quinta-feira, 28 de setembro de 2017

FÁBRICA DE MITOS: FAWCETT COMICS



  Antes de ter a sua luz roubada pelas manigâncias de uma rival ofuscada, foi astro-rei na constelação de editoras cuja cintilação dourou os primórdios da indústria dos quadradinhos. Vítima do próprio sucesso e da cobiça alheia, a monumentalidade do seu espólio continua a fascinar os aficionados da 9ª Arte.

Preâmbulo

Por contraste com o panorama atual do mercado norte-americano de quadradinhos, sufocado pela hegemonia da Marvel e da DC, no excitante período que os historiadores da 9ª Arte convencionaram designar Idade de Ouro da banda desenhada (1938-1950), uma pletora de editoras disputavam entre si as preferências dos leitores. De igual modo, conquanto fosse o mais popular à época, o género super-heroico era tão-somente um dos muitos que, mês após mês, faziam as delícias de miúdos e graúdos.
Fiction House, Quality Comics*, Timely Comics e National Comics (estas últimas, antepassadas da Marvel e da DC, respetivamente) foram alguns dos expoentes criativos que, em contraciclo com a Grande Depressão, mais contribuíram para o desenvolvimento da incipiente indústria dos comics.
Nesse firmamento reluzente havia, no entanto, uma estrela a brilhar com maior intensidade do que as restantes, ao ponto de ofuscá-las. Se muitas das suas congéneres acabariam, eventualmente, por soçobrar nas borrascas de um mercado volátil, a Fawcett Comics foi, ironicamente, vítima do próprio sucesso.


Super-heróis, contos policiais e romances adolescentes
 eram três dos  géneros mais apreciados
 na Idade de Ouro da banda desenhada.
Como mais adiante se perceberá, essa não seria, porém, a única ironia a marcar a fulgurante trajetória dessa lendária companhia que conquistou uma legião de fãs e deu ao mundo um dos seus mais formidáveis e carismáticos heróis: o Capitão Marvel (vulgo Shazam).
Acusado de ser um plágio do Superman, o Mortal Mais Poderoso da Terra estaria no epicentro de uma longa e rocambolesca batalha jurídica cujo desfecho macularia indelevelmente essa página debruada a ouro da história da 9ª Arte. Uma página que encerra ainda inúmeros segredos e mistérios por desvelar. Sobre os quais, na minha qualidade de arqueólogo amador, aqui vou procurando derramar alguma luz.
Aperte o cinto, caro leitor, pois este artigo será o seu passaporte para mais uma emocionante jornada ao passado. Prepare-se para revisitar uma época de maior inocência e glamour em que as fábricas de mitos, alimentadas apenas pela imaginação dos seus obreiros, laboravam a todo o vapor, trucidando por vezes sonhos e sonhadores.

Reveses da fortuna

A fascinante história da Fawcett Comics começou a ser escrita quase um século atrás. Mais precisamente, em 1919. Nesse ano, um oficial veterano da I Guerra Mundial chamado Wilford Hamilton Fawcett (carinhosamente apodado de "Capitão Billy" pelos seus antigos camaradas de armas) regressou ao seu Minnesota natal para trabalhar como repórter policial num tabloide de Minneapolis. Biscate temporário que exerceu apenas até reunir as condições necessárias à abertura do próprio negócio.
Ambicioso, Wilford pretendia tirar proveito da sua experiência prévia com o boletim militar Stars and Stripes, no qual colaborara como redator durante os anos em que fora um G.I. Joe. Usando essa publicação como modelo, em outubro de 1919 o futuro patriarca do poderoso clã Fawcett lançou o icónico Captain Billy's Whiz Bang. Um almanaque humorístico recheado de anedotas e cartunes satíricos, cujo título combinava a alcunha castrense do seu autor com a designação informal de um projétil de artilharia de pequeno calibre muito utilizado pelo Exército estadunidense durante a Grande Guerra.
Destinado sobretudo a ex-combatentes e viajantes, Captain Billy's Whiz Bang depressa se converteria num fenómeno de sucesso a nível mundial. Chegando a ter, no seu auge, uma circulação mensal de 425 mil exemplares.


Wilford Fawcett (cima)
e o seu Captain Billy's Whiz Bang.
Estava assim colocada a primeira pedra de um vasto império editorial que abrangia revistas, magazines e livros de bolso. Ao longo das duas décadas subsequentes, a Fawcett Publications prosperaria,  fazendo do seu líder uma das personalidades mais abastadas e influentes da sociedade norte-americana.
O bom e velho Capitão Billy não viveria, contudo, tempo suficiente para testemunhar os reveses da fortuna da sua companhia.
Subsidiária da Fawcett Publications, a Fawcett Comics foi fundada em finais de 1940, escassos meses após o falecimento de Wilford, em fevereiro desse mesmo ano. Empenhados em honrar o legado paterno, os quatro filhos do fundador prosseguiram a estratégia de expansão por ele iniciada na década anterior, que, logo em 1934, motivara a transferência da sede do conglomerada do Minnesota para Nova Iorque.
Atento à onda de euforia em redor dos super-heróis que, por aqueles dias, varria os EUA de costa a costa, ainda em 1939, Roscoe Kent Fawcett confiara a dois dos seus colaboradores a missão de conceberem uma personagem com esse perfil. "Deem-me um Superman! Mas façam dele um garoto de 10 ou 12 anos!", exigiu o benjamim do clã, dando assim o mote para o ingresso da Fawcett Comics no fervilhante mercados dos quadradinhos.
Seguindo à risca as orientações fornecidas pelo patrão, o escritor Bill Parker e o ilustrador Charles Clarence Beck criaram um pastiche do Superman (lançado cerca de um ano antes pela National Comics), com essa notável originalidade que se revelaria crucial para o seu êxito: em vez de um adulto, o herói tinha como alter-ego um pré-adolescente chamado Billy Batson.
Surtindo o efeito desejado, esse elemento inovador fomentaria um sentimento de identificação entre os leitores desse segmento etário - que os estudos de mercado apontavam como predominante na audiência das histórias com super-heróis - e a novel personagem.

Em articulação com o escritor Bill Parker,
C.C. Beck foi um dos "pais" do Mortal Mais Poderoso da Terra.
Não obstante a sua estreia oficial remontar a fevereiro de 1940, nas páginas de Whiz Comics nº2, o Capitão Marvel (Captain Marvel, no original) protagonizara, poucos meses antes, o único volume produzido de Thrill Comics. Ainda um protótipo, nessa sua primeira aparição oficiosa, o herói atendia pelo nome de Captain Thunder - nomenclatura que seria fugazmente recuperada em 1974, aquando da sua incorporação no Universo DC.
Humor e fantasia foram os dois principais ingredientes inclusos na receita para o sucesso quase instantâneo do Capitão Marvel. Divertidas, as suas historietas - mormente quando passaram a sair da genial pena de Otto Binder**- tinham o condão de cativar leitores de todas as idades. À medida que crescia a sua popularidade, um só título deixou de ser suficiente para acomodá-las. Assim, ao longo de toda a Idade do Ouro, o Mortal Mais Poderoso da Terra desdobrou-se por Captain Marvel Adventures, Master Comics, America's Greatest Comics e, claro, pela clássica Whiz Comics.


A estreia do Capitão Marvel deu-se em Whiz Comics nº2 (1940).
A reboque do retumbante êxito da sua personagem de charneira, a Fawcett Comics não demorou a lançar uma igualmente bem-sucedida franquia. Reunindo todos os heróis detentores dos poderes concedidos pelo Mago Shazam, a Família Marvel era composta por Capitão Marvel Jr. (que teve em Elvis Presley o seu fã nº1), Mary Marvel, Tio Marvel, Tenentes Marvel e até um patusco Coelho Marvel de sua graça Hoppy (batizado de Juca, no Brasil).

Família Marvel, um clã sob o signo do sucesso.
Pese embora tivesse no Capitão Marvel o seu indisputado campeão de vendas - em meados da década de 1940, Adventures of Captain Marvel tinha uma circulação média mensal de 1,4 milhões de exemplares - o contingente super-heroico da Fawcett Comics não se restringia à Família Marvel. Personagens como Captain Midnight, Bulletman, Nyoka, the Jungle Girl e Ibis, the Invincible granjearam também apreciável sucesso e notoriedade durante o mesmo período.
Era de, facto, no ecletismo do seu cardápio editorial que a Fawcett Comics tinha a sua pedra angular. Contrariamente ao que se verificou em algumas das suas concorrentes, a forte aposta nos super-heróis em momento algum foi feita em prejuízo de outros géneros igualmente populares à época.
Histórias de guerra, Westerns e contos de terror ajudaram também a alavancar as vendas da editora para patamares invejáveis. Proeza a que não foi decerto alheia a superior qualidade do seu capital humano.





Três outros títulos emblemáticos
da Fawcett Comics.
Até à extinção da Fawcett Comics em 1953 - ditada, em idêntica medida, pela sua derrota na batalha judicial que a vinha opondo à National Comics e pelo acentuado declínio do género super-heroico no pós-guerra - por lá desfilaram nomes que se tornariam lendas vivas da 9ª Arte. Além dos já citados Otto Binder e C.C. Beck, também Jack Kirby, Joe Simon e George Tuska fizeram parte do escol de escritores e artistas cujo virtuosismo ajudou a fazer da Fawcett Comics uma referência incontornável na história da banda desenhada.
Apesar da glória efémera da Fawcett Comics, o tempo e os fãs, esses juízes supremos, encarregaram-se de lhe fazer a justiça que os tribunais lhe sonegaram. O que não impediu, ainda assim, que algumas das suas criações mais admiráveis caíssem num imerecido esquecimento, ou que fossem parar às mãos de quem sempre as cobiçara.
Através da leitura do texto seguinte, ficarão a conhecer os meandros de um intrincado processo jurídico que ainda hoje suscita controvérsia. E que, pelas suas repercussões, se reveste de suma importância no estudo da Idade de Ouro dos quadradinhos.

«J'accuse!»

