na ambivalência moral um dos traços distintivos da sua personalidade. A sua relação com Vampirella oscila, portanto, entre a animosidade mútua e as alianças pontuais.

Pantha, a arquirrival de Vampirella.
Notas soltas:

*Apesar do clima tropical e do culto da sensualidade praticado no país do samba e do Carnaval,  em 1973 Vampirella chegou às bancas brasileiras mais agasalhada do que o habitual. Viviam-se os tempos da ditadura militar (1964-1985) e, em defesa dos valores conservadores sobre os quais o regime fora fundado, a primeira capa do título epónimo lançado pela Kultus foi censurada. Ao figurino original da heroína foi adicionado um top a fim de tentar garantir um mínimo de recato;
*Ainda por terras de Vera Cruz (onde, a exemplo de Portugal, a personagem continua pouco divulgada), terá sido durante uma viagem ao Brasil que Forrest J. Ackerman terá aproveitado o voo para idealizar Vampirella. Anos mais tarde, era já a Harris Comics detentora dos direitos da personagem, um ilustrador brasileiro ficou em segundo lugar num concurso internacional organizado pela editora para selecionar o artista para uma edição comemorativa de Vampirella

O visual retocado de Vampirella na sua estreia brasileira.
*Vampirella tem uma gémea loura de sua graça Draculina. Desconhecida da generalidade dos leitores, a personagem em questão fez as vezes de narradora numa estória da irmã publicada em Vampirella nº2 (1969), eclipsando-se em seguida. Depois de quase quatro décadas de obscurantismo, Draculina ressurgiu na atual continuidade de Vampirella na Dynamite Entertainment;
*Remonta a 1976 o primeiro projeto para uma adaptação cinematográfica de Vampirella. Nesse ano, a companhia britânica Hammer Films anunciou a sua intenção de produzir uma longa-metragem da heroína, chegando mesmo a circular algum material publicitário. A ideia, porém, nunca ganhou forma nem substância, sendo preciso esperar mais uma vintena de anos até aquela que foi uma das primeiras bad girls da banda desenhada ganhar vida não no grande, mas no pequeno ecrã (vide texto seguinte).


Após décadas de anonimato, Draculina, a gémea loura de Vampirella,
disputa o proscénio à irmã.
Noutros segmentos culturais: 

Em 1996, Vampirella tornou-se uma das primeiras super-heroínas a ter direito a um filme em nome próprio. Dirigido por Jim Wynorski e com a ex-modelo Talisa Soto no papel principal, Vampirella (cujo elenco incluía ainda o ex-vocalista dos The Who, Roger Daltrey), foi produzido no âmbito de um projeto do canal por cabo Showtime que tinha como objetivo a revitalização de dois géneros decadentes: terror e ficção científica.
Coincidentemente, nesse mesmo ano estreou nos cinemas de praticamente todo o mundo Barb Wire, película epónima baseada noutra das mais carismáticas bad girls da banda desenhada - propriedade da Dark Horse Comics - , a quem Pamela Anderson emprestou as suas sumptuosas curvas. Num caso como no outro, o resultado não poderia ter sido, porém, mais dececionante, com as duas produções a serem arrasadas pela crítica e a deixarem os fãs com os cabelos em pé.

Um exemplo acabado de trash movie
 renegado pelo próprio realizador.
O caso de Vampirella foi, no entanto, mais crítico, ao ponto de o seu realizador se arrepender até hoje de o ter feito feito. Após uma produção anárquica marcada por constrangimentos financeiros (o orçamento disponível era de apenas um milhão de dólares), divergências criativas (Wynorski discordou da escolha de Talisa Soto), noitadas nos casinos de Las Vegas (cidade escolhida para acolher as filmagens) e até por furtos (alguém roubou sistematicamente dinheiro do set), o filme (que chegou a ter uma sequela prevista) seria rapidamente votado ao ostracismo por via do seu lançamento direto no circuito de vídeo e do repúdio dos fãs. Uma clamorosa indignidade para com uma personagem que figura até hoje na 35ª posição da lista das cem mulheres mais sensuais dos quadradinhos elaborada pelo Comics Buyer's Guide, e que há muito tem lugar cativo na iconografia popular.

