quarta-feira, 1 de agosto de 2018

CLÁSSICOS REVISITADOS: «A SAGA DA FÉNIX NEGRA»


  O velho adágio "poder absoluto corrompe absolutamente" adquiriu novo significado quando Jean Grey, possessa por uma das mais destrutivas forças do Universo, se viu transformada numa genocida cósmica. Imune à passagem do tempo, aquela que é porventura a melhor história de sempre dos X-Men - e uma trágica lição de humanismo - deverá chegar finalmente ao cinema no próximo ano.

Título original: Dark Phoenix Saga 
Licenciadora: Marvel Comics 
País: EUA 
Argumento: Chris Claremont (1) e John Byrne (2)
Arte: John Byrne
Data de publicação: Janeiro a outubro de 1980
Títulos abrangidos:  X-Men nº 129-138
Heróis: X-Men (Ciclope, Fénix, Wolverine, Tempestade, Noturno, Colossus e Professor X)
Vilões: Clube do Inferno, Fénix Negra  e  Mestre Mental
Coadjuvantes: Moira MacTaggert, Kitty Pryde, Cristal, Anjo, Fera, Lilandra e Guarda Imperial de Shi'ar
Cenários: Nova Iorque, Ilha Muir (Escócia), Império Shi'ar e Face Oculta da Lua

Edições em português

Quatro anos volvidos sobre o seu lançamento em terras do Tio Sam, em 1984, sob os auspícios da brasileira Abril, a Saga da Fénix Negra conheceu a sua primeira edição em língua portuguesa. Originalmente publicada nos números 25. 26, 29, 30 e 31 de Superaventuras Marvel e em Grandes Heróis Marvel nº7, a exemplo do que sucedeu nos EUA, a história seria objeto de múltiplas reedições ao longo dos anos subsequentes, tanto pela Abril como por outras editoras sediadas em Terras Tupiniquins. Mythos, Panini e Salvat foram, por esta ordem, aquelas que, já este século, brindaram os leitores lusófonos com compilações deste clássico da 9ª Arte.
Com o costumeiro atraso, na pequena paróquia atlântica chamada Portugal apenas em 2012 a Saga da Fénix Negra foi pela primeira vez dada à estampa, inserta na segunda série da coleção Heróis Marvel, da Levoir.



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De cima para baixo:
o início da saga publicado em SAM nº25 (1984),
a primeira compilação da Panini (2006)
e a primeira edição portuguesa (2012).

A mãe de todas as sagas

Apesar de o epíteto acima lhe assentar que nem uma luva, na realidade a Saga da Fénix Negra foi o título atribuído, a posteriori, a um arco de histórias genérico publicado ao longo de quase todo o ano de 1980 na série mensal dos Filhos do Átomo.
Contrariamente ao que é hoje prática consagrada, na época as principais editoras não lançavam anualmente megassagas - mais ou menos inconsequentes - abrangendo um grande número de títulos e personagens. Já sem Stan Lee ao leme, desde meados da década de 1970 que a Marvel vinha investindo na revitalização dos X-Men. Cujo título periódico, mercê do medíocre desempenho comercial, escapara ao cancelamento iminente.
Nesse quadro de renovação, em 1975 fora introduzida uma nova geração de X-Men, na qual pontificavam, por exemplo, Wolverine e Tempestade. Com a entrada em cena da nova equipa criativa, composta por Chris Claremont e John Byrne (sucedendo a Dave Cockrum), os pupilos do Professor X viveram uma fase áurea, que teve na Saga da Fénix Negra a sua coroa de glória.

vintagegeekculture: “Dave Cockrum. ”
A segunda geração de X-Men trouxe
 maior diversidade etnocultural à equipa.
Originalmente, porém, o fito da saga consistia tão-somente em introduzir a Fénix Negra como um némesis cósmico dos X-Men. A ideia fora amplamente discutida entre a equipa criativa e Jim Shooter - à época editor-chefe da Casa das Ideias - e fora esse o desenvolvimento narrativo aprovado.
Ao examinar as provas de X-Men nº135, Shooter constatou, porém, que a história incluía a obliteração de um sistema solar habitado, sendo explicitamente mencionado o perecimento de biliões de seres inteligentes.
Na opinião de alguns antigos colaboradores da Marvel, como Louise Simonson, terá sido o agastamento de Shooter com esta guinada narrativa que terá motivado o inopinado afastamento do então editor dos X-Men, Jim Salicrup.
Após questionar Salicrup sobre qual seria a evolução do enredo a partir daquele ponto, Shooter obteve como resposta que a história terminaria com Jean Grey despojada dos seus poderes pelo Império Shi'ar antes de ser entregue à custódia dos X-Men. Cenário que deixou Shooter duplamente desagradado: a sua discordância era tanto editorial como do foro moral.
No entendimento de Shooter, o final proposto equivaleria a permitir que Hitler continuasse a governar a Alemanha depois de ser desapossado da sua formidável máquina de guerra. Shooter não concebia que alguém responsável pela morte de milhões saísse impune; menos ainda que os X-Men pudessem acolher uma genocida nas suas fileiras.

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Jim Shooter, o mais jovem editor-chefe da história da Marvel,
vetou a primeira versão do final da saga.
Não lobrigando qualquer vestígio de amoralidade, Salicrup e Byrne ainda tentaram explicar a Shooter que Jean Grey não poderia ser condenada pelas suas ações enquanto Fénix Negra, porquanto se tratavam de duas entidades distintas. Segundo eles, seria como castigar a menina de O Exorcista pelos assassinatos cometidos enquanto estava possuída por um demónio.
Argumentos que esbarraram, contudo, na firme determinação de Shooter em vetar o desenlace proposto para a saga. Após uma releitura da mesma, Byrne e Salicrup foram forçados a concordar que, do ponto de vista dos leitores, em momento algum Jean Grey aparentava estar possessa.
Também Chris Claremont admitiu entretanto que, enquanto escrevia a história, nunca tinha clarificado para si mesmo se Jean Grey estava possuída pela Fénix Negra, ou se a entidade era uma perversa manifestação do seu subconsciente.