Menos de dois anos decorridos sobre o seu debute, o Capitão Marvel era, como já vimos, a coqueluche da Fawcett Comics. Estatuto tanto mais robustecido pelo facto de, logo em 1941, se ter tornado o primeiro super-herói a ser adaptado ao grande ecrã.
Protagonizado por Tom Tyler (que, anos mais tarde, interpretaria também o Fantasma) e produzido pela Republic Pictures, o folhetim de 12 episódios a preto branco Adventures of Captain Marvel atraiu milhões de espectadores às salas de cinema. Objeto de culto até aos dias de hoje, constitui também uma peça essencial na memorabilia da Idade do Ouro.
Mercê das suas cifras astronómicas, a meio da década de 1940, o Capitão Marvel era não apenas o Mortal Mais Poderoso da Terra mas também o super-herói mais popular em terras do Tio Sam. Façanha que fazia dele o epítome da pujança de uma indústria que parecia adejar sobre a conjuntura económica adversa decorrente da Grande Depressão.
De facto, à medida que a sombra do Capitão Marvel se agigantava, eram muitos os seus rivais que se eclipsavam. Entre eles, a pièce de résistance da National Comics. Mais forte do que uma locomotiva e mais rápido do que uma bala, nem o Superman conseguia travar a meteórica ascensão do Mortal Mais Poderoso da Terra. Acabando mesmo destronado por ele no pódio da popularidade.
O futuro adivinhava-se risonho
 para o Capitão Marvel e o pequeno Billy Batson.
Pondo em prática o velho aforismo de que o ataque é a melhor defesa, a National Comics intentou judicialmente contra a Fawcett Comics, acusando-a de ter plagiado o seu campeão de vendas.
Importa clarificar, a este propósito, que o Capitão Marvel não foi o primeiro super-herói (tão-pouco a primeira personagem da Fawcett Comics) a ser visado por uma acusação desse cariz por parte da National Comics.
Com efeito, em 1939 a Detective Comics e a sua associada Superman Inc. (de cuja fusão resultaria mais tarde a National Comics) haviam processado a Fox Publications por plágio. Em causa esteve Wonder Man, criação de Will Eisner nesse mesmo ano que, alegadamente, emulava o conceito desenvolvido por Jerry Siegel e Joe Shuster. Essa seria, aliás, a primeira infração de copyright documentada na história da 9ª Arte. À luz desse precedente, a National Comics levaria a cabo, daí em diante, uma vigorosa defesa das suas propriedades intelectuais.

Wonder Man foi o primeiro plágio reconhecido do Superman.
No ano seguinte seria a vez de Master Man - recém-licenciado pela Fawcett Comics - ter as suas aventuras prematuramente interrompidas por ordem judicial.  Num caso como no outro, os tribunais deram provimento às acusações de plágio apresentadas pela National Comics, obrigando desse modo as referidas editoras a suspenderem de imediato a publicação das personagens transgressoras.
Para isso muito contribuiu a circunstância de, em bom rigor, ninguém saber definir com precisão o conceito de super-herói. No limite, qualquer justiceiro fantasiado poderia ser considerado uma cópia deliberada do Superman, considerado, para todos os efeitos, o arquétipo super-heroico. Isto apesar de algumas das suas idiossincrasias definidoras serem preexistentes em diversas personagens emanadas da cultura pulp. À guisa de exemplo, tal como o Homem de Aço, também o Fantasma ou o Besouro Verde possuíam identidades secretas e usavam trajes coloridos para combater o crime e salvar inocentes.
Face à ausência de melhor critério, a aferição do original e da presumível contrafação consistiu simplesmente na comparação básica. Entre as similaridades detetadas entre o Superman e o Capitão Marvel destacava-se, por exemplo, o poder de voo comum a ambos.
Sucede que, na verdade, o Homem de Aço adquirira essa capacidade já após o início do processo - até aí, limitava-se a pular bem alto. Verificando-se o mesmo no que tangia à existência de um cientista careca como seu arqui-inimigo (o Doutor Sivana precedeu Lex Luthor), assim como à introdução do Superboy - contraparte juvenil do Superman surgida em resposta ao Capitão Marvel Jr.
A origem mágica dos poderes do Capitão Marvel e a ausência de um interesse amoroso nas suas histórias serviu, em contrapartida, para diferenciá-lo do Último Filho de Krypton. Que já por essa altura namoriscava com Lois Lane, a mais afoita das repórteres. Profissão comum, de resto, a Clark Kent e Billy Batson - identidades civis, respetivamente, do Superman e do Capitão Marvel.

Plágio ou mera semelhança?
Conforme se percebe, eram, pois, quase tantas as semelhanças quanto as diferenças entre as duas personagens. O que, num primeiro momento, motivaria uma sentença surpreendente.
Malgrado o zelo demonstrado relativamente à sua propriedade intelectual, a National Comics seria, ironicamente, vítima do seu descaso. Ficou comprovado em tribunal que várias publicações do Superman tinham sido lançadas sem acautelar os respetivos direitos de licenciamento.
Numa sentença da qual nem o próprio Rei Salomão desdenharia, o juiz considerou que o Capitão Marvel era, efetivamente, um plágio do Superman, mas que a National Comics também havia sido negligente na salvaguarda da sua personagem.
Ao não ser obrigada a cessar de imediato a publicação da sua personagem, a Fawcett Comics saiu, para todos os efeitos, vencedora da primeira batalha de uma guerra jurídica que se prolongaria por doze anos.
Inconformada com o veredito desfavorável, a National Comics recorreu para um tribunal de segunda instância. Após consecutivas reviravoltas, estipulou-se por fim que cada uma das editoras deveria proceder a uma meticulosa comparação.
No entendimento do juiz, só assim se poderia averiguar objetivamente o escopo do suposto plágio. Significando isto que, na prática, haveria necessidade de comparar e justapor cada quadradinho passível de corroborá-lo ou refutá-lo.

Capitão Marvel versus Superman:
um confronto titânico iniciado na barra dos tribunais
e que continua sem vencedor definido.
Antevendo uma longa e dispendiosa litigância - que, no melhor dos cenários, resultaria numa vitória pírrica para qualquer uma das partes envolvidas - a Fawcett Comics preferiu negociar um acordo extrajudicial com a National Comics. Na base dessa decisão esteve o significativo decréscimo de vendas dos títulos estrelados pelo Capitão Marvel. Consequência, essencialmente, da fracassada tentativa de conciliar as suas histórias com elementos retirados dos contos de terror, subtraindo dessa forma a diversão que as haviam tornado tão populares.
Fechados os termos do acordo entre as duas licenciadoras, a Fawcett Comics comprometeu-se a pagar uma choruda indemnização à rival - 400 mil dólares - e a extinguir a sua linha de super-heróis com efeitos imediatos. Ficando, contudo, desobrigada de assumir publicamente o plágio que de que era acusada.
Salvo pelo Coelho Marvel, cujos direitos de publicação haviam sido entretanto adquiridos pela Charlton Comics, as restantes personagens da Fawcett Comics ficaram presas num limbo. Situação da qual a Marvel Comics tiraria proveito em 1967 ao registar o seu próprio Capitão Marvel.
Quando, em 1972, a DC Comics adquiriu os direitos sobre as personagens outrora propriedade da Fawcett Comics, viu-se desse modo obrigada a renomear o Mortal Mais Poderoso da Terra. Após várias propostas que não colheram, em 1987 o herói passaria a ser oficialmente denominado Shazam. Sem, contudo, jamais conseguir recuperar o seu fulgor de outrora que fizera dele um ídolo de multidões e um ícone da cultura popular.
Mas isso são contas de outro rosário a serem desfiadas num próximo artigo da minha lavra...

In Memoriam: Fawcett Comics (1940-1953).


*http://bdmarveldc.blogspot.pt/2017/06/fabrica-de-mitos-quality-comics.html
**http://bdmarveldc.blogspot.pt/2017/07/eternos-otto-binder-1911-1974.html


Agradecimento muito especial ao meu bom amigo Emerson Andrade que, com a sua costumeira bonomia, executou a belíssima composição gráfica que serve de ilustração principal ao presente artigo. Para ele, um abraço do tamanho do oceano que nos aparta.


































quarta-feira, 6 de setembro de 2017

GALERIA DE VILÕES: BARÃO ZEMO


  Último representante de uma infame linhagem de aristocratas germânicos, do pai herdou o título nobiliárquico e o ódio visceral pelo Capitão América. O seu altruísmo distorcido levou-o, porém, a fundar os Thuderbolts, coletivo heroico com um segredo tão sórdido como o passado do seu líder. 

Denominação original: Baron Zemo
Licenciadora: Marvel Comics
Criadores: Tony Isabella/Roy Thomas (história) e Sal Buscema (arte conceptual)
Estreia (como Fénix): Captain America Vol.1 nº168 (Dezembro de 1973)
Estreia (como Barão Zemo): Captain America Vol.1 nº275 (Novembro de 1982)
Identidade civil: Helmut J. Zemo
Local de nascimento: Leipzig, Alemanha
Nacionalidade: Alemã
Parentes conhecidos: Heirinch e Hilda Zemo (pais, falecidos); Heike Zemo/Baronesa (esposa presumivelmente falecida) e demais antepassados da linhagem Zemo (ver Dinastia Maldita)
Ocupação: Engenheiro, aventureiro e terrorista internacional
Base operacional: Seguindo uma tradição fundada pelo avô paterno, Helmut Zemo operava, inicialmente, a partir do seu centenário castelo familiar, no leste da Alemanha. Seguiram-se, contudo, anos de itinerância que o levaram a diferentes latitudes do hemisfério setentrional, designadamente México e Nova Iorque. Até se fixar por fim na capital da Bagália (nação insular fictícia cuja população é, quase exclusivamente, composta por malfeitores), usando desde então a imponente Torre Zemo como centro nevrálgico das suas atividades subversivas.
Afiliações: Atual membro do Conselho Superior da HIDRA e financiador do Império Secreto, Zemo liderou outrora os Mestres do Terror e os Thunderbolts (vide respetivos prontuários infra)
Armas, poderes e habilidades: Zemo compensa a ausência de capacidades sobre-humanas com uma apreciável gama de recursos que, embora mais comezinhos, são quanto basta para fazer dele um dos supervilões mais cotados do Universo Marvel.
Menos genial e inventivo do que o seu defunto progenitor - que, ao longo da vida, colecionou patentes científicas - o atual Barão Zemo é ainda assim dono de um intelecto superior. Especialista em engenharia reversa, é também um exímio estratega e um manipulador nato. Se o primeiro atributo lhe permite tirar proveito de tecnologia alheia, este último é uma das suas imagens de marca.
Sob a influência de Zemo numerosos indivíduos bem intencionados foram já induzidos por ele a cometer toda a espécie de atrocidades. Carismático, é sempre fortíssimo o ascendente que o vilão exerce sobre aqueles que o rodeiam. Algo que ficou, aliás, bem patente no filme Capitão América: Guerra Civil (ver Noutros Media).
No ápice da forma física, Helmut Zemo possui uma compleição equivalente à de um atleta olímpico. É, no entanto, muito mais velho do que aparenta. Sobrevindo da toma regular do chamado Composto X - soro milagroso desenvolvido pelo seu pai - a extraordinária vitalidade por si exibida.
Esgrimista de classe mundial, Zemo tem na sua espada de adamantium uma extensão natural do seu corpo em cenários de combate mano a mano, conquanto seja igualmente destro no manuseamento de armas de fogo. Além do famigerado Adesivo X - outra das criações paternas - , de vários raios desintegradores e dispositivos de controlo mental, na sofisticada parafernália tecnológica de Zemo avulta ainda uma tiara psíquica que o vilão costuma acoplar no seu capuz a fim de se proteger de ataques telepáticos.
Nas gemas alienígenas de que espoliou Rocha Lunar- sua ex-subordinada e concubina - o Barão Zemo tem, incontestavelmente, as armas mais poderosas do seu arsenal. Graças a elas, o vilão consegue levitar, ampliar a sua força, desmaterializar-se e até viajar através do hiperespaço. Justificando-se assim plenamente o honroso 40º lugar que o Barão Zemo ocupa na lista dos 100 Maiores Vilões dos Quadradinhos organizada pela plataforma digital de entretenimento IGN.