Talisa Soto interpretou uma Vampirella sem chama.






sexta-feira, 23 de junho de 2017

FÁBRICA DE MITOS: QUALITY COMICS


  Reflexo da hiperatividade do seu fundador, foi uma das mais prolíficas editoras da Idade de Ouro dos comics. Influenciou sobremaneira o género super-heroico, acompanhando-o, porém, no seu inexorável declínio. Votada a um imerecido esquecimento, o oportunismo da concorrência ajudou a manter vivo parte do seu fascinante legado.

Uma era de maravilhas e mistérios



Imagine o estimado leitor que é um arqueólogo e que o seu maior sonho consiste em reconstruir o esqueleto de um dinossauro raro. Para executar tão complexa operação necessitaria não só de identificar os vestígios da sua passagem como de proceder à cuidadosa escavação dos fósseis. Mesmo que a sorte lhe sorrisse e os encontrasse em perfeito estado de conservação, teria sempre de certificar-se de que aquelas ossadas pertenciam, de facto, ao animal que motivou a sua demanda, e não a um espécime aparentado.
Cumpridas todas essas etapas, seria bem possível que lhe faltasse pelo menos um osso. Sabendo de antemão que este, à semelhança da peça de um qualquer quebra-cabeças, por mais pequeno que fosse, poderia fazer toda a diferença.
Diante do esqueleto incompleto daquele resquício de um mundo há muito perdido nos rincões do tempo, seriam decerto inúmeras as dúvidas a assaltar-lhe o espírito e a mente. Desde logo as circunstâncias da morte daquela exótica criatura. Ter-se-ia ficado a dever a causas naturais? Ou teria, ao invés, sido resultado do ataque de um qualquer predador?


Vem esta analogia jurássica a propósito da significativa dificuldade em documentar o Big Bang criativo a que os historiadores da Nona Arte convencionaram designar de Idade de Ouro da Banda Desenhada. Sendo esta usualmente balizada pelo lapso de tempo compreendido entre 1938 (ano do debute de um certo Homem de Aço) e 1956, e atendendo à plêiade de editoras que pontificaram durante esse período (algumas deles verdadeiros fogos-fátuos cujo fulgor se extinguiu sem deixar rastro), percebe-se a razão dessa dificuldade. Robustecida, ademais, pelo facto de muitos dos intérpretes dessa época mirífica já não se encontrarem entre nós.


À falta dos seus testemunhos em discurso direto, restam, pois, as raras entrevistas por eles concedidas em vida. Ou, em derradeira instância, as suas obras. Pressupondo, claro, que estas terão sido conservadas ou, pelo menos, devidamente catalogadas. Algo que, para grande consternação dos arqueólogos da Nona Arte como este que vos escreve, nem sempre se verificou.
Se no caso de editoras como a Marvel e a DC, cuja atividade tem sido contínua desde esses tempos áureos, a sua história vem sendo documentada internamente - e até, pontualmente, dada à estampa sob a forma de imponentes compêndios - outras houve que, mercê de circunstâncias diversas, ficaram parcial ou totalmente sepultadas sob as areias da memória, adensando dessa forma o mistério em seu redor.


Não se tratando de um enigma imperscrutável, há, contudo, ainda muito por descobrir acerca da história da Quality Comics. Tanto mais que datam apenas do início da década de 70 do século transato os primeiros estudos (conduzidos por Jim Steranko, lenda viva dos comics) sobre aquela que foi uma das precursoras da Idade do Ouro. E que, sob a pátina do imerecido oblívio a que foi votada, deixou um riquíssimo património cultural e artístico que urge revisitar, porquanto foi apenas parcialmente resgatado por duas das suas antigas concorrentes. Sim, leram bem. Ao contrário do que é voz corrente, a DC Comics não foi a única a tirar proveito do infortúnio da Quality, acabando, ironicamente, por ajudar a preservar o seu legado. Mais adiante, será revelado o nome da segunda necrófaga.