Seriam Jean Grey e a Fénix Negra
as duas faces da mesma moeda?
Numa conversa mantida com Claremont, Jim Shooter propôs um final alternativo, no qual Jean Grey ficaria eternamente aprisionada. Claremont contrapôs no entanto com a inviabilidade desse cenário, uma vez que os X-Men jamais desistiriam de resgatar a sua companheira de equipa.
Frustrado com as objeções suscitadas por Shooter, Claremont sugeriu então que Jean Grey fosse simplesmente morta. Julgando tratar-se de um bluff do escriba, que tal como ele estava bem ciente da regra inescrita da indústria dos quadradinhos que proíbe a morte definitiva de personagens importantes, Shooter avalizou a ideia.
Sem tempo a perder, as cinco páginas finais de X-Men nº137 foram totalmente reescritas e redesenhadas, por forma a acomodar o novo desfecho da saga. Quando, no clímax da peleja dos X-Men com a Guarda Imperial de Shi'ar, a persona da Fénix Negra se voltava a manifestar, Jean Grey, temendo perder definitivamente o controlo das suas ações, cometia suicídio.

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Apesar da sentença de morte proclamada na capa de X-Men nº137,
 era muito diferente o destino de Jean Grey na primeira versão da saga
Claremont aproveitou o ensejo para escrever um segundo rascunho da história original. Graças a essa sua decisão, foi possível, vários anos após o lançamento da saga, comparar as duas versões e identificar as significativas discrepâncias entre o final inicialmente proposto e aquele que foi apresentado aos leitores.
À guisa de exemplo, a versão original mostrava como, na véspera do embate decisivo com a Guarda Imperial, os X-Men se dedicavam aos seus próprios assuntos; ao passo que na oficial cada um deles meditava sobre a melhor forma de proteger Jean do fatídico destino que o Conselho Intergaláctico lhe pretendia impor.
Em 1984, o final original seria publicitado nas páginas de Phoenix: The Untold Story. Além da versão não-censurada de X-Men nº137, esse volume especial incluía ainda uma transcrição detalhada da mesa redonda em que Jim Shooter e a equipa criativa dos X-Men (na qual participou também o colorista Terry Austin) discutiam animadamente os motivos que justificaram as alterações impostas pelo primeiro.

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Phoenix: The Untold Story revelou o desfecho original da saga.

Ressurreição e redenção

Pouco tempo após a publicação de X-Men nº137, Kurt Busiek - futuro escritor premiado de banda desenhada à época ainda um jovem estudante universitário - ficou a par da condição sina qua non imposta por Jim Shooter para um hipotético regresso de Jean Grey ao mundo dos vivos.
Em coerência com o que estipulara anteriormente, o editor-chefe da Marvel apenas consideraria essa possibilidade se fosse encontrado um infalível expediente narrativo que garantisse, de forma inequívoca, a completa absolvição de Jean Grey pelas atrocidades cometidas enquanto Fénix Negra.
Tomando isso como um teste às suas capacidade de aspirante a escriba,  Busiek e dois compinchas - Carol Kalish (futura diretora de vendas da Marvel) e Richard Howell (futuro artista da aclamada minissérie Vision and The Scarlet Witch - decidiram trabalhar num cenário de ressurreição de Jean Grey que cumprisse o difícil pré-requisito estabelecido por Shooter.

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Kurt Busiek é hoje um dos alquimistas do verbo 
ao serviço da indústria dos comics.
Partiu de Busiek a ideia de que Jean Grey permanecera, afinal, em animação suspensa no fundo da Baía Jamaica - localizada na ponta sul de Long Island - desde o despenhamento do vaivém espacial que estivera na origem da sua transformação em Fénix (ver texto seguinte).
Ficando assim estabelecido que a Fénix era na verdade uma entidade senciente que gerara uma duplicata exata de Jean Grey para lhe servir de recetáculo orgânico. No entanto, quanto mais tempo a réplica passava longe da original, mais corrompida e irracional se tornava.
Em 1983, nos primórdios da sua prolixa carreira como escritor freelance, Kurt Busiek marcou presença numa convenção de quadradinhos nos arredores de Nova Iorque. Hospedado em casa de Roger Stern, argumentista da Marvel e seu amigo de longa data, Busiek apresentou-lhe casualmente a sua ideia para reviver Jean Grey sem outra expectativa que não animar o serão de ambos.
Stern ficou, no entanto, agradavelmente surpreendido com a proposta do amigo e não tardaria a partilhá-la com John Byrne, por esses dias escritor e ilustrador de Fantastic Four. Byrne também ficou impressionado com o que ouviu e, no início de 1985, quando Jim Shooter deu luz verde a uma nova série mensal que reuniria os X-Men fundadores, sugeriu a ideia de Busiek a Bob Layton, o escriba escalado para X-Factor. Este, por sua vez, apresentou-a a Jim Shooter que viu nela um deus ex machina.
Como que por magia, o que parecia um nó górdio acabou desatado pela engenhosidade de um amador. Absolvida dos hediondos crimes que lhe eram imputados, Jean Grey renasceu das próprias cinzas, já não como Fénix mas como uma das mais acarinhadas heroínas da Casa das Ideias.

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Absolvida dos seus pecados,
Jean Grey regressou do Além em X-Factor nº1 (1986).
Sinopse

De regresso à Terra após uma missão no espaço com os demais X-Men, Jean Grey é exposta a uma dose potencialmente letal de radiação solar. No entanto, não só sobrevive ao incidente como atinge o auge das suas habilidades telepáticas e telecinéticas.
Transformada num ser de pura energia psiónica, Jean assume Fénix como sua nova identidade. É com esse imenso poder que a jovem mutante repara o fraturado Cristal M'Kraan (ver texto seguinte) antes de tomar medidas para restringir as suas recém-adquiridas habilidades, por forma a mantê-las sob controlo.