Zemo preparado para a guerra com a sua espada de adamantium
 e as gemas surripiadas a Rocha Lunar.

Histórico de publicação

A despeito dos seus pergaminhos familiares, o debute de Helmut Zemo foi pouco promissor. Ou não tivesse ele encetado a sua carreira criminal como um vilão genérico e potencialmente descartável chamado Fénix (Phoenix, no original).
Facto pouco conhecido, foi, com efeito, sob esta persona que, em dezembro de 1973, Helmut Zemo se deu a conhecer aos leitores de Captain America nº168. Saído meses antes da imaginação de Tony Isabella, Roy Thomas e Sal Buscema, o seu processo de afirmação dentro do Universo Marvel foi particularmente moroso. Tendo o momento de viragem ocorrido quase uma década depois quando, em Capitain America nº275 (novembro de 1982), Helmut assumiu por fim o título de Barão Zemo, dando dessa forma continuidade ao sinistro legado paterno.

Fénix foi a primeira persona criminosa
 de Helmut Zemo.
Foi nesta edição de Captain America
que o Barão Zemo moderno (em baixo)
 fez a sua estreia oficial.


Consolidado o seu estatuto de vilão de referência ao longo da década de 1980, no início da seguinte o Barão Zemo demonstrou a sua multidimensionalidade ao fundar o coletivo heroico Thunderbolts. À semelhança do que sucedera com Magneto poucos anos antes, Zemo, mercê da sua ambivalência moral e de um certo altruísmo distorcido, passou de vilão a herói apenas para voltar a fazer o percurso inverso.
Vale a pena lembrar que, durante a sua fase heroica (que se prolongou mesmo após o desmantelamento dos Thunderbolts), Zemo procurou genuinamente retratar-se de alguns dos atos ignóbeis que havia cometido no passado. Contudo, a descoberta de que Bucky Barnes - o antigo sidekick do Capitão América presumivelmente morto pelo seu pai nos últimos dias da 2ª Guerra Mundial - se encontrava, afinal, vivo e de boa saúde, fez com que a faceta maligna de Zemo prevalecesse uma vez mais. Realidade aparentemente irreversível, conforme atestam as suas participações em algumas das sagas mais recentes da Casa das Ideias, designadamente no polémico Secret Empire (lançado este ano nos EUA e ainda inédito no universo lusófono).

Dinastia maldita

Com raízes na época medieval, a árvore genealógica de Helmut Zemo conta uma história de poder e ganância, mas também de coragem e patriotismo.
Tudo começou no longínquo ano de 1480 em Zeulniz, uma pequena vila alemã. Assediado por uma horda de saqueadores eslavos, o povoado foi salvo pela valentia de Harbin Zemo. Munido apenas de uma espada, este modesto funcionário público responsável pela proteção do celeiro comunitário desbaratou sozinho os invasores
Os ecos da façanha chegaram à sala do trono e o Imperador nomeou Harbin Zemo Barão de Zeulniz. Título nobiliárquico que seria daí em diante transmitido de pai para filho, fazendo perdurar até aos nossos dias a infame dinastia Zemo. Cuja linha sucessória, assente na primogenitura masculina, é a seguinte:

*Harbin Zemo: o 1º Barão Zemo e fundador da dinastia. Apesar do ato de bravura que lhe valeu a condição aristocrática, depressa se tornaria um déspota sanguinário. Morreu de velhice em 1503;
*Hademar Zemo: o 2º Barão Zemo, filho de Harbin, e o mais pusilânime  de toda a linhagem. A sua fraqueza ditaria que fosse morto às mãos da sua guarda pessoal, numa conjura encabeçada por Heller Zemo, o seu filho de apenas 12 anos de idade;
*Heller Zemo: o 3º Barão Zemo, filho de Hademar, e o mais progressista dos Zemos;
*Herbert Zemo: o 4º Barão Zemo, filho de Heller, e um orgulhoso guerreiro colecionador de glórias e inimigos. Assassinado pelos próprios generais;
*Helmuth Zemo: o 5º Barão Zemo, filho de Heller. Assassinado pelo Barão Zemo moderno durante uma das suas viagens no tempo;
*Hackett Zemo: o 6º Barão Zemo, filho de Helmuth. Quase matou o atual Barão Zemo quando este monitorizava a sua atividade por volta de 1710;
*Hartwig Zemo: o 7º Barão Zemo, filho de Hackett. Morto em combate quando participava na Guerra dos Sete Anos (1756-1763);
*Hilliard Zemo: o 8º Barão Zemo, filho de Hartwig;
*Hoffman Zemo: o 9º Barão Zemo, filho de Hilliard;
*Hobart Zemo: o 10º Barão Zemo, filho de Hoffman. Morto às mãos de camponeses amotinados durante as revoltas que se seguiram à proibição do socialismo em terras germânicas decretada pelo Imperador Guilherme I;
*Herman Zemo: o 11º Barão Zemo, filho de Hobart e avô do atual Barão Zemo. Combateu os Aliados durante a I Guerra Mundial, causando-lhes numerosas baixas com a sua própria fórmula do terrível gás mostarda;
*Heinrich Zemo: o 12º Barão Zemo, filho de Herman e pai do atual detentor do título. Um dos maiores cientistas ao serviço de Hitler durante a II Guerra Mundial, tornou-se arqui-inimigo do Capitão América, tendo sido responsável, na ponta final do conflito, pela presumível morte do herói e de Bucky Barnes, seu adjunto juvenil;
*Helmut J. Zemo: o 13º e atual Barão Zemo, filho de Heinrich. A sua dramática história é resumida no texto seguinte.

Helmut Zemo descende de uma longa linhagem varonil.

Origem

Único descendente conhecido de um aristocrata germânico que era também uma das mais prodigiosas mentes científicas ao serviço do 3º Reich, Helmut Zemo soube-se desde muito cedo predestinado à grandeza e à perversidade.
Nascido em meados da década de 1930 em Leipzig, no leste da Alemanha. Helmut passou parte da sua juventude em Berlim. Enquanto o pai, Heinrich Zemo, inventava armas de destruição em massa para os nazis, Helmut desenvolveu, durante esse período, uma paixão secreta por comics, filmes e outros produtos culturais norte-americanos.
Embora venerado pela família e pelos seus correligionários, Heinrich Zemo era profundamente odiado pelas potências aliadas. Sentimento que se estenderia ao seus próprios compatriotas após a vexatória derrota que lhe foi imposta pelo Capitão América e pelo Comando Selvagem*.
Temendo pela sua segurança e dos seus entes queridos, Heinrich, entretanto celebrizado como Barão Zemo, começou a usar um capuz que lhe cobria integralmente o rosto.
Pouco tempo depois de ter criado o famigerado Adesivo X (uma supercola impossível de remover por qualquer processo conhecido na época), o Barão Zemo enfrentou pela primeira vez o Capitão América, empenhado em impedir que a substância fosse usada contra as tropas aliadas.
Atingido pelo escudo do herói no calor da refrega, Zemo caiu dentro de uma vasilha contendo Adesivo X. Apesar de ter sobrevivido ao incidente, o vilão não mais conseguiria remover o capuz e a roupa que usava naquele dia. Consequentemente, passaria a ser alimentado por via intravenosa até ao fim da vida.

O Barão Zemo clássico
 foi uma criação de Stan Lee e Jack Kirby,
 cuja estreia ocorreu em The Avengers nº6 (1964).
Cada vez mais demencial, Heinrich fez da mulher e do filho os seus bodes expiatórios, molestando-os constantemente. Por contraste com a mãe - que ajudaria o Capitão América a travar um dos sórdidos planos do marido - Helmut manteve-se sempre leal ao pai. Lealdade que não seria de todo recompensada.
Procurado por crimes de guerra, em 1945 (pouco depois de ter, aparentemente, causado a morte do Capitão América e Bucky), o Barão Zemo fugiu da Alemanha e buscou refúgio nas profundezas da floresta amazónica. Deixando para trás o filho e a pátria reduzida a escombros fumegantes.
Na prolongada ausência paterna, Helmut, determinado em levar uma vida normal, viajou pelo mundo e formou-se em engenharia. Incapaz de escapar à sua herança familiar, o jovem Zemo seria, no entanto, convocado pelo pai ao seu reino amazónico. Onde testemunharia a forma brutal como o seu progenitor chacinou os indígenas sublevados e o ouviu gabar-se pela morte do Cidadão V, um agente especial britânico durante a 2ª Guerra Mundial.
Entretanto, o ressurgimento do Capitão América motivaria uma série de confrontos entre o Barão Zemo (agora coadjuvado pelos seus Mestres do Terror) e os Vingadores (liderados pelo Sentinela da Liberdade).
Após a morte acidental do pai durante um desses recontros, Helmut culpou o Capitão América pela destruição da sua família. Replicando alguns dos aparatos mais mortíferos do arsenal paterno, Helmut adotou a identidade de Fénix para se vingar do herói.
Horrivelmente desfigurado após mergulhar, tal como o pai, numa tina de Adesivo X, Helmut reapareceria pouco tempo depois como o novo Barão Zemo.
Sem que o seu ódio figadal pelo Capitão América desse sinais de apaziguamento, o vilão reuniu aquela que foi, até à data, a maior e mais poderosa formação dos Mestres do Terror.