Foi, portanto, com as minhas empoeiradas vestes de Indiana Jones amador que me lancei à aventura de exumar o escuso passado da Quality Comics. A muito custo, trouxe à luz do dia um punhado de achados arqueológicos e segredos surpreendentes que, sem mais delongas, faço questão de compartilhar com quem me lê. Na esperança de assim dar a conhecer alguns aspetos menos conhecidos da história de uma editora lendária com a qual os aficionados da Nona Arte têm, mesmo sem o saberem, um enorme débito de gratidão.
Venha daí comigo nesta emocionante viagem ao passado e permita que lhe apresente alguns dos alquimistas dos quadradinhos que, em tempos plúmbeos, douraram a imaginação de toda uma geração com as suas receitas de fantasia.

Segredos de uma editora lendária

Recheada de segredos e originalidades, a história da Quality Comics confunde-se com a do seu fundador, em quem teve aliás, o seu alfa e o seu ómega. Neto de um abastado empresário do ramo imobiliário, filho de um lente de Matemática e com uma árvore genealógica com raízes na Guerra da Independência dos EUA, Everett M. Arnold viera ao mundo na primavera de 1899 em Providence, a pitoresca capital do estado norte-americano do Rhode Island.
Do avô paterno, Arnold herdou o apurado faro para o negócio; da infância, a alcunha que faria as vezes do nome próprio que desde tenra idade aprendera a detestar: Busy (irrequieto, em tradução livre). Ganhara-a por conta da sua personalidade frenética que, a fazer fé nos relatos de amigos e familiares, o impedia de manter-se parado no mesmo sítio por mais do que alguns minutos.
Valeu-lhe, pois, o desporto para extravasar parte desse superávite energético. Aquando da sua passagem pela Universidade de Brown (onde o pai lecionara e de onde ele sairia diplomado em História), Busy distinguiu-se como guarda-redes na respetiva equipa de hóquei no gelo. Extremamente competitivo, consta que terá, em certa ocasião, desafiado um atleta olímpico para uma corrida, da qual, contrariando todas as probabilidades, terá saído vencedor. Lenda alimentada ao longo dos anos por Dick Arnold, seu filho e ele próprio um  ex-maratonista.

Busy Arnold fotografado em 1941 ao lado da escritora Gwen Hanson num clube noturno.
Somente uma beldade para conseguir reter o irrequieto fundador da Quality Comics.
Chegado o momento de transpor esse seu constante desejo de superação para a pista de obstáculos que é a vida, Busy Arnold, uma vez concluídos os estudos superiores em 1921, partiu à descoberta do mundo na metrópole que o encapsula: Nova Iorque. Na Grande Maçã, tirando certamente proveito da sua proverbial loquacidade, encetou uma meritória carreira como vendedor antes de se tornar um bem-sucedido empresário da indústria gráfica, numa altura em que esta se encontrava em franca expansão.
Devendo, por conseguinte, ser encarada como uma extensão natural deste seu último mister a sua subsequentes aposta na publicação de histórias aos quadradinhos. Material que, importa observar, nada sugere que Busy, leitor voraz, apreciasse sobremaneira; tampouco lhe era conhecida especial afeição pelas artes.
O que terá, então, motivado alguém com este perfil a fundar uma editora de banda desenhada? De tão prosaica, a resposta a essa pergunta resume-se numa palavra: lucro!
Perante a crescente popularidade de que gozavam os comics a meio da década de 1930, Busy Arnold sinalizou um filão que urgia explorar antes que outros se lhe antecipassem. São, de facto, muitos os paralelismos que podem ser traçados entre o boom das histórias aos quadradinhos e a Corrida ao Ouro que, menos de um século antes, levara garimpeiros de todo o país a rumarem à Califórnia em busca da pepita dourada que lhes poderia para sempre mudar as vidas.
Viviam-se os anos de chumbo da Grande Depressão que precedeu a entrada dos EUA na II Guerra Mundial e o sempre azougado Busy Arnold, com a visão que o caracterizava, intuiu que não faltaria quem procurasse nesse tipo de publicações um escape barato e sem contraindicações conhecidas às agruras do quotidiano.
Muito provavelmente com o duplo obejtivo de medir o pulso ao mercado e de adquirir know-how, em 1935 a gráfica de Busy Arnold começou a assegurar a impressão de alguns dos títulos da Comics Magazine Company (posteriormente renomeada Centaur Publications). Confiante no êxito do empreendimento, um par de anos bastaram para Busy decidir avançar com a criação da sua própria editora.
Da parceria estratégica estabelecida em 1937 entre Busy Arnold e uma tríade de estúdios independentes (McNaught Syndicate, Frank J. Markey Syndicate, e Register and Tribune Syndicate) nasceu o consórcio Comics Favorites, Inc., que teve em Features Funnies o seu título inaugural.