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A ascensão da Fénix.
Não obstante, o vasto potencial da Fénix atrai a atenção do Mestre Mental. O membro fundador da Irmandade de Mutantes está empenhado em ser admitido no Círculo Interno do Clube do Inferno, uma poderosa sociedade secreta com planos de dominação mundial.
Sob o pseudónimo Jason Wyngarde, o antigo aliado de Magneto começa a seduzir Jean Grey quando esta visita a Ilha Muir, ao largo da costa escocesa. Graças a um sofisticado dispositivo mental inventado por Emma Frost. a Rainha Branca do Clube do Inferno (3), Wyngarde começa a projetar as suas ilusões diretamente na psique de Jean.
Este processo induz Jean a acreditar estar a reviver as memória de Lady Grey, sua pretensa antepassada da época vitoriana e ex-Rainha Negra do Clube do Inferno. Em resultado disso, Jean acaba por assumir integralmente a identidade de Rainha Negra, cuja moralidade decadente lhe permite deleitar-se com os jogos lúbricos de Wyngarde e as conjuras dos restantes Lordes Cardinais.
Gradualmente, as barreiras psíquicas que Jean erguera para conter o poder da Fénix começam a enfraquecer, dando vazão uma personalidade cada vez mais devassa.
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Como Rainha Negra do Clube do Inferno,
 Jean Grey exulta com a derrota dos seus ex-aliados.
Traídos pela sua antiga companheira, os X-Men são capturados e torturados pelo Clube do Inferno. Ciclope, o verdadeiro dono do coração de Jean Grey, trava então um duelo psíquico com Jason Wyngarde. Quando este mata o avatar de Ciclope, perde o controlo sobre a mente de Jean. Num ápice, assiste-se à majestosa irrupção da Fénix.
Tal nível de poder é, porém, avassalador para a mente fragilizada de Jean, que assim passa a responder por Fénix Negra.
Enraivecida pelas manipulações do Mestre Mental, a Fénix Negra gera uma ilusão telepática que o faz experimentar brevemente a divindade, levando o vilão à loucura.
A fim de cortar a sua ligação com Jean Grey, a Fénix Negra sobrepuja os X-Men antes de partir para uma galáxia distante. Descobrindo durante essa jornada através dos rincões do espaço que o seu poder é, afinal, menos ilimitado do que ela imaginara.
Exaurida pelo esforço, a Fénix Negra consome a energia de uma estrela, causando uma supernova que dizima o único planeta habitado daquele sistema solar. Biliões de seres são instantaneamente reduzidos a cinzas.

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Uma estrela serve de repasto à Fénix Negra.
A deflagração atrai a atenção de um cruzador Shi'ar que, para proteger outros planetas habitados próximos, abre fogo sobre a Fénix Negra. Esta pulveriza facilmente a nave, mas não sem antes o respetivo comandante alertar a Majestrix Lilandra da presença da entidade cósmica nas fronteiras do Império Shi'ar.
É então convocado de emergência um Conselho Intergaláctico - que além do Império Shi'ar reúne também os impérios Kree e Skrull -, cujos membros concluem que a ameaça representada pela Fénix Negra é superior ao próprio Galactus, o Devorador de Mundos. Dessa análise resulta a necessidade de destruir de imediato a criatura.
Entrementes, na Terra, os X-Men são recebidos pelo Fera (membro fundador da equipa atualmente ao serviço dos Vingadores) que se prontifica a ajudá-los na busca por Jean Grey.
A Fénix Negra regressa entretanto ao nosso planeta. De visita à casa onde cresceu, Jean Grey sente-se dividida entre o amor pelos seus entes queridos e os impulsos destrutivos do seu novo alter ego.
Chegados ao local, os X-Men tentam, em vão, deter a Fénix Negra. No decurso de um violento duelo telepático, o Professor X consegue criar no entanto um novo conjunto de travas psíquicas capazes de conter - pelo menos temporariamente - o poder da Fénix Negra. O suficiente, ainda assim, para que a personalidade de Jean Grey prevaleça sobre a da entidade a que vinha servindo de hospedeira.
Sem tempo para comemorações, os X-Men são abduzidos pelos Shi'ar e por eles informados do genocídio causado pela Fénix Negra. Crimes pelos quais Jean será condenada à morte.

Os X-Men têm o seu primeiro encontro imediato com o Império Shi'ar.
Numa tentativa desesperada de salvar a vida da sua pupila, o Professor X desafia a Majestrix Lilandra para o Arin'n Haelar, um duelo de honra Shi'ar que não pode ser recusado. Após consulta prévia aos restantes membros do Conselho Intergaláctico, a soberana acede ao pedido do mentor dos X-Men.
No dia seguinte, os X-Men e a Guarda Imperial Shi'ar (ver O Império contra-ataca) são teletransportados para o Lado Oculto da Lua terrestre, onde travarão uma batalha cujo resultado final decidirá o destino de Jean Grey. Se os Filhos do Átomo saírem vencedores, Jean viverá; se perderem, a vida da sua companheira terá os minutos contados.
Com a maior parte dos seus companheiros de equipa tombados, restam apenas Ciclope e Jean Grey para suster a investida final da Guarda Imperial.
Ao testemunhar a aparente morte do seu amado, Jean entra em pânico, permitindo o ressurgimento da Fénix Negra.
Lilandra ordena de imediato o acionamento do Plano Ómega, o qual consiste em destruir todo o nosso sistema solar, na esperança de eliminar a Fénix Negra no processo. Em desespero, Xavier ordena aos seus X-Men que subjuguem Jean, de modo a impedir que tão extrema medida seja tomada.
A meio de uma encarniçada refrega entre a Fénix Negra e os X-Men, Jean consegue recuperar momentaneamente o controlo das suas ações. Adentrando rapidamente nas estruturas alienígenas existentes no Lado Oculto da Lua, usa uma antiga arma Kree para cometer suicídio perante o olhar estarrecido de Ciclope, de quem antes se despede de forma emocionada.
Devastado pela perda do amor da sua vida, Ciclope deduz que Jean planeara sacrificar-se desde o momento em que pisara a superfície lunar.
Testemunha silenciosa dos trágicos acontecimentos, o alienígena conhecido como Vigia, faz notar que Jean poderia ter vivido como uma deusa, mas preferiu morrer como uma humana.

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O último adeus de Jean Grey ao seu grande amor.