O novo Barão Zemo
 exibe o símbolo do seu némesis.
Naquele que foi um dos pontos mais altos da sua carreira criminosa, o Barão Zemo e os seus apaniguados invadiram a Mansão dos Vingadores, de onde só a muito custo seriam desalojados pelos heróis.
A uma tentativa gorada de ressuscitar o seu pai com recurso às Pedras de Sangue, seguiu-se o enlace do Barão Zemo com a terrorista internacional conhecida como Baronesa. O casal acabaria, contudo, capturado pelo Capitão América depois de ter raptado várias crianças negligenciadas para formar uma família instantânea.
Quando, no final da épica batalha que os opôs à entidade conhecida como Devastador (Massacre, no Brasil), os Vingadores e o Quarteto Fantástico foram dados como mortos, Zemo, assim privado dos seus arqui-inimigos, interiorizou finalmente que o pai se tinha autodestruído.
Mudando o foco da vingança para a busca do poder, Zemo converteu o núcleo duro dos Mestres do Terror num coletivo heroico apresentado ao mundo como Thunderbolts. Num ato de mórbida ironia, Zemo escolheu para si o título de Cidadão V, o herói britânico assassinado pelo seu pai durante a 2ª Guerra Mundial.
Desmascarado o embuste dos Thunderbolts, o Barão Zemo retomou a sua carreira a solo. Atualmente, governa com mão de ferro Bagália, um pequeno Estado-pária de localização desconhecida que serve de santuário a delinquentes de todo o mundo.

*Howling Commandos, brigada especial de soldados aliados que, durante a 2ª Guerra Mundial, atuava atrás das linhas inimigas.

Zemo (disfarçado de Cidadão V) à frente dos Thunderbolts originais.

Quem são os Mestres do Terror?

Inimigos clássicos dos Vingadores, os Mestres do Terror (Masters of Evil, no original) são uma das mais antigas organizações criminosas do Universo Marvel. Criada por Stan Lee e Jack Kirby, a equipa fez a sua primeira aparição em The Avengers Vol.1 nº6, edição histórica datada de julho de 1964.
Sob o comando do penúltimo Barão Zemo, os Mestres do Terror agrupavam inicialmente Cavaleiro Negro, Derretedor e Homem-Radioativo. Cada um destes elementos fora criteriosamente selecionado por Zemo para antagonizar um Vingador específico. Assim, ao Cavaleiro Negro competiria neutralizar o casal Vespa e Gigante, o Derretedor teria como alvo o Homem de Ferro, e o Homem-Radioativo deveria medir forças com Thor. Zemo, por seu turno, tentaria ajustar velhas contas com o Capitão América. A este elenco primordial juntar-se-iam posteriormente alguns pesos-pesados. A saber: Encantor, Executor, Magnum e Destruidor.
Das diversas encarnações da equipa ao longo dos anos, a mais eficiente foi, sem sombra de dúvida, aquela que contava nas suas fileiras com Mr. Hyde, Blackout, Rocha Lunar, Armador, Jaqueta Amarela II, Tubarão-Tigre, Titânia, Homem Absorvente, Gangue da Demolição (Aríete, Destruidor, Massa e Bate-Estacas) e Golias. Agora liderados pelo filho do Barão Zemo, os Mestres do Terror fizeram jus ao título ao tomarem de assalto a Mansão dos Vingadores, fazendo reféns alguns dos seus membros. Cuja libertação só foi possível na sequência de uma feroz batalha que culminaria com a morte de Hércules.
Seria precisamente esta formação dos Mestres do Terror que, anos mais tarde, serviria de base aos Thunderbolts (vide texto seguinte).

O primeiro confronto entre os Vingadores e os Mestres do Terror
 em The Avengers nº6 (1964).


A formação dos Mestres do Terror que quase vergaram os Vingadores.

Thunderbolts: heróis ou vilões?

Aproveitando o vazio deixado pelo desaparecimento dos Vingadores e do Quarteto Fantástico no final da saga Onslaught (Devastação em Portugal; Massacre no Brasil), o Barão Zemo reciclou os seus Mestres do Terror num novo coletivo super-heróico a que deu o nome de Thunderbolts. Além do próprio Zemo (que atendia agora por Cidadão V), o elenco primitivo da equipa por ele convocada reunia Atlas, Meteorita, Soprano, MACH-1 e Tecno. Sob estas identidades falsas escondiam-se, respetivamente, os ex-criminosos Golias (em tempos conhecido também como Contrabandista), Besouro, Rocha Lunar, Colombina e Armador. A estes membros fundadores logo se juntou Choque, uma jovem heroína que ignorava os verdadeiros desígnios dos seus companheiros, e cujo idealismo os contagiou.
Depois de ter conquistado a confiança do público, Zemo empreendeu a sua campanha de dominação mundial. Seria, no entanto, detido pela ação conjunta dos Vingadores e do Quarteto Fantástico (entretanto regressados do degredo extradimensional), bem como pelos próprios Thunderbolts. Em busca de redenção para os seus pecados, os antigos subordinados de Zemo haviam encarnado de forma inesperada o papel de defensores dos fracos e oprimidos.
Zemo logrou escapar graças à ajuda de Tecno - o único membro do grupo que se lhe manteve leal - enquanto os demais Thunderbolts, cujas verdadeiras identidades haviam sido entretanto expostas, passaram a operar na clandestinidade, praticando o heroísmo a que tinham tomado o gosto.
Conceito desenvolvido por Mark Waid e Mark Bagley, os Thunderbolts fizeram a sua estreia em janeiro de 1997, nas páginas de The Incredible Hulk nº449, e mantêm-se no ativo até aos dias de hoje. Após sucessivas reconfigurações e lideranças, a sua formação mais recente, capitaneada pelo Soldado Invernal, é composta por Atlas, Armador, Rocha Lunar, MACH-X e Kobik.

Thunderbolts: Lobos em peles de cordeiros.

Trivialidades:

*Situada na ex-RDA, Leipzig, a cidade natal de Helmut Zemo, possui uma prestigiada Universidade onde, entre outros expoentes da elite dirigente teutónica, se diplomou Angela Merkel, atual chanceler federal da Alemanha;
*No jogo de vídeo Iron Man and X-0 Manowar in Heavy Metal (1996), o Barão Zemo surgia como uma das personagens jogáveis;
*Dois anos depois, em maio de 1998, Zemo e os seus Thunderbolts participaram em Star Trek: The Next Generation / X-Men: Second Contact, um crossover entre a tripulação da nave USS Enterprise e os pupilos do Professor Xavier.


Terão Merkel e Zemo estudado a mesma cartilha?

Noutros media: Antes do seu advento ao grande ecrã por via da sua participação em Captain America: Civil War (2016), o Barão Zemo (pai e filho) era já um habitué nas séries animadas da Marvel. Remontando a 1966 a sua estreia televisiva, no segmento reservado ao Sentinela da Liberdade em The Marvel Super Heroes. Essa foi, de resto, a única ocasião em que o Barão Zemo sénior não interagiu com o júnior. Em produções mais recentes, como Avengers: Ultron Revolution (em exibição desde 2013), os dois têm coabitado e, não raro, unido forças contra os Heróis Mais Poderosos da Terra.

O Barão Zemo tem sido presença assídua
em Avengers: Ultron Revolution.
Embora irreconhecível, o atual Barão Zemo, interpretado pelo ator hispano-germânico Daniel Bruhl, foi o vilão de serviço no terceiro capítulo da saga cinematográfica do Capitão América. À parte o nome e a sanha que nutre pelos Vingadores, pouco tem, de facto, em comum com a sua contraparte da banda desenhada. No filme,  Helmut Zemo é apresentado como um obstinado oficial do Exército de Sokóvia desejoso de vingança depois de ter perdido a sua família na batalha que arrasou a capital do seu país em Avengers: Age of Ultron (2015)

A versão cinematográfica de Zemo (rebaixado a plebeu)
deixou um travo amargo na boca dos Vingadores, mas também de muitos fãs.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

CLÁSSICOS REVISITADOS: «BATMAN - TERRA DE NINGUÉM»


 Ainda em choque após a passagem do cortejo de horrores que a estropiou, Gotham City vê-se transformada numa imensa Terra de Ninguém retalhada por malfeitores. Em meio à anarquia e ao desespero, Batman e seu aliados lutam, numa frente desunida, para manter vivo o espírito da cidade mártir.
 Última grande saga do Homem-Morcego no século XX, inseriu personagens icónicas e influenciou a trama de O Cavaleiro das Trevas Renasce.

Título original: No Man's Land
Licenciadora: Detective Comics (DC)
País: EUA
Data de publicação: Janeiro a dezembro de 1999
Argumento: Greg Rucka, Jordan B. Gorfinkel, Chuck Dixon, Scott Beatty, Paul Dini, Bob Gale, Devin K. Grayson, Kelley Puckett, Larry Hama e Bronwyn Carlton
Arte: Greg Land, Andy Kuhn, Alex Maleev, Dale Eaglesham, Frank Teran, Phil Winslade, Damion Scott, Dan Jurgens, Mike Deodato, Tom Morgan, Mat Broome e Sergio Cariello
Categoria: Crossover
Séries mensais abrangidas: Azrael, Batman, Batman Chronicles, Batman: Shadow of the Bat, Catwoman, Detective Comics, Legends of the Dark Knight, Nightwing e Robin
Guia de leitura: http://batmanytb.com/comics/storyarcs/nomansland.php
Heróis: Batman, Robin, Asa Noturna, Batgirl, Oráculo, Azrael, Caçadora, Comissário Gordon, Harvey Bullock e Renee Montoya
Vilões: Joker, Pinguim, Duas-Caras, Espantalho, Bane, Máscara Negra, Ventríloquo, Crocodilo, Chapeleiro Louco, Lince, Talião, Senhor Frio, Cara de Barro, Senhor Zsasz, Arlequina e Lex Luthor
Coadjuvantes: Leslie Thompkins, Sarah Essen, David Cain, Hera Venenosa, Mulher-Gato e Superman
Cenários: Gotham City

Batman impotente perante o martírio da sua cidade.