Feature Funnies nº1 (outubro de 1937).
Em linha com a práxis editorial da época, a neófita série republicava a cores antigas tiras de jornal, aqui e ali misturadas com histórias inéditas. Parte das quais eram fornecidas à la carte pelo Eisner & Iger, um dos mais requisitados estúdios por onde, nos primórdios da indústria dos quadradinhos, passaram alguns dos mais talentosos artistas freelancers.
Habituado a estar sempre um passo à frente da concorrência, Busy Arnold terá considerado pouco prudente prolongar por muito mais tempo essa dependência em relação a terceiros. Para dirimi-la, precisava de começar, o quanto antes, a produzir os seus próprios conteúdos. O que viria verificar-se logo em Features Funnies nº3 (edição datada de dezembro de 1937). Tornando-se, assim, a Comics Favorites a segunda editora a publicar material original, poucas semanas depois de a National Allied Publications (uma das empresas que originariam a DC Comics) o ter começado a fazer.
Ano capital na história da Quality Comics, 1939 começou por ficar marcado pela compra dos interesses da McNaught e da Markey (seu antigos sócios) por parte de Busy Arnold e dos proprietários do Register & Tribune Syndicate. Dando dessa forma a Comics Favorites lugar à Comics Magazine, Inc., doravante responsável pela publicação da linha de títulos com a nova chancela da Quality Comics. Residindo neste ponto uma das suas mais interessantes originalidades, visto que esse nunca foi, legalmente, o nome da editora. Não obstante, foi através dessa denominação informal que ela se notabilizou entre os leitores e que se imortalizou na história da Nona Arte.
Em tempos de recessão económica e de profunda crise social, Busy Arnold sabia bem que as pessoas pensariam duas ou mais vezes antes de gastarem cada centavo arduamente ganho, pelo que teria de aliciá-las com material superior àquele que a concorrência tinha para oferecer. Quality Comics seria, portanto, o selo de qualidade que acompanharia cada um dos títulos editados sob os auspícios da Comics Magazine, tendo sido Crack Comics nº5 (setembro de 1940) o primeiro volume a ostentá-lo no respetivo frontispício.



O  icónico selo da Quality Comics e
 a primeira edição a ostentá-lo sob o respetivo logótipo.
Ainda nesse louco ano de 1939 a sede da Quality Comics foi transferida para Stamford, no estado do Connecticut, para onde Busy Arnold se mudara entretanto com a família. Alguns estudiosos da Idade do Ouro sugerem, aliás, que terá sido ao epíteto dessa cidade - Quality City (Cidade de Qualidade) - que Busy terá ido beber inspiração na hora de crismar o seu novo projeto.
Foi também por essa altura que a Quality Comics redefiniu a sua política editorial, passando progressivamente a conceder maior primazia às séries estreladas por super-heróis (conceito cada vez mais em voga naqueles dias), em detrimento das histórias policiais e de terror que, até aí, eram hegemónicas no seu cardápio de publicações.