O fogo purificador do Universo

Entidade cósmica quase tão antiga como a própria Criação, a Força Fénix representa a força primordial da vida por nascer. Serve também de catalisador a toda a energia psiónica do Universo, que detém o poder de destruir total ou parcialmente.
Esse é, aliás, o propósito do implacável Julgamento da Fénix: expurgar pelo fogo o que não funciona. Com algumas das suas mais recentes intervenções a sugerirem que os seus alvos preferenciais são todas as coisas que estagnaram, comprometendo dessa forma a evolução natural.
Aparentemente, o incomensurável poder da Força Fénix atinge o seu ápice quando a entidade se encontra vinculada a Jean Grey. Apesar de não ter sido a primeira a servir-lhe de veículo, a terráquea provou ser o mais compatível dos seus avatares.

A Força Fénix é uma das mais poderosas entidades do Universo.
Jean Grey é, com efeito, o que de mais parecido com um corpo físico a Força Fénix alguma vez possuiu. Permanecendo, porém, por apurar qual a verdadeira origem de tão profunda conexão entre ambas. Uma das hipóteses aventadas relaciona-a com o facto de Jean ser uma telepata nível ómega (o mais elevado na escala usada para medir esse tipo de poder). Tal como a sua hospedeira humana, a Força Fénix faz uso da telepatia e da telecinesia, embora a um nível divino. Que lhe permite, entre outras proezas, viajar a hipervelocidade através do espaço sideral ou modificar a estrutura molecular da matéria.
A Força Fénix é também a guardiã do Cristal M'Kraan, o Nexo de Todas as Realidades e uma espécie de cifão que impede o Universo de ser tragado por um buraco negro.
Segundo uma ancestral lenda Shi'ar, o planeta que acolhia o Cristal M'Kraan terá sido o primeiro a formar-se em todo o Universo e seria tão antigo como o Tempo. Desde que foi descoberto esse mundo encontra-se sob a égide do poderoso Império Shi'ar (vide texto seguinte).
Criação de Chris Claremont e Dave Cockrum, a Força Fénix fez a sua primeira aparição em outubro de 1976, nas páginas de X-Men nº101. Vale a pena lembrar que na mitologia greco-latina a Fénix era uma ave capaz de renascer das próprias cinzas, característica que a converteu num símbolo universal de regeneração e imortalidade.

O Império contra-ataca

Seguindo uma agressiva doutrina expansionista de cunho religioso, o Império Shi'ar estende o seu domínio por diversas galáxias. Para fortalecer a sua própria, os Shi'ar assimilam - se necessário, pela força das armas - as culturas dos povos conquistados.
A partir de Chandilar, o mundo-trono, um regime autocrático encabeçado por um Majestor ou uma Majestrix governa com pulso de ferro uma miríade de planetas. Na Terra, porém, apenas um grupo muito restrito de indivíduos tem conhecimento da existência do Império Shi'ar, apesar de os destinos do Universo serem frequentemente decididos pelos seus regentes.


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Lilandra, Majestix do Império Shi'ar.

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A Guarda Imperial protege o Cristal M'Kraan.
Gladiador, antigo comandante da Guarda Imperial, é o atual Majestor, tendo sucedido a Lilandra, que ocupava o trono aquando dos eventos narrados na Saga da Fénix Negra.
Formada originalmente para deter Rook'shir, o primeiro hospedeiro da Força Fénix, a Guarda Imperial agrupa os mais formidáveis campeões do Império Shi'ar. Os seus membros são assumidos pastiches de algumas das figuras de charneira da Legião dos Super-Heróis, da DC. Ao passo que o Gladiador foi claramente inspirado no Super-Homem.
Tanto o Império Shi'ar como a Guarda Imperial foram conceitos desenvolvidos por Chris Claremont e Dave Cockrum, tendo feito as suas estreias, respetivamente, em X-Men nº97 (fevereiro de 1976) e X-Men nº107 (outubro de 1977).

Apontamentos

*Banshee, o mutante irlandês que tal como o ente da mitologia celta que lhe dá nome possui um grito supersónico, abandonou os X-Men no capítulo inicial da saga devido aos danos infligidos meses antes às suas cordas vocais;
*Dos cinco X-Men fundadores, apenas Homem de Gelo não participa na saga;
*Cristal e Kitty Pryde (que mais tarde responderia por Ninfa e Lince Negra) foram as duas novas heroínas mutantes introduzidas no decorrer da saga. Embora tenham ambas passado pelo Instituto Xavier, apenas a segunda aceitou inicialmente o convite para se juntar aos X-Men. A Kitty estaria, de resto, reservado papel fundamental em Dias de um Futuro Esquecido, outra das histórias antológicas dos Filhos do Átomo;
*Em homenagem à capa de X-Men nº56 (na qual o Monólito Vivo surgia em pose idêntica), no frontispício de X-Men nº135 a Fénix Negra segura o respetivo logótipo, desta feita com força suficiente para rachá-lo - assim permanecendo na edição seguinte. Mais icónica do que a original, a capa em questão seria, por seu turno, várias vezes homenageada ao longo dos anos;

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A capa original e aquela que se tornaria icónica.
*As estruturas no Lado Oculto da Lua mostradas em X-Men nº137 serviriam, muitos anos depois, de base a Apocalipse, o autoproclamado primeiro mutante;
*Precedendo em dois anos a Morte do Capitão Marvel, a Saga da Fénix Negra mostrou pela primeira vez a morte de uma grande figura heroica da Casa das Ideias;
*Por se encontrar conectada à psique de Jean Grey, a Força Fénix mantinha igualmente um vínculo telepático com Ciclope, conhecendo desse modo cada pensamento e emoção do líder dos X-Men;
*1956 é a data de nascimento inscrita na lápide de Jean Grey, que assim teria 24 anos aquando do seu falecimento;
*Coube a Tempestade assumir o comando dos X-Men após a partida de Ciclope no epílogo da saga, estatuto que a Rainha dos Ventos conservaria mesmo depois do regresso do ex-líder.