Histórico de publicação

Obra de grande envergadura e alcance, Batman: No Man's Land foi a última saga do Cavaleiro das Trevas produzida no século passado. Estendeu-se por todo o ano de 1999 e abarcou por completo o catálogo de títulos mensais do herói, incluindo alguns spin-offs e edições especiais.
No total, a saga e respetivas ramificações abrangeram 80 edições mensais, 4 volumes especiais e uma graphic novel (Batman: Harley Quinn, que introduziu Arlequina no universo canónico da DC). Tudo somado, foram mais de 400 páginas e um vastíssimo rol de personagens. Números deveras apreciáveis a refletir a monumentalidade de uma história com lugar de destaque na memorabilia recente do Cavaleiro das Trevas.
Devido à sua considerável extensão, a trama primária de No Man's Land foi segmentada em vários arcos autónomos que nela entroncavam. Seguindo a estratégia editorial aplicada aos crossovers envolvendo as séries periódicas do Superman, a coerência narrativa da saga foi possibilitada através da interligação dos diversos títulos estrelados pelo Batman. Desse modo, cada capítulo da história apresentado num deles tinha sequência direta noutro. Com a vantagem adicional de assim se reduzir o tempo de espera dos leitores que, em vez de um mês, teriam de aguardar apenas uma semana pelos desenvolvimentos da intriga.

O primeiro dos 5 volumes antológicos de No Man's Land.
Contudo, por oposição ao que era prática comum em iniciativas editoriais análogas centradas no Homem de Aço, em que cada equipa criativa era responsável apenas por um título, em No Man´s Land, os seus autores (capitaneados por Greg Rucka, o principal artífice da saga) mantiveram-se envolvidos do princípio ao fim.
À publicação avulsa de No Man's Land seguiu-se, entre 1999 e 2001, o lançamento de uma antologia composta por 5 volumes de capa dura, que compilava o núcleo da saga. Levando em atenção o elevado número de edições não coligidas, em 2011 a DC lançaria nova compilação, desta feita contendo a versão integral da história. Que, logo em 2000, tivera direito, também, a adaptação literária no formato de uma novela da autoria de Greg Rucka (ver Noutros Segmentos Culturais).
Ainda inédita em terras lusas, a primeira edição na língua de Camões de No Man's Land ficou a cargo da brasileira Abril que, entre 2000 e 2001, a publicou, sob o título Terra de Ninguém, nas páginas de Batman e Batman: Vigilantes de Gotham.
No ano passado seria a vez da Eaglemoss reeditar Terra de Ninguém no Brasil, numa coleção especial de 6 volumes encadernados que apenas podiam ser encomendados online. Como bónus, a compilação incluía Cataclismo (Cataclysm, em inglês). Recorde-se que essa, a par de Contagion e Legacy, foi uma das sagas a montante dos eventos originalmente narrados em No Man's Land.
A coletânea da Eaglemoss incluía Cataclismo,
 a saga que preludiou Terra de Ninguém.

Prelúdio

Devastada por um sismo de magnitude 7.6 na escala de Richter depois de ter enfrentado uma violenta epidemia de Ébola lançada pela Ordem de São Dumas, Gotham City anseia pela reabilitação. Em vez disso, suportado por uma controversa deliberação do Congresso, o Governo federal ordena que a cidade seja colocada sob quarentena por tempo indeterminado.
Uma vez evacuada parte da população, as pontes que ligam Gotham ao continente são dinamitadas e os militares erguem barricadas nas restantes vias de acesso com o intuito de impedir a entrada ou saída de pessoas.
Isolada do mundo, Gotham converte-se numa imensa Terra de Ninguém disputada por diversas fações criminosas. Entregues a si próprios, os sobreviventes que se recusaram a abandonar a cidade podem apenas contar com a proteção da Bat-Família e de um pequeno contingente policial chefiado pelo Comissário Gordon.

A destruição da Bat-caverna após o terramoto que arrasou Gotham.
Enredo

Ao tomar conhecimento do protocolo de evacuação e quarentena prestes a ser implementado em Gotham City, Bruce Wayne apressa-se a viajar para Washington com o propósito de usar a sua influência para tentar reverter a medida e assegurar que a cidade continuará a receber assistência por parte das autoridades. Estas mantêm-se, porém, irredutíveis, e os esforços do milionário acabam por redundar em fracasso.
Perante a prolongada ausência do Batman, o Comissário Gordon conclui que também o herói terá virado costas a Gotham. Amargurado pela presumida deserção do seu velho aliado, Gordon recusa-se a pronunciar sequer o nome do Cavaleiro das Trevas e chama a si a missão de proteger os cidadãos de bem que, por motivos diversos, desobedeceram à ordem de evacuação.

Gordon e os seus homens levam a sério o lema "Proteger e servir".

Disfarçada de Batgirl e apoiada por Oráculo, também a Caçadora patrulha as ruas da cidade procurando restaurar alguma ordem. Cedo percebe que os meliantes a  temem mais agora que ostenta o símbolo do morcego. Tirando proveito dessa vantagem, a heroína reclama uma parcela de território para si, colocando os respetivos habitantes sob sua proteção.
Ao regressar por fim a Gotham, Batman autoriza a Caçadora a continuar a portar o manto da Batgirl e pede-lhe ajuda para expulsar alguns dos bandos criminosos que vêm aterrorizando a população. À medida que aumenta o número de zonas da cidade sob o controlo da Bat-Família cresce também a esperança no coração dos cidadãos. Contudo, quando o Duas-Caras e seus asseclas invadem os domínios do Homem-Morcego, a Caçadora falha em repeli-los. Envergonhada, a heroína considera-se indigna do legado da Batgirl e reassume a sua identidade original.

Batman, Caçadora e Oráculo:
o Morcego e as Aves de Rapina unidos na defesa do que resta do seu habitat.
Ainda desavindos, Batman e o Comissário Gordon prosseguem, em paralelo, as suas lutas pela libertação de Gotham. Cada território reconquistado aos malfeitores com a ajuda das milícias populares formadas entretanto é assinalado com grafítis. A mensagem é clara e eficaz: criminosos não são bem-vindos.
Esse ímpeto libertador acaba, contudo, refreado por uma cisão nas fileiras policiais. Em protesto contra a suposta maciez dos métodos de Gordon, William Petit, um belicoso tenente da SWAT, decide comandar o seu próprio esquadrão. Cujas ações brutais, inspiradas pelo militarismo do seu líder, repugnam Gordon profundamente.
Gotham recebe entretanto a inesperada visita do Superman. Determinado a contrariar a anarquia que por lá grassa, o Homem de Aço logo percebe que essa seria uma missão mais espinhosa do que ele previra e bate em retirada. Regressando, todavia, mais tarde como Clark Kent para visitar Batman e ensinar os gothamitas a tirarem o melhor proveito possível da agricultura que lhes vai garantindo o sustento numa cidade cuja economia colapsou.

Inspirado pelo seu patrono, o povo de Gotham luta pela sua cidade.
O pai de Tim Drake (Robin) descobre que o filho se encontra em Gotham. Julgando que o rapaz lá terá permanecido por causa de algum tipo de aposta ou desafio, solicita uma operação de resgate junto das autoridades. Ao fazê-lo, atrai a atenção mediática, o que faz crescer entre a opinião pública o apoio à revitalização da cidade condenada.
Alheio a esta guinada no curso dos acontecimentos, o Comissário Gordon forja uma aliança provisória com o Duas-Caras a fim de recuperar um setor vital da cidade. Traído pelo vilão, Gordon fica sob a mira de David Cain, o assassino profissional contratado pelo Duas-Caras para liquidar o antigo comandante do DPGC.
Gordon é, no entanto, salvo in extremis por Cassandra Cain, a filha de David Cain, por ele treinada para ser uma arma humana. Recrutada por Oráculo, a jovem, que tem no mutismo a sua marca distintiva, torna-se a nova portadora do manto da Batgirl e junta-se à Bat-Família na defesa de Gotham.
Capturado pelo Duas-Caras, Gordon é novamente salvo da morte certa por uma mulher. Graças à astúcia e persuasão da detetive Renee Montoya, sua antiga subordinada, o Comissário sobrevive a mais um dia.
Dá-se então o reencontro de Gordon com o Batman. Após uma longa e tensa conversa entre ambos, o Cavaleiro das Trevas, apostado em restaurar a confiança do seu velho aliado, remove a máscara. Gordon, porém, recusa-se a olhar para a face exposta do herói. Sanadas as divergências, os dois concordam em unir forças para reconquistar Gotham.

Gordon recusa-se a conhecer
a verdadeira face do Cavaleiro das Trevas.
Com o auxílio de Lucius Fox, o diretor-executivo das Indústrias Wayne, Batman consegue captar a atenção de Lex Luthor. Pouco tempo depois, o magnata de Metrópolis chega a Gotham para apresentar o seu megalómano plano de requalificação urbana.
Quando o Joker tenta sabotar as obras em curso, é rechaçado por Bane, cujos préstimos Luthor garantira a troco da promessa de lhe pagar o suficiente para comprar a sua ilha natal. Apesar do seu desejo de vingança em relação ao Batman, Bane é convencido pelo seu némesis a abandonar Gotham antes de ser atraiçoado por Luthor.
Cedendo à pressão mediática e popular, o Governo federal anuncia o levantamento da quarentena imposta a Gotham, ordenando, em simultâneo, a imediata reabertura das vias de acesso à cidade. Que, assim, volta a fazer oficialmente parte dos EUA.
Findo o pesadelo, Gordon e os seus homens são condecorados mas, no dia de Natal, a base do tenente Petit é atacada pela quadrilha do Joker. Petit sucumbe ao ataque e a Caçadora, que tentara impedir a carnificina, sobrevive por um triz.

Luthor chega a Gotham com muitas promessas na bagagem.
O Palhaço do Crime ordena então o rapto de todos os bebés de Gotham. Ao descobrir por acaso que as crianças estavam escondidas numa estação de polícia devoluta, Sarah Essen, a esposa de Gordon, aventura-se a resgatá-las, mas acaba assassinada pelo Joker.
Destroçado pela morte da sua cara-metade, Gordon só a muito custo resiste ao impulso de fazer justiça pelas próprias mãos. Batman persuade-o a poupar a vida do Palhaço do Crime, pois só assim o espírito de Gotham poderá perdurar.
Apesar disso, Gordon não hesita em premir o gatilho quando o Joker lhe pergunta, de forma trocista, se ele tem um filho. O disparo atinge o joelho do vilão que, indiferente à dor, solta gargalhadas histéricas ao perceber a ironia da situação. Por causa dele, Barbara Gordon (filha do Comissário, primeira Batgirl  e atual Oráculo), estava há anos presa a uma cadeira de rodas(1).