Três dos títulos mais emblemáticos da Quality Comics.
Plastic Man, Kid Eternity e Phantom Lady (conhecidos entre nós, respetivamente, como Homem-Borracha, Kid Eternidade e Lady Fantasma) foram, a par do intrépido aviador Blackhawk (Falcão Negro, que teria, inclusivamente, direito a uma série cinematográfica de baixo orçamento em 1952), algumas das novas coqueluches da Quality Comics. À qual, em 1942, coube igualmente a honra de publicar pela primeira vez em formato magazine as histórias de The Spirit. Até então, os fãs do detetive mascarado idealizado dois anos antes por Will Eisner apenas tinham podido acompanhar as suas aventuras através de tiras de jornal ou de ocasionais suplementos dominicais distribuídos com os tabloides.
Numa jogada que apenas pode ser classificada como brilhante, Busy Arnold socorreu-se de todo o seu poder persuasivo para convencer Eisner a trocar o seu prestigiado estúdio pela Quality Comics. No culminar de um meticuloso processo negocial com vista a salvaguardar os seus direitos autorais, o criador de Spirit tornar-se-ia o segundo pilar do clamoroso sucesso da editora ao longo de toda a década de 1940. Se Busy Arnold era o homem de negócios, Eisner, nomeado editor-chefe, seria de ora em diante o cérebro da Quality. Tanto mais que, tal como todos os que o antecederam e lhe sucederam no cargo, foi fiel-depositário da total confiança de Busy Arnold, que sempre se manteve à margem das decisões editoriais.


Will Eisner (cima) e The Spirit:
dois reforços de peso para Quality Comics
Eisner não foi, no entanto, o único virtuoso da Nona Arte a reforçar a equipa criativa da Quality Comics. Jack Cole (criador de Plastic Man), Lou Fine ( antigo"fantasma" do próprio Eisner) e Nick Cardy (ver perfil neste blogue) fizeram também parte do escol de artistas que influenciaram o género super-heroico, contribuindo sobremaneira para a sua popularidade.
Alguns dos seus trabalhos acabariam todavia por perder-se devido à renitência de Busy Arnold em restituir a arte original aos respetivos autores, receando que eles a revendessem. Havendo mesmo quem jure ter visto Busy Arnold a rasgar alguns desenhos originais. Circunstância que em nada ajudou à preservação do magnífico património cultural da Quality Comics.
Mesmo desfalcada de algumas das suas vedetas em consequência do esforço de guerra (o próprio Eisner seria chamado a cumprir serviço militar), a Quality Comics continuou a prosperar até à viragem da década de 1950. Prosperidade materializada numa profusão de títulos e personagens que, como mais adiante se perceberá, despertavam a cobiça das editoras rivais.
Com o advento da televisão e a revitalização dos livros de bolso, os primeiros anos da década de 50 trouxeram consigo o irrefreável declínio dos super-heróis. Acentuado, em boa medida, pela vilipendiação  de que foram alvo, a partir de 1948, pelo polémico psiquiatra germânico Fredric Wertham, autor do igualmente controverso livro Sedução dos Inocentes (1954).