Noutros media

Já por diversas vezes transposta ao segmento audiovisual, a Saga da Fénix Negra começou por ser adaptada ao pequeno ecrã. Em X-Men, série animada dos anos 90, a história exorbitou pela primeira vez os quadradinhos.
Apesar das muitas nuances, esta continua a ser, até ao momento, a adaptação mais fiel da obra original. Por contraste com as versões apresentadas em X-Men: Evolution e Wolverine and the X-Men, ambas misturando elementos de outras histórias emblemáticas dos Filhos do Átomo, como Dias de um Futuro Esquecido ou Massacre de Mutantes.
No cinema. a Saga da Fénix Negra foi subtilmente referenciada pela primeira vez em X-Men 2 (2003). Após salvar os seus camaradas de uma morte por afogamento, Jean Grey é engolida por uma gigantesca massa de água. Na superfície do Lago Alkali surge entretanto uma imagem sombreada que invoca uma fénix.
Premissa que seria desenvolvida no enredo de X-Men 3: O Confronto Final (2006), o qual contém vários elementos retirados da Saga da Fénix Negra, incluindo uma versão light da própria. No filme, a Fénix Negra é uma faceta obscura e reprimida da personalidade de Jean Grey. O seu nível de poder é, no entanto, muito inferior ao da sua contraparte canónica.

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Famke Janssen deu corpo à Fénix Negra
 em X-Men 3: O Confronto Final.
Na batalha final contra En Sabah Nur, em X-Men: Apocalipse (2014), o Professor Xavier encoraja Jean a libertar o seu pleno potencial. Quando a jovem o faz, é envolta por uma aura incandescente com a forma de uma fénix.
Com data de estreia prevista para fevereiro do próximo ano, Dark Phoenix - o próximo capítulo da franquia dos X-Men - propõe-se revisitar aquela que é uma das obras capitais da Marvel. A mesma Marvel que, por ter entretanto recuperado os direitos cinematográficos dos X-Men, poderá não estar interessada em que a película veja a luz do dia.
Alguns boatos postos a circular recentemente na Internet dão conta da intenção dos Estúdios Marvel  em cancelar o lançamento do filme. A confirmar-se este cenário, ainda não será desta que veremos o voo da Fénix no cinema...

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SophieTurner como Fénix Negra no poster promocional
 de um filme que poderá nunca chegar aos cinemas.

Vale a pena ler?

Sem receio de cair no exagero, considero a Saga da Fénix Negra não só a melhor história dos X-Men de todos os tempos  mas também um dos maiores épicos da Nona Arte. Por contraponto a outras narrativas que se encaixam nessa admirável categoria - Watchmen, Reino do Amanhã, O Regresso do Cavaleiro das Trevas... - não foi, todavia, necessário reinventar os comics para que ela se tornasse possível.
Com uma carga dramática de proporções shakespearianas, a Saga da Fénix Negra é igualmente uma alegoria para os perigos do poder e a sua natureza sedutora. Uma epopeia cósmica com coadjuvantes de luxo: a melhor formação dos X-Men, o Clube do Inferno e o Império Shi'ar. Isto porque, em bom rigor, é Jean Grey - quer na sua forma humana, quer como entidade omnipotente - a única e verdadeira protagonista de uma história que deu todo um novo significado ao velho aforismo "poder absoluto corrompe absolutamente". Mas que é, também, uma pungente lição de humanismo, pois perante de possibilidade de ascender à divindade, Jean Grey prefere preservar a sua humanidade por meio da autoimolação.
A obra foca-se também na caracterização clássica de cada um dos X-Men: Ciclope, o líder estoico, vê-se forçado a lutar contra a mulher que ama, dilacerado pelo dilema de seguir o seu coração ou ouvir a voz da razão; Tempestade assume-se simultaneamente como figura maternal de Kitty Pryde e como uma irmã para Jean Grey, recusando-se a aceitar a sua corrupção; Wolverine, já então o mais carismático dos membros da equipa, tem oportunidade de brilhar quando é chamado a enfrentar por conta própria o Clube do Inferno; Colossus, o bom gigante com alma de artista, é atormentado pelas escolhas difíceis com que se depara; a Noturno, como habitualmente, cabe providenciar algum alívio cómico.
Se gostariam de conhecer um pouco melhor os X-Men, mas ficam intimidados com a sua anárquica cronologia, na Saga da Fénix Negra - imune ao gradual processo de oxidação -  encontrarão todos os ingredientes que fizeram dos Filhos do Átomo uma receita de enorme sucesso.

Um clássico para a eternidade.


1) https://bdmarveldc.blogspot.com/2013/03/eternos-chris-claremont-1950.html

2) https://bdmarveldc.blogspot.com/2015/01/eternos-john-byrne-1950.html 

3) https://bdmarveldc.blogspot.com/2018/03/galeria-de-vilas-rainha-branca.html


4) https://bdmarveldc.blogspot.com/2014/05/bd-cine-apresenta-x-men-3-o-confronto.html





quinta-feira, 12 de julho de 2018

RETROSPETIVA: «JUSTICEIRO - ZONA DE GUERRA»



  Nesta sua terceira ofensiva  cinematográfica -  a primeira sob o estandarte Marvel Knights - o mais implacável dos anti-heróis venceu a batalha contra um dos seus arqui-inimigos mas perdeu a guerra das bilheteiras. Polémico e violento como o seu protagonista, o filme pagou o preço de ter sido feito a pensar nos fãs.

Título original: Punisher: War Zone 
Ano: 2008
País: EUA e Canadá
Duração: 103 minutos
Género: Ação
Produção: Lionsgate e Valhalla Motion Pictures
Realização: Lexi Alexander
Argumento: Art Marcum, Matt Holloway e Nick Santora
Distribuição: Lionsgate Films e Marvel Studios
Elenco: Ray Stevenson (Frank Castle / Justiceiro), Dominic West (Billy Russotti / Retalho), Julie Benz (Angela Donatelli), Colin Salmon (Paul Budiansky), Doug Hutchison ( James Russotti), Dash Mihok (Martin Soap) e Wayne Knight (Linus Lieberman  / Microship)
Orçamento: 35 milhões de dólares
Receitas: 10,1 milhões de dólares