Depois da filha, a mãe:
o clã Gordon continua a ser vítima da crueldade do Joker.
Intuindo a dor que dilacera a alma de Gordon naquele momento, Batman reconforta o seu velho amigo. Ambos sabem que, mais do que nunca, Gotham precisará que se eles mantenham fortes e unidos.
Luthor, por sua vez, vê expostas as suas verdadeiras intenções: destruir os registos prediais de modo a poder depois reclamar a propriedade de boa parte de Gotham com recurso a nomes falsos e a testas de ferro.
Seguindo uma pista anónima, Lucius Fox localiza os documentos originais e, ingenuamente, notifica Luthor do achado. Fingindo-se surpreendido, Luthor tenta matar o diretor-executivo das Indústrias Wayne, mas é impedido por Batman (a verdadeira fonte de Fox). Depois de dizer a Luthor que Gotham não está à venda,  o Cruzado da Capa intima o magnata a abandonar a cidade.
Enquanto, um pouco por toda a cidade, multidões eufóricas celebram o Ano Novo, Gordon despede-se da sua malograda esposa. Noutro ponto do cemitério, Batman deposita um ramo de rosas sobre o túmulo dos seus pais antes de partir para nova patrulha noturna na cidade que jurou defender das trevas que constantemente a assediam.

O renascimento da esperança numa cidade
que resiste teimosamente ao contínuo assédio das forças das trevas.
Apontamentos

*Terra de Ninguém serviu para estabelecer as bases da complexa relação entre Renee Montoya e o Duas-Caras. Um (quase) romance proibido entre uma agente da Lei e um senhor do crime, cuja evolução os leitores puderam acompanhar em Gotham Central, série mensal lançada em fevereiro de 2003 e centrada no conturbado quotidiano da força policial gothamita;
*Outra detetive do DPGC, Deborah Tiegel, foi uma das duas benfeitoras que ficaram para trás para poderem tratar dos animais deixados à sua sorte no zoológico de Gotham;
*Por questões éticas, a Liga da Justiça não interveio em Gotham, apesar de o ter feito para impedir que forças externas conquistassem a cidade. Importa esclarecer, a este propósito, que Batman é extremamente zeloso do seu território. Ao ponto, por exemplo, de o próprio Hal Jordan, um dos Lanternas Verdes responsáveis pelo Setor Espacial 2814, ter de requerer autorização prévia para entrar em Gotham;
*Arlequina, a histriónica compagnon de route do Joker, e Cassandra Cain, a enigmática adolescente que viria a ser a terceira Batgirl(2), foram introduzidas em Terra de Ninguém. Apesar de ambas se terem tornado icónicas, apenas no caso da segunda se tratou verdadeiramente de uma estreia, visto que a primeira fizera o seu debute em 1992, num episódio de Batman: The Animated Series. Além de consagrar Arlequina como personagem canónica no Universo DC, a saga serviu também para apresentá-la a Hera Venenosa, de quem se tornaria íntima;


Terra de Ninguém assinalou a estreia
 de Arlequina e Cassandra Cain no universo DC.
*Em consequência do brutal assassínio da suas esposa às mãos do Joker no epílogo da saga, o Comissário Gordon antecipou a sua reforma, abandonando, ainda que temporariamente, o DPGC;
*Apesar das suas ações pouco filantrópicas, a forma como Lex Luthor ajudou a resolver a crise em Gotham City granjeou-lhe o apoio popular necessário para impulsionar a sua candidatura à Casa Branca no ano seguinte. Eleição que, recorde-se, o magnata venceria com confortável margem.

Noutros segmentos culturais: À boleia do sucesso comercial de No Man's Land, a DC lançou, em 2000, uma novela epónima da autoria de Greg Rucka. A despeito da sua fidelidade à narrativa original, a versão literária suprimiu no entanto duas personagens importantes: Azrael e Superman. Em 2011, sob a chancela da GraphicAudio, a obra seria republicada em formato de audiolivro. Além de um elenco criteriosamente escolhido, esta nova edição incluía também efeitos sonoros e temas musicais.
Ao longo da primeira década deste século, registaram-se duas tentativas frustradas de adaptação televisiva de No Man's Land, ambas remetendo para séries animadas do Batman. Chegou a ser produzida alguma arte conceptual mas os projetos acabaram por nunca receber luz verde por parte da Warner Bros. Motivo: os seus executivos consideraram a história demasiado violenta e sombria para uma audiência maioritariamente composta por crianças e adolescentes.

A adaptação literária de No Man's Land.
Seria, pois, preciso esperar até 2012 para ver alguns elementos de No Man's Land transpostos ao cinema. Nesse ano, a saga seria uma das três a influenciar a trama de The Dark Knight Rises, o capítulo final da trilogia do Cavaleiro das Trevas com a assinatura de Christopher Nolan (ver texto anterior). Apesar da ausência de catástrofes naturais, o isolamento de Gotham no filme é resultado do sequestro levado a cabo por Bane e a Liga dos Assassinos.
A influência de No Man's Land no enredo de The Dark Knigh Rises é notória também noutros aspetos. Ambas as histórias são ambientadas no inverno e em ambas Batman regressa a Gotham após uma ausência involuntária.
No entanto, por contraponto ao que sucede na saga original, no filme a cidade fica consideravelmente mais despovoada após a evacuação. E, chegado o momento de retomá-la, os civis mantêm-se à margem, ficando implícito que Gotham é uma cidade pela qual não vale a pena lutar. Por outro lado, a agenda de John Daggett - que, na película, faz as vezes de Lex Luthor - é menos ambiciosa, na medida em que objetiva apenas a tomada das Indústrias Wayne, em vez da aquisição pura e simples da cidade. Outra diferença crucial reside no facto de Daggett acabar morto por Bane.Que, por sua vez, também não sobrevive aos eventos por ele desencadeados.

Vale a pena ler?

Mesmo não sendo uma das minhas sagas preferidas do Batman, admito que a premissa de Terra de Ninguém é interessante.
Vários anos antes de o furacão Katrina ter arrasado Nova Orleães, expondo a incapacidade do Governo americano em prestar auxílio aos sobreviventes, esta fábula do Cavaleiro das Trevas assumiu um tom sinistramente profético.
Seja qual for o contexto - real ou ficcional - o colapso da lei e da ordem que antecede a irrupção da anarquia possibilita sempre leituras díspares sobre a moralidade das ações humanas perante a ausência de autoridade. É, pois, esse o grande apelo da intriga porfiada por Greg Rucka e companhia. O que não impede que, por conta da sua extensão, a história se torne a espaços maçadora.
Nota negativa também para a variedade de estilos artísticos, que oscilam entre a excelência e a mediocridade. A fazer lembrar, de resto, o que acontecera em sagas anteriores da Editora das Lendas, nomeadamente em A Morte do Super-Homem (serei o único a detestar o traço de Jon Bogdanove?).
Apesar da ambição (alguns dirão "megalomania") que lhe subjaz, Terra de Ninguém não é uma obra incontornável. É essencialmente recomendada para iniciantes que, de uma assentada, terão oportunidade de ficar a conhecer as figuras-chave da mitologia do Homem-Morcego.

Uma Terra de Ninguém demasiado pequena
 para acomodar tantas personagens.

Referências:

1)http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/09/classicos-revisitados-piada-mortal.html
2)http://bdmarveldc.blogspot.pt/2016/09/heroinas-em-acao-batgirl.html

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

RETROSPETIVA: «O CAVALEIRO DAS TREVAS RENASCE»


  Sitiada por um inimigo implacável, Gotham City vê o seu campeão caído em desgraça reerguer-se para travar a última batalha em seu nome. Menos aclamado do que os seus antecessores, foi um epílogo condigno de uma das mais magistrais trilogias da história do cinema. Mesmo tendo a sua estreia em terras do Tio Sam ficado ensombrada pela violência e pela controvérsia política.

Título original: The Dark Knight Rises (no Brasil, O Cavaleiro das Trevas Ressurge)
Ano: 2012
País: EUA / Reino Unido
Duração: 164 minutos
Género: Ação/Suspense/Fantasia
Companhias produtoras: Legendary Pictures e Syncopy
Realização: Christopher Nolan
Argumento: Christopher Nolan, Jonathan Nolan e David S. Goyer
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Elenco: Christian Bale (Bruce Wayne/Batman); Michael Caine (Alfred Pennyworth); Gary Oldman (Comissário James Gordon); Anne Hathaway (Selina Kyle / Mulher-Gato); Tom Hardy (Bane); Marion Cottilard (Miranda Tate / Talia al Ghul); Joseph Gordon-Levitt (John Blake); Morgan Freeman (Lucius Fox); Cillian Murphy (Jonathan Crane / Espantalho)
Orçamento: 250 milhões de dólares
Receitas: 1,1 biliões de dólares
Desenvolvimento: Dirigir um terceiro filme do Batman estava fora das cogitações de Christopher Nolan. Depois do fragoroso sucesso de The Dark Knight em 2008, nova sequela prefigurava-se-lhe redundante. Hesitou por isso em aceder ao convite que lhe foi endereçado nesse sentido por Jeff Robinov, o presidente-executivo da Warner Bros. Face à insistência deste para que desse continuidade à franquia, Nolan impôs uma condição: que a história fosse capaz de envolvê-lo emocionalmente.
Havia, por outro lado, que consensualizar a escolha do antagonista principal. Tentados a utilizar uma personagem similar ao Joker, os executivos do estúdio propuseram o Charada. E até já teriam em vista o ator que consideravam ideal para o papel. Ninguém menos do que Leonardo DiCaprio.
Nolan preferia, ao invés, um vilão com características distintas dos anteriores. Apesar  do seu desconhecimento relativamente ao contexto de Bane(1), ficou impressionado pela sua presença física e natureza implacável.
Em fevereiro de 2010, depois de meses a trabalhar em segredo no rascunho do guião, o cineasta britânico confirmou finalmente a sua continuidade à frente do projeto. Anunciou também que o argumento daquele que seria o epílogo da trilogia do Cavaleiro das Trevas iniciada em 2005 com Batman Begins estava a ser escrito com a colaboração de David S. Goyer e do seu irmão Jonathan Nolan.
Christian Bale (Batman) e Tom Hardy (Bane) atentos às diretrizes de Nolan
 para uma das cenas mais marcantes do filme.
Apesar de ter em Knightfall(2) a sua alma mater, a história seria também fortemente influenciada por duas outras sagas marcantes do Batman: The Dark Knight Returns (1986) e No Man's Land (1999). Na primeira, da autoria de Frank Miller, um Homem-Morcego amargo e envelhecido regressa ao ativo após vários anos de ausência; na segunda, Gotham City é isolada do mundo e transformada numa Terra de Ninguém controlada por bandos criminosos.
Nolan revelaria mais tarde que o seu primeiro rascunho da história continha igualmente diversos elementos extraídos de Um Conto de Duas Cidades, obra literária de Charles Dickens dada à estampa em 1859. Muitos dos quais, como a elegia do Comissário Gordon ao Batman no final do filme, permaneceram na versão final do argumento.