A revista masculina Classic Photography
foi uma das últimas iniciativas editoriais da Quality.
Ironicamente, a Quality Comics sobreviveu à ferocidade da concorrência, aos horrores de uma conflagração mundial e a uma torpe cruzada conservadora, mas não às dificuldades logísticas.
Numa altura em que as vendas da editora já caíam a pique, a American News Company, sua distribuidora de longa data, declarou falência. Sem ela, a Quality Comics não tinha como fazer chegar as suas publicações aos pontos de venda. Ainda recorreu aos serviços de outra empresa nos meses que precederam a sua extinção, mas a rede de distribuição manteve-se deficiente, causando o esmorecimento dos leitores que se lhe tinham mantido fiéis.
Desvanecido o fulgor dourado de outros tempos, e quando soavam já os tétricos acordes do seu réquiem, a editora fundada por Busy Arnold, numa última e desesperada tentativa para escapar ao seu fatídico destino, apostou as fichas que lhe restavam no ecletismo das suas publicações, chegando mesmo a lançar um pastiche da Playboy intitulado Classic Photography. Estratégia que, contudo, logrou apenas adiar o inevitável. Em 1956, ao fim de quase duas décadas de intensa atividade, a Quality Comics cerrou portas, para não mais as reabrir.
Resignado, também Busy Arnold rumou à Califórnia para gozar a sua merecida reforma, mantendo-se afastado do mundo dos negócios até ao fim dos seus dias. Escrevia-se assim o epitáfio simbólico da Idade do Ouro.

Legado em mãos alheias

Após a extinção da Quality Comics, a maior parte das suas personagens e das suas séries periódicas foram adquiridas pela DC Comics, que optou, no entanto, por dar continuidade apenas a quatro delas: Blackhawk, G.I. Combat, Robin Hood Tales e Heart Throbs (esta última com mais de 100 edições publicadas sob a égide da Editora das Lendas).
Dentre os antigos ícones da Quality Comics revividos ao longo das décadas seguintes pela DC, Plastic Man foi, indubitavelmente, o mais acarinhado pelos fãs. Muitos dos quais tiveram, como eu, a sua infância marcada pela série animada que o teve como protagonista entre 1979 e 1981.
Até à unificação do Multiverso DC ditada pelos eventos de Crise nas Infinitas Terras, as personagens oriundas da Quality Comics ficaram acomodadas em duas realidades separadas: Terra-Quality e Terra-X.
Enquanto na primeira a História seguiu um curso idêntico ao das restantes Terras, já a segunda divergia radicalmente delas. Nesse dimensão paralela, a II Guerra Mundial prolongou-se até 1973. Foi este o subterfúgio encontrado para justificar a atividade dos Freedom Fighters (Combatentes da Liberdade) vários anos transcorridos sobre o término do conflito. Situação que seria, contudo, objeto de revisão na continuidade pós-Crise.

Os Combatentes da Liberdade em ação durante Crise nas Infinitas Terras.
Além da DC, também a AC (sigla de Americomics) adquiriu e republicou muito do material original da Quality protagonizado por personagens menos conhecidas e deixando de fora os super-heróis.
Conforme ratifica a ausência de registo na Biblioteca do Congresso dos EUA, nenhuma delas renovou, no entanto, os direitos sobre essa propriedade intelectual, relegando-a dessa forma para o domínio público. Significando isto que, na prática, qualquer pessoa poderá utilizar esse valioso espólio.
Algures por aí existe, portanto, uma espécie de Arca Perdida a transbordar de tesouros de papel à espera de serem (re)apresentados ao mundo por um qualquer Indiana Jones. Enquanto isso não acontece, resta-nos venerar o magnífico legado da Quality Comics, sem o qual a história do género super-heroico seria certamente menos rica.

ÍCONES QUALITY

No sentido dos ponteiros do relógio temos:
Captain Triumph (Capitão Triunfo);  Phantom Lady  (Lady Fantasma);
Blackhawk  (Falcão Negro);
Ray, Miss América e  Plastic Man (Homem-Borracha).

ÍCONES QUALITY II

Pela mesma ordem da imagem anterior temos:
Max Mercury  (Max Mercúrio); Tio Sam (dos Combatentes da Liberdade);
Jester;
Wildfire (Chama); Torchy e  Firebrand (Labareda) 

Agradecimento muito especial ao meu bom amigo Emerson Andrade que, com a sua costumeira bonomia, acedeu a conceber estas duas fabulosas montagens para servirem de suporte gráfico ao meu artigo. Para ele, um abraço do tamanho do oceano que nos aparta.
































































o.
Concluído os estudos, Arnold mudou-se em 1921 para Nova Iorque.