A sequela que virou reboot

Em fevereiro de 2004, dois meses antes da chegada aos cinemas de The Punisher, a Lions Gate Entertainment  surpreendeu meio mundo ao anunciar a sua intenção de produzir uma sequela. Avi Arad, presidente-executivo dos Estúdios Marvel, chegou mesmo a vangloriar-se de que essa seria a quinta franquia cinematográfica baseada na mitologia da Casa das Ideias.
Também o realizador Jonathan Hensleigh sinalizou o seu interesse em dirigir o segundo capítulo da saga do Justiceiro no grande ecrã. Personagem que Thomas Jane se mostrara entretanto disponível para voltar a encarnar. Numa entrevista concedida, por aqueles dias, a uma publicação especializada, o ator chegou mesmo a confidenciar que The Punisher 2 teria o Retalho como vilão principal.
Contudo, por conta da dececionante prestação de The Punisher, o projeto para a realização de uma sequência direta seria deixado em banho-maria nos três anos seguintes. Período durante o qual Jonathan Hensleigh escreveu um primeiro rascunho do guião, que deixou para trás quando resolveu bater com a porta, em meados de 2006.
Nesse mesmo ano, John Dahl foi sondado para ocupar a vaga deixada por Hensleigh, mas as negociações não chegaram a bom porto. Ao que consta, o realizador terá ficado desagradado com a fraca qualidade do enredo, e mais ainda com a recusa dos produtores em abrirem os cordões à bolsa.
Meses depois, em maio de 2007, Thomas Jane seguiria as pisadas de Dahl, invocando os mesmíssimos motivos. Com efeito, após ler o novo guião, da autoria de Kurt Sutter, o ator teve o seguinte desabafo no decorrer de uma entrevista radiofónica: "Aquilo que eu nunca farei é desperdiçar meses da minha vida a dar o litro por um filme em que não acredito. Adoro os tipos da Marvel e desejo-lhes as maiores felicidades. Entretanto, continuarei à procura de projetos que não me venham a causar embaraços no futuro." 
Poucas semanas volvidas sobre estas declarações de Jane, os Estúdios Marvel anunciaram os nomes do novo realizador e do novo ator principal: respetivamente, Lexi Alexander (uma jovem cineasta germânica) e Ray Stevenson (ator nascido na Irlanda do Norte que, até aí, apenas numa ocasião fora cabeça de cartaz). De caminho foi ainda anunciado que o filme não seria afinal uma sequela, mas sim um relançamento da franquia do Justiceiro.

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Ray Stevenson e Lexi Alexander foram os eleitos
 para dar um novo elã ao Justiceiro.
Esta seria, de facto, a segunda tentativa nesse sentido, na medida em que The Punisher fora, também ele, um reboot da longa-metragem homónima de 1989, protagonizada por Dolph Lundgren.
Provisoriamente intitulado Punisher: Welcome Back, Frank, o projeto seria entretanto renomeado de Punisher: War Zone. Com a respetiva rodagem a ter lugar na cidade canadiana de Montreal, entre outubro e dezembro de 2007.
A estreia, essa, ficou agendada para 12 de setembro de 2008. O filme acabaria, no entanto, por chegar aos cinemas norte-americanos apenas três meses depois, em dezembro desse mesmo ano. Somada a esse inopinado adiamento, a ausência de Lexi Alexander na ComicCon de San Diego aquando da divulgação do primeiro trailer oficial de Punisher: War Zone deu azo a rumores acerca de uma eventual demissão da realizadora, o que a própria se apressaria a desmentir.
Numa entrevista concedida em 2015, Lexi Alexander reconheceu terem havido, no entanto, conflitos criativos com a Lionsgate e que não foi da sua responsabilidade a edição final da película. Não obstante, a realizadora declarou-se muito feliz com a sua obra e desvalorizou as reações adversas que a mesma suscitou por parte do público e da crítica. "Foi o preço a pagar por ter honrado o meu compromisso de fazer um filme a pensar nos fãs", atalhou Alexander.
Punisher: War Zone teve ainda a particularidade de ser o primeiro filme a ostentar o selo Marvel Knights. À semelhança do que já acontecia na banda desenhada, a ideia era apostar em personagens menos conhecidas e em temáticas vocacionadas para uma audiência madura. Em 2012, Ghost Rider 2 seria a segunda - e, até à data, última - produção emanada desse projeto.


Retalho, as cicatrizes do ódio

Um dos mais antigos e perigosos inimigos do Justiceiro, Retalho fez a sua estreia em outubro de 1976, nas páginas de Amazing Spider-Man nº161. Len Wein e Ross Andru foram os seus criadores e crismaram-no originalmente de Jigsaw por ser esse o nome dado em inglês aos quebra-cabeças cujas peças, quando corretamente encaixadas, formam uma imagem. Processo em tudo semelhante àquele que os cirurgiões levaram a cabo para reconstruir a face estraçalhada do vilão após o seu dramático confronto com Frank Castle.
Antes da sua transformação em Retalho, Billy Russo era um brutal assassino ao serviço do sindicato internacional do crime conhecido como Maggia. Devido à sua boa aparência, Billy fora alcunhado pelos seus pares de O Belo, sendo também um dos sicários de eleição do poderoso clã Costa. Foi precisamente nessa sua qualidade que Billy teve participação indireta no massacre da família de Frank Castle, que testemunhara acidentalmente a execução sumária de membros de um clã rival dos Costas.

Billy Russo (Earth-616) from Punisher Year One Vol 1 4 001

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Em cima: Billy Russo antes
 da sua horrivel transformação no Retalho.

Após uma tentativa falhada de liquidar o Justiceiro, Billy foi por ele confrontado num clube noturno e acabou por atravessar de cabeça um enorme painel de vidro. Apesar de ter sobrevivido aos graves ferimentos infligidos, Billy teve o seu rosto horrivelmente desfigurado.
Mais sádico do que nunca, Billy passou a responder apenas por Retalho e a usar a sua hedionda aparência para aterrorizar as suas vítimas. Jurou também vingar-se do Justiceiro e em diversas ocasiões ficou muito perto de consumar esse desejo.
Além de ser um atirador exímio e um assassino de sangue-frio, Retalho possui também uma extraordinária tolerância à dor, que faz dele um osso duro de roer em combates mano a mano.