No Man's Land (1999) foi uma das sagas a inspirar o argumento do filme.
Afastada em definitivo a possibilidade de o Joker marcar de alguma forma presença na película, a respetiva rodagem arrancaria em maio de 2011, na cidade indiana de Jodhpur. Apenas um dos numerosos cenários escolhidos para as filmagens que se prolongariam até novembro desse ano e passariam por três continentes: Ásia, Europa e América do Norte. E que ficariam também marcadas por diversos acidentes. O mais gravoso dos quais ocorreu em Pittsburgh, quando um camião que transportava um modelo do Batwing se despistou. Apesar da ausência de feridos, a aeronave ficou inutilizada, havendo a necessidade de construir outra. Em consequência disso, a produção sofreu um significativo atraso.
Precedido por uma campanha de marketing viral à escala global, The Dark Knight Rises estrearia nos EUA a 20 de julho de 2012. E nem mesmo o incidente ocorrido num cinema do Colorado (ver O Massacre de Aurora) o impediu de pulverizar todos os recordes de bilheteira, tornando-se mesmo o capítulo mais lucrativo de toda a franquia - ela própria uma das mais rentáveis de história da 7ª Arte.

Um dos mais icónicos cartazes que ajudaram à promoção do filme.

Enredo: Ao sobrevoar as vastas planícies do Uzbequistão, um avião da CIA que transporta um físico nuclear russo é tomado de assalto pela Liga dos Assassinos agora sob o comando de Bane, um implacável terrorista mascarado. Após chacinar a tripulação e provocar o despenhamento do aparelho, o grupo leva consigo o cientista.
Em Gotham City, oito anos se passaram desde a morte de Harvey Dent, o carismático promotor público corrompido pelo Joker, cujos crimes foram assumido pelo Batman. Embuste que permitiu a promulgação da Lei Dent que, por via do reforço dos poderes da Polícia, abriu caminho à erradicação do crime organizado na cidade. Que, em contrapartida, perdeu o seu soturno padroeiro.
Vivendo como um eremita na sua mansão, Bruce Wayne, o alter ego do Cavaleiro das Trevas, continua a amargar com a morte de Rachel Dawes, a namorada de infância que o trocara por Dent. Ao consciencializar-se do potencial bélico do reator nuclear construído pelas Indústrias Wayne, Bruce ordena o cancelamento imediato do projeto. Em virtude dessa decisão, a empresa entra em derrocada financeira.
Gotham City tem em Bane o seu novo flagelo.
Convidado para uma festa na Mansão Wayne, o Comissário Gordon escreve um discurso onde expõe a verdade acerca da morte de Harvey Dent. Acabando, no entanto, por desistir no último instante dessa sua intenção.
Disfarçada de serviçal, Selina Kyle, uma gatuna profissional, logra infiltrar-se nos aposentos de Bruce para lhe roubar as impressões digitais. Levando como bónus um colar de pérolas que havia pertencido à falecida mãe do milionário. Antes de abandonar a mansão, Selina tem ainda tempo para raptar um congressista chamado Byron Gilley.
Ambos os crimes lhe tinham sido encomendados por John Dagget, o inescrupuloso líder de um conglomerado concorrente das Indústrias Wayne. A troco de um algoritmo informático capaz de apagar o seu cadastro criminal, Selina entrega Gilley e as impressões digitais de Bruce a Dagget.
Ao aperceber-se do logro em que caiu, Selina põe-se em fuga, não sem antes avisar a Polícia do paradeiro do congressista desaparecido.
Seguindo a pista fornecida por Selina, a Polícia resgata Gilley e o Comissário Gordon persegue um dos seus raptores até à rede subterrânea de esgotos da cidade. Que, por esses dias, servem de base operacional secreta a Bane e seus apaniguados.
Embora ferido, Gordon consegue regressar à superfície, sendo auxiliado por John Blake, um recruta novato do Departamento de Polícia. Na fuga Gordon perdera, contudo, o seu comprometedor discurso que, assim, vai parar às mãos de Bane.
Dias depois, Bane e os seus homens invadem a Bolsa de Valores de Gotham. Usando as impressões digitais de Bruce Wayne, validam uma transação financeira que leva as Indústrias Wayne à falência.
Deduzindo que Dagget seria o verdadeiro cabecilha do golpe, Bruce delega o poder em Miranda Tate, um dos membros do Conselho de Administração das Indústrias Wayne com quem vinha mantendo também um relacionamento amoroso.
Após a demissão do seu fiel mordomo Alfred, Bruce decide voltar a assumir o manto do Batman para travar a onda de crimes em curso. Conduzido pela Mulher-Gato até ao covil de Bane, o Cavaleiro das Trevas é emboscado pelo vilão, que o deixa aleijado.

Batman faz um regresso em grande estilo
 antes de ser vergado pelo seu novo némesis.
Enquanto o herói agoniza a seus pés, Bane revela-lhe ter assumido o controlo da Liga dos Assassinos e o seu plano de destruição de Gotham City. Cumprindo assim o desejo de Ra's al Ghul, o fundador da organização derrotado anos antes por Batman, seu antigo discípulo.
Encarcerado numa prisão virtualmente inescapável e de localização desconhecida, Bruce nada pode fazer para travar a cadeia de eventos que se seguem. Depois de roubar a tecnologia das Indústrias Wayne, Bane força Lucius Fox e Miranda Tate a levarem-no até ao reator nuclear inativado. Cujo núcleo é convertido numa bomba atómica pelo cientista russo sequestrado pela Liga dos Assassinos.
Com Gotham submersa em caos, Bane consegue atrair o grosso do seu contingente policial aos esgotos, usando explosivos estrategicamente plantados para encurralar os agentes no subsolo. Ameaçando fazer deflagrar a bomba atómica, o vilão mantém Gotham como refém, isolando-a do mundo ao dinamitar a quase totalidade das pontes que ligam a cidade ao continente.
Perante milhares de espectadores num estádio onde decorria um jogo de futebol americano interrompido pelas detonações no subsolo, Bane lê em voz alta o discurso de Gordon antes de ordenar a libertação dos prisioneiros da penitenciária de Black Gate.
Instalada a anarquia, os ricos e poderosos de Gotham são expropriados dos seus bens e sujeitos a julgamentos populares presididos pelo Espantalho. Sem hipóteses de defesa, muitos dos réus acabam sumariamente executados.
Nos meses seguinte, com Gotham vergada ao reinado de terror de Bane, Bruce Wayne recupera física e mentalmente. Enquanto se prepara para a íngreme escalada que o devolverá à liberdade, ouve as histórias contadas pelos outros reclusos acerca do único prisioneiro que alguma vez conseguiu evadir-se daquele buraco imundo. Façanha que Bruce consegue no entanto reeditar.

Bruce Wayne a meio da escalada para a liberdade.
Regressado a Gotham, Batman arregimenta aliados: além do Comissário Gordon e de Alfred, também John Blake, Miranda Tate e a Mulher-Gato são mobilizados para a batalha pela libertação da cidade sitiada. À qual o herói se recusa virar costas, apesar da insistência de Selina para que partam juntos.
Resgatados por Batman, os agentes policiais confrontam os asseclas de Bane. Em meio à batalha campal em pleno centro de Gotham, o herói volta a ficar frente a frente com o seu algoz.
Prestes a sobrepujar Bane, o Homem-Morcego é inesperadamente esfaqueado por Miranda Tate. Que é, na verdade, Talia, a filha de Ra's al Ghul. Apostada em concluir os diabólicos planos do progenitor, era ela a prisioneira na origem da lenda de que Bruce tivera conhecimento durante o seu cativeiro.
Talia tenta detonar a bomba mas Gordon antecipa-se e neutraliza o seu recetor remoto. Em desespero, a vilã tenta escapar no camião que transporta o engenho, acabando contudo por capotar e morrer.

Batman versus Bane: 2º round.
Com a bomba em contagem decrescente, Batman usa o Batwing para carregá-la para fora dos limites da cidade e, aparentemente, não sobrevive à violenta explosão que se segue.
Enquanto o Cavaleiro das Trevas é honrado como um herói, Bruce Wayne é dado como morto nos motins que vitimaram boa parte da elite gothamita. Entre outras coisas, o seu testamento dita a conversão da Mansão Wayne num orfanato gerido por John Blake. Uma vez liquidadas as dívidas, o restante património reverterá para Alfred.
À medida que a cidade vai regressando à normalidade, o Comissário Gordon encontra um novo Bat-sinal no telhado da sede do Departamento de Polícia. Ao analisar os destroços do Batwing, Lucius Fox descobre  que este tinha o piloto automático ligado no momento da explosão. Crescendo assim as suspeitas de que o Batman terá, afinal, sobrevivido.
De visita à cidade italiana de Florença, Alfred, ao descansar numa esplanada, tem um vislumbre do seu antigo amo na companhia de Selina Kyle.
Longe dali, John Blake - cujo nome do meio é Robin - abandona o Departamento de Polícia de Gotham City e, cumprindo a última vontade de Bruce Wayne, visita a Batcaverna. Morre uma lenda para que outra possa nascer...

E viveram felizes para sempre?

Trailer:



Curiosidades:

*Segundo Nolan, a cada capítulo da trilogia do Cavaleiro das Trevas corresponde um simbolismo: Batman Begins é uma metáfora para o Medo, The Dark Knight representa o Caos e The Dark Knight Rises a Dor. Cada um dos filmes tem também mais 12 minutos de duração do que o seu antecessor (140, 152 e 164 minutos, respetivamente);
*Christian Bale é, até ao momento, o mais jovem ator a encarnar o Batman, e também o único a fazê-lo em três filmes. Já o Espantalho, interpretado por Cillian Murphy é o único vilão a marcar presença em toda a trilogia;
*A vibrante melodia que acompanha várias das entradas em cena de Bane é um cântico marroquino intitulado Deshi Basara, expressão árabe para "Ergue-te";
*The Dark Knight Rises foi o primeiro filme do Batman dirigido por Nolan a não conquistar qualquer Óscar. E o segundo do herói, depois de Batman & Robin (1997), a não receber qualquer nomeação para as estatuetas douradas;
*Enquanto participava nas audições, Anne Hathaway estava convicta de que iria interpretar a Arlequina, a estouvada concubina do Joker. Jessica Biel, Kate Mara e Natalie Portman foram outras atrizes equacionadas para o papel de Mulher-Gato;

Anne Hathaway tornou-se a quinta atriz
 a interpretar a Mulher-Gato.
*Tom Hardy, o segundo ator a emprestar o corpo a Bane depois de Jeep Swenson em Batman & Robin, aceitou o papel sem ler o guião. Na sua composição da personagem, incluiu uma imitação da voz e do sotaque de Bartley Gorman, pugilista irlandês de origem cigana que, em 2002, faleceu como campeão invicto da modalidade no Reino Unido;
*Em momento algum do filme Selina Kyle é identificada como Mulher-Gato. Apesar disso, a Polícia e os jornais referem-se a "The Cat", referência aos primórdios da personagem em que era uma ladra de joias conhecida apenas por essa alcunha;
*A cena final que mostra a entrada da Batcaverna descoberta por John Blake foi rodada no País de Gales, terra natal de Christian Bale;
*Bane foi o único antagonista principal a ser morto na trilogia. Dada a ausência dos respetivos cadáveres, as mortes de Ra's al Ghul em Batman Begins e do Joker em The Dark Knight podem ser apenas presumidas.
*Batman foi pela primeira vez cognominado de "Cavaleiro das Trevas" em 1940, numa história assinada por Bill Finger (seu criador juntamente com Bob Kane), publicada em Batman nº1.

Prémios e distinções: A despeito da gélida indiferença por parte da Academia de Hollywood, The Dark Knight Rises foi  indicado para diversos galardões em diferentes categorias. Conquistaria sete deles, destacando-se o AFI Award para Melhor Filme e o Saturn Award para Melhor Atriz Secundária atribuído a Anne Hathaway. Pecúlio consideravelmente mais modesto do que o de The Dark Knight que, quatro anos antes, arrecadara mais de duas dezenas de prémios, incluindo dois Óscares. Mas superando, ainda assim, o registo do primeiro capítulo da saga. Em 2005, Batman Begins conseguira apenas três prémios, o mais importante dos quais o Saturn Award para Melhor Filme.

Christian Bale e Christopher Nolan na cerimónia dos AFI Awards.

O massacre de Aurora

A 20 de julho de 2012, data da estreia oficial da película em terras do Tio Sam, um atirador disfarçado com uma máscara de gás abriu fogo no interior de uma sala de cinema apinhada durante a sessão da meia-noite num centro comercial de Aurora, no Colorado. Ato tresloucado de que resultaram 12 vítimas mortais e 58 feridos, vários deles com gravidade.
Capturado pela Polícia nas imediações do recinto, o autor do massacre seria identificado como James Eagan Holmes, um estudante de Medicina à data com 24 anos e sem antecedentes criminais. Mas com uma saúde mental notoriamente precária, conforme atestariam vários profissionais da área que o haviam acompanhado no passado.
Quando interrogado pelas autoridades, empenhadas em apurar o móbil do crime, Holmes afirmou ser o Joker e alertou as autoridades para a existência de explosivos prontos a detonar no seu apartamento. Informação que se confirmaria verdadeira.
Da revista efetuada ao imóvel, além do desmantelamento de uma bomba, resultou também a apreensão de um pequeno arsenal e de uma vasta parafernália alusiva ao Batman, por quem Holmes tinha uma fixação patológica.
Na esteira do fatídico incidente, e face ao medo instalado, a Warner Bros. apresentou condolências às famílias das vítimas e anunciou, em comunicado, o cancelamento das antestreias agendadas para diversos pontos do globo. Algumas das quais, como a que deveria ter tido lugar em Paris, contariam com a presença das principais vedetas do elenco.
Receando um efeito de contágio, também várias estações televisivas norte-americanas suspenderam de pronto os anúncios de promoção do filme.
Christian Bale, por sua vez, fez questão de visitar os sobreviventes da chacina que se encontravam hospitalizados, bem como o memorial improvisado que homenageava os que haviam perdido a vida no ataque.
Quanto a James Eagan Holmes, as alegações de insanidade mental apresentadas pelo seu advogado de defesa no decurso do julgamento a que foi sujeito num tribunal estadual tiveram o condão de livrá-la da injeção letal. Acabando, em vez disso, sentenciado a 12 penas de prisão perpétua sem direito a liberdade condicional.
Persiste, contudo, até hoje o mistério em torno das verdadeiras motivações de Holmes para manchar de sangue a estreia de um filme baseado no seu super-herói predileto.


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Um enigma chamado James Eagan Holmes.

Controvérsia política

Acusado por alguns comentadores políticos estadunidenses de engajamento com a agenda conservadora, The Dark Knight Rises esteve no epicentro de uma acesa controvérsia cujos ecos cruzaram mesmo o Atlântico.
Tudo começou com as diatribes lançadas na plataforma online Salon por David Sirota. Para este articulista ligado ao campo progressista, ao refletir de forma evidente a retórica do Tea Pary (ala ultraconservadora do Partido Republicano) contra o movimento Ocupar Wall Street (cujos ativistas, à data dos factos, contestavam as iniquidades do sistema financeiro norte-americano), o filme era um instrumento ao serviço do status quo.
Afinando pelo mesmo diapasão, a jornalista britânica Catherine Shoard referiu-se no The Guardian (tabloide tradicionalmente conotado com o centro-esquerda) à "audaciosa visão capitalista e apologética do vigilantismo" que a fita de Nolan (seu compatriota) supostamente encerraria.
Reações destemperadas que obrigaram Nolan vir a terreiro defender a sua dama. Em comunicado, o cineasta negou categoricamente a existência de qualquer subtexto político nos filmes do Batman por ele dirigidos.
Com a polémica ao rubro nas redes sociais, também o cocriador de Bane achou por bem pronunciar-se. Num artigo publicado na revista Variety, Chuck Dixon observou que, pelo seu viés eminentemente subversivo, o vilão não poderia destoar mais da agenda conservadora a que os detratores do filme o procuravam vincular.

Apesar de cenas como esta,
O Cavaleiro das Trevas Renasce foi rotulado de "reacionário".
Em ano de eleições presidenciais, e com o seu candidato a perder terreno nas sondagens, também os Republicanos não se furtaram à chicana política. Rush Limbaugh, comentador próximo de Mitt Romney, associou The Dark Knight Rises a uma alegada campanha de denegrimento do rival de Barack Obama na corrida à Casa Branca. Em causa a homofonia existente entre o nome do némesis do Homem-Morcego e a Bain Capital, agência financeira anteriormente presidida por Romney. Limbaugh acabaria ridicularizado em praça pública, uma vez que a criação de Bane, em 1993, precedeu em quase duas décadas a candidatura do milionário mórmon à Sala Oval.
A quem The Dark Knight Rises parece ter agradado sobremaneira foi a Donald Trump. Tanto que, no seu discurso de investidura como 45º Presidente dos EUA, em janeiro último, citou várias passagens daquele que Bane havia proferido aquando da queda de Gotham City.

Voo para a eternidade.


Veredito: 80%

Qualquer epopeia exige um epílogo a condizer. E, apesar de algumas lacunas evidentes, este Cavaleiro das Trevas Renasce logrou encerrar com chave de ouro aquela que é, sem sombra de dúvida, uma das melhores trilogias da história do cinema.
Depois do feito alcançado por Christopher Nolan em O Cavaleiro das Trevas, a principal dúvida consistia em saber se o realizador seria capaz de nos presentear com algo capaz de, pelo menos, igualar essa obra-prima da 7ª Arte. Muitos se questionavam, por outro lado, se o capítulo final da saga contaria com um némesis tão marcante e inolvidável como o Joker de Heath Ledger.
Durante muito tempo, foram essas as principais dúvidas a assaltar os espíritos dos fãs que aguardavam ansiosos pelo desfecho de uma trilogia que, até ao momento, recebera a aclamação quase unânime do público e da crítica. Nolan prometia um final épico, e ninguém se contentaria com menos.
Nestes termos, pode afirmar-se que O Cavaleiro das Trevas Renasce não defraudou por completo as expectativas - que, convenhamos, eram estratosféricas -, mercê da sua grandiosidade, especialmente no campo visual. Aquela que nos salta à vista logo nos instantes iniciais da película, com uma espetacular e muitíssimo bem filmada sequência envolvendo o sequestro e a destruição de um avião em pleno voo (uma das melhores do género que alguma vez me foi dada a ver).
Já em termos emocionais, o filme fica abaixo do que era esperado. Sendo, aliás, essa, a par de algum pretensiosismo do enredo, a sua maior pecha. Se, por um lado, Nolan, como é sua práxis, patenteia a mesma preocupação com a solidez das suas personagens - especialmente no que toca aos estreantes John Blake, Selina Kyle e Miranda Tate - , por outro deixa-se misteriosamente levar por excessos narrativos em prejuízo do registo realista que pautara os dois primeiros filmes. Desse ponto de vista, O Cavaleiro das Trevas Renasce é o capítulo mais descuidado da trilogia.
Empecilhos ainda assim insuficientes para diminuir a força da obra, pois O Cavaleiro das Trevas Renasce é um filme que cumpre com louvor o que promete desde o início. É verdade que as elevadas expectativas lhe foram nocivas, mas não ao ponto de cegar o público para os seus muitos méritos.
Embora demasiado dependente dos capítulos anteriores (mormente de Batman - O Início, com o qual constrói diversas pontes), O Cavaleiro das Trevas Renasce é um filme com densidade própria e dono de um sentimento singular. Por mais que algumas escolhas de Nolan soem dúbias, é possível notar o pulso forte de alguém que sabe o que quer e para onde vai.
Erros e incoerências existem, com certeza, mas é verdadeiramente admirável a coragem de Nolan em assumir riscos justamente no encerramento de uma trilogia  que já se tornou referência entre as adaptações cinematográficas de super-heróis. Que, depois dela, não mais foram as mesmas.


Referências:

(1) http://bdmarveldc.blogspot.pt/2012/03/nemesis-bane.html
(2) http://bdmarveldc.blogspot.pt/2014/12/do-fundo-do-bau-queda-do-morcego.html