 Microchip, o (in)fiel escudeiro tecnológico

Criação de Mike Baron e Klaus Janson, Microchip foi introduzido nas histórias do Justiceiro em The Punisher Vol.1 nº4 (novembro de 1987).
De seu nome verdadeiro David Linus Lieberman, Microchip foi em tempos engenheiro de armamento e é um prodígio da informática. Atributos que foram de grande valia para um Justiceiro em início de carreira, de quem Microchip se tornou uma espécie de escudeiro tecnológico na sua sangrenta cruzada contra o crime.
Originalmente, Microchip era apenas o sujeito a quem Frank Castle recorria sempre que necessitava de algum tipo de equipamento especial para executar uma missão. Após a morte do seu filho, David Lieberman assumiu, porém, um papel mais ativo na guerra privada do Justiceiro contra a Máfia nova-iorquina.

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Microchip foi o que de mais parecido
 com um amigo o Justiceiro alguma vez teve.
Sem nunca negligenciar a componente logística, Microship usava simultaneamente os seus talentos informáticos para, entre outras coisas, piratear os servidores da Máfia ou para branquear o dinheiro confiscado pelo Justiceiro a narcotraficantes.
Mesmo sem possuir o sangue-frio de Castle, foi Microchip quem, em vários momentos, impediu o colapso emocional do Justiceiro. Quando este ficou descontrolado e embarcou numa espiral mortífera, Microchip manteve-o em quarentena e arranjou um substituto para patrulhar as ruas de Nova Iorque.
Por mais bem-intencionadas que tenham sido as ações do seu aliado, aos olhos do Justiceiro tratou-se de uma traição imperdoável. Sentimento que nem a morte de Microchip  às mãos de um bandido amenizou.
Estava prevista a participação de Microchip no anterior filme do Justiceiro com Thomas Crane (já aqui esmiuçado), mas a antipatia visceral do realizador Jonathan Hensleigh pela personagem ditou a sua exclusão da versão final do enredo.

Sinopse

Há cinco anos que o Justiceiro vem travando uma guerra sem quartel contra as famílias mafiosas de Nova Iorque. E, como em qualquer guerra, os danos colaterais são inevitáveis.
Certa noite, depois de invadir o palacete do "padrinho" Gaitano Cesare e de chacinar todos os seus asseclas e convidados, o Justiceiro mata por engano um agente infiltrado do FBI chamado Nicky Donatelli.
No meio do caos instalado, Billy "O Belo" Russotti, um dos lugares-tenentes de Cesare, consegue escapar com vida. O Justiceiro parte de imediato no seu encalço, acabando por encurralá-lo numa fábrica de reciclagem.
Após um breve tiroteio, Billy cai numa gigantesca moedora de vidro. Sem pestanejar, o Justiceiro aciona o mecanismo e Billy, apesar de sobreviver, tem o seu rosto retalhado.

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A última ceia do clã Cesare.
Agora rebatizado de Retalho, Billy e os seus homens libertam o mais novo dos irmãos Russotti, que se encontrava trancafiado num hospício devido aos seus atos de canibalismo.
Enquanto isso, o agente Paul Budiansky, ex-parceiro de Nicky Donatelli, junta-se ao Destacamento Especial da Polícia de Nova-Iorque que tem como missão capturar o Justiceiro. Com a ajuda do detetive Martin Soap (o outro único membro do referido destacamento), Budiansky começa a investigar o passado de Frank Castle ficando atónito com as centenas de mortes com assinatura do Justiceiro.
Consternado com a morte de Donatelli, o Justiceiro procura, em vão, reparar a perda sofrida pela viúva e pela filha do agente. As trágicas consequências das suas falhas levam-no a querer colocar um ponto final na sua campanha contra o crime organizado, mas é demovido de fazê-lo por Microchip, o seu braço-direito.
Retalho e a sua trupe invadem a casa da família Donatelli e raptam a viúva e a filha do agente acidentalmente assassinado pelo Justiceiro. Quando este se prepara para resgatá-las é detido pelo agente Budiansky. É, contudo, ajudado a fugir pelo detetive Soap e consegue libertar as reféns. Os irmãos Russotti são, entretanto, presos por Budiansky.

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Habituado a rir-se da Justiça,
Retalho aprendeu a não se rir do Justiceiro.
Depois de negociarem com o FBI a sua imunidade total em troca de informações acerca de um carregamento biológico encomendado pela Máfia russa, os irmãos Russotti saem em liberdade e não perdem tempo em vingar-se do Justiceiro.
Os dois invadem o esconderijo do Justiceiro onde se encontravam refugiadas a mulher e a filha do agente Donatelli e voltam a sequestrá-las, assim como a Microchip. O grupo serve de engodo para atrair o Justiceiro para uma cilada montada com a ajuda de várias quadrilhas com contas a ajustar com Castle.
Por entre uma intensa chuva de balas, o Justiceiro consegue tomar de assalto um dos pisos do hotel onde Retalho e seus aliados se encontram acantonados, deixando uma pilha de cadáveres à sua passagem.
Após um violentíssimo combate corpo a corpo com o irmão de Retalho, o Justiceiro vê-se perante um dilema: salvar a vida de Microchip ou das reféns.
Quando Retalho mata Microchip com um tiro na cabeça, o Justiceiro investe furiosamente sobre o vilão, acabando por trespassá-lo com uma vara metálica antes de atirar o seu corpo moribundo para o meio das labaredas que consumiam o vestíbulo do hotel.
Perdoado pela viúva de Donatelli, o Justiceiro arrepia caminho acompanhado pelo detetive Soap que o tenta convencer a pôr fim à sua carreira como vigilante urbano. Soap muda, no entanto, rapidamente de ideias ao ser abordado por um assaltante armado, o qual é prontamente ceifado por um tiro certeiro do Justiceiro.

Trailer



Curiosidades

*Para estar à altura de um papel tão exigente no capítulo físico, Ray Stevenson submeteu-se a um rigoroso programa de treino militar ministrado pelos Fuzileiros Navais dos EUA;
*Da boca de Ray Stevenson não sai uma única palavra nos primeiros 25 minutos do filme. No restante tempo, o ator improvisou várias falas graças ao seu profundo conhecimento das histórias originais do Justiceiro que serviram de base ao enredo;
*Martin Soap, o detetive da polícia nova-iorquina aliado de Castle, é uma personagem retirada de Welcome Back, Frank, série que em abril de 2000, após um longo hiato, marcou o regresso do Justiceiro aos quadradinhos pela mão da dupla criativa Garth Ennis e Steve Dillon, Já Paul Budiansky, o agente do FBI apostado em capturar o Justiceiro, fora introduzido em 2007 na saga Widowmaker inclusa no sétimo volume de The Punisher;
*Palco do confronto final entre o Justiceiro e Retalho, o Hotel Bradstreet é uma homenagem a Timothy Bradstreet, um dos mais aclamados capistas de The Punisher;

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Justiceiro sob o traço de Tim Bradstreet.
*Dominic West despendia diariamente três horas na sala da caracterização: duas para colocar as próteses faciais do Retalho, e outra para removê-las. Experiência que, em entrevistas posteriores, o ator jurou não mais querer repetir;
*À semelhança do Joker em Batman (1989), Billy Russotti é um gângster psicótico que, depois de ficar desfigurado, assume o comando do clã mafioso para o qual trabalhava. A par de Sin City (2005), especula-se que o filme do Cavaleiro das Trevas dirigido por Tim Burton poderá ter sido uma das principais referências para Punisher: War Zone;
*Ex-campeã de karaté e ex-dupla de cinema, a realizadora Lexi Alexander participou, lado a lado com Ray Stevenson, nos treinos de tiro ao alvo sob a orientação de um ex-instrutor das Forças Especiais norte-americanas;
*Mais de 120 armas de diferentes tipos foram utilizadas na rodagem do filme, ao longo do qual o Justiceiro é responsável por 81 mortes;
*Por considerá-lo pueril, Lexi Alexander pretendia descartar o símbolo da caveira na indumentária do Justiceiro. Enfrentou. contudo, a feroz oposição dos fãs que, ao invés, exigiam que o símbolo fosse mais percetível do que no filme anterior. O resultado final foi uma caveira esbatida, em tudo semelhante àquela que, quatro anos antes, Thomas Jane ostentara em The Punisher;
*A par da trilogia de Blade, The Punisher: War Zone é um dos poucos filmes baseados no panteão da Marvel que não contam com uma pequena participação de Stan Lee. Isto porque o antigo mestre-de-cerimónias da Casa das Ideias não teve qualquer envolvimento na conceção do Justiceiro (criado em 1974 por Gerry Conway, John Romita Sr. e Ross Andru);
*Na cena final do filme, quando o detetive Soap está a tagarelar sozinho e é abordado por um assaltante armado num parque fronteiro a uma igreja, o letreiro de néon onde se podia ler "Jesus Saves" ("Jesus Salva") apaga-se parcialmente, deixando apenas visível a palavra "Saves", quando o Justiceiro abate o meliante que intimidava o seu amigo.

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Anjo vingador.

Veredito: 60%

Desde que, na viragem do milénio, os grandes estúdios de Hollywood perceberam enfim o enormíssimo potencial monetário e as imensas possibilidades de experimentação no campo das adaptações de super-heróis ao cinema, os espectadores têm sido brindados com sucessivas levas desse material.
Uma grande percentagem dessas obras pouco ou nada acrescenta, porém, à cultura cinematográfica. Quanto muito, limitam-se a servir generosas doses de alienação. Não obstante, se olharmos para lá dos compromissos sociais e políticos e das viciadas abordagens puramente ideológicas, poderemos identificar algumas de apurada constituição formal e estética, embora quase nunca narrativa.
Vejam-se, a título exemplificativo, os visualmente estupendos Sin City (2005) e Watchmen (2009). De permeio surgiu, por entre balas, sangue e violência extrema, este Justiceiro - Zona de Guerra, o terceiro - e, na minha modesta opinião, o melhor - filme baseado naquele que é um dos mais carismáticos e controversos anti-heróis da banda desenhada.
Sob a competente batuta de Lexi Alexander, a película mostra elementos inovadores, abordados com menor intensidade ou até mal trabalhados em produções anteriores, os quais terão sido diminuídos por uma filosofia em que as questões morais prevaleciam. Ora, é precisamente neste ponto que Justiceiro - Zona de Guerra se assume como revolucionário ao apresentar um Frank Castle decalcado dos quadradinhos e, logo, intrinsecamente amoral.
Tal como o Motoqueiro Fantasma ou Spawn, o Justiceiro é o epítome de um anti-herói exterminador que, apesar de alguns resquícios de humanidade, é implacável com aqueles que considera culpados.
Em harmonia com essas suas idiossincrasias de viés fascizante, tanto o protagonista como o filme, mercê do seu conteúdo ideológico, são rancorosos, amorais e insaciáveis de sangue. O princípio da ação pela situação é, assim, a linha-mestra no desenvolvimento narrativo. Com a história a assentar em três vetores: o trágico passado de Frank Castle, o sadismo de Retalho e a precária relação do Justiceiro com a família da sua vítima inocente.
O argumento é, pois, de uma simplicidade quase desconcertante: um homem, ao ter a sua família assassinada, busca vingança matando qualquer criminoso que lhe cruza o caminho. Apesar dessa premissa básica, a hábil direção de Lexi Alexander evita as armadilhas em que normalmente caem filmes de registo idêntico. Isto ao mesmo tempo que pisca o olho a grandes clássicos de ação dos anos 1980, como Rambo ou  Exterminador Implacável.
Mesmo que não se lhe reconheçam outros méritos, Justiceiro - Zona de Guerra é a prova provada que os filmes de ação e violência baseados nos comics atraem um público muito específico. Isto, porém, tem o seu preço: o inevitável apocalipse nas bilheteiras.
Sem esquecer, no entanto, que é deste material de risco que é feito o cinema contemporâneo onde a originalidade é um bem cada vez mais escasso. Talvez, por isso, o futuro deste tipo de adaptações passe, não pelos grandes estúdios, mas por produções independentes.
Se são fãs do Justiceiro e, por descaso ou preconceito, ainda não viram este filme, façam um favor a vocês mesmos: ignorem as críticas corrosivas que o fizeram naufragar e vejam-no. Quem sabe não ficarão agradavelmente surpreendidos como eu fiquei?